O OUTRO CHICO

Na primeira página de O Globo de hoje, o cartunista Chico Caruso coloca todos os candidatos nos devidos lugares e não Fernando Haddad empatado com Geraldo Alckmin, como há três dias. Mas insinua que o candidato da extrema-direita (no cartum e na política) possa ganhar as eleições no primeiro turno.

[reprodução/O Globo]

INGE FELTRINELLI (1930-2018)

Morreu ontem, em Milão, aos 87 anos, Inge Feltrinelli, uma das maiores personalidades do livro na Itália. Inge ficou conhecida no mundo inteiro quando publicou, pela primeira vez, o clássico Doutor Jivago, de Boris Pasternak, provocando a ira da União Soviética. De origem alemã, a editora morava na Itália desde o início dos anos 1960. Hoje, por onde você anda na Itália, você encontra uma Livraria Feltrinelli. Na foto, a publisher com Ernest Hemingway em Cuba, no ano de 1953.

[foto Reprodução]

QUARENTA E CINCO DIAS DE SOLIDÃO

Na primeira manhã em Beirute, acordei ao som de uma bolinha de ping-pong. Desci as escadas ainda meio sonolento e vi, antes de chegar ao térreo, dois soldados animados jogando, enquanto um terceiro enchia um embornal no bebedouro instalado ao lado da mesa.

A primeira refeição na American Comunity Scholl, onde me instalei para passar quarenta e cinco dias, foi suco de romã, pão preto com geleia de laranja amarga, um copo de coalhada, uma ameixa vermelha e uma xícara de Nescafé granulado, diferente do nosso, em pó.

Na mesinha de centro da sala de recepção, rodeada de confortáveis poltronas, o jornal L’Orient-Le Jour anunciava, na primeira página, os conflitos do dia de uma guerra sem fim. Também na mesinha, um catálogo telefônico magrinho como um fascículo com os telefones de todo o país. A curiosidade me levou até a letra H – de Haddad – do meu primeiro sogro, que fugiu da guerra para o Brasil, na juventude, e nunca mais voltou.

Do lado de fora, o jipe dos soldados estava estacionado em cima da calçada e, debaixo dele, um gato cinza morto cheirava mal. Prendi a respiração e vi, lá longe, o sol refletindo no mar azul, batendo nas pedras.

Não havia Internet, não havia Google, Smartphone, Instagram, WhatsApp, Waze, não havia o mundo digital e um telefonema custava os olhos da cara. Me senti meio no fim do mundo, isolado, longe de tudo e de todos, sem notícias das coisas do meu país abençoá por Dê e boni por naturê. Senti-me preparado para viver quarenta e cinco dias de solidão.

O primeiro dia foi de andanças, entrando e saindo por ruas, ruelas, becos, avenidas, ruinas. A cidade não era bonita à primeira vista, muitos buracos de balas nas paredes, sacos de areia nas esquinas, muita poeira, tanques a postos em lugares estratégicos, mas ao mesmo tempo, uma cidade fascinante, viva, sobrevivente.

De perto, vi que aquele mar rebelde era tão violento que descolava os musgos das pedras, jogando fiapos nas calçadas, onde algumas prostituas se ofereciam em vestidos curtíssimos e olhos borrados de preto.

O cheiro que vinha dos restaurantes espalhados pela cidade dava muita fome. Parei em um deles – Le Renard et les Raisins – com mesinhas espalhadas debaixo de uma imensa parreira carregada de uvas verdes, a sombra que precisava naquele verão árabe de 40 graus.

Havia quibe no menu, quibe assado numa pequena travessa, feito com muito hortelã e carne de carneiro. Aquele quibe, arroz branco com amêndoas e uma salada de pepino foi a minha refeição, acompanhada de um copo de cerveja Almaza, estupidamente gelada, e um pedaço de melancia de sobremesa.

A essa altura, meus cabelos longos já haviam virado um rabo de cavalo escondido dentro de um boné porque era impossível naquela Beirute conservadora dos anos 1970, um cabeludo andar sossegado pelas ruas da cidade. Fazia fotos de tudo que via de interessante pela frente. Cabras pastando em lotes vazios, homens de mãos dadas, idosos de bengala e kufiya na cabeça, vendedores de chá circulando pelo rush, homens rezando nas mesquitas e geladeiras dos bares cheias de Crush. Foram dezenas de fotografias que acabaram se perdendo quase todas com o tempo e com o rumo que a vida tomou.

(Reprodução)

Comprei de um ambulante que vendia revistas em cima de uma lona estendida na calçada, um exemplar da Luluzinha em árabe, que se chamava simplesmente Lulu.  Capa colorida, miolo em preto e branco, impressa num papel quase jornal. Paguei com duas moedas, sem dar uma palavra com o jornaleiro, que não falava francês.

Procurava os cedros e não achava. Em pouco tempo percebi que era o mesmo que procurar uma árvore de Pau-Brasil na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “Só no interior, numa pequena reserva” – me diziam – estavam os últimos cedros.  Mas ele continuava firme e forte estampado nas bandeiras tremulando espalhadas por todos os cantos da cidade.

No fim da tarde, já exausto, com calos nos pés e o meu tênis Bamba coberto de poeira, voltei para a American Comunity Scholl. Foi então que percebi que na porta de entrada havia uma reprodução do famoso Love, de Robert Indiana. Mais uma fotografia para o meu álbum.

No quarto, debaixo de uma luz forte de uma luminária em cima da escrivaninha, arrumei na minha carteira de couro, as notas sujas e amassadas de libras libanesas, tirei da máquina o filme Kodachrome de 36 poses que ainda estava ali dentro, folheei a Luluzinha falando árabe com o Bolinha e fiz minhas anotações. Só hoje, relendo essas anotações, vejo que escrevi: “No radinho de pilha em cima do criado-mudo, Maria Bethânia canta Esse Cara”, como se aquela canção estivesse ali dentro guardada para me saudar.

No final da noite, desembrulhei o pedaço de quibe que sobrou do almoço, coloquei num pratinho e peguei uma Pepsi-Cola na geladeira que ficava ao lado da porta com o Love. Fui dormir com o barulho ensurdecedor dos aviões de guerra que cruzavam o céu da cidade. Fui dormir tentando sintonizar alguma língua conhecida no radinho de pilha que pouco antes tocara Bethânia em bom português.

No meio da noite, acordei com o silêncio que se instalara. Fiquei ali deitado debaixo de um lençol de listras azuis e amarelas, pensando nos quarenta e quatro dias que ainda tinha pela frente e a missão de achar algum Haddad, algum parente do meu primeiro sogro.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

TORCIDA

Todos sabem que o Ibope divulgado ontem, mostra o candidato do Partido Dos Trabalhadores com 19 pontos e o candidato tucano com 7 pontos. Mas no cartum de Chico Caruso, na primeira página de O Globo, os dois aparecem praticamente empatados na corrida eleitoral. Isso é que é torcida para ver o tucano sair do chão.

[Reprodução/O Globo]

TÚNEL DO TEMPO

O anúncio da cerveja Caracu que surgiu, de repente, no Largo do Paissandu, em São Paulo, após o desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado ao lado, tem dividido opiniões. Alguns acham que deve ser apagado para dar lugar ao progresso. Já outros, acham que o anúncio, pintado nos anos 1950, deve ser restaurado para dar um ar vintage à cidade. Ontem, caminhando pela Lapa, observei que a lateral do prédio localizado na Rua Clélia, onde hoje abriga a Igreja Bola de Neve, também está descascando a sua lateral e, dela, surgindo um anuncio da Chevrolet, que patrocinava os espetáculos onde funcionava a antiga casa de shows Olimpia. Quem sabe se descascarmos São Paulo, chegaremos a uma luz no fim do túnel do tempo?

[foto Alberto Villas]

ELEIÇÃO OU MEGASENA?

Não resta a menor sombra de dúvida de que vivemos a mais bizarra das eleições presidenciais, desde 1500. O candidato que há meses mantinha o primeiro lugar nas pesquisas, foi impedido de concorrer por um golpe e está na cadeia. O segundo lugar está num leito de hospital, convalescendo-se de uma facada. Sem contar que uma candidata, que aparece apenas de quatro em quatro anos, vem despencando na preferência do eleitorado e o representante dos tucanos, que sempre estiveram no segundo turno, não decola. Fica ali na pista como um urubu sem asas tentando alçar voo. Muitos eleitores, perdidos na selva de informações e desinformações, ficam apostando em um, depois em outro, como se estivessem preenchendo uma cartela da megasena. Arrependido de ter apostado em um número, rasga a cartela e começa tudo de novo. O que mais se ouve nas esquinas são coisas do tipo: “Ia votar no fulano mas acho que ele perde no segundo turno, então vou votar no sicrano”, “Ia votar em branco mas me disseram que favorece o fascista, então vou escolher um qualquer”, “Estou esperando as pesquisas pra saber em quem votar, em quem tem chance”, “Vou votar em fulano para evitar sicrano”, “Se aquele amigo meu no Face vai votar em Beltrano, eu também vou porque confio muito nele”. É claro que tem aqueles eleitores conscientes. Que cravam o voto no candidato que não passa de um por cento nas intenções de votos mas “é nele que eu vou votar”. Eu me pergunto quantos eleitores leram os programas de governo dos candidatos. Muitos estão escolhendo o candidato porque “vou com a cara dele”, “porque ele disse isso e aquilo”. Ou então “ouvi dizer que ele disse que”. Dessa maneira, corremos o risco de, no dia 7 de outubro, final da tarde, a gente ficar sabendo que número que deu e quantos ganhadores teve a megasena eleitoral.