O ABDALLA É FOGO NA ROUPA

Na metade do século passado, os clientes eram bem fiéis. Tão fiéis que eu, menino na época, lembro-me até hoje das lojas onde os meus pais faziam suas compras. Do Mundo Colegial, onde compravam os uniformes do Colégio Marista e do Colégio Sion, da Bemoreira, onde compravam os móveis pra nossa casa.

Hoje, fico aqui pensando como é que, mais de meio século depois, lembro-me perfeitamente das lojas de Belo Horizonte, uma cidade que, segundo o cronista Humberto Werneck, “não acontece nada, mas a gente lembra de tudo”.

Minha mãe comprava sapatos pra ela e pras minhas irmãs, na Elmo. O meu pai, na Clark. Camisas, ele não abria mão, era só na Casas José Silva. Eu me lembro perfeitamente das Estâncias Califórnia, onde vendiam produtos importados da América do Norte e a gente atazanava meu pai pra comprar aquelas caixinhas vermelhas de uva passa, caríssimas na época.

O meu pai era um consumidor tão fiel que só mandava revelar fotos no Zatz, só comprava pão na Padaria Savassi, só enchia o tanque no Posto Fraternia, só comprava discos nas Lojas Gomes, frutas no Mercado Central e achocolatado, era só o Ovomaltine.

Belo Horizonte tinha a Guanabara, uma loja de departamentos no coração da Avenida Afonso Pena, tinha a Livraria Amadeu, a Gruta Metrópole, a Copiadora Brasileira, a lanchonete Ted’s, a Cantina do Ângelo e o Cine Pathé, onde assistíamos todas as chanchadas com Renata Fronzi, Anilza Leone, Grande Otelo, Zé Trindade, Costinha, Ronald Golias, Jô Soares e Otelo Zeloni.

Mas foi nos anos 1960 que um furacão varreu Belo Horizonte, com a chegada do Abdalla, uma loja de roupas a preço de banana, numa época que bananas eram vendidas a preço de banana. Ninguém sabia quem era o dono, se era turco, sírio ou libanês que, naquela época, eram todos iguais. A diferença era que turco era pobre, sírio, o que melhorou de vida, e libanês era o rico.

O Abdala chegou arrasando com a concorrência. De minuto em minuto entrava um anuncio na TV Itacolomi, canal 4, com uma musiquinha que em poucos dias virou hit na cidade: O Abdalla é fogo na roupa/Com ele ninguém pode/ Veja a fama que ele tem.

Sei que a cidade inteira correu pro Abdala pra comprar calças, camisas, meias, calcinhas, sutiãs, boleros, saias pregueadas, tudo. Em poucos dias, a cidade estava toda vestida pra missa, bem no estilo Abdalla.

Apesar de um sotaque libanês, uma roupa de sírio e um bigode de turco, Abdalla caiu no gosto de um Brasil popular, que gostava de uma camisa nos trinques, fosse ela de algodão, pele de ovo, opaca ou fustão.

Na porta das lojas Abdalla, havia uns stands com promoções arrasadoras. Eu passava de ônibus pela Avenida Afonso Pena e sempre via uma multidão  de mulheres afoitas revirando aquela montanha de  calcinhas de todas as cores, escolhendo uma que lhe servisse.

Os homens, ali mesmo na avenida, escolhiam e experimentavam suas camisas coloridas, algumas já faltando botão de tanto manuseio.

As lojas Abdalla sacudiram Belo Horizonte naqueles anos 1960, deixando a concorrência de calças nas mãos. O slogan é fogo na roupa é porque o Abdalla era mesmo fogo na roupa. Seus preços eram imbatíveis. Uma dúzia de meias custava o preço de uma passagem de ônibus, ida e volta.

Um dia, fui-me embora de Belo Horizonte e deixei pra trás a euforia da moda Abdalla na cidade onde nasci. Muitos anos depois, voltei e perguntei que fim levou o Abdalla. Me responderam que as Lojas Abdalla não haviam mais. Como não havia mais a Guanabara, a Bemoreira, as Estancias Califórnia, as Lojas Gomes, nem mesmo um monumento conhecido como pirulito, que ficava na Praça 7, havia mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A VOLTA

Quando chega a hora de voltar ao país, é um drama pra todo brasileiro. Primeiro, pelas notícias que piscam nos sites e nas redes sociais. Em outros tempos, a gente voltava doido pra saber as novidades. Agora não, não tem nada que aconteceu nesses dias fora que não saibamos.

Segundo, porque a volta é longa e as encrencas são muitas.

Como enfiar na mala todas as bugigangas que compramos, mala que já saiu do Brasil estufada? Aí começa o descarte. Esse xampu pela metade, vai ficar. Essas Havaianas surradas também não vou levar de volta. Essa camiseta Fora Temer que está meio desbotada pelo sol, não vale quanto pesa pra enfiar na mala. Essa garrafa d’água tão linda que trouxemos do restaurante, também vai ficar. Não dá pra levar esse peso todo.

A solução então é comprar uma segunda mala, que é encontrada geralmente na lojinha de um chinês que fica aberta – desconfio –  que 24 horas por dia, esperando os turistas desesperados. Essas malas são meio vagabundas, pra usar apenas numa viagem e pronto.

Depois de um grande quebra-cabeça, vem a hora de fechar as malas. Elas são colocadas no chão, os extensores são acionados e, finalmente, a gente ouve aquele crack. Fecharam!

Quando vamos colocá-las de pé, vem outro pesadelo. Quantos quilos essas malas estão pesando? Meu Deus! É permitido apenas duas malas de 23 quilos e a impressão que temos é que, cada uma, pesa mais ou menos, uns cinquenta. Seja o que Deus quiser!

Hora de chamar o táxi. Jesus, tem de ser um táxi grande, tipo Van, pra caber tudo isso. Será que tem táxi grande nesse fim de mundo? O táxi chega, não é tão grande assim, mas o motorista, que não quer perder a viagem, dá o seu jeitinho de encaixar tudo ali dentro e acabou.

A caminho do aeroporto, além de dar o último adeus à cidade que não sabemos se voltaremos um dia, a preocupação é com o check-in naquelas máquinas que costumam responder secamente: Número de reserva desconhecido.

Tudo bem. O táxi estaciona, as malas são colocadas nos carrinhos, fizemos o check-in nas máquinas e enfrentamos a longa fila até chegarmos à atendente que, apesar do excesso de peso, acaba deixando passar tudo. Talvez pela cara de desespero e o excesso de simpatia dos passageiros que estão dando bom dia até pro luminoso da companhia, atrás da atendente.

Pronto. Agora é achar o portão 49B naquele aeroporto que parece ser maior que a cidade visitada. Mas, como agora a bagagem é pouca, o portão 49B vai acabar aparecendo, depois de muitos passos largos e muitos metros de esteira.

Será que essa bagagem de mão vai caber no porta-bagagens do avião? E se não couber? O avião já é apertado e vou ter de levar, debaixo dos pés, essa mochila que leva até um mico de pelúcia e um porquinho de borracha.

Ótimo, a mochila coube no porta-bagagens em cima das nossas cabeças. Agora só resta esperar que ninguém sente aqui ao lado, para que possamos dormir esticados o voo inteiro, a noite inteira. O que não acontece. O último passageiro a entrar no avião é o meu vizinho de cadeira.

A noite passa, a turbulência passa, a dúvida entre massa ou frango passa, e quando o comandante anuncia que começamos o procedimento de descida para o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, passa pela cabeça o último pesadelo, o pouco dinheiro que resta e a tentação do free shop que nos espera.

Temos uísque em casa? E Mozart? Será que o limoncello acabou? Acho que o Baileys está no fim. Quanto será que está o Beaujolais? O que vou fazer com esses 35 euros que sobraram? O cartão está estourado. Será que dá pra comprar um Grand Marnier e aqueles chocolatinhos da Lindt pro pessoal da firma? E aquele relógio que a sogra pediu pra ver o preço e eu não vou ter coragem de dizer que vi e que custa caro demais?

Antes do avião pousar, vem mais uma questão. Será que vou apertar o botão verde ou vermelho da alfândega? E se apertar o vermelho? Será que vão achar aquele camembert embrulhado em oito plásticos no fundo da mala? E os figos secos comprados na Grécia? E os três pacotes de polenta italiana?

Senhores passageiros, benvindos a São Paulo! Cuidado ao recuperar suas bagagens de mão porque elas podem ter se deslocado durante o voo. Não esqueçam de verificar se estão levando todos os seus pertences, inclusive o seu aparelho celular. A temperatura no momento é de 25 graus.

Ai vem a última dúvida: Será que a fila do táxi lá fora está gigantesca?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ÁLBUM DE RETRATOS

Ainda bem que não vivemos mais na dinastia Fuji, nem mesmo na era Kodrakrome. Se ainda estivéssemos nesse tempo, eu estaria louco ou na miséria. Lembro-me bem que quando íamos viajar pro estrangeiro, comprávamos na Fotóptica uns seis filmes de 36 poses pra colocar na mala e fazer fotografias por esse mundo afora.

Cada foto era pensada, calculada, focada e não havia desperdício algum. Só quando todos estivessem à postos e com o sorriso nos lábios é que disparávamos o clic, exclamando: Olha o passarinho!

As fotos iam sendo tiradas e os rolos iam sendo guardados para quando, de volta ao Brasil, levarmos na mesma Fotóptica para serem revelados. Esperávamos cinco dias úteis pra ficarem prontas e quando abríamos aquele envelope, era sempre uma surpresa. Algumas fotografias ficavam fora de foco, umas cortavam o pé, outras a cabeça das pessoas e tinham aquelas que simplesmente queimavam.

Íamos admirando uma a uma e como o tempo havia passado, tinha fotos que nem lembrávamos mais que tínhamos tirado, como aquela na porta do hotel, todos reunidos, sorrindo, é claro.

Éramos econômicos. Não tirávamos fotos de qualquer coisa. De prato de comida, de por do sol, da lua cheia, da areia da praia ou de um cachorro dormindo na porta de uma loja, por exemplo. Hoje,  fotografo qualquer cachorro que vejo pela frente.

De galgo a pitbull, de poodle a vira-lata. Percebo isso, quando vou apagar as fotos para aliviar a memória do computador. Sim, hoje tiramos milhares de fotos e apagamos milhares. Eu e minhas manias.

Estou aqui há uma semana apagando fotos inúteis antes de voltar ao Brasil. Em três meses foram mais de doze mil fotos. O problema maior é que bato duas, três, quatro fotos da mesma coisa, sempre achando que uma pode não sair boa, ficar fora de foco ou cortar algum detalhe importante. Acontece que todas saem absolutamente idênticas e eu sou obrigado a eliminar todas as outras.

Só depois de ver mais essa quantidade monstruosa de fotos que passei do iPhone pro computador, é que a ficha cai e eu pergunto para os meus botões: Por que fotografei tanto cachorro? Por que fotografei tanto por do sol, todos eles muito parecidos?

Além de cachorro, não posso ver um gato que fotografo, um pombo que fotografo, não posso ver uma gaivota, um grafite bonito, uma placa que não entendo, uma onda do mar, uma árvore frondosa, um pardal, que fotografo. Tenho pardais dos quatro cantos do mundo, todos absolutamente idênticos. Chego num lugar e não sossego enquanto não fotografo um pardal local.

Na última semana, já eliminei 74 pombos, 56 grafifes, 88 gatos, 101 cachorros, 60 gaivotas, 29 placas que não entendo, 44 pratos de comida, sem contar um oceano inteiro de ondas do mar e 99 flagrantes do sol se pondo. Elimino, não porque as fotos não ficaram boas, mas por serem praticamente iguais.

É sempre assim. Quando saio de casa, faço uma pequena reflexão em grupo e anuncio que esse ano não vai ser igual aquele ano que passou. Não vou sair fotografando tudo o que vejo pela frente, e quando vejo, lá estou eu fotografando tudo o que vejo pela frente. Sofro com isso, mas, pensando bem, me divirto, tenho assunto pra crônica.

Não são apenas patos, mas toda a família: Gansos, cisnes, marrecos, mulards e cayugas. Patos, desses comuns, foram 142 só em Florença, deslizando pelo Rio Arno. Tenho fotos de todo tipo de pato, em todas as posições possíveis e imagináveis. Patos com a cabeça enfiada n’água, patos chacoalhando as penas, patos cochilando, patos batendo asas, ameaçando voar, todas as reações de um de pato, registrei. Muitas vezes, fotografo dez, quinze, vinte vezes pra tentar conseguir um lance bacana.

Esses dois aí que ilustram a crônica, por exemplo, foram clicados 17 vezes. Eu estava tentando fazer a foto perfeita dos dois juntos formando um coração. Como podem ver, quase consegui. Mas não desisti. Tenho certeza que um dia vou conseguir um casal de patos formando o tal coração com o pescoço e o bico. Repito: Não vou desistir. Nem que seja um pato laqué no prato de um restaurante, lá na China.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

ATENAS À VISTA!

A primeira vez que vim a Atenas, cheguei exausto depois de atravessar toda a Itália de pé dentro de um trem com uma mochila nas costas, mais dezesseis horas de navio e um bocado de tempo dentro de um ônibus sacolejante, que levava também algumas galinhas vivas enroladas em jornal, apenas com a cabeça de fora.

Era início dos anos 1970 e eles caminhavam lado a lado com o meu sonho de correr mundo, correr perigo. A ideia de ir de Paris até Beirute – por terra – fazia parte desse sonho maluco beleza. E foi assim que acabei chegando a Atenas naquele verão, rumo a Istambul. Depois, ainda tínhamos muito chão pela frente, muita poeira pra comer até a capital do Líbano.

Não havia booking.com e eu cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Carregava apenas uma velha mochila de lona nas costas e, dentro dela, poucas coisas. Alguns francos franceses, roupa leve de verão, um mapa da Texaco para me orientar e três exemplares da revista Planeta, ainda não lidos.

Um sobre Fidel Castro, um sobre Bob Dylan e outro sobre Krishnamurthy. Vestia uma camiseta desbotada pela água sanitária, uma velha calça Lee e calçava uma sandália com sola de pneu bem pesadona.

Isso é o que me lembro, quase cinquenta anos depois, porque anotei num velho caderno Clairefontaine quadriculado que guardo até hoje.

Lembro-me que encontrei uma cidade árida e meio bagunçada como o meu Brasil. Morando em Paris há algum tempo e já acostumado com aquele charme dos cafés no Boulevard Saint Germain, amei quando cheguei aqui e encontrei botequins como os meus bons e velhos botequins de Belo Horizonte. Aqueles com mesinhas cobertas com toalhas xadrez, flores de plástico num vasinho azul-calcinha e um conjunto para sal, pimenta do reino, vinagre e azeite.

Lembro-me pouco daquela Atenas. Da aula de arqueologia a céu aberto, dos luminosos que não entendia uma palavra sequer e das melancias. Era época de melancias e elas estavam por todos os lados, enormes, vermelhas e muito saborosas. Comi muita melancia a preço de banana.

Nunca me esqueci de uma grande praça, tomada de barracas coloridas de todos os cantos e nações. Foi ali que me instalei, na falta de um hotel barato – todos lotados – para dormir. Quem era eu pra bater na porta de um Holiday Inn com aquela mochila maltrapilha nas costas e pouco dinheiro no bolso?

Consegui um surrado sleep bag emprestado e ali, debaixo de uma árvore, me instalei por dois dias, estudando o caminho para o Oriente Médio até chegar a Beirute, meu destino final.
Além de melancias, comi muito sanduíche de carne de carneiro, muito pepino, muito tomate e muita azeitona. Tomava suco de romã, que só vim a saber que era romã algum tempo depois.

Andei por avenidas, ruas e ruelas de Atenas, deslumbrado com aquelas casas simples com alpendre e cadeiras de ferro pintadas de branco, coisa que não via desde que havia saído do Brasil. Ruas de pedra, um chorão ao lado de um pinheiro, ao lado de um eucalipto, ao lado de um cactus e a Acrópole lá longe. Fiquei apaixonado por aquela bagunça que não existia em Paris, onde estudava e lavava pratos.

Quando cheguei a Atenas pela primeira vez, ainda não havia para mim a canção que Chico Buarque fez para as mulheres daqui que, “quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam suas melenas. Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram”.

Lembro-me das mulheres de Atenas vestidas de preto puxando seus filhos pelo braço, sempre com um ar severo de que não estavam ali pra brincadeira.

Voltei alguns anos depois, mas a história foi outra porque o mundo já era outro. A minha emoção é saber que acabo de chegar a Atenas para passar novamente dois dias. Mesmo não tendo mais nas costas uma mochila de lona rústica comprada no Mercado Modelo de Salvador, as três revistas Planeta, o sleep bag, aquela sandália de sola de pneu pesadona, nem a velha calça Lee e a camiseta desbotada pela água sanitária.

Sei que não vou dormir na praça ao relento esta noite, mas quando fechar os olhos, gostaria que aquele sonho antigo de continuar correndo mundo, correndo perigo, durasse uma eternidade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

ARRUMANDO A MALA

Quando vou arrumar minha mala para viajar, toda vez é a mesma história. Um mês antes, começo a consultar, no smartphone, a temperatura do meu destino. É sempre assim: um dia chove, no outro dia bate sol. Às vezes o termômetro está marcando vinte graus, no dia seguinte, cinco. Aí começa a minha dúvida sobre o que colocar dentro da mala.

Dessa vez foi diferente. Estava sabendo que viria passar uma boa temporada por aqui e que não eram aquelas férias costumeiras de, no máximo, quinze dias. Comecei a consultar o termômetro no inverno e no dia de partir, já era uma primavera caminhando a passos largos pro verão. Mas, mesmo assim, em se tratando de Europa, sempre fico com um pé atrás. Vai que esfria!

Além das roupas de frio e de calor, fui enchendo a mala de coisas, de livros e mais livros porque sabia que parte da temporada seria na Grécia, onde ainda não sei dar bom dia. E olha que não pensei em trazer livros finos. O primeiro que escolhi foi o magistral Leonardo da Vinci – já que a primeira temporada seria em Florença -, de Walter Isaacson, com suas 634 páginas e quase um quilo.

Mas isso não era nada. Enfiei na mala roupas de calor, bem leves, e aquelas roupas de frio, bem pesadonas. A mala, de repente, foi virando um container. Aí veio aquela preocupação, sabendo que viajaria muito de trem e com a obrigação de carregar a bagagem até entrar no vagão. Mas, nessas horas, a gente pensa leve: Tem rodinhas, tudo bem!

Além do meu guarda roupa, trouxe muito material de pesquisa, e também pequenos objetos que não me deixam nunca. Sabendo que iria voar numa velocidade de quase mil quilômetros por hora em cima de oceanos, mares, rios, lagos, montanhas, vulcões e tudo mais que o Planeta Terra nos oferece, trouxe um olho turco e uma imagem de Nhá Chica, minha protetora. Mas, pensando bem, essas duas coisas não pesam quase nada.

Como se já não tivesse com muito peso e volume, a primeira coisa que comprei em Florença foi o livro 1968, de Oriana Fallaci, com suas 466 páginas. Vou comprando e sempre acho que tem um canto na mala que, apertando, cabe.

Espero que aprenda com essa viagem, porque quando fui organizar a bagagem para me transferir da Itália para a Grécia, foi que caiu a ficha. Fui colocando tudo em cima de uma cama king-size e quando vi, tinha na minha frente praticamente um Everest.

Comecei cuidadosamente a colocar tudo dentro da mala e a pensar com os meus botões:

Por que cargas d’água trouxe, além das blusas de frio, dezenove camisetas (inclusive uma com um Fora Temer), cinco calças compridas, nove bermudas, uma dúzia de cuecas, quatro shorts, três bonés e seis pares de meia? Das seis meias, usei apenas uma e as outras cinco estão ainda com aquele cheirinho de amaciante Fofo, lá do Brasil.

Trouxe duas blusas de frio e ainda bem que foram só duas. A Paulinha me pegou em flagrante colocando cinco dentro da mala e perguntou se estava ficando louco em levar cinco blusas pro verão grego. Três voltaram pro armário e hoje agradeço de coração a sua bronca.

Mas, verdade seja dita. Trouxe coisas muito úteis dentro da nécessaire. Um punhado de remédios que só compramos com receita médica, escova de dente, tesourinha de cortar unha, Band-Aid e cotonetes por exemplo. Tudo levinho.

Por que não deixei pra comprar xampu, condicionador, protetor solar e desodorante aqui? Vem sempre aquela dor de consciência: Pra que comprar um desodorante que custa 10 euros lá, se eu tenho o meu Dove novinho, comprado no Záfira? Agora, vexame foi trazer quatro sabonetes Phebo, que acreditava ainda ter cheiro. Três deixei em Florença, sem uso e sem cheiro.

O que mais me espantou quando coloquei tudo em cima da cama e vi o tamanho da mala onde tinha de enfiar tudo, foram algumas coisas inúteis.

Deus meu! Por que trouxe a minha carteira de idoso pra andar de graça nos ônibus de São Paulo? Pra que trouxe a minha carteirinha plastificada da Nota Fiscal Paulista? Pra que trouxe 70 reais em dinheiro vivo? E tem mais: Trouxe muita coisa que tenho certeza que não vou nem pegar porque tenho muita coisa pra ver e fotografar, um livro pra escrever, dois livros pra revisar, uma coleção pra coordenar, uma biografia para organizar.

O arrependimento vem quando vejo aquele calhamaço com 564 páginas contanto a história do Jornal do Brasil, que parece ser muito bom, mas sei que não vou ter tempo de ler nem a orelha. Tenho aqui comigo pesando quase três quilos, diversas revistas Geo, Magazine Littéraire, L’Histoire, Philosophie, Sens & Santé, sem contar as Linus que comprei num sebo em Bolonha.

Estou aqui me perguntando porque trouxe cinco canetas Pilot, um lápis, uma régua, três relógios de pulso e um tubo de cola Prit. Estou pensando seriamente em deixar meia bagagem por aqui, só pra poder levar pro Brasil as garrafinhas de San Pelegrino e as garrafinhas de Fanta grega que vão só aumentar a minha coleção.

Jurei não comprar nada por aqui e até que estou me contendo. O único peso de verdade é um livro que arrematei na Fnac Les Halles: Uma coleção completa e encadernada do jornal L’Enragé, de 1968. Doido, né?

Mas o que mais está me dando dor de cabeça são as tais dezenove camisetas e as nove bermudas porque, antes de deixar Florença, a Paulinha passou em frente a uma H&M e disse:

– Vamos lá comprar umas roupas pra você. As camisetas e as bermudas que você trouxe estão muito surradas.

Agora são vinte e cinco camisetas, doze bermudas e seis shorts.  Ainda bem que ela não pensou em comprar umas meias pra mim, porque só tinha pretas e ela odeia meia preta.

Por que trazer uma pilha de camisetas?
Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital
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[foto Alberto Villas]

UMA PAUTA NO AR

Quase dois anos se passaram e eu ainda sonho com ele de tempos em tempos. Talvez por estar aqui, mais perto de Londres, sonho constantemente. Ele sempre aparece com o seu paletó de gabardine, que chamávamos de paletó do milênio.

Geneton Moraes Neto era um jornalista sem vaidade, andava de calça Lee, tênis Conga sem meia e camiseta. Quando era chamado para fazer uma entrevista no programa Milênio, da GloboNews, passava a mão naquele paletó de gabardine dependurado numa parede da redação e subia as escadas, crente que havia se transformado num cavalheiro de fina estampa.

Sonho com ele talvez porque deixamos dois sonhos inacabados.

Toda semana que ia ao Rio de Janeiro, nosso jantar no Restaurante À Mineira, em Botafogo, era sagrado. Pernambucano que jamais perdera o sotaque do Recife mesmo depois de tantos anos na cidade da Rainha Elizabeth e outros tantos na outrora Cidade Maravilhosa, Geneton gostava de um franguinho com feijão e angu e, de sobremesa, uma colherada de doce de leite. Sua Coca-Cola gelada, sem cubos de gelo e sem limão, também era sagrada.

Nosso primeiro sonho apenas engatinhava quando o seu coração parou. Uma semana antes de partir, combinamos um encontro no restaurante, assim que saísse do hospital. Nosso primeiro sonho era colocar no papel as ideias que tínhamos de criar um Memorial da Imprensa.

Sim, nossa geração ainda colocava no papel as ideias. E o papel que falo é um velho caderno que ele tinha, hábito de repórter, onde anotava sua agenda, as suas e as nossas ideias, que andavam sempre lado à lado, desde o tempo em que trabalhávamos no outrora show da vida.

Geneton tinha um arquivo precioso e disputávamos juntos quem tinha a maior preciosidade. Ele considerava que era o exemplar número 1 da revista Tudo com Assis Chateaubriand vestido de cangaceiro na capa, que eu conseguira num sebo perdido no centro de São Paulo, não me lembro mais como, lá pelos anos 1980. Para mim, a moeda número 1 do Tio Patinhas era do Geneton, o exemplar número zero, novinho em folha, da revista Realidade que, antes de partir ele, generoso que era, me deu de presente.

O nosso sonho era reunir todas essas preciosidades e fundar o Memorial da Imprensa. Sonho – ou grito, sei lá – que ficou parado no ar.

O segundo sonho era fazer um Globo Repórter com Caetano Veloso e Gilberto Gil, em Londres. Nossa pauta era levar os dois baianos à terra dos Beatles e refazer o caminho do exílio dos dois. Geneton, profissão repórter, acompanharia os dois no voo até a capital britânica, refazendo o percurso passo a passo, desde o dia em que foram expulsos do país até o dia que voltaram, sabe Deus como.

Nossa ideia era ir até o casarão onde moraram, andar pelo parque onde passeavam e ir ao estúdio onde gravaram os seus melancólicos discos ingleses. Mostrar onde fizeram shows, como viviam, o que comiam, o que faziam ali, tão longe do mar, mar da Bahia que um dia eles deixaram como se ter ido fosse necessário para voltar.

O nosso Globo Repórter seria recheado com imagens do filme O Demiurgo, uma porralouquice que Jorge Mautner fez lá, nos anos de chumbo aqui. Geneton tinha fotos e mais fotos dos dois baianos em Londres, um Gil barbudo e cabeludo, magrinho, macrobiótico, e um Caetano com aquela Juba de Leão enrolado num poncho peruano, deixando a impressão que sentia frio e solidão vinte e quatro horas por dia.

Pusemos a pauta no papel e Geneton ficou de apresentar a Silvia Sayão, a diretora do programa. Não sei se chegou a apresentar ou se a pauta acabou ficando na gaveta, como dizíamos.

Geneton era vaidade zero, mas a última foto que postou no Facebook foi esta que ilustra a crônica, do seu arquivo pessoal, feita creio eu no Uruguai, por alguém que nunca soube quem foi. Assim que postou, me mandou um inbox, era assim que chamávamos o messenger, com um recado curto e grosso: “Essa você vai gostar”.

A fotografia de Geneton ao lado de um Che Guevara no muro não é apenas um retrato na parede porque não revelamos mais. É apenas um clique na minha pasta de fotografias e como dói.

Acredito que aquele Che está ali ao lado porque seu sonho – e o meu – era terminar o Globo Repórter com Soy Loco por Ti américa, aquela canção que fala do nombre del hombre muerto/ya no se puede decirlo, quién sabe?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DE VOLTA AO PASSADO

Acostumado durante muitos e muitos anos a aridez dos grandes supermercados onde, muitas vezes, a caixa sequer diz bom dia, boa tarde ou boa noite, sequer olha nos seus olhos , cujas palavras que dirige até você são as de praxe – tem cartão fidelidade? nota fiscal paulista? quer sacola? quer carregar o celular? tem noventa centavos? – passei a observar em Florença, os mercadinhos. Como numa cidade do interior, eles sobrevivem com suas frutas e legumes expostos nas calçadas, tudo meio desarrumado , mas com o frescor de outrora. As vendedoras e os vendedores nem sempre são o retrato da simpatia, mas ainda pesam seus pêssegos ou os seus aspargos em velhas balanças e os embrulham em saquinhos de papel pardo. Você entra nos mercadinhos, muitos deles sem nome, fica observando e vai percebendo que eles têm um pouco de tudo.  Até mesmo aqueles figos secos deliciosos vindos de Istambul, conforme revela a caixa de papelão branco onde estão meio escondidos, debaixo dos saquinhos de papel pardo. Florença é uma delícia. E os seus mercadinhos, inesquecíveis.

[foto Alberto Villas]

MINHA ADORÁVEL METEOROLOGISTA

O meu pai era meteorologista e já falei dele aqui. Mas não era simplesmente um meteorologista. Era um apaixonado pelo tempo, um fanático pelas nuvens no céu. Bastava uma despontar, por mais passageira que fosse, ele fazia uma palestra sobre os seus movimentos e a possibilidade de um toró cair sobre nossas cabeças.

No Mercado Central de Belo Horizonte, seu apelido era Manda-Chuva. Domingo de manhã, ele ia passando de barraca em barraca e todos queriam saber a previsão do tempo, se ia esfriar, se ia esquentar, se ia cair água bem na hora do jogo entre o Galo e a Raposa.

Quando os termômetros oscilavam demais, lá estava ele na tela da TV Globo, explicando o que se passava para os telespectadores que o conheciam por Doutor Bouçada, o nome que ele levava depois do Villas.

Mostrava, com o maior prazer, como funcionava cada aparelho da sua Estação Meteorológica. O barômetro, o pluviômetro, o higrômetro e o altímetro. Explicava tudo, como um professor.

Era uma época em que não havia computador para mostrar pra gente aquela nuvem fria se deslocando da Argentina e vindo pra cima do Brasil, como acontece hoje. Hoje, temos tempo de tirar do fundo do baú aquele casaco de lã, quando se anuncia que o frio vem aí.

Era uma época em que o Serviço de Meteorologia errava muito e o meu pai levava pra casa, com bom humor, as piadas que contavam pra ele, ou as chacotas no dia seguinte, chovendo, e ele anunciara sol à pino.

Há mais ou menos uns vinte e tantos anos, eu tenho uma personal meteorologista dentro de casa, a minha mulher que, apesar de não ter uma gota de sangue do meu pai, é definitivamente sua herdeira.

Começou quando nossas filhas foram pra escola pela primeira vez. O princípio de tudo foi o Grão de Chão, depois passou pro Ibeji, seguiu no Colégio Equipe, até chegar a Universidade.

À noite, antes de preparar a roupinha delas irem pra maternal, a Paulinha consultava o tempo. Vai fazer frio, calor, chover, o que aconteceria no dia seguinte? Assim, ela separava a blusinha de frio ou o short, dependendo do tempo que anunciava.

Com o tempo, as meninas sacaram que ela era a nossa manda-chuva e assim que acordavam já queriam saber com precisão, o tempo lá fora.

– Vai fazer frio, mãe?

E ela respondia na lata, porque já sabia na ponta da língua o tempo que faria, inclusive que havia 60% de possiblidade de chuva a partir das 11 da manhã. As meninas passaram a confiar piamente nela e na sua previsão. O acerto era de quase cem por cento, já que nesses novos tempos, não há muito erro.

Hoje, ninguém da família Villas não sai de casa sem antes consultar a Paulinha. Mesmo que a gente não pergunte, ela anuncia:

– Gente, domingo vai esfriar.

– Gente, leva guarda-chuva porque vai chover.

– Gente, leva biquíni pra praia porque pode esquentar.

A Paulinha – acredito eu – é a única pessoa que pede silêncio na sala na hora do Jornal Nacional, quando a Maju Coutinho aparece na tela. Não apenas porque ela é nossa amiga, ela quer saber todos os detalhes e, pelos seus olhinhos, fica feliz de saber até que a temperatura média na cidade de Santa Rita do Sapucaí, amanhã, será de 32 graus.

Além dos dados, ela adora a Maju. Nos dias de conjuntivite da apresentadora do tempo, ela ficava visivelmente contrariada, achando que o tempo com outra apresentadora estava meio sem graça.

Estamos vivendo em Florença e o seu interesse pela meteorologia continua aguçado. Agora, além do tempo em São Paulo, onde vivem as nossas meninas, ela se interessa pela temperatura na região da Toscana. Vai chover? Vai fazer sol? Vai esquentar? Vai esfriar? É só perguntar pra ela.

Mas aqui, tem uma novidade que quero contar pra vocês. Além de se interessar pela previsão do tempo, ela começou a se interessar também pelo nível de água do Rio Arno, que passa aqui perto da nossa casa. Todo dia quando saímos, na ponte, ela faz uma análise detalhada.

Está mais alto!

Baixou quase um metro!

A água está mais turva!

Hoje ele não está tão caudaloso!

Olha que beleza a correnteza, é só chover um pouco que a coisa muda!

Mas essa paixão dela pelo Rio Arno, eu conto em outra hora. Temos tempo.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

VEJO FLORES EM VOCÊ

O que faz bela e charmosa uma cidade? Um conjunto de fatores. Um deles, é o capricho de seus moradores. Temos visto isso aqui, por onde andamos. Cada cidade que chegamos, é visível a preocupação de cada um em deixar a cidade mais e mais bonita. O que mais nos chama a atenção, é a paixão pelas flores. Qualquer cantinho na janela, no degrau que leva à porta principal, na parede lateral, é lugar para colocar um vaso de flores. Andando pelas ruas de Florença, de Arezzo, de Siena, do conjunto de Cinqueterre, vamos observando esse cuidado, esse bom gosto, sem contar o cheirinho bom que muitas delas exalam. Não é questão de riqueza. As flores não custam caro e algumas nascem, como se diz no Brasil, “que nem mato”. Dá gosto ver e é impossível não fotografar. Ah, fiorentino, se todos fossem iguais a você… Veja alguns flagrantes que colhemos.

[fotos Alberto Villas]

 

TURISTAS

Turistas estão por todas as partes ao mesmo tempo agora. Tem gente que se irrita com eles, eu não. Me divirto. Turistas gostam de cartões-postais ao vivo. A Torre Eiffel, a Notre Dame, o Duomo, o Coliseu, o Monte Fuji, o Palácio de Buckingham, a Casa Rosada, o Taj Mahal, o Cristo Redentor. Turistas gostam de souvenir. Compram a miniatura da Torre Eiffel em Paris, um copo com o rosto da Rainha Elizabeth em Londres, um imã de geladeira com o beijo de Klimt em Viena. Comem paelha em Madri, sushi no Tóquio, pizza em Roma, pastéis de Belém no bairro de Belém, em Lisboa, comem  goulasch em Praga, estrogonofe em Moscou, feijoada com caipirinha no Brasil. Turista que é turista não perde o show de cancan no Lido, uma noite de tango no Tango, uma noitada de samba na Mangueira. Adoro os turistas. Eles às vezes ficam perdidos nas ruas, antigamente com um enorme mapa de papel, olhando pra lá e para cá, tentando achar o nome da rua em que estão nas esquinas da vida. Agora, movimentam seus smartphones tentando localizar se a indicação do Google Maps está apontando pro Norte, pro  sul, pro           Leste ou pro Oeste. Antigamente andavam com câmeras no pescoço, hoje simplificaram, só tiram fotos com celular. Turista gosta de entrar na H&M, na Uniqlo, no El Corte Inglês, na Harrods, na GAP, na KaDeWe, nas Galerias Lafayette e Preciados. Turista consulta o menu na porta dos restaurantes e sempre acha tudo muito caro. Escolhem, escolhem, escolhem e muitas vezes acabam no steak com fritas. Turista está sempre atento para não perder de vista a bandeirinha do guia no meio da multidão, para não perder aquele click da janela do avião, o horário do café da manhã no hotel. Agora turista que é turista – e eu adoro – é aquele que chega em Pisa e vai logo fazer aquela foto, tentando o ângulo perfeito para parecer que está segurando a torre torta.

[fotos Alberto Villas]

CINCO HISTORINHAS

No início dos anos 1970, comecei a me apaixonar pelos gênios da pintura – Renoir, Monet, Cèsane, Sisley, Klimt, Goya e tantos outros – quando vi nas bancas de jornais da minha Belo Horizonte, o primeiro fascículo de uma coleção que levava exatamente o nome de Gênios da Pintura. Não tinha dinheiro para comprar aquela coleção luxuosa lançada pela Abril Cultural – NCr$2,50 por semana – mas acompanhei os mestres até o último número, o 96, folheando na banca de Seu Benito. Só vim a comprar a coleção completa muitos anos depois, num sebo, uma coleção praticamente nova. Cinquenta anos depois, andando pelas ruas de Lucca, embriagado com uma feira de antiguidades, trombei com vários números dos Gênios da Pintura, edição original da Fratelli Fabri. Me encantei com eles, como se tivesse folheando aquele primeiro número com o Van Gogh na capa, lá no bairro da Savassi, na minha Belo Horizonte, que hoje é apenas História.

Por todas as cidades onde andamos aqui na Itália, eles estão lá, nas ruas, cheio de penduricalhos, oferecendo seus produtos a cada pessoa que passa. São os africanos, que deixaram o continente, sabe Deus como, em busca de dias melhores por aqui. Vendem de tudo: Pau de selfie, capinhas para celulares, guarda-chuva quando está chovendo, carregadores de celulares, tomadas, pulserinhas, enfim, tudo que conseguem carregar no corpo. Inclusive um mico colorido, que quando a gente aperta a barriga, acende os olhos vermelhos e parece chorar. De dor.

Quando Caetano Veloso lançou o seu primeiro disco, aquele com a capa psicodélica, em 1968, fiquei espantado dele ter gravado, em meio a canções tropicalistas e ainda bossa-novistas, uma música em latim – Ave Maria – cuja letra não era dele e sim a de um cântico religioso. Nesse fim de semana, admirando uma Igreja na cidade de Lucca, dei de cara com o tal cântico, tal e qual Caetano cantava, com uma voz melancólica, naquele seu primeiro disco solo, tão revolucionário e tropicalista. Cantei baixinho e segui o meu caminho.

A street art está espalhada pelas paredes de todas as cidades italianas. Por onde vamos, encontramos grafites maravilhosos e muitas vezes misteriosos, enigmáticos. Mas, além dessa arte de rua que tomou conta das grandes e pequenas cidades no mundo, encontramos também uma forte marca da política. A foice e o martelo, por exemplo, símbolo do comunismo, resiste bravamente em muitos muros espalhados por ai. Seja em Florença, Pisa, Siena, Lucca ou Bolonha.

Durante a minha vida de jovem, havia sempre um cachorro em casa. Lembro-me bem até hoje o nome de cada um deles: Joli, Tupi, Pink e Fly. Hoje não tenho um, a vida não me permite, mas continuo gostando muito de cachorro, observando suas atitudes, sua inteligência, andando pelas ruas. Sempre que posso, fotografo um, como esse, que jogou o corpo no chão frio da estação central de Lucca, para refrescar do calor da cidade. Só se levantou quando o seu dono foi caminhando em direção ao trem.

[fotos Alberto Villas]

A HORA DO CLICK

Gosto de fotografar, não é de hoje. Comecei a fotografar ainda jovem, cabeludo, os flagrantes da vida. Por exemplo, uma viagem na caçamba de um caminhão, de carona rumo ao carnaval de Salvador. Fotos ainda com filme Kodak em preto e branco que, infelizmente se perderam com o tempo. Hoje temos o blog, o face, fotos automáticas que não precisam passar cinco dias úteis numa loja de revelação. Minhas filhas e meu filho vivem dizendo que posto muito, sim posto muito. Gosto de mostrar pequenos detalhes importantes de todos nós. Até mesmo as curiosas beringelas de Bangladesh no Mercado Centrale de Firenze já mostrei pra vocês. Mas o que chega até a casa de cada um é, muitas vezes, um trabalho de observação e sorte. Tem mais de um mês e meio que estou em Florença tentando fotografar – e direito – os ônibus escolares da cidade, que passam com seus alunos em algazarra, dando tchao pra gente. E não consigo. São lindos, amarelos, antigos, que me fazem lembrar aqueles velhos ônibus americanos que às vezes ainda aparecem na Sessão da Tarde. Nunca peguei um parado para que pudesse me concentrar e fazer a foto que gosto de fazer. Quando vejo, ele já passou. Fico, então, devendo essa foto. Acho que até o fim de nossa estadia por aqui, eu consigo. Deixo hoje apenas um dos flagrantes que não consegui fazer. O ônibus passando e eu ali, meio perdido na calçada, decepcionado, em busca do click perfeito.

[foto Alberto Villas]

DONA LUIZA

Nunca soube muita coisa sobre a minha avó paterna. Sabia que era uma italiana bonita, dessas de parar o trânsito de Verona, onde nasceu. Nunca tinha visto uma foto dela e a imaginava branquinha, com os cabelos claros e ondulados e os olhos verdes como os dos netos. Minha avó só existia no meu imaginário de menino.

Um dia fui a Verona, já fazem alguns anos. Fui pra conhecer a cidade da minha vó, Dona Luiza. Não procurei muito, mas também não encontrei nenhum vestígio da família. Na verdade, vi uma loja de bricolagem, a Bouzada miudezas. Era domingo e a lojinha estava fechada. Bouçada era o sobrenome do meu avô José e eu fiquei encucado se ele não teria trocado o nome ao chegar no Brasil, no início do século passado, de Bouzada para Bouçada.

Sabia que minha avó tinha morrido muito jovem – meu pai era criança – de uma doença que não havia remédio em toda a medicina. Certamente um câncer, desses fulminantes

O meu pai lembrava todo ano, religiosamente, o dia em que ela nasceu e o dia em que ela morreu. Logo cedo, na hora do café, ele pegava sua caderneta de capa dura, preta, e dizia pra toda a família:

– Mamãe hoje estaria fazendo 122 anos!

No dia de sua morte, ele fazia questão, com um semblante triste, de anunciar para todos nós:

– Rezem pela sua avó Luiza! Hoje está fazendo 50 anos que ela nos deixou.

Fiz questão de curtir todos os cantos de Verona naquela primavera em que lá estive. Fomos na Arena, na Casa de Julieta, na Torre dei Lamberti, na Basílica de Santa Anastácia e na Ponte Pietra. Fomos também no Castelvecchio, na Piazza Erbe, na charmosa rua Mazzini, na Piazza dei Signori e, claro, no Duomo.

Parava, fotografava e ficava imaginando Dona Luiza andando por aquelas ruas, aquelas ruelas, com um vestido rodado, anágua engomada, corpete apertado, seios fartos e sorriso largo. Ela devia ser assim, muito vistosa e muito respeitada pelos moradores de Verona. Era a mulher do velho Bouçada, muitos anos mais velho que ela. Dona Luiza, e seus seis filhos.

Aquele passeio por Verona foi como um filme antigo, em preto e branco, onde os homens andam correndo, todos de chapéu e guarda-chuva nas mãos, e as mulheres atrás, com seus vestidos rodados e suas anáguas engomadas.

Olhava, olhava e imaginava minha avó entrando num mercadinho e comprando enormes alcachofras, tomates vermelhos e saborosos, pêssegos carnudos, uvas moscatel, figos vistosos e frutas secas, tâmaras principalmente. Deve ter sido herança dela o gosto do meu pai por essas guloseimas.

Estou morando a cento e poucos quilômetros da cidade onde minha avó nasceu e passou um tempo da sua vida. Fico imaginando se naquela época já havia, em Verona, esses sorvetes maravilhosos que têm por aqui em Florença. Sorvetes de pistache, de coco, de limão, de leite com caramelo.

Fico imaginando se já havia o melhor spresso do mundo, curto e tão saboroso. Fico imaginando se no seu tempo já havia a pizza quadrada, os canoles, o Aperol, a San Pelegrino de l’aranciata amara ou se ela fazia laranjada com as próprias mãos, com a fruta colhida do pé que havia na sua casa.

Foi ontem à noite que minha irmã mais velha, longe daqui onze mil quilômetros, mandou pelo WhatsApp, a única foto que existe de Dona Luiza. A foto foi tirada de um pingente de prata e está meio apagada pelo tempo, um tempo que não volta mais mas que tento recuperar numa simples crônica.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

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VIZINHOS

Na minha infância, morei numa pacata rua do bairro do Carmo, em Belo Horizonte. A indústria automobilística engatinhava e os poucos carros – todos pretos – que passavam na Rio Verde, nos permitia até mesmo jogar bola, brincar de bolinha de gude, finca e bente altas, sem risco de atropelamento. Haviam apenas casas e família naquela rua e, até hoje, sei o nome e sobrenome de cada morador daqueles anos 1950, 1960. Nilo Otávio Lage Botelho, Luiz Martins, Rui Demétrio Amorim, Paulo Gouvêa e Asplênio Alvares da Silveira, por exemplo. Hoje, moro na pacata Via San Niccolò, em Florença. Quase tão pacata quanto aquela rua onde passei minha infância, em Minas Gerais. Conheço pouco meus vizinhos. Eles passam por mim nas enormes escadas desse antigo convento construído nos anos 1300 e hoje transformado num Palazzo (não é chique o nome?) e dizem buongiorno, sempre. Da janela, vejo uma jovem toda de branco fazendo selfies no jardim, um casal tomando uma taça de vino rosso numa mesinha branca de ferro. Da minha janela, um casal passa todo final de tarde na varanda conversando. Às vezes ele lê o seu e-book e ela, um livro de papel. Da janela, vejo um avô chegando com sua netinha e fazendo todos os desejos dela, inclusive jogar pra lá e pra cá um pesado ferro que tem em quase todas as portas dos edifícios em Florença. Ela faz um barulho danado e ele não se importa, se diverte. São os mesmo avós que moram hoje nessa cidade toscana e que moravam, nos anos 1950, 1960 na Rio Verde, e que permitiam a pelada no meio da rua, que nem tinha trave, eram dois tijolos, roubados de uma obra no bairro do Carmo, de uma vida em construção.

[fotos Alberto Villas]

AS TORNEIRAS

Sou uma pessoa caminhando para os setenta anos, que se adaptou razoavelmente bem aos tempos modernos. Já não tomo mais Cremogema, já não chupo mais drops Dulcora, já não escovo mais os dentes com Kollynos, sequer uso o terno da Ducal.

Não coleciono flâmulas, não ando de Gordini, não assisto O Vigilante Rodoviário, nem fico mais procurando o botão de horizontal na TV Colorado RQ.

Aos poucos, fui trocando os meus vinis por cds, o meu telefone fixo por um celular Gradiente, instalei um fax em casa e adorava aqueles laserdisc.

Mas tudo ia mudando tão rapidamente que, de repente, quando vi, já tinha mais de vinte senhas, dez mil fotos no iPhone, trinta canais de TV no aparelho Sony e estava ouvindo Caetano no Spotify.

Quando percebi que o mundo não tinha mais volta, mergulhei de cabeça nos aplicativos, passei a comprar e-books pela Internet, abandonei a agenda de papel e passei a pedir táxi pelo 99.

Quando abri os olhos, já não ia mais ao armazém comprar fiado, nem mesmo na agência da Varig pra comprar uma passagem de avião. De repente, parei de imprimir os e-mails e passei a comprar entrada pro cinema no Ingresso Rápido.

Mas hoje estou aqui para fazer uma queixa formal aos fabricantes de torneiras modernas. Tem uns cinco anos que elas vêm me perseguindo. Já entro num banheiro público, meio em pânico porque sei que vou encontrar algo bizarro por ali, no lugar da torneira.

Naquele ambiente, localizo a pia e fico procurando a torneira, cada vez menos com cara de torneira. Não sei se sou apenas eu, mas se aperto, não funciona, se puxo não funciona, se torço, também não funciona. Aí espicho os olhos pro vizinho e ele já está sempre com a torneira aberta, colocando sabão líquido vindo de uma maquininha e que eu já tinha apertado, na tentativa de sair água.

O vizinho vira as costas e, como num toque de mágica, a água simplesmente para de sair. Imagino que alguma célula que tem por ali, não sei onde, faz a água parar assim que ele se distancia.

Tenho encontrado as torneiras mais esquisitas do mundo por ai. Redondas, que giram 360 graus, que vão pro lado, que possuem umas mangueiras, que se deslocam, mas, para mim, o problema maior é que elas não saem água.

Outro dia, na tentativa de pelo menos dar uma molhadinha na mão, corri para aproveitar a água do vizinho, que saiu apressado do banheiro do aeroporto. Foi só colocar a mão debaixo da torneira, ela parou de sair água.

Na semana passada, pela primeira vez entrei num banheiro público, onde todos estavam tranquilamente lavando suas mãos numa pia onde não se via a torneira. Era uma espécie de cachoeira que ia caindo água, mas foi só eu chegar perto, ela secou.

Mas o pior de tudo aconteceu essa semana, em Paris, onde estou passando uns dias. Alugamos um apartamento pelo Airbnb no 19ème arrondissement, mas quando fui tomar banho, que susto!

Ao invés de uma torneira, encontrei um tubo. Sim, um tubo que gira pra esquerda, pra direita, pra cima e pra baixo, como se fosse uma mola. Na minha primeira tentativa de virar aquela geringonça, uma tempestade saiu do chuveirinho, que estava voltado para o teto, provocando uma inundação naquele banheiro tão bonitinho.

Virei pro outro lado e um jato de água gelada veio na minha cara e quando virei pro outro, ela ferveu. Resumindo, passei uns bons quinze minutos ali tentando fazer sair água temperada do chuveiro e apenas tomar um banho. Foi um banho rapidinho – quente-frio-morno, molhado e seco – inesquecível.

Enxugando o corpo, eu ficava só perguntando pros botões do meu pijama, ali em cima de um banquinho branco. Por que cargas d’água, alguém foi inventar um monstrengo como esse? Fui dormir, torcendo pra sonhar com duas torneiras simples, uma com uma rosquinha de plástico vermelha, a da água quente, e outra com uma rosquinha de plástico azul, a da água fria. O mundo com essas duas torneiras era tão mais fácil.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

PASSANDO EM REVISTA

A maior surpresa ao voltar pra casa, em Florença, foi, ainda na banca de jornais da Stazione Centrale de Bolonha, à espera do trem, comprar a nova revista Linus. Digo nova porque ela mudou toda. Voltou a ser uma revista grande, com mais de 120 páginas, papel de primeira, lombada quadrada e, além das páginas em preto e branco, cor. Digo mudou porque a Linus é uma revista que existe há mais de cinquenta anos e foi, durante muitos anos, a minha Bíblia dos quadrinhos, de fumetti, como se diz por aqui. Quando morava em Paris e lavava pratos em Belleville, nos anos 1970, guardava moedas de francos para, no fim do mês, comprar a Linus numa banca que a vendia, no Boulevard Saint Michel, entrada do Quartier Latin. Guardei muitos números que foram embora com o tempo, junto com o meu primeiro casamento. Ontem trouxe para casa a nova Linus dentro da mochila, tomando todo cuidado para não amassar. Fiquei até altas horas, saboreando cada página, cada história em quadrinho, cada texto, que são muitos: O polêmico abecedário do escritor Michel Houellebecq, a ficção científica de Sergio Brancato e o mundo de Feininger, por exemplo. Isso, sem contar as histórias em quadrinhos de Art Spielgelman (que fez a capa), Gabrielle Bell, Vaugh Bodé e Tommi Misturi. Isso sem contar as críticas de livros, de discos e de séries na TV. E, claro, as primeiras histórias de Charles M. Schulz, em preto e branco, deliciosas nostalgias. Numa entrevista ao jornal La Repubblica, os novos editores da Linus, perguntado se os novos tempos não são digitais, disseram que não existe nada melhor que folhear uma revista de papel.

 

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Paris vive um maio de 2018 sereno, em comparação com aquele de cinquenta anos atrás. Sim, temos perturbações no metrô, nas linhas de ônibus, nas estações de ferro, nos aeroportos. Mas são greves naturais que fazem parte de uma democracia. No Quartier Latin, palco outrora de guerra, reina a paz. As ruas estão impecavelmente asfaltadas e, nas ruas de pedra, não há nenhuma fora do lugar. Mas, no ar da cidade, há um cheiro forte de História. Maio de 68 foi uma revolução que mudou os costumes, visíveis hoje em todos os cantos. As conquistas pela frente ainda são inúmeras, mas o que ficou, ficou. O clima de História está nas livrarias, nas bancas de jornais e nas exposições pela cidade. Nas livrarias, dezenas e dezenas de livros contam como foi aquele momento que vivemos e que está fazendo cinquenta anos. Livros e mais livros são expostos em prateleiras especiais, nas vitrines e dá gosto ver, na fila para pagar, as pessoas levando esse capítulo tão importante pra casa. Livros sobre o legado, sobre as mulheres de 68, os ícones, os cartazes, as fotografias, os estudantes, a época em que vivemos, uma época em que o homem nem tinha ido à lua ainda. Nas bancas de jornais, são raras as publicações que não saíram com números especiais sobre Maio de 68. Nos buquinistas à beira do Sena, ainda sobraram alguns números,  daquela época, das revistas Paris Match, L’Express, Le Nouvel Observateur e tantas outras, pela bagatela de 50 euros o exemplar, cerca de 240 reais. 1968, se todos fossem iguais a você, seria tão fácil viver…

Livraria Fnac, Forum des Halles

[foto Alberto Villas]

MAIO 2108

Cinquenta anos depois, subi o Boulevard Saint Michel para ver de perto, a minha Sorbonne. Aquela que, em 1968, num mês de maio, foi palco de uma das maiores revoluções de que se tem notícia. Chegando na esquina da praça, uma surpresa. A livraria Presses Universitaires, onde comprava os livrinhos da série Que Sais-je? virou uma loja de roupas. Eu já sabia disso, apenas constatei e tive uma surpresa novamente. Virei, olhei de frente para o prédio e vi, de costas, um homem sentado, como se fosse o pensador, de Rodin. De costas, a visão era essa. Era um dia bonito de domingo e a praça estava vazia de estudantes. Apenas algumas pessoas sentadas nas mesinhas dos cafés, na calçada, tomavam suas Kronnebourgs, suas Pelforts, ou simplesmente uma água Perrier borbulhante, com uma fatia de limão siciliano dentro, fazendo uma pequena revolução dentro do copo. Nas paredes, onde outrora as pichações diziam que era proibido proibir ou que a luta continuaria, nenhum escrito. Paredes limpas limpas. O homem continuava lá e eu me perguntava que reflexões estaria ele fazendo, sentado ali, virado de frente pra universidade que, cinquenta anos atrás, espalhou suas ideias socialistas e sacudiu o mundo. Fui caminhando lentamente, fotografei porque não poderia deixar de fotografar aquele homem de branco, o pensador dos tempos modernos, sentado ali. Caminhei, caminhei e finalmente pude vê-lo de frente e de perto. Ele estava, na verdade,  enviando uma mensagem pelo seu smartphone.

[foto Alberto Villas]

OS MORANGOS DA TOSCANA

De tempos em tempos eu ouço o Karnak cantando que o mundo é pequeno pra caramba/tem alemão, italiano e italiana/o mundo é filé milanesa/tem coreano, japonês e japonesa/o mundo é uma salada russa/tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia/o mundo é uma esfiha de carne/tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire.

Júlio Verne já deu a volta ao mundo em oitenta dias, Caetano disse que o mundo não é chato, Jostein Gaarder revelou o mundo de Sofia, Sérgio Augusto contou que este mundo é um pandeiro e, eu mesmo, já revelei que o mundo acabou. Sem contar Drummond, que cantou em versos um mundo, vasto mundo, se eu não me chamasse Raimundo.

Gosto da música do Karnak porque ela é verdadeira. O mundo é mesmo uma salada russa. Andando por aqui, vejo gente dos quatro cantos desse mundo, se é que ele tem canto.

Gente que come pizza andando na rua, gente que enfeita a bicicleta com flores, gente que corre pela cidade no escuro da madrugada, gente que coloca um tripé na ponte Américo Vespúcio para fotografar o por do sol na Ponte Vecchio.

Gente que usa chapéu, gente que anda de sombrinha no sol, gente que descansa depois de subir dúzias de degraus para chegar na Piazza Michelangelo, gente que toma sorvete mesmo chuva e oito graus.

Gente que fala francês, que fala russo, polonês, húngaro, alemão, japonês, espanhol, grego, holandês, chinês, árabe, hebraico e português.

Gente que usa tênis, tamanco, sapato de couro alemão, salto alto e sandálias havaianas.

Gente que bebe spritz, mojito, sol levante, cerveja Moretti, Fanta sabor sambuco, San Pelegrino de arancia e figo d’India, gente que toma o melhor espresso do mundo.

Gente que anda de motocicleta, de bicicleta, de Smart, de Fiat Panda, de patins, de patinete.

Tem gente de todo jeito nesse mundo. Gente que fuma, gente que não fuma, gente que come carne, gente que não come carne, gente que bebe, gente que não bebe, gente que olha pra gente e gente que não olha pra gente.

Esse mundo tem gente que lê La Repubblica, que lê Il Corriere della Sera, que lê Il Manifesto, que lë Il Foglio, que lê Il Corriere dello Sport, o 24 ore, gente que não lê nada.

Tem gente que almoça em casa, nos restaurantes, nas tratorias, no trabalho, nos parques, nos bistrôs e nos camelôs.

Tem gente que passa horas nas filas dos museus, nas filas das sorveterias, nas filas das liquidações. Tem gente que não entra nunca em fila.

Tem gente que joga bituca de cigarro no chão, outras não. Tem gente que agradece o motorista do ônibus, outras não. Tem gente que pergunta de onde você veio, outras não. Tem gente que sorri pra você, outras não.

Tem criança que chora, criança que grita, que brinca, que lambe o sorvete, que cai no chão, que sai correndo dos pais, que dá uma bocada no pão.

O mundo não é chato, é um pandeiro e acho que ainda não acabou. Quanto mais a gente viaja, mais a gente vê gente diferente. Africano usando roupas coloridas, alemão de sandália e meia, japonesas de chapéu, iranianas cobertas por burcas, indianos de turbante, americanos de camisas floridas, peruanos de poncho.

Tem gente loira, negra, amarela, branca, parda, marrom e vermelha.

Esta crônica vai terminar com um desfecho talvez meio inesperado. Contei todas essas histórias aí acima só pra revelar que aqui em Florença tem gente honesta que coloca, na caixinha, todos os morangos do mesmo tamanho, enormes, crocantes e saborosos. Você nunca vai comprar uma caixinha de morangos aqui na Toscana em que os grandes estão apenas por cima. Nós não deveríamos aceitar esse jeitinho verde e amarelo de colocar morangos enormes e vermelhos por cima e, por baixo, os verdes, os raquíticos e os feinhos

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
carta capital.com.br
[foto Alberto Villas]
 

NÃO TRAGO NOTÍCIAS

Na década de 1970, quando morava em Paris, as notícias chegavam dentro de envelopes verde e amarelos. Recortes de jornais, de revistas, pacotes de tabloides da imprensa alternativa. Não havia Internet, WhatsApp, Sky, fax, só havia as cartas e os telegramas, caríssimos. Os jornais franceses traziam, de tempos em tempos, notícias ruins ou de resistência à ditadura, geralmente censuradas no Brasil. A coleção de recortes que juntei com o tempo para defender minha tese sobre Os Anos de Censura no Brasil, comprovam isso. Censuravam a palavra vermelho do livro O Vermelho e o Negro, de Stendhal, como censuravam palavras como “ditadura”, “guerrilha” e “greve”. Tantos anos depois, estou passando uma temporada em Florença, outros tempos. Não sou mais estudante preparando tese e nem tesoura tenho aqui para recortar jornais. De manhã, dou uma lida na Folha de S.Paulo online, vejo o que de mais interessante tem nos sites de notícias, passo os olhos no Facebook, no Twitter, na Mídia Ninja, no Nexo, no 247, no Diário do Centro do Mundo, no Jornalistas Livres e, quando consigo conectar, ouço o Programa Contraponto, da Rádio Trianon. Com isso, o incêndio e o desabamento do prédio em São Paulo, parece que foi aqui na esquina onde eu moro, no bairro de San Nicolò. O que mais me impressiona nesses tempos de Florença é a falta de notícias do Brasil, um país que perdeu a importância e caiu no esquecimento. Nosso país perdeu completamente a importância e a graça, nem sei mais se ainda o chamam de “país do futuro”. Nas últimas semanas, vi apenas reportagem sobre Caetano Veloso e Geraldo Vandré, num jornal especial sobre os cinquenta anos de Maio de 68. E uma notícia, uma pequena nota no jornal La Repubblica, falando  da morte de Dona Ivone Lara, a “rainha do samba”, aquela que cantava magistralmente: “Sonho meu/Sonho meu/Vá buscar a quem mora longe/Sonho meu”.

“Acordes dissonantes pelos cinco mil alto falantes”

Caetano Veloso, em “Tropicália”

[foto Alberto Villas]