MINHA VIDA DE CACHORRO

Venho dessas famílias que a gente diz: na minha casa sempre teve cachorro. Sim, sempre teve cachorro. Foram quatro: Jolie, Tupi, Pink e Fly. Cachorros soltos dentro de casa e no terreiro, daqueles que se engasgavam comendo osso de frango no domingo depois do almoço. Ainda não havia petshop, ração, brinquedinho, caminha, xampu, nada disso. Bebiam água numa lata de goiabada da Cica. Iam uma vez aos posto da Prefeitura pra vacinar contra a raiva. E só. Depois de muito lutar para não ter um cachorro, na quarentena adotamos o Canela. Vira-lata, foi abandonado num Posto Ipiranga no meio da estrada. Tive logo a ideia de dar o nome a ele de Guedes. Ouvi um sonoro não de todos aqui. Seria muita humilhação para ele. Chegou Bob e ganhou um novo nome, Millôr, que durou umas duas horas. Ficamos lembrando de nomes de cachorros e quando ele ouviu Canela, abanou o rabo e veio todo serelepe. Virou Canela imediatamente e sempre atendeu por esse nome. Acreditamos que ele era Canela desde pequenininho. O Canela é o vira-lata mais nobre do pedaço. Senta esquio esperando eu colocar o tênis, pegar o saquinho plástico, a máscara, a coleira. Chegou aqui sem saber o que é elevador. A porta abria e ele ficava olhando, não entrava. Agora só falta apertar o botão S1 quando saímos pra passear. Aprendeu a não fazer xixi na garagem, sabe esperar a hora do passeio e – acredite – pede colo depois de nos acompanhar no café da manhã. Fica observando a mesa, sem sequer enfiar o focinho onde não foi chamado. A gente aqui em casa vive dizendo que se fosse fêmea chamaria Gilda, porque não existe cachorro como Canela. Metódico, dá nove horas vai para o cômodo onde funciona o home office da Paulinha e fica esperando a hora do tabalho dela. Divide as atenções durante o dia. No final da tarde vem pro meu escritório e deita na caminha esperando a hora do passeio. Paramos de dar ração e fizemos a comida dele. Descobrimos que o açougue do supermercado tem uma carne  que chama retalho. É um mix de carne, pedacinhos que sobram daqui e dali na hora do corte. Do acém ao filé mignon, do patinho ao colchão duro. A comida é simples e fácil de fazer. Sem gordura, sem sal e ele ama. Abandonou a ração de vez, não suporta o cheiro. Será que criamos um monstro? O Canela alegrou nossa vida nessa pandemia. Tem horas que ele parece o Brian da Family Guy. Dá impressão de que vai sentar na mesa conosco e discutir filosofia. Canela não morde, late só na rua e adora brincar com os outros cachorros. Se deu bem com a Shakira e a Cher, das nossas filhas. Acho que ele percebeu que estava escrevendo sobre ele. Só acordou agora e veio abanando o rabo, feliz da vida. 

[ilustração Rebeca Campbell]

TRÊS COISAS ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é baixo, mas intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão de que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são atentos, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer contraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar das pessoas ali. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando-se em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta e quatro mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Aqui fora, discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas.

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai dar em nada. Ali é o fim do mundo. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, tipo Fitzcarraldo.

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um unicamente de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia, Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países das maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão comprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda é, porque meu sonho é conhecer o Zaire, a Zâmbia, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa.

O LABIRINTO

Sonho com labirintos que não existem. Acordo pensando naqueles dos palácios de Viena e vejo-me aqui neste que existe na Lapa. Quartos, sala, cozinha, banheiro, revistarias, escritório, varanda. Poucas plantas, nada a ver com aqueles labirintos transbordando de glicínias que avançam e fecham qualquer saída. Não quero me perder por ai, sentir os pés no chão, andar ligado, mas ao mesmo tempo ser um mutante esperando a vacina no braço, na língua, onde for. Russa ou chinesa, não importa. Quero sair daqui, dar passos largos, sentir o cheiro de gasolina saindo do motor. Se não fosse a música permanentemente no ar, os livros em cima da mesa, as revistas, os jornais, se não fosse minha família, se não fosse o bife à milanesa que espalha seu cheirinho bom pela casa, já teria avançado sobre as glicínias, não tenho dúvidas. 

MAPAS

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um só de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países da maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão cumprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda, porque meu sonho é conhecer o Gabão, a Zâmbia, o Zaire, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa. 

SEM DESTINO

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai me levar a nada. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, ser Fitzcarraldo.

[ilustração Katharina Bitzl]

UTI

 

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são constantes, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer constraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas. 

MULHER LENDO

Eu era menino ainda quando vi uma propaganda nas páginas da revista Realidade anunciando o lançamento da coleção Gênios da Pintura. Eu não tinha NCr$2.50 por semana para comprar aquele Van Gogh, o número 1, sequer para comprar os outros noventa e seis. Picasso, Kandinsky, Goya, Rembrandt, Monet… Namorava cada um nas bancas e quando Seu Benito estava lá, ele me deixava folhear, sem amassar, por favor! Foi assim que me apaixonei por esses pintores geniais. A cada museu que entrava e via uma obra ao vivo eu me lembrava dos Gênios da Pintura da Abril Cultural. Agradecia aos céus o privilégio de poder parar diante de uma obra o tempo que quisesse e ficar admirando. Nesse domingo de manhã me emocionei ao ver a postagem do meu amigo Apolo Heringer Lisboa, aquele com quem tenho uma grande história. A obra estava lá e apenas o nome: Mulher Lendo, Henri Matisse, 1908. Quando vejo uma obra pela primeira vez, a emoção não me segura. 

AS SEIS CANÇÕES DO CÁRCERE DE UM NARCISO EM FÉRIAS

Caetano Veloso cita seis músicas no seu depoimento a Renato Terra e Ricardo Calil, sobre sua prisão em 1969, duas semanas depois do Ato Institucional número 5. No documentário Narciso em Férias, que foi aplaudido em Veneza no dia 7 de setembro, ele canta três canções e, com dor no coração e uma certa angústia, silencia sobre as outras três.

Canta Irene, a única que fez atrás das grades, quando apertou a saudade da irmã, com então 14 anos de idade. Na gravação original, que abre o disco de capa branca e que leva apenas sua assinatura, Caetano erra no início e deixa o erro no vinil: esqueci. Eu vi que você não estava com cara de quem ia cantar. Eu estava esquecido, quando me lembrei já foi em cima da hora. Ah, meu Deus… ah! Na letra, uma única vontade, a de ir embora daquele lugar: eu quero ir minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

Canta Terra, a canção que fez, alguns anos depois, e que sua memória o remeteu ao quartel do Exército. Compôs a lembrança de Dedé que levou para ele ver a revista Manchete com as fotos da Terra vista do espaço. Na verdade, um hino ao Planeta Terra: quando eu estava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias, em que apareceres inteira, porém não estava nua e sim coberta de nuvens. É em Terra que ele reconstrói os versos de Paraíba, de Luiz Gonzaga, aquela Paraíba masculino mulher macho sim senhor! Mando um abraço pra ti pequenina como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba.

Canta Hey Jude, a canção que ouvia na prisão e que lhe dava a sensação de que dias melhores viriam: Ei, Jude, não fique mal, pegue uma canção triste e torne-a melhor. Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração, então você pode começar a melhorar as coisas e sempre que você sentir dor. Ei, Jude, vá com calma, não carregue o mundo nos seus ombros

Caetano não tocou Súplica, sucesso no vozeirão de Orlando Silva, a canção que um velho comunista, companheiro de prisão pedia que ele cantasse: Aço frio de um punhal/Foi o seu adeus para mim/Não crendo na verdade, implorei, pedi/As súplicas morreram num eco em vão/Sofrendo nas paredes frias de um apartamento.

Não cantou também Onde o céu azul é mais azul, uma aquarela brasileira na voz de Francisco Alves, a canção que Caetano tem medo, medo de chorar ao ouvi-la: Eu já encontrei um dia alguém/Que me perguntou assim, iá, iá/O seu Brasil o que é que tem/O seu Brasil onde é que está?/Onde o céu azul é mais azul/E uma cruz de estrelas mostra o sul/Aí, se encontra o meu país/O meu Brasil grande, e tão feliz.

E Caetano não cantou Assum Preto, de Luiz Gonzaga, recuperada pela fatal Gal Costa, outra música que lhe causava uma tristeza profunda;

Tudo em vorta é só beleza/Sol de abril e a mata em frô/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Tarvez por ignorança/Ou mardade das pió/Furaro os óio do Assum Preto/Pra ele assim, aí, cantá mió.

Sim, as histórias voltam junto com as canções.

 

 

 

CÉREBRO ELETRÔNICO

É bobagem ficar imaginando o mundo hoje sem as modernidades que vieram com os anos. Computador, por exemplo. A não ser que eu me refugiasse na Fazenda do Sertão, que nem eletricidade tinha, para criar porcos, patos, marrecos, galinhas, cavalos. Plantar taioba, couve, escarola. Me desligar do mundo eu tenho me desligado por uns dez minutos por dia, ou mais. Às vezes, quando passo meia hora sem ter notícias das terra civilizada, quando volto tenho um milhão de mensagens, de novidades, de pedidos, de comentários, de piadas, de dicas, de boletos, de fatos, de fotos, de sustos. Aos 70 anos, não esperava ver o mundo assim, eu aqui dentro de casa de pijama até por volta das dez da manhã. Sou salvo pela música diariamente: eu vou-me embora, meu bem, vou-me embora. Eu aqui não me dou bem, ô viola! violá…

PROFISSÃO ESCRITOR

O melhor horário para escrever um livro é quando o céu ainda está escuro e o único barulho único é de um pássaro ávido por encasalar, que canta agoniado na árvore em frente a janela do meu escritório. Nessa hora da manhã, vivo entre e pássaros e páginas que ainda estão no computador, iluminando esse meu canto e o canto do pássaro. É quando a televisão ainda está desligada, o portão da garagem ainda não começou a fazer nhec, os ônibus não começaram a circular. É nessa hora que a pesquisa avança e os textos vão saindo. A pesquisa ainda é longa e esse metro e meio de livros empilhados na minha frente me assusta um pouco. Quero entrega a editora antes do final ano, parece que está longe, mas não. Daqui a pouco outubro, novembro e acabou. Por isso economizo palavras aqui para ganhar lá. Precisava dizer isso. 

ASAS DO DESEJO

 

Tenho uma verdadeira paixão por aves, de grande e pequeno porte. Menino, já fui criador de passarinhos e, com o passar dos anos, perdi a coragem de tê-los enjaulados. Fotografo aves desde pequenininho. Por onde eu vou tem sempre uma, parece que à minha espera. Tenho uma coleção de melros que circulam pelos parques de Londres, cada um mais bonito que o outro. Eclético, sou capaz de cantar Blackbird dos Beatles, misturando com Menino Passarinho do Luiz Vieira e Assum Preto, de Luiz Gonzaga. Sei de cor Coleção de Passarinhos na voz de Clementina de Jesus e Gaivota, de Gil, na voz de New Matogrosso. Esse casal de gaivotas foi fotografado em Barcelona e me encheu de curiosidade. O ninho deles fica no alto da torre, sem proteção contra a chuva. As gaivotas deviam ter certeza da temporada de seca. Os pássaros são muito inteligentes, eu sei. Os pombos possuem um sensor capaz de levá-lo de volta pra casa depois de uma simples revoada. Nós, foi preciso inventar o Waze que é um nome feio, mas é o melhor meio de se chegar.

[foto Alberto Villas]

OS DIÁRIOS ACUMULADOS NOS TEMPOS DE PANDEMIA

Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar o exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O nosso Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: “mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo?” Pronto, escrevi.

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje.

Todos em casa temos coração mole, a família inteira. Pai, mãe, filhos, netos, bisnetos. Não existe a palavra insensível por aqui. Não tem como ver alguém mexendo nos sacos pretos de lixo tarde da noite e ficar impassível, cara de paisagem. O coração mole parte em dois. Nas manchetes dos jornais, vejo a euforia com o crescimento do mercado imobiliário. Somos esquerdas demais pra não pensar nas vinte e cinco mil pessoas que moram nas ruas da maior e mais rica cidade da América do Sul. Não tem como ver famílias cujo teto é o viaduto Presidente João Goulart, a marquise da Marabá, o plástico tosco e rasgado daquela que um dia foi uma barraca de camping. O fogareiro na calçada esquentando água para um macarrão, uma flor de plástico em cima de um caixote de frutas selectas, um cão dormindo. Como um argonauta, meu coração não aguenta tanta tormenta. O Doutor Christian Barnard, um dia, trocou um pelo outro, mas era coração com aorta direita e aorta esquerda, aprendi no Marista. Outro dia, o meu irmão mais velho me chamou a atenção: já pensou que o coração da gente é uma máquina que está funcionando vinte e quatro horas por dia, há mais de setenta anos? Uma hora para, não tem jeito. Já cantaram o coração bobo, o coração vagabundo, o coração balão, o coração São João. E também o coração que, não sei porque, bate feliz quando te vê.

INFÂNCIA

Não tinha jeito, aquela maldita vareta preta sempre caia por baixo de todas as outras, verdes, amarelas, azuis e vermelhas. Eu tinha as mãos muito firmes, mas não era fácil chegar até a vareta preta, a mais valiosa. Eu tirava uma amarela com a delicadeza de um monte, uma vermelha com a perspicácia de tirar antes a verde, colada junto a ela. Todo Natal ganhávamos um jogo de Pega-Varetas novo que substituia aquele que passou o ano sendo jogado no chão da sala, já meio estropiado. A vida não era nada fácil: decorar Latim, estudar o significado em português da palavra francesa partout, saber a tabuada de cor, as capitais da Finlândia, da Suécia e da Islândia, entender o que eram as mitocôndrias, essas coisas todas. Desconfiávamos que não era a cegonha que trazia o bebê, mas não podíamos contestar. A gente fingia que Papai Noel existia, que o coelho da Páscoa botava ovo de chocolate, que Eva ofereceu uma maçã a Adão e que Noé colocou um casal de cada bicho na sua arca. Não condenávamos a Dona Chica que atirou o pau no gato e morríamos de medo do boi da cara preta que pegava menino que tinha medo de careta. 

OS COMPRIMIDOS

Menino ainda, fica impressionado com a quantidade de comprimidos que os meus pais engoliam todos os dias. Era na hora do jantar que eles vinham, cada um com a sua caixinha de remédios. O do meu pai era um tubo plástico com as indicações dos dias da semana, pra ele não se perder. A da minha mãe era uma potinho de prata com tampa de madrepérola. Eles abriam suas caixinhas e iam colocando os comprimidos em cima da mesa. Não eram muito velhos ainda, mas eu ficava pensando com os meus botões: porque gente velha toma tanto remédio? Não me lembro que comprimidos engoliam. Um, sei que era para pressão porque o meu pai lembrava minha mãe todos os dias: tomou o seu remédio pra pressão? Ela quase sempre tinha esquecido, mas tomava imediatamente. Hoje eu fico imaginando que deveriam ser remédios pro colesterol, pra ralear o sangue, pra tireóide, pra artrite. Hoje, aqui em casa é na hora do café da manhã que enfileiro meus remédios: Puran 25 mg, Reuquinol 400mg, Plenance 19 mg, Ezetimiba 10mg, Xarelto 20mg e Addera 1000. Pois é, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. 

COISAS DA VIDA, MINHA NEGA

Fiquei sabendo que tem gente escrevendo muito nessa pandemia, gente que nunca escreveu está escrevendo. Diários, poesias, contos, escrevendo o que vem na cabeça. Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar aquele exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: ‘mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo? Pronto, escrevi. 

CORAÇÃO MOLE

Todos em casa temos coração mole, a família inteira. Pai, mãe, filhos, netos, bisnetos. Não existe a palavra insensível por aqui. Não tem como ver alguém mexendo nos sacos pretos de lixo tarde da noite e ficar impassível, cara de paisagem. O coração mole parte em dois. Nas manchetes dos jornais, vejo a euforia com o crescimento do mercado imobiliário. Somos esquerdas demais pra não pensar nas vinte e cinco mil pessoas que moram nas ruas da maior e mais rica cidade da América do Sul. Não tem como ver famílias cujo teto é o viaduto Presidente João Goulart, a marquise da Marabá, o plástico tosco e rasgado daquela que um dia foi uma barraca de camping. O fogareiro na calçada esquentando água para um macarrão, uma flor de plástico em cima de um caixote de frutas selectas, um cão dormindo. Como um argonauta, meu coração não aguenta tanta tormenta. O Doutor Christian Barnard, um dia, trocou um pelo outro, mas era coração com aorta direita e aorta esquerda, aprendi no Marista. Outro dia, o meu irmão mais velho me chamou a atenção: já pensou que o coração da gente é uma máquina que está funcionando vinte e quatro horas por dia, há mais de setenta anos? Uma hora para, não tem jeito. Já cantaram o coração bobo, o coração vagabundo, o coração balão, o coração São João. E também o coração que, não sei porque, bate feliz quando te vê.

ilustração Julian Campos

A MATEMÁTICA

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje. 

BONITA COMO UM CAVALO

Nunca me esqueço daquela noite em 67. Chico Buarque apresentou Roda Viva, Caetano sua Alegria Alegria, Edu Lobo com Ponteio e Gilberto Gil, Domingo no Parque. No meio disso tudo havia o estudante de arquitetura chamado Maranhão, vindo de lá, com sua Gabriela. Afinados, quatro bambas da MPB cantaram: 

Atravessei o mar
a remo e a vela
fiz guerra e em terra
montei a cavalo
e em pelo de sela
cruzei as florestas, montanhas e serras
a lua sorria, eu sorri com ela
quando corria, eu corria dela
pulei cancelas, pulei quintais
deixei donzelas e tudo mais
quantas janelas ficaram atrás
só pra te ver Gabriela

Adolescente, me apaixonei por essa coisa de atravessar o mar a remo e a vela só pra ver Gabriela. Minha Gabriela era um amor oculto, só meu, escondido. Eu morava na parte de cima e a minha Gabriela, que não era Gabriela, na parte de baixo. Ficou nisso. No início dos anos 1970, eu já estava longe dessa Gabriela quando chegou pelo correio, presente de Paulo Augusto Gomes, o primeiro disco do Maranhão. Na capa, o seu perfil em branco e preto, destaque para o nariz e a boca. Sim, eu estava longe dela uns dez mil e poucos quilômetros. Foi quando ouvi naquele inverno rigoroso de Paris, a canção Bonita como um cavalo. Juntei Gabriela, que também estava no disco, com a beleza de um cavalo. Ao abrir as janelas dentro do meu coração ele enxergava ela, bonita como um cavalo caminhando ao luar. Passei a vida pensando naquela mulher, bonita como um cavalo. Passei a vida prestando atenção nos cavalos de Camargue, que vi um dia caminhando ao luar. Sim, ela sempre foi bonita como um cavalo. 

[ilustração/Guernica (detalhe), de Pablo Picasso]

 

UM BALAIO DE FRUTAS DAS QUATRO ESTAÇÕES

Ainda pequeno, eu tinha medo de maçã. Na sala de catecismo tinha um pôster na parede mostrando Eva oferecendo uma maçã ao Adão. Enquanto aprendia o Pai Nosso, a Ave Maria e a Salve Rainha, ficava com os olhos fixos naquela gravura, os dois seminus no meio do mato e uma serpente enrolada nos galhos. Tinha medo da maçã e da serpente. Depois passou. Passei a gostar das maçãs argentinas, vermelhas e cheirosas, embrulhadas num papel de seda azul, uma a uma, aquelas que um dia Caetano encontrou poesia ali. Muitos anos depois, convivia com elas diariamente. Seis horas da manhã eu estava no Mercado Central de Belo Horizonte para comprar uma, duas caixas. Elas eram embaladas bem apertadinhas e me impressionava a cor branca da madeira que vinha dos Pampas e aquele cheiro maravilhoso que se espalhava dentro da Rural Willys a caminho da Savassi, onde eu tinha um carrinho de frutas que funcionava 24 horas, no coração da Praça Diogo de Vasconcelos. Era início dos anos 1970 e foi assim que juntei dinheiro para ir-me embora do Brasil, fugir daqueles hipócritas disfarçados rondando ao redor. Vendia, além das maçãs, peras, bananas, mexericas, mangas, abacaxis, morangos e, na época do Natal, pêssegos, ameixas e uvas Niágara encaixotadas. Hoje, tantos anos depois, continuo convivendo com as maçãs. Lavando uma a uma com água e sabão e depois secando com um pano de prato as mãos úmidas de uma canção.

Fui juntando coisas, juntando, juntando e acabei criando um museu de mim mesmo. Hoje vivo rodeado de memórias e olha que só guardei as boas, nada de ruim. Tenho um gato de porcelana bordado com motivos turcos pechinchado no Grande Bazar de Istambul, como tenho um coelhinho de plástico do América Mineiro, presente do Chico Regueira. Tenho três garrafas de cerveja – Marx, Trotsky e Rosa – que acredito eu já saíram de circulação. Tenho brinquedos antigos, um disco voador de 1960, uma placa metálica na parede onde se lê: Hippies Use Side Door. Tenho um pôster do Yuri Gagarin, um rádio de 1940, um Buda comprado na Feira da Ladra em Lisboa, um azulejo pintado pelo Peticov, um altar do Universo em Desencanto com a imagem do Tim Maia, tenho coisas que nem eu mesmo acredito que tenho. Quem mais teria um elefante enferrujado que veio lá da Fundação José Saramago? Quem teria uma caixa com sete cds da Yoko Ono? Quem teria um cachorrinho verde de porcelana comprado num antiquário em Havana? Não faz muito tempo, passei uma temporada num vilarejo no interior da Grécia, onde no meu inventário constava apenas um laptop. Acordava, olhava pela janela e via o mar azul, lá embaixo. Um pé de limão siciliano no quintal e um outro de abricós carregado, na casa do vizinho. Eu não tinha bibelôs, nenhuma recordação. Além do laptop, agora estou lembrando, tinha também o livro 1968, da Ariana Fallaci, e um livrinho chamado 101 motivos para ser de esquerda, ambos em italiano. Estava vazio em Vryses e me sentia provisório ali. Hoje morro de saudade e queria viver provisório assim para o resto da vida. Vazio, mas tão bonito quanto uma obra de Carlo Benvenutto, onde se vê apenas uma cadeira, uma mesa com uma toalha de algodão e três ovos. Nada mais.

Geralmente é no domingo que lavo as frutas que chegaram do supermercado. Isso desde as águas de março, quando o vírus chegou por aqui. Nos primeiros dias deixava tudo dentro de uma bacia por uns vinte minutos, com água e algumas gotas de Hidrosteril. Depois que vi na televisão que era preciso esfregar uma a uma com água e sabão, compramos uma barra de sabão de coco e começamos a esfregar cada laranja, cada papaia, cada limão siciliano, cada manga espada, cada carambola. Esfrego pensando nas goiabas com bicho que engolia, nas jabuticabas que colhia e ia estalando na boca, uma a uma, uma bacia. Pensando no jambo cheiroso do vizinho que roubávamos, nas ameixas amarelas que, quando cresci, viraram nêspera. Nas pitangas e nas amoras que deixavam roxa a calçada da Rua Grão Mogol. Vou juntando as frutas ao lado da pia, formando numa pirâmide que me lembra vagamente as fruteiras de Paul Cezanne que certamente não lavava as frutas naquele 1900. Elas vão formando um colorido bonito predominantemente amarelo com tons de vermelho e laranja e com toque de verde da manga espada. Tão bonitas que outro dia fotografei, legendei moro num país tropical e postei no Face. Os morangos e os kiwis lavo rapidamente. Porosos não podem ficar de molho, vi também na televisão. Todo domingo é assim. Gasto parte do meu tempo lavando frutas, sentindo o cheiro do sabão de coco, mas principalmente das carambolas, as mais cheirosas.

LIBERDADE LIBERDADE

Nesses tempos em que somos obrigados a sair de casa usando máscara, de lavar as mãos com água e sabão umas vinte vezes por dia, nesses tempos que o álcool gel virou artigo da cesta básica, sinto falta de uma certa liberdade. Liberdade de pintar um asno verde como pintou o bielo-russo Marc Chagall. Não deve ser uma delícia desenhar um asno e poder pintar-lo de verde, verde bandeira? Sinto falta dessas liberdades, desse livre pensar é só pensar. Ninguém chegou para Chagall e disse: mas asno não é verde! Se alguém ousou em dizer, certamente ele replicou: foda-se! E o asno verde entrou para a História.

[ilustração/ O Asno Verde, Marc Chagall]