PERSONA NON GRATA

Em pouco mais de cem dias no ar na CNN Brasil, dois participantes fixos do programa #GrandeDebate já pegaram sua viola e foram tocar em outro lugar. Primeiro foi Gabriela Priolli e agora Augusto Botelho. Os dois não tiveram estômago para ouvir as posições de extrema-direita de Caio Coppolla, o outro participante do grande debate, que parece estar ali só para criar polêmica, já que seus argumentos são sempre muito rasos. Ele é capaz de defender o presidente Bolsonaro até nas atitudes mais errôneas, bizarras e facistas. Vem aí uma terceira figura para debater com Coppolla. Quem será? Será que tem estômago?

[foto Reprodução CNN Brasil]

COMBO

A Folha de S.Paulo acaba de anunciar que vai propor aos seus leitores, uma assinatura combo: a possibilidade de fazer uma assinatura do jornal, em conjunto com o jornal português Público, que tem uma linha editorial aproximada com a da Folha. O diretor Sergio Davila argumenta que “se há um enorme oceano que nos separa, há também uma língua, uma cultura e um código de valores que nos aproximam. Em Portugal ou no Brasil, somos conhecidos pelo nosso compromisso com a democracia, com o estado de direito e pelo nosso respeito aos direitos humanos”. Uma boa ideia. 

CIDADE OCULTA

Fico aflito porque ainda imagino a cidade viva, cheia de pessoas sem máscara, quando me retiro. Quando desligo a televisão, coloco o Spotify em pause, enjôo da live, fecho o livro e apago a luz. Cinco minutos depois, cansado de guerra, já estou viajando. Quatro meses já se passaram, ainda não sonhei com uma viva alma usando máscara, alguém com a máscara no queixo, dependurada na orelha, embrulhadinha na mão. Ainda não sonhei com uma mão esfregando na outra, lambuzada de álcool gel. Não sonhei com a torneira aberta, água escorrendo e eu com a mão cheia de Protex, esperando ela esquentar. Não sonho com notícias, com número de mortos, plantões, infectologistas falando, com as ruas de São Luiz do Maranhão transbordando. Sonho com uma cidade em preto e branco, vazia, tipo the end, enquanto o leão da Metro está ruivando, anunciando o filme que está apenas começando. Vejo uma roupa vermelha comum dependurada, bandeira que me acompanha há muitos e muitos anos, desde os tempos do quarto andar da 79, Rue de la Roquete, quando abanava a toalha vermelha na janela enquanto os manifestantes passavam em coro dizendo: Nem Giscard, nem Mitterrand, uma só solução, a revolução!

A ERA DAS LIVES

É live que não acaba mais. Nasceram assim de repente com a pandemia, a vontade de fazer alguma coisa bacana dentro de casa. Hoje temos lives de cantores, de chefes de cozinha, de psicólogos, de saúde, de yoga, de pilates, de família, lives interessantes, lives vazias, lives de todas as cores. O cenário são sofás, são orquídeas floridas, são estantes cheias de livros, são quadros na parede, um pedacinho da casa de cada um, um pedacinho do Brasil. Tereza Cristina, João Bosco, Bituca, Leonardo, Nando Reis, Lulu, Elba, Alceu, Geraldinho Azevedo, Skank, Titãs. A pergunta já está no ar: quando tudo isso passar, como vamos viver sem lives?

FAZENDO AS CONTAS

Acordei meio Walter Franco perguntando o que é que tem nessa cabeça, irmão? Cabeça de vento, cabeça vazia, cabeça oca, cabeça doendo, cabeça raspada, cabeça de nego, aquela bombinha dos tempos de menino, do politicamente incorreto. O que tem nessa cabeça de cada um? Aquele que está confinado, aquele que bebe Devassa num certo bar Leblon, aquele que carrega uma casa do Rappi nas costas, aquele que vende bala no farol, aquele que aparece todo dia na tela da TV falando de infectologia, aquele a ama, protesta. E agora? As cabeças estão todas voltadas para dois mil e vinte dois, já que meio um ano passou desse jeito. Passam dentro da cabeça planos para o Natal, planos para pular sete ondas, como se não houvesse meio julho, agosto, setembro, outubro, novembro e trinta e um dias de dezembro. Já providenciou o calendário de imã do ano novo pra grudar na geladeira, deu por encerrado esse dois mil e vinte e um, cancelou o sete de setembro, o dia de finados, o show do Roberto, a retrospectiva do Globo Repórter. Estamos no dia cento e oitenta e vamos pular logo para o trezentos e sessenta e seis, já que este ano tivemos o vinte e nove de fevereiro que nem me lembro mais o que aconteceu, a não ser os parabéns que mandei pro Jaguar. Vou jogar a chave do ano velho no mar, trocar a fechadura. Quem sabe?

POSITIVO

Meio-dia e vinte e um surgiu a notícia: o teste de coronavírus do presidente Jair Bolsonaro deu positivo. A GloboNews interrompeu sua programação para informar com urgência a novidade. A partir deste momento, foi praticamente assunto durante mais de doze horas. Passaram por ali todos os comentaristas, todos os apresentadores, todos os telejornais e programas e só se falava nisso. Durante mais de doze horas (que eu computei) a tarja variava pouco, mas o assunto era o de uma única frase: Jair Bolsonaro testou positivo. Em cima desta notícia de uma linha, a GloboNews conseguiu preencher toda a sua programação elucubrando em cima desta única notícia, sem grandes desdobramentos. Era isso e pronto. Quando liguei a televisão no dia seguinte, na quarta-feira (8), acredite! A frase ainda estava lá. Jair Bolsonaro testou positivo.

O CASTIGO

Eu me lembro bem as vezes que fiquei confinado, no máximo quinze, vinte minutos. Era dentro de um banheiro espaçoso, mas tedioso. Havia um vaso, um bidê, uma banheira, um box protegido por uma toalha de peixes coloridos nadando. Havia um cesto de vime onde minha mãe ia juntando a roupa suja, um armarinho espaçoso com um espelho carcomido por uma espécie de ferrugem nas bordas. Dentro do armarinho, ela guardava as caixinhas de dentifrício Kollynos, os sabonetes Vale Quanto Pesa, o estojo de primeiros socorros, uma caixinha de grampos, um pente Flamengo, o vidro de brilhantina do meu pai. No box, o Vale Quanto Pesa quase sempre no fim, uma pedra palmes, uma bucha vegetal e um vidro de xampu de ovo. A parede era de azulejo branco até a metade e a outra metade pintada de azul, tinta epóxi. Haviam toalhas comuns dependuradas, cada um tinha a sua. A minha era de cor laranja. Era ali que, de tempos em tempos, passava aqueles quinze, vinte minutos de castigo. Quando o clima esquentava entre os cinco filhos, minha mãe escolhia um, pegava pelo braço e colocava no banheiro. Eu ficava sentado o tempo todo na beirada da banheira, olhando para aquelas coisas, para o nada, esperando o tempo passar. Quando passava, minha mãe abria a porta, mostrava o caminho de saída e dizia apenas uma frase: Veja se aprende! Eu aprendi.

HADDAD TRANQUILÃO

A sensação de muitas pessoas que assistiram ao programa Roda Vida na TV Cultura nesta segunda-feira (6) foi a mesma. De que o ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato nas últimas eleições, Fernando Haddad, poderia estar sentado na cadeira da Presidência da República no lugar de quem está lá, completamente perdido, despreparado, tosco. Sem contar que é genocida, homofóbico, racista, ultra-direitista. Vamos parar por aqui. Aos poucos, os telespectadores foram percebendo que Haddad tem conhecimento de causa, que sabe construir frases conexas e bem feitas. Tem informações precisas, um pensamento reto, que é uma pessoa normal, ao contrário do vencedor. Os entrevistadores, todos representando a imprensa tradicional, ainda com aquele rancor venenoso contra o Partido dos Trabalhadores que não desapareceu do canto da boca, bem que tentaram colocar o ex-prefeito na parede. Mas não conseguiram. A âncora, como não poderia deixar de ser, citou a Venezuela e falou com brilho nos olhos e veneno no canto da boca que Lula foi julgado e condenado. Haddad soube desconstruir cada pergunta maldosa. E deixou todos em silêncio quando falou que o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff começou no dia em que ela foi reeleita. Todos engoliram em seco. Nenhum dos entrevistadores teve coragem de dizer que não foi golpe. Resultado: 7 a 1. 

[foto/Reprodução TV Cultura]

NO FUTURE

Aí, de repente, o mundo ficou esquisito pra caramba. Até as casas foram separadas umas das outras, distância mínima de cinco metros medida por uma trena dos vigilantes da saúde. Acabou o beijo, o falar no ouvido, o chupão no cangote e a canção Aquele Abraço virou uma coisa tão do passado quanto nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia. Os dermatologistas passaram a ser chamados de pessoas da linha de frente, convocados para curar as mãos secas de tanto álcool gel, de tanta água com sabão. Os pés também secaram e enrugaram de tanta água sanitária, de tanto lysoform, de pisar em tapetes antissépticos. Agora são apenas cabines individuais feitas de acrílico. Nos equipamentos das academias, nas mesas dos cafés, nas poltronas dos cinemas, nas cadeiras dos estádios de futebol, nas pistas de cooper nos parques, de dança nos inferninhos, nas raias das piscinas, até nas mesas de reuniões da repartição. No Recife, não se fala mais um cheiro pra você porque ninguém mais sente cheiro de ninguém. Ninguém se toca mais em ninguém, ninguém respira mais perto de ninguém, até o ridículo cumprimento com o cotovelo caiu de moda. Inventaram a máquina de lavar compras, os sapatos com solas descartáveis, capacetes leves e maleáveis e plástico resistente para abraço apertado. A última moda são as máscaras transparentes para sabermos se as pessoas estão rindo ou chorando.  

FALHA DE S.PAULO

Nada justifica uma chamada na primeira página da Folha de S.Paulo de sábado (4) – Morre, aos 96, o ator Leonardo Villar, que atuou em ‘O Pagador de Promessas’ – quando você encontra no interior do jornal, uma matéria pífia, minúscula, de pouco mais de uma dúzia de linhas com um título que nem merece comentário. 

[foto Reprodução]