O QUE SEI SOBRE O VELHO DO ANDAR DE CIMA

Me disseram que o velho que mora no andar de cima passou quatro meses trancado dentro de casa, sequer chegou na janela pra ver o jardim do prédio, com medo do vento que vinha do hospital que fica bem em frente do apartamento dele.

Me disseram também que não podemos mais chamar uma pessoa de velho, agora é idoso, velho é pejorativo e feio.

O que fazer então com o clássico O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway? O que fazer com a canção gravada no vinil de Caetano Veloso, O Homem Velho?

Quanto ao véio da Havan, dane-se.

Me disseram que somente em meados de julho o velho que mora no andar de cima chegou na janela do quarto dele e se espantou como o chorão havia crescido e estava tão verde.

Durante quatro meses, o velho não pediu Ifood, mas pedia sim supermercado e farmácia pelo telefone. O porteiro já sabia que era para o velho, nem ligava pelo interfone avisando que a encomenda havia chegado. Subia com ela e colocava tudo na porta do apartamento 31 e tocava a campainha.

Uma meia hora depois, álcool e Lysoform nas mãos, ele abria bem devagarinho a porta e borrifava os pacotes. Deixava ali uma hora até colocar tudo pra dentro, usando máscara e luvas.

Lavava as frutas e legumes, passava um pano com álcool em cada saquinho de mantimento, em cada lata, em cada vidro. Ainda esperava mais uma hora para levar tudo para a despensa e guardar bem organizadinho.

O velho do andar de cima passou quatro meses fazendo palavras cruzadas, vendo o noticiário na TV, cochilando depois do almoço, colocando fotografias antigas em ordem e lavando máscaras, luvas, pijamas e cuecas.

Tudo limpinho, ele armava a tábua de passar roupa na área de serviço e passava peça por peça com o ferro bem quente para espantar de vez o vírus.

O velho do andar de cima comeu muito ovo frito, ovo cozido e ovo mexido durante a pandemia. De noite, só uma salada, uma tapioca ou um mingau de aveia Quaker. Ele nunca comprou outra marca.

Me disseram que o velho do andar de cima só colocou os pés fora de casa quando o número de mortos por dia chegou a 346. Ele anotava todos os dias num pedaço de papel quantas pessoas tinham morrido e colocava debaixo de um ímã, na porta da geladeira. Chegou a contar até 12.455, depois desistiu.

A primeira vez que saiu foi para dar uma volta no quarteirão, mudando sempre de calçada quando via alguém se aproximando. Isso, seis e pouco da manhã, quando ele tinha certeza que não iria cruzar com praticamente nenhuma alma viva.

Descia os três lances de escada, empurrava as portas que tinha de ultrapassar com o cotovelo, pedia ao porteiro para colocar o polegar na engenhoca para o portão abrir, fazendo a mesma coisa quando voltava pra casa, suado, cansado.

Me contaram que o velho do andar de cima guarda revistas do tempo da guerra e que ele voltou a ler, com a ajuda de uma lupa, aquelas notícias ruins e apavorantes de 1945.|

Ontem fez uma semana que eu não vejo o velho do andar de cima. Resolvi ligar para o porteiro e perguntar por ele. Me disse que viajou para Minas Gerais, foi pra o interior de carro com o genro. Resolveu viver ao lado da filha, do genro e dos três netos.

Como Maiakovski, quer viver o que lhe resta ali em Urucânia.

 

 

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