HOME OFFICE

Nesses tempos de home office, captamos na estante do jornalista e comentarista da GloboNews, Mario Sergio Conti, além de vários livros de e sobre Marcel Proust, o livro “The Complet Poems of Bertold Brecht”, com tradução e edição de Tom Kuhn e David Constantine.

[foto Reprodução/GloboNews]

VEJO E GOSTO

Nunca tinha visto o jornal Em Ponto, da GloboNews, que começa tão cedo. Nesses tempos de coronavírus tenho visto todos os dias. Gosto. São as primeiras notícias do dia. Com o Burnier em casa, em sua quarentena, Julia Duailibi, é quem está segurando o rojão. No final dos anos 1990, todos os telejornais de fim de noite, anunciavam as manchetes dos dias seguintes, em arte simples apenas mostrando a manchete principal. Desde o ano passado, uma das primeiras coisas que faço no dia é o Diário de Noticias pro Nocaute, blog do Fernando Morais. Faço um pequeno raio-X dos principais jornais do país e dou dicas que pesco na imprensa internacional. Agora, vendo o Em Ponto, acompanho todos os dias a Julia mostrando as primeiras páginas dos jornais. Com a tecnologia que é outra, ela vai mostrando no telão as primeiras páginas dos jornais, apenas as primeiras páginas, e fazendo pequenos comentários. Acho simpático. 

[foto Reprodução/GloboNews]

DEZOITO

Dentro de casa caminhando pra um mês, já sei de cor todos os cantos, até mesmo alguns que havia esquecido. Enfeites guardados, livros uns por cima dos outros, muitos discos. Penso nas músicas que teriam a ver com o momento e vou fazendo uma playlist: Aquele Abraço com Gilberto Gil, Beija Eu com Marisa Monte, Exile on Main Street com os Rolling Stones, O que será com Milton Nascimento, Vai Passar com Chico Buarque, O mundo é um moinho com Cartola, Alucinação com Belchior, Eu preciso aprender a ser só com Marcos Valle, Besame Mucho com João Gilberto, Eu sei que vou te amar com Caetano Veloso, No Future com os Sex Pistols, São São Paulo com Tom Ze, Coração Tranquilo com Walter Franco, e volto a Gilberto Gil com Vamos Fugir. “Vamos fugir, baby, desse lugar, onde quer que você vá, que você me carregue”. Coloco os pratos na máquina, passo álcool nos interruptores, no teclado do computador, nos plásticos que envolvem as revistas que assino, bato uma limonada suíça no liquidificador, escrevo o Diário de Notícias pro Nocaute, rego as plantas, me assusto como os tomateiros crescem tão rapidamente, leio a Superinteressante, a Piauí, a Serrote, a L’Histoire, preencho uma CDA, tarde da noite pergunto se a Maju está se cuidando e ela responde que sim. Acordo sossegado e sossegado fico durante uns dois segundos, até lembrar-me do coronavírus. Levanto, ainda é noite no céu, vou pegar a Folha no capacho, mas antes, passo álcool nas mãos e no braço. Sou movido à álcool, eu e o automóvel da minha mulher, parado na garagem há um mês. Hoje acabo as últimas páginas de “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, de Rosa Montero. 

HOME OFFICE

Captamos na estante do cronista, apresentador, ator, humorista e roteirista, Gregorio Duvivier, o disco “Verde que te quero Rosa”, do mestre Cartola, onde ele canta a música “Autonomia”, entre outras.

[foto Reprodução/Youtube] 

VI E ESTRANHEI

A GloboNews levantou a vida parlamentar do atual ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas esqueceu de dizer que ele foi um dos parlamentares que contribuiu com o golpe, votando pelo impeachment de Dilma Rousseff, eleita democraticamente.

[fotos Reprodução GloboNews/Internet]

DEZESSETE

Por volta de mil novecentos e sessenta e seis, mil novecentos e sessenta e sete, quando ainda sonhava em ser jornalista, lembro-me bem de ter lido na revista Realidade uma reportagem sobre o fantástico mundo da criança. A revista colheu pequenos depoimentos da meninada e um deles deu o título para a matéria: “O mundo é aqui lá fora onde todas as coisas acontecem”. Lembrei disso hoje porque o meu mundo lá fora, há 19 dias, é visto pela janela, como se fosse uma tela de televisão passando um programa meio sem graça. O que me alegra é ver as árvores ainda estão bem verdes e os passarinhos que pulam nos galhos. Não ouço ninguém falando, conversando outro assunto, dando um abraço ou um simples aperto de mão. Me irrito com os ônibus que ainda circulam, não sei bem o motivo. Quem sabe são as enfermeiras e eu aqui achando que é gente que simplesmente desafia a quarentena para agradar o idiota que está no poder. Estou cansado de ver televisão de verdade, vejo sem parar por dever da profissão. Acabo trabalhando o dia inteiro, meio sem perceber. Nos minutos de folga que agora decidi ter por obrigação, vou pra rede que fica na varanda, o único lugar ao ar livre da casa, e mergulho na leitura de um livro fascinante: “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, da espanhola Rosa Montero”, o último que comprei na Travessa, num dos últimos dias que ainda estava aberta. Fico maravilhado com a vida de Marie Curie, vítima do rádio que ela mesmo descobriu e a matou, depois de receber o Nobel junto com o marido, Pierre, morto esmagado pela roda de uma carroça. Quando acabar, vou reler os poemas de Pier Paolo Pasolini, minha paixão, e depois vou voltar à escravidão, de Laurentino Gomes. Hoje cedo, o carteiro deixou em cima do capacho a Superinteressante de abril, dois exemplares da Carta Capital que estavam acumulados na portaria do meu prédio e também a Piauí. Deixo tudo pro final de semana, quando acordo um pouquinho mais tarde e vejo que está passando o Globo Rural. Mas hoje ainda é quarta. 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Quem viu a bela capa da revista americana Sports Illustrated e bateu os olhos na edição de abril da revista Placar, vai logo lembrar de Antoine Lavoisier que, um dia, disse que nesse mundo nada se perde, tudo se aproveita. Ledo engano. A Placar, que vem se destacando por um texto enxuto e luxuoso, fez sua capa inspirada mesmo na SI e avisa a seus leitores a homenagem. A revista, que já passou por várias fases desde sua criação em 1970, ano do Tri, atualmente tem uma tiragem modesta, mas se você tiver a sorte de conseguir comprar um número vai se surpreender com o conteúdo. Leitura recomendada nesses tempos de confinamento.

[fotos Reprodução] 

HOME OFFICE, SWEET HOME OFFICE

Nesses tempos de home office, captamos na estante do jornalista e comentarista da CNN Brasil, Fernando Molica, o livro “Roteiros do Terceyro Mundo”, que reúne 270 cartas do saudoso cineasta Glauber Rocha, escritas para Caetano Veloso, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Ênio Silveira, entre outros. Editado pela Alhambra em parceria com a Embrafilme, no ano de 1985, tem organização de Orlando Senna.

[foto Reprodução CNN Brasil]

CAIU DO CAVALO

Se alguém esperava uma Roda Viva bombástica com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado,  na noite de segunda-feira (6) na tela da TV Cultura, caiu do cavalo. Fiel escudeiro do presidente sem partido, Caiado teoricamente rompeu com Jair Bolsonaro na noite em que ele apareceu na televisão em rede nacional convocando o povo a ir às ruas contra o coronavírus. Foi a chance que a TV Cultura achou para sentar alguém virtualmente no centro da roda viva e descascar o abacaxi contra o presidente da República, favorecendo a situação do governador de São Paulo, João Doria, cada vez mais candidatíssimo para 2022. Mas não foi nada disso que vimos. Os entrevistadores até que tentaram colocar fogo na fogueira, mas o que se viu foi uma fumacinha subindo. Caiado mudou o tom e não estava ali pra briga, foi um Caiado paz e amor, do princípio ao fim. O lema era “agora é tempo de unirmos forças”, “nada de brigas, de intrigas”. Aproveitou a oportunidade para falar bem do seu governo e mal do Partido dos Trabalhadores. Chegou a dizer que o “PTvírus foi tão ruim para o Brasil quanto o corona”. Até mesmo a apresentadora Vera Magalhães, anti-petista de carteirinha, roxa, mudou de assunto. Mas não teve jeito. Caiado, com aquela cara entre ironia e bobalhão, respondia não dando deixa para briga. Quando mudaram de assunto e perguntaram pelo amianto que ele liberou em Goiás, argumentou que quando sobrevoamos São Paulo, podemos ver centenas de casa cobertas com amianto. Se matasse, a cidade toda já tinha morrido de câncer”. E o programa acabou. 

[foto Reprodução TV Cultura]

DEZESSEIS

Fico assustado quando olho aqui da minha janela e vejo, a cada dia que passa, aumentando o número de pessoas que circulam. Dentro dos ônibus, à pé, de bicicleta. Quem são essas pessoas que, pelo visto, não têm medo do vírus? Dizem que são as pessoas dos serviços essenciais: enfermeiras, médicos, funcionários de farmácias, de supermercados, de postos de gasolina. O portão da garagem do meu prédio abre e fecha sem parar. Gente chegando, gente saindo. O comércio está fechado. Me contam que há avisos escritos em papel A4 colados nas portas de aço, anunciando o fechamento provisório. Ligo a televisão e vejo Madri completamente vazia, e também minha Florença. Vejo na capa do Libération uma fotografia quase em preto e branco, apenas um homem numa rua de Paris. Na capa da New Yorker a mesma coisa,  um desenho de Françoise Mouly mostra um homem e Nova York, creio eu. Um carteiro, talvez. O silêncio se instalou no meu bairro, a Lapa, enquanto ouço panelas no Facebook. O meu bairro é reacionário, fazia festas e mais festas na era do panelaço contra Dilma. Me mandaram pra Cuba, pra Venezuela e hoje se recolhem num silêncio constrangedor. Nesse silêncio, nossa voz ecoa no quarteirão todos os dias, oito e meia em ponto: Fora Bolsonaro! e Bolsonaro acabou!, inspirado naquele haitiano que ninguém nunca soube que é, como aquele chinês que parou tanques que se dirigiam à Praça da Paz Celestial. Sim, eu gostaria de poder descer e, no meio da rua, parar os ônibus que dirigem só Deus sabe pra onde. É uma ideia. 

AS TAIS FOTOGRAFIAS

A fotografia de Lalo de Almeida, publicada na edição de domingo (5), da Folha de S.Paulo, não resta a menor dúvida, é uma bela foto. Chocou os leitores a imagem de Rosângela da Silva e seus dois filhos, Arthur de 3 anos e Diogo, de 7. No entanto, é bom lembrar que não trata-se de um flagrante. A geladeira foi aberta para ser feita a foto. É verdade que a geladeira está vazia, podemos ver apenas uma garrafa de água, uma panela talvez com arroz ou feijão, alguns potes pequenos com, sabe Deus, com um pouco de comida. Este pequeno texto não quer criticar o jornal ou o fotógrafo, mas simplesmente mostrar a diferença entre um flagrante e uma foto pensada. Flagrante foi o cachorro Sully deitado ao lado do caixão do seu dono George H.W. Bush, feito pelo seu porta-voz do ex-presidente, Jim McGrath.

[[fotos Lalo de Almeida/Jim McGrath – Reprodução]

QUINZE

Viver com medo hoje, imaginando o futuro que não vem. Não vai ser um plantão do Jornal Nacional, com aqueles microfones voando, que vai anunciar o fim do isolamento. Todos às ruas! Não vai ser o plantão do JN que vai fazer barulho na minha rua, o portão da garagem subir e descer. Os cafés servir café, os restaurantes a quilo oferecer aquelas saladas maravilhosas, a Zara voltar a vender roupa de frio, o porteiro ligar dizendo que chegou encomenda, minhas filhas baterem na porta, meu filho  ligar dizendo que está chegando de BH. As bicicletas voltarem a circular Parque Villa-Lobos, a Livraria da Travessa exibir na vitrine o livro-reportagem sobre João de Deus da Todavia, o primeiro a dizer a verdade. O sol está difícil de mostrar a sua cara. A Patricia Mesquita disse que muitos passarinhos deixaram de cantar no seu jardim, por aqui não. As maritacas, aproveitando a calmaria, tomaram conta da árvore que dá pra minha varanda. O beija-flor sim, esse não tenho visto nas manhãs, enquanto leio os jornais. Á água no bebedouro que trocava dia sim, dia não, agora dura a semana inteira. Que dia a terra vai voltar a girar como sempre girou? Os jornais mostram pessoas nas ruas caminhando nas calçadas de Ipanema, como se caminhar é preciso, viver não é preciso. Pessoas dentro de casa diminuem as mortes, todos sabem, mas tem gente que não entende isso e não abre mão de ir pra rua, zambetar. O dia vai ser de muito trabalho, de exercícios de pilates aqui dentro porque lá fora, meu mundo caiu. Saudade de Marisa Monte: beija eu, beija eu, beija eu! 

[arte Magritte]