MÚSICA, MAESTRO!

Sempre que chego a uma cidade nova, em um país que não é o meu tropical, fico de olho nas lojas de discos. Gosto de entrar, de ficar remexendo as prateleiras. Sempre foi assim. Nos últimos tempos, ando jururu. Se no final do século passado, chegava a ficar duas horas dentro de uma Virgin Megastore, na Avenida dos Champs Elysées, numa Tower Records, numa HMV ou numa Fnac, hoje passo o tempo procurando as pequenas lojas que ainda sobrevivem a esse mundo digital em que vivemos. Tem sido assim aqui na Itália. Lojas enormes de discos não existem mais. O que vejo são pequenos comércios comandados pelos cabeludos heróis da resistência. A Contempo, aqui em Florença, por exemplo, é uma delas. Essas lojinhas geralmente vendem mais discos de vinil do que CD. Quando recebi o primeiro compacto-disc – era assim que se chamava – na redação do Estadão, um Concerto de Bach, em meados dos anos 1980, achei que aquele objeto não identificado era coisa para o futuro longínquo e não para aquele momento, o meu momento aqui na Terra. Nunca poderia imaginar que ele começaria a desaparecer entre os meus dedos, comigo ainda em vida. Ainda gosto de entrar nessas lojas, encontrar lá um vinil dos Sex Pistols, uma edição japonesa do Yellow Submarine ou um estojo luxuoso do Buena Vista Social Club. Meus olhos ainda brilham. Sim, encontramos coisas que não existem no Brasil. Toda a coleção em vinil do Pink Floyd, dos Rolling Stones, o impecável RAM de Paul McCartney e um saudoso Peter, Paul and Mary, 180 gramas, novinho em folha, por exemplo. Nas poucas lojas mais populares, reina absoluta a música italiana, como já disse aqui outro dia, música que ainda não passou pelo meu The Voice particular. Mas prometo estudar melhor.

Enquanto isso, vou escutando e me divertindo com o original em italiano da Arca de Noé, aquela Arca de Vinicius de Moraes que embalou nossos filhos. Só que no original, em italiano.

A FOTO DE HOJE

Protestos pipocam em Florença.

[foto Alberto Villas]

 

GENTE

O que mais tem me impressionado aqui em Florença e em todas as cidades que temos ido nos fins de semana, são as pessoas nas ruas. Idosos, jovens, adolescentes, crianças, trabalhadores, toda essa gente está nas ruas. Ruas com calçadões, com lojas, com bancas de jornais, com bancos, com brinquedos. A cidade é para as pessoas. Os automóveis estão também aqui, poucos. O que se vê trançando pra lá e pra cá são bicicletas. Bicicletas dos mais variados tipos, das mais modernas até as mais antiquadas, velhinhas, enferrujadas. Todas circulando num zig-zag, na mais perfeita harmonia. Não é moda de fim de semana, é meio de transporte. As cidades têm vida e foram feitas para seus moradores. É uma senhora que para na banca de frutas para comprar morangos, bananas, abobrinhas, alcachofras. São pessoas que param para ver as vitrines, as obras de arte espalhadas pelos cantos. São executivos que afrouxam as gravatas e sentam para tomar um Aperol, uma Moretti, uma San Pelegrino com limão, borbulhante. As pessoas fotografam, fazem selfie. O barulho dos estudantes em algazarra é ouvido um quarteirão antes. Eles causam quando passam. Os ônibus circulam lentamente e param em pontos que lhe dão todas as orientações. De onde vêem, para onde vão, quanto tempo demoram para chegar. Nenhum papel no chão, as cidades são limpas e os grafites fazem parte dessa beleza de cenário. Enfim, as cidades daqui são exatamente o contrário da cidade imaginária do ex-prefeito João Doria.

O dia começa com uma criança andando com uma bicicletinha de madeira na praça.

[fotos Alberto Villas]

SONHO DE PAPEL

Andava meio amargurado no Brasil, acreditando mesmo que o sonho tinha acabado. Sonho meu, desde pequeno, de ler jornal de papel. Grande, o sonho era maior, escrever, fotografar, publicar. Achava que aquelas tardes de sábado quando saia de casa e ia até a banca da Praça Villaboim, em Higienópolis, comprar os jornais de domingo. Comprava sempre mais de um e ia pra casa carregando aquele peso todo para ser lido na noite de sábado e no domingo o dia inteiro. No final da jornada, antes do Fantástico,  era aquela torre de papel no chão de casa e as crianças em volta dela, já com sono, enjoadinhas querendo dormir. Há muito tempo já não vivia mais isso. Os jornais andavam magros e nem chegavam mais às bancas no sábado à tarde. E não eram só jornais. Costumava comprar todas as revistas semanais e o que tivesse de mais interessante. Não perdia a Bravo, a Próxima Viagem, a Bizz, a Set, a Horizonte, a Natureza, a Caminhos da Terra. Devorava tudo. Mas, ultimamente, andava meio amargurado porque, a cada dia que passava, não acreditava mais nesses dias, nesses fins de semana, nas bancas de jornais que passaram a vender Coca-Cola e bonecos de pelúcia. A melhor banca da Lapa, nem abria mais aos domingos. Ai eu vim-me embora passar uma temporada na Itália e, ao acordar encontrei uma cena parecida com a antiga.

Jornais do mundo inteiro, robustos, transbordando de coisas interessantes pra ler. Tenho comprado diariamente o La Repubblica, logo cedo, com o mesmo gosto que ia até a banca da Villaboim comprar o JB. O La Repubblica, todo dia tem um caderno especial com oito, dez páginas: Esporte, Lab (de ciência e tecnologia), Economia & Negócios, Food (de comida, claro), Club (de design), Robinson (de cultura), tem a revista Il Venerdì (às sextas-feiras, claro), a revista Donna aos sábados e a L’Espresso aos domingos.  Isso para citar apenas o básico. Está publicando em capítulos a história da vida e morte de Aldo Moro e ontem, por exemplo, publicou um caderno especial sobre os riscos da poluição marítima. Uma reportagem mostrava o drama de alguém que teria de viver uma semana sem usar plástico. Todo dia encontramos no Repubblica, um mapa mundi com tudo de importante que aconteceu no mundo, como se estivéssemos olhando a tela de um computador. Aos sábados, compro Il Manifesto, diário do Partido Comunista, que tem um dos melhores cadernos culturais do pedaço, o Aliás. As pautas são criativas até o fio do cabelo, como se diz em Minas Gerais. Aos poucos vou conhecendo melhor as revistas, a Il Fotografo, a Internazionale, só pra citar duas. E vou reencontrando velhas paixões: Airone, Gardenia, Linus, Il Viaggio. Estou me sentindo um jovem que gostava, além dos Beatles e dos Rolling Stones, de jornais e de revistas. E que sonhava em ser jornalista quando parava diante de uma banca e via um mundo pela frente.

[fotos Alberto Villas]

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Quando se chega em Florença para morar a história é outra

Chegar numa cidade, seja ela qual for, para conhecer, fazer turismo, é uma coisa. Para morar, outra completamente diferente. Às vezes vira amor à primeira vista, sem muita explicação. Nunca deixei de gostar de Barcelona, por exemplo, desde o dia em que pisei lá pela primeira vez, jovem cabeludo.

Com Florença aconteceu a mesma coisa. Quando bati os olhos no por do sol na Ponte Vechio, ainda na minha juventude, não acreditei muito que aquilo era de verdade, que não era fotoshop de cartão postal. Agora, cheguei aqui para morar e não apenas para pular de museu em museu ou andar pelas ruas consultando mapas.

Chegar para morar é tirar tudo da mala, inclusive os livros pra ler, a tesoura pra cortar a unha, a toca de banho, o ferro de passar roupa, a pasta com os boletos pra pagar no Brasil, via celular. É acordar e ir ver na caixinha de cartas se tem correspondência, é tirar da mala a graxa para engraxar os sapatos.

Minhas primeiras impressões de Florença como morador são simples assim.

Os italianos não cozinham o macarrão como os brasileiros, aqui ele está sempre al dente.

A variedade de tomates nos mercados deixa nossos olhos arregalados, pelos formatos, cores e pelos sabores.

Os morangos daqui são todos enormes dentro da caixinha, mesmo os que estão por baixo.

Chamam a manteiga de burro e ela é quase branca, com muito pouco sal.

Os carteiros são elegantes e os correios funcionam impecavelmente como deveriam funcionar em qualquer lugar do mundo.

Aqui tem iogurte de banana, laranja vermelha e Fanta sabor sambuco.

Aqui, a caixa de qualquer loja lhe dá o 1 centavo de troco. Não conhecem essa história de “não tenho troco” ou “posso te dar umas balas?”

O que mais se ouve aqui é prego e gracie a voi.

Tem dias que os automóveis amanhecem brancos, cobertos com a areia que a chuva lança do Saara.

A música italiana ainda não passou pelo meu The Voice particular. Ainda ouço Caetano e Gil pra não cair.

As ruas são impecavelmente limpas, apesar dos milhares de turistas que circulam pela cidade.

O lixeiro que recolhe o lixo orgânico duas vezes por semana na minha rua fala inglês e o operário que estava consertando o calçamento em frente à minha casa vestia uma camisa Lacoste verde.

Os motoristas precisam ter uma paciência de Jó para circular no centro histórico, transbordando de gente e, muitas vezes, não tem. Vão dando umas buzinadinhas e avançando.

É muito comum em Florença, como em toda cidade turística, ver gente puxando malas pelas calçadas.

Se bobear, ficamos horas numa loja de utensílios para casa, admirando a beleza do design dos pratos, das travessas, dos talheres, das cafeteiras, dos abridores de vinho, dos jogos americanos.

Os homens são lindos e charmosos e as mulheres são lindas e charmosas. Mesmo usando jeans, camiseta e tênis parecem muito chiques. Acho que o segredo é o foulard e os óculos escuros estilosos.

Os italianos são tão entusiasmados ao falar que, muitas vezes, você vê dois conversando e não sabe se estão se divertindo ou discutindo.

As papelarias, não existem iguais no mundo.

As bancas de jornais vendem de tudo, como as do Brasil. A única diferença é que vendem jornais de diversas tendências.

Tickets de ônibus e selos, você compra nas tabacarias.

A fila para entrar na Galeria Uffizi não acaba nunca.

Todos os idosos andam com um jornal debaixo do braço.

Não tem nada mais divertido do que ouviras crianças falando italiano, entusiasmadas e gesticulando como seus pais.

A água da torneira é tão boa quanto a água do filtro.

Nessa primavera, é difícil encontrar uma mesinha na calçada que não tenha uma taça alaranjada de Aperol.

As embalagens dos entregadores de pizza são quadradas.

Diferentemente do Brasil, come-se muita pizza de dia por aqui.

É divertido pegar as moedinhas de euro e ver de onde vieram: Portugal, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Grécia…

Aqui a gente vê muita bicicleta velhinha andando pela cidade, pintadas de verde, de rosa, de azul ou de bolinhas.

Ainda não vi nenhum italiano dizendo porca miséria, mama mia ou dá-me um Cornetto!

Nenhuma livraria tem, na vitrine, livros de Elena Ferrante.

Florença é uma cidade misteriosa, tão misteriosa quanto uma janela fechada com livros.

 
 [Crônica publicada no site da revista Carta Capital/20.04.18]
cartacapital.com.br
[foto Alberto Villas]

AS QUATRO ESTAÇÕES

Ainda é primavera em Florença, mas o verão já começa a colocar suas manguinhas de fora. Se no início de abril, ainda havia tons de cinza no céu, essa segunda quinzena chegou para mostrar sua cara. Logo cedo, o sol já bate na janela da nossa casa, fazendo o que pode para espantar a preguiça de quem dorme altas horas. Nas ruas, o verão vem chegando com tudo. As mesinhas nas calçadas já estão lá desde cedo. As árvores vão ficando verdes a olhos vistos, os jardins começam a lembrar a música Back to Bahia, de Gilberto Gil, quando ele diz “dos verdes tão lindos dos gramados campos de lá”. Pessoas andam nas ruas arrastando suas malas, são chegadas e partidas a todo momento. Assim Florença vai se preparando pro verão que promete. Os termômetros saíram dos 10, 12 graus e agora já chegam a 20, 22 graus. As vitrines com os sorvetes mais gostosos do mundo são motivos de água na boca e às vezes, selfies de nórdicos encantados com o verde do pistache, o amarelo manga, o branco imaculado do coco. Seguimos aqui, de olho em tudo, de olho na exposição The Florence Experiment, de Carsten Höller e Stefano Mancuso, que foi aberta no Palazzo Strozzi e está nos esperando.

A FOTO DE HOJE

Mulher faz suas anotações numa tratoria de Florença.

[foto Alberto Villas]

TORRE DE BABEL

Quando acordo e saio pra comprar o pão, já vejo turistas com mapas de papel nas mãos ou com os seus smartphones consultando e checando os nomes das ruas. Vou caminhando devagar à beira do Rio Arno e pensando: O que traz tanta gente à cidade onde estou morando? Gente de todos os cantos e nações. Passando por eles, ouço dezenas de línguas. Algumas conhecidas, o inglês, o francês, o alemão, o espanhol, o árabe e o japonês, que está na cara. Mas ouço línguas nunca ouvidas antes e que não faço a menor ideia de onde vêem. Ouço russo, holandês, coreano, grego e volto a perguntar: Por quê Florença atrai tanta gente? Com a chegada de cada fim de semana, aumenta o movimento nas ruas. A partir de quinta, é bem visível. A todo momento, basta olhar pra frente, pra trás, pro lado direito ou esquerdo, que tem alguém fotografando uma beleza da cidade. Fico imaginando, todos os dias quando passo pela Ponte Vecchio, que tem alguém ali naquela multidão que está vendo aquela maravilha pela primeira vez. Lembro-me da minha primeira vez, quando saquei uma Pentax Trip 33 e fiz a primeira foto, talvez ainda em preto e branco, não captando os tons de vinho, amarelo, ocre, salmão que ela reflete nas águas do rio. A cada dia vou descobrindo e espero ir contando aqui pequenos detalhes que faz essa gente toda do Planeta Terra baixar aqui e sair com os olhos brilhando.

A FOTO DE HOJE

Uma coluna no centro histórico de Florença.

[foto Alberto Villas]

SONHO MEU

Adoro os mercadinhos daqui, aqueles que só vendem frutas e verduras. São poucas e boas. Quando me lembro do Sacolão da Lapa, é que cai a ficha que nasci numa terra onde tudo que se planta, cresce e floresce. Aqui só temos um tipo de laranja, um tipo de banana, um tipo de limão. Nada de banana ouro, prata, maçã. Nada de laranja bahia, laranja lima, seleta. As frutas exóticas estão embrulhadas uma a uma, a manga, o maracujá, o mamão. O mesmo acontece com o chuchu, embrulhado um a um como se fosse o antigo dores Dulcora. Dá vontade de comprar um e pedir pra embrulhar pra presente. Mas justiça seja feita, a abobrinha é muito mais saborosa, bem como a alcachofra e os tomates.

O fuso horário valoriza as nossas madrugadas. Foi na calada da noite que fiquei sabendo que o Botafogo empatou com o Palmeiras nos minutos finais, e que o meu América Mineiro caiu pro segundo lugar, E  que também morreu a nossa querida Dona Ivone Lara. Amanheci com a música Sonho Meu, cantada por Maria Bethânia e Gal Costa, na cabeça, e sei que assim vai ser durante todo o dia. Sonho meu, sonho meu, vá buscar quem mora longe, sonho meu.

Com o fuso horário, lavamos a alma no início da tarde de ontem ao vermos as bandeiras do MTST tremulando na janela do triplex sem dono do Guarujá. As imagens interiores gravadas pelos militantes revelaram para o país um apartamento nada luxuoso como diz o juiz de camisa preta. Triplex luxuoso nenhum tem um tanquinho daquele na área de serviço. A arquitetura de interior dos milionários é outra, nada de tanquinho na área de serviço.

Com o fuso horário só fiquei sabendo de manhã, com o sol batendo na minha janela, que os argentinos foram protestar em frente a embaixada do Brasil em Buenos Aires, exigindo a libertação do único preso político do nosso país.

Agora, a notícia do Doria em primeiro lugar nas pesquisas para governador de São Paulo, só me anima a deixar a minha Florença no último pau de arara.

A FOTO DE HOJE

Alcachofras num mercadinho de Florença.

[foto Alberto Villas]

METEOROLOGIA

É sagrado. Todos os dias caminho muito pelas ruas, pelos cantos, pelas cercanias de Florença. No final da jornada, o smartphone registra cinco, sete quilômetros andados. Vou descobrindo a cidade, os cantos, os grafites nos muros, as panificadoras, as livrarias, os sebos, as bancas, a arte nos muros, as obras da prefeitura que são muitas por aqui. É primavera, os brotinhos nas árvores deixando tudo verde não me deixam mentir, mas a meteorologia anda contrariando os dias, alguns que amanhecem azul, com sol, e outros que amanhecem cinza, com garoa. O meu livro ainda está no processo de pesquisa, uma longa e deliciosa pesquisa através dos anos, desde o dia em que nasci. Quando começar a escrever, sei que não paro mais. Florença é uma cidade que ferve nos fins de semana, com turistas que chegam de todos os cantos e nações. Tem americano, tem francês, tem alemão, tem grego, tem japonês, coreano, e tem aqueles que a gente não sabe de onde vieram, tamanha enrolada língua que falam. Nesses dias temos procurado sair daqui, dar uma volta por perto, por lugares que a gente imaginava apenas em presépios. O mundo ficou mais fácil com a Internet e todos os dias a gente tem notícias do nosso país. Notícias que não nos animam nem um pouco. As horas vão passando e o único preso político do país continua preso. Mesmo longe do seu povo, continua liderando as pesquisas para as eleições de outubro, que estão chegando. Sentimos um nó no peito quando lembramos que elas vão chegar e os golpistas só encontram uma saída, manter preso o líder das pesquisas, o preferido pela maioria. Sentimos um nó no peito quando lembramos que estamos há um mês sem Marielle e que eles não vão prender os assassinos, mesmo sabendo quem são.

A FOTO DE HOJE

Muro de Florença.

[foto Alberto Villas]

O TRAUMA

O livro foi capa do jornal francês Libération e, além de capa, ganhou três páginas no suplemento Le Monde dês Livres de um dos jornais mais importantes do mundo. Le Lambeau, do jornalista Philippe

Lançon chega às livrarias com a promessa de se tornar um best-seller, de levar prêmios importantes durante 2018 e de ser considerado – como dizem os franceses – o livro choc do ano. Lançon estava na redação do jornal satírico Charlie Hebdo naquele 7 de janeiro de 2015 quando terroristas, armados até os dentes, entraram atirando e dizimaram praticamente toda a redação do jornalzinho, vingança contra as piadas com Maomé. Lançon estava ao lado do cartunista Cabu, mostrando a ele um desenho, quando o massacre começou. Só Deus sabe como ele sobreviveu. Três anos depois, o sobrevivente resolveu contar a sua história de como conseguiu sobreviver, principalmente depois do massacre. Cada palavra foi escolhida a dedo para transformar um poço até aqui de mágoa. São fragmentos de um pensamento equilibrado e muito coerente com o mundo em que vivemos. Esperamos que o livro, publicado na França pela Gallimard, uma das editoras mais importantes da Europa, chegue ao Brasil para se juntar ao O pai da menina morta, de Tiago Ferro, publicado recentemente pela Todavia, em que ele faz – em forma de romance – um inventário da vida depois da morte de sua filha Manuela, a Manu, de nove anos. Duas obras que se casam de uma maneira emocional surpreendente.

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A FOTO DE HOJE

A primavera vem chegado em Florença.

[foto Alberto Villas]

MEUS CAROS AMIGOS

Eu nunca me esqueço aquele dia em que cheguei num pequeno hotel em Gobelins para entrevistar Augusto Boal. Eu levava dentro de uma bolsa tiracolo, uma fita K7 com uma gravação tosca que coloquei pra rodar num gravador portátil, em cima da cama daquele quarto de hotel. Lembro-me perfeitamente de Boal ouvindo a canção escrita por Chico Buarque em forma de carta, dirigida a ele. Algum tempo depois, Meus Caros Amigos virou nome de disco, canção gravada num  vinil, nosso hino naqueles anos em Paris. O refrão “aqui na terra estão jogando futebol/tem muito samba, muito choro e rock and roll” grudou na nossa cabeça durante todos aqueles anos que antecederam a abertura, a volta definitiva. Hoje, o mundo mudou. Não estou vivendo em Florença querendo derrubar a ditadura militar como vivera outrora. Mas sofro igual quando entro no Skype, quando o meu smartphone apita com mensagens do Brasil, quando folheio os jornais do meu país na tela do computador. Se a agonia era ver uma ditadura implantada no país, a tristeza hoje é de ver um homem só, que está preso, longe do seu povo. Se há uma semana, ele estava sendo carregado nos braços dos seus, falando para milhares de brasileiros, de norte a sul, de leste a oeste, hoje ele está proibido de encontros, de subir num caminhão de som, de ver o horizonte de ponta a ponta. Hoje ele está trancafiado numa sala, numa cela, numa cilada, sem provas, sem saber o dia de amanhã, apesar de você. Fico aqui numa certa angústia como se aquele velho disco de vinil tivesse emperrado e ficasse repetindo sem parar: “Aqui na terra estão jogando futebol/Tem muito samba, muito choro muito choro muito choro muito choro…”

A FOTO DE HOJE

Num muro de Florença.

[foto Alberto Villas]

 

ESQUECERAM DE MIM

Hoje os tempos são outros. Se outrora esperava agoniado os recortes de jornais que chegavam em envelopes verde e amarelo, ou uma semana depois em jornais esfarrapados na sala de espera da loja da Varig na Avenida dos Champs-Élysées, hoje chegam no meio da madrugada via Internet. Folheio daqui os jornais brasileiros que ainda estão na gráfica e nem precisam vir pelo correio. Acompanho diariamente os vulcões que acontecem por ai e que, em poucas horas, vão esfriando, virando cinzas. Quem matou Marielle? Onde está Amarildo? Como anda o processo do Porto de Santos? De quem era aquelas malas com milhões encontradas no apartamento de Geddel? O que foi feito daquela fita em que ouvimos “é preciso manter isso?” De quem era aqueles  500 quilos de pasta de cocaína encontrados num helicóptero? Quem fim levou as denúncias do rolo entre CBF e Rede Globo? Como andam os processos contra Moreira Franco? O que foi feito daquela denúncia dos 52 milhões pro José Serra? E o escândalo do aeroporto em Claudio, deu em quê? São apenas algumas perguntas.

A FOTO DE HOJE

Nikonicos enfrentam a chuva em Florença.

[foto Alberto Villas]

 

PRESO POLÍTICO

Havia muitos naquela época quando deixei o Brasil pela primeira vez para morar em Paris. Eram chamados de terroristas, guerrilheiros, vermelhos ou comunistas. Iam sendo caçados em seus esconderijos e jogados em porões escuros. De vez em quando, uma fotografia em preto e branco aparecia nos jornais, algumas dezenas deles posando como fosse um enorme time de futebol. Estavam indo embora, sendo trocados por um figurão da política internacional, sequestrado pelos companheiros que ainda não tinha caído nas garras dos militares. Uma música rodava na vitrola e nos enchia de emoção, era Gil cantando Não Chore Mais em português, que chegava a ser melhor que o original em inglês do jamaicano Bob Marley: “Amigos presos, amigos sumindo pra nunca mais”. Foram muitos, todos presos políticos. Os jornais eram censurados, e presos mortos muitas vezes apareciam nas manchetes como se tivessem sido atropelados. Os leitores se espantavam com aquelas receitas de bolos que nunca davam certo, em plena página que não era do suplemento feminino, onde normalmente apareciam as receitas de bolos. Na Veja, apareciam diabinhos e arvorezinha, símbolo da Editora Globo, nos lugares mais bizarros. No jornal opinião, eram espaços ora brancos, ora pretos. Vivíamos uma ditadura ferrenha. Hoje, ninguém mais sabe o que vivemos, isolados em cômodos de uma cada da mãe Joana. E hoje temos apenas um preso político, condenado sem provas por um golpe silencioso e cruel, em comum acordo com a mídia, outrora combativa, com o Supremo, com tudo. Florença está sempre silenciosa nas manhãs que se despedem do inverno. Se você passar numa banca de jornal e comprar o jornal Manifesto, vai encontrar lá uma notícia em uma coluna dizendo que o argentino Adolfo Pérez Esquivel, ativista político, está sugerindo o nome do único preso político brasileiro para o Prêmio Nobel da Paz de 2018.

A FOTO DE HOJE

Muro de uma ruela em Florença, na Itália

[foto Alberto Villas]

LOTTA CONTINUA

Mesmo com os tempos modernos, vivemos uma certa aflição quando estamos distantes mais de dez mil quilômetros da Terra Brasilis. O dia de sol nos animou a bater perna e assim foi, o dia todo. A felicidade é grande de passar numa banca e comprar o jornal do domingo como naqueles velhos tempos em que íamos carregando aquele quilo e meio de Estadão, de Folha. O suplemento Aliás do jornal comunista Il Manifesto é o máximo. Só conhecia online e agora tive o prazer de pegar, de passar as páginas de papel, de sentir o cheiro. Cultura à toda prova. A revista L’Espresso agora vem junto com o La Replubblica, meu vício aqui. Fizeram o que O Globo fez no mês passado com a Época, cantando que era a primeira experiência do gênero no mundo. Mentira de O Globo. Aqui, a L’Espresso já vem dentro do La Repubblica aos domingos há um bom tempo. O dia foi de sossego, com direito a um pitstop para um Aperol na calçada, observando as mulheres e os homens mais bonitos do mundo passando. Nove da noite sabíamos que tinha três decisões no futebol. Sem transmissão, apenas acompanhando o minuto a minuto pelo UOL. Torcendo pro Botafogo, pro Corinthians e, em Minas, pra ninguém, fiel ao meu América. Deu o que queria. Corinthians campeão. Botafogo campeão. Nenhum grito na janela, nenhum foguete estourando no ar. Vitórias silenciosas. Como silenciosa foi a prisão de Lula, mil vezes mais aflita para nós que as duas disputas de pênalti. Sabíamos que Lula estava assistindo ao jogo e ficamos imaginando que ficara feliz com a vitória do timão. Vimos a notícia de sua prisão na escalada do TG-La Sete e uma reportagem como não costumamos ver ai. Lula sendo carregado pelo povo e depois preso, sem provas. A reportagem de Paolo Argentini terminava dizendo que Lula é – disparado – o candidato favorito às eleições de outubro. Logo cedinho, vamos a uma papelaria comprar envelopes com as cores da bandeira da Itália para enviarmos cartas ao ex-presidente. Vamos contar a ele que estamos longe, mas sempre ao seu lado porque, como dizem aqui, la lotta continua.

A FOTO DE HOJE

Um velho e bom 2CV vermelho sobre uma estradinha cercada de oliveiras.

[foto Alberto Villas]

PERDEMOS

Perdemos, de novo. Tinha eu quatorze anos de idade quando perdemos pela primeira vez. Quando vi os homens de verde oliva reconstruindo o muro que separava os pobres dos ricos, quando vi as mulheres católicas marchando pelas ruas com terços na mãos e dizendo crendeuspadre aos comunistas. Agora perdemos de novo e perdemos feio. Perdemos devagar, assistindo um gol após o outro, como se estivéssemos frente ao tal sete a um. A derrota não começou ontem ou anteontem, começou no dia em que o culpado recebeu um telefonema do diretor do Ibope, cumprimentando-o pela vitória e, alguns minutos depois, ligou novamente para dar o tal “erramos”. Aécio Neves não engoliu o segundo lugar e tornou-se o responsável número 1 pelo golpe. O responsável número dois foi a Rede Globo de Televisão, apesar de muitos de seus funcionários e todos os seus diretores jurarem de pés juntos que não têm nada a ver com isso. Os irmãos Marinho tiveram uma participação fundamental para criar esse cenário de caos no país, do mesmo jeito que tiveram quando tinha eu quatorze anos de idade, repito. Quem não se lembra do entusiasmo de alguns de seus repórteres entrando com flash às sete da manhã de João Pessoa, de Aracaju, do Rio, de São Paulo, de Porto Alegre, informando-convocando a população para a grande manifestação para derrubar a presidenta eleita pela maioria do povo? A participação da Rede Globo não foi sutil, foi apenas travestida de “grande cobertura”, como se estivessem fazendo jornalismo de verdade, lá de cima das sacadas do prédios. Talvez daqui a cinquenta anos ela vá reconhecer o erro, como reconheceu cinquenta anos depois daquele 31 de março de 1964. Mas ai não estaremos mais aqui, praticamente nenhum de nós. Florença hoje amanheceu com o céu coberto de nuvens cinzas mas a meteorologia promete sol para este 6 de abril de 2018. Lá longe, a gente vê um pedacinho de céu azul que virá até nós quando as nuvens forem embora. Os primeiros comerciantes já se movimentam nos calçadões arrumando suas mesinhas para o café da manhã, as lojas começam a subir suas portas, os floristas separam as tulipas murchas das tulipas novinhas, isso pra não dizer que não falei de flores.

A FOTO DO DIA

Logo cedo o carrinho já estava na calçada expondo Giotto, Raffaello, Botticelli e outros gênios da pintura.

[foto Alberto Villas]

O GOLPE MILITAR

Nos anos 1970, eu morava em Paris no quarteirão mais comunista da cidade. Todo resultado de eleição dava o 11ème na cabeça como o bairro mais de esquerda da cidade luz. Tínhamos uma toalha de mesa vermelha e eu brincava que se a sacudisse na janela que dava pra Rue de la Roquette, o povo sairia em passeata, cantando a palavra de ordem: “Ni Giscard, ni Mitterrand! Une seule solution: La Révolution!” Era ali no quarto andar no número 79 que sonhávamos com o fim do regime militar, que não vinha nunca. Agoniado, ia até a livraria Joie de Lire, no Quartier Latin, comprar os jornaizinhos clandestinos do meu país, da Argentina, do Uruguai, dos países vizinhos, todos vítimas dos militares. As noticias eram poucas. Ainda não havia Internet e as noticias chegavam esparsas e atrasadas. Os jornais alternativos que o carteiro colocava na caixinha de carta que ficava no andar térreo do nosso prédio davam um respiro, uma esperança de que um dia voltaríamos a ter democracia, eleições livres, candidatos de esquerda e de direita. Saiu o Emílio, entrou o Ernesto e depois o João Batista e a gente ali naquela agonia. Hoje, aqui instalado em Florença, na Costa di San Giorgio número 77, sinto uma agonia no peito, acompanhando as noticias pelo UOL e breves flash na televisão que só fala italiano. Lá fora está chovendo, o céu está cinza e o silêncio é sepulcral. Com esse fuso horário, vou passar a noite esperando notícias do meu país.

A FOTO DO DIA

Grafite num muro de Florença

[foto Alberto Villas]

BYE BYE BRASIL DE NOVO

Quando fui-me embora do Brasil pela primeira vez, peguei um avião da Varig no aeroporto do Galeão, com destino a Paris.

Hoje vou pegar um avião da Latam, no aeroporto de Guarulhos, com destino a Florença.

Eu era um jovem cabeludo que usava tamancos suecos, uma calça vermelha e um casaco de general.

Hoje uso tênis Adidas, um jogging e uma camiseta vermelha da GAP.

Era casado de pouco, sem filhos, vinte e poucos anos e levava uma mala cheia de ilusão.

Hoje sou casado pela segunda vez, quatro filhos, uma neta, um neto e levo uma nécessaire com remédios para tireoide e colesterol.

Leia também:
Marielle, Herzog, Edson Luís: quando o luto vai às ruas

Levava na mão o livro Eram os Deuses Astronautas?, de Erich Von Daniken, para ler durante 11 horas de voo.

Hoje levo O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer, para ler durante 12 horas de voo.

Gostava de passarinhos e deixei por aqui várias gaiolas com periquitos, pintassilgos e canarinhos belga.

Hoje não prendo mais passarinhos, mas na varanda do meu apartamento, deitado na rede, amo quando eles chegam pra comer sementes de couve da minha hortinha.

Ouvia Gal cantando Índia, Caetano cantando Sugar Cane Fields Forever e Luiz Melodia anunciando que se alguém quisesse matá-lo que matasse no Estácio.

Hoje, ouço Nando Reis cantando Dupla de Ás e o filho do Caetano anunciando que todo homem precisa de uma mãe.

Eu tinha pai e mãe que foram ao aeroporto para me dar um até breve.

Hoje, não tenho pai nem mãe e são minhas filhas que vão se despedir de mim.

Eu gostava do Fantástico, que era o show da vida e uma novidade na televisão.

Hoje vejo o Decora, o Papo de segunda e as receitas de Rita Lobo no GNT.

Eu tinha o cabelo meio loiro, cheio de caracóis e o apelido de Satyricon.

Hoje tenho o cabelo curto, nenhum fio branco e uma desconfiança grande dos meus amigos de que eu pinto. Mas nunca pintei.

Eu usava óculos redondos com 0.75 na lente esquerda.

Hoje, os óculos não são mais redondos e com 3.5 na lente esquerda.

Eu nunca tinha experimentado comida japonesa e sonhava conhecer a Liberdade.

Hoje adoro comida japonesa e como até no shopping.

No sacolão, não havia kiwi, grapefruit, mangostão, nem physalis.

Eu comia muita banana, chupava muita laranja e a maçã vinha da Argentina embrulhada num papel de seda azul.

Eu lia Veja, Realidade e o jornal Opinião.

Hoje leio CartaCapital, Piauí e Rolling Stone.

Eu tomava cerveja Ouro Branco, Crush e leite Itambé.

Hoje tomo cerveja 1664, Fanta Laranja e Nutren Senior.

Eu não conhecia São Paulo e, como bom mineiro, tinha medo de vir aqui.

Hoje, conheço São Paulo mas ainda confundo Heitor Penteado com Teodoro Sampaio e Teodoro Sampaio com Doutor Arnaldo.

Eu falava fotocópia, sinal de trânsito, bússola e keds.

Hoje falo Xérox, farol, Waze e Nike.

Eu torcia para o América Mineiro que foi vice-campeão e o Galo campeão.

Hoje continuo torcendo pro América Mineiro que acaba de perder de dois a zero do Galo.

Eu não tinha carro e o meu pai tinha uma Rural Willys vermelha e branca.

Eu tenho um Nissan Tiida preto que vai ficar com nossas filhas.

No dia em que eu fui-me embora do Brasil pela primeira vez, levei um talão de travel cheque e alguns francos franceses.

Hoje, levo um cartão Visa e um alguns euros.

Eu não falava uma palavra de francês no dia em que fui-me embora do Brasil pela primeira vez.

Hoje, falo francês, mas o meu italiano continua muito ruim.

Quando sai daqui, os termômetros da Cidade Maravilhosa marcavam 38 graus e quando cheguei em Paris, dois graus negativos.

Hoje, vou sair daqui com 38 graus e vou chegar em Florença com 12 graus positivos.

Eu sai daqui levando na mala uma agenda Pombo de papel, um despertador, uma calculadora e uma câmera fotográfica Pentax Trip 35.

Hoje, levo um smartphone no bolso.

Levei daqui uma goiabada Cica e uma latinha de guaraná pro Humberto e pra Marisa.

Hoje, vou levar um doce de leite Aviação pro Bernardo.

Eu tinha uma conta no Banco da Lavoura de Minas Gerais.

Hoje, tenho uma conta no Bradesco Prime.

Eu escrevia poemas pro Suplemento Literário do Minas Gerais numa velha Remington portátil e hoje escrevo crônicas pra CartaCapital num MacBook Air.

O mundo mudou ou fui eu?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DOIS CÓRREGOS

No dia em que o estudante Edson Luís morreu, no Rio de Janeiro, estávamos a três dias de completar quatro anos do golpe militar que arrancou da presidência João Goulart, o Jango. Era fim de verão e estávamos insatisfeitos, revoltados nas ruas.

No dia em que a vereadora Marielle Franco morreu, era também fim de verão, mas ele insistia em ficar nos 40 graus. Já era noite e o calor abafado molhava as camisas das pessoas que passavam pela Rua Joaquim Palhares, no Estácio. Estávamos insatisfeitos, em casa, acabando de ouvir as notícias no Jornal Nacional.

O tiro que atingiu em cheio Edson Luís, esparramando sangue na calçada do Restaurante Calabouço, partiu do revólver de um policial anônimo, um daqueles que era contra todos nós, nas ruas.

Os tiros, que foram muitos e que acertaram a cabeça de Marielle, vieram do carro vizinho que a perseguia há vinte minutos, mas, na verdade, há muito tempo.

 No dia seguinte, Edson Luís virou manchete dos jornais dependurados nas bancas. Mesmo com os militares de olho em cada palavra escrita, não tiveram como segurar as manchetes da morte de um estudante de 16 anos, vindo de Belém do Pará, morto na fila de um restaurante popular.

Marielle também foi parar na primeira página dos jornais nas bancas de conveniência, no dia seguinte, num registro tímido porque os editores acreditavam ser apenas mais um corpo caído no meio de tantos que caem todos os dias na cidade outrora maravilhosa, hoje apenas bonita por natureza.

Um dia antes da morte de Edson Luís, o mundo perdera Yuri Gagarin, o cosmonauta soviético de 34 anos que fora pro espaço sete anos antes. Morreu de morte boba, um acidente de ultraleve, em Kirjatch. Boba pra quem já havia corrido tanto risco, flutuando no espaço sideral.

Um dia antes da morte de Marielle, o mundo perdeu o astrofísico britânico Stephen Hawking, aos 76 anos, deixando-nos a ver estrelas. Ele estava na primeira página do maior jornal do país no dia seguinte, mas a manchete principal informava que Jucá era o primeiro réu no Supremo alvo da Odebrecht. Manchete que praticamente passou desapercebida.

O Brasil de Edson Luís, aquele de 1968, era outro e não podia deixar de ser. Não tínhamos smartphone, não precisávamos de senha, não havia leite desnatado e os corações que batiam mais forte eram mesmo os corações dos estudantes. Poucos meses depois, viria o Ato Institucional de número 5 para tornar mais fácil a censura, a repressão, a tortura, a morte, o desaparecimento.

O Brasil de Marielle, esse de 2018, é uma casa grande da mãe joana, um país aos frangalhos onde ninguém sabe o dia de amanhã. Temos smartphones, milhares de senhas e leite desnatado, semidesnatado e integral. Daqui a poucos meses teremos eleições presidenciais, mas sequer sabemos se o nosso candidato será candidato.

Somando, foram pouco mais de meia dúzia de tiros que mataram Edson Luís e Marielle Franco.

De Edson Luís, podaram seus momentos, desviaram seu destino e seu sorriso de menino, de acordo com Wagner Tiso e Milton Nascimento.

De Marielle Franco, resta uma velha canção do beatle John em que ele dizia que woman is the nigger of the world.

Se em 1968 caminhávamos contra o vento, sem lenço e sem documento no sol de quase dezembro, hoje, em 2018, dançamos ao som do funk perguntando que tiro foi esse, que tiro foi esse?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O BONDE DA HISTÓRIA

A coleção de revista que mais prezo, não empresto, não dou, não vendo por preço algum, é uma coleção completa da revista Bondinho. Guardo na minha revistaria à sete chaves, protegida contra traças e fungos, vigiada 24 horas. A minha coleção completa da Bondinho não tem preço.

Salvador Allende era eleito presidente do Chile, Paul McCartney anunciava o fim dos Beatles e o escritor soviético Alexander Soljenítsin ganhava o Nobel de Literatura quando a revista Bondinho foi lançada, naquele outubro de 1970.

Longe de São Paulo, eu sonhava em ser jornalista e fazia das tripas coração para conseguir um número aqui, outro ali. A Bondinho não era vendida em bancas, era uma revista do supermercado Pão de Açúcar, que não havia na minha Belo Horizonte.

Conheci os primeiros números na biblioteca de Jornalismo da  Faculdade de Filosofia, onde estudava. Muitas vezes matei as aulas de Sociologia e Jornalismo Comparado para ficar ali na biblioteca folheando, lendo e aprendendo com a turma da Bondinho.

Era uma turma e tanto, da pesada, todos chamados de malucos naquela época em que o jornalismo alternativo começava a ferver. Mas o que me deixava apaixonado pela Bondinho?

Era uma revista da cidade de São Paulo, que ainda não havia para mim, apenas imaginava os novos baianos passeando na tua garoa e pela letra de Tom Zé: São oito milhões de habitantes/De todo canto e nação/Que se agridem cortesmente/Correndo a todo vapor/E amando com todo ódio/Se odeiam com todo amor.

A cada quinze dias, os editores estampavam na capa o que estava rolando de mais quente na metrópole. O primeiro número chegou com a manchete “A cidade está escorregando”, já que o hit do momento eram os tobogãs, uma atração que se espalhou pela cidade.

No segundo número, “A cidade está amando”. Os repórteres foram atrás dos apaixonados que compravam rosas para suas paqueras, para suas namoradas, para suas amantes, para suas mulheres.

E assim foi número após número:

A cidade está bebendo e comendo com um grego

A cidade está comprando

A cidade está em festa

A cidade está em férias

A cidade está aniversariando

A cidade está descobrindo o povo Ban-Zai

A cidade está visitando um museu

A cidade está ficando hippie

A cidade está brincando

A cidade está rebolando

A cidade está sofrendo

A cidade está vendo Hebe Camargo

E assim por diante. Com uma equipe pra lá de criativa, a Bodinho inventava pautas originais e geniais. Uma repórter resolveu distribuir notas de cruzeiro na rua e todos, desconfiados, recusavam. Ai surgiu a manchete de capa:

A cidade está recusando dinheiro!

Em dezembro de 1972, a Bondinho mudou. Divorciou-se do Pão de Açúcar para entrar para a história. Assumiu que era uma revista de reportagem e o número com Chico Buarque na capa e uma entrevista de onze páginas, foi o primeiro que chegou na minha Belo Horizonte. A partir dai não perdi mais nenhum número.

A cada 15 dias, Seu Benito separava o meu exemplar e quando eu passava para buscar, lá estava ele dentro de um saco plástico, com todo capricho do mundo.

A Bondinho virou a minha Bíblia até hoje. Muitos anos depois, conheci pessoalmente e tive o prazer de trabalhar  com aqueles malucos em algumas aventuras: Mylton Severiano da Silva, Roberto Freire, Narciso Kalili, Hamilton Almeida, Humberto Pereira, Hamlet Paoletti, por exemplo.

A turma era tão animada que encheu de graça as bancas de jornais naquele início de anos 1970. Lançaram a revista Grilo, a Jornalivro, a Revista de Fotografia e uma revista de palavras cruzadas gigante com o sugestivo nome de Palavrão.

Em fevereiro de 1972, a revista saiu com Gilberto Gil na capa e trouxe encartado um compacto duplo do  baiano com quatro musicas: Felicidade vem depois, Oriente, Expresso 2222 e O sonho acabou.

O sonho acabou em maio de 1972, quando a Bondinho chegou às bancas pela última vez com o psiquiatra Jose Gaiarça na capa e dentro, numa fotonovela.

Hoje, a Bondinho é apenas um volume encadernado na minha revistaria, guardado a sete chaves, longe das traças e  fungos e pronto pra visitação pública, porque emprestar eu não empresto, dar eu não dou, vender eu não vendo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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INSETOS E ARACNÍDEOS

De repente, eles foram sumindo. Não todos, quase todos. Restaram apenas alguns pernilongos para atazanar nossa vida e, de vez em quando, as abelhas que vivem numa colmeia no telhado da padaria, aqui perto da minha casa. Estou falando de São Paulo, da gente que mora no meio dessa selva de pedra, espigões por todos os lados.

Os insetos e os aracnídeos faziam parte da nossa vida de menino e não eram poucos. Haviam as minhocas que cavoucávamos da terra e elas saíam inteirinhas se debatendo assustadas de ver o perigo do mundo aqui fora.

Lembro-me das temerosas formigas que acompanhávamos o comboio que ia da laranjeira até o formigueiro, cada uma levando o seu pedacinho de folha. Lembro-me também das temíveis saúvas que morríamos de medo porque a picada formava um calombo que só aliviava quando minha mãe dava um banho de cânfora.

Haviam as borboletas no jardim da nossa casa, cada uma mais bonita que a outra. Medo também de passar o dedo naquele pozinho que solta das asas delas e colocar no olho. Era cegueira na certa, diziam.

Haviam os besouros que catávamos depois da chuva e, pobres coitados, iam parar dentro de caixas de fósforo para brincarmos de telefone. Eles ficavam se debatendo naquele croc croc croc sem fim e a gente fingindo que estava esperando dar linha.

Haviam as moscas varejeiras, aquelas esverdeadas voando como helicópteros, paradinhas no ar, esperando o nosso tapão.

Haviam os percevejos que grudavam na cortina da sala e, quando batíamos a mão, soltavam um cheiro forte que só saía quando lavávamos as mãos esfregando o sabonete Vale Quanto Pesa muitas vezes.

Haviam os gafanhotos verdes que eram sempre bem-vindos. Enormes, ficavam horas pousados no teto da copa. Ninguém tinha coragem de molestá-los porque, dizia a lenda, davam sorte.

E as pulgas? Minha infância foi povoada de pulgas. Eram tantas que a minha mãe sacudia o lençol de manhã e saia catando uma a uma e esmagando com a unha. As pulgas do cachorro Tupi, combatíamos apertando a latinha amarela de Neocid.

O tatu bola era o nosso inseto preferido. Adorávamos caçá-los na horta da minha casa. Era só encostar no bichinho que, esperto, ele virava uma bolinha, fingindo-se de morto. Ficávamos observando e depois de um tempo, ele se recompunha e saía andando todo serelepe.

A mais querida era a joaninha, vermelhinha, que pousava na nossa roupa e a gente pegava com a mão e deixava a bichinha percorrer nosso braço inteiro fazendo cócegas.

Escorpião, não chegávamos nem perto. Era o mais temível de todos. Sabíamos que uma picada de escorpião poderia ser fatal. Eles se escondiam debaixo das telhas empilhadas no quintal, aquelas que sobraram da reforma do galinheiro. Era só levantar uma telha que aparecia um escorpião andando meio tonto com aquelas garras viradas para cima.

O louva-deus era o mais elegante de todos. Adoravam sobrevoar numa velocidade estonteante a piscina do Minas Tênis Clube. Nunca conseguimos pegar um nas mãos, observar de perto. Eles eram muito espertos e velozes.

A taturana, como o escorpião, também passávamos longe. Não tinha uma vez que aparecia uma taturana no quintal e minha mãe não alertava:

– Cuidado porque esse bicho queima!

E queimava mesmo. Um dia um caiu da ameixeira no meu braço e a queimadura foi instantânea. Fui parar na farmácia onde tomei uma injeção não sei bem se foi pra evitar o tétano ou coisa parecida.

O vagalume era o mais misterioso de todos. Nunca conseguimos observar um de pertinho, descobrir o seu mistério. Só víamos vagalumes quando estávamos de férias na Fazenda do Sertão. Lá tinham muitos e não sei se é porque não havia luz elétrica, os vagalumes se sobressaíam na noites escuras que ficávamos apreciando da varanda da fazenda, sem ter nada o que fazer.

Nas aulas de Ciências Naturais, estudávamos todos esses insetos em trabalhos teóricos e práticos. Nos teóricos, explicávamos que os insetos são invertebrados com exoesqueleto quilinoso, corpo dividido em três tagmas, três pares de patas articuladas, olhos compostos e duas antenas. Sabíamos que o seu nome vem do latim insectum.

Nos trabalhos práticos, em placas de isopor, íamos espetando com alfinete um a um, depois de um banho de formol. Eles eram separados por famílias e tamanhos. Uma placa só de besouros, outra de formigas, outra de aranhas, mas a placa mais bonita, é claro, era a das borboletas. Tinha de todas as cores: laranjas, azuis, vermelhas, cada uma mais linda que a outra.

Todos esses insetos nós convivíamos diariamente com eles e, nas redondezas de Belo Horizonte, caçávamos para as aulas praticas, claro que tomando muito cuidado com os escorpiões, as taturanas e as aranhas. Aproveitávamos também pra colher folhas das árvores que eram enormes e muito variadas. Íamos guardando nas pranchetas para depois classificá-las e espetar no isopor, mas isso é outra história.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

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VOCÊ CHEGOU AO SEU DESTINO!

Alguém ainda se lembra do telefone de todas as tias, dos tios, dos primos, dos avós ou dos vizinhos? Na minha casa era assim. Minha mãe, por exemplo, sabia o telefone de todo mundo. Parecia até que o Catálogo Telefônico era o seu livro de cabeceira.

– Mãe, qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4036

Sim, os números eram mais curtos mas, mesmo assim, eu ficava impressionado como ela sabia de cor, como ela tinha na cabeça o telefone de todos os parentes e também do açougue, do armazém, da farmácia, do Colégio Marista e do Colégio Sion.

Hoje, todos nós ficamos preguiçosos. O dia em que roubaram o meu smartphone no restaurante do SBT, só fui contar o ocorrido em casa porque não sabia o telefone de ninguém, da mulher, dos filhos, nem mesmo o fixo que fica no meu escritório.

Mas lembrar número de telefone não é nada. Ficamos preguiçosos pra tudo. Pra subir escada, pra rodar a manivela do vidro do carro, pra levantar e mudar o canal da TV. Até mesmo pra fazer arroz a gente ficou preguiçoso porque aquele de saquinho é muito mais prático.

Ficamos preguiçosos pra ir de um lugar pra outro sem usar o Waze. Já reparou que não se vê mais ninguém abrindo o vidro do carro e perguntando pro pedestre:

– Por favor, onde fica a rua Apinagés?

Para você ir do início da Avenida Paulista até o final dela, é só seguir reto mas você coloca no Waze. E o pior é que às vezes ao invés dele dizer “siga em frente toda vida”, como um bom mineiro, ele informa:

– A 100 metros, vire à esquerda

Foi o que aconteceu comigo dentro de um Cabify e o motorista argumentou que era pra evitar o trânsito. Passamos por Pinheiros, pela Vila Madalena, por Perdizes pra ir do início ao fim da Avenida Paulista. Desconfio que o Waze deve ter uma parceria com os postos de gasolina.

Já se foi o tempo em que as pessoas ficavam explicando coisas do tipo: “Chegando na altura da ponte do Piqueri, você pega a primeira à direita e quando chegar num Posto Shell, vire a esquerda e siga”.

Quantas e quantas vezes não expliquei pro motorista do táxi que a rua onde moro é paralela à rua Clélia e o meu prédio fica em frente ao Hospital Sorocabana? Ninguém quer mais saber esses detalhes e vão logo falando:

– Pode deixar, vou colocar no Waze.

E assim o aplicativo vai mandando você virar à direita, à esquerda, a seguir dois quilômetros, manter à direita e entrar na esquerda.

Não existe mais também aquilo de você entrar num táxi, dizer o nome da rua, o motorista abrir o porta-luvas, pegar um volumoso Guia da Cidade e começar a procurar a rua onde você quer ir. Agora ele simplesmente liga o aplicativo e só desliga quando ouve aquela voz: “Você chegou ao seu destino”.

Eu me divirto muito é com a minha sogra, que liga o Waze e passa o tempo todo brigando com ele e desobedecendo suas ordens.

– Como virar à direita? É só seguir em frente!

O aplicativo vai pirando a cada esquina mas a minha sogra sempre acaba chegando ao seu destino. Como, não sei.

O meu pai ficava muito nervoso quando errava o caminho. Uma vez subimos a BR-3 indo pro Rio e ele foi parar no Morro do Papagaio. Eu, pelo contrário, me divertia porque adorava me sentir perdido e conhecer novos lugares. Até hoje eu me lembro bem daquela vista linda da alvorada lá no morro.

Eu nunca dirigi um automóvel, nunca conversei com o Waze, numa me irritei ou discordei dele, mas confesso que tenho vontade de digitar Rue de la Roquette número 79 Paris, só pra ver o que acontece. Tenho certeza que quando chegar ao aeroporto de Cumbica, vou ouvir aquela vozinha: “Você chegou ao seu destino”.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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