GÊNIOS DA PINTURA

Eu não tinha NCr$2.50 por semana para comprar os fascículos dos Gênios da Pintura naquele ano de 1967. Ganhava NCr$10.00 por mês de mesada do meu pai e já gastava NCr$2.00 para comprar os quatro fascículos de Conhecer. Não tinha como passar o mês sem nada, perder todas as matinês do Cine Pathé, não ir ao cinema para ver as meninas. Então eu namorava, na banca do Seu Benito, toda segunda-feira, um novo fascículo dos Gênios da Pintura. O primeiro foi Van Gogh, seu autorretrato na capa me encheu de emoção e curiosidade. Procurava saber na Barsa tudo sobre ele, mas aquele fascículo maravilhoso da Editora Abril eu não tinha como comprar. Depois vieram outros: Leonardo da Vinci, Rembrandt, Renoir, Goya, Portinari, Matisse e tantos outros. Seu Benito deixava que eu folheasse com cuidado cada fascículo, sem pagar. Os que mais gostavam eram os impressionistas, Edouard Manet, Claude Monet, Edgard Degas, Alfred Sisley e tantos outros. Foi folheando esses fascículos na Praça da Savassi que conheci Murillo, Hals, Watteau, Hollbein, Uccello. Essa noite sonhei que estava no museu D’Orsay. As viagens dos meus sonhos ou os sonhos das minhas viagens estão fazendo muito bem pra minha cabeça confinada. Um dia depois de sonhar que estava na cidadezinha de Kyparessia, no Peloponeso, cuidando de cabras, no dia seguinte eu apareço no salão principal do Museu D’Orsay, à beira do Sena. Muitos anos depois, matei meu desejo quando entrei no Sebo do Messias e vi lá à venda, a coleção completa, os 96 fascículos dos Gênios da Pintura, em ótimo estado. O colecionador deve ter morrido e os filhos passaram aquilo adiante. Paguei em três vezes no cartão. Se não posso pegar o primeiro avião com destino a Paris, baixei (no sentido de colocar uma escadinha e ir descendo um a um) toda a coleção para passar o domingo vendo: Cèzanne, Mirò, Seurat, Klimt, Kandinsky, Toulouse-Lautrec, todos eles.

[ilustração Andy Wahrol] 

[ilustração Andy Wahrol]

ASAS DO DESEJO

Pardal existe por tudo quanto é canto do mundo, quase todos iguais. Só no Japão que não são iguais aos daqui, aos de Djibuti, aos de Cariri. Ganharam uma leve plumagem amarela, talvez resultado de um cruzamento com canarinho belga. Mas não cantam também, vivem nas ruas de Tóquio, de Kioto, como qualquer outro. Quando cheguei a Paris para enfrentar aqueles longos invernos, assim que vi um pardal na Rue Souflot, logo perguntei como era o nome dele por ali e alguém me explicou que era Piaf, como Edith que conhecia pouco, mas aos poucos fui me apaixonando. Ela pegou o nome do passarinho por viver cantando pelas ruas do Quartier Latin. Mas piaf não canta, guardei isso para sempre e nunca entendi direito. Talvez Edith quisesse apenas a liberdade deles e não o canto. Nunca vi um ninho de pardal, mas sei como vivem, o que comem, por onde andam. Sei distinguir o macho de uma fêmea. O macho tem manchas marrons escuras nas asas e uma espécie de babador preto no peito. São maiores que as fêmeas, que têm uma plumagem marrom clara e uniforme. Gosto dos pardais e sempre que posso dou migalhas de pão para eles, sua comida preferida. Há cento e onze dias não vejo um. Da janela, procuro e vejo apenas maritacas, sabiás que são muitos e beija-flor que se aproximam da varanda para beber água fresca que troco todo dia no bebedor colorido. Nesses tempos de coronavírus, ando tentando desconstruir a frase genial de Mario Quintana. Eles passarinho, eu passarei. 

PERSONA NON GRATA

Em pouco mais de cem dias no ar na CNN Brasil, dois participantes fixos do programa #GrandeDebate já pegaram sua viola e foram tocar em outro lugar. Primeiro foi Gabriela Priolli e agora Augusto Botelho. Os dois não tiveram estômago para ouvir as posições de extrema-direita de Caio Coppolla, o outro participante do grande debate, que parece estar ali só para criar polêmica, já que seus argumentos são sempre muito rasos. Ele é capaz de defender o presidente Bolsonaro até nas atitudes mais errôneas, bizarras e facistas. Vem aí uma terceira figura para debater com Coppolla. Quem será? Será que tem estômago?

[foto Reprodução CNN Brasil]

COMBO

A Folha de S.Paulo acaba de anunciar que vai propor aos seus leitores, uma assinatura combo: a possibilidade de fazer uma assinatura do jornal, em conjunto com o jornal português Público, que tem uma linha editorial aproximada com a da Folha. O diretor Sergio Davila argumenta que “se há um enorme oceano que nos separa, há também uma língua, uma cultura e um código de valores que nos aproximam. Em Portugal ou no Brasil, somos conhecidos pelo nosso compromisso com a democracia, com o estado de direito e pelo nosso respeito aos direitos humanos”. Uma boa ideia. 

CIDADE OCULTA

Fico aflito porque ainda imagino a cidade viva, cheia de pessoas sem máscara, quando me retiro. Quando desligo a televisão, coloco o Spotify em pause, enjôo da live, fecho o livro e apago a luz. Cinco minutos depois, cansado de guerra, já estou viajando. Quatro meses já se passaram, ainda não sonhei com uma viva alma usando máscara, alguém com a máscara no queixo, dependurada na orelha, embrulhadinha na mão. Ainda não sonhei com uma mão esfregando na outra, lambuzada de álcool gel. Não sonhei com a torneira aberta, água escorrendo e eu com a mão cheia de Protex, esperando ela esquentar. Não sonho com notícias, com número de mortos, plantões, infectologistas falando, com as ruas de São Luiz do Maranhão transbordando. Sonho com uma cidade em preto e branco, vazia, tipo the end, enquanto o leão da Metro está ruivando, anunciando o filme que está apenas começando. Vejo uma roupa vermelha comum dependurada, bandeira que me acompanha há muitos e muitos anos, desde os tempos do quarto andar da 79, Rue de la Roquete, quando abanava a toalha vermelha na janela enquanto os manifestantes passavam em coro dizendo: Nem Giscard, nem Mitterrand, uma só solução, a revolução!

A ERA DAS LIVES

É live que não acaba mais. Nasceram assim de repente com a pandemia, a vontade de fazer alguma coisa bacana dentro de casa. Hoje temos lives de cantores, de chefes de cozinha, de psicólogos, de saúde, de yoga, de pilates, de família, lives interessantes, lives vazias, lives de todas as cores. O cenário são sofás, são orquídeas floridas, são estantes cheias de livros, são quadros na parede, um pedacinho da casa de cada um, um pedacinho do Brasil. Tereza Cristina, João Bosco, Bituca, Leonardo, Nando Reis, Lulu, Elba, Alceu, Geraldinho Azevedo, Skank, Titãs. A pergunta já está no ar: quando tudo isso passar, como vamos viver sem lives?

FAZENDO AS CONTAS

Acordei meio Walter Franco perguntando o que é que tem nessa cabeça, irmão? Cabeça de vento, cabeça vazia, cabeça oca, cabeça doendo, cabeça raspada, cabeça de nego, aquela bombinha dos tempos de menino, do politicamente incorreto. O que tem nessa cabeça de cada um? Aquele que está confinado, aquele que bebe Devassa num certo bar Leblon, aquele que carrega uma casa do Rappi nas costas, aquele que vende bala no farol, aquele que aparece todo dia na tela da TV falando de infectologia, aquele a ama, protesta. E agora? As cabeças estão todas voltadas para dois mil e vinte dois, já que meio um ano passou desse jeito. Passam dentro da cabeça planos para o Natal, planos para pular sete ondas, como se não houvesse meio julho, agosto, setembro, outubro, novembro e trinta e um dias de dezembro. Já providenciou o calendário de imã do ano novo pra grudar na geladeira, deu por encerrado esse dois mil e vinte e um, cancelou o sete de setembro, o dia de finados, o show do Roberto, a retrospectiva do Globo Repórter. Estamos no dia cento e oitenta e vamos pular logo para o trezentos e sessenta e seis, já que este ano tivemos o vinte e nove de fevereiro que nem me lembro mais o que aconteceu, a não ser os parabéns que mandei pro Jaguar. Vou jogar a chave do ano velho no mar, trocar a fechadura. Quem sabe?