ÀS MOSCAS

As moscas marcaram uma presença forte e constante durante toda a minha infância e juventude. Tinha mosca pra tudo quanto é lado. Não que eu vivesse num lixão ou coisa parecida. Elas estavam é dentro da minha casa.

Lembro-me bem da minha mãe espantando moscas na cozinha na hora de abrir a lata do Leite Moça pra fazer pudim. Elas entravam pelo basculante, ficavam sobrevoando a fruteira, o açucareiro, pousavam no teto, se equilibravam na boca da jarra de laranjada, sem o menor constrangimento.

Na hora do almoço, lá estavam elas sobrevoando a mesa, tentando pousar em algum lugar. Meu pai vinha com uma régua de madeira, assassinando uma a uma, em golpes certeiros. Mas algumas conseguiam se safar e voltavam minutos depois.

As moscas fizeram parte da minha vida durante muitos e muitos anos. Quem não se lembra da expressão comeu mosca? Era aquele cara desatento que perdeu o fio da meada, pegou o bonde andando.

E tinha mais.

Mosca morta era aquela figura meio lesa, meio devagar, sem sal.

Acertou na mosca era quando a professora perguntava a capital da Noruega e a gente respondia na lata: Oslo!

Quem não se lembra da expressão em boca fechada não entra mosca?

E nos jogos do meu América Mineiro, que os locutores viviam dizendo que o campo estava praticamente às moscas?E o cara que bobeou, que deu uma moscada?

Quem não se lembra daquelas lâmpadas azuis nos lustres, pra espantar as moscas dos pães doces nas padarias?

Millôr Fernandes, um dia, escreveu que “pior não é morrer. É não poder espantar as moscas”.

Ela já foi capa do jornal Opinião no auge da repressão, já foi capa daquele primeiro disco experimental de Walter Franco, já virou até filme. Quem não viu A Mosca, de David Cronemberg? Ela já foi musa de Raul Seixas quando pousou na sua sopa e até atriz principal do filme Fly, da Yoko Ono.

Não sei se o Globo Repórter já fez um programa sobre ela, explicando quem são, de onde vieram, onde vivem, de que se alimentam, mas a verdade é que elas estão desaparecendo. Pelo menos aqui em São Paulo, no meu bairro, na minha casa, está cada vez mais difícil ver uma mosca.

A última aparição dela, em grande estilo, foi no dia 2 de maio do ano passado, na primeira página da Folha de S.Paulo, mais precisamente no rosto da então presidente Dilma Rousseff. Mas, no dia seguinte, veio o Erramos: “A legenda da sequência de fotos com Dilma Rousseff afirma que a presidente estaria sendo perturbada por uma mosca. Não é possível afirmar com precisão, entretanto, se o inseto é, de fato, uma mosca”. Ficou a dúvida no ar.

Não que eu sinta falta delas, na verdade, mosca enche o saco, mas hoje acordei intrigado com essa história de as moscas estarem sumindo do mapa.

O mais impressionante dessa história toda é que quando eu terminei esse texto e fui regar minha pequena horta na varanda do meu apartamento, lá estava uma, paradona, esperando pra ser fotografada, acho que pra ilustrar essa crônica e contrariar minha tese.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NÓS

Durante mais de uma década, os meus fins de semana foram na chamada Cidade Maravilhosa. Lembro-me bem daqueles domingos de sol, logo cedo, eu saindo do Hotel Ipanema Plaza e nadando contra a maré humana a caminho da praia. Vestindo jeans, camiseta e calçando sapato e meia, eu caminhava para o Jardim Botânico porque o show da vida me esperava.

Passava o dia na redação do Fantástico e, da janela, de vez em quando, espiava a vida lá fora. Jovens passavam voando em seus skates, casais passeavam com os seus bebês nos carrinhos e mocinhas desfilavam de bicicleta. Muitos esperavam o ônibus perto da Pacheco Leão, a caminho das areias de Copacabana, Ipanema e Leblon.

Era na esquina da Pacheco Leão que estava a Padaria Século XX. O movimento ali – da janela dava pra ver – era contínuo. E eu, pra descansar a cabeça e forrar o estômago, descia por volta do meio-dia. Pedia sempre o mesmo, um pão com pernil com gotinhas de limão e uma Fanta Laranja. O português já sabia o meu gosto e quando eu sentava naquele banco surrado, ele já soltava um “o de sempre?” Sim, o de sempre!

Era na Século XX que eu encontrava, quase todos os domingos, Luiz Melodia. O Negro Gato morava ali na esquina mesmo e sua presença na padaria, domingo cedo, era sagrada.

Melodia era apenas um carioca com um copo de Brahma Chopp na mão, ali de pé, domingo de sol, na porta da Século XX. Calçava chinelos Ryder, uma bermuda florida e uma camisa aberta no peito.

Custei a chegar perto dele. Mas um dia cheguei. Aos poucos, fui confessando minha paixão por sua música, desde Pérola NegraEstácio, Holly Estácio e Ébano. Contei que havia transformado quase todos os seus vinis em modernos CDs, mas que não me conformava porque ainda não haviam relançado o Nós, que gostava tanto.

Contei a história da música Ébano, que chegou na minha casa, em Paris, numa Fita K-7, e também a história de Maravilhas Contemporâneas e Mico de Circo, que vieram em vinis embalados em placas de isopor. Ele achou graça.

Melodia confessou que havia perdido um pouco o controle sobre seus discos, e que foram tantas as compilações que o Nós acabou esquecido.

– Talvez o disco já tenha saído todo, uma faixa aqui, outra ali.

Sabia que Melodia gostava mesmo era de uma Black Princess, mas como ali na Século XX não tinha Black Princess, ia de Brahma Chopp mesmo, enquanto eu, ia de Fanta Laranja, fazendo tintim.

Num desses domingos, levei pra ele ver o Nós que, eu mesmo, caprichosamente havia transformado de vinil pra CD.

Ele olhou, olhou, virou pra ver a contracapa xerocada e me devolveu com apenas duas palavras

– Muito bacana!

Revelei a ele que Nós era o disco que mais ouvia em casa. Aquela primeira música, ele cantando Ilha de Cuba, de Papa Kid, para mim, era o máximo.

Ao som da maraca

Do tambor do bambu

Eu vou pra ilha de Cuba

Eu vou pra ilha de Cuba 

Gostava também de Surra de ChicoteHoje e Amanhã não saio de casaMistério da RaçaFeras que Virão. Sem contar a regravação de Negro Gato, de Getúlio Cortês, sucesso na voz do Rei.

Melodia parecia olhar sempre para o além, tentando lembrar as músicas que eu ia falando, como se elas estivessem perdidas no ar.

Nosso papo, durante anos foi esse, curto e grosso. Nós acabou sendo relançado em formato CD em 2012, quando eu já estava partindo pra carreira solo e já não via mais Melodia aos domingos. O CD veio com o capricho da gravadora Discobertas, encarte e as letras das canções, inclusive Passarinho Viu.

Eram milhões de passarinhos

Era um dia encantador

Há quem salve o meu corpo n’água

Há quem salve o salvador

O passarinho meu vizinho

Onde é que eu vou cantar

Nesta cidade que me encontro, help

De help mesmo não tem nada

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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OS ROBÔS

As primeiras imagens chegaram em radiofotos publicadas no jornal O Globo. O meu pai assinava, lia de cabo a rabo, e quando aparecia uma novidade assim vinha nos mostrar.

– Esse é o mundo em que vocês vão viver.

Lembro-me bem quando ele mostrou a radiofoto dos primeiros robôs que estavam sendo instalados na fábrica da Volvo, na Suécia. Eram monstrengos cheio de braços e aquela imagem mostrava, em primeiro plano, um deles pintando a porta de um Volvo.

– Não tem férias, não tem hora extra, não tem pedido de aumento, não tem indenização, não tem reclamação e ainda por cima, robô não fica grávido!

Esses eram os argumentos do meu pai, fazendo uma previsão do que vinha pela frente, no que iria se transformar esse nosso mundo.

Ficávamos um pouco com medo dessas máquinas, mas achávamos que tínhamos muito chão ainda pela frente antes que eles invadissem nossas vidas.

Na televisão, víamos Os Jetsons. Minha mãe, vassoura na mão e espanador debaixo do braço passava pela sala e parava diante daquela Colorado RQ para admirar a Rosie, a empregada robô que circulava pela casa dos Jetsons espanando, varrendo, lavando e passando.

– Quero uma dessas!

Nós ficávamos ali admirados, imaginando nossa vida quando chegasse o ano 2000. Uma das coisas que eu mais gostava era aquele botãozinho que o Elroy Jetson apertava e saia um sanduíche prontinho, quase um Big Mac.

Voar como eles também era nosso desejo, circular de um lado da cidade para outro em naves velozes era um sonho. Evitaríamos os engarrafamentos de Studbakers que já começavam a aparecer naquela Belo Horizonte de início dos anos 1960.

Quando chegaram às lojas de brinquedos os primeiros robôs da Estrela, pedimos um de Natal e ganhamos, aquele que acendia luzinhas vermelhas, andava pra frente e pra trás, mexia os braços, a cabeça e falava uma língua que nos terráqueos não entendíamos.

O mundo em que nascemos era muito diferente do mundo em que vivemos hoje. Usávamos calça curta, escrevíamos com lápis Johann Faber número 2, o telefone era fixo e ficava na sala das nossas casas. Os canais de televisão iam do canal 2 ao 13, o farmacêutico conhecia todos os moradores do bairro, o pão era de meio quilo, a geleia era de mocotó e todos os dias os irmãos Marista carimbavam nas nossas cadernetas ausente ou presente.

Robôs só existiam lá na Suécia, pitando e apertando parafusos de Volvos. Por aqui, só nas vitrines das lojas de brinquedo, piscando e andando pra frente e pra trás.

O mundo dos Jetsons nunca chegou. Aquela vida da Rosie andando pela casa, colocando tudo em ordem, nunca existiu. Mas eu tenho uma queixa a fazer.

Tem mais de uma hora que estou tentando falar com alguém, com algum ser humano, pra vir consertar o nosso fogão aqui em casa. Uma voz metálica insiste em informar

Se deseja falar com o setor de atendimento ao consumidor, disque 1

Para peças e acessórios, disque 2

Se o assunto é entrega de mercadoria, disque 3

Se deseja fazer uma reclamação, disque 4

Se deseja agendar a visita de um técnico, disque 5

Não sonho mais com uma vida de Jetsons, mas sonho em ligar para um lugar, e um humano me atender.

– Alô, quem fala?

– É do armazém do seu José?

– Eu quero uma lata de biscoitos Aymoré!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PATO

Criávamos galinhas legorne, porquinhos-da-índia, periquitos, pintassilgos, coelhos e um cachorro Tupi. Mas nunca criamos patos.

Primeiro, porque aquele quintal era pequeno demais pra tanto bicho e meu pai teimava que pato não sobrevivia sem água pra nadar.

Minha mãe desconfiava era dos ovos de pata, vendidos por ciganas que passavam por nossa rua, em pequenas cestas de vive. Os ovos de pata eram diferentes dos ovos das nossas legornes, meio esverdeados e estavam sempre sujos de terra.

– Estão todos chocos!

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Ele voltou! Fiesp exibe pato amarelo após aumento de impostos

A vida sem crachá
O mar 

Minha mãe afirmava com conhecimento de causa. Um dia, ela comprou uma dúzia de ovos dessas ciganas e, dos doze, onze estavam chocos. Pra nunca mais.

Ela nunca nos ofereceu ovos de pata porque dizia que eram muito pesados pro estômago de uma criança. Mas a gente gostava de pato. De ver, de correr atrás deles.

Nas férias, convivíamos com os patos na Fazenda do Sertão. Eram muitos e nos deixava implicados porque aqueles patos que viviam ali não voavam. E quando trepavam, ficavam horas naquele lenga lenga. Não eram como o galo e a galinha, que davam uma rapidinha e pronto.

Meninos ainda, gostávamos de ouvir João Gilberto rodando na vitrola. Aquilo nos encantava.

O pato vinha cantando alegremente, quém, quém
Quando um marreco sorridente pediu
Pra entrar também no samba, no samba, no samba

A família do pato era grande e soubemos disso quando fomos pela primeira vez no Parque das Águas, em São Lourenço. Lá tinha, além dos patos, gansos, cisnes e marrecos. Eram diferentes, mas parecidos no jeitão desengonçado de andar e no quém quém.

Os cisnes eram os mais bonitos de todos, elegantes e brancos como a neve. Os gansos, cinzas, eram bravos, enfezados com a meninada. Os marrecos, coitados, ficavam lá no canto deles, de boa, tomando sol, beliscando uma plantinha aqui, outra ali.

Dos personagens de Walt Disney, o que eu mais gostava era o Pato Donald. Mas me amarrava também na Margarida, no Tio Patinhas, no Gastão, no Luizinho, no Huguinho e no Zezinho, todos patos. Até da Maga Patológica, aquela bruxa, a gente gostava.

Quando chegou a Arca de Noé, quer dizer, do Vinicius e do Toquinho, cantei muito pros meus filhos a canção do pato.

Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o pato
Para ver o que é que há

Sempre gostamos de pato na nossa casa, até mesmo na panela. Quem não gosta de um arroz de pato ou um pato no tucupi?

Adultos, fechávamos os olhos para a nossa infância e nunca pensávamos naquele simpático patinho que gostávamos tanto, quando saboreávamos um pato laqueado num bistrô chinês no Marais.

Até que muitos anos depois, um dia, chegou o pato da Fiesp. Foi aí que tomei um bode danado do bicho. Aquele pato amarelo enorme na Paulista, na Cinelândia ou na Esplanada dos Ministérios, me encheu de angústia e tristeza.

Aquela paixão que tinha pelos patinhos de um dia que víamos no corredor de aves do Mercado Central de Belo Horizonte, de repente, desapareceu como um toque de mágica.

O meu consolo, hoje, é saber que todos aqueles que foram pra avenida inflar e saudar aquele pato amarelo medonho, hoje estão pagando caro pelo que fizeram.

Pagando o pato.

 [Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
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O VERÃO DO AMOR

Por aqui era inverno quando chegou o verão do amor. Quando dez mil hippies se reuniram no Central Park, em Nova York, para empinar pipas, soltar balões, fazer um fumacê e entoar canções que falavam do coração, aqui fazia frio.

Chegava às lojas Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um disco que saiu da vitrola para entrar pra história. Não era pra menos. Quem não se lembra de Lucy flutuando no céu com diamantes?

Biafra virava oficialmente um país africano quando os primeiros acordes foram ouvidos em Monterey naquele 1967. Acordes de Ottis Redding, The Byrds, Jefferson Airplane, The Mamas & The Papas.

A guerra dos seis dias começava, para nunca mais acabar, quando ouviu-se a voz de Janis Joplin ecoar, o som da cítara de Ravi Shankar se espalhar no ar e a guitarra de Jimi Hendrix arder em chamas.

Cinquenta anos depois, comecei a me perguntar que diabos eu estava fazendo naquele verão do amor, quando os hippies deixaram seus cabelos crescer, abriram a boca de suas calças americanas, jogaram água sanitária em suas camisetas, vestiram seus tamancos suecos e começaram a dar poder às flores, espalhando-as pelos campos.

Lembro-me que também vesti um tamanco sueco, enfiei uma camiseta manchada de cândida, deixei crescer os caracóis dos meus cabelos, dependurei no pescoço uma bolsa de couro de bode comprada no Mercado Modelo de Salvador, que fedia muito, cheirava mal, e peguei a estrada.

Fui consultar meus escritos e encontrei poucas anotações. Naquele ano, estudava no Colégio Tito Novaes, depois de tomar bomba em francês no Colégio de Aplicação. Precisava terminar o curso ginasial e foi num colégio pobre que fui buscar o meu canudo.

Era lá que dava aula dona Wanda, a professora de inglês que traduziu pra turma a música A Day in the Life. I read the news today, oh boy… Lembro bem que ela dizia: Eu li as notícias hoje! Esqueçam esse oh boy!

Ouvíamos Sunshine Superman, com Donovan, For what it’s Worth, com Buffalo Springfield, Light my fire, com The Doors, Tales of brave Ulysses, com o Cream, A whiter shade of pale com Procol Harum, Heroes and Villains, com The Beach Boys, e The sound of silence, com Paul Simon e Art Garfunkel, mesmo sem dona Wanda nos ajudando na tradução.

Ainda não havia o Google, a Internet, o WhatsApp, e as notícias chegavam à provinciana Belo Horizonte só Deus sabe como.

Foi no verão do amor que enchi minha mochila jeans de sonhos e segui rumo à Bahia de Todos os Santos. De carona, fui pingando de cidade em cidade, até chegar a Arembepe, nossa praia. Foi lá que montei barraca e sonhei passar o resto dos meus dias, ouvindo as ondas do mar, o canto das gaivotas, o barulhinho bom que as folhas do coqueiro faziam quando caíam na areia branca, que era o meu paraíso.

Foi lá que deixei de comer macarrão com salsicha tipo Viena, angu com sardinha Coqueiro e sanduíche de pão com apresuntado Wilson, em troca de uma gororoba macrobiótica.

Foi lá que ouvi pela primeira vez a poesia de Bob Dylan em uma fita K7 da Basf deslizando num velho gravador de pilha.

Havia ali um sonho no ar, um cheiro de patchouli, uma Kombi customizada estacionada debaixo de um coqueiro verde, roupas comuns dependuradas ao lado de cada barraca e um fogão Jacaré com água fervendo pra mais um chá de camomila.

Havia também uma lanterna com as pilhas do gato, um incenso barato queimando, uma revistinha com os primeiros quadrinhos do Mr. Natural de Robert Crumb e o livro Cien Años de Soledad, já meio estropiado, com um marcador de páginas feito de cânhamo.

Os dias eram assim naquele verão do amor, que se chamava Teresa.

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A VIDA SEM CRACHÁ

Depois de mais de 30 anos escolhendo fotos, fazendo títulos, copidescando textos, fechando jornal, fazendo espelhos, editando matérias e colocando o show da vida no ar, resolvi dar um tempo. Já tem alguns anos que tomei a decisão de partir pra carreira solo, trabalhar em casa. Isso pode parecer o sonho de muita gente, mas calma!

Assim que dependurei as chuteiras no segundo andar da Berrini, pensei cá com os meus botões que poderia acordar mais tarde, ler os jornais que não escrevi, almoçar em casa, fazer um lanchinho à tarde, tomar um banho ao cair do dia e ver os telejornais sem estar na panela de pressão que é um switcher.

Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Mais ou menos.

Nos primeiros dias, sofri e confesso que tive vontade de acordar cedo, tomar banho, vestir uma roupa de trabalho, calçar os sapatos, dependurar o crachá no pescoço e ir pra firma. Assim que me instalei no escritório da minha casa pra escrever o primeiro texto frila, a nossa empregada, que sempre cuidou de tudo, começou a fazer toc toc toc na porta.

– Acabou o sal

– A lâmpada da cozinha queimou

– A máquina de lavar louça parou

– A torneira do tanque está pingando

– O aspirador de pó pifou

Eu me senti como aquele personagem de um velho poema de Drummond que recitávamos no coral do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte.

– E agora, José?

Em uma semana, de jornalista, transformei-me em eletricista, encanador, bombeiro, pacato homem do lar e chefe de cozinha. Sim, chefe de cozinha.

A empregada, que diariamente escolhia, por conta própria, o cardápio do almoço e do jantar, resolveu perguntar, sempre por volta das dez da manhã.

– O que eu faço de almoço?

Deixava o computador de lado e ia até a cozinha escolher, com ela, o menu do dia.

– Vamos fazer abobrinha recheada com quinoa, arroz branco, feijão preto e uma polenta com cebolas por cima.

Mas ainda faltava alguma coisa.

– Faz salada?

– Posso fazer suco de polpa?

Sim, pode fazer salada e suco de polpa.

– Acerola ou uva?

Isso foram nos primeiros talvez 60 dias, depois a coisa foi entrando nos eixos. Acho que ela entendeu que eu estava trabalhando e não apenas curtindo o Face, o Twitter, o Instagram ou mandando mensagens pelo  WhatsApp.

Mas mesmo assim, ela de vez em quando entrava no escritório com uma novidade.

– Interfonaram dizendo que tem uma encomenda lá embaixo.

Hoje as coisas se acalmaram um pouco. Primeiro, porque a Nice só vem uma vez por semana e, segundo, porque eu consegui me organizar, mesmo não tendo horário estabelecido pra nada.

Confesso que é uma delícia ir tomar um café na Livraria Cultura em plena segunda-feira, três da tarde. É uma maravilha poder assistir a um jogo na Europa pela televisão, quatro da tarde de uma quinta-feira. E quando chega a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o Carnaval, que espetáculo ser apenas telespectador.

Imagine o que é cuidar da horta na varanda depois do almoço ou deitar na rede pra ler a biografia do Paul McCartney, cinco da tarde de uma terça-feira.

Mas, como disse lá em cima, calma! Nem tudo são flores.

Hoje acordei às seis horas, preparei o café da manhã pra família, sentei aqui pra escrever essa crônica pra CartaCapital e ainda tenho muita coisa pela frente. Escrever uma matéria sobre hortas pra revista Com Você, da Nestlé, separar 12 fotos e fazer uma pesquisa sobre o mercado Ver o Peso, em Belém, pra revista Vida Simples, mandar um projeto de livro pra Editora Sextante, revisar um capítulo do livro que escrevi pra Editora Planeta, fazer uma pesquisa sobre bala perdida que vai fazer parte de um outro livro, responder uns 20 e-mails, alimentar o meu blog, buscar a encomenda lá na portaria e pensar no cardápio pro almoço, porque a Nice não está mais aqui.

Às vezes me perguntam se tenho saudade de redação. Digo que não mas, pensando bem, sim. Tenho saudade dos amigos que lá deixei e que via todos os dias. Além de um contracheque que a secretária colocava na minha mesa religiosamente no último dia útil de cada mês.

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

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O MAR

Sempre fui apaixonado pelo mar, eu mineiro, cercado de montanhas por todos os lados. Todos nós em casa. Sabíamos que não tínhamos e a vontade de ter um por perto era tão grande que a gente até se embaraçava.

Quando ia chegando julho, era uma animação. Sabíamos que o meu pai ia fazer uma revisão no velho Land Rover e pegar a BR-3 rumo ao Rio de Janeiro, férias de 30 dias em Copacabana.

Enquanto julho não chegava, durante o ano inteiro, ele colocava na vitrola GE os discos de Dorival Caymmi que espalhava aquele vozeirão em suas canções praieiras pela casa inteira.

O mar quando quebra na praia

É bonito, é bonito…

Mas as férias acabavam chegando e lá estávamos nós, branquinhos, instalados no apartamento da Prado Junior, olhando pela janela, ele, tão azul, lá longe.

O clima era outro. Cadeiras de lona empilhadas na sala, saídas de praia espalhadas pelo sofá, uma sombrinha colorida, de pé atrás da porta, o vidrinho de Cenoura & Bronze na mesinha de centro e um isopor na porta.

Aquele apartamento era nosso todo mês de julho. Lembro-me bem da geladeira Kelvinator com a porta enferrujada pela maresia, o aquecedor à gás no banheiro, o chão de porcelanato, coisas que não tínhamos em Minas Gerais.

O mar para nós era tudo e quando púnhamos os pés na areia branca, a piada do meu pai era sempre a mesma e velha.

– Encher aqui de água foi mole. O difícil foi salgar tudo isso…

A gente achava sempre engraçada a piada, mesmo contada pela décima vez.

Do mesmo jeito que Rita Lee contou em seu livro um segredo, que um dia lambeu a maçaneta da Apple, em Abbey Road, vou contar aqui que eu, escondidinho, sempre provava a água do mar pra sentir se continuava salgada.

Os cinco filhos nunca tiveram no dia-a-dia um mar por perto. Vivíamos confabulando porque diabos não juntavam Minas Gerais com o Espírito Santo para termos Guarapari e Santa Mônica só pra gente.

O tempo foi passando e até hoje continuamos sem mar nas nossas cidades. Três em Belo Horizonte, uma em Brasília e eu aqui em São Paulo.

Outras canções vieram. Ouvimos Marilia Medalha na tela da TV Record cantando Arrastão.

Eh! tem jangada no mar

Eh! eh! eh! Hoje tem arrastão

Eh! Todo mundo pescar

Longe daqui, senti na pele o que Gil quis dizer em Back in Bahia.

Do luar que tanta falta me fazia junto do mar 

Mar da Bahia…

Ainda longe daqui, ouvi Caetano cantar Debaixo dos caracóis dos teus cabelos.

Um dia a areia branca

Teus pés irão tocar

E vai molhar seus cabelos

A água azul do mar

Depois veio Eduardo Dusek, todo serelepe.

O mar passa saborosamente a língua na areia

Que bem debochada, cínica que é

Permite deleitada esses abusos do mar

Além da areia branca e do mar azul, havia muitas conchinhas em Copacabana, que íamos colocando uma a uma dentro de um balde vermelho da Trol pra depois, no décimo segundo andar daquele edifício da Prado Junior, escolher as maiores e mais bonitas para esnobarmos na volta às aulas na nossa Belo Horizonte.

Pensando bem, não era só o mar que era gostoso. Gostoso era também o sunday do Gordon, os caramelos Petrópolis, o sorvex na carrocinha amarela da Kibon e uma espécie de selfie que fazíamos todo ano no Cristo Redentor.

Ah, como aquele gostinho salgado de férias custava a passar. Na verdade, nunca passou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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COLHENDO OS FRUTOS

Usufruíamos daquelas frondosas árvores durante muito tempo, nossa infância e juventude. Só na minha casa, havia uma parreira carregada de uvas Niágara todo fim de ano, uma ameixeira e duas laranjeiras. Na casa do vizinho, muitas bananeiras, um pé de jambo amarelo e uma goiabeira.

Na chácara de Dona Catarina, em Cataguases, muitos pés de carambolas, de jambo vermelho, de abil, muitos pés de pitanga, jabuticaba, caju, abacate e fruta do conde.

Fomos acostumados a comer frutas no pé, sem agrotóxico, sem veneno algum. Sequer lavávamos antes de colocar na boca. A goiaba vinha cheia de bichinhos brancos que espantávamos com um peteleco e quando iam parar na nossa boca, cuspíamos.

Subíamos nas árvores como se fôssemos macacos, pulando de galho em galho até o topo, onde estavam as jabuticabas maiores, sempre.

Os meus pais acostumaram os filhos a comer muita fruta. De manhã, não faltava na mesa o mamão com açúcar, a laranjada, e meu pai, metido que era, às vezes comprava melão espanhol nas Estâncias Califórnia, num tempo em que melão era só importado.

A maçã e a pera também eram importadas. Vinham da Argentina, embrulhadas em um papel de seda azul com um perfume que ainda sinto até hoje.

Nossa infância foi coroada de frutas e mais frutas que, segundo a minha mãe, chegavam à mesa, graças a Deus. Mas havia um fantasma no ar, o da nódoa.

Dona Lali lavava nossas roupas com Rinso, uma novidade na época, um sabão em pó que, segundo a propaganda, deixava a roupa mais branca. A única recomendação que ela nos passava era essa:

– Cuidado com a nódoa!

Minha mãe repetia uma ladainha todos os dias: Caju dá nódoa, manga dá nódoa, jabuticaba dá nódoa. Ela tinha um verdadeiro pavor de roupa com nódoa que, para quem não sabe, é uma mancha que fica na roupa pra sempre.

Ainda não havia Google pra ela e por isso não sabíamos porque algumas frutas deixavam aquelas manchas horrendas nas nossas camisas brancas.

As antocianinas presentes nas frutas tendem a fixar-se nas fibras dos tecidos. Quando lhes é aplicado calor a nódoa torna-se mais profunda pois dá-se uma mudança química na sua composição que dificulta grandemente a remoção da nódoa.

Lembro-me bem da minha mãe no tanque tentando retirar nódoa das roupas. Ela colocava um copo de água sanitária Globo, misturada com água e sabão português. Chacoalhava, deixava de molho e depois colocava no sol pra quarar. Mas a nódoa não saia por nada.

Fiz uma pesquisa rápida e constatei que menino nenhum hoje com sete, oito anos,  sequer sabe o que é nódoa. Uma pena, porque em 2040 eles não vão ter uma história assim pra contar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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EU QUERO VOTAR PRA PRESIDENTE

Minha vontade de votar para presidente da República começou cedo. Pego por um golpe militar na infância, nunca tinha sentido o gostinho de entrar numa cabine de lona e marcar um X no nome do candidato. Era assim que se votava.

Lembro-me do meu pai, Juscelino roxo, com sua pasta 007 cheia de adesivos JK 65, propaganda de uma eleição que ficou pelo meio do caminho.

Quando peguei o avião com destino à felicidade, no início dos anos 1970, fiz uma promessa, a de não cortar o cabelo enquanto a ditadura militar não caísse. Promessa que quebrei, oito anos depois quando a abertura começou a criar asas e o meu cabelo bater na cintura.

A luta pelas diretas, no início dos anos 1980 – eu já de volta à Terra Brasilis – foi contagiante e, ao mesmo tempo frustrante, quando aqueles picaretas de Brasília disseram não e vieram com indiretas.

Eu escrevia, toda semana, uma crônica no “Caderno 2” do Estadão, quando comecei com essa mania de contagem regressiva. No final de cada crônica, eu escrevia: Faltam tantos dias para as eleições diretas. Isso durou um ano, enquanto estive no “Caderno 2”, sem jamais ser censurado. Gostava de ver aquilo impresso no jornal O Estado de S.Paulo, tão conservador, porque sentia o sangue rebelde circulando nas veias a todo vapor.

Quando passei do jornal impresso pra televisão, essa ideia de contagem regressiva me acompanhou. Toda noite, assim que a Dóris Giesse aparecia na tela da Band, no final da escalada do Jornal de Vanguarda, ela dizia: Faltam tantos dias para as eleições diretas no Brasil.

AÍ, mudei de canal, fui pro SBT fazer o telejornal da Lillian Witte Fibe e a história continuou. Só que lá, em vez de ela dizer que faltavam tantos dias para as eleições diretas, aparecia escrito no cantinho da tela, em caracteres amarelos, a contagem regressiva.

Como um controle remoto, eu passei do SBT pra Globo e, na Globo, no telejornal do final de noite que eu comandava com uma equipe nota 10, era a mesma coisa. Toda noite, depois de a Sandra Annenberg ler a escalada, aparecia, agora em azul, a contagem regressiva para as eleições diretas.

Até que um dia, finalmente, chegaram as tais eleições diretas. Votei no Lula mas quem ganhou foi o falso caçador de marajás. Collor foi eleito, veio o impeachment, Itamar Franco assumiu e depois vieram as diretas de novo, pra nossa felicidade.

Votei no Lula mais uma vez, perdi mais uma vez. Fernando Henrique foi eleito e, quatro anos depois, foi reeleito, tudo dentro das normais gerais do estatuto da gafieira.

Até que um dia, oito anos depois, Lula foi eleito. Ganhamos! Foi reeleito e ganhamos de novo. Ele lançou Dilma candidata, vieram as eleições e nós ganhamos pela terceira vez e depois pela quarta vez.

Ai veio o golpe.

Dilma Rousseff
Protesto contra Dilma em 2015. Deu no que deu (Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos Públicas)

Aécio, o segundo, não se conformou com a vitória do Partido dos Trabalhadores pela quarta vez seguida e chegou até a pedir uma vergonhosa contagem de votos. O vice Aloysio disse, numa entrevista, que iria sangrar a presidenta reeleita. E sangrou.

Milhares e milhares de pessoas, inconformadas com a vitória de Dilma nas urnas, vestiram uma camisa amarela da CBF e foram pras ruas pra derrubar a presidenta eleita, com o incentivo da maior parte da mídia, que alegava pedaladas fiscais.

Uns pediam até mesmo a volta dos militares. Outros carregavam cartazes dizendo “Tchau, querida!”, Fora PT, Somos todos Cunha, enquanto me mandavam pra Cuba ou pra Venezuela. Podia escolher.

Deu no que deu.

Sendo assim, tantos e tantos anos depois, eu volto a escrever no final da minha crônica, agora não mais pro “Caderno 2”, mas pra CartaCapital, o meu grito de guerra.

Eu quero votar pra presidente!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TIC-TIC NERVOSO

 Parte da seleção da Brasil Extra

Finalmente 1984 chegou. O Big Brother de George Orwell ainda não estava no ar na televisão aberta, mas dezenas de câmeras escondidas pela cidade já botavam os olhos grandes sobre nós.

Milhares de brasileiros estavam nas ruas exigindo eleições diretas já, coisa que não víamos desde os idos de 1960. Enquanto isso, bandidos derretiam a nossa Jules Rimet, a taça conquistada com o talento de Pelé, Gerson, Rivelino e Tostão.

O mundo estava agitado. Em Los Angeles, o cantor Marvin Gaye caía morto no chão, com o corpo crivado de balas disparadas pelo pai. O exército indiano sufocava a revolta dos sikhs que, revoltados, executavam Indira Gandhi.

Perdíamos o charme e o jazz de Count Basie, enquanto Michael Jackson era o popstar da hora com o clipe Thriller, mostrado em primeira mão no show da vida.

Foi nesse clima que um bando de jornalistas se reuniu numa pequena sala meio improvisada no bairro de Pinheiros, em São Paulo, com o sonho de colocar nas bancas uma nova revista alternativa chamada Brasil Extra.

Capitaneados pelos mestres Mylton Severiano da Silva – o Myltainho -, Bernardo Kucinsky e Narciso Kalili, os discípulos se apresentaram para ir à luta, ir às ruas e trazer matérias pra botar a revista de pé. O sonho era fazer uma espécie de Actuel, revista que levei uma pilha para a primeira reunião de pauta.

O time era de jovens e craques. Dagomir Marquesi – o Dagô – foi escalado para traçar o perfil de Paulo Maluf. Marcelo Rubens Paiva para desvendar os mistérios das rádios piratas, Luiz Maklouf foi pra São Bernardo descobrir o que tinha na cabeça de Luiz Inácio da Silva e Bernardo Kucinsky partiu pra Cubarão para relatar o sofrimento dos moradores da Vila Socó que, segundo ele, nasceram como bichos e morreram como bichos.

Edenilton Lampião foi conversar com Claudio Villas Boas, cansado de guerra, se despedindo da vida. Helio Doyle e Juca Martins voaram pro Uruguai para mostrar o renascimento do pais, depois de onze anos de tirania. Enquanto isso, Luiz Gê dava asas aos tubarões voadores.

O time era grande. Tínhamos ainda Lucia Costa, Luisa de Oliveira, Aureliano Biancarelli, Renato Pompeu, Carlos Rennó, Lucia Correia Lima, Cristina Serra e tantos outros.

O número 1, todo desenhado pelo francês Jean Gauvin, um dia ficou pronto. Com uma foto de Paulo Maluf na capa e a manchete O menino que virou Maluf, fomos pras bancas. A reportagem de capa tinha, além do relato do repórter que comeu um quibe de peixe numa festa chez Maluf em que penetrou de boa, um dos melhores títulos que fizemos: Quando Maluf começou a mamar. Esse era o tom da Brasil Extra.

Os exemplares desapareceram das bancas em poucos dias e nós nos entusiasmamos em fazer logo o número 2, que já tinha a manchete de capa: Os filhos da pátria! A redação era uma mixórdia, como quase toda redação naquele 1984. Fumaça de cigarro no ar, copinhos de café espalhados nas mesas, panfletos colados nas paredes, laudas amassadas pelo chão e muitas Remington fazendo aquele barulho toc toc toc.

Nós éramos felizes e sabíamos disso.

Até que uma segunda-feira chegou e o dono da revista convocou todos nós para uma reunião no meio da redação. Em poucas palavras, ele disse o que tinha a nos dizer, sem muita explicação:

– A Brasil Extra acabou!

O número 2, que já estava praticamente pronto para rodar, foi engavetado e um silêncio tomou conta da redação. Silêncio que só foi quebrado quando alguém foi lá no canto da sala, pegou um radinho de pilha e ligou para ouvir as últimas notícias. Não havia noticia alguma naquela hora, havia apenas Kid Vinil cantando Tic-Tic nervoso, o hit parade do momento, cuja letra publicamos no número 1.

Saímos dali cabisbaixos e fomos comer um X qualquer coisa no bar da frente, todos cantarolando Tic-Tic nervoso, uma música deliciosa de Kid Vinil, morto sexta-feira passada, 19 de maio.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MINHA MACONDO

Na minha juventude, li muitos livros por obrigação. Iracema, de José de Alencar, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Li com má vontade, com o único objetivo de passar no vestibular da UFMG. Livros que hoje venero e que talvez, por ironia, guardo num lugar de honra na minha biblioteca.

O primeiro livro que li por vontade própria, aquele que fui lá na Livraria Amadeu e comprei com o meu dinheiro, foi Voo Noturno, de Antoine de Saint-Exupéry. Adorei. Gostei tanto que reli, alguns anos depois. O exemplar que tenho aqui está amarelado, judiado, bem estropiado, mas para mim, um troféu.

O segundo que li com vontade, virou o livro da minha vida: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Já reli três vezes, inclusive uma vez na língua original, para sentir o clima mais de perto, descobrir pequenos detalhes.

Nunca mais me esqueci das primeiras palavras: “Macondo é uma aldeia de vinte casas de barro e taquara construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”.

Nessa época, não pensava em ganhar a vida com a escrita. Queria ser médico e os livros que li por obrigação foram pra passar no vestibular de Medicina. Mas foi a pequena Macondo que um dia me encantou e, certamente, me fez mudar de rumo.

Invejava García Márquez que tinha nascido em Aracataca, a sua Macondo. Eu havia nascido numa cidade que crescia a olhos vistos rumo ao progresso, uma cidade que ia ficando feia e sem destino, passando por cima da Avenida do Contorno, o projeto inicial. Lá longe. via as montanhas sendo engolidas pelos tratores da MBR, acabando com o nosso belo horizonte.

Foi então que imaginei onde seria a minha Macondo, uma cidadezinha de uns trezentos habitantes e que também tinha um riacho de pedras polidas e piabas que pescávamos com peneira nas férias de julho. A cidadezinha chamava-se Soberbo e ficava perto de Rio Doce, interior de Minas Gerais. Soberbo só tinha uma venda, uma rua de terra, uma pracinha com uma mangueira enorme, algumas poucas casas coloniais e nada mais.

Cheguei até a pensar em me mudar pra lá um dia, quem sabe para escrever os meus anos de solidão. Levaria minha máquina Remington portátil, algumas folhas em branco e começaria a contar a história da família Fontes, a minha, que tinha alguns personagens interessantes como Tia Lili, aquela que todos os dias às treze horas e treze minutos tinha de estar em casa para não deixar que o pêndulo do relógio cuco despencasse. Pura ilusão.

Ali em Soberbo, procuraria também o caminho do mar. Entre cascatas, palmeiras, araçás e bananeiras, desbravaria a mata, atravessaria as montanhas e chegaria ao mar, que em Minas não há. Mas nada disso aconteceu. Eu passei no vestibular de Jornalismo e continuei morando numa cidade nada a ver com a Macondo. Um dia fui-me embora pra Paris, mas ai é outra história.

Na minha Beagá, já havia muita fumaça sendo expelida pelos Studebakers e um prefeito chamado Amintas de Barros que derrubava árvores para dar passagem aos automóveis. Os trólebus circulavam pelo centro, os vendedores de loteria gritavam na Avenida Afonso Pena, os engraxates lustravam os sapatos na Praça Sete, os trilhos urbanos refletiam nos meus olhos e o terminal do bonde tinha um leve cheiro de óleo.

A primeira lanchonete da cidade servia milk-shake de morango e uma sorveteria chamada São Domingos oferecia sorvete de jabuticaba. E não acontecia mais nada na minha cidade. Aquilo não dava meio capítulo sequer do livro que sonhava escrever.

Hoje, ao pegar Cem anos de solidão para reler mais uma vez, comemorando os seus cinquenta anos, lembrei-me de tudo isso. Procurei no Google a palavra Soberbo para saber se aquele vilarejo já tinha mais de 300 habitantes, quando dei-me de cara com a realidade: Soberbo não há mais, foi invadida pelas águas como se fosse Orós.

Soberbo hoje virou uma usina hidrelétrica chamada Risoleta Neves que, pensando bem, poderia sim ser personagem dos meus anos de solidão. Pelo menos o nome é um nome ótimo, tudo a ver para estrar num grande romance: Risoleta Neves!

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ALUCINAÇÃO

Há dois anos não pisava em terras brasileiras e a saudade já doía um pouco. As últimas folhas secas caiam das árvores à beira do Sena, promovendo um festival dourado no chão molhado pela garoa. Sempre com a minha Pentax na sacola de pano, fotografava aquela beleza, revelava e enviava ao Brasil para mostrar o quão bonitas eram aquelas folhas douradas formando um tapete, tão diferentes das nossas tropicais.

O meu francês ainda era ruim e eu só conseguia ler a Nouvel Observateur, toda semana, com um dicionário Petit Robert ao lado. Na faculdade, fazia o maior esforço para entender as aulas do professor Pierre Albert, que já falava, naquela época, de televisão à cabo.

Portugal estava em festa com a eleição do socialista Mario Soares. A Inglaterra, de luto pela partida de Agatha Christie e a Argentina acuada depois de um golpe que derrubou Isabelita Peron e colocou no poder um general chamado Jorge Videla.

Enquanto 800 milhões de chineses faziam silêncio para homenagear o líder máximo Mao Tsé Tung, morto aos 82 anos, no Brasil, a cerimônia do adeus era para dois ex-presidentes, JK e JG. Na televisão, a lei Falcão estava no ar.

Foi num dia, já de inverno, que o carteiro deixou na minha caixa de cartas um papel cor de rosa, anunciando a chegada de uma encomenda, vinda de um Belo Horizonte. Cinco da tarde, ela estaria disponível na agência da Rue Breguete, mas quando ainda faltavam dez minutos para as cinco, eu já estava de pé naquele saguão frio esperando ela chegar.

A encomenda era um pacote leve, embrulhado num papel pardo e cheio de selos do mico leão dourado. Fui caminhando até o nosso apartamento na Rue de la Roquette, segurando firme aquele embrulho,  debaixo de um guarda-chuva barato para que não tomasse um pingo de chuva sequer.

O pacote foi aberto no chão da sala, forrada por um carpete azul anil medonho, rodeado de almofadas e tatames. Nós morávamos numa casa muito engraçada, não tinha sofá, não tinha mesa, não tinha geladeira, não tinha nada.

Com um estilete, fui rasgando com cuidado todo aquele durex que cobria o papel pardo. Rasgava as bordas e, bem devagar, ia deslizando o estilete para que saísse lá de dentro aquilo que certamente era um disco de vinil.

Sabia que era um disco porque os vinis sempre chegavam em Paris embalados entre duas placas de isopor, para que não que não empenassem no meio do caminho.

Alucinação!

Bati os olhos naquela capa do disco de um desconhecido Belchior, que nunca tinha ouvido a voz mas sim, lido algo nos recortes do Jornal do Brasil que me enviavam em  envelopes verde-amarelos.

Na contracapa, li o nome das dez músicas, cinco do lado A, cinco do lado B. O encarte trazia as letras mas não quis ler, tamanha ansiedade para ouvir a voz daquele cantor que surgia em meu país enquanto eu estava tão longe dali.

Retirei o vinil do papel fino, retirei a tampa de acrílico do pequeno som três em um que compramos na Darty e quando a agulha começou a deslizar, eu ouvi, pela primeira vez, o cearense cantando. Eu tinha certeza que ele estava cantando pra mim pra mim, um pobre brasileiro em Paris.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas trago na cabeça uma canção do rádio 
Em que um antigo compositor baiano me dizia: Tudo é divino, tudo é maravilhoso.

Hoje, sei que se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: Amigo, eu me desesperava. Sei que assim falando pensas, que esse desespero era moda em 76. Mas andava mesmo descontente, desesperadamente eu gritava em português.



O HOMEM QUE CALCULAVA

O meu pai tinha um caderno de capa dura, preta, com a borda dourada, que ele carregava pra todo lado. No final de sua vida estava desgastado, desbotado de tanto manuseio. Ele folheava aquele caderno praticamente todos os dias.

Era no café da manhã que ele vinha nos relatar, fazer uma espécie de inventário particular que vinha cultivando desde a juventude. Nesse caderno, ele anotava as datas especiais de todos os grandes acontecimentos e as relacionadas às pessoas que considerava especiais.

– Hoje mamãe estaria fazendo 110 anos!

– Hoje os meus pais estariam fazendo 60 anos de casados!

– Há vinte e oito anos eu pedi a mãe de vocês em casamento.

– Se Rui Demétrio estivesse vivo, já estaria com 50 anos!

Ele dizia isso com muita seriedade e todos nós ouvíamos com atenção e respeito. Nos últimos anos de sua vida, foi crescendo a sua obsessão pela morte. Parecia – como Gilberto Gil – não ter medo dela, mas medo de morrer.

Comprou um túmulo no Parque da Colina, em Belo Horizonte, pertinho do bar e debaixo de uma árvore frondosa. Ele brincava que queria descansar para sempre com sombra e cerveja fresca. Aliás, ele brincava muito com a morte.

Meu pai era um homem que calculava, fazia contas sem parar, somando, diminuindo, dividindo e multiplicando. Sabia com exatidão o número de dias que trabalhou no Serviço de Meteorologia até se aposentar.

Sabia quanto gastou com tijolos, cimento, telhas, portas e tacos na construção de sua casa na Rua Rio Verde, em 1950, e quanto custou seu terno de formatura na Escola de Engenharia da UFMG, pago em doze prestações. Dizia com orgulho até os centavos de uma moeda que nunca conhecemos.

Respondia na lata quando alguém perguntava quanto custou sua Rural Willys zero que comprou em 1963, o preço que pagou naquela TV Colorado RQ e até mesmo quanto custou uma garrafa de água mineral São Lourenço, quando comprou o primeiro engradado na cidade mineira, lá nos anos 1960.

Gostava de fazer contas e fazia tudo de cabeça, numa época em que as calculadoras funcionavam com papel e uma manivelinha ao lado.

Hoje, aos sessenta e seis anos, sou o retrato fiel do meu pai. Também tenho um caderno onde anoto as datas especiais de pessoas especiais na minha vida. A única diferença é que o meu caderno tem uma capa mole de couro vermelho e não dura e preta como a do meu pai. Como o dele, o meu caderno também está gasto e meio estropiado de tanto manuseio.

Não costumo reunir minhas meninas na hora do café da manhã para recitar a ladainha que o meu pai recitava quando éramos crianças. Mas todos os dias, com o caderno na mão, vivo fazendo minhas contas.

– Elis Regina já estaria com 72 anos.

– Já são 26 anos que Cazuza morreu.

– O meu pai faria 100 anos em março do ano que vem.

– Já são quase dezesseis anos que as torres gêmeas despencaram em Nova York.

Aí, no dia 10 de março nasceu o Raul, meu neto. Feliz da vida, anotei no caderno, postei a primeira foto no Facebook e liguei pros meus irmãos pra contar a novidade. Raul é o segundo neto, depois de vinte anos de Flora.

De repente, me vi conversando com a minha irmã mais velha e fazendo contas.

– Quando o Raul estiver com 20 anos, eu terei 86.

– Ele vai votar pela primeira vez em 2033.

– Na passagem de 2099 para 2100, o Raul vai ter 83 anos.

Desliguei o telefone e fui voando pra Minas Gerais conhecer o menininho. Quando cheguei, ele estava dormindo, tranquilo, apenas mexendo as mãozinhas de vez em quando, mãozinhas enfiadas num par de meias azuis listradas de laranja para que o danado não arranhasse o rostinho.

Confesso que fiquei perdidamente apaixonado por ele. Fiz a primeira foto, com o cuidado de desligar o flash para não acordá-lo. Ali, naquela hora, nem me lembrei de fazer conta alguma. Mas quando desci as escada e fui caminhando pela calçada da Rua Riachuelo, fiz apenas uma continha rápida.

Depois de passar 270 dias na barriga de Sara, Raul tinha exatas 120 horas de vida quando dei nele o primeiro beijinho no seu rosto. Ele tremelicou os olhinhos e voltou a dormir. Foi um beijinho doce que talvez vá me fazer esquecer qualquer operação da tabuada.

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O LÁPIS BRANCO

Que menino por volta de mil novecentos e sessenta e pouco não era apaixonado por uma caixa de lápis de cor da Johann Faber?

Todo início de ano escolar, eu ganhava uma, novinha em folha. No primário, era aquela que tinha 12 cores e, na embalagem, umas araras, uns papagaios, uns maracanãs e um tucano todo colorido.

Até hoje sinto um cheirinho de madeira e tinta que saia lá de dentro quando eu abria a caixinha pela primeira vez e via aqueles lápis coloridos, todos apontadinhos, todos do mesmo tamanho.

O meu sonho era, um dia, ganhar uma caixa maior, com 24 lápis, o que somente aconteceu quando passei direto no exame de admissão e fui pro primeiro ginasial. Eu gostei da novidade, daqueles dois tons de amarelo, dois tons de azul, de verde, de vermelho.

Mas o meu sonho mesmo – e que nunca foi realizado – era ter aquela lata verde da Caran D’Ache com 96 cores. Só de cinza, tinha uns quatro tons.

Mas, enquanto menino de calças curtas, era com aquela caixinha de 12 cores que eu passava o ano.

Com o verde, eu coloria as folhas de uma enorme árvore que desenhava ao lado de uma casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu. Com o marrom, eu coloria o tronco e com o vermelho, as maçãs, num tempo em que o Brasil nem produzia maçãs. A que eu levava na merendeira, uma vez por semana, vinha da Argentina, envolvida num papel de seda azul muito cheiroso.

Com o amarelo, eu coloria as janelas da casinha, com o roxo as portas, com o cor de rosa, as flores nas janelas.

Com o alaranjado, eu coloria as laranjas dentro de um cesto, com o azul claro eu coloria as nuvens do céu que nos protegia, e com o azul escuro, o rio que passava na nossa vida, lá no fundo, cheio de piabas, sem um pingo de poluição.

O cinza, eu guardava para depois de quase tudo pronto, colorir a fumaça que saia da chaminé, caminhando para as estrelas.

Eu sempre fui muito cuidadoso com a minha caixa de lápis de cor. Apontava um a um com uma lâmina Gillete e depois ia afinando cada ponta com uma faquinha bem afiada que minha mãe só deixava usar nessa ocasião.

Quando chegava o final do ano, minha caixinha de lápis de cor, que era de papelão, estava meio estropiada. Os lápis minúsculos, alguns com as pontas mordidas pela aflição quando a professora anunciava arguição oral.

Mas todo ano era a mesma coisa. Aqueles lápis pequenininhos e o branco lá, enorme, do mesmo jeitinho quando compramos a caixa na Copiadora Brasileira.

O lápis branco sempre me impressionou porque ele nunca serviu pra nada. Às vezes, eu tentava clarear um pouco as nuvens do céu e passava por cima do azul, mas não adiantava muito. Ficava feio e sempre meio manchado. Ai eu deixava aquele lápis branco grandalhão de lado, sem uso, inútil. Nem quebrar a ponta, ele quebrava.

Semana passada, a Crayola, uma das mais famosas marcas de lápis de cor do mundo, numa jogada de marketing, anunciou que retiraria um lápis da sua caixa de 24 cores. E fez suspense. Muita gente achou que não passava de um primeiro de abril. Não importa. Numa pesquisa no seu site, a Crayola perguntou aos consumidores qual lápis deveria ser eliminado. Apostei no branco. Eu tenho certeza que será o branco, aquele grandalhão inútil. Só pode.

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TODA AVÓ ERA VELHA

 Vó Zizinha

Quando eu era menino, não existia avó jovem. Toda avó era velhinha e parece que já nasciam velhinhas, com aquele coque na cabeça, cabelos grisalhos, óculos de grau, aquela saia bege, blusa de cetim e um chinelinho de lã xadrez nos pés.

Avó tinha rugas, muitas rugas e a gente gostava de ficar puxando a pele das mãos dela, como se fosse um elástico.

Vovó era aquela que, com o vovô e com o Ivo, via a uva na cartilha de um curso que se chamava primário. Avó era aquela do Chapeuzinho Vermelho, com um camisolão largo e um gorro na cabeça, preso com uma fitinha de algodão. Avó era a Dona Benta do Sítio do Pica Pau Amarelo, a mais perfeita tradução de uma avó.

Eu só tive uma avó na vida, a vovó Zizinha. Acho que ela nunca foi brotinho, sempre foi velhinha, reclamando de umas dores de lado, do chuvisco na televisão e da velhice. Ela era daquelas que falei lá em cima. Coque na cabeça, óculos de grau, saia bege, blusa e cetim e chinelinho de lã xadrez nos pés.

A única diferença da minha vó para as avós dos meus amigos, é que Zizinha era uma espécie de Chiquinha Gonzaga. Não que tivesse composto Ó Abre Alas, mas tinha ojeriza a vassoura, espanador e pano de prato. Ela era da lira, não posso negar.

Vovó Zizinha tinha cara de vó. Nunca foi de tomar uma Brahma com as amigas num boteco em Santa Teresa, onde sempre morou. Nunca dirigiu um automóvel e nem viajou sozinha pra Ponte Nova, onde nasceu. Ela não discutia política e só votava no candidato que o meu avô dizia pra ela votar. Diz a lenda que, como o voto era secreto, ela não obedecia muito as ordens do vô Neco não.

Confesso que, hoje em dia, estranho a palavra avó.

Quando minhas filhas eram pequenininhas e chegavam em casa contando que pegaram uma carona com a avó de um amiga, eu sempre imaginava uma velhinha de uns setenta e tantos anos, dirigindo um fusquinha velho e ficava aliviado por elas terem chegado vivas em casa.

Na verdade, a avó que trazia minhas filhas era uma mulher de quarenta e poucos anos, que trabalhava numa grande empresa e comandava uma turma de uns cinquenta marmanjos. Não tinha nenhuma cara de vó.

Vó à moda antiga era uma mulher meio ranzinza que tomava um monte de remédios, tricotava até cochilar e assistia todas as novelas na televisão, inclusive Beto Rockefeller.

Vó era vó, e pronto.

Era aquela que dava biscoitinho Mirabel, bala Chita e cigarrinho de chocolate da Pan pros netos, minutos antes do almoço, escondido dos pais.

Vó era aquela que deixava os netos assistirem televisão até mais tarde, mesmo depois que o menininho dos cobertores Parahyba anunciava na TV que já era hora de dormir e que não era pra esperar a mamãe mandar.

Vó era aquela que, na hora do almoço, ia lá na cozinha fritar um ovo pro neto que não gostava de jiló, nem bife de fígado.

Vó era aquela que, todas as noites, lia pros netos a coleção completa dos livrinhos da Mary França e do Eliardo França: A Galinha Choca, A Boca do Sapo, O Rabo do Galo, imitando cada bicho.

Vó era aquela que deixava o neto ir dormir sem tomar banho, com os pés sujos e com a roupa do corpo, preguiça de por pijama.

O figurino mudou.

Avó hoje toma Brahma com as amigas no boteco, dirige automóvel, viaja sozinha, discute política, vai na passeata com cartaz de Fora Temer e assiste todos os seriados americanos no Netflix.

Vó hoje passa horas passando o dedo no Instagram, posta foto no Facebook, procura apartamento pra alugar no Airbnb, chama um Uber, isso quando não está analisando o perfil de um gatão no Tinder.

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RETROSPECTIVA 2017

O brasileiro tem mania de dizer que o ano em nosso país começa somente depois do carnaval. Com um calor do Saara, ninguém tem ânimo de ir pro batente, depois de pular sete ondas e fazer seus pedidos pro ano novo.

Em janeiro, de férias, o brasileiro olha preguiçoso pro calendário e pensa com seus botões: O melhor mesmo é começar pra valer o ano depois que os bloquinhos passarem.

Mas esse ano não foi igual aquele que passou. Com apenas três meses de vida, 2017 já dá uma retrospectiva e tanto. Quer ver só o que já aconteceu até aqui?

Dois mil e dezessete começou com um homem armado até os dentes atirando numa multidão que comemorava o ano novo em Istambul, matando 39 e deixando 70 pessoas feridas.

No dia seguinte, o novo gestor de São Paulo fantasiou-se de gari e foi varrer uma praça que já estava varrida.

Como se não bastasse, saiu apagando grafites que eram verdadeiras obras de arte nos muros da cidade.

No dia 3 de janeiro, morreu Vida Alves, a atriz que entrou para a historia com um beijo, o primeiro, na televisão brasileira.

Logo em seguida perdemos o escritor argentino Ricardo Piglia, o autor de Dinheiro Queimado e Respiração Artificial.

Ai veio a morte de Mário Soares, o socialista boa praça que tirou Portugal do atraso.

Já era muitas mortes pra tão poucos dias, quando chegou a notícia do desaparecimento de Zygmunt Bauman, um dos intelectuais mais pop da história.

Ainda no primeiro mês do ano, um surto de febre amarela deixou Minas Gerais em alerta vermelho.

Pra tristeza de muita gente, e principalmente da meninada, o Circo Ringling Bros anunciou que ia ter espetáculo sim senhor, mas era o último.

Enquanto isso, o mundo pegava fogo na prisão de Alcaçus, no Rio Grande do Norte, e o ministro da Justiça se mostrava mais perdido que cego em tiroteio.

Pra piorar a situação, o milionário Donald Trump tomou posse como o quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos.

Quando achamos que as coisas iam se acalmar, o jatinho levando o ministro Teori Zavaski despencou no mar de Paraty.

O jornal Folha de S.Paulo resolveu lançar uma coluna chamada Dias Melhores, só com noticias positivas.

Então ficamos sabendo que os cientistas descobriram uma nova mariposa meio topetuda e que deram a ela o nome de Neopalpa donaldtrump, em homenagem ao maluco da Casa Branca.

Enquanto isso, na China, fogos festejaram a chegada do Ano do Galo.

Janeiro ainda não tinha terminado, quando a polícia bateu na porta do empresário Eike Batista para prendê-lo, mas ele não estava, tinha dado um pulinho nos States. Voltou pro patropi e foi direto pro xilindró, onde perdeu a peruca.

Os dias melhores da Folha finalmente chegaram: Os escoteiros americanos anunciaram que vão permitir a participação de meninos transgêneros na comunidade.

Mas, de repente, uma estrela vermelha apagou. Dona Marisa, mulher de Lula, morreu vítima de um AVC, depois de alguns dias internada no Hospital Sírio-libanês.

Novas denuncias contra Aécio pipocaram na Folha de S.Paulo mas, por ser tucano, as noticias entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Pra nossa tristeza, uma atrofia de múltiplos sistemas levou o filósofo, historiador e critico literário búlgaro Tzvetan Todorov.

Moreira Franco, o Gato Angorá, cercado de denúncias por todos os lados, foi nomeado ministro e passou a ter foro privilegiado.

O TRE cassou o mandato do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, mas ele continuou no cargo como se nada tivesse acontecido.

Jornais foram proibidos de falar da pacata e do lar Marcela Temer, quando o assunto era mensagem pelo celular.

Silêncio. Lá se foi All Jarreau, cantor de jazz, pop e rock and blues.

Kim Jong-nam, irmão do ditador norte coreano Kim Jong-un, foi atacado no aeroporto da Malásia e morreu no atentado mais bizarro da história.

O Brasil ficou sabendo que Luislinda Valois, embaixadora do reverendo Moon e nova ministra dos Direitos Humanos, maquiou o seu currículo.

Alexandre de Moraes, que fez de sua tese um grande plágio, também maquiou o seu currículo e foi indicado como ministro do STF.

Cercado de denúncias por todos os lados, o chanceler José Serra sentiu dor nas costas e deixou o governo.

Pra completar, o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, mandou soltar o goleiro Bruno, preso por um crime indefensável . Alguns fãs, correram pro abraço e para fazer self com o ex-presidiário.

Ai chegou o carnaval dos bloquinhos e do Fora Temer.

Como o show não podia parar, veio o Oscar e com ele o prêmio de maior mico do ano. Muito ti ti ti, muito blá blá blá e o Oscar foi para… La La Land.

E as noticias não pararam de chegar.

Paraisópolis pegou fogo.

Pesquisa mostrou Lula disparado na frente.

Milhares de pessoas saíram às ruas contra a reforma da Previdência.

Mas o ano estava apenas começando.

Enquanto Chuck Berry, aos 90 anos, despedia-se do mundo, Lula, acompanhado de Dilma foi pra Paraíba, onde o sertão virou mar. A festa parecia não ter hora pra acabar.

E como o Brasil é uma caixinha de surpresas e escândalos, veio à tona mais um, o da carne podre, adulterada e recheada de papelão. Temer reagiu e convidou embaixadores dos países importadores para um churrasco amigo em Brasília.

Para mostrar que a carne brasileira era boa e não trazia perigo algum, o presidente golpista mastigou e engoliu uma bela picanha argentina.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TAMANHO FAMÍLIA

Família, família
Papai, mamãe, titia
Família, família
Almoça junto todo dia
Nunca perde essa mania

(“Família”, Titãs do Iê-Iê-Iê)

Família não era apenas o pai bravo, a mãe do lar e um punhado de filhos. Tinha o avô, a avó, os tios, as tias, os primos, as primas, os tios tortos, os primos tortos e o que chamávamos de parente longe.

Família tinha jantarada no domingo, todos juntos, e isso era sagrado. A jantarada tinha arroz de forno, tutu de feijão e frango assado, comprado vivo no Aviário Modelo, no Mercado Central. E, de sobremesa, tinha pêssego em calda com creme chantilly.

Família tinha um avô que guardava o dinheiro vivo, uma maço de cruzeiros, num saco de Açúcar Pérola, escrito com letras garrafais VENENO, pra ninguém chegar perto.

Tinha uma avó que passava o dia com os cotovelos na janela, vendo o movimento na Rua Hermilo Alves, no bairro de Santa Teresa.

Tinha uma tia pão dura que, assim que fez sessenta anos, passava o dia andando de ônibus só pra ter o prazer de, no final do dia, contabilizar quanto havia economizado.

Tinha um tio sistemático com o seu Citroën Traction preto, ano 1947, único dono, que não gostava de tirar fotografias e virava o rosto quando ouvia o olha o passarinho.

Tinha uma tia que nunca pegou numa vassoura, num espanador ou numa flanela. Aquela que preferia tomar o café da manhã com a emprega na padaria pra evitar vasilha suja na pia.

Tinha uma tia que, aos 70 anos, contava em alto e bom tom suas aventuras sexuais nos motéis da cidade com namorados ocultos, seguramente inexistentes.

Tinha uma tia torta que, um dia, esqueceu uma calcinha enorme no varal e foi-se embora pra Ponte Nova, motivo de chacota da meninada durante décadas.

Tinha um tio exagerado que ia nas Estâncias Califórnia e voltava com cinco pães de forma – que chamávamos de pão americano – um quilo de presunto e um quilo de queijo prato pra alimentar os seis filhos.

Tinha um tio torto que era separado, que tinha cheiro de tinta e morava na Cidade Maravilhosa, onde confeccionava flâmulas do Clube de Regatas do Flamengo.

Tinha um primo, ovelha negra da família, que passava o dia jogando basquete-ball no quintal, motivo de tititi entre todas as tias, menos a mãe dele.

Tinha uma prima muito comportada que, de repente, engravidou-se aos 16 anos para espanto de todos.

Tinha uma prima muito engraçada, falastrona, que vivia perguntando a todos os homens da família se eles eram chefe e qual era os seus salários.

Tinha um primo que todos diziam que era um crânio e era mesmo. Depois de passar em primeiro lugar no ITA, ganhou uma bolsa para morar na Alemanha, numa época em que quase ninguém viajava pro estrangeiro.

Tinha uma prima que fazia todas as coleções de fascículos. De Medicina e Saúde a Bom Apetite. De Gênios da Pintura a Ciência Ilustrada. De Grandes Personagens da Nossa História a Mãos de Ouro.

Tinha uma prima que era gêmea da prima engraçada, que foi embora com o marido inaugurar Brasília e era a mais elegante de todas as primas.

Tinha uma prima que despertava paixões mas que nunca pintou romance com primo, de tanto que eles ouviam que primo que casa com prima tem filho defeituoso.

Tinha um primo advogado, o mais velho de todos, casado com uma advogada.

Tinha um primo meio doidão, meio hermitão, que era oito ou oitenta. Ora vivia numa mansão, ora voltava pra casa da mãe sem um tostão furado no bolso.

Tinha um primo que mudou-se para São Paulo novinho ainda e nunca mais voltou.

Família era família completa, que antes de ir embora no final do domingo, depois da jantarada, ainda tomava um café ralo em xícaras Colorex, com pão de meio-quilo e manteiga Itambé.

Foi na época em existiam famílias assim que a maior fabrica de refrigerantes do mundo teve uma grande ideia e lançou uma novidade nos armazéns de Belo Horizonte: A Coca-Cola de 1 litro, tamanho família.


FEIJOADA É FEIJOADA, MOQUECA É MOQUECA

Impliquei com essa onda no dia em que vi a Bela Gil preparando um churrasco de melancia na televisão. Onda de inventar moda. Adoro melancia e sempre achei que a fruta é gostosa geladinha, vermelhinha, em pedaços. Ai veio a filha do Gil com o tal churrasco, que acabou viralizando nas redes sociais. Não sei quantos milhões de pessoas curtiram, compartilharam, criticaram ou zombaram.

Adoro ver receitas nas revistas, nos livros, na televisão e agora, a qualquer hora do dia ou da noite, nos sites. Mas, venhamos e convenhamos que estão inventando moda demais.

Pra mim, feijoada é aquele prato tipicamente brasileiro que leva feijão preto, paio, rabo de porco, orelha de porco, costela de porco, carne seca, acompanhado de arroz branco, farofa, couve, bisteca de porco, banana empanada, torresminho e laranja. Sem se esquecer da boa caipirinha de limão ou de uma cervejinha estupidamente gelada.

Pra mim, moqueca capixaba é aquela que leva peixe, coentro, cebola, alho, cebolinha, pimenta, tomate, azeite de oliva e urucum.

Agora, não me venha com invenção de moda. Sexta-feira passada, logo cedo, bati os olhos no caderno Show de O Globo e estava lá, estampada na capa, a nova moda entre os cariocas: A carne na era da pós-verdade. Anunciavam ali, o bacon de coco, o picadinho de caju e a coxinha de jaca, entre outras novidades. Não, não é brincadeira, estava lá escrito. Juro por Deus.

Que papo é esse?

A minha mãe preparava um ensopadinho de chuchu que levava chuchu, um franguinho com quiabo que levava franguinho e quiabo, um tutu de feijão que levava feijão e farinha e uma broa de fubá que levava fubá.

Não existia esse papo de pode substituir a carne do hambúrguer por bolinho de soja ou o queijo chedar por tofu. Quando minha mãe anunciava que domingo ia ter arroz de forno e frango frito lá em casa, era um arroz que ia no forno, frango frito e pronto.

Tudo bem fazer um prato que leva abóbora, berinjela, batata doce, mandioca, inhame. Mas não vamos chamar esse prato de feijoada vegetariana não, combinado?

Não vamos substituir a farinha de rosca que dá aquela crocância ao bife à milanesa por um farelo de milho, né?

No restaurante, o paulistano adora mudar o cardápio. Senta e pede um estrogonofe de frango e vai logo dando as ordens:

– Dá pra trocar a batata palha por batata chips?

– Dá pra  tirar o creme de leite e o catchup?

– Ao invés de arroz branco, pode ser fritas?

– Pode substituir o frango por filé mignon?

Em poucos minutos, lá vem o garçom, pobre coitado, equilibrando aquele prato Frankstein.

Fora a Pepsi, que o freguês sempre pede pra trocar por Coca.

Só nos últimos dias, além de rever a história do churrasco de melancia da Bela Gil, o bacon de coco, o picadinho de caju e a coxinha de jaca na capa do caderno Show, meninos, eu vi:

Uma peixada feita com abóbora.

Um quibe sem carne.

Um estrogonofe de mandioca.

Um arroz de pato sem pato.

Um macarrão à bolonhesa sem carne moída.

E um espetinho de frango sem espetinho.

Sou do tempo em que não existia esse negócio de substituir ingredientes não. Se bem que lá no início dos anos 1970, nos meus tempos de Paris, um amigo meu – o Ceará – um dia estava com tanta vontade de comer uma farofa com ovo e banana e como não havia farinha de mandioca na terra do croque monsieur, ele substituiu por serragem, jurando que daria certo.

Depois de pronta a farofa – que tinha serragem no lugar de farinha – o Ceará experimentou aquela gororoba, fez cara feia, cuspiu, jogou tudo no lixo e acabou voltando pra Quixadá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br