A DAYSE DO ALMOXARIFADO

Eram seis. A turma subiu animada no ônibus Vila Anastácio, quase em frente ao Oba Hortifruti, na Avenida Angélica. Em princípio, achei que eram estudantes sextando, voltando pra casa depois de uma semana de faculdade. Mas não.

Pelo papo alegre, logo percebi que a idade, entre 24 e 27 anos, não batia muito com a idade de estudantes. Fiquei logo sabendo o nome de cada um: Maria Eduarda, a Duda, Gisela, a Gi, a Vitória, o Mateus, o Fabio e o Du, provavelmente Eduardo.

A primeira frase que ouvi foi: “Então segunda a gente pergunta pra Dayse do Almoxarifado”. Achei que a palavra almoxarifado tinha sumido do mapa da juventude, sendo substituída por estoque. Mas não.

Eles conversavam sem parar e as palavras se misturavam em línguas como que de fogo. Eles estavam felizes e comentavam o dia que estava acabando:

– Meu, e aquela cliente da Duda que chegou com a tela toda detonada querendo trocar, de graça!

E o véio que o Fabio atendeu teimando que estava na garantia, mas não tinha nem a nota fiscal. E aí, Fabio?

– Sei lá, cara!

 Comecei a desconfiar que trabalhavam em alguma loja de conserto de celulares, computadores, coisa assim. Tipo estagiários, provavelmente.

Tudo virava assunto para aquela turma que se equilibrava de pé no ônibus Vila Anastácio, com as mochilas no chão, apesar de uns quatro lugares vazios.

Uma picape preta com o som estridente parou bem ao lado do ônibus esperando o sinal abrir e mereceu um comentário da Gi.

– Essa música é da hora!

Gi começou a se balançar, simulando uma dança qualquer. Ninguém deu muita bola e o assunto voltou ao trabalho.

– Aquele com capa rosa? É maior caro, meu!

– Mas é o que mais vende.

– Já vendi três, disse Mateus.

Inquietos, eles se balançavam pisando bem na junção da sanfona do ônibus, achando graça quando um quase caia, rindo de tudo.

– De repente, a gente podia rangar lá em casa. Tem bacon na geladeira e um pacote de macarrão, disse Fabio.

– Tem molho?

– Não. A gente passa no Dia e compra.

– E queijo ralado?

– Ah, cara, aí tá querendo demais.

Quando entramos na Rua Guaicurus, houve um grande zunzunzun.

– Vamos descer onde?

– Antes da Estação Ciência, depois ele só para pra lá do Mercado.

– Ele não para na Estação Ciência?

– O Vila Anastácio, não.

No segundo ponto da Guaicurus, um vendedor entrou pela porta do fundo, depois de acenar pro motorista, que deu o ok. Ele trazia nas mãos dois pacotes de Mentos de frutas. Se escorou na catraca e fez um pequeno discurso:

– Boa noite a todos! Estou sem trabalho há dois anos e vendo essas balas pra sobreviver. Quem puder me ajudar com dois reais, leva uma caixinha. Deus abençoe a todos.

Os três primeiros passageiros abordados não quiseram comprar, um virou a cara e dois fizeram sinal negativo com o dedo. Foi caminhando entre os passageiros até que chegou na sanfona do ônibus onde estava a turma. Eles começaram a catar as moedas nos bolsos e nas mochilas. Era preciso inteirar dois reais aqui, dois ali. Todos queriam Mentos.

Três compraram, o que deixou o vendedor feliz e mais falante: Muito obrigado! Deus lhe pague! Obrigado! Obrigado! Valeu!

– Vocês são estudantes? Perguntou o vendedor.

– A gente trabalha na Claro! Saiu quase em coro.

Quase chegando, fiquei sabendo onde a Gi, a Duda, o Mateus, o Fabio, o Du e a Vitória trabalhavam. Desci um ponto antes deles, que seguiram Guaicurus afora.

Fui caminhando pra casa pensando que essa viagem daria uma crônica, e me perguntando:

O que será que eles vão perguntar pra Dayse do Almoxarifado, na segunda-feira, quando chegarem na Claro?

 

REMÉDIOS

Eu ainda usava calças curtas, nem passava brilhantina, e ficava impressionado com a quantidade de remédios que os meus pais tomavam, todos os dias.

Logo de manhã, ele enfileirava uns quatro comprimidos, um ao lado do outro, cada um de uma cor, no pratinho onde comia mamão com açúcar.

Ele dava uma golada no Ovomaltine e engolia dois de uma só vez. Descascava o mamão, arrumava os cubos no pratinho, distante dos comprimidos que ainda faltava ingerir.

Comia uns dois pedaços e vinha a segunda dose de comprimidos, dessa vez com água e limão, recomendação médica.

A minha mãe era mais desorganizada do que o meu pai, mas tinha uma caixinha de prata onde guardava seus comprimidos que também tomava todos os dias.

Eu espiava aquela cena e ficava pensando, desde pequenininho, que meus pais eram doentes. Por isso, tomavam tantos remédios.

Era remédio pra controlar a pressão.

Remédio pra baixar o colesterol.

Remédio para dores musculares.

Remédio pra fortalecer a memória.

Remédio pra gripe

Remédio pros ossos.

Remédio pra diabetes, que o meu pai tinha, mas o mamão com açúcar de manhã, ele não abria mão. Bem como a goiabada cascão com queijo canastra, depois do almoço.

Eles guardavam esse arsenal dentro da primeira gaveta da cômoda, gaveta que filho nenhum podia mexer.

Além desses comprimidos, meu pai não tirava do bolso o Mistol com efedrina, que pingava no nariz de tempos em tempos, até ser proibido pelo Ministério da Saúde, para desespero dele, viciado.

Minha mãe era o Melhoral. Ela engolia um comprimido de Melhoral pra qualquer mal que sentia. Levava a sério o slogan Melhoral, é melhor e não faz mal.

Os remédios das crianças eram poucos, alguns nem eram chamados de remédio. Emulsão Scotch, óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura e Anti-Cárie Xavier.

Na nossa caixinha de remédios, minha mãe guardava também o Enteroviofórmio pra dor de barriga, o basilicão que esquentava e pingava nos meus furúnculos, a cera do Doutor Lustosa pra dor de dente, o mercúrio cromo pros esfolados, o colírio Moura Brasil, a pomada Minancora, o tubo de Anaseptil e um vidro de Maracugina, que minha mãe dava na colher quando estávamos da pá virada.

Os remédios dos meus pais faziam parte da nossa vida. Quando entrávamos no Jeep Willys pra viajar, a primeira coisa que um perguntava pro outro era:

– Tá trazendo os remédios?

Quando íamos na casa dos meus avós, eu percebia que eles também tomavam muitos comprimidos. O meu avô tinha um calendário colado na parede da cozinha com o nome dos remédios e os horários para serem tomados. Ele ia tomando e fazendo um X ao lado.

Minha avó era muito esquecida e ouvia, todo dia, aquela ladainha: Zizinha! O remédio! Se dependesse dela, a Bayer e a Pfizer tinham falido. Ela odiava remédio.

Só agora percebi que os meus pais não estavam doentes, estavam sim, velhos. Como eu agora, em volta das minhas caixinhas de Puran 25 mg, Reconter 15 mg, Plenance 10%, Ezentrol 10%, Plaquinol 15mg, sem contar o Verutex, o Advil, o Dorflex e os homeopáticos.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

AMNÉSIA

“O Waze é um nome feio/Mas é o melhor meio/De se chegar.” Gilberto Gil

A minha mãe sabia o número do telefone de todo mundo. De suas irmãs, de uma tia torta, dos meus avós, dos vizinhos, o telefone da repartição do meu pai, do Colégio Marista, do Colégio Sion, do Armazém Colombo, da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, do cara que consertava a máquina de lavar roupas Bendix.

– Qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4767

– Qual é o telefone da Dona Celuta costureira?

– 2-6791

– E do meu avô?

– 2-3398

Está certo que os números eram somente cinco, mas ela respondia na lata, como se estive com um catálogo telefônico nas mãos.

Ninguém dizia que minha mãe tinha uma memória de elefante, mas tinha. Sabia o número de seu Alceu taxista, de seu Valdivino alfaiate, de dona Olímpia que fazia balas delícia, do doutor Aldo, nosso médico, do Depósito de Águas São Lourenço e de Dona Elvira, que fazia salgadinhos para as festas. Era só perguntar que ela dizia.

Hoje, se tirar o celular das mãos das pessoas, ninguém mais sabe o telefone de ninguém. Já fui vítima de roubo de iPhone e fiquei num mato sem cachorro. Não sabia o número do telefone da minha casa, da minha mulher, de nenhum dos quatro filhos.

Lembrei da minha mãe que sabia o telefone da Rádio Patrulha, do Corpo de Bombeiros e da Ambulância, que chamávamos de Assistência. Minha mãe era incrível.

Hoje, deixamos a memória de lado. Não é preciso saber mais número algum, nem mesmo a tabuada. Outro dia eu dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos e a caixa do supermercado teimou que tinha de voltar dezesseis e setecentos. E eu achando quer dezessete e setecentos.

Até dois mais dois, as pessoas colocam na calculadora do celular pra saber se são quatro ou cinco.

Com o endereço é a mesma coisa. Você sabe onde mora o seu maior amigo, sua maior amiga, seu colega de trabalho? Saber você pode até saber, mas qual é o nome da rua, o número da casa, do apartamento? E o CEP?

De repente, já perceberam? Os taxistas tiveram, todos eles, um surto de amnésia. Peguei um táxi na porta do Sírio-Libanês e pedi pra ir até a Paulista, que é praticamente na esquina. O motorista não sabia o caminho. Perguntou o número e já abriu o Waze. Quando chegou na Paulista, eu pedi pra seguir até a Doutor Arnaldo, e ele titubeou, como se fosse um meme do John Travolta: É pra lá ou pra cá?

Como ninguém mais escreve carta ou manda convite de papel, pra que saber o endereço das pessoas? Nem mesmo o e-mail a gente precisa guardar. É só começar a escrever o nome na tela que ele se forma rapidinho.

Andando pela Rua Aurélia, na Lapa, perto do Pão de Açúcar, eu achei um papel cor de rosa jogado no chão. Achei que era uma listinha de supermercado, que adoro ver, peguei. Não era, era uma espécie de Waze pré-histórico, que dizia o seguinte:

Pega o ônibus Terminal Grajaú.

Pega o trem sentido Osasco.

Descer: Estação Santo Amaro.

Pega o metrô Linha 5 Lilás.

Descer Estação Chácara Klabin.

Pega o metrô linha 2 Verde sentido Vila Madalena.

Descer: Vila Madalena.

Pega ônibus Hospital das Clínicas.

4 paradas.

Descer: Rua Aurélia

Se eu encontrei o papelzinho cor de rosa jogado numa calçada da Rua Aurélia, é um bom sinal, certeza de que a pessoa chegou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

RETRATO DO BRASIL

Já foi um, hoje é outro. Já foi o Cristo Redentor, a Baia de Guanabara, o coqueiro que dá coco, mulato isoneiro. Já foi o sambódromo, o tucano, o tatu, o tuiuiú. Já foi o tamanduá bandeira, o verde e o amarelo, o soco no ar, o milésimo gol de Pelé. Já foi a feijoada, o tutu, o acarajé. Já foi o drible, a Jules Rimet, o Mané. Já foi a mulata do Sargentelli, a Ieda Maria Vargas, a Maria Teresa Goulart. Já foi Jorge Amado, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade. Já foi Di Cavalcanti, Helio Oiticica, já foi Portinari. Já foi Jobim, já foi Vinicius, já foi Noel. Já foi um patropi, abençoá por Dê e boni por naturê, ma que belê. [AV]

MEU BRASIL BRASILEIRO

O que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. E a corrupção continua solta por aí

1 –

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo que Brasil ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os lares, de leste a oeste, de norte a sul, como se fosse a galinha azul. Durante meses, assistimos a curtos depoimentos de brasileiros, vindos de lugares que nem imaginávamos existir.

Pintópolis, MG

Carrasco Bonito, TO

Anta Gorda, RS

Passa e Fica, RN

Em meio a um bombardeio diário de noticias e fake news, em todos os telejornais, havia informações de uma conexão entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”.

Em oitenta por cento das respostas, ouvíamos brasileiros, em movieselfies gravados por eles mesmos, com os celulares na horizontal, pedindo o fim da corrupção. Era comum também lamentos de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, dos cadeirantes, enfim, do seu povo.Agora, quase um ano depois, o que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. A corrupção continua solta por aí, escondida debaixo do tapete ou, quem sabe, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, sem um pedaço de esparadrapo e sem médicos, já que os cubanos se recusaram a fazer parte de um governo com um pé no fascismo, deixando milhares e milhares de brasileiros nas mãos de Bolsonaro, ao Deus dará.

O lixo está nas ruas e não há nenhum projeto de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo nas filas, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando.

Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos mesmos brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E aí, está satisfeito?”


2 –

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada.

Fechada por quê?, perguntou uma senhora. Manifestação! Greve!, respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Com o nosso dinheiro! Eles não têm o que fazer?

Todos tinham suas opiniões formadas, mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve, nem queria saber. Um último arriscou dizer: “Por que não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angélica a pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava normalmente. Os resmungos continuaram por algum tempo.

Naquela noite, todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava.

O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso aí. Não sei se entenderiam. Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia.


3 –

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.

Argumentam que, quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ONGs de esquerdalhas.

Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as flores do jardim da nossa casa para dar lugar a um prédio de 18 andares. Quando a chuva vem, a água que regava as roseiras vai pra enxurrada que enche a cidade e vão parar nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade.

Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos carros e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada.

Mosquitos, pets, plásticos, copos, tábuas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.

O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra, viveu muitos séculos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

VOCÊ É BURRO, CARA!

Nosso presidente da República não consegue construir uma frase inteira, com sujeito, predicado e verbo. Fala picado, como aquela criança de cinco anos aprendendo a ler. Não sabe nada. Tudo pra ele é isso aí. Tropeça nas palavras, se atrapalha no pensamento, confunde as bolas. É autoritário, grosso, idiota mesmo. Vontade de chegar em Brasília e gritar: Próximo! [AV]

O MUNDO ACABANDO

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.Argumentam que quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ongs de esquerdalhas. Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as roseiras dos jardins dos sobradinhos pra dar lugar aos estacionamentos do automóveis. Quando chove, a água que regava as roseiras vão pra enxurrada que enche a cidade e só param nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade. Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos automóveis e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada. Mosquitos, pets, plásticos, copos, Fantas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira.. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.  O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra , viveu muitos anos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne. [AV]

 

 

 

DELETOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

O tio brigou com o sobrinho, o sobrinho brigou com a prima, a prima brigou com o vizinho, que brigou com o açougueiro, que brigou com o cliente, que brigou com o manobrista, que brigou com o cara do lava-jato, que brigou com o porteiro, que brigou com a mãe. Tudo por causa de política.

O genro brigou com a sogra, a sogra brigou com a nora, a nora brigou com a moça que vende Natura, que brigou com a diarista, que brigou com a patroa, que brigou com a vó, que brigou com o cara da Net, que acabou deletando todo mundo do grupo da família. Tudo por causa de política.

Política e políticos sempre existiram. Eram outros. O Israel Pinheiro, o Magalhães Pinto, o Leonel Brizola, o Miguel Arraes, o Ademar de Barros, o Negrão de Lima, o Francisco Julião, o Gregório Bezerra, o João Goulart, o Juscelino Kubitscheck.

Todo mundo brincava com eles. Eu crio frango, o Magalhães Pinto. Eu sonho com ovelha, o Nelson Carneiro. Eu pinto paredes, o Jânio Quadros. Minha casa é de madeira, a do Ademar de Barros, eu gosto de laranja, o Negrão de Lima.

E aí por diante.

Ninguém na família brigava por causa de política. Tinha um pessoal que era Juscelino roxo. Quem era Juscelino não enchia o saco de quem era Lacerda. Quem era Jânio não enchia o saco de quem era Ademar. Ninguém se importava se o amigo era de direita ou de esquerda. Ninguém sabia quem votava em quem, diziam que o voto era secreto e tudo bem.

Será que o entregador de leite era janista? O carteiro lacerdista? E o padeiro brizolista? E o tintureiro? E o apresentador do Repórter Esso? E a Emilinha? E o Cesar de Alencar? E o Cauby?

Era cada um na sua.

O mundo mudou. Muita gente deixou de jantar no Spot porque lá agora só tem bolsominion. Tem gente que entra na Casa Santa Luzia e nem olha pro lado, finge que não está ouvindo porque todo mundo tem cara de ter votado no Bolsonaro. Conheço gente que nem passa mais na porta do Allianz Parque, porque o mito é palmeirense.

Dividiram o Brasil!

– Nós vamos na casa do Rubão, mas nem toque em política porque ele votou no Bozo, tá? Ele, a mulher e as filhas.

Tem cara que jogou no lixo todos os discos do Lobão, do Fagner, do Ultraje e do Barão. Nunca mais leu um poema de Ferreira Gullar, uma coluna de Fernando Gabeira, um comentário do Augusto Nunes, nunca mais sintonizou na Jovem Pan ou viu um capítulo da novela com Regina Duarte no Viva.

Separaram as pessoas!

Ele não importa se Lobão, Fagner, Alexandre Frota, Janaina Paschoal, Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo ou Marco Antônio Villa viraram a casaca. Não gosta mais deles e pronto.

Uma senhora foi alugar um quarto da casa dela pelo Airbnb e quando viu a foto da futura inquilina fazendo arminha com a mão e outra fazendo selfie com o pato amarelo na Paulista, desistiu na hora.

Ela entra no ônibus e fica desconfiada. Será que o ilustre passageiro ao lado votou no Bozo? Por precaução, muda de lugar.

Foi assistir a Democracia em Vertigem e trocou de poltrona quando ouviu um casal sussurrando que Dilma roubou. Quase saiu do cinema e abandonou o filme, tão bom, no meio.

Ela nunca mais vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Passou a torcer contra o Brasil, seja em amistoso, na Copa ou no Pan.

No volante, ultrapassa o carro ao lado e faz uma cara de nojo pro motorista que colou um adesivo Lava Jato Eu Apoio, no vidro traseiro.

Desliga a TV quando aparece o Merval, o Valdo Claro ou a Leilane Neubarth. Deixou de frequentar o Ici Bistrô, só porque um dia cruzou com o FHC na mesa ao lado, comendo um cassoulet.

Recentemente fez uma limpa no Facebook e deletou meio mundo, só porque desconfiou que meio mundo votou no #EleNão.

Fez um podcast reunindo todas as merdas que o presidente falou em sete meses e perdeu doze amigos de uma só vez.

Saiu do grupo Amigos da Lapa, Fraldões da UFMG, Parentes & Parentas e do grupo Turma da Coca-Cola, que um membro postou #lulaladrão.

Ninguém mais tem sossego!

Um dia, ele postou a frase Lula Livre, foi deletado e bloqueado imediatamente pelo padrinho, pelo sogro, pela cunhada e pelo advogado do pai.

Mas, por que o título desta crônica é Deletou a família e foi ao cinema? Oras! Porque depois de uma hora e doze minutos de discussão na mesa do jantar, ele abandonou o prato de macarronada com frango e nem esperou o pavê de sobremesa. Deletou o avô, o cunhado torto, a madrinha, o primo, o sogro, o namorado do irmão, a concunhada, o tio e foi ao cinema.

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

Leia outras crônicas: cartacapital.com.br

O ESTADO DAS COISAS

Nos anos 1970, o Estado do Piauí era apenas motivo de chacota. Um tipo de chacota que, felizmente, não existe mais. Era um estado seco, pobre, quase abandonado. Quando a canção I want to go Back to Bahia, de Paulo Diniz, foi pra parada de sucessos, Caetano e Gil no exílio, Juca Chaves respondeu com uma paródia que também foi parar nas paradas de sucesso: Hey Hey Di Di Take me Back to Piauí. Piada rolava dizendo que o governo militar queria unir o Piauí com o Ceará para fazer o Piorá. Sem contar a charada que andava de boca em boca nas esquinas: Você sabe qual é o estado pior que o Piauí? O estado de coma! As piadas se foram, ainda bem, e o Piauí se manteve um forte, como todo nordestino. Ontem, o presidente que só fala merda, pisou em terras piauienses, pela primeira vez desde que colocou mal colocada aquela faixa verde e amarela. Havia um certo temor. Na terra do governador do PT, Bolsonaro teve poucos votos e, todos sabem que o Bozo vem criticando o Nordeste brasileiro como se fosse um galinheiro. Mas, não!  O que se viu nos noticiários foi um presidente destemperado mais uma vez falando em “acabar com o cocô no Brasil”, os vermelhos, a esquerdalha. E como se estivéssemos numa cena gravada no Projac, havia um povo imenso em torno do palanque, gritando mito! mito! mito!, cada vez mais alto, conforme a bobagem que ia dizendo ia aumentando. Queria ver o presidente andar pelas ruas de Teresina, sem doze seguranças ao lado, ao vivo e em cores. As imagens que vimos ontem, no meu entender, eram falsas. Mas, coloco aqui um restinho de dúvida. Quem eram aquelas pessoas fazendo selfie, batendo palmas, gritando mito? Tive medo. Eram piauienses ou figurantes da próxima novela da Globo? (AV)

A GREVE

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando  que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada. Fechada por quê? Perguntou uma senhora! Manifestação! Greve! respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Eles não têm o que fazer? Todos tinham suas opiniões. mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve nem queria saber. Um último arriscou dizer “Porque não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angelica à pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava. Os resmungos continuaram por algum tempo. Na noite de ontem,todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente, informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava. O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso ai. Não sei se entenderiam.Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia. (AV)

PAÍS DO MERDA

Eles não batem mais panelas, não vestem uma camisa amarela, alguns estão com o rabo entre as pernas. Outros, que nem a velhinha de Taubaté, pedem a orquestra para não parar. Afundam juntos. O nosso Brasil virou um país qualquer, uma nau sem rumo. Uns insistem que a reforma da Previdência será a tauba de salvação, vai acabar com o desemprego, como a reforma trabalhista acabou. Somos apenas 14 milhões sem ação, pra frente Brasil, salve a seleção. Acordamos e, ao invés de procurar nos jornais o que aconteceu de bom, procuramos a merda que o presidente falou ontem. Todo dia tem uma, senão duas ou três. Já daria pra escrever um livro avesso dos pensamentos, pensando bem, estou sendo muito bonzinho de chamar o que ele fala de pensamento. O país sem importância alguma vai se vendendo, vai derretendo a cultura, nem mais bonito por natureza vai ser mais. Triste Brasil, o quão desemelhante. Ninguém sabe e todos perguntam até quando ele aguenta. Oh, céus, onde estão as famosas Creusets? Onde foram parar os pixulecos murchos? Onde foram parar os adesivos fora Dilma e leve o pt junto? Ou aquele pato amarelo.O país envergonhado chegou à beira do abismo. Sete meses já se passaram. Daqui a pouco oito, e nove. O que vamos fazer no nono mês? Gritar puta que o pariu?             (AV)

CARTA ABERTA AO CRONISTA ANTONIO PRATA

Quisera eu esquecer o B, esquecer de vez, pra nunca mais. Quisera eu acordar de manhã, pisar na Folha sobre o capacho, ignorar O Globo na caixa de cartas, sequer piscar pro Estadão. Ir direto pra rede que tem na varanda da minha casa, pegar a Visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ler as últimas doze páginas que ainda me restam.

Quisera eu ignorar as frases imbecis do B, observar o crescimento das couves, do alecrim, da sálvia e do tomilho limão que plantei na hortinha que temos aqui. Esperar o beija-flor que chega voando toda manhã, já sugando a água com açúcar que pinga do bebedouro, me olhando desconfiado, partiu!

Quisera eu não ver mais nem a fotografia asquerosa do B, escolher um entre os muitos discos organizados em caixotes da Tok Stok no chão do meu escritório. Pegar o Domingo, passar uma flanela no vinil e ouvir Caetano cantando que menina é aquela que entrou na roda agora, ela tem um remelexo que valha-me Deus Nossa Senhora.

Quisera eu nem mais pensar no B, deixar os dias passarem devagar numa operação tartaruga, com tempo para ir até a cozinha e preparar um café de cápsula, adoçar só com um pouquinho de açúcar, contrariando os conselhos que o doutor Drauzio Varella me dava quando eu trabalhava no show da vida.

Quisera eu não ouvir mais ninguém falar do B, ter tempo de escolher o próximo livro, Os anos felizes, o diário de Emilio Renzi e confessar minha paixão por Ricardo Piglia. Ter tempo de pegar o iPhone e ligar pra Travessa do IMS pra saber se o número de agosto da Quatro Cinco Um já chegou.

Quisera eu ao menos uma vez, não ligar a televisão no Jornal Nacional às oito e meia em ponto, passar batido sem notícias do B, mudar de canal, ver o Decora, o Perto do Fogo, ver aquela receita de chuchu ao forno da Rita Lobo, no GNT.

Quisera eu nunca mais ouvir a voz do B, ter tempo e tranquilidade para dobrar bem dobradas minhas camisetas, tirar as bolinhas das blusas de lã e enrolar minhas meias coloridas arrumando-as numa cestinha de ferro que comprei faz tempo na Etna.

Quisera eu esquecer de vez o B, preparar o meu almoço, uma moqueca de cação comprado no Mercado da Lapa, jogar o leite de coco, picar a cebola, o tomate e o pimentão. Esparramar por cima o coentro, porque eu gosto mesmo é de comer com coentro, eu gosto mesmo é de estar por dentro.

Quisera eu deletar os B do Twitter pra não ter mais notícias do zero um, do zero dois, do zero três, quiçá do zero à esquerda. Pegar a bola de couro e descer até a quadra pra jogar um bolão com o João Trindade, craque do Colégio Ofélia Fonseca.

Quisera eu ignorar o B, percorrer correndo corredores em silêncio, perder as paredes aparentes do edifício, penetrar no labirinto, um labirinto de labirintos dentro do apartamento.

Quisera eu não pronunciar mais o nome do B, pegar o primeiro avião com destino a felicidade, pousar em Maceió, seguir até São Miguel dos Milagres, comer uma tapioca, provar da água salgada do mar morno e perguntar de quem é esse jegue?

Quisera eu, Antonio Prata, poder ler os originais da biografia do Drummond que, sei, está sendo escrita, chutar a pedra no caminho, já que a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E para aquele que é sem nome, que zomba dos outros, aquele que faz versos, que ama, protesta, perguntar: E agora, José?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br

7 MESES E 3 HISTÓRIAS

A besta humana

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios Apesar de Você.

A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tchauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia.

A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedista.

A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

A CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação.

O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento.

Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol.

O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama o WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

O porta-voz

O porta-voz tem carta de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos.

Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar.

Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava.

Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

FAKE NEWS

Acabo de ler no Libération que tossir sem parar, quando você sente pontadas no coração, não evita ataque cardíaco. Sim, de repente, no primeiro sintoma – ou não – de um enfarte, os franceses começaram a tossir sem parar. A reportagem do Libération, no entanto, alerta que se trata de uma fake news.

Esqueça! Quando sentir aquela primeira pontadinha no peito, não adianta nada sair tossindo por aí.

Nos últimos tempos, não está nada fácil ler jornais e revistas e separar o que é verdade do que é mentira. A gente desconfia de tudo, inclusive da capa da Veja com essa história dos terroristas brazucas de um grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre.

Nas redes sociais, a gente fica com um pé atrás até mesmo com fotos. É só bater os olhos numa que vem logo aquela dúvida: não seria montagem?

Hoje fiquei sabendo:

É falso que abrir perfume com o ar-condicionado ligado provoca incêndio dentro do carro.

É falso que vídeo mostra deputado que chamou Moro de ladrão colocando dinheiro na cueca.

É falso que Padre Marcelo foi empurrado após atacar mulheres.

É falso que haja mais de 400 casos de doença causada pelo consumo de tucunaré no Brasil.

Fake news sempre existiram, mas não com esse nome, aqui no Brasil. Quem será que espalhou, um dia, que manga com leite faz mal? E olha que não tinha rede social pra gente compartilhar e multiplicar por vinte mil essa história.

De boca em boca, silenciosamente, alguém colocou na cabeça do brasileiro que manga com leite faz mal. Faz mal, não. Mata! Ninguém nesse pedação de terra tinha coragem de arrancar a fruta do pé e misturar com o leitinho da vaca que pastava sossegada no campo. A não ser um amigo meu que, rebeldezinho que era, aos seis anos de idade fez um coquetel de leite com manga, deixando todos na casa desesperados.

De meia em meia hora, o menino dizia: “Já passou uma hora eu ainda não morri, já passou uma hora e meia e eu não morri, já passaram duas horas e eu ainda não morri”. E a família, enlouquecida, esperando ele bater as botinhas a qualquer momento.

Esse meu amigo nunca morreu e já passou dos setenta.

Mas não era só de manga com leite que viviam as fake news do passado. Minha mãe, por exemplo, colocou na cabeça dos cinco filhos que sair do banho e pisar fora do tapete, no chão frio, entortava a boca. Quando ela via um de nós correndo do banheiro pro quarto, depois do banho, descalço, gritava:

– Você vai ficar que nem seu Moacir!

Seu Moacir era um homem esbelto, dois metros de altura, que trabalhava no Serviço de Meteorologia com o meu pai. E tinha boca torta. Ele era muito engraçado, mas nunca tivemos coragem de perguntar por que tinha a boca torta. Minha mãe jurava que era porque pisou no chão frio ao sair do banho, na sua casa lá no bairro da Ressaca.

E quando a gente brincava de ficar vesgo? Adorávamos juntar os dois olhos, quando a mãe da gente aparecia e dizia:

– Não faz isso porque, se bater um vento, você fica caolho pro resto da vida!

Tudo fake news!

E não eram poucas. Eu acreditava que as pessoas têm aquelas manchas roxas no rosto porque a mãe tomou vinho durante a gravidez. Fake news!

Quantos dentes de leite eu não coloquei debaixo do travesseiro, quantos dentes de leite eu não joguei no telhado, esperando a fadinha trazer uma grana boa pra mim?

Quantas noites de Natal eu não fiquei segurando os olhos com os dedos pra eles não fecharem, esperando Papai Noel chegar?

Tudo fake news!

Algumas fake news acabam caindo por terra, desmoralizadas. Mas outras não, elas sobrevivem anos e anos. Ontem, por exemplo, ouvi de um motorista de Uber, que jurou de pés juntos, que o filho do Lula é dono da Friboi.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

cartacaplital.com.br

O ELEITOR TÍPICO

O eleitor típico é aquele que dizia, em outubro passado, “qualquer um, menos o PT”. O eleitor típico é aquele que votou em qualquer um. E hoje, mesmo sem dar uma avestruz, acha que tudo vai bem como dois dois e dois são cinco. Ele defende o porte de arma para proteger os seus bens, mesmo sem saber dar um tiro, mesmo sem ter bens. Ele torce para ser entrevistado pelo Datafolha pra cravar “bom ou ótimo”. Não se interessa muito pelo desmonte do país, acredita piamente no Messias, gosta do jeitão dele, da maneira popular como diz “paraíba”, como diz que tem governador “sacaneando” ele. O eleitor típico não está nem aí pra liberação de agrotóxicos, pro fim da Ancine, pros 48 envelopes com dois mil cruzeiros em cada um, pra quem vai ser o embaixador do Brasil nos States, onde está o Queiroz ou quem matou Marielle.  Não se importa se temos uma doida varrida num ministério ou um posto Ipiranga em outro. Se o ministro do Meio Ambiente quer cortar árvores ou se o ministro da Educação tem um português ruim. Ele ama de paixão o ex-juiz, é capaz de gastar todo o seu fôlego para encher com o seu ar o boneco inflável do agora ministro. Acredita em hackers e na organização criminosa que roubou os diálogos da Lava Jato. Está se lixando pro Intercept e nem cita Glenn Greenwald nos papos de botequim porque não sabe falar direito o nome do jornalista americano. O eleitor típico não vê problema no PIB negativo e nem se lembra que o Pib maior de Dilma era chamado de Pibinho. Ele acha que bandido bom é bandido morto e, mesmo sem saber direito onde fica a Venezuela e Cuba no mapa, ele gosta de mandar algumas pessoas pra lá, quando os parcos argumentos acabam. O eleitor típico ama fazer arminha com as mãos e agora chama a Veja, a Globo e a Folha de comunista. Ele sequer se deu o trabalho de olhar no Aurélio o significado de “viés” ou “nepotismo” e segue em frente, dando suas opiniões. Ele concorda com o o presidente eleito quando ele diz que o Brasil precisa produzir “filmes de heróis” e acha mesmo que aqui não tem faminto porque não tem esquelético. É a favor da reforma da Previdência e qualquer outra reforma que venha a ser proposta pelo político preocupado com o implante de cabelos. O eleitor típico  é isso e muito mais. Vou continuar, outro dia.

AV

 

EU NÃO FUI

Vivíamos uma confusão urbana, suburbana e rural naquele verão de 1969, quando começaram a chegar as primeiras fotografias, radiofotos rajadas mostrando kombis floridas, impalas conversíveis, camionetes estropiadas e gente a pé.

Com seus jeans desbotados, camisetas puídas, all stars maltrapilhos, jujus, balangandãs coloridos pelo corpo e sonhos na cabeça, o destino era uma fazenda perto de White Lake, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Ali, vacas leiteiras ruminavam fenos em 600 acres e debaixo de muito sol. A meteorologia prometia chuva naquele fim de semana, naqueles três dias de paz e música.

Um único anúncio no New York Times fez com as pessoas corressem às lojas de discos e comprassem, por um punhado de dólares, o direito de passar ali trinta e seis horas ouvindo Joe Cocker cantando With a Little Help From MyFriends, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Grateful Dead, The Who, Creedence Clearwater Revival, Santana, Crosby, Stills, Nash & Young.

O estado de calamidade pública foi decretado quando mais de 500 mil pessoas já estavam ali reunidas, envoltas em cobertores e muita lama, banhos de rios, algumas nuas, como se fosse uma grande balbúrdia

Com os cabelos desgrenhados, os corpos e as mentes brilhantes, os hippies já tinham se espalhado pelo mundo, falando como quê de língua de fogo para que todos entendessem como é viver como os passarinhos, livres, leves e soltos.

Eu já usava minhas calças vermelhas, meu casaco de general cheio de anéis. Já sonhava em ir descendo por todas as ruas, tomar aquele velho navio, eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus.

Eu não gostava do Alice Cooper e perguntava onde estava o meu rock and roll. Perdidamente apaixonado, ainda ouvia Márcio Greyck cantando Minha Menina.

E veio a chuva e vieram os relâmpagos, os trovões, quase tufões, e veio a lama, era a lama, era a lama. Depois chegaram as fotografias em branco e preto na Rolling Stone e coloridas na Life. E eu gastei o pouco dinheiro que tinha comprando essas revistas que guardo até hoje.

Um dia, voei para Amsterdã e, na Praça Dan, vi os últimos hippies curtindo os seus baratos ao som de Give Peace a Chance e All is Need is Love. Um dia cheguei a Copenhague e fui passar o dia fotografando Christiania, onde ainda havia um restinho de sonho, aquele que nunca acabou.

Hoje, eu sei que o futuro esperado que eu não dei, sei que é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais. Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

UM PUNHADO DE BALAS

19 horas e vinte minutos. Rua Martinico Prado, Higienópolis, São Paulo. Ontem, saia do trabalho em passos apertados, enfrentando o vento frio que vinha em sentido contrário. Poucas pessoas na rua, apenas  seguranças de restaurantes italianos, um morador de rua já se ajeitando na esquina de Sabará, onde mora, e carros passando. De repente, vem vindo ladeira abaixo, uma mocinha que não aparentava trinta anos, a Katia. Ela foi se aproximando de mim e falou:

– Boa noite!

– Desculpe, eu tenho vergonha, estou há quatro meses desempregada e agora estou fazendo esses saquinhos de doces pra vender na rua.

Ela abriu uma sacola bonita de pano e tirou lá de dentro um saquinho com algumas balas, dois pirulitos e um pacotinho de drágeas de eucalipto.

– É uma questão de sobrevivência, estou vendendo a 5 reais. Você pode me ajudar?

Perguntei a ela:

– Você tem uma profissão?

– Sim, sou publicitária e fui demitida por causa da crise.

Eu disse que ela jornalista e ela completou: “Cara, o que aconteceu com nossa profissão?”

Sorte que eu tinha o dinheiro no bolso e dei a ela.

Ela abriu um sorriso enorme, agradeceu muito e seguiu o seu caminho.

Enfiei o pacotinho na mochila e continuei caminhando. Não sei se emocionado, se triste, se profundamente triste ou alegre. O que ela vai comprar com aqueles 5 reais?

Mais uma vez, pensei, que país de merda esse em que vivemos.

AV

 

 

NO MUNDO DA LUA

Mil novecentos e sessenta e oito parecia um ano que não ia terminar, mas num piscar de olhos, já estávamos em julho de 1969. Já tínhamos chorado a morte de Cacilda Becker, nos espantado com o desaparecimento de Judy Garland aos 47 anos e nos revoltado com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

London! London!

Havia uma emoção e uma tristeza no ar. Estávamos há seis meses remoendo o Ato Institucional número 5, tempo de prisões, de censura e tortura, amigos sumindo pra nunca mais. Estávamos tristes.

A emoção ficava por conta de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins se preparando para pisar na Lua pela primeira vez, naquele julho de 1969.

Cely Campelo já tinha tomado banho de lua, ficado branca como a neve.

Ângela Maria cantava Lua, oh lua, querem te passar pra trás. Lua, oh lua, querem te roubar a paz. Lua que no céu flutua, lua que nos dá luar.

Olhando a lua através de uma luneta, eu vi Jorginho passeando de lambreta. Fazia curvas, na contramão, e na garupa quem ia era o dragão. A lua tinha virado marchinha de carnaval.

Eu me lembro direitinho, que alguns meses antes do 19 de julho, a revista Veja, dirigida por Mino Carta, começou a publicar fascículos da Conquista da Lua. Toda semana, eu lia com atenção, ia colecionando e a contagem regressiva para o último fascículo ia coincidir com o homem chegando lá.

Eu me lembro vagamente de ver as primeiras imagens na televisão, em preto e branco e muitos chuviscos, de Louis Armstrong pulando no solo da Lua e fincando a bandeira americana por lá.

Não se falava em fake news, mas a maioria dos meus tios e minhas tias não acreditavam naquilo que estavam vendo com os próprios olhos.

– Isso é cenário, disse tio Carlinhos!

– Isso não é possível, isso não é coisa de Deus, disse um de nossos vizinhos.

Dois dias depois, a revista Veja chegou às bancas com uma radiofoto dos americanos na lua: Chegaram! Estava escrito na capa.

A revista Manchete saiu com um número especial e, encartado, um mapa de mais de metro, da lua já loteada. Um espertalhão pegou o mapa e saiu vendendo terrenos na lua, dando a escritura e tudo mais. E teve muita gente que comprou. O negócio só acabou quando ele foi preso.

Hoje, cinquenta anos depois, Gilberto Gil garante: Do luar não há mais nada a dizer, a não ser, que a gente precisa ver o luar.

Caetano talvez seja o que mais cantou a lua.

Lua de São Jorge, lua deslumbrante, azul verdejante, calda de pavão.

Lua, lua, lua, lua, por um momento meu canto contigo compactua, e mesmo o vento canta-te, compacto no tempo, estanca, banca, branca, branca.

Cinquenta anos depois, ainda maravilhado com aquela imagem em branco e preto, recorro-me aos versos de Gregório de Matos:

Eu já vivo tão cansado

De viver aqui na Terra

Minha mãe eu vou pra lua

Eu mais a minha mulher

Vamos fazer um ranchinho

Tudo feito de sapé

Minha mãe eu vou pra lua

E seja o que Deus quiser

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

A ARTE DE NÃO ENTREGAR OS PONTOS

Há muitos anos, a gente passa o tempo todo mostrando para as pessoas, quem está do lado dos pobres, quem se interessa pelos menos favorecidos, pelos excluídos. A gente anda na rua, olha nos olhos de cada um e fica imaginando a vida que guardam dentro de si. No ônibus, muitos cochilam, segurando uma sacolinha do Boticário – presente da patroa – e a gente sabe que ali dentro tem uma marmita preparada às quatro horas da madrugada. Vem na cabeça aquela velha canção do Adoniran: “Que é que você troxe/Na marmita, Dito?/Truxe ovo frito/Truxe ovo frito/E você, Beleza,/o que é que você troxe?/Arroz com feijão/E um torresmo à milanesa/Da minha Tereza”. Então a gente vira o disco: “A gente andou/A gente queimou/Muita coisa por aí/Ficamos até mesmo todos juntos/Reunidos numa pessoa só/Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?” Vai de Arnaldo Dias Baptista, tomando vento frio no rosto, já que o passageiro da frente o deixou semi-aberto. Eu vivo pensando em quem as pessoas votaram. Ontem vimos mais um show de horrores na televisão. Quem votou nessa gente? Quem votou no Frota, na Joyce, no Kim, no Abou, no Aécio, no capitão, no coronel, no delegado? Tem horas que a gente desanima, tem vontade de entregar os pontos, solenemente. Mas não. Desço na Avenida Angélica rumo ao trabalho, com a consciência tranquila. Eu votei no Ivan, não o terrível, o Valente.

AV

VERDE E AMARELO

Tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança

Já tive uma verdadeira paixão pelo verde e pelo amarelo, juntos. Foi durante aqueles longos invernos que passei fora do país, numa época em que as notícias só chegavam dentro de um envelope verde e amarelo, escrito Via Aérea/Par Avion.

Descendo a escada do prédio onde morava, antes mesmo de colocar os pés no térreo, já via os envelopes verde-amarelo vazando pelo escaninho com o meu nome. Era sinal de que ali havia noticias frescas do Brasil.

Hoje, ninguém mais escreve cartas. E nenhuma papelaria vende mais envelope verde-amarelo. Mas sempre que vejo um, seja no fundo de um velho baú ou numa pasta perdida no tempo, eu me emociono.

Viajo no tempo e fico imaginando que ali dentro daquele envelope tem recortes do Jornal do Brasil, do jornal Opinião, poemas meus que saíam no Suplemento Literário do Minas Gerais, foto de um sobrinho que nasceu, outros que foram passar as férias em Camboriú.

Me lembro bem quando a música Camisa Amarela, de Ary Barroso, tocava no radinho de pilha dependurado no registro de água que ficava acima do tanque, enquanto Antônia batia a roupa.

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela
A Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia

Já torci muito pela seleção canarinho, mesmo naqueles anos em que não deveria estar torcendo. Gostava de ver em campo Amarildo, Didi caprichando na folha seca, Mané Garrincha sambando e Gilmar indo buscar a pelota na última gaveta. Torcia por Pelé dando socos no ar, Tostão correndo para abraçá-lo, Rivelino eufórico correndo em campo e Gerson pulando de alegria.

O tempo passou, o mundo mudou, a festa acabou. E agora? Agora eu tenho uma verdadeira ojeriza só de ver, mesmo que de longe, alguém com uma camisa amarela. Pra mim, é sinônimo de extrema-direita, de gente reacionária, de ‘somos todos Moro’, de ‘vai pra Cuba’, de ‘intervenção militar já’.

Não posso ver uma que me lembro do Frota, do Kim, do Roger, do Lobão, do Feliciano, da Joyce, dessa gente.

Hoje, tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança para quem quiser, quando eu não estiver mais aqui.

Pra terminar essa crônica, lembrei de uma velha expressão que ninguém usa mais, mas que nos dias de hoje, cai como uma luva: a gente se f**** de verde e amarelo!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br