FOFOCALIZANDO

Londres sempre foi uma cidade muito chique. Muito mais que Paris. O chá das cinco, os ovos com bacon, o táxi preto, o ônibus vermelho, a cabine telefônica. Reis e rainhas, os Beatles e os Rolling Stones. Londres é Londres, com seu fog, sua chuvinha fina, seus verdes lindos gramados campos de lá. Londres tem a Harrold’s, a Saint Martin Shoes, as cerejas vistosas, os luminosos de Picadilly Circus, a Economist. Mesmo quando os punks invadiram a cidade, esfarrapados, espetados, rasgados, Londres foi sempre Londres. Mas lá tem também uma porção Datena, uma porção Venenosa, fofocalizando. Estou falando dos trabloides sensacionalistas que invadem aos milhões as lojinhas de jornais, já que Londres não tem bancas. É o lado esquisito de uma cidade tão aristocrata.  Os ingleses compram os jornais na boca do metrô e, no ponto final, ele vai pro lixo. Sempre foi assim. Londres é uma pessoa que usa black-tie e, um dia, resolve vestir uma bermuda surrada, uma camiseta puída, um chinelo Rider. Quem explica o sucesso dos tabloides no país da Radio Times, da Wild Life, da Face?

[foto EPA]

OLHA O PASSARINHO!

Bombardeado por notícias que chegam 24 horas de todos os lados, o leitor às vezes cansa. E pede uma leitura apenas leitura, nova e interessante. Quando alguns jornais percebem isso, acertam na mosca. O Le Monde, por exemplo, em sua última edição, publicou uma matéria de página inteira revelando que cinco novas espécies de pássaros foram identificadas na Indonésia. O editor-chefe convencional deixaria a notícia de lado ou simplesmente registraria tal novidade em uma nota curta. “Indonésia? Pássaros? Onde está o gancho?”, perguntaria ele. O editores do Monde estão procurando, cada vez mais, esse tipo de notícia. Aquela que dá ao leitor o prazer da leitura. Com um texto bem costurado, quase literário, acabamos  apaixonados pelo passarinho vermelho de Taliabu, aquele que ninguém tinha percebido nesse Planeta tão judiado e destruído.

[fotos Reprodução] 

PALHAÇADA

Repórteres inusitados, às vezes engraçados, às vezes exagerados, diferentes, inusitados, já tivemos. Nos anos 1980, Marcelo Tass fazia sucesso na pele de Ernesto Varella, um repórter capaz de acompanhar as eleições, perceber uma marca de batom no rosto de Paulo Maluf, virar pra ele e dizer: “Acho que alguma boca de urna beijou o senhor!” Indo não tão longe assim no tempo, tivemos os repórteres do extinto CQC que, inclusive, chegaram a receber tabefes dos entrevistados. Lucas Strabko, conhecido como Cartolouco, foi parar no Globo Esporte depois de algumas polêmicas no SportTV. A função dele ali é colocar um pouco de graça nas reportagens. De bermuda, cabelo oxigenado, rabo de cavalo, muita gritaria e um entusiasmo exagerado,  Lucas entra no ar sempre pra tentar animar a festa. Com uma lupa muito potente, às vezes conseguimos enxergar um pingo de graça propriamente dita, de humor. É capaz de entrar de surpresa num vestiário e mostrar a bunda de um jogador claro que, na Globo, devidamente desfocada. Berra, dança, torce e acha tudo muito engraçado, certamente bem mais do que os telespectadores. Com uma lupa na mão, na verdade, a gente sente uma certa preguiça. 

[foto Reprodução TV Globo]

VIRE À DIREITA

Em Hong Kong, os guarda-chuvas viraram símbolo das manifestações. No Chile, foi um olho fechado e, no Brasil, todos lembram, a camisa da seleção brasileira, além de um pato amarelo. Manifestações de esquerda, no caso do Chile, e de direita, no caso do Brasil. Na França, foram as patinetes que transformaram-se em símbolo dos direitistas. O suplemento L’Époque, do jornal Le Monde, publica uma curiosa matéria de capa em que pergunta: “A patinete é de direita?” Se não é, ficou com o estigma. Como no Brasil. Uma pessoa que veste uma camisa amarela canarinho e sai por aí, dificilmente é de esquerda.

[foto Reprodução]

RISONEWS

Ontem, o assunto aqui foi o tsunami de anônimos que corre o risco de tomar conta de novos programas em 2020, surfando na onda do Que história é essa, Porchat? do GNT. Lembramos que anônimos na TV já fizeram sucesso nos quadros Me Leva Brasil, de Mauricio Kubrusly, e Retrato Falado, de Denise Fraga, no início do século. Uma nova onda pode também tomar conta de sua telinha neste ano que inicia, a onda dos telejornais que misturam notícia com humor. E, mais uma vez, lembramos que num passado mais ou menos remoto, o formato foi um grande sucesso na TV Pirata, com o Casal Telejornal, uma sátira ao extinto casal 20 da televisão brasileira, William Bonner e Fátima Bernardes. Depois do sucesso do Greg News, exibido no HBO (atualmente de férias), vem ai o Fora de Hora, onde Paulo Vieira e Renata Gaspar vão apresentar um telejornal com a pretensão de ser engraçado. O programa, previsto para estrear no dia 21, vai tentar colocar humor nas notícias. Se forem notícias tiradas do nosso dia a dia, está fácil. Tudo que acontece no atual governo é engraçado, se não fosse trágico.

[foto Reprodução TV Globo]

UMA NOVA ÉPOCA

A revista semanal Época, publicada pela Editora Globo, começa o ano fiel à sua nova linha. Na semana em que o mundo inteiro tremeu de medo de uma nova guerra, quando esquentou o clima entre americanos e iranianos, a primeira Época do ano colocou na capa o assunto “a vida sem álcool”. Esqueça aquela velha newsmagazine. A Época é outra, uma revista de reportagem. 

[foto Reprodução]

UMA PROVA PARA A CRISE

Numa reportagem de página inteira, a edição de fim de semana do jornal francês Le Monde mostrou nossa realidade: Um país apático diante de um desmonte, o preço da carne nas alturas, que está fazendo muita gente comer ovo e os economistas apostando suas fichas no “agora vai!” Dois mil e vinte é uma incógnita. Se a economia levantar voo, a nave continua indo. Se der água, o risco de uma convulsão é provável. O jornal ilustra a reportagem com um jovem enfrentando a polícia de São Paulo, num protesto contra o aumento da passagem do ônibus que passou de 4,30 para 4,40. Uma notícia da semana passada que  foi praticamente ignorada por nossos jornais nacionais.

[foto Reprodução]

QUE HISTÓRIA É ESSA?

Na primeira década depois do ano 2000, uma novidade chegou ao ar na televisão brasileira. Dois quadros no Fantástico foram lançados e viraram sucesso, ano após ano. Coincidentemente, ambos tinha como atração o brasileiro anônimo. Numa era de celebridades, numa época em que a revista Caras pesava quase um quilo e vendia como pãozinho quente, a atriz Denise Fraga estreou o seu Retrato Falado e o repórter Mauricio Kubrusly estreou o Me Leva Brasil. No Retrato Falado, Denise recontava histórias vividas e enviadas ainda por cartas manuscritas ao Fantástico, por pessoas absolutamente desconhecidas, comuns, espalhadas pela Brasil inteiro. Havia uma produção, uma checagem, uma encenação impecável e o que ia pro ar era teatro, era televisão, era quase reportagem, era humor, eram histórias brasileiras exemplares. A mesclagem de realidade (o personagem narrando a história) e Denise Fraga encenado, foi um sucesso que durou quase uma década no show da vida. No Me Leva Brasil, Kubrusly saia por esse país sem tamanho, recolhendo histórias reais e deixava que elas fossem contadas pelo próprio personagem. O repórter, durante mais de uma década andou por todos os estados brasileiros, muitos várias vezes. Foi inúmeras vezes aos estados nordestinos e a Minas Gerais, celeiro de personagens e histórias maravilhosas. Foi numa dessas viagens que encontrou o homem mais sovina do Planeta, aquele que comprava uma caixa de fósforos e dividia os palitos em dois para render o dobro, 90 palitos. Mas, de repente, foram as celebridades que tomaram conta da televisão. Na era do talk-show, lá estavam atores, cantores, economistas, quase só gente famosa. Lembro-me bem que quando surgia um anônimo no Programa do Jô, o sucesso era garantido e sempre ouvíamos aquele ohhhh… ao terminar a entrevista, com todos querendo mais. No final do ano passado, sentimos um certo cansaço de gente famosa e os anônimos começaram a voltar à telinha. Via Que história é essa, Porchat?, exibido pelo GNT, percebíamos que as histórias contadas por anônimos eram sempre as melhores. Porchat teve a ideia de mesclar celebridades e anônimos para dar um charme ao programa. Convida três celebridades pra narrar histórias vividas por eles, depois vai pra platéia ouvir as histórias dos anônimos. Agora, nesse início de 2020, anuncia-se que vem aí o novo programa da Angélica. Ela que durante muitos anos entrevistou apenas estrelas nas tardes de sábado, agora vai dar voz aos anônimos. Que bom. Será que voltou novamente a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor?

[foto Divulgação]