CHEIRO DE GOLPE

Foram quase cinco meses de trapalhadas diárias. Desde que o presidente de ultra-direita, defensor de torturador e de todos com arma em punho, tomou posse, o Brasil vive de sustos e piadas. Nem vale a pena lembrar aqui o Jesus na goiabeira, o desejo de gravar alunos cantando o Hino Nacional, os 48 envelopes de depósitos, os laranjas, as milícias, o vídeo pornô, nada disso. O governo Bolsonaro não existe no quesito construir. Ele veio para demolir o país, acabar com tudo que funcionava ou não. Em cinco meses, nada de útil, nada de progresso. O dólar subiu, o PIB caiu, o desemprego aumentou, os mais médicos viraram menos médicos. E agora, José? Até agora não vimos um projeto de governo, uma ponte que ele vá construir, um hospital, uma escola fundamental, uma universidade, absolutamente nada. Ontem, 20 de maio, talvez tenha sido um dos dias mais calmos e preguiçosos do ano. À noite, a televisão foi desligada logo depois da escalada do Jornal Nacional. Nada que interessasse. O governo deve ter dado ordem de baixar a bola. Ninguém abre a boca porque vai sair bobagem, vamos encostar provisoriamente o astrólogo e fingir que estamos governando. Até quando? Essa calmaria de ontem deu tempo até pra gente respirar fundo. E sentir um cheiro de golpe.

AV

20/05/19

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo
[Roda Viva, Chico Buarque, 1967]