QUARENTA E CINCO DIAS DE SOLIDÃO

Na primeira manhã em Beirute, acordei ao som de uma bolinha de ping-pong. Desci as escadas ainda meio sonolento e vi, antes de chegar ao térreo, dois soldados animados jogando, enquanto um terceiro enchia um embornal no bebedouro instalado ao lado da mesa.

A primeira refeição na American Comunity Scholl, onde me instalei para passar quarenta e cinco dias, foi suco de romã, pão preto com geleia de laranja amarga, um copo de coalhada, uma ameixa vermelha e uma xícara de Nescafé granulado, diferente do nosso, em pó.

Na mesinha de centro da sala de recepção, rodeada de confortáveis poltronas, o jornal L’Orient-Le Jour anunciava, na primeira página, os conflitos do dia de uma guerra sem fim. Também na mesinha, um catálogo telefônico magrinho como um fascículo com os telefones de todo o país. A curiosidade me levou até a letra H – de Haddad – do meu primeiro sogro, que fugiu da guerra para o Brasil, na juventude, e nunca mais voltou.

Do lado de fora, o jipe dos soldados estava estacionado em cima da calçada e, debaixo dele, um gato cinza morto cheirava mal. Prendi a respiração e vi, lá longe, o sol refletindo no mar azul, batendo nas pedras.

Não havia Internet, não havia Google, Smartphone, Instagram, WhatsApp, Waze, não havia o mundo digital e um telefonema custava os olhos da cara. Me senti meio no fim do mundo, isolado, longe de tudo e de todos, sem notícias das coisas do meu país abençoá por Dê e boni por naturê. Senti-me preparado para viver quarenta e cinco dias de solidão.

O primeiro dia foi de andanças, entrando e saindo por ruas, ruelas, becos, avenidas, ruinas. A cidade não era bonita à primeira vista, muitos buracos de balas nas paredes, sacos de areia nas esquinas, muita poeira, tanques a postos em lugares estratégicos, mas ao mesmo tempo, uma cidade fascinante, viva, sobrevivente.

De perto, vi que aquele mar rebelde era tão violento que descolava os musgos das pedras, jogando fiapos nas calçadas, onde algumas prostituas se ofereciam em vestidos curtíssimos e olhos borrados de preto.

O cheiro que vinha dos restaurantes espalhados pela cidade dava muita fome. Parei em um deles – Le Renard et les Raisins – com mesinhas espalhadas debaixo de uma imensa parreira carregada de uvas verdes, a sombra que precisava naquele verão árabe de 40 graus.

Havia quibe no menu, quibe assado numa pequena travessa, feito com muito hortelã e carne de carneiro. Aquele quibe, arroz branco com amêndoas e uma salada de pepino foi a minha refeição, acompanhada de um copo de cerveja Almaza, estupidamente gelada, e um pedaço de melancia de sobremesa.

A essa altura, meus cabelos longos já haviam virado um rabo de cavalo escondido dentro de um boné porque era impossível naquela Beirute conservadora dos anos 1970, um cabeludo andar sossegado pelas ruas da cidade. Fazia fotos de tudo que via de interessante pela frente. Cabras pastando em lotes vazios, homens de mãos dadas, idosos de bengala e kufiya na cabeça, vendedores de chá circulando pelo rush, homens rezando nas mesquitas e geladeiras dos bares cheias de Crush. Foram dezenas de fotografias que acabaram se perdendo quase todas com o tempo e com o rumo que a vida tomou.

(Reprodução)

Comprei de um ambulante que vendia revistas em cima de uma lona estendida na calçada, um exemplar da Luluzinha em árabe, que se chamava simplesmente Lulu.  Capa colorida, miolo em preto e branco, impressa num papel quase jornal. Paguei com duas moedas, sem dar uma palavra com o jornaleiro, que não falava francês.

Procurava os cedros e não achava. Em pouco tempo percebi que era o mesmo que procurar uma árvore de Pau-Brasil na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “Só no interior, numa pequena reserva” – me diziam – estavam os últimos cedros.  Mas ele continuava firme e forte estampado nas bandeiras tremulando espalhadas por todos os cantos da cidade.

No fim da tarde, já exausto, com calos nos pés e o meu tênis Bamba coberto de poeira, voltei para a American Comunity Scholl. Foi então que percebi que na porta de entrada havia uma reprodução do famoso Love, de Robert Indiana. Mais uma fotografia para o meu álbum.

No quarto, debaixo de uma luz forte de uma luminária em cima da escrivaninha, arrumei na minha carteira de couro, as notas sujas e amassadas de libras libanesas, tirei da máquina o filme Kodachrome de 36 poses que ainda estava ali dentro, folheei a Luluzinha falando árabe com o Bolinha e fiz minhas anotações. Só hoje, relendo essas anotações, vejo que escrevi: “No radinho de pilha em cima do criado-mudo, Maria Bethânia canta Esse Cara”, como se aquela canção estivesse ali dentro guardada para me saudar.

No final da noite, desembrulhei o pedaço de quibe que sobrou do almoço, coloquei num pratinho e peguei uma Pepsi-Cola na geladeira que ficava ao lado da porta com o Love. Fui dormir com o barulho ensurdecedor dos aviões de guerra que cruzavam o céu da cidade. Fui dormir tentando sintonizar alguma língua conhecida no radinho de pilha que pouco antes tocara Bethânia em bom português.

No meio da noite, acordei com o silêncio que se instalara. Fiquei ali deitado debaixo de um lençol de listras azuis e amarelas, pensando nos quarenta e quatro dias que ainda tinha pela frente e a missão de achar algum Haddad, algum parente do meu primeiro sogro.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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BEIRUTE À VISTA!

De tempos em tempos, eu me pergunto por que diabos resolvi, um dia, no verão de mil novecentos e setenta e cinco, aos vinte e cinco anos de idade, sair de Paris e ir parar em Beirute, por terra.

Não houve planejamento algum. Não comprei passagem, não reservei hotel, apenas coloquei um mapa-mundi no chão da sala da minha casa e fiz um traçado com caneta Stabilo Boss verde limão. Era um mapa mundi surrado, comprado ainda na Livraria Itatiaia, antes de deixar o Brasil.

Parti numa manhã de verão, com a cara e a coragem, levando apenas, nas costas, uma mochila de lona cheia de ilusão. Aos vinte e cinco anos de idade, tudo era divino, tudo era maravilhoso e eu não tinha tempo de temer a morte.

Durante muitos dias, andei de trem, de ônibus, de caminhão, de carona, de navio, e até de avião, num pequeno percurso antes de chegar a Beirute. Eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus, e seguia à risca a música de Jards Macalé e Waly Salomão.

Atravessei montanhas, lagos, rios, sete mares até chegar ao meu destino. Sai da França, desci a Itália, atravessei pra Grécia, passei pela Bulgária, cheguei perto da Albânia, alcancei a Turquia, depois a Síria e finalmente, Beirute.

As anotações que restaram são poucas, mas não me esqueço do longo percurso dentro de um vagão de trem, atravessando a Itália, de norte a sul, com aquela mochila nas costas, sem espaço para colocá-la no chão. Não me esqueço das horas e horas que passei no porto de Brindisi, esperando aquele velho navio, na esperança de reaver o passaporte que foi embora nas mãos de um policial.

Da Grécia, lembro-me de uma praça central, rodeada de árvores floridas que faziam sombra nos bancos de concreto, onde fiz da minha mochila, travesseiro.

Lembro-me das doze horas que passei para entrar na Bulgária e dos dois dias que passei comendo biscoito waffes, a única coisa que tinha para comer. Da Síria, não me esqueço da poeira e das primeiras placas enferrujadas escritas em árabe, aquele alfabeto que me deixou embriagado de paixão.

Nunca me esqueci de Alepo, quando Alepo ainda era uma cidade de pé, viva, onde as pessoas se divertiam nos cafés jogando dominó e bebendo arak, o néctar dos deuses.

A chegada a Beirute foi nas asas de uma velha aeronave da Turkish, cujo guardanapo, lembro-me bem, tinha a imagem de um porco e um X cruzando o seu corpo.

Já era noite e com aquele calor sufocante, só me restou pegar um taxi, um velho Impala 1960 e pedir ao motorista que me levasse até a Universidade Americana, onde passaria os próximos quarenta e cinco dias.

O alívio foi muito grande quando percebi que todas as pessoas no aeroporto de Beirute falavam francês e o motorista do táxi também. Depois de tantos dias driblando o italiano, tentando falar inglês com os búlgaros, fazendo mímica para os gregos e turcos, e sem entender uma palavra sequer na Síria, me senti em casa.

Na primeira esquina, o motorista perguntou de onde vinha e eu fui bem claro. De um país tropical, muito longe dali, onde uma ditadura militar tomou conta do espaço e me sufocou. Ele não quis saber mais nada, contou que o que conhecia de Brasil era a música de Jorge Ben. Cantarolou Mais que nada/Sai da minha frente que eu quero passar/O samba está animado/O que eu quero é sambar, e me contou que tinha todos os seus vinis.

Desviou o caminho e me levou até a sua casa, um pequeno apartamento onde vivia com a mãe. Era um ambiente sombrio, o chão coberto de tapetes persas, as paredes entupidas de fotografias de parentes mortos e uma antiga eletrola com espaço para guardar os discos de vinil, na parte de baixo.

Ali estavam os velhos e surrados discos de Jorge Ben, que ele conhecia tão bem. Ligou a geringonça e logo ouvi aquela voz inconfundível cantando Take It easy, my brother Charles/Take It easy meu irmão de cor…, a canção que ele também sabia de cor.

Tomamos suco de romã pra matar a sede e logo depois sua mãe me serviu arak numa pequena taça vermelha e dourada. Uma, duas, três. Foi difícil conseguir sair dali e pegar o meu rumo com destino a Universidade Americana. Mas cheguei.

Fui instalado num pequeno quarto moderno e colorido. A cama era amarela, o pequeno armário era azul, o criado mudo verde e a escrivaninha preta. A janela era pequena e ficava bem no alto. Tive de subir na cama para ver lá fora.

A escuridão era total e o silencio só era quebrado de tempos em tempos por um barulhinho bom, não sabia se de grilo, cigarra, sapo ou passarinho.

Só na manhã seguinte, com o sol na cara, voltei a observar o lado de fora de Beirute. Era um descampado, chão de terra batida, onde um grupo de jovens militares fazia exercícios. Nada muito interessante. Nenhum cedro, nada que me remetesse a Beirute.

Eu tinha os cabelos compridos, na cintura, e não pesava mais que cinquenta quilos. Quando pus os pés na calçada, um grupo se aproximou de mim e todos ficaram observado a minha figura dos pés a cabeça. O que fazia aquele ET em Beirute, se a manchete do L’Orient-Le Jour era guerra à vista?

Um pequeno bistrô, ao lado, exibia charutinhos de folha de uva na vitrine e um caixote de romãs maduros estava ali encostado na parede, do lado de fora. O cheiro dos temperos que vinha lá de dentro era muito forte, com certeza já fritavam linguiças merguez polvilhadas com harissa.

Com uma Pentax a tiracolo, dei o primeiro passo e vi Beirute. Fiz a primeira fotografia de uma das cidades mais fascinantes do mundo. Isso eu vou contar na semana que vem.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ONDE ANDARÁ BEATRIZ?

Nos anos em que vivi fora daqui, em Paris, fiz muitas amizades. De gente maluca que gostava de sonhar a físicos, matemáticos e músicos que estavam ali de passagem, com o objetivo único de estudar. Muitos continuam presentes virtualmente na minha vida, curtindo e compartilhando nas redes sociais, trocando mensagens sem contato físico, mas dentro do coração. Outros, com o passar do tempo, sumiram na poeira da estrada. Nunca mais tive notícias.

De tempos em tempos, minha memória parte para o espaço sideral, em busca de lembranças, apenas lembranças que ficaram perdidas por aí.

Azeitona, por exemplo, que chegou animado em estudar agronomia e nunca estudou. Cacá, quase um monge budista que dizia estar procurando emprego, mas morrendo de medo de encontrar. O arquiteto Zé Octávio, que abandonou a portaria do Hotel de la Grece, onde trabalhava, e se juntou aos manifestantes que passaram numa ruela do Quartier Latin protestando exatamente contra o governo de Michail Stasinopoulos.

Ceará, que um dia resolveu fazer farofa com ovo, bacon e serragem, acreditando que daria certo. O gaúcho Darci, que inventou seu próprio vocabulário chamando gasolina de essência, a lixeira de pubele e o Líbano de Libão, são alguns exemplos.

E tinha Beatriz.

Beatriz era uma mineira do interior que chegou para animar a festa. Lembro-me bem que tinha onze irmãos, todos com os nomes começados em Be. Adorávamos quando ela repetia, como um narrador de turfe, os nomes de todos eles: Era Beatriz, Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

Beatriz chegou e alugou um pequeno studio num quarteirão aconchegante de Paris. Ficava no sétimo andar de um prédio sem elevador, mas o problema maior é que não tinha banho, isto é, não tinha chuveiro nem banheira. Mas Beatriz deu o seu jeito.

Arranjou um emprego de faxineira e andava pra lá e pra cá com uma sacolinha do Prisunic, com o seu kit banho: Toalha, sabonete, xampu e uma calcinha. Onde chegava, não fazia cerimônia, pedia pra tomar banho. Lá em casa já estávamos acostumados. Quando ia se despedir, perguntávamos se não ia tomar banho. Ia, claro. Ela se deliciava com aquela água quentinha para amenizar o inverno rigoroso.

Beatriz contava histórias ótimas como aquela do pai dela, mineiro metódico, que todos os dias às seis horas da manhã em ponto, pegava o regador e saia para molhar a horta, além das flores e das folhagens que cultivava no quintal de sua casa, lá no interior de Minas. Mesmo quando estava caindo um toró, o pai de Beatriz pegava a galocha, o guarda-chuva e saia com o regador para molhar suas plantas.

Beatriz falava um francês muito particular. Gostava de ensinar para os franceses as delicias da culinária brasileira: Vous prenez le feijão preto, puis vous ajouter toutes les types de viande, carne seca, paio, costelinha, orelha, rabo… E continuava. Ah, il y a aussi de la farinha de mandioca pour faire de la farofa. Ajoutez la couve refogadinha e aussi des morceuax de laranja seleta e torresmo. Os franceses ficavam com os olhos arregalados tentando entender e a gente fazendo xixi de tanto rir.

Um dia ela chegou esbaforida na nossa casa, dizendo  que estava cagada de arara! Um francês perguntou o que ela havia dito e Beatriz começou a explicar: Vous conaissez le perroquet?

De repente, Beatriz chegou com uma novidade. Estava namorando um árabe, não me lembro se do Marrocos ou da Argélia. Mustafá estava apaixonadíssimo por ela, mas tinha um problema. Não se conformava em Beatriz trabalhar fora. E a relação funcionava assim: Ele chegava do trabalho por volta de sete da noite e se ela não estivesse em casa, começava a beber cerveja.

Quantas e quantas vezes ela passou na nossa casa, tomou um banho rápido e saiu voando, porque senão ia chegar tarde em casa e encontrar Mustafá esparramado no sofá, depois de beber uma dúzia de latinhas de Kronnebourg.

A última vez que vi Beatriz foi no seu bota-fora. Prepararmos uma galinha d’Angola com couve de Bruxelas pra ela, uma despedida à altura. Até uma cachacinha mineira apareceu naquele dia. Mais uma vez rimos muito, comemos muito, nos divertimos demais e desejamos a ela boa viagem e sorte na sua volta ao país tropical.

Beatriz pegou o primeiro avião com destino a felicidade e nunca mais tive noticias. Já cansei de procurar nas redes sociais e nada. Queria vê-la nem que fosse um tiquinho, como ela dizia. Pelo menos para ela recitar o nome dos onze irmãos: Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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OS JOVENS NÃO PASSAM ROUPA

É muito vaga a minha lembrança do ferro a brasa. A única que me vem à memória, é lá da Fazenda do Sertão, interior de Minas, eu menino ainda, espiando da janela uma senhora idosa passando roupa com o tal ferro. Éramos proibidos de entrar ali porque saiamos tossindo muito e defumados.

Era uma senhora negra, franzina, um lenço branco na cabeça, que enfrentava com todo vigor uma pilha de roupas pra passar, que ela costumava deixar dentro de um enorme cesto de vime.

Na Fazenda do Sertão não havia eletricidade, vivíamos de lamparina e a solução para passar roupa, era aquele pesado ferro a brasa, uma verdadeira maria fumaça.

A senhora soprava e colocava brasa toda vez que sentia que a roupa não estava ficando lisinha e impecável. Eram uns lençóis brancos, umas fronhas bordadas e muita roupa encardida de crianças que viviam naquela poeira danada, barro quando chovia.

Muitos anos depois, vi alguns ferros a brasa no interior de Minas, decorando casas, com arranjos de flores dentro, ou segurando a porta para não fechar.

Quando chegou o ferro elétrico, o temor da minha mãe veio junto. Era uma época em que os aparelhos eletrodomésticos davam muito choque e minha mãe só encostava no ferro de passar com uma sandália de borracha nos pés.

A minha irmã mais velha logo ficou apaixonada pelo tal ferro elétrico, tão apaixonada que o meu pai deu a ela de presente de Natal, um ferrinho de passar roupa da Estrela. Era um ferrinho de verdade, com fio e tomada, que ligava e esquentava. Parecia que ninguém tinha medo do perigo.

A mamadeira era de vidro, andávamos em muros com cacos, fazíamos guerra de mamona, jogávamos bola na rua e andávamos armados com um revólver de espoleta na cintura, também da Estrela. A gente matava e nossos amigos morriam de mentira.

Voltando ao ferrinho da Estrela, um dia, minha irmã saiu do banho e foi passar a roupinha da boneca. Descalça e com os cabelos molhados, ela acabou levando um choque violento e ficou presa a ele, gritando por socorro. Foi depois disso que minha mãe escondeu o ferrinho no alto do armário, pra ninguém nunca mais pegar.

Estou contando essas histórias, mas a que eu quero mesmo contar é que percebi ultimamente, que essa juventude de hoje não passa mais roupa. Ninguém das amigas ou amigos das minhas filhas, nem mesmo elas, passam roupa. Acham que é inútil, uma bobagem, gastar tempo e energia passando roupa.

Eu não me acostumo com roupa amassada. Outro dia liguei pros meus irmãos e perguntei se eles ainda passavam roupa. Sim, todos continuam saindo sempre na estica. Alguns gostam de passar, outros não. Mas todos fazem questão de sair com a roupa passada.

Foi então que minha irmã lembrou de Maria Passadeira que, confesso, havia sumido da minha memória há décadas. Ela foi reativando à medida que minha irmã ia abrindo seu baú de memórias.

Ninguém sabia o sobrenome da Maria. Era Maria Passadeira e pronto. Uma vez por semana, ela ia na nossa casa pra passar roupa. Chegava, tomava um cafezinho ralo com um pedaço de pão com manteiga, encurtava a conversa e dizia: “O papo está ótimo, mas eu tenho um mundo de roupa pra passar”.

E tinha mesmo. Éramos cinco filhos e muita roupa, muitos lençóis, muito uniforme de futebol, muita camisa social do meu pai. Mas a Maria Passadeira nunca reclamava. No final do dia, ela ia de quarto em quarto e colocava, em cima da cama de cada um, a roupa impecavelmente passada.

Maria Passadeira não sabia cozinhar, não gostava de arrumar a casa, gostava só de passar roupa. E passava bem, inclusive engomando aquelas saias plissadas das minhas irmãs, uniforme do Colégio Sion.

Não sei se ainda existem passadeiras como Maria Passadeira, que vão na casa das pessoas exclusivamente para passar roupa. Talvez tenham desaparecido juntamente com as costureiras à domicilio, com o Simca Chambord, com a Mirinda Morango, com os maiôs Catalina e com as estampas do sabonete Eucalol. Enfim, tudo passa.

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NÃO CHORE MAIS

Quando o inverno apertava, os ossos começavam a doer ao abrir, todas as manhãs, a janela da sala, encravada pela ferrugem e por uma tinta óleo de anos. Havia um silêncio no ar e o silêncio ocupava os poucos cômodos daquele apartamento alugado num bairro comunista de Paris, abrigo de exilados. 79, Rue de la Roquette.

O fog, a chuva fina lá fora, o brilho da água no asfalto novo refletia no vidro das janelas e no nosso chão, como se fosse um cinemascope. Eu passava a mão como se fosse a rosa púrpura do Cairo e não sentia nada, nenhum calor naquela luminosidade.

Era melhor mesmo ficar em silêncio por alguns minutos. As cartas não chegavam mais, nenhuma foto, nenhuma revista, nenhum recorte de jornal na caixa de correio instalada na parede mofada na entrada de onde residia.

Líamos jornais clandestinos vindos do Sul, o manual de guerrilha de Carlos Marighela, os fascículos da Editora Maspéro e a Nouvel L’Obs para aluviar.  Vínhamos andando pelo Boulevard Saint Germain, descíamos o Saint Michel, passávamos pela barraca de drágeas colorias, balas perdidas em potes de plástico, e chegávamos na Livraria Joie de Lire.

Um ar meio maoísta tomava conta do lugar e eu descia cuidadosamente os degraus da escada estreita até chegar ao subterrâneo onde estava o Opinião, onde estavam, em uma mesa redonda, todos os jornais uruguaios, argentinos, chilenos e peruanos.

Sabia que a distância era tão sofrida, o mundo tão separado, jamás se hubiera encontrado, sin aportar nuevas vidas. E quem garantia que a história era uma carroça abandonada numa beira de estrada, ou numa estação inglória?

Em casa, lia Dalton Trevisan para aprender a escrever curto e grosso. Queria, para os meus contos, nomes de obras primas dos gênios da pintura espalhadas pelos museus do mundo que começava a conhecer.

Rapariga com brinco de pérola, O cavaleiro risonho, O baile no Moulin de La Galette, A noite estrelada, Menino em um colete vermelho, Natureza morta, O beijo e O grito.

Queria ter nascido holandês para entregar esses manuscritos no Ministério da Cultura em Amsterdam e receber por eles um punhado de florins que daria para comprar pão preto, geleia de laranja amarga, um triângulo da Vache qui ri e um vidrinho de Nescafé.

Queria descrever cenas dos meus companheiros colhendo morangos nas cercanias de Estocolmo, colhendo tâmaras no interior da Síria ou colhendo uvas na região de Bordeaux. Eram amigos que trabalhavam na cozinha, nas estradas, campos e construções.

A dor nas costas era intensa de tanto separar as uvas verdes das maduras, o joio do trigo, encontrar a agulha no palheiro. Queria ser Esopo pra escrever e Marc Chagall para ilustrar as uvas verdes nas alturas, maldita raposa.

Queria colher o trigo, amassar o pão, colocar na vitrola O evangelho segundo Cristiano, mesmo sabendo que o vinil estava arranhado de tanto uso, o chiado forte, Geraldo Vandré.

Me alegrava o pessoal do Nordeste gravando discos na CBS e os urbanos de São Paulo gravando na Continental. Walter Franco cantando nothing, to do nothing, today, about me, I’m happy no, I’m not sad, I just happy now, looking to the empty space.

Eu olhava pro espaço sideral na esperança de ver Laika passeando no céu de cosmonautas que nos protegia. Aqui não era Londres, mas mesmo assim havia no canto o silêncio do meu violão, nem eu mesmo sei porque.

Procurava nas páginas amareladas do Pasquim, notícias sobre aquele exilio recém anistiado de Caetano Veloso e Gilberto Gil e encontrava apenas nostalgia, tudo tão triste, uma saudade danada do mar da Bahia e fragmentos do Demiurgo numa câmera Super-8.

Lembrava da minha coleção do jornal Rolling Stone encadernada e tentava recordar se havia alguma noticia ali do Festival da Ilha de Wright, notícias de Janis, de Jimi e principalmente de Joe. Pedia apenas um help, uma pequena ajuda dos meus amigos, amigos que a essa hora estavam ali sentados no aterro sob o sol, presos ou sumindo pra nunca mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ORGANIZANDO O MOVIMENTO

Andando pela Rue des Écoles, em meados dos anos 1970, parei perplexo diante da vitrine de uma livraria que não conhecia. Vi ali exposto o livro Cemitério de Elefantes, de Dalton Trevisan, de contos curtos e instigantes, que também não conhecia.

O que estaria fazendo aquele livro do vampiro de Curitiba, em português, numa livraria no coração do Quartier Latin? Fui saber quando dei dois passos atrás e li: Librairie Portugaise e Brésilienne.

Longe do meu país há um tempo, entrei maravilhado descobrindo, aqui e ali, livros em português e discos de vinil de MPB. No primeiro dia que entrei ali, levei pra casa, além do Cemitério de Elefantes, o disco Romaria, de Renato Teixeira, que já tinha lido a respeito nos recortes de jornais que meu irmão enviava pelo correio.

Virei freguês. No segundo dia que entrei naquela livraria vi, de pé ao lado do caixa, um senhor elegante que me pareceu familiar, jeito de mineiro como eu. Vim a saber que era o José Maria Rabelo, jornalista, exilado, fundador do jornal Binômio, que circulava na minha Belo Horizonte, quando eu era ainda menino de calças curtas.

O Binômio foi um jornal que virou Minas Gerais de cabeça pra baixo, uma espécie de Pasquim das montanhas. Nunca me esqueci daquela manchete do dia em que o presidente Juscelino Kubitschek voou num jatinho pra Araxá levando o empresário Francisco Rolla. No dia seguinte, lá estava estampada na primeira página do Binômio:

JK vai a Araxá e leva Rolla!

Criei coragem e me apresentei. Zé Maria Rabelo, como todos o conheciam, ficou interessado no Movimento, jornal que eu trabalhava como correspondente na época. Ele era leitor. Contei a ele do nosso plano de vender o jornal para exilados em Paris, que eram mais de dez mil.

– Vamos vender aqui! Disse ele, sem pestanejar.

Aquilo bateu como um vento forte de animo para nós, cansados de guerra, resistindo bravamente. A ditadura militar já começava a dar sinais de que, mais cedo ou mais tarde, bateria as botas.

Todos os dias, eu acordava às quatro horas da madrugada porque, cinco em ponto, eu já deveria estar no restaurante Les Hauts de Belleville, onde servia o café da manhã para os trabalhadores.

Nove horas, com tudo em ordem, fechava as portas e ia pra casa descansar.

Depois daquele encontro com Zé Maria Rabelo, virou rotina. Toda segunda-feira depois do expediente, eu pegava o ônibus na Gare Denfert-Rochereau com destino ao aeroporto de Orly. Na alfândega, me apresentava e recebia um pacote com cem exemplares do jornal Movimento, embrulhados em papel kraft e amarrados com um forte barbante.

Colocava dentro de um carrinho de feira e voltava no mesmo ônibus que me deixava novamente na Gare Denfert-Rochereau. De lá, pegava o metrô e ia até a estação Saint-Michel, que ficava perto da livraria do Zé Maria.

Ele sempre me recebia de braços abertos e, feliz, mostrava a prateleira onde ficava o Movimento, quase vazia. Seus olhos brilhavam ao ver aquele pacote de jornais frescos. Fazia as contas de quantos tinha vendido na semana e me pagava em dinheiro, francos franceses vivos, dinheiro que dava pra comprar o leite e o croissant das crianças.

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Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância 

Ficamos amigos, nunca íntimos, mas amigos. Foi na livraria do Zé Maria Rabelo que um dia, fuçando os vinis, vi, ao meu lado, uma tímida Nara Leão. Mas essa é outra história.Um dia, eu e Zé Maria Rabelo voamos de volta pro Brasil nas asas da abertura, cada um pro seu canto. De vez em quando, tenho notícias dele pelo Facebook.

Essa semana fiquei sabendo que estava comemorando 90 anos de vida, com direito a palestra sobre os caminhos do exílio, no evento Sempre um Papo, do incansável Afonso Borges, um sucesso em BH.

Pedi ao Fernando, filho do Zé Maria Rabelo, uma foto recente dele para ilustrar essa crônica e o retrato chegou em poucos minutos pelo messenger, bem caprichado.

Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância que me recebia toda segunda-feira na Librairie Portugaise et Brésilenne. O Zé Maria Rabelo é um desses tipos inesquecíveis, mineiro boa praça, que continua firme e forte, organizando o movimento.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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PEG-PAG

Lembro-me muito bem do dia em que foi inaugurado o primeiro supermercado em Belo Horizonte. Ele chamava-se Serv-Bem e ficava na praça Diogo de Vasconcelos, hoje Savassi.

No dia da inauguração, fizemos fila pra entrar naquela maravilha que chegava da América do Norte. Daríamos adeus ao Mercadinho Colombo para mergulhar de cabeça no futuro.

Nada mais bacana do que entrar ali no Serv-Bem, percorrer os corredores vendo os mantimentos, as latarias, as frutas e os legumes, ir colocando tudo dentro do carrinho e só pagar na saída.

A gente pegava o pacote de Cremogema, a latinha de presuntada Wilson, o saquinho de Mandiopã, a pasta de dente Kolynos e saía feliz da vida. Havia chegado ao fim aquela história de ter de ir ao Armazém do Seu José e pedir uma lata de biscoitos Aymoré.

A moda pegou naquele início dos anos 1960 e, num piscar de olhos, a cidade foi ganhando vários peg-pags da vida, enquanto os armazéns baixavam suas portas definitivamente.

Desde o Serv-Bem, eu virei fã de supermercado. Tem gente que odeia, mas eu confesso que gosto. Por onde ando nesse mundo afora, sempre entro em supermercados pra ver as novidades. Nessa última viagem, descobri Fanta sabor flor de sambuco num supermercado de Florença, Fanta sabor goiaba na cidade de Pylos, na Grécia, e encontrei vidros de leite de égua num supermercado em Paris.

Gosto de ver as novidades, os rótulos, ter surpresas como ver a latinha da Amstel e o tubo da Super Bonder escritos em grego. O que não muda é a danada da embalagem laranja do arroz Uncle Bens, que é igual no mundo inteiro.

A gente sabe que supermercado é uma armadilha. Entramos pra comprar um pacote de manteiga e saímos de lá com uma caixa de cerveja, uma dúzia de bananas, uma geleia importada, quatro iogurtes gregos, um sabão em pó, além de pães quentinhos. Mas mesmo assim eu gosto de supermercado.

Gosto até mesmo de ler as listas de compras esquecidas dentro dos carrinhos. Outro dia encontrei uma assim:

Achocolatado (tem de ser Toddy)

Vanish do branco

Pinho Sol do roxo

Sabão pra máquina (o mais barato)

Só não gosto daqueles hipermercados que, pra chegar ao pacote de arroz Tio João, você tem de passar antes pelos pneus, televisores, geladeiras, liquidificadores, flores, roupas e calçados.

Na verdade, ando meio embirrado nos últimos tempos com supermercados, principalmente esse que tem aqui na esquina de casa. E vou contar o motivo. Antes, era só chegar, escolher os produtos, colocar no carrinho e passar pelo caixa. Coisa rápida.

Agora, ir ao supermercado virou uma coisa tão demorada quanto pagar uma conta na boca do caixa de um banco ou pegar uma fila da megasena acumulada na noite de quarta-feira. Depois de passar uns dez minutos na fila, chega sua vez. Ai a caixa dá um sorrisinho amarelo e faz um questionário e dá ordens:

É cliente mais?

Pode digitar o CPF!

Confirma!

Quer nota fiscal paulista?

No mesmo CPF?

Quer carregar o celular?

Vai querer sacolinha?

Aí você começa a colocar os produtos na sua sacola descartável e, quando termina, mais perguntas:

Qual é a forma de pagamento?

Débito ou crédito?

Pode digitar a senha!

Vai querer selinhos pra trocar por bonecos de pelúcia do Jamie Oliver?

Tem o ticket do estacionamento?

Isso sem contar quando o código de barras não passa na leitora e a caixa é obrigada a dar uma esfregadinha, tenta de novo e começa a digitar aquela centena de números.

Isso, sem contar que, a todo momento, você tromba com um cliente, de olho grudado no celular porque agora você tem de checar os descontos no aplicativo.

Nessas horas dá uma certa saudade de Seu Mario, que tinha um armazém na Rua Grão Mogol e vendia tudo a granel. A gente chegava, pedia um quilo de alpiste, meio quilo de ração pra poedeira, dois quilos de canjiquinha e, em poucos minutos, saia de lá com os pacotinhos de papel na mão. Ali sim, era lugar de gente feliz.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SAI DE BAIXO!

Confesso que ultimamente ando com medo de circular por algumas ruas de São Paulo, uma cidade tão judiada. O temor maior vem quando preciso percorrer a rua que passa por debaixo do viaduto Presidente João Goulart, mais conhecido por aqui como minhocão. Vejo rachaduras, vejo goteiras, vejo mofo e ontem, no final da tarde, vi nada mais nada menos que uma árvore que surge frondosa e bela, bem na junta do concreto. Percorro aquele pedaço com o coração na mão, imaginando que se os engenheiros responsáveis pela manutenção do minhocão, não perceberam aquela árvore ali, com mais de um metro e meio de altura, teriam eles percebido as rachaduras, as goteiras, o mofo? Se um dia esse viaduto despencar sobre a cabeça dos paulistanos vai ser uma tragédia sem tamanho, anunciada aqui.

[foto Alberto Villas]

A ILHA DE CUBA

A emoção é sempre muito grande quando a gente pisa num lugar sonhado pela primeira vez. Foi assim quando cheguei a ilha de Cuba e fui recebido como um pachá. Claro. Estava ao lado de Chico Buarque, nosso embaixador por lá.

– Chico! Chico! Chico! gritavam no aeroporto para um Buarque de Holanda sorridente e meio tímido, cigarro entre os dedos, depois de muitas horas de voo.

Eu era um garoto magro e cabeludo, tênis Bamba nos pés, calça jeans desbotada, camiseta com estampa de rock and roll e uma mochila da Company nas costas, cheia de sonhos e ilusões. Nem parecia um funcionário do Estadão, com carteira assinada e tudo mais.

Voei pro Panamá e depois embarquei num avião da Cubana, que mais parecia um ônibus da Cometa com asas. Gostava daquela aventura, não reclamava do barulho do motor, da turbulência dentro das nuvens, do papel de parede florido descolando da mesinha de lanche. Não reclamava nem mesmo da cerveja quente sem rótulo servida a bordo.

No pensamento, modificava a canção de Luiz Melodia, cantando baixinho se alguém quer matar-me de amor, que me mate no espaço aéreo da ilha de Cuba!

Voava ansioso com a missão de cobrir o Festival de Música de Varadero para o Caderno 2 que, além de Chico, tinha Maria Bethânia numa noite bem brasileira.

O jornalismo não era quadrado, medroso, tampouco burocrático, tanto que o Luiz Fernando Emediato nem percebeu que fiquei na ilha quinze dias pra cobrir um festival que durava apenas três.

Além da cobertura do festival, escrevia crônicas, fotografava o país para uma reportagem do Suplemento de Turismo do jornal e me divertia com o bom humor dos moradores dali. Dancei salsa como nunca com cubanas cheirosas, muito jogo de cintura e rebolado, ao som quente de Los Van Van e Celia Cruz e canções românticas de Silvio Rodriguez e Ibrahim Ferrer.

Cuba era uma festa. Havia uma certa penúria, lembro-me bem, até para comer um perro caliente seco, pão com salsicha e só. Tinha filas enormes e a caixa do trailer demorava um bom tempo para fazer a nota fiscal em quatro vias, que ia colocando uma a uma dentro de escaninhos de madeira. Uma pro governo, outra pro Ministério da Saúde, outra pro Ministério da Agricultura, outra pro Ministério do Comércio, me disseram.

O refrigerante era uma cola meio aguada e muito doce que eu bebia com vontade e prazer, mordendo aquele cachorro quente minúsculo e esquisito.

Gostava de entrar nos sebos e livrarias e ver o preço de banana dos livros impressos em papel jornal e com capas bem populares. Jorge Amado era o pop star da ilha e todos se miravam em Gabriela, cravo e canela.

De noite, a festa era nas praças públicas de Havana. enfeitadas com bandeirinhas de papel crepom colorido e lâmpadas de 40 watts. Muita música, muita margarita e muito mojito. O papo rolava entre política, a resistência aos yankees e o sonho de um dia conhecer Copacabana.

As minhas camisetas faziam sucesso por ali e eu não podia sair com elas nas ruas. Era colocar o pé na calçada, logo aparecia um companheiro querendo trocar a sua branca de algodão rústico por aquela colorida de rock and roll.

Deixei por lá uma com o rosto da Nina Hagen, uma da Madonna, uma da Cindy Lauper e uma quarta com um desenho do Yellow Submarine, que devem existir até hoje, puídas e desbotadas, porque cubano não se desfaz assim de uma camiseta preciosa.

Visitamos o museu e a praça da Revolução, conversamos com estudantes universitários que levavam fotografias de Fidel nas carteiras de couro surrado que guardavam dentro de pastas de cartolina. todos muito orgulhosos da ilha.

Comi muita banana frita e camarões ensopados. Fotografei noivas nas muradas do Malecón, a imagem de Che Guevara nos muros de Havana, comprei livros de Marx e Engels, voltei mais comunista do que fui.

Assisti palestras intermináveis sobre música e cinema cubano, palestras que mais pareciam aqueles históricos discursos do comandante Fidel Castro. Anotava tudo num bloquinho azul que o Estadão dava aos repórteres do Caderno 2. Dos bloquinhos, só sobraram as histórias pra contar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

PODE SER A GOTA D’ÁGUA

 

Julho inteiro não choveu em São Paulo, sequer uma gota d’água caiu do céu. A cidade foi ficando com ar de deserto, onde há grama, a grama seca, a cara de Brasília. As árvores foram resistindo porque são firmes e fortes. Até mesmo as flores da varanda da nossa casa quase morreram todas, não sei se de saudade ou de falta d’água. Havia filas para ocupar as poltronas de inalação nos pronto-socorros da cidade e, nos postos do SUS, nunca se viu tanta gente chegando por falta de umidade, nariz seco, garganta seca. Nas farmácias, os inaladores vendiam como banana na feira, todos querendo um pouco de umidade. De repente, veio o chuva, chegou de noite, anunciada por tímidos trovões. Mas veio pra valer. A vontade foi sair na janela e aplaudir, como os cariocas aplaudem o por do sol. É nessas horas que a gente dá valor pra natureza, que a gente se emociona até mesmo por uma gota d’água.

[foto Alberto Villas]

Um dia de fúria

A primeira vez que fui ao Jardim Botânico e coloquei os pés na TV Globo, pisei firme com o direito. Trazia dentro de uma pasta de couro, um contrato de trabalho recém-assinado e sentia nas costas um certo peso, não sei bem porque.

Me identifiquei na portaria, passei por um pequeno jardim muito bem cuidado e entrei no elevador. Apertei o botão do sétimo andar, que era onde ficava a sala do Diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, que todos chamavam de Doutor Evandro, percebi no primeiro momento.

Esperei alguns minutos até que a simpática secretária ordenasse a minha entrada. Encontrei sentado numa enorme mesa transbordando de papéis, um homem muito alto e magro que eu, com mania desde pequeno de procurar semelhanças nas pessoas, vi logo que ele era a cara do grilo do filme Vida de Inseto.

O Doutor Evandro sentou-se numa poltrona para conversar comigo. Calçava sapatos marrom, acredito eu que de legítimo couro alemão. Vestia uma calça jeans Yves St Laurent com friso, uma camisa de cor alaranjada, com o primeiro botão de cima desabotoado, deixando aparecer um delicado cordão de ouro que trazia dependurado um micro olho turco. Superticioso, pensei.

O Doutor Evandro, com aquele vozeirão e tantos anos de poderoso chefão nas costas, dava medo. Ele tinha um vistoso relógio no pulso esquerdo, que olhava de tempos em tempos, deixando parecer que não tinha muito tempo a perder.

Ele quis saber um pouco do meu currículo, desejou-me boa sorte e fez questão de deixar uma coisa bem clara:

– Aqui não temos inimigos. Aqui não temos lista negra, nem proibição alguma. Dizem por aí que não podemos falar bem de Leonel Brizola. Mentira! O que for preciso dizer dele, diremos. Mas sempre a verdade.

Sai dali um pouco aliviado. Antes de assinar o contrato, quis saber da minha liberdade. Recebi carta branca de Amauri Soares e o trabalho começou no dia seguinte, um curioso primeiro de abril de 1997.

Depois desse dia, encontrei-me algumas vezes com o Doutor Evandro, sempre na sua sala. Nunca se queixou do meu trabalho no Jornal Hoje, no Jornal da Globo, no Jornal Nacional e no Fantástico. Ele deixava a impressão de que eu estava fazendo apenas a minha obrigação. Doutor Evandro não era de elogios.

Ele tinha uma postura firme e forte, imbatível. Lembro-me bem do dia – uma sexta-feira – em que fui passar o script do Fantástico pra ele. Quando disse que fecharíamos o programa com um clipe inédito e exclusivo do Chico Buarque, o diálogo foi o seguinte:

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– Não!

– Não? Por que não?

– Não estamos aqui para vender discos do senhor Chico Buarque de Hollanda.

– Sei que não estamos aqui para vender disco do Chico, mas estamos aqui para falar de cultura.

– Deixa o Chico pros jornais falarem dele. Nós, não.

Lembrei a ele da tal lista negra que havia me falado no nosso primeiro encontro, ele argumentou que Chico não estava em lista negra alguma, mas colocar um clipe dele no Fantástico era propaganda para vender disco. Discordei.

Mas não teve argumento. Um não do Doutor Evandro era um não e não tinha volta. Sai da sala meio cabisbaixo, carregando a tristeza de não fechar o Fantástico com o Chico cantando Me sinto pisando/Um chão de esmeraldas/Quando levo meu coração/À Mangueira.

Mas isso são águas passadas. O que quero contar aqui hoje nesta crônica, é uma história engraçada, meio sem pé nem cabeça, talvez uma bobagem.

Era domingo, por volta de dez da noite, eu estava no switcher colocando o Fantástico no ar quando o telefone tocou. Quando aquele telefone tocava, era alguma coisa séria porque era uma espécie de telefone vermelho.

O produtor atendeu e, meio pálido, me passou o gancho.

– É o Doutor Evandro!

Doutor Evandro estava tendo um chilique. Furioso e, antes mesmo de perguntar se era eu quem estava na linha, disparou:

– Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor que é militante do Partido Verde!

Segundos antes, tínhamos colocado no ar, uma pequena noticia do domingo, em que os cariocas abraçavam a lagoa Rodrigo de Freitas, em mais um desses atos típicos do domingo carioca, mais uma tentativa de salvar os seus peixes.

Era o que chamamos de nota coberta, em que o apresentador narra e a imagem mostra o fato. O que enfureceu Doutor Evandro foi uma imagem em primeiro plano de um jovem vestindo uma camisa branca com um enorme V no peito, o logotipo do Partido Verde, um partido que não passava de 0,1% da intenção de votos em qualquer pesquisa. Mas o Doutor Evandro encasquetou que ali havia uma mensagem cifrada do pobre editor que, na verdade, tinha razão de colocar no ar apenas uma boa imagem.

Não podia ver seu rosto, mas pelo tom de voz senti que deveria estar espumando de tanta fúria.

Não respondi nada, disse apenas que não poderia interromper o meu trabalho que era tenso, muito tenso, de colocar o Fantástico no ar. Doutor Evandro, antes de bater o telefone na minha cara, disse que queria, no final do programa, o nome do editor.

O Fantástico acabou, recolhi minhas coisas, apaguei as luzes, peguei um taxi amarelo na porta da emissora e me recolhi a um quarto de hotel em Ipanema, esperando o telefone tocar a qualquer momento.

O tempo passou, o telefone ficou em silêncio. Alguns dias depois, encontrei com o Doutor Evandro deixando a emissora no final do expediente. Ele me chamou e disse que acabara de ler um livro espetacular e perguntou se já tinha lido. Era Pastoral Americana, de Philip Roth. Disse que ainda não tinha lida e ele completou:

– Leia! Leia! É uma obra prima.

Passei na Livraria da Travessa, comprei o livro, li, procurando ali uma mensagem cifrada. E nada.

Tivemos alguns outros encontros e o Doutor Evandro nunca mais tocou no assunto Partido Verde. Morreu sem saber o nome do editor que, um dia, me confessou que nem sabia que aquele V dentro de um circulo na camisa daquele manifestante da lagoa, era o logotipo do Partido Verde, partido que ele nunca votou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEIA MEIA

Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Mais os Beatles do que os Rolling Stones. Estava mais inclinado para Lucy in the sky with diamonds do que uma Simpathy for the devil. Era mais Rubber Souldo que Let It Bleed.

Um temporal jamais visto, com ventos de cento e quarenta e cinco quilômetros por hora, quase varreu Florença do mapa. Obras de arte boiavam no Rio Arno como se fossem pedaços de tábua a vagar. A Ponte Vecchio, a única que não foi destruída pelo bombardeio alemão, resistia bravamente, mais uma vez.

Num hospital de Houston, no Texas, Marcel de Rudder resistiu apenas cinco dias com uma bomba cardíaca implantada no peito. O doutor Michael de Bakey, responsável pela façanha, explicou ao mundo que a morte foi provocada por um rompimento do pulmão e não tinha relação alguma com o aparelho instalado no peito esquerdo de Rudder.

Nós, terráqueos, vimos, através de radiofotos, as primeiras fotografias da superfície lunar enviadas pela nave Surveyor. Era mesmo uma paisagem lunática, pedras de cor cinza chumbo e nenhum sinal de vida como a nossa por aqui, com luzes, árvores, pessoas, automóveis, intrigas.

Aproveite este dia, aproveite esta hora! /Fora com todas as pragas!/Nossa força é irresistível. O último poema de Mao Tsé-Tung viera à tona naqueles dias e a grande revolução chinesa estava lançada.

A guerra do Vietnã andava a passos largos e definitivos, o cheiro de patchouli começava a impregnar o ar e a moda eram jaquetas jeans bordadas com pequenos cacos de espelho. Os hippies estavam sendo incubados.

O Brasil estava dividido entre uma Arena e um MDB, enquanto um rei era coroado, querendo apenas que alguém lhe aquecesse no inverno e que tudo mais fosse pro inferno.

Eu estava passando férias em Sobradinho, cidade satélite de Brasília, esperando nascer a minha primeira sobrinha, quando o radinho de pilha começou a transmitir a Copa do Mundo, na Inglaterra.

Na pré-história dos satélites, o som vinha e sumia daquele radinho como poeira na estrada. Mas, aos quinze minutos do primeiro tempo, ouvimos o grito de gol. Era Pelé que fazia um a zero em cima dos búlgaros.

O Brasil estava em campo com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Altair, Paulo Henrique, Denílson, Lima, Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Era o nosso escrete canarinho.

A gente ficava ali na varanda de uma casa popular, tentando captar um som mais puro e constante que saia fraco daquele radinho de pilha. Sabíamos que a cor da camisa da nossa seleção era amarelo ouro porque vimos na capa da Manchete, a mais colorida de todas as revistas. Mas, a do adversário, não conseguíamos enxergar, apenas imaginar. Só no dia seguinte, através das radiofotos na primeira página de O Globo, víamos as imagens, mesmo assim em preto e branco.

Campeões em 1958 na Suécia, bi em 1962 no Chile, por aqui só se ouvia falar em tri. Um tri que não veio e que foi transformado em vexame internacional, depois que perdemos da Hungria por 3 a 1 e de Portugal, pelo mesmo placar.

De tempos em tempos, trocávamos as pilhas amarelinhas do rádio, e ele recomeçava bravamente a transmissão. Foram tardes sofridas aquelas de 1966, em busca do som puro, da jogada perfeita, da festa do tri que já tinha um engradado de Brahma Chopp reservado para os que podiam beber.

O radinho de pilha aguentou firme e só foi aposentado em 1970, na Copa do México, na Copa do tri. Naquele 1966, o cinema perdeu Montgomery Clift, o surrealismo perdeu André Breton, as crianças perderam papai Walt Disney, nós perdemos a Copa do Mundo na Inglaterra, mas ganhamos uma sobrinha muito querida, a Chris, que nasceu lá em Sobradinho.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O ABDALLA É FOGO NA ROUPA

Na metade do século passado, os clientes eram bem fiéis. Tão fiéis que eu, menino na época, lembro-me até hoje das lojas onde os meus pais faziam suas compras. Do Mundo Colegial, onde compravam os uniformes do Colégio Marista e do Colégio Sion, da Bemoreira, onde compravam os móveis pra nossa casa.

Hoje, fico aqui pensando como é que, mais de meio século depois, lembro-me perfeitamente das lojas de Belo Horizonte, uma cidade que, segundo o cronista Humberto Werneck, “não acontece nada, mas a gente lembra de tudo”.

Minha mãe comprava sapatos pra ela e pras minhas irmãs, na Elmo. O meu pai, na Clark. Camisas, ele não abria mão, era só na Casas José Silva. Eu me lembro perfeitamente das Estâncias Califórnia, onde vendiam produtos importados da América do Norte e a gente atazanava meu pai pra comprar aquelas caixinhas vermelhas de uva passa, caríssimas na época.

O meu pai era um consumidor tão fiel que só mandava revelar fotos no Zatz, só comprava pão na Padaria Savassi, só enchia o tanque no Posto Fraternia, só comprava discos nas Lojas Gomes, frutas no Mercado Central e achocolatado, era só o Ovomaltine.

Belo Horizonte tinha a Guanabara, uma loja de departamentos no coração da Avenida Afonso Pena, tinha a Livraria Amadeu, a Gruta Metrópole, a Copiadora Brasileira, a lanchonete Ted’s, a Cantina do Ângelo e o Cine Pathé, onde assistíamos todas as chanchadas com Renata Fronzi, Anilza Leone, Grande Otelo, Zé Trindade, Costinha, Ronald Golias, Jô Soares e Otelo Zeloni.

Mas foi nos anos 1960 que um furacão varreu Belo Horizonte, com a chegada do Abdalla, uma loja de roupas a preço de banana, numa época que bananas eram vendidas a preço de banana. Ninguém sabia quem era o dono, se era turco, sírio ou libanês que, naquela época, eram todos iguais. A diferença era que turco era pobre, sírio, o que melhorou de vida, e libanês era o rico.

O Abdala chegou arrasando com a concorrência. De minuto em minuto entrava um anuncio na TV Itacolomi, canal 4, com uma musiquinha que em poucos dias virou hit na cidade: O Abdalla é fogo na roupa/Com ele ninguém pode/ Veja a fama que ele tem.

Sei que a cidade inteira correu pro Abdala pra comprar calças, camisas, meias, calcinhas, sutiãs, boleros, saias pregueadas, tudo. Em poucos dias, a cidade estava toda vestida pra missa, bem no estilo Abdalla.

Apesar de um sotaque libanês, uma roupa de sírio e um bigode de turco, Abdalla caiu no gosto de um Brasil popular, que gostava de uma camisa nos trinques, fosse ela de algodão, pele de ovo, opaca ou fustão.

Na porta das lojas Abdalla, havia uns stands com promoções arrasadoras. Eu passava de ônibus pela Avenida Afonso Pena e sempre via uma multidão  de mulheres afoitas revirando aquela montanha de  calcinhas de todas as cores, escolhendo uma que lhe servisse.

Os homens, ali mesmo na avenida, escolhiam e experimentavam suas camisas coloridas, algumas já faltando botão de tanto manuseio.

As lojas Abdalla sacudiram Belo Horizonte naqueles anos 1960, deixando a concorrência de calças nas mãos. O slogan é fogo na roupa é porque o Abdalla era mesmo fogo na roupa. Seus preços eram imbatíveis. Uma dúzia de meias custava o preço de uma passagem de ônibus, ida e volta.

Um dia, fui-me embora de Belo Horizonte e deixei pra trás a euforia da moda Abdalla na cidade onde nasci. Muitos anos depois, voltei e perguntei que fim levou o Abdalla. Me responderam que as Lojas Abdalla não haviam mais. Como não havia mais a Guanabara, a Bemoreira, as Estancias Califórnia, as Lojas Gomes, nem mesmo um monumento conhecido como pirulito, que ficava na Praça 7, havia mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A VOLTA

Quando chega a hora de voltar ao país, é um drama pra todo brasileiro. Primeiro, pelas notícias que piscam nos sites e nas redes sociais. Em outros tempos, a gente voltava doido pra saber as novidades. Agora não, não tem nada que aconteceu nesses dias fora que não saibamos.

Segundo, porque a volta é longa e as encrencas são muitas.

Como enfiar na mala todas as bugigangas que compramos, mala que já saiu do Brasil estufada? Aí começa o descarte. Esse xampu pela metade, vai ficar. Essas Havaianas surradas também não vou levar de volta. Essa camiseta Fora Temer que está meio desbotada pelo sol, não vale quanto pesa pra enfiar na mala. Essa garrafa d’água tão linda que trouxemos do restaurante, também vai ficar. Não dá pra levar esse peso todo.

A solução então é comprar uma segunda mala, que é encontrada geralmente na lojinha de um chinês que fica aberta – desconfio –  que 24 horas por dia, esperando os turistas desesperados. Essas malas são meio vagabundas, pra usar apenas numa viagem e pronto.

Depois de um grande quebra-cabeça, vem a hora de fechar as malas. Elas são colocadas no chão, os extensores são acionados e, finalmente, a gente ouve aquele crack. Fecharam!

Quando vamos colocá-las de pé, vem outro pesadelo. Quantos quilos essas malas estão pesando? Meu Deus! É permitido apenas duas malas de 23 quilos e a impressão que temos é que, cada uma, pesa mais ou menos, uns cinquenta. Seja o que Deus quiser!

Hora de chamar o táxi. Jesus, tem de ser um táxi grande, tipo Van, pra caber tudo isso. Será que tem táxi grande nesse fim de mundo? O táxi chega, não é tão grande assim, mas o motorista, que não quer perder a viagem, dá o seu jeitinho de encaixar tudo ali dentro e acabou.

A caminho do aeroporto, além de dar o último adeus à cidade que não sabemos se voltaremos um dia, a preocupação é com o check-in naquelas máquinas que costumam responder secamente: Número de reserva desconhecido.

Tudo bem. O táxi estaciona, as malas são colocadas nos carrinhos, fizemos o check-in nas máquinas e enfrentamos a longa fila até chegarmos à atendente que, apesar do excesso de peso, acaba deixando passar tudo. Talvez pela cara de desespero e o excesso de simpatia dos passageiros que estão dando bom dia até pro luminoso da companhia, atrás da atendente.

Pronto. Agora é achar o portão 49B naquele aeroporto que parece ser maior que a cidade visitada. Mas, como agora a bagagem é pouca, o portão 49B vai acabar aparecendo, depois de muitos passos largos e muitos metros de esteira.

Será que essa bagagem de mão vai caber no porta-bagagens do avião? E se não couber? O avião já é apertado e vou ter de levar, debaixo dos pés, essa mochila que leva até um mico de pelúcia e um porquinho de borracha.

Ótimo, a mochila coube no porta-bagagens em cima das nossas cabeças. Agora só resta esperar que ninguém sente aqui ao lado, para que possamos dormir esticados o voo inteiro, a noite inteira. O que não acontece. O último passageiro a entrar no avião é o meu vizinho de cadeira.

A noite passa, a turbulência passa, a dúvida entre massa ou frango passa, e quando o comandante anuncia que começamos o procedimento de descida para o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, passa pela cabeça o último pesadelo, o pouco dinheiro que resta e a tentação do free shop que nos espera.

Temos uísque em casa? E Mozart? Será que o limoncello acabou? Acho que o Baileys está no fim. Quanto será que está o Beaujolais? O que vou fazer com esses 35 euros que sobraram? O cartão está estourado. Será que dá pra comprar um Grand Marnier e aqueles chocolatinhos da Lindt pro pessoal da firma? E aquele relógio que a sogra pediu pra ver o preço e eu não vou ter coragem de dizer que vi e que custa caro demais?

Antes do avião pousar, vem mais uma questão. Será que vou apertar o botão verde ou vermelho da alfândega? E se apertar o vermelho? Será que vão achar aquele camembert embrulhado em oito plásticos no fundo da mala? E os figos secos comprados na Grécia? E os três pacotes de polenta italiana?

Senhores passageiros, benvindos a São Paulo! Cuidado ao recuperar suas bagagens de mão porque elas podem ter se deslocado durante o voo. Não esqueçam de verificar se estão levando todos os seus pertences, inclusive o seu aparelho celular. A temperatura no momento é de 25 graus.

Ai vem a última dúvida: Será que a fila do táxi lá fora está gigantesca?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ÁLBUM DE RETRATOS

Ainda bem que não vivemos mais na dinastia Fuji, nem mesmo na era Kodrakrome. Se ainda estivéssemos nesse tempo, eu estaria louco ou na miséria. Lembro-me bem que quando íamos viajar pro estrangeiro, comprávamos na Fotóptica uns seis filmes de 36 poses pra colocar na mala e fazer fotografias por esse mundo afora.

Cada foto era pensada, calculada, focada e não havia desperdício algum. Só quando todos estivessem à postos e com o sorriso nos lábios é que disparávamos o clic, exclamando: Olha o passarinho!

As fotos iam sendo tiradas e os rolos iam sendo guardados para quando, de volta ao Brasil, levarmos na mesma Fotóptica para serem revelados. Esperávamos cinco dias úteis pra ficarem prontas e quando abríamos aquele envelope, era sempre uma surpresa. Algumas fotografias ficavam fora de foco, umas cortavam o pé, outras a cabeça das pessoas e tinham aquelas que simplesmente queimavam.

Íamos admirando uma a uma e como o tempo havia passado, tinha fotos que nem lembrávamos mais que tínhamos tirado, como aquela na porta do hotel, todos reunidos, sorrindo, é claro.

Éramos econômicos. Não tirávamos fotos de qualquer coisa. De prato de comida, de por do sol, da lua cheia, da areia da praia ou de um cachorro dormindo na porta de uma loja, por exemplo. Hoje,  fotografo qualquer cachorro que vejo pela frente.

De galgo a pitbull, de poodle a vira-lata. Percebo isso, quando vou apagar as fotos para aliviar a memória do computador. Sim, hoje tiramos milhares de fotos e apagamos milhares. Eu e minhas manias.

Estou aqui há uma semana apagando fotos inúteis antes de voltar ao Brasil. Em três meses foram mais de doze mil fotos. O problema maior é que bato duas, três, quatro fotos da mesma coisa, sempre achando que uma pode não sair boa, ficar fora de foco ou cortar algum detalhe importante. Acontece que todas saem absolutamente idênticas e eu sou obrigado a eliminar todas as outras.

Só depois de ver mais essa quantidade monstruosa de fotos que passei do iPhone pro computador, é que a ficha cai e eu pergunto para os meus botões: Por que fotografei tanto cachorro? Por que fotografei tanto por do sol, todos eles muito parecidos?

Além de cachorro, não posso ver um gato que fotografo, um pombo que fotografo, não posso ver uma gaivota, um grafite bonito, uma placa que não entendo, uma onda do mar, uma árvore frondosa, um pardal, que fotografo. Tenho pardais dos quatro cantos do mundo, todos absolutamente idênticos. Chego num lugar e não sossego enquanto não fotografo um pardal local.

Na última semana, já eliminei 74 pombos, 56 grafifes, 88 gatos, 101 cachorros, 60 gaivotas, 29 placas que não entendo, 44 pratos de comida, sem contar um oceano inteiro de ondas do mar e 99 flagrantes do sol se pondo. Elimino, não porque as fotos não ficaram boas, mas por serem praticamente iguais.

É sempre assim. Quando saio de casa, faço uma pequena reflexão em grupo e anuncio que esse ano não vai ser igual aquele ano que passou. Não vou sair fotografando tudo o que vejo pela frente, e quando vejo, lá estou eu fotografando tudo o que vejo pela frente. Sofro com isso, mas, pensando bem, me divirto, tenho assunto pra crônica.

Não são apenas patos, mas toda a família: Gansos, cisnes, marrecos, mulards e cayugas. Patos, desses comuns, foram 142 só em Florença, deslizando pelo Rio Arno. Tenho fotos de todo tipo de pato, em todas as posições possíveis e imagináveis. Patos com a cabeça enfiada n’água, patos chacoalhando as penas, patos cochilando, patos batendo asas, ameaçando voar, todas as reações de um de pato, registrei. Muitas vezes, fotografo dez, quinze, vinte vezes pra tentar conseguir um lance bacana.

Esses dois aí que ilustram a crônica, por exemplo, foram clicados 17 vezes. Eu estava tentando fazer a foto perfeita dos dois juntos formando um coração. Como podem ver, quase consegui. Mas não desisti. Tenho certeza que um dia vou conseguir um casal de patos formando o tal coração com o pescoço e o bico. Repito: Não vou desistir. Nem que seja um pato laqué no prato de um restaurante, lá na China.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

ATENAS À VISTA!

A primeira vez que vim a Atenas, cheguei exausto depois de atravessar toda a Itália de pé dentro de um trem com uma mochila nas costas, mais dezesseis horas de navio e um bocado de tempo dentro de um ônibus sacolejante, que levava também algumas galinhas vivas enroladas em jornal, apenas com a cabeça de fora.

Era início dos anos 1970 e eles caminhavam lado a lado com o meu sonho de correr mundo, correr perigo. A ideia de ir de Paris até Beirute – por terra – fazia parte desse sonho maluco beleza. E foi assim que acabei chegando a Atenas naquele verão, rumo a Istambul. Depois, ainda tínhamos muito chão pela frente, muita poeira pra comer até a capital do Líbano.

Não havia booking.com e eu cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Carregava apenas uma velha mochila de lona nas costas e, dentro dela, poucas coisas. Alguns francos franceses, roupa leve de verão, um mapa da Texaco para me orientar e três exemplares da revista Planeta, ainda não lidos.

Um sobre Fidel Castro, um sobre Bob Dylan e outro sobre Krishnamurthy. Vestia uma camiseta desbotada pela água sanitária, uma velha calça Lee e calçava uma sandália com sola de pneu bem pesadona.

Isso é o que me lembro, quase cinquenta anos depois, porque anotei num velho caderno Clairefontaine quadriculado que guardo até hoje.

Lembro-me que encontrei uma cidade árida e meio bagunçada como o meu Brasil. Morando em Paris há algum tempo e já acostumado com aquele charme dos cafés no Boulevard Saint Germain, amei quando cheguei aqui e encontrei botequins como os meus bons e velhos botequins de Belo Horizonte. Aqueles com mesinhas cobertas com toalhas xadrez, flores de plástico num vasinho azul-calcinha e um conjunto para sal, pimenta do reino, vinagre e azeite.

Lembro-me pouco daquela Atenas. Da aula de arqueologia a céu aberto, dos luminosos que não entendia uma palavra sequer e das melancias. Era época de melancias e elas estavam por todos os lados, enormes, vermelhas e muito saborosas. Comi muita melancia a preço de banana.

Nunca me esqueci de uma grande praça, tomada de barracas coloridas de todos os cantos e nações. Foi ali que me instalei, na falta de um hotel barato – todos lotados – para dormir. Quem era eu pra bater na porta de um Holiday Inn com aquela mochila maltrapilha nas costas e pouco dinheiro no bolso?

Consegui um surrado sleep bag emprestado e ali, debaixo de uma árvore, me instalei por dois dias, estudando o caminho para o Oriente Médio até chegar a Beirute, meu destino final.
Além de melancias, comi muito sanduíche de carne de carneiro, muito pepino, muito tomate e muita azeitona. Tomava suco de romã, que só vim a saber que era romã algum tempo depois.

Andei por avenidas, ruas e ruelas de Atenas, deslumbrado com aquelas casas simples com alpendre e cadeiras de ferro pintadas de branco, coisa que não via desde que havia saído do Brasil. Ruas de pedra, um chorão ao lado de um pinheiro, ao lado de um eucalipto, ao lado de um cactus e a Acrópole lá longe. Fiquei apaixonado por aquela bagunça que não existia em Paris, onde estudava e lavava pratos.

Quando cheguei a Atenas pela primeira vez, ainda não havia para mim a canção que Chico Buarque fez para as mulheres daqui que, “quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam suas melenas. Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram”.

Lembro-me das mulheres de Atenas vestidas de preto puxando seus filhos pelo braço, sempre com um ar severo de que não estavam ali pra brincadeira.

Voltei alguns anos depois, mas a história foi outra porque o mundo já era outro. A minha emoção é saber que acabo de chegar a Atenas para passar novamente dois dias. Mesmo não tendo mais nas costas uma mochila de lona rústica comprada no Mercado Modelo de Salvador, as três revistas Planeta, o sleep bag, aquela sandália de sola de pneu pesadona, nem a velha calça Lee e a camiseta desbotada pela água sanitária.

Sei que não vou dormir na praça ao relento esta noite, mas quando fechar os olhos, gostaria que aquele sonho antigo de continuar correndo mundo, correndo perigo, durasse uma eternidade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

ARRUMANDO A MALA

Quando vou arrumar minha mala para viajar, toda vez é a mesma história. Um mês antes, começo a consultar, no smartphone, a temperatura do meu destino. É sempre assim: um dia chove, no outro dia bate sol. Às vezes o termômetro está marcando vinte graus, no dia seguinte, cinco. Aí começa a minha dúvida sobre o que colocar dentro da mala.

Dessa vez foi diferente. Estava sabendo que viria passar uma boa temporada por aqui e que não eram aquelas férias costumeiras de, no máximo, quinze dias. Comecei a consultar o termômetro no inverno e no dia de partir, já era uma primavera caminhando a passos largos pro verão. Mas, mesmo assim, em se tratando de Europa, sempre fico com um pé atrás. Vai que esfria!

Além das roupas de frio e de calor, fui enchendo a mala de coisas, de livros e mais livros porque sabia que parte da temporada seria na Grécia, onde ainda não sei dar bom dia. E olha que não pensei em trazer livros finos. O primeiro que escolhi foi o magistral Leonardo da Vinci – já que a primeira temporada seria em Florença -, de Walter Isaacson, com suas 634 páginas e quase um quilo.

Mas isso não era nada. Enfiei na mala roupas de calor, bem leves, e aquelas roupas de frio, bem pesadonas. A mala, de repente, foi virando um container. Aí veio aquela preocupação, sabendo que viajaria muito de trem e com a obrigação de carregar a bagagem até entrar no vagão. Mas, nessas horas, a gente pensa leve: Tem rodinhas, tudo bem!

Além do meu guarda roupa, trouxe muito material de pesquisa, e também pequenos objetos que não me deixam nunca. Sabendo que iria voar numa velocidade de quase mil quilômetros por hora em cima de oceanos, mares, rios, lagos, montanhas, vulcões e tudo mais que o Planeta Terra nos oferece, trouxe um olho turco e uma imagem de Nhá Chica, minha protetora. Mas, pensando bem, essas duas coisas não pesam quase nada.

Como se já não tivesse com muito peso e volume, a primeira coisa que comprei em Florença foi o livro 1968, de Oriana Fallaci, com suas 466 páginas. Vou comprando e sempre acho que tem um canto na mala que, apertando, cabe.

Espero que aprenda com essa viagem, porque quando fui organizar a bagagem para me transferir da Itália para a Grécia, foi que caiu a ficha. Fui colocando tudo em cima de uma cama king-size e quando vi, tinha na minha frente praticamente um Everest.

Comecei cuidadosamente a colocar tudo dentro da mala e a pensar com os meus botões:

Por que cargas d’água trouxe, além das blusas de frio, dezenove camisetas (inclusive uma com um Fora Temer), cinco calças compridas, nove bermudas, uma dúzia de cuecas, quatro shorts, três bonés e seis pares de meia? Das seis meias, usei apenas uma e as outras cinco estão ainda com aquele cheirinho de amaciante Fofo, lá do Brasil.

Trouxe duas blusas de frio e ainda bem que foram só duas. A Paulinha me pegou em flagrante colocando cinco dentro da mala e perguntou se estava ficando louco em levar cinco blusas pro verão grego. Três voltaram pro armário e hoje agradeço de coração a sua bronca.

Mas, verdade seja dita. Trouxe coisas muito úteis dentro da nécessaire. Um punhado de remédios que só compramos com receita médica, escova de dente, tesourinha de cortar unha, Band-Aid e cotonetes por exemplo. Tudo levinho.

Por que não deixei pra comprar xampu, condicionador, protetor solar e desodorante aqui? Vem sempre aquela dor de consciência: Pra que comprar um desodorante que custa 10 euros lá, se eu tenho o meu Dove novinho, comprado no Záfira? Agora, vexame foi trazer quatro sabonetes Phebo, que acreditava ainda ter cheiro. Três deixei em Florença, sem uso e sem cheiro.

O que mais me espantou quando coloquei tudo em cima da cama e vi o tamanho da mala onde tinha de enfiar tudo, foram algumas coisas inúteis.

Deus meu! Por que trouxe a minha carteira de idoso pra andar de graça nos ônibus de São Paulo? Pra que trouxe a minha carteirinha plastificada da Nota Fiscal Paulista? Pra que trouxe 70 reais em dinheiro vivo? E tem mais: Trouxe muita coisa que tenho certeza que não vou nem pegar porque tenho muita coisa pra ver e fotografar, um livro pra escrever, dois livros pra revisar, uma coleção pra coordenar, uma biografia para organizar.

O arrependimento vem quando vejo aquele calhamaço com 564 páginas contanto a história do Jornal do Brasil, que parece ser muito bom, mas sei que não vou ter tempo de ler nem a orelha. Tenho aqui comigo pesando quase três quilos, diversas revistas Geo, Magazine Littéraire, L’Histoire, Philosophie, Sens & Santé, sem contar as Linus que comprei num sebo em Bolonha.

Estou aqui me perguntando porque trouxe cinco canetas Pilot, um lápis, uma régua, três relógios de pulso e um tubo de cola Prit. Estou pensando seriamente em deixar meia bagagem por aqui, só pra poder levar pro Brasil as garrafinhas de San Pelegrino e as garrafinhas de Fanta grega que vão só aumentar a minha coleção.

Jurei não comprar nada por aqui e até que estou me contendo. O único peso de verdade é um livro que arrematei na Fnac Les Halles: Uma coleção completa e encadernada do jornal L’Enragé, de 1968. Doido, né?

Mas o que mais está me dando dor de cabeça são as tais dezenove camisetas e as nove bermudas porque, antes de deixar Florença, a Paulinha passou em frente a uma H&M e disse:

– Vamos lá comprar umas roupas pra você. As camisetas e as bermudas que você trouxe estão muito surradas.

Agora são vinte e cinco camisetas, doze bermudas e seis shorts.  Ainda bem que ela não pensou em comprar umas meias pra mim, porque só tinha pretas e ela odeia meia preta.

Por que trazer uma pilha de camisetas?
Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital
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[foto Alberto Villas]

UMA PAUTA NO AR

Quase dois anos se passaram e eu ainda sonho com ele de tempos em tempos. Talvez por estar aqui, mais perto de Londres, sonho constantemente. Ele sempre aparece com o seu paletó de gabardine, que chamávamos de paletó do milênio.

Geneton Moraes Neto era um jornalista sem vaidade, andava de calça Lee, tênis Conga sem meia e camiseta. Quando era chamado para fazer uma entrevista no programa Milênio, da GloboNews, passava a mão naquele paletó de gabardine dependurado numa parede da redação e subia as escadas, crente que havia se transformado num cavalheiro de fina estampa.

Sonho com ele talvez porque deixamos dois sonhos inacabados.

Toda semana que ia ao Rio de Janeiro, nosso jantar no Restaurante À Mineira, em Botafogo, era sagrado. Pernambucano que jamais perdera o sotaque do Recife mesmo depois de tantos anos na cidade da Rainha Elizabeth e outros tantos na outrora Cidade Maravilhosa, Geneton gostava de um franguinho com feijão e angu e, de sobremesa, uma colherada de doce de leite. Sua Coca-Cola gelada, sem cubos de gelo e sem limão, também era sagrada.

Nosso primeiro sonho apenas engatinhava quando o seu coração parou. Uma semana antes de partir, combinamos um encontro no restaurante, assim que saísse do hospital. Nosso primeiro sonho era colocar no papel as ideias que tínhamos de criar um Memorial da Imprensa.

Sim, nossa geração ainda colocava no papel as ideias. E o papel que falo é um velho caderno que ele tinha, hábito de repórter, onde anotava sua agenda, as suas e as nossas ideias, que andavam sempre lado à lado, desde o tempo em que trabalhávamos no outrora show da vida.

Geneton tinha um arquivo precioso e disputávamos juntos quem tinha a maior preciosidade. Ele considerava que era o exemplar número 1 da revista Tudo com Assis Chateaubriand vestido de cangaceiro na capa, que eu conseguira num sebo perdido no centro de São Paulo, não me lembro mais como, lá pelos anos 1980. Para mim, a moeda número 1 do Tio Patinhas era do Geneton, o exemplar número zero, novinho em folha, da revista Realidade que, antes de partir ele, generoso que era, me deu de presente.

O nosso sonho era reunir todas essas preciosidades e fundar o Memorial da Imprensa. Sonho – ou grito, sei lá – que ficou parado no ar.

O segundo sonho era fazer um Globo Repórter com Caetano Veloso e Gilberto Gil, em Londres. Nossa pauta era levar os dois baianos à terra dos Beatles e refazer o caminho do exílio dos dois. Geneton, profissão repórter, acompanharia os dois no voo até a capital britânica, refazendo o percurso passo a passo, desde o dia em que foram expulsos do país até o dia que voltaram, sabe Deus como.

Nossa ideia era ir até o casarão onde moraram, andar pelo parque onde passeavam e ir ao estúdio onde gravaram os seus melancólicos discos ingleses. Mostrar onde fizeram shows, como viviam, o que comiam, o que faziam ali, tão longe do mar, mar da Bahia que um dia eles deixaram como se ter ido fosse necessário para voltar.

O nosso Globo Repórter seria recheado com imagens do filme O Demiurgo, uma porralouquice que Jorge Mautner fez lá, nos anos de chumbo aqui. Geneton tinha fotos e mais fotos dos dois baianos em Londres, um Gil barbudo e cabeludo, magrinho, macrobiótico, e um Caetano com aquela Juba de Leão enrolado num poncho peruano, deixando a impressão que sentia frio e solidão vinte e quatro horas por dia.

Pusemos a pauta no papel e Geneton ficou de apresentar a Silvia Sayão, a diretora do programa. Não sei se chegou a apresentar ou se a pauta acabou ficando na gaveta, como dizíamos.

Geneton era vaidade zero, mas a última foto que postou no Facebook foi esta que ilustra a crônica, do seu arquivo pessoal, feita creio eu no Uruguai, por alguém que nunca soube quem foi. Assim que postou, me mandou um inbox, era assim que chamávamos o messenger, com um recado curto e grosso: “Essa você vai gostar”.

A fotografia de Geneton ao lado de um Che Guevara no muro não é apenas um retrato na parede porque não revelamos mais. É apenas um clique na minha pasta de fotografias e como dói.

Acredito que aquele Che está ali ao lado porque seu sonho – e o meu – era terminar o Globo Repórter com Soy Loco por Ti américa, aquela canção que fala do nombre del hombre muerto/ya no se puede decirlo, quién sabe?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DE VOLTA AO PASSADO

Acostumado durante muitos e muitos anos a aridez dos grandes supermercados onde, muitas vezes, a caixa sequer diz bom dia, boa tarde ou boa noite, sequer olha nos seus olhos , cujas palavras que dirige até você são as de praxe – tem cartão fidelidade? nota fiscal paulista? quer sacola? quer carregar o celular? tem noventa centavos? – passei a observar em Florença, os mercadinhos. Como numa cidade do interior, eles sobrevivem com suas frutas e legumes expostos nas calçadas, tudo meio desarrumado , mas com o frescor de outrora. As vendedoras e os vendedores nem sempre são o retrato da simpatia, mas ainda pesam seus pêssegos ou os seus aspargos em velhas balanças e os embrulham em saquinhos de papel pardo. Você entra nos mercadinhos, muitos deles sem nome, fica observando e vai percebendo que eles têm um pouco de tudo.  Até mesmo aqueles figos secos deliciosos vindos de Istambul, conforme revela a caixa de papelão branco onde estão meio escondidos, debaixo dos saquinhos de papel pardo. Florença é uma delícia. E os seus mercadinhos, inesquecíveis.

[foto Alberto Villas]