ESSE NÃO É O CARA

A viagem do presidente de ultra-direita aos Estados Unidos, todos sabem, foi um mico. Menos para a imprensa brasileira, principalmente a escrita e falada. Bolsonaro ficou hospedado num anexo da Casa Branca (onde todos os chefes de Estado costumam ficar) mas, para ele, foi “um privilégio concedido a poucos”. Entregou a Base de Alcântara aos americanos, fez uma visita mais ou menos escondida a CIA, uma das grandes responsáveis pelo golpe e implantação de uma ditadura cruel no Brasil, na metade dos anos 1960, não falou uma palavra em inglês, ganhou uma camisa da seleção americana com um adesivo improvisado de última hora que, na primeira lavagem, vai desaparecer, abriu as portas para os turistas americanos enquanto a nossa porta de entrada lá, continua rigorosa e vigiada, e provocou um chilique no chanceler tupiniquim, deixando apenas o seu garoto na sala para o encontro privado (ou seria privada?) com o presidente norte-americano, mesmo sabendo que aquilo não era conversa de criança. Essas são as estratégias erradas e as gafes que vazaram. Com certeza, tiveram outras. Mas para a nossa imprensa, a imagem que ficou foi (enorme) essa que ilustra esse pequeno texto.

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[foto e legenda/Reprodução da primeira página do jornal Folha de S.Paulo]

O PREMIADO

No septuagésimo oitavo dia do ano, finalmente, uma boa notícia. O prêmio Templeton vai para… Marcelo Gleiser! Conheci Gleiser em 2008, quando o físico veio ao Brasil lançar o livro Mundos Invisíveis, da coleção Fantástico que eu dirigia. O físico estava bem feliz com o resultado de transformar em livro a série que ele apresentou no programa. A série, coordenada e dirigida pelo editor Frederico Neves, foi um sucesso. Sentia-me feliz em ver a Física no ar, explicada para milhões de brasileiros. Aproveitando a vinda dele ao Brasil, fiz uma longa entrevista com Gleiser para a extinta e saudosa revista V. Lembro-me que quando perguntei qual era, para ele, a melhor revista de ciência publicada no mundo e ele respondeu na lata: “Para mim, a National Geographic”. Fiquei surpreso e passei a prestar mais atenção na NG. Há muitos anos,  todo mês quando a NG chega à minha casa, eu me lembro dele. E concordo. Viva Marcelo Gleiser!

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O ASSASSINATO DA CRIATIVIDADE

Quem sempre andou pelas ruas de São Paulo, deve se lembrar bem dos cartazes publicitários da revista Veja nas bancas de jornais. Bem antes, eram os outdoors que surgiam aos sábados de manhã por todos os lados da cidade, amarelos, e sempre com frases criativas. Veio a lei da cidade limpa do então prefeito Gilberto Kassab e os outdoors foram proibidos, viraram cartazes em bancas. Sempre amarelos, sempre muito criativos. Sacanas na era Lula, mas criativos. A frase semanal dos outdoors era criação da agência AlmapBBDO. Os redatores precisavam ser rápidos e criativos. A revista passava o assunto de capa para a agência e todos podiam opinar. Cinco frases eram enviadas pra revista, que escolhia a melhor. Na segunda-feira, o escolhido chegava na AlmapBBDO comemorando, cheio de moral. O tempo passou, a Veja emagreceu, perdeu um pouco o rumo com a eleição do candidato da extrema-esquerda, e perdeu também a graça. Quem passa hoje por uma banca, vai encontrar no cartaz amarelo com a capa da revista e os dizeres Leia em Veja. Assassinaram a criatividade, de uma hora pra outra. Uma pena.

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