VOU ASSIM MESMO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ando, como nunca, um bisbilhoteiro em silêncio. Como ando muito de metrô, de ônibus, de Cabify e à pé, fico de olho em tudo. Gosto de ver, de ouvir, de conversar e, às vezes, fotografar. Seja a deselegância discreta das nossas meninas de Sampa, seja a burca das senhoras de Istambul ou a elegância oriental das meninas de Tóquio.

No dia da Black Friday, por exemplo, descendo a imensa escada rolante da estação Vila Madalena do metrô, espiei a tela do smartphone de uma moça e vi que ela estava respondendo uma mensagem assim: “Número 36 é aquele que comprei e ficou apertado”.

Sentado no coletivo, observo a roupa que cada um está usando e fico imaginando como escolheu aquele modelito pra sair de casa.

Tem de tudo. Gente bem vestida, gente de qualquer jeito, bom gosto, mau gosto, roupa limpa, roupa suja. Bota, sapatênis, mocassim e bico fino.

Toda vez que penso nisso, lembro-me do poeta Paulo Leminski, com quem trabalhei no final dos anos 1980. Leminski era o que chamamos de figuraça. Fazíamos o Jornal de Vanguarda juntos na TV Bandeirantes, numa redação que era um verdadeiro muquifo em pleno Morumbi, pura elegância.

Lema, como chamávamos, ia trabalhar de qualquer jeito. Uma calça Lee surrada, sem cinto, caindo, camiseta branca encardida e muitas vezes aparecia na redação de chinelo Franciscano.

Um dia, foi surpreendido no corredor da Band pelo comentarista de economia Celso Ming.

– Paulo Leminski, você percebeu que está usando uma meia de cada cor?

Lema levantou ligeiramente sua calça Lee e constatou que Ming – que ele chamava de Dinastia Ming – estava certo. Não pensou duas vezes e respondeu na lata.

– Dinastia Ming, eu estou me lixando! Acordo, me visto no escuro e só vejo como estou quando chego na rua.

Estou lembrando dessas histórias aqui, algumas até já sabidas, porque, na verdade, o que mais tenho observado ultimamente é o trajar das pessoas no sábado de manhã, bem cedinho, quando vou ao Pão de Açúcar comprar leite fresco e depois passo na Merci pra comprar pão de laranja, um dos melhores da cidade.

Ali estão pessoas usando uma moda que eu chamo de “vou assim mesmo”. Sabe aquela preguiça que bate quando você acorda sem pão, sem leite e tem de ir comprar?

Você se olha no espelho e vê que está, como se diz lá em Minas, um trem: Sandálias Havaianas desbotadas, bermuda velha e uma camiseta do Rock in Rio 88 escrito Eu fui!

Ai você lembra que é sábado de manhã, não tem ninguém na rua, não vai encontrar nenhum conhecido e fala baixinho com os seus botões:

– Vou assim mesmo!

E vai. Chega lá e encontra pessoas na mesma situação. Mulheres usando uma legging preta quase cinza, de chinelo, cabelo sujo disfarçado num rabo de cavalo e homens com camisetas estropiadas, bermudas manchadas de cândida enfim, gente de qualquer jeito.

Outro dia, num desses sábados, minha mulher chamou a minha atenção para uma figura que escolhia entre o Pilão e o Três Corações. Ela estava com um casaco marrom e de baby-doll por baixo. Como faltava um botão no casaco, dava pra ver que ela estava com um baby-doll cor de rosa por baixo, bem do tipo vou assim mesmo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

CAETANEANDO

Quarenta e cinco anos separam a capa de um jornalzinho underground chamado Rolling Stone da capa de uma revista chiquérrima chamada Elle. Nas duas, um Caetano cheio de charme. Na Rolling Stone, envolto a plumas e paetês, recém chegado do exílio em Londres e, na Elle, abraçado ao seu violão, companheiro inseparável desses 45 anos de carreira. Na Elle, veste  jaqueta bomber de lã Dolce & Gabanna, camisa de tricoline e calça de sarja, acervo do cantor e compositor baiano.

[fotos Reprodução]

PLIN PLIN

O Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, bem que poderia inverter a ordem das coisas. Informar aos telespectadores, antes mesmo da reportagem ser exibida, o seguinte: “Informamos aos nossos telespectadores que todas as pessoas envolvidas no escândalo que vamos mostrar a seguir, desmentem tudo que será dito na reportagem”. De que adianta mostrar os escândalos e, no final da reportagem, dizer que todos desmentem o que foi dito? O telespectador acredita em quem?