AGRICULTURA

Pequeno ainda, calças curtas, ele já plantava grãos de feijão no algodão. Regava toda manhã com um conta gotas e ficava admirando a germinação. O grão inchava, de repente aparecia uma pequena raiz e depois ia brotando o pé de feijão. Ele colocava todo dia aquele pires na janela para que a plantinha pegasse sol. Foi assim que pegou gosto pela agricultura. Jovem ainda, cabeludo, foi trabalhar no Ministério da Agricultura, no Serviço de Defesa Vegetal. Seu trabalho era burocrático, mas se metia nas conversas e nas análises das folhas de café com ferrugem, nas folhas de milho com cochonilhas. Sua felicidade mesmo, era a horta que a mãe cultivava em casa. Coisa simples, arcaica. Pé de chuchu, taioba, couve, duas laranjeiras, uma ameixeira, uma parreira. Quando se exilou na Europa, abandonou por completo a agricultura. Não tinha tempo nem espaço naquele studio minúsculo de poucos metros quadrados. Hoje, cultiva uma horta na varanda do seu apartamento em São Paulo. Coisa simples. O forte são as ervas: tomilho limão, melissa, hortelã, manjericão, salsa, cebolinha, salvia. De vez em quando colhe uns tomates cereja e inhames. Mais nada. Plantou alpiste pro cachorro comer e se diverte ao vê-lo ir lá no canteiro e ficar mastigando aquelas folhinhas finas. Na televisão, ouve que o agro é pop. Pop é colher inhames na varanda de um apartamento na maior cidade da América do Sul. 

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