APRENDER A NADAR

Sem mar na minha terra, sentia muita falta dele. Queria saber o que havia se mergulhasse vinte mil léguas submarinas, os corais, os peixes coloridos, os pequenos monstros que não nadavam, andavam. Aquelas lagostas enormes, camarões pitu. Ouvia as canções de Caymmi em discos de 78 rotações que o meu pai colocava na vitrola, enquanto fazia a macarronada do domingo. Imaginava que era doce morrer no mar, e o mar quando quebrava na praia, era bonito, sim era bonito. Uma vez por ano víamos o mar, mar de Copacabana, nas férias de verão. O meu pai nem bem tinha chegado já contava aquela piada de mineiro, a cada janeiro: “Encher isso d’água não foi nada, o difícil foi sargá isso tudo”. Menino ainda, devorei O Velho e o Mar no quase escuro de uma lâmpada de 40 velas de um abajur em cima do criado mudo. Na era dos festivais, torcia por Edu na finalíssima: eh, tem jangada no mar, eh eh eh… hoje tem arrastão, todo mundo pescar, chega de sombra, João. Numa dessa férias, levei pra minha aldeia uma garrafinha de Grapette cheia de água do mar. Ela ficava em cima da minha escrivaninha, mas com o tempo foi ficando turva, muito esquisita. Fedia, cheirava mal. Joguei no lixo com vasilhame e tudo. O meu prazer era ver e sentir a água viva do mar de Copa. Daquele mar sem fim, que a gente não via o horizonte que, meu pai repetia, lá longe é a África. Então entrei num curso para aprender a nadar e poder atravessar sete mares só pra  ver aquela morena de Angola que levava o chocalho na canela, só pra te ver Gabriela. 

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