PASSAGEIROS

Eles vinham animados conversando sobre a vida, no banco bem atrás ao meu, rumo ao Paraíso. Não conseguia concentrar a leitura em Devoção, linhas bordadas por Patti Smith. Fechei o livro, bisbilhoteiro que sou, e virei todos os ouvidos para os dois. Pensava comigo mesmo que havia chegado a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Pareciam alegres naquela hora da manhã, tão cedo, tão quente. Virei pra trás e com o celular na mão, perguntei se poderia tirar uma foto dos dois, por serem bonitos por fora e por dentro. “Pode sim, depois me manda pelo zap?” Mando sim. Boa viagem, Rodrigo e Laís.

[AV]

A VOLTA AO MUNDO EM 15 MINUTOS

Ele entrou assim de repente e se agarrou na barra de ferro amarela que fica bem ao lado da porta de entrada, em frente a porta de saída, junto a sanfona do ônibus. Cabeça baixa, não chamou a atenção de praticamente nenhum dos passageiros, uns vinte, todos entretidos com os seus smartphones, surdos com os seus fones de ouvido.

Apenas a cobradora, uma mulher com os dedos cheios de anéis e os olhos pintados de azul, olhou para ele de cima a baixo, mas desviou o olhar assim que começou a falar sozinho. As cobradoras estão acostumadas com pessoas como ele, que entram nos ônibus e se recusam a passar na catraca, descem pela porta da frente. Andarilhos, anárquicos, livres.

Era um senhor que aparentava uns sessenta e poucos anos, maltratado pela vida. Vestia um jogging azul quase preto, ruço, uma camiseta cinza com os dizeres University of Florida, bem surrada, certamente comprada na 25.  Ele calçava um par de sapatos empoeirados, sem meias. O homem não olhou para ninguém, e de cabeça baixa ficou. Parecia ter os olhos fixos para o chão sujo de pó, gasto pelo tempo, típico de coletivo. Quase não se movimentava, mesmo com os solavancos que o motorista dava, a cada partida.

Eu poderia ir pra Lima, no Peru

Pequim, na China

Bogotá, na Colômbia

Buenos Aires, na Argentina

Eu poderia ir pra Nova Delhi, na Índia

Londres, Inglaterra

Paris, França

Berna, Suíça

Montevidéu, Uruguai

O ônibus sacudia muito, fazia curvas fechadas, seguia por retas e voltava a fazer curvas, rasgando a cidade, rumo a Avenida Paulista. O calor lá fora era sufocante, o tal aquecimento global a todo vapor. Dentro do ônibus, uma temperatura agradável, amenizada pelo ar condicionado que funcionava mais ou menos. Quando parava no ponto e abria a porta, vinha aquele ar quente sufocante que passeava em círculos entre os passageiros.

Eu poderia ir para Estocolmo, na Suécia

Nova York, nos Estados Unidos

Berlim, na Alemanha

Damasco, Síria

Beirute, Líbano

Eu poderia ir pra Cidade do México, no México

Istambul, na Turquia

Copenhague, Dinamarca

Moscou, Rússia

A cobradora olhava desconfiada, um pouco curiosa com aquele senhor recitando capitais e países como se estivesse rodando um globo terrestre. Ele levava em uma das mãos, uma sacola reciclável do supermercado Pão de Açúcar, bastante estropiada.

Continuava agarrado na barra de ferro amarela e eu ao lado dele, ouvindo sua aula de geografia, espiando dentro da sua sacola. Dava pra ver apenas alguns panos, não sei se de chão ou de prato. Pareciam sacos comuns, encardidos, enrolados. 

Eu posso ir pra Santiago, no Chile

Havana, Cuba

Cairo, Egito

Manágua, Nicarágua

Caracas, Venezuela.

Eu posso ir pra Tóquio, no Japão

Bruxelas, Bélgica

Lisboa, Portugal

Eu ouvia atentamente, tentando entender até onde iria. Vontade de partir com ele, percorrer ruas de Shinjuku, em Tóquio, beber um mojito na Bodeguita del Medio, em Havana, ver a exposição de Francis Bacon, em Paris, conhecer a nova Tate Modern, em Londres, circular pelas ruínas do centro de Damasco, folhear livros na Livraria Ateneo, em Buenos Aires, almoçar no Museu do Tintin, em Bruxelas, comer um quibe assado, de carneiro, debaixo das parreiras de Beirute, tomar um suco de romã gelado em Istambul, rever as esculturas da Praça Botero, em Bogotá, voltar ao museu da DDR, em Berlim ou saborear umas sardinhas na brasa, em Lisboa.   

Eu posso ir pra Helsinque, na Finlândia

Madri, na Espanha

Eu posso ir pro Canadá

É, pro Canadá

Canadá?

Não resisti e completei:

Ottawa!

O senhor olhou para os meus pés, fixou os olhos no meu All Star e disse apenas uma frase:

Esse sabe das coisas!

Quando o ônibus parou, ele desceu. Estávamos debaixo do viaduto Presidente João Goulart, o Minhocão. Desceu apressado, olhou para trás e percebeu que o seu segundo ônibus do dia estava chegando. Deu sinal e entrou. O luminoso dizia:

857P-10 Paraíso

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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QUE É QUE TEM NESSA CABEÇA, IRMÃO?

 

Outono de mil novecentos e setenta e cinco. O frio entrava na minha pele, deixava roxa as pontas dos meus dedos, vermelho o meu nariz. O dia não tinha ainda amanhecido e eu apressava os passos nas pedrinhas do Jardin duLuxembourg, rumo à Faculdade de Filosofia. As árvores uniformes balançavam ao ritmo do Bolshoi, derrubando as últimas folhas secas, tecendo um tapete no chão, onde as pombas encolhidas se protegiam. Eu passava fazendo barulho com os meus tamancos suecos, enquanto os esquilos não estavam nem aí.

Walter Franco tinha acabado de chegar nas minhas mãos como um revolver, sem acento. Assim em letras minúsculas, caixa baixa como dizem hoje em dia, embalado entre duas pranchas de isopor, embrulhado num papel kraft transbordando de selos de jacarés do Pantanal, ariranhas, embaúbas e buritis.

Saigon rendera aos comunistas, Jacqueline Onassis, ex-Kennedy, tinha ficado sem seu Aristóteles, havíamos perdido o cronista Arnold Tonybee, o cantor Paul Robeson e o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, terra da garoa que eu nem conhecia ainda. Ficamos livres de Francisco Franco, enquanto os libaneses davam adeus às armas.

O céu de novembro já era permanentemente cinza, quase chumbo, e as fotografias que fazia quase que diariamente dos gramados campos de lá, já não eram tão verdes, tão lindos como os da canção do exílio. A revelação mostrava uma Paris quase sem cor. O pacote que retirara no correio antes de partir ao estudo de Heidegger só foi aberto no intervalo, depois de uma aula de duas horas do professor Pierre Albert sobre a imprensa dos países da cortina de ferro.

Retirei um copo de chocolate quente e sentei num banco de madeira bem em frente à máquina. O chocolate estava pelando, coloquei o copo em cima da madeira sem verniz e rasguei o papel kraft. O disco chegou intacto e o primeiro impacto foi ver Walter Franco, visto assim de frente, de John Lennon na capa, como estivesse atravessando uma nossa Abbey Road. Revólver ou revolver? Decifra-me.

Tantos anos longe, lembrava-me apenas vagamente de um Walter Franco em imagens em preto e branco na tela de uma televisão GE que pegava mal. Ele sentado no chão declamando Cabeça no Festival Internacional da Canção. Sua voz doce abafada por um festival de vaias que vinham de todos os cantos. Bem zen, ele parecia se lixar.

“Que que tem nessa cabeça, irmão, saiba que ela pode explodir.”

Voltei pra casa feliz da vida, eu que já tinha Smetak, Alfaiate, Wanderley e agora Franco. Antes mesmo de esquentar na frigideira o arroz com carne moída e milho, coloquei o vinil na vitrola e ouvi cada canção.

Feito gente, Eternamente, Mamãe d’Água, Partir do Alto, 1 Pensamento, Toque Frágil, Nothing, Arte e Manha, Apesar de tudo é muito Leve, Cachorro Babucho, Bumbo do Mundo, Pirâmides e Cena Maravilhosa.

Guardei pra mim versos e trocadilhos, depois de escutar seis vezes as composições. Descobri que o sorriso do cachorro está no rabo, que amei como pude, o éter na mente, Iara, eu te amo muito mais agora é tarde eu vou dormir e nada mais.

“Nothing

To see

Nothing

To do

Nothing

Today

About me

I’m not

Happy now

I’m not

Sad

I’m just

Nothing

Now

Looking

To the empty

Space.”

Até o meu inglês ruim era capaz de decifrar. Walter Franco foi a minha trilha sonora durante todos aqueles anos longe daqui. Ninava meus filhos, lavava pratos, cuidava de crianças, construía estradas, distribuía panfletos, caminhava pelas ruas, ruelas e pelas tabelas com seus mantras dentro da minha cabeça, pra não explodir.

“Qual é a sua menina do olho

Meia-lua na esquina do outro

Meia-lua na esquina do ouro

É sua menina do olho

Onde é uma bruxa e um bruxo

Late um cachorro babucho

Late um cachorro babucho

Onde é uma bruxa e um bruxo.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TEREMOS SAUDADE DE QUÊ?

Pode parecer, mas não sou tão nostálgico assim, aquele que vive remexendo o passado, procurando relíquias no fundo do baú, encontrando bilhetinhos de amor cujo perfume sumiu com o tempo. Sinto saudade, de vez em quando apenas.

Saudade dos Beatles em cima do telhado cantando Let It Be, saudade do Cine Pathé, da Mesbla, saudade do disco voador da Estrela, saudade do pirulito de chocolate da Kibon, saudade dos soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy.

Sinto saudade do cachorrão do Ted’s, sinto saudade do milk-shake do Xodó, sinto saudade da Livraria Van Damme, da coxinha da Torre Eiffel, da Padaria Savassi, do suco Yuki, dos fascículos da História da Música Popular Brasileira dependurados numa banca de jornal na Rua da Bahia. Sinto saudade de Belo Horizonte.

De vez em quando sinto saudade do lança-perfume, da caneta Parker 51, da tinta Super Kink Azul Real Lavável, do travel cheque, do sabonete Gessy e da colônia Pinho Campos do Jordão.

Sinto saudade do Frevo número 2: O Recife tá longe/A saudade é tão grande/Eu até me embaraço/Parece que eu vejo/O Haroldo Matias no passo/Valfrido e Cebola, Colasso/Recife tá perto de mim/Saudade que eu tenho/São maracatus retardados/Que voltam pra casa cansados/Com seus estandartes pro ar.

Sinto saudades mais recentes também. Sinto saudade da Fotóptica, da Videolocadora 2001, do envelope verde e amarelo, de rebobinar fita K-7 com caneta Bic, dos cards do chocolate Surpresa e do Orkut.

Dizem que a palavra saudade só existe em português. Saudade daqui, de Portugal, de Cabo Verde e Macao. Uma saudade danada, eu sinto da rapadura da Fazenda do Sertão, da língua com ervilhas frescas da Vó Romilda, da couve-flor empanada da minha mãe, do bife à caçarola do meu pai, do Mandiopã, do Tenente Rip Masters, do sargento O’Hara, do cabo Rusty, do Rin-Tin-Tin e do Guarapan.

Teremos saudade de que no futuro? Do WhatsApp, do Instagram, do Facebook, do Twitter, dos emojis, do kkk, do rsrsrs, do blz, do coraçãozinho vermelho ou roxo, da mãozinha indicando joia ou batendo palminha?

Será que um dia sentiremos saudade do Tiago Leifert apresentando o The Voice Brasil, do Luciano Huck consertando uma lata-velha, do Se Joga, de todo mundo falando legado, do Wesley Safadão cantando Na cama que eu paguei?

Será que a palavra saudade vai existir no futuro? Será que vamos ouvir tem dias que eu morro de saudade da bolinha colorida rodando no meu computador ou tem dias que eu morro de saudade daquela vozinha do telemarketing? Será que alguém vai sentir saudade do Galvão Bueno, da Joice Hasselmann, do véio da Havan ou do Faustão?

Não! A saudade é apenas uma dor pungente, a saudade é uma coisa que mata a gente, morena.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O QUE VOCÊ LEVA NAS MÃOS E OUTRAS HISTÓRIAS

1.
Olhando assim pela janela do carro, do ônibus, do apartamento, andando pela calçada quase sempre esburacada, sentado na mesa de um bar tomando uma cerveja, percebia que cada pessoa que passava, levava alguma coisa nas mãos.

Homens levavam pacotes, pastas, saquinhos, embrulhos grandes e pequenos. Mulheres basicamente bolsas de couro ou imitando couro e sacolas de papel ou plástico. O que esses homens e essas mulheres levam tanto, pra lá e pra cá? Não via uma viva alma nas ruas com as mãos abanando.

Daí surgiu uma ideia de pauta para o telejornal que fazíamos todo final da noite. Na reunião diária, a mais democrática da história do jornalismo, todos participavam: editores, redatores, produtores, contínuos, o cara do café, a secretária, a faxineira e quem mais aparecesse. Todos davam sugestões, pitacos e o telejornal acabava ficando pronto.

 Apresentado por Lillian Witte Fibe, o Jornal do SBT muitas vezes batia o da Globo. No início, não foi fácil. Lillian vinha da Vênus Platinada, mais precisamente do Planeta Economia e gostava de falar de debêntures, do índice Nasdaq, da Selic, da inflação, do overnight, da cotação do dólar e do ouro. Lillian não distinguia o funk do rap, nem o rap do rock. Não sabia quem era o Alceu Valença de Coração Bobo ou Geraldo Azevedo de Dia Branco, tampouco o Zé Ramalho de Vida de Gado.

A pauta foi fechada e a repórter foi pra rua perguntar o que as pessoas estavam levando nas mãos, dentro da bolsa, da pasta, do embrulho, do saquinho de plástico. O resultado foi isso aqui, ô ô, um pedacinho do Brasil.

Encontramos gente levando muda de jabuticabeira da casa da mãe, documentos para reconhecer firma, resultados de exames médicos, um jeans pra dar bainha, umas comprinhas de supermercado, um macaco Murphy pro filho e, finalmente um homem magro que fez questão de rasgar o pacote aos poucos e ir mostrando para a câmara o que tinha lá dentro: uma gaiola dourada para colocar o seu curió.

2.
O forte do nosso telejornal era o comportamento. O sucesso da matéria mostrando o que as pessoas estavam levando nas mãos foi tão grande que tivemos uma outra ideia de pauta. Num mundo ainda sem Spotify, a onda era o walkman. As pessoas começaram a usar fone de ouvido e nós fomos procurar saber o que elas estavam ouvindo no meio da rua.

Microfone do SBT na mão, a pergunta do repórter era curta e grossa: O que você está ouvindo? Passado o susto, ninguém recusou em responder: curso de inglês, Fagner cantando Borbulhas de Amor, Gabriel, o Pensador cantando o rap Tô Feliz, matei o presidente, Fernanda Abreu, Rio 40 graus e os Engenheiros do Havaí, Muros e grades.

Estou ouvindo November Rain, com Guns N’Roses, Make It Happen, com Mariah Carey, Remember the time, com Michael Jackson. Estou escutando as Lições de Sabedoria, de um mestre da seita Seicho-no-Ie.

A matéria foi pro ar e, de novo, outro sucesso de público e crítica. O editor ilustrou cada música com trechos de videoclipes. Era assim que chamávamos, na era da MTV. Lilian Witte Fibe voltava com cara de assustada depois da exibição dessas matérias e comentava: Só mesmo o Jornal do SBT!

3.
Para onde você está indo? Essa foi a nossa terceira e última reportagem da série. O objetivo era espalhar três repórteres pelos cantos da maior cidade da América do Sul e perguntar para cada um: Para onde você está indo?

Para onde será que estava indo essa multidão às oito e pouco da manhã? Consertar um vazamento na Casa Verde. Pro trabalho. Pro supermercado. Pra escola. Fazer uma entrevista de trabalho. Pra padaria tomar café. Pra farmácia comprar absorvente. Pra uma obra no Itaim, onde estou pintando um apartamento.

Aquela imagem acelerada da multidão correndo pelo Viaduto do Chá, com uma música de Tom Zé ao fundo, impressionava. São oito milhões de habitantes/De todo canto e Nação/Que se agridem cortesmente/Correndo a todo vapor/E amando com todo ódio/Se odeiam com todo amor.

O último entrevistado foi um motorista musculoso da linha Cohab Adventista, que fechou a série respondendo: Estou indo pro ponto final.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DESCONFIO QUE ESTOU FICANDO MEIO VELHO

Por trabalhar com uma equipe muito jovem, que não viveu o mundo que vivi, fico achando que ninguém se lembra de nada.

– Sabe o amigo da Onça?

– Lembra do Renault Gordini?

– E do Vigilante Rodoviário?

Até os Beatles, eu pergunto se meus colegas de trabalho conhecem. Beirando os setenta anos, começo a desconfiar de que estou ficando velho, que preciso explicar para as pessoas que Arthur da Costa e Silva foi um ditador feroz, que John Phillips era casado com Holly Michelle Guillian, do The Mamas & the Papas, Didi foi o inventor da folha-seca e que o Toddy não era instantâneo.

Mania de velho.

Quando nasci, o escritor checo Franz Kafka já tinha morrido havia vinte e quatro anos e nem por isso eu não sei quem foi o autor de O Processo, O Castelo, O Desaparecido e A Metamorfose. “Estou velho, mas gosto de viajar”, já dizia Arnaldo Dias Baptista, aos vinte e sete anos de idade.

Que mania é essa de achar que o passado é só meu, do Humberto Werneck, do Fernando Morais, do Ricardo Kotscho e do Nirlando Beirão? Claro que a juventude sabe quem foi John, quem foi Paul, George e Ringo e cantarolou Yesterdayum dia. Como nós sabemos quem foi Ataulfo Alves, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo e cantarolamos Com que roupa? um dia.

Perdi a noção do tempo.

Outro dia perguntei para minha filha se ela chegou a ir em algum show do Cazuza. Assustada, ela respondeu:

– Pai, quando eu nasci o Cazuza já tinha morrido.

O tempo passa, o tempo voa e a Poupança Bamerindus acabou.

A ditadura militar, pra mim, é como se tivesse acontecido ontem. Quem não se lembra dos estudantes levando cacetada da polícia na Avenida Afonso Pena? Fugindo dos jatos d’água e gritando “yankees, go home e morte aos gorilas ?

Maio de 68 parece que foi ontem, tipo Maio 18, mesmo tendo passado mais de cinquenta anos.

– Isso a gente colava com goma arábica!

– Goma o quê?, espantou-se o jovem que trabalha na minha frente.

Aí começo a explicar não somente o que é goma arábica, mas o que é chiclete Ping-pong, Mirinda morango, simca chambord, as moças do sabonete Araxá e as estampas do Eucalol.

Ser velho é ainda preencher um cheque, fazer sinal pro táxi parar na rua, digitar com dois dedos no celular, discutir com o Waze, mandar um WhatsApp pra filha dizendo: “Filha, você esqueceu o seu celular em casa”.

Será que alguém ainda lembra do sabonete Vale Quanto Pesa, da vitrola três em um, do tigre da Esso, dos maiôs Catalina, da fotonovela, das alpargatas Sete Vidas?

Será que alguém sentiu o suingue de Henri Salvador, já seguiu a novela de Dona Canô, já riu a risada de Andy Warhol ou amou a elegância sutil de Bobô?

E o pinguim em cima da geladeira, a zebrinha no Fantástico, o Bombril na antena da TV e a plaquinha “não corra papai”no painel da Rural Willys? Será que alguém sabe o que eu estou falando?

Minha mulher nunca viu o Garrincha jogando, o Mohamed Ali lutando, o Fittipaldi correndo, a Maria Esther Bueno sacando, o Sergio Cardoso atuando e o Altemar Dutra cantando.

Piso em ovos quando vou contar um caso lá de Minas Gerais. Faço um esforço danado, mas de vez em quando solto uma rádio patrulha, uma abreugrafia, um slide, um creme rinse. E quando eu digo que achei o filme um abacaxi, todos assustam.

– Abacaxi? Como assim?
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AORTAS

Entro no ônibus Paraíso e observo uma mocinha sentada à minha frente, ocupando o assento do corredor. Ela tem os olhos grudados no celular e, do alto, vejo que joga. Joga um desses joguinhos coloridos que lançam flechas e tiros para todos os lados. Cada acerto, o duende avança numa estradinha verde, rumo ao infinito, creio eu. O ônibus balança, o motorista freia, acelera, freia novamente, abre as portas, gente sobe, gente desce e a mocinha vai conquistando seus pontos sem  tirar os olhos da estrada verde e luminosa. Dela, naquela tela. Nada faz essa mocinha olhar pra frente, pra trás, pro lado esquerdo, pro lado direito, pra janela. Lá fora vejo haitianos vendendo camisas coloridas perto da estação Marechal Deodoro. O vendedor de frutas já arrumou as mangas, as papaias, as goiabas, as mexericas, as jabuticabas, o abacaxi em pedaços, embrulhados caprichosamente dentro de saquinhos de plástico transparente. Um menino com uniforme do Colégio Claretiano sobe no ônibus acompanhado da mãe, que tira uma maçã e entrega a ele, que dá a primeira mordida e mastiga. A mocinha continua conquistando pontos. Uma senhora com um envelope do Laboratório Lavoisier pede licença a ela, a mocinha encolhe as pernas, sem tirar os olhos da tela, a senhora senta-se ao seu lado, se acomoda e coloca o envelope no colo. Alguns minutos depois, a menina da uma olhada pela janela, sinto que está chegando ao seu destino. São dez para as dez da manhã, ela deve pegar no serviço às dez. Sem desgrudar os olhos do Samsumg, ela apalpa o cano de ferro amarelo do ônibus, encontra o botão, aperta, a luzinha de parada solicitada acende. O ônibus desce, ela fica de pé, ajeita a mochila nas costas e desce os degraus, ainda olhando para a tela. Seguimos viagem. A mocinha ficou pra trás. Fico intrigado. Quantos pontos será que ela fez da Lapa até Higienópolis? Será que ela viu o vendedor de frutas borrifando água gelada nas goiabas empilhadas? Será que ela tem coração? [AV]

QUER ME ABORRECER, É TOCAR NESSE ASSUNTO

Nos anos dourados do Jornal da Tarde, muitas histórias surgiram. Histórias que entraram para o folclore do jornalismo. Algumas reais, outras inventadas, aumentadas, editadas. Eu invejo meus amigos – e são muitos – que viveram, na redação, a melhor fase de suas vidas.

O JT era criativo, divertido, animado, inteligente. Pelo menos imagino eu, pelas histórias que me contam e são muitas. Morro de inveja de não ter vivido ali do lado esquerdo daquele corredor, mesmo me divertindo muito do lado direito, no Caderno 2, alguns anos depois.

A última do Jornal da Tarde, soube na semana passada, contada por um dos integrantes daquela redação de bambas.

Ele me contou que um repórter começou a trabalhar no jornal, um mês de experiência. Não decolou, não pegou o espírito da coisa. No trigésimo dia, seu chefe o chamou em sua sala e fez aquele comunicado que ninguém gosta de fazer: “Olha, sinto muito, mas você não se encaixou no nosso espírito, no nosso modus vivendi e, sendo assim, você não vai ser contratado. Amanhã, não precisa mais vir”.

O repórter iniciante baixou a cabeça, saiu da sala e terminou a matéria que estrava escrevendo, faltando apenas o último parágrafo. Tek tek tek… bateu nas pretinhas as últimas palavras, gritou desce! E foi-se embora, sem esvaziar as gavetas.

No dia seguinte, por volta de meio-dia, hora que começava a dar expediente, o demitido chegou, tomou um cafezinho no corredor, entrou na redação, sentou-se no lugar que sempre costumava trabalhar e começou a datilografar um texto. Sete da noite, gritou desce e foi-se embora.

No segundo dia, a mesma coisa. A redação olhava meio desconfiada, meio assustada, aquele demitido trabalhando. Ninguém tinha coragem de dizer ai pra ele.

Até que no terceiro dia, incomodado com sua presença na redação, sabendo que o RH já tinha sido avisado e que ele já não estava mais recebendo o seu salário, o chefe, pisando em ovos, resolveu ir falar com ele.

– Olha, sabe aquela conversa que tivemos no início da semana, na minha sala?

O demitido olhou para o chefe, ou ex-chefe, e disse:

– Quer me aborrecer, é tocar nesse assunto!

A frase entrou para a história e assim que chegou aos meus ouvidos, pensei:

1- Quer me aborrecer, é atender o telefone e ouvir: Olá! Aqui é o Moacir Franco!

2- Quer me aborrecer, é lembrar que amanhã cedo tenho dentista.

3- Quer me aborrecer, é chegar na sala de cinema e o filme já começou.

4- Quer me aborrecer, é ligar o computador e aquela bolinha colorida ficar rodando eternamente.

5- Quer me aborrecer, é chegar no ponto do ônibus e ver que ele acabou de passar.

6- Quer me aborrecer, é preparar uma caipirinha, abrir a geladeira e ver que o gelo acabou.

7- Quer me aborrecer, é a água esfriar no meio do banho.

8- Quer me aborrecer, é bater um prego na parede e sentir que é concreto.

9- Quer me aborrecer, é o cara da Net pedir pra desligar tudo na tomada.

10- Quer me aborrecer, é a luz acabar bem na hora da disputa do pênalti,

11- Quer me aborrecer, é derrubar café na camisa, segundos antes de sair pro trabalho.

12- Quer me aborrecer, é ver o celular cair no chão e espatifar a tela.

13- Quer me aborrecer, é abrir o congelador seco por um Haägen-Dasz e ver que é caldo de risoto congelado.

14- Quer me aborrecer, é acabar a tinta da impressora no meio da impressão.

15- Quer me aborrecer, é escrever uma crônica e não saber que fim dar a ela.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU ENCONTRO COM OS ÍNDIOS DA TRIBO WAIÄPI

Quando o avião da Varig abriu as portas no Aeroporto Alberto Alcolumbre, em Macapá, foi como se tivesse aberto a porta do forno da minha cozinha. Veio aquele calor lá do Norte, de baixo pra cima, contagiante.

Depois de descer os degraus, a camiseta já mostrava pontos de suor aqui e ali. O céu limpo não anunciava uma nuvem sequer. Todo azul, um azul bem de lá.

Uma van da Fundação Konrad Adenauer Stiftung estava me esperando debaixo de uma árvore lindíssima, jeito de baobá. Em poucos minutos já estava no hotel, uma construção de madeira rústica, com vista pro Rio Amazonas, quase mar.

Curioso pensar que aquele mundo de água é do mesmo rio que passava na minha vida, durante a temporada que morei em Manaus, trabalhando pro Canal 25.

Konrad Adenauer Stiftung foi o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, de uma então Alemanha Ocidental, e que hoje da nome a uma fundação, a que me trouxe até aqui.

No dia seguinte, na mesma van, pegamos uma estrada de terra, cheia de paus, pedras e pó e fomos seguindo. Mais um trecho de trem, a viagem que parecia não ter fim até que, finalmente, chegarmos à aldeia dos índios Waiäpi.

A tribo costuma passar os invernos nas aldeias da Funai, onde há posto de saúde, enfermarias, escolas e a casa dos missionários. No verão, vivem seus dias de índio na floresta, temporada de caça e pesca.

Com olhares profundos, curiosos e visivelmente assustados, os índios pareciam nos esperar. Não abriam a boca, apenas observavam cada passo que dávamos naquela poeira amarelada.

Era início de verão e as terras abundantes acolhiam pés de macaxeira, cana, cará, inhame, pupunha e bananas com fartura. Experimentei a cana doce e a banana da terra defumada.

Ali naquela aldeia havia pouco menos de cinquenta índios. O primeiro contato que tiveram com a civilização foi em 1973. O português deles ainda é ruim, mas entendo, alguns segundos depois que falam.

Um índio aponta para a plantação e me explica que só de macaxeira, eles plantam doze variedades.

– Se a praga chega e ataca uma espécie, temos ainda outras onze.

Sábios.

– O peixe aqui é farto. Já na brasa, diz outro.

Vejo crianças correndo atrás de um bicho com jeitão de tatu, não sei se é tatu, e penso na canção de Rita Lee.

Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio/Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo/Ser um bicho preguiça e espantar turista/E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol.

O sol arde minhas costas e a essa altura, fim de tarde, já estou sem camisa e com um risco de urucum no rosto vermelho.

Os Waiäpi são vermelhos.

Passei o dia ali, ouvindo histórias e contando as minhas. Antes do anoitecer, teve macaxeira, inhame, peixe e dança.

Tem dias na vida que a gente não esquece nunca. O meu encontro com os Waiäpi faz anos e eu ainda me lembro perfeitamente da van indo embora e eu olhando pra trás, cantarolando, esperando voltar um dia.

Baila comigo, como se baila na tribo/Baila comigo, lá no meu esconderijo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CRÔNICA DE BOLSO

A primeira carteira de dinheiro que ganhei foi aos 16 anos, presente de aniversário da minha madrinha, Tia Celinha, a tia rica. Era uma carteira de couro marrom, com divisórias em cetim e lugar para colocar, além de dinheiro, a carteira de identidade e duas fotos 3×4.

A carteira que ganhei foi comprada numa loja na Rue du Faubourg Saint-Honoré, rua chique de Paris, onde minha tia passava as primaveras porque odiava o frio europeu e o calor do verão carioca. Gente fina, minha madrinha, era outra coisa.

Fiquei orgulhoso com aquele presente que veio embalado numa caixinha forrada com papel de seda, cheirando a incenso fino, tarde de outono debaixo de uma figueira, que só tem na Nature & Découverte, no Les Halles.

A primeira coisa que fiz foi ir ao Armazém do Chaim trocar minha mesada por um monte de notas de 10 cruzeiros, aquela do Getúlio. Queria minha carteira cheia de dinheiro, como a do meu pai.

A segunda coisa foi preencher aqueles dois espaços para fotos. Em um, coloquei a minha 3×4 que fiz no Zatz e, no outro, enfiei a foto de Teresa, minha primeira namorada, um 3×4 que ela me enviou numa carta de amor.

Vou explicar a carteira do meu pai. Era a carteira mais gorda que existia, nunca vi igual. Num tempo em que não havia cartão de crédito, cartão de débito, cartões de plástico, meu pai gostava era de dinheiro vivo.

Todo dia primeiro, ele ia ao Banco do Brasil e trazia pra casa o seu ordenado. Parte dele entregava para minha mãe, que ia colocando tudo separadinho dentro dos envelopes que ele escrevia com normógrafo e tinta nanquim: Luz, Gás, Telefônica, Mercado, Passadeira, Padaria, Médico, Colégio Marista, Colégio Sion e Imprevistos.

Uma parte do ordenado recheava sua carteira, que trazia também a carteira de identidade, a de motorista, uma foto da esposa, minha mãe, e dos cinco filhos, meus irmãos. Além de uma nota de 1 dólar dobradinha, pra dar sorte, um santinho de Santo Expedito, uma novena de Nhá Chica e um bilhete da Federal.

A carteira de Carlos Drummond de Andrade, mineiro, era parecida com a do meu pai, de couro, gorda, recheada. Nela, ele guardava um bilhete escrito à mão que dizia assim:

Recomendações de mamãe:

  1. Não guardar ódio de ninguém
  2. Compadecer sempre dos pobres
  3. Calar sobre os defeitos dos outros

Era um tempo em que o biólogo Paulo Vanzolini cantava “Praça Clóvis” no auto-falante da praça da Igreja de Santa Rita, em Cataguases:

Na Praça Clóvis/Minha carteira foi batida/Tinha 25 cruzeiros e seu retrato/25 francamente achei barato/Pra me livrar daquele atraso de vida/25 francamente foi de graça. 

No dia seguinte ao meu aniversário de 16 anos, fiquei planejando como organizar minha carteira. Além dos 3×4 meu, o de Teresa e das notas de dez cruzeiros, arrumei ali a carteira de identidade, a carteirinha do Clube Albert Scharlé, e uma nota de 1 dólar, dobradinha, como a do meu pai.

Sinto que as carteiras gordas, recheadas, cheias de dinheiro, estão sumindo do mapa. Meus amigos não andam mais com dinheiro vivo no bolso porque têm medo de morrer num assalto.

Hoje, as carteiras são fininhas e têm basicamente plástico: a carteira de motorista, o RG, o cartão Visa, o Mastercard, o do Bradesco, o cartão do aposentado, o cartão do idoso, o do INSS, o cartão do Prevent Senior, o de cliente preferencial do Ibis e o cartão de milhas da Gol, porque viajar no tempo é preciso.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A DAYSE DO ALMOXARIFADO

Eram seis. A turma subiu animada no ônibus Vila Anastácio, quase em frente ao Oba Hortifruti, na Avenida Angélica. Em princípio, achei que eram estudantes sextando, voltando pra casa depois de uma semana de faculdade. Mas não.

Pelo papo alegre, logo percebi que a idade, entre 24 e 27 anos, não batia muito com a idade de estudantes. Fiquei logo sabendo o nome de cada um: Maria Eduarda, a Duda, Gisela, a Gi, a Vitória, o Mateus, o Fabio e o Du, provavelmente Eduardo.

A primeira frase que ouvi foi: “Então segunda a gente pergunta pra Dayse do Almoxarifado”. Achei que a palavra almoxarifado tinha sumido do mapa da juventude, sendo substituída por estoque. Mas não.

Eles conversavam sem parar e as palavras se misturavam em línguas como que de fogo. Eles estavam felizes e comentavam o dia que estava acabando:

– Meu, e aquela cliente da Duda que chegou com a tela toda detonada querendo trocar, de graça!

E o véio que o Fabio atendeu teimando que estava na garantia, mas não tinha nem a nota fiscal. E aí, Fabio?

– Sei lá, cara!

 Comecei a desconfiar que trabalhavam em alguma loja de conserto de celulares, computadores, coisa assim. Tipo estagiários, provavelmente.

Tudo virava assunto para aquela turma que se equilibrava de pé no ônibus Vila Anastácio, com as mochilas no chão, apesar de uns quatro lugares vazios.

Uma picape preta com o som estridente parou bem ao lado do ônibus esperando o sinal abrir e mereceu um comentário da Gi.

– Essa música é da hora!

Gi começou a se balançar, simulando uma dança qualquer. Ninguém deu muita bola e o assunto voltou ao trabalho.

– Aquele com capa rosa? É maior caro, meu!

– Mas é o que mais vende.

– Já vendi três, disse Mateus.

Inquietos, eles se balançavam pisando bem na junção da sanfona do ônibus, achando graça quando um quase caia, rindo de tudo.

– De repente, a gente podia rangar lá em casa. Tem bacon na geladeira e um pacote de macarrão, disse Fabio.

– Tem molho?

– Não. A gente passa no Dia e compra.

– E queijo ralado?

– Ah, cara, aí tá querendo demais.

Quando entramos na Rua Guaicurus, houve um grande zunzunzun.

– Vamos descer onde?

– Antes da Estação Ciência, depois ele só para pra lá do Mercado.

– Ele não para na Estação Ciência?

– O Vila Anastácio, não.

No segundo ponto da Guaicurus, um vendedor entrou pela porta do fundo, depois de acenar pro motorista, que deu o ok. Ele trazia nas mãos dois pacotes de Mentos de frutas. Se escorou na catraca e fez um pequeno discurso:

– Boa noite a todos! Estou sem trabalho há dois anos e vendo essas balas pra sobreviver. Quem puder me ajudar com dois reais, leva uma caixinha. Deus abençoe a todos.

Os três primeiros passageiros abordados não quiseram comprar, um virou a cara e dois fizeram sinal negativo com o dedo. Foi caminhando entre os passageiros até que chegou na sanfona do ônibus onde estava a turma. Eles começaram a catar as moedas nos bolsos e nas mochilas. Era preciso inteirar dois reais aqui, dois ali. Todos queriam Mentos.

Três compraram, o que deixou o vendedor feliz e mais falante: Muito obrigado! Deus lhe pague! Obrigado! Obrigado! Valeu!

– Vocês são estudantes? Perguntou o vendedor.

– A gente trabalha na Claro! Saiu quase em coro.

Quase chegando, fiquei sabendo onde a Gi, a Duda, o Mateus, o Fabio, o Du e a Vitória trabalhavam. Desci um ponto antes deles, que seguiram Guaicurus afora.

Fui caminhando pra casa pensando que essa viagem daria uma crônica, e me perguntando:

O que será que eles vão perguntar pra Dayse do Almoxarifado, na segunda-feira, quando chegarem na Claro?

 

REMÉDIOS

Eu ainda usava calças curtas, nem passava brilhantina, e ficava impressionado com a quantidade de remédios que os meus pais tomavam, todos os dias.

Logo de manhã, ele enfileirava uns quatro comprimidos, um ao lado do outro, cada um de uma cor, no pratinho onde comia mamão com açúcar.

Ele dava uma golada no Ovomaltine e engolia dois de uma só vez. Descascava o mamão, arrumava os cubos no pratinho, distante dos comprimidos que ainda faltava ingerir.

Comia uns dois pedaços e vinha a segunda dose de comprimidos, dessa vez com água e limão, recomendação médica.

A minha mãe era mais desorganizada do que o meu pai, mas tinha uma caixinha de prata onde guardava seus comprimidos que também tomava todos os dias.

Eu espiava aquela cena e ficava pensando, desde pequenininho, que meus pais eram doentes. Por isso, tomavam tantos remédios.

Era remédio pra controlar a pressão.

Remédio pra baixar o colesterol.

Remédio para dores musculares.

Remédio pra fortalecer a memória.

Remédio pra gripe

Remédio pros ossos.

Remédio pra diabetes, que o meu pai tinha, mas o mamão com açúcar de manhã, ele não abria mão. Bem como a goiabada cascão com queijo canastra, depois do almoço.

Eles guardavam esse arsenal dentro da primeira gaveta da cômoda, gaveta que filho nenhum podia mexer.

Além desses comprimidos, meu pai não tirava do bolso o Mistol com efedrina, que pingava no nariz de tempos em tempos, até ser proibido pelo Ministério da Saúde, para desespero dele, viciado.

Minha mãe era o Melhoral. Ela engolia um comprimido de Melhoral pra qualquer mal que sentia. Levava a sério o slogan Melhoral, é melhor e não faz mal.

Os remédios das crianças eram poucos, alguns nem eram chamados de remédio. Emulsão Scotch, óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura e Anti-Cárie Xavier.

Na nossa caixinha de remédios, minha mãe guardava também o Enteroviofórmio pra dor de barriga, o basilicão que esquentava e pingava nos meus furúnculos, a cera do Doutor Lustosa pra dor de dente, o mercúrio cromo pros esfolados, o colírio Moura Brasil, a pomada Minancora, o tubo de Anaseptil e um vidro de Maracugina, que minha mãe dava na colher quando estávamos da pá virada.

Os remédios dos meus pais faziam parte da nossa vida. Quando entrávamos no Jeep Willys pra viajar, a primeira coisa que um perguntava pro outro era:

– Tá trazendo os remédios?

Quando íamos na casa dos meus avós, eu percebia que eles também tomavam muitos comprimidos. O meu avô tinha um calendário colado na parede da cozinha com o nome dos remédios e os horários para serem tomados. Ele ia tomando e fazendo um X ao lado.

Minha avó era muito esquecida e ouvia, todo dia, aquela ladainha: Zizinha! O remédio! Se dependesse dela, a Bayer e a Pfizer tinham falido. Ela odiava remédio.

Só agora percebi que os meus pais não estavam doentes, estavam sim, velhos. Como eu agora, em volta das minhas caixinhas de Puran 25 mg, Reconter 15 mg, Plenance 10%, Ezentrol 10%, Plaquinol 15mg, sem contar o Verutex, o Advil, o Dorflex e os homeopáticos.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AMNÉSIA

“O Waze é um nome feio/Mas é o melhor meio/De se chegar.” Gilberto Gil

A minha mãe sabia o número do telefone de todo mundo. De suas irmãs, de uma tia torta, dos meus avós, dos vizinhos, o telefone da repartição do meu pai, do Colégio Marista, do Colégio Sion, do Armazém Colombo, da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, do cara que consertava a máquina de lavar roupas Bendix.

– Qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4767

– Qual é o telefone da Dona Celuta costureira?

– 2-6791

– E do meu avô?

– 2-3398

Está certo que os números eram somente cinco, mas ela respondia na lata, como se estive com um catálogo telefônico nas mãos.

Ninguém dizia que minha mãe tinha uma memória de elefante, mas tinha. Sabia o número de seu Alceu taxista, de seu Valdivino alfaiate, de dona Olímpia que fazia balas delícia, do doutor Aldo, nosso médico, do Depósito de Águas São Lourenço e de Dona Elvira, que fazia salgadinhos para as festas. Era só perguntar que ela dizia.

Hoje, se tirar o celular das mãos das pessoas, ninguém mais sabe o telefone de ninguém. Já fui vítima de roubo de iPhone e fiquei num mato sem cachorro. Não sabia o número do telefone da minha casa, da minha mulher, de nenhum dos quatro filhos.

Lembrei da minha mãe que sabia o telefone da Rádio Patrulha, do Corpo de Bombeiros e da Ambulância, que chamávamos de Assistência. Minha mãe era incrível.

Hoje, deixamos a memória de lado. Não é preciso saber mais número algum, nem mesmo a tabuada. Outro dia eu dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos e a caixa do supermercado teimou que tinha de voltar dezesseis e setecentos. E eu achando quer dezessete e setecentos.

Até dois mais dois, as pessoas colocam na calculadora do celular pra saber se são quatro ou cinco.

Com o endereço é a mesma coisa. Você sabe onde mora o seu maior amigo, sua maior amiga, seu colega de trabalho? Saber você pode até saber, mas qual é o nome da rua, o número da casa, do apartamento? E o CEP?

De repente, já perceberam? Os taxistas tiveram, todos eles, um surto de amnésia. Peguei um táxi na porta do Sírio-Libanês e pedi pra ir até a Paulista, que é praticamente na esquina. O motorista não sabia o caminho. Perguntou o número e já abriu o Waze. Quando chegou na Paulista, eu pedi pra seguir até a Doutor Arnaldo, e ele titubeou, como se fosse um meme do John Travolta: É pra lá ou pra cá?

Como ninguém mais escreve carta ou manda convite de papel, pra que saber o endereço das pessoas? Nem mesmo o e-mail a gente precisa guardar. É só começar a escrever o nome na tela que ele se forma rapidinho.

Andando pela Rua Aurélia, na Lapa, perto do Pão de Açúcar, eu achei um papel cor de rosa jogado no chão. Achei que era uma listinha de supermercado, que adoro ver, peguei. Não era, era uma espécie de Waze pré-histórico, que dizia o seguinte:

Pega o ônibus Terminal Grajaú.

Pega o trem sentido Osasco.

Descer: Estação Santo Amaro.

Pega o metrô Linha 5 Lilás.

Descer Estação Chácara Klabin.

Pega o metrô linha 2 Verde sentido Vila Madalena.

Descer: Vila Madalena.

Pega ônibus Hospital das Clínicas.

4 paradas.

Descer: Rua Aurélia

Se eu encontrei o papelzinho cor de rosa jogado numa calçada da Rua Aurélia, é um bom sinal, certeza de que a pessoa chegou.

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RETRATO DO BRASIL

Já foi um, hoje é outro. Já foi o Cristo Redentor, a Baia de Guanabara, o coqueiro que dá coco, mulato isoneiro. Já foi o sambódromo, o tucano, o tatu, o tuiuiú. Já foi o tamanduá bandeira, o verde e o amarelo, o soco no ar, o milésimo gol de Pelé. Já foi a feijoada, o tutu, o acarajé. Já foi o drible, a Jules Rimet, o Mané. Já foi a mulata do Sargentelli, a Ieda Maria Vargas, a Maria Teresa Goulart. Já foi Jorge Amado, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade. Já foi Di Cavalcanti, Helio Oiticica, já foi Portinari. Já foi Jobim, já foi Vinicius, já foi Noel. Já foi um patropi, abençoá por Dê e boni por naturê, ma que belê. [AV]

MEU BRASIL BRASILEIRO

O que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. E a corrupção continua solta por aí

1 –

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo que Brasil ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os lares, de leste a oeste, de norte a sul, como se fosse a galinha azul. Durante meses, assistimos a curtos depoimentos de brasileiros, vindos de lugares que nem imaginávamos existir.

Pintópolis, MG

Carrasco Bonito, TO

Anta Gorda, RS

Passa e Fica, RN

Em meio a um bombardeio diário de noticias e fake news, em todos os telejornais, havia informações de uma conexão entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”.

Em oitenta por cento das respostas, ouvíamos brasileiros, em movieselfies gravados por eles mesmos, com os celulares na horizontal, pedindo o fim da corrupção. Era comum também lamentos de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, dos cadeirantes, enfim, do seu povo.Agora, quase um ano depois, o que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. A corrupção continua solta por aí, escondida debaixo do tapete ou, quem sabe, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, sem um pedaço de esparadrapo e sem médicos, já que os cubanos se recusaram a fazer parte de um governo com um pé no fascismo, deixando milhares e milhares de brasileiros nas mãos de Bolsonaro, ao Deus dará.

O lixo está nas ruas e não há nenhum projeto de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo nas filas, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando.

Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos mesmos brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E aí, está satisfeito?”


2 –

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada.

Fechada por quê?, perguntou uma senhora. Manifestação! Greve!, respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Com o nosso dinheiro! Eles não têm o que fazer?

Todos tinham suas opiniões formadas, mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve, nem queria saber. Um último arriscou dizer: “Por que não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angélica a pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava normalmente. Os resmungos continuaram por algum tempo.

Naquela noite, todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava.

O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso aí. Não sei se entenderiam. Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia.


3 –

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.

Argumentam que, quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ONGs de esquerdalhas.

Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as flores do jardim da nossa casa para dar lugar a um prédio de 18 andares. Quando a chuva vem, a água que regava as roseiras vai pra enxurrada que enche a cidade e vão parar nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade.

Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos carros e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada.

Mosquitos, pets, plásticos, copos, tábuas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.

O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra, viveu muitos séculos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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VOCÊ É BURRO, CARA!

Nosso presidente da República não consegue construir uma frase inteira, com sujeito, predicado e verbo. Fala picado, como aquela criança de cinco anos aprendendo a ler. Não sabe nada. Tudo pra ele é isso aí. Tropeça nas palavras, se atrapalha no pensamento, confunde as bolas. É autoritário, grosso, idiota mesmo. Vontade de chegar em Brasília e gritar: Próximo! [AV]

O MUNDO ACABANDO

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.Argumentam que quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ongs de esquerdalhas. Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as roseiras dos jardins dos sobradinhos pra dar lugar aos estacionamentos do automóveis. Quando chove, a água que regava as roseiras vão pra enxurrada que enche a cidade e só param nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade. Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos automóveis e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada. Mosquitos, pets, plásticos, copos, Fantas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira.. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.  O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra , viveu muitos anos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne. [AV]

 

 

 

DELETOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

O tio brigou com o sobrinho, o sobrinho brigou com a prima, a prima brigou com o vizinho, que brigou com o açougueiro, que brigou com o cliente, que brigou com o manobrista, que brigou com o cara do lava-jato, que brigou com o porteiro, que brigou com a mãe. Tudo por causa de política.

O genro brigou com a sogra, a sogra brigou com a nora, a nora brigou com a moça que vende Natura, que brigou com a diarista, que brigou com a patroa, que brigou com a vó, que brigou com o cara da Net, que acabou deletando todo mundo do grupo da família. Tudo por causa de política.

Política e políticos sempre existiram. Eram outros. O Israel Pinheiro, o Magalhães Pinto, o Leonel Brizola, o Miguel Arraes, o Ademar de Barros, o Negrão de Lima, o Francisco Julião, o Gregório Bezerra, o João Goulart, o Juscelino Kubitscheck.

Todo mundo brincava com eles. Eu crio frango, o Magalhães Pinto. Eu sonho com ovelha, o Nelson Carneiro. Eu pinto paredes, o Jânio Quadros. Minha casa é de madeira, a do Ademar de Barros, eu gosto de laranja, o Negrão de Lima.

E aí por diante.

Ninguém na família brigava por causa de política. Tinha um pessoal que era Juscelino roxo. Quem era Juscelino não enchia o saco de quem era Lacerda. Quem era Jânio não enchia o saco de quem era Ademar. Ninguém se importava se o amigo era de direita ou de esquerda. Ninguém sabia quem votava em quem, diziam que o voto era secreto e tudo bem.

Será que o entregador de leite era janista? O carteiro lacerdista? E o padeiro brizolista? E o tintureiro? E o apresentador do Repórter Esso? E a Emilinha? E o Cesar de Alencar? E o Cauby?

Era cada um na sua.

O mundo mudou. Muita gente deixou de jantar no Spot porque lá agora só tem bolsominion. Tem gente que entra na Casa Santa Luzia e nem olha pro lado, finge que não está ouvindo porque todo mundo tem cara de ter votado no Bolsonaro. Conheço gente que nem passa mais na porta do Allianz Parque, porque o mito é palmeirense.

Dividiram o Brasil!

– Nós vamos na casa do Rubão, mas nem toque em política porque ele votou no Bozo, tá? Ele, a mulher e as filhas.

Tem cara que jogou no lixo todos os discos do Lobão, do Fagner, do Ultraje e do Barão. Nunca mais leu um poema de Ferreira Gullar, uma coluna de Fernando Gabeira, um comentário do Augusto Nunes, nunca mais sintonizou na Jovem Pan ou viu um capítulo da novela com Regina Duarte no Viva.

Separaram as pessoas!

Ele não importa se Lobão, Fagner, Alexandre Frota, Janaina Paschoal, Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo ou Marco Antônio Villa viraram a casaca. Não gosta mais deles e pronto.

Uma senhora foi alugar um quarto da casa dela pelo Airbnb e quando viu a foto da futura inquilina fazendo arminha com a mão e outra fazendo selfie com o pato amarelo na Paulista, desistiu na hora.

Ela entra no ônibus e fica desconfiada. Será que o ilustre passageiro ao lado votou no Bozo? Por precaução, muda de lugar.

Foi assistir a Democracia em Vertigem e trocou de poltrona quando ouviu um casal sussurrando que Dilma roubou. Quase saiu do cinema e abandonou o filme, tão bom, no meio.

Ela nunca mais vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Passou a torcer contra o Brasil, seja em amistoso, na Copa ou no Pan.

No volante, ultrapassa o carro ao lado e faz uma cara de nojo pro motorista que colou um adesivo Lava Jato Eu Apoio, no vidro traseiro.

Desliga a TV quando aparece o Merval, o Valdo Claro ou a Leilane Neubarth. Deixou de frequentar o Ici Bistrô, só porque um dia cruzou com o FHC na mesa ao lado, comendo um cassoulet.

Recentemente fez uma limpa no Facebook e deletou meio mundo, só porque desconfiou que meio mundo votou no #EleNão.

Fez um podcast reunindo todas as merdas que o presidente falou em sete meses e perdeu doze amigos de uma só vez.

Saiu do grupo Amigos da Lapa, Fraldões da UFMG, Parentes & Parentas e do grupo Turma da Coca-Cola, que um membro postou #lulaladrão.

Ninguém mais tem sossego!

Um dia, ele postou a frase Lula Livre, foi deletado e bloqueado imediatamente pelo padrinho, pelo sogro, pela cunhada e pelo advogado do pai.

Mas, por que o título desta crônica é Deletou a família e foi ao cinema? Oras! Porque depois de uma hora e doze minutos de discussão na mesa do jantar, ele abandonou o prato de macarronada com frango e nem esperou o pavê de sobremesa. Deletou o avô, o cunhado torto, a madrinha, o primo, o sogro, o namorado do irmão, a concunhada, o tio e foi ao cinema.

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

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O ESTADO DAS COISAS

Nos anos 1970, o Estado do Piauí era apenas motivo de chacota. Um tipo de chacota que, felizmente, não existe mais. Era um estado seco, pobre, quase abandonado. Quando a canção I want to go Back to Bahia, de Paulo Diniz, foi pra parada de sucessos, Caetano e Gil no exílio, Juca Chaves respondeu com uma paródia que também foi parar nas paradas de sucesso: Hey Hey Di Di Take me Back to Piauí. Piada rolava dizendo que o governo militar queria unir o Piauí com o Ceará para fazer o Piorá. Sem contar a charada que andava de boca em boca nas esquinas: Você sabe qual é o estado pior que o Piauí? O estado de coma! As piadas se foram, ainda bem, e o Piauí se manteve um forte, como todo nordestino. Ontem, o presidente que só fala merda, pisou em terras piauienses, pela primeira vez desde que colocou mal colocada aquela faixa verde e amarela. Havia um certo temor. Na terra do governador do PT, Bolsonaro teve poucos votos e, todos sabem que o Bozo vem criticando o Nordeste brasileiro como se fosse um galinheiro. Mas, não!  O que se viu nos noticiários foi um presidente destemperado mais uma vez falando em “acabar com o cocô no Brasil”, os vermelhos, a esquerdalha. E como se estivéssemos numa cena gravada no Projac, havia um povo imenso em torno do palanque, gritando mito! mito! mito!, cada vez mais alto, conforme a bobagem que ia dizendo ia aumentando. Queria ver o presidente andar pelas ruas de Teresina, sem doze seguranças ao lado, ao vivo e em cores. As imagens que vimos ontem, no meu entender, eram falsas. Mas, coloco aqui um restinho de dúvida. Quem eram aquelas pessoas fazendo selfie, batendo palmas, gritando mito? Tive medo. Eram piauienses ou figurantes da próxima novela da Globo? (AV)

A GREVE

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando  que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada. Fechada por quê? Perguntou uma senhora! Manifestação! Greve! respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Eles não têm o que fazer? Todos tinham suas opiniões. mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve nem queria saber. Um último arriscou dizer “Porque não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angelica à pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava. Os resmungos continuaram por algum tempo. Na noite de ontem,todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente, informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava. O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso ai. Não sei se entenderiam.Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia. (AV)