O SOL DE TERÇA-FEIRA

O último a sair apague a luz

Motociata é a coisa mais cafona da temporada

Laerte na página A2

Fake News já são consideradas pandemia

Cinza que te quero verde

Sim, o negócio é botar fé nessa rapaziada

A obsessão de uma genocida

… alguns gols e nenhum entusiasmo

A OTAN ressurge e aponta para a China

Mãos à obra!

Estão certas as mães

Lá vai a inflação subindo a ladeira

Onde o prefeito do Rio está com a cabeça?

Segue o seco

Bussunda vai virar série da Globoplay

O trocadilho do Libé é perfeito

A revanche da natureza na capa da Papiers, revista mensal francesa de cultura

A Vogue italiana

As semanais

O título pode parecer meio cruel, mas é perfeito

‘Revelação’ de Bonner é o tautismo da Globo marchando para o fim, por Wilson Ferreira

Em crise financeira e vivendo do rentismo, a Globo tenta salvar a imagem do seu jornalismo no mercado de notícias, fazendo um controle de danos das suas intervenções políticas, para manter a sua marca valorizada à espera de um comprador.

Desde cedo, nas redes sociais, William Bonner fez suspense: faria uma “revelação” na bancada do JN naquela noite. Até que o telejornal da Globo foi ao ar e a bombástica “revelação” nada mais era do que uma campanha para “humanizar” os jornalistas da Globo: nos intervalos, serão mostrados exemplos motivacionais da intimidade dos jornalistas e suas conversas fora do ar. Comprovar que apesar da “missão” os jornalistas são “humanos” também. Tudo pode parecer apenas uma canastríssima autopromoção, com direito a lágrimas e voz embargada de Renata Vasconcellos no final. Quando o jornalista vira o protagonista da informação é que a própria informação deixou de existir… virou autorreferência, metalinguagem, tautismo (autismo midiático + tautologia). Análogo ao processo catabólico de degradação onde o corpo começa a consumir seu próprio tecido muscular. Em crise financeira e vivendo do rentismo, a Globo tenta salvar a imagem do seu jornalismo no mercado de notícias, fazendo um controle de danos das suas intervenções políticas, para manter a sua marca valorizada à espera de um comprador.

O saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim costumava dizer que a TV Globo morreria gorda. 

Com isso queria dizer que a emissora tem uma estrutura gigantesca que já não é mais sustentável por um mercado publicitário pulverizado – o outrora confortável modelo de negócios em que detinha 80% do mercado publicitário na base do esquema de BV (bonificação por volume) que mantinha com agências de publicidade desapareceu. 

A Globo perdeu um em cada três espectadores diante da concorrência, por exemplo, dos serviços de streaming como Netflix. Além dos celulares como novo meio hegemônico – se a TV chega a 97% dos lares, o celular alcança 94%: redes sociais como Youtube, Facebook e WhatsApp acabam ajudando a pulverizar a recepção das mídias.

Porém, a estrutura gigantesca da Globo foi construída num modelo ultrapassado de Studio System criado por Hollywood na sua fase áurea e abandonado pela Globalização – modelo de integração vertical e horizontal de gigantescos estúdios e cidades cenográficas que viram verdadeiras indústrias com atores, equipes técnicas e artísticas e produção como assalariados numa cadeia de valor desde o argumento até a exibição.

Para a Globo, hoje esse gigantesco ativo virou um passivo insustentável na atual mudança na estrutura de negócios. E complicando ainda mais com a retração econômica (cujo ponta pé inicial foi dado pela própria Globo com o bate bumbo da Operação Lava Jato que destruiu a cadeia produtiva nacional) e piorando ainda mais com a pandemia Covid-19.

Resultado: a família Marinho tornou-se uma rentista e a Globo está à venda, à espera de algum conglomerado internacional que compre o abacaxi – quem sabe, o bilionário mexicano Carlos Slim, empresário que no Brasil já controla a Claro, Net e a Embratel. Pelo menos o filho de Carlos Slim, Carlos Slim Domit, anunciou em reunião com Bolsonaro em 2019 que pretende investir R$ 30 bilhões no Brasil entre 2020 e 2022.

Não por menos, a Globo bancou o impeachment de 2016: primeiro, para adiar a entrada das gigantes tecnológicas Google e Facebook no Brasil; e segundo, para favorecer a banca financeira e o rentismo, do qual ainda sobrevive enquanto tenta se livrar do seu Studio System ultrapassado.

Controle de danos

O problema é manter a política de controle de danos à imagem da Globo, desde o golpe de 2016 – tentar limpar as mãos da lama psíquica da nação que teve que revolver trazendo para tona o “Brasil Profundo” para engrossar as massas de verde amarelo contra Dilma: pequenos escroques, acadêmicos e intelectuais obscuros, músicos que fizeram sucesso no passado e que foram esquecidos, ex-anônimos que confundiam militância profissional com fundamentalismo religioso e oportunistas, racistas, homofóbicos e saudosos do militarismo de toda sorte.

Depois, controle de danos: demitiu William Waack por racismo, promoveu jornalistas negros para o estrelato jornalístico da casa, inventou uma coisa chamada “afro-empreendedorismo” e turbinou pautas identitárias no telejornalismo.

Mas a sua atual estratégia de morde-assopra num jogo conjunto com a psyop da guerra híbrida militar que sustenta Bolsonaro (o atual presidente ainda é a única solução para implementar a agenda de reformas da Banca financeira) está cobrando um preço muito alto para o jornalismo da Globo – sobre isso clique aqui

Ódio e polarização política voltam-se contra a emissora: de um lado, os bolsomínios e a hashtag“#GloboLixo”; e do outro, as históricas críticas do campo progressista contra as manipulações do jornalismo da emissora desde o golpe militar de 1964. 

A sua reação é o tautismo (autismo midiático + tautologia), estratégia desesperada para as Organizações Globo criar um “fechamento operacional” que proteja o jornalismo da realidade ameaçadora e, ao mesmo tempo, transforme o jornalismo numa espécie de propaganda de si mesmo – esquema autopromocional para valorizar o jornalismo global no mercado de notícias. E manter a um Globo uma marca atraente para possíveis compradores. 

A “revelação” de Bonner

Dessa maneira, a linguagem jornalística transforma-se radicalmente: vira auterreferencial, metalinguística, na qual o jornalista vira o protagonista da própria informação. E a função referencial da notícia se perde ao virar propaganda de si mesma.

Nos primórdios da Internet, me lembro bem, o brasileiro morria de medo de comprar qualquer coisa online. Dar o número do CPF, do cartão de crédito, data de validade, código de segurança? Nem morto!

O brasileiro saia de casa com o dinheiro na mão pra comprar qualquer coisa. Comprar de tudo, fazer o supermercado, comprar o pão de cada dia, e comprar também coisas grandes: geladeira, televisor, sofá, cama, colchão.

Além de ter certeza de que não estava revelando seus dados pra ninguém, ele gostava de ver tudo de perto. Ligar o televisor, ver o corte do jogo de facas, a tampa da garrafa térmica, abrir e fechar a porta da geladeira, medir a cama King Size para saber se cabia no quarto de casal.

Ai veio a pandemia!

Aos poucos, ele foi criando coragem e arriscando. A primeira vez que comprou meia dúzia de pratos na Tok Stok, ficou com o coração na mão e batendo disparado.

Será que vai dar certo?

Será que não vou cair num golpe?

Vão entregar em três dias úteis?

Chegarão inteiros os pratos?

Chegaram! No dia certo, na hora certa, inteirinhos, embalados em papel bolha e tudo. Aí o brasileiro disparou a comprar pela Internet, sem medo de nada, sem medo de ser feliz.

Com a portaria do meu prédio transbordando de compras, a síndica teve de fazer um puxadinho pra armazenar os pacotes que chegam a cada minuto. Caixas de aspiradores, liquidificadores, televisores, forninhos, pacotes de travesseiros, edredons, livros, tem de tudo.

E pedir comida?

Entre meio-dia e duas da tarde, vejo aqui da janela pelo menos uns seis entregadores na porta do prédio, esperando os moradores virem buscar seus pedidos.

Hambúrgueres

Estrogonofes

Esfirras

Feijoadas

Bifes à milanesa com fritas

Risotos

Japas

O cardápio é variado, sempre acompanhado de Coca, Guaraná, Fanta, Cerveja, suco de laranja, de mexerica, de uva, de melancia, de morango.

Verdade seja dita. Depois de trabalhar a manhã inteira no home office, ninguém tem coragem de pilotar um fogão e o que mais se ouve nesta hora é:

O que você acha da gente pedir?

O mundo delivery está a todo vapor. Outro dia desci para buscar o meu almoço e uma mocinha chegou junto comigo. O porteiro entregou a ela um embrulho meio enjambrado do Magalu e ela respirou aliviada:

Que bom, chegou o meu espanador!

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

No cardápio:

 

Para ler, acesse gamarevista

O que tem a ver os cruzamentos com a pandemia? Alguém explica?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 comentários em “O SOL DE TERÇA-FEIRA

  1. Muito bom o texto do Wilsom Ferreira sobre a crise ético- financeira da Globo.Onde foi publicado?
    Excelente a análise da Cristina Serra sobre o episódio do boso no voo da Azul.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s