O BRASIL NOS TEMPOS DO ÓDIO

Não vi, mas soube logo cedo lendo o texto do Mauricio Stycer, que o apresentador do Jornal Nacional esteve conversando com Pedro Bial nas primeiras horas da madrugada desta quarta-feira, 27. Soube da sua amargura ao ser ofendido nas ruas, da impossibilidade de ir e vir. Como leitor de leitor, registro aqui os primeiros comentários que surgiram logo abaixo do texto do crítico do UOL:

É só falar a verdade que o amor do público volta.

O cara dedica a vida a mentir e enganar, e espera o que?

Salvo engano, o seu entrevistador faz parte do eleitorado a que pertencem seus algozes.

Você está colhendo o que plantou.

Igualzinho o Lula: só fala a versão que lhe interessa.

A solução já está pronta. Pegue suas malas e vá embora, seu menino de recado de seus patrões loucos por dinheiro público.

Dê as notícias com imparcialidade.

Quem com ferro fere com ferro será ferido.

Bom, não assisti (nem pretendo), mas o Bial com todos os seus versos, poemas e pensamentos, não chegou a recitar: “Quem planta vento, colhe tempestade”

Lamento os ataques pessoais. Mas cabe dizer que o jornalismo da Globo sempre mostrou apenas um lado (vide reforma da Previdência) e semeou tudo isso que está aí.

Tadinho não poder pegar avisão. Fiquei com dó do menino!

Quem se prontificou a falar inverdades sobre pessoas honestas desde 2014 não pode reclamar de nada.

Acho que ele não conhece os problemas do trabalhador comum. Esses “probleminhas” dele eu tiraria de letra, o cara vive literalmente numa aldeia global.

Foi o ódio que a sua emissora plantou! Agora aguenta!

Tá experimentando do próprio veneno, né meu filho?

Quem ganha 750 mil tem que estar preparado para aguentar pressão! Sem mimimi.

Você e seus patrões pavimentaram tudo isso, apoiando o golpe e o lava batismo, criando esse ódio da esquerda. Vocês chocaram o ovo da serpente. Agora é tarde.

… e por aí vai! 

[foto Reprodução/TV Globo]

 

AO VIVO

Há dois meses meses não vejo um japonês ao vivo. Um negro, uma criança, uma diarista, a menina do Bradesco Prime com o colete Posso te ajudar?, a caixa da padaria Palácio dos Pães, um motorista de Uber, de ônibus, de van. Há dois meses não vejo um cachorro ao vivo e em cores. Não vejo os buracos nas calçadas, guimbas de cigarro, idosos varrendo os alpendres dos sobradinhos da Lapa, os garis recolhendo folhas do outono na Praça Marechal. Há dois meses não vejo um cobrador de ônibus cochilando, uma mocinha aflita gritando espera, motorista, que eu vou descer! Há dois meses não vejo as carambolas do sacolão da Lapa, o Severino na banca de jornal, o Sandro na portaria do meu prédio, os postits coloridos na vitrine da Lapapel, os croissants na Fabrique, os carrinhos de frutas nas esquinas de Higienópolis. Nunca mais vi um pombo ciscando farelo na porta do Bar e Lanches Souza, nunca mais vi um morador de rua recolhendo seus panos debaixo do viaduto Presidente João Goulart. Há dois meses não vejo uma escada rolante, uma revista Minha Novela dependurada na banca, um livro na livraria, uma Fanta Manga no Superville, uma camionete amarela da DHL, uma árvore caída depois do vendaval, um motorista falando ao celular, um farol quebrado, um engarrafamento, a maquininha de senha do laboratório de análises clínicas. Há mais de dois meses não vejo minhas filhas, meu filho, minha neta, meu neto, meus irmãos, meus sobrinhos, minhas amigas, meus amigos, meu afilhado, meu neto. Gente, onde está o meu país?

A GRANDE SACADA

Os americanos tem uma espécie de Bolsonaro no poder. A diferença é que o deles fala inglês. A capa já histórica do New York Times com o nome de mil mortos pelo coronavírus, ganhou, no dia seguinte, uma ilustração da besta quadrada deles. É trocadilho: foi uma grande tacada. 

[foto/Reprodução Redes Sociais]

VI E GOSTEI

Mais uma vez, vi e gostei do programa Papo de Segunda, exibido pelo GNT. Comandado por Fabio Porchat, com participações luxuosas de Emicida, Francisco Bosco e João Vicente, nesta segunda (25) teve a participação também luxuosa do repórter Manoel Soares. Os assuntos são sempre atuais e os comentários de cada participante, enriquecem a noite do primeiro dia útil da semana. Vale a pena ver. Anote aí na agenda.  

[foto Reprodução/GNT]

O CHIQUEIRINHO

Há meses que canto a bola aqui, afirmando que repórteres e cinegrafistas, depois de tanta humilhação, deviam abandonar aquele chiqueirinho em frente ao Palácio da Alvorada onde, todas as manhãs, uma besta quadrada aparece insultando a imprensa e fazendo o gesto de talkey pros seus fiéis, pra suas ovelhas, pro seu gado. Sugeri e recebi a resposta dizendo que a cobertura deveria ser feita porque dali poderia sair uma bomba a qualquer momento e era preciso estar presente. Bobagens saíram sim, quase que diariamente. Na noite de segunda-feira (25), Globo e Folha de S.Paulo soltaram comunicado avisando que não mais enviariam jornalistas para a porta do Alvorada por motivo de segurança. Todos os órgãos de imprensa deveriam fazer o mesmo. Deixar a besta quadrada falando sozinha. Veja a íntegra do comunicado do Grupo Globo:

 

RODA VIVA

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, daqui a pouco vai tocar o interfone, é o Sandro avisando que chegaram as compras do supermercado. Preguiça de colocar máscara e luvas, lavar com água e sabão cada laranja, cada pocã, cada limão, cada maçã. Preguiça de colocar os tomatinhos cereja na vasilha com água e Hidrosteril e depois enxugar um a um, preguiça de passar álcool no pacote de macarrão, no litro de leite, no papel laminado do Ovomaltine. Preguiça danada de limpar com álcool 70 a garrafa plástica de álcool 70, o tubo de Lysoclin, o pacote de Omo Total, embrulhar no papel filme o peito de peru light, rasgar a embalagem do queijo Minas light e jogar na pia o soro. Há muito anos, eu reclamava de colocar as compras do supermercado no lugar, arrumar tudo na despensa, organizar na geladeira, abrir com cuidado o isopor dos ovos pra não quebrar. Um dia, a Paulinha me chamou a atenção, dizendo que ela tinha um sentimento contrário ao meu. Sentia a maior felicidade de ver aquela bagunça na cozinha e, aos poucos, cada coisa no seu lugar. Abrir e ver a geladeira cheia, as prateleiras com as compras, os vidros cheios de arroz, feijão, lentilha, polenta, trigo para quibe, canjiquinha, açúcar mascavo, café. E que devíamos agradecer a Deus por termos alimento para todos aqui nessa casa. Eu estava só brincando quando comecei a escrever isso aqui. Não vejo a hora do Sandro tocar o interfone.  

O FUTURO ESPERADO

Roula Khalaf, a redatora-chefe do jornal britânico Financial Times, um dos mais influentes do mundo, tem uma missão pela frente. Ela assumiu a direção do FT no início da pandemia e hoje tem apenas cinco pessoas trabalhando na redação. Trezentos e noventa e cinco estão em home office. Um cenário triste, o avesso daquele ambiente efervescente de uma redação. Nesses tempos de vírus, o número de assinantes online cresceu 75%. Hoje, o Financial Times tem 1,1 milhão de assinantes, sendo que 932 mil são assinantes virtuais. Nas bancas, vende pouco mais de 80 mil exemplares. Com a flexibilização lenta e gradual na Grã-Bretanha, a direção do jornal tem como pauta principal, começar a discutir o fim do jornal de papel. Isto vai acontecer, com certeza. Mais cedo ou mais tarde. 

[foto/Reprodução]

A CASA DA MÃE JOANA

Não é de se espantar que o empresário Silvio Santos tenha ligado para a redação de Jornalismo de sua emissora e mandado arrancar fora da grade o principal telejornal da casa, minutos antes de ir pro ar. É a cara dele, a falta de responsabilidade dele, faz parte da irresponsabilidade dele. Trabalhei durante muitos anos na emissora de SS e sei como funciona. Um mestre e um bando de assessores prontos para dizer amém, fazer o que o seu mestre mandar. Já fiquei com um telejornal no ar durante mais de uma hora porque ele queria que só terminasse assim que saísse do ar a novela da concorrente, quando Zé Trovão empinasse o seu cavalo. Silvio Santos, como o atual inquilino do Palácio da Alvorada, guarda dentro de si um rancor do Jornalismo. Não gosta, prefere pão e circo. Não tem a menor ideia do que seja Jornalismo, da sua importância, este é o seu lado besta quadrada. Tira do ar da mesma maneira que joga uma torta de chantilly na cara  de alguém que está por ali na praça que não é nossa, é dele. Silvio deve ter sabido por alto da tal reunião do dia 22 de abril e não gostou de ver aqueles palavrões e aquela baixaria vindas do seu amigo Jair porque poderia prejudicá-lo. Mandou tirar do ar o telejornal que já estava pronto e mandou colocar no lugar a reprise de um programa de fofoca, bem a cara dele. Se você quiser saber algumas loucuras de SS, não deixe de ler o livro Topa Tudo por Dinheiro, do jornalista Mauricio Stycer, publicado pela editora Todavia. Em um depoimento, conto um décimo das loucuras desse empresário que vai fazer um bem danado pro país quando sair do ar. 

[foto Reprodução/SBT]

COMO DOIS E DOIS

A mesa impecavelmente arrumada é herança dele, meu pai. Eram outros tempos, havia em cima dela uma máquina Remington, um bloquinho de papel, uma caneta Parker 51, tinteiro, mata-borrão, grampeador, furador, clips e elásticos que, em Minas, chamamos de gominha. Havia também um lápis Johann Faber número 2 e um apontador, uma tesourinha e uma régua e um compasso, tudo minuciosamente nos lugares. É com esta lembrança que começo mais um dia de pandemia lá fora. Os hospitais transbordando, médicos correndo pra lá e pra cá, aparelhos apitando, piscando em verde e vermelho. Máscaras, luvas, roupas de plástico, verdadeiros astronautas cujas vidas ultrapassam. Os rostos marcados pelo elástico, o Nobel da Paz para todos eles, sem discussão. Enfermeiros, enfermeiras, técnicos, motoristas, faxineiros. A tensão maior não durou alguns dias, tem mais de três meses que as duas torres gêmeas estão caindo todos os dias. Na rua não pode ter gente e tem. O comércio tem de estar fechado e está funcionando a meia porta. A máscara tem de cobrir a boca e o nariz e está cobrindo o queixo. Precisamos de um presidente da República e não temos. Precisamos de respiradores e estão acabando. Precisamos de leitos de UTI e estão lotados. Precisamos respirar e falta ar. Será que a única coisa em ordem neste país é uma escrivaninha?

EU PASSARINHO

Sessenta e três dias depois, sonho muito. Picado, acordando no meio da madrugada. Não sei se sonhei ou delirei ao lembrar das andorinhas da Igreja Nossa Senhora do Carmo, piando em voos rasantes entre fiéis e infiéis. A Igreja era ainda a velha, teto com ripas de madeiras e elas iam e vinham enfiando-se em buraquinhos certos, seus ninhos, diziam. Eu cochilava sem entender aquele latim ruim que tinha, maravilhado com a liberdade das andorinhas sem entender direito porque elas se abrigavam na Igreja Nossa Senhora do Carmo, assanhando-se na hora da missa. Eram ariscas as andorinhas e, acredito eu, nunca uma foram em cana como os meus passarinhos, coitados. De vez em quando, a caminho de Ouro Preto, via um bando no céu, libertas da Igreja, quae sera tamen. Chegavam a fazer uma mancha negra no céu, numa coreografia sem ensaio, mas perfeita. Entre essas paredes, lembrei-me de uma marchinha de carnaval, não sei se sonhando ou não: Vem moreninha, vem tentação/Não andes assim tão sozinha/Que uma andorinha/Não faz verão/Dizem morena, que teu olhar/Tem correntes de luz que faz cegar/O povo anda dizendo, que essa luz do teu olhar/A Light vai mandar cortar. E eu sonhava acordado com a moreninha que morava no andar debaixo da minha casa.

SESSÃO DA TARDE

Geralmente os filmes são água com açúcar, estudantes americanas apaixonadas, numa saia justa entre um e outro. Mas a tarde de sexta-feira não foi igual aquela de quinta que passou. Ouvia-se puta que o pariu, sacanagem, porra, bosta, estrume, foder no meio da tarde, sem aquele aviso no cantinho da tela indicando 18. O filme foi finalmente liberado, sem cortes, sem bolinhas pretas da laranja mecânica, sem piiiis, sem tarjas nos olhos, sem voz de pato, sem imagens fora de foco. O filme A Reunião foi finalmente exibido, teoricamente para um povo que deveria estar todo em casa e as ruas vazias como uma obra de Gregório Gruber. Foi de graça, até mesmo o sinal das TVs à cabo, pagas, estavam abertos para visitação pública. Os atores eram de quinta e o filme parecia ter sido rodado na boca do lixo. A única atriz mulher gritava chamando a atenção do ator que interpretava o mocinho Nelson Teich, alertando-o que estava rodeado de feministas loucas pra liberar o aborto. Não tinha script o tal filme que passou na Sessão da Tarde de sexta-feira, 22 de maio de 2020. Filme ruim, filme triste que me fez chorar, como cantava o Trio Esperança nos idos dos anos 1960. O ator principal parecia um cafajeste de pornochanchada. Que tragédia foi essa que desabou sobre nós? A Sessão da Tarde acabou de repente, quando todos levantaram e foram-se embora. E nós, pobres mortais, fomos também embora, sem comer pipoca, sem saber como esse filme vai acabar. 

[ilustração/Obra de Gregório Gruber]