EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Segunda-feira, dez da noite, por exemplo. Toda semana, na seção Multitela da Folha, anunciam quem será o entrevistado de segunda-feira à noite no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. Essa semana havia uma expectativa se seria ou não o ex-presidente Lula, direto de Curitiba. Não foi. Quem apareceu por lá, foi a deputada Estadual Janaina Paschoal, aquela que costuma rodar a bandeira do Brasil nos momentos de maior euforia ou delírio. Janaina sentou-se no centro da roda-viva, se achando. Dona de verdades mas, dessa vez, pisando em ovos, com um olho nas eleições para prefeito, no ano que vem. Nesses momentos, é preciso parecer séria. O Roda Viva costuma chamar sempre os representantes dos mesmos órgãos de imprensa. Comandado pela jornalista Daniela Lima, da Folha, ela vai anunciando um a um, no início do programa: Estadão, Folha, Época, Valor Econômico, UOL, O Globo… e, muito raramente algum representante de um blog ou site de notícias. Nunca de esquerda. Os entrevistadores do Roda-Viva se preparam através de apostilas que o programa distribui a eles durante a semana, mais ou menos, a vida e a obra do entrevistado. Cada um vai com meia dúzia de perguntas e, raramente, entram em grandes polêmicas. Quando elas começam, a âncora preocupadíssima com o tempo, com um cronômetro na mão, anuncia: “Temos apenas 3 minutos para duas perguntas!”. O programa, no final, é sempre uma frustração. Perguntas ficaram no ar, respostas não foram convincentes. No caso de Janaina, falou-se de laranjas, de caixa-dois, de brigas no partido, rachadinhas, mas nenhuma deixou a deputada vermelha de vergonha. Pelo contrário. Os entrevistadores nunca reagem com veemência. O entrevistado fala verdades, mentiras, meias verdades e fica por isso mesmo. Janaina chegou a dizer que “todos os partidos fazem isso” (no caso dos laranjas) e nenhum dos entrevistados reagiu: “Mas a senhora não disse que o PSL era o novo, o diferente, aquele que ia acabar com a corrupção?” Parece que os entrevistadores não querem entrar em grandes confrontos, querem aparecer na televisão, com cara de intelectual, e pronto. É o suficiente. [AV]

UMA FOTOGRAFIA

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda qual bandeiras agitadas
Parecia um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional

CHÃO DE ESTRELAS, de Orestes Barbosa e Silvio Caldas, 1937

[foto Alberto Villas]

GOLPES & GOLPES

Quem já foi vítima da censura, lembra-se muito bem. Os espaços negros no semanário Opinião, os espaços em branco no Movimento, os diabinhos na Veja, as receitas no Estadão. A censura que veio dom o AI-5, em dezembro de 1968, cortou as nossas asas. Não podíamos voar, mas caminhar, sim. Nomes eram vetados, charges originais recebiam um X do censor analfabeto e iam pra gaveta. No meio dessa repressão toda, até um Julinho da Adelaide nasceu gritando “Acorda, amor!” Não era fácil. Listas de proibição circulavam pela reações numa época em que Dom Heldes Câmara, Paulo Freire, Miguel Arraes, Augusto Boal, Leonel Brizola, João Amazonas, Luis Carlos Prestes, eram palavrões. Resistimos. Jornal morreram massacrados, outros resistiram. Hoje, chegamos ao que chegamos. Não houve um golpe militar para derrubar a presidenta, tudo muito bem disfarçado, como se fosse a democracia, como se fosse a primavera. Chegamos a que chegamos. O presidente da República ameaçando o maior jornal do país é um escândalo que deveria ser colocado na roda de toda a imprensa. Os ratos estão comendo quietos o queijo, pelas beiradas, aos pouquinhos.  Precisamos reagir. Um espaço preto no jornal dizendo que não existe democracia sem imprensa livre já é alguma coisa, mas não o suficiente para frear facistas. Vamos reagir. [AV]

QUE É QUE TEM NESSA CABEÇA, IRMÃO?

 

Outono de mil novecentos e setenta e cinco. O frio entrava na minha pele, deixava roxa as pontas dos meus dedos, vermelho o meu nariz. O dia não tinha ainda amanhecido e eu apressava os passos nas pedrinhas do Jardin duLuxembourg, rumo à Faculdade de Filosofia. As árvores uniformes balançavam ao ritmo do Bolshoi, derrubando as últimas folhas secas, tecendo um tapete no chão, onde as pombas encolhidas se protegiam. Eu passava fazendo barulho com os meus tamancos suecos, enquanto os esquilos não estavam nem aí.

Walter Franco tinha acabado de chegar nas minhas mãos como um revolver, sem acento. Assim em letras minúsculas, caixa baixa como dizem hoje em dia, embalado entre duas pranchas de isopor, embrulhado num papel kraft transbordando de selos de jacarés do Pantanal, ariranhas, embaúbas e buritis.

Saigon rendera aos comunistas, Jacqueline Onassis, ex-Kennedy, tinha ficado sem seu Aristóteles, havíamos perdido o cronista Arnold Tonybee, o cantor Paul Robeson e o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, terra da garoa que eu nem conhecia ainda. Ficamos livres de Francisco Franco, enquanto os libaneses davam adeus às armas.

O céu de novembro já era permanentemente cinza, quase chumbo, e as fotografias que fazia quase que diariamente dos gramados campos de lá, já não eram tão verdes, tão lindos como os da canção do exílio. A revelação mostrava uma Paris quase sem cor. O pacote que retirara no correio antes de partir ao estudo de Heidegger só foi aberto no intervalo, depois de uma aula de duas horas do professor Pierre Albert sobre a imprensa dos países da cortina de ferro.

Retirei um copo de chocolate quente e sentei num banco de madeira bem em frente à máquina. O chocolate estava pelando, coloquei o copo em cima da madeira sem verniz e rasguei o papel kraft. O disco chegou intacto e o primeiro impacto foi ver Walter Franco, visto assim de frente, de John Lennon na capa, como estivesse atravessando uma nossa Abbey Road. Revólver ou revolver? Decifra-me.

Tantos anos longe, lembrava-me apenas vagamente de um Walter Franco em imagens em preto e branco na tela de uma televisão GE que pegava mal. Ele sentado no chão declamando Cabeça no Festival Internacional da Canção. Sua voz doce abafada por um festival de vaias que vinham de todos os cantos. Bem zen, ele parecia se lixar.

“Que que tem nessa cabeça, irmão, saiba que ela pode explodir.”

Voltei pra casa feliz da vida, eu que já tinha Smetak, Alfaiate, Wanderley e agora Franco. Antes mesmo de esquentar na frigideira o arroz com carne moída e milho, coloquei o vinil na vitrola e ouvi cada canção.

Feito gente, Eternamente, Mamãe d’Água, Partir do Alto, 1 Pensamento, Toque Frágil, Nothing, Arte e Manha, Apesar de tudo é muito Leve, Cachorro Babucho, Bumbo do Mundo, Pirâmides e Cena Maravilhosa.

Guardei pra mim versos e trocadilhos, depois de escutar seis vezes as composições. Descobri que o sorriso do cachorro está no rabo, que amei como pude, o éter na mente, Iara, eu te amo muito mais agora é tarde eu vou dormir e nada mais.

“Nothing

To see

Nothing

To do

Nothing

Today

About me

I’m not

Happy now

I’m not

Sad

I’m just

Nothing

Now

Looking

To the empty

Space.”

Até o meu inglês ruim era capaz de decifrar. Walter Franco foi a minha trilha sonora durante todos aqueles anos longe daqui. Ninava meus filhos, lavava pratos, cuidava de crianças, construía estradas, distribuía panfletos, caminhava pelas ruas, ruelas e pelas tabelas com seus mantras dentro da minha cabeça, pra não explodir.

“Qual é a sua menina do olho

Meia-lua na esquina do outro

Meia-lua na esquina do ouro

É sua menina do olho

Onde é uma bruxa e um bruxo

Late um cachorro babucho

Late um cachorro babucho

Onde é uma bruxa e um bruxo.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br