VOU ASSIM MESMO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ando, como nunca, um bisbilhoteiro em silêncio. Como ando muito de metrô, de ônibus, de Cabify e à pé, fico de olho em tudo. Gosto de ver, de ouvir, de conversar e, às vezes, fotografar. Seja a deselegância discreta das nossas meninas de Sampa, seja a burca das senhoras de Istambul ou a elegância oriental das meninas de Tóquio.

No dia da Black Friday, por exemplo, descendo a imensa escada rolante da estação Vila Madalena do metrô, espiei a tela do smartphone de uma moça e vi que ela estava respondendo uma mensagem assim: “Número 36 é aquele que comprei e ficou apertado”.

Sentado no coletivo, observo a roupa que cada um está usando e fico imaginando como escolheu aquele modelito pra sair de casa.

Tem de tudo. Gente bem vestida, gente de qualquer jeito, bom gosto, mau gosto, roupa limpa, roupa suja. Bota, sapatênis, mocassim e bico fino.

Toda vez que penso nisso, lembro-me do poeta Paulo Leminski, com quem trabalhei no final dos anos 1980. Leminski era o que chamamos de figuraça. Fazíamos o Jornal de Vanguarda juntos na TV Bandeirantes, numa redação que era um verdadeiro muquifo em pleno Morumbi, pura elegância.

Lema, como chamávamos, ia trabalhar de qualquer jeito. Uma calça Lee surrada, sem cinto, caindo, camiseta branca encardida e muitas vezes aparecia na redação de chinelo Franciscano.

Um dia, foi surpreendido no corredor da Band pelo comentarista de economia Celso Ming.

– Paulo Leminski, você percebeu que está usando uma meia de cada cor?

Lema levantou ligeiramente sua calça Lee e constatou que Ming – que ele chamava de Dinastia Ming – estava certo. Não pensou duas vezes e respondeu na lata.

– Dinastia Ming, eu estou me lixando! Acordo, me visto no escuro e só vejo como estou quando chego na rua.

Estou lembrando dessas histórias aqui, algumas até já sabidas, porque, na verdade, o que mais tenho observado ultimamente é o trajar das pessoas no sábado de manhã, bem cedinho, quando vou ao Pão de Açúcar comprar leite fresco e depois passo na Merci pra comprar pão de laranja, um dos melhores da cidade.

Ali estão pessoas usando uma moda que eu chamo de “vou assim mesmo”. Sabe aquela preguiça que bate quando você acorda sem pão, sem leite e tem de ir comprar?

Você se olha no espelho e vê que está, como se diz lá em Minas, um trem: Sandálias Havaianas desbotadas, bermuda velha e uma camiseta do Rock in Rio 88 escrito Eu fui!

Ai você lembra que é sábado de manhã, não tem ninguém na rua, não vai encontrar nenhum conhecido e fala baixinho com os seus botões:

– Vou assim mesmo!

E vai. Chega lá e encontra pessoas na mesma situação. Mulheres usando uma legging preta quase cinza, de chinelo, cabelo sujo disfarçado num rabo de cavalo e homens com camisetas estropiadas, bermudas manchadas de cândida enfim, gente de qualquer jeito.

Outro dia, num desses sábados, minha mulher chamou a minha atenção para uma figura que escolhia entre o Pilão e o Três Corações. Ela estava com um casaco marrom e de baby-doll por baixo. Como faltava um botão no casaco, dava pra ver que ela estava com um baby-doll cor de rosa por baixo, bem do tipo vou assim mesmo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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HOJE NÃO TEM MARMELADA

Quando a gente acordava e via aqueles cartazes enormes colados nos muros, era sinal de que o circo estava chegando à cidade. Coloridos, com letras garrafais e trabalhadas, anunciavam. O circo vem aí!

A concretização daquele sonho de menino vinha quando as primeiras carretas começavam a descer a BR-3 rumo a um terreno baldio, não muito longe dali do bairro do Carmo.

Sentávamos no capim meloso à beira da estrada e ficávamos ali vendo aquele desfile que durava um bom tempo. Eram caminhões e carretas pintadas de vermelho, amarelo e azul, carregadas de sonhos e ilusões.

Quando ficávamos sabendo onde o circo seria montado, corríamos pra lá para acompanhar o passo a passo. Era uma semana inteira de trabalho, da estaca principal para montar a lona até a chegada dos animais.

Eles chegavam quando tudo já estava praticamente pronto, inclusive a serragem espalhada no chão, encobrindo aquela terra vermelha batida dos lotes vazios onde jogávamos finca.

Quando os bichos apontavam, era um espetáculo à parte. Eles vinham em carretas especiais, gradeadas e estavam sempre andando de um lado para o outro dentro daquelas jaulas, ligeiramente aflitos. Leões, tigres, ursos, macacos e quando o circo era grande, vinham também elefantes, cavalos e camelos.

Até o dia da estreia, gostávamos de passar as tardes ali, muitas vezes indo direto do Colégio Marista sem nem mesmo almoçar, só pra ver o movimento, os funcionários acertando os últimos detalhes. Encaixando as arquibancadas, dependurando bandeirinhas, molhando a serragem pra baixar a poeira, montando a bilheteria, escovando os bichos.

Ficávamos impressionados com a quantidade de carne que jogavam para as feras. Eles estraçalhavam em segundos aquelas peças de carne de terceira, com uma fome de leão.

O tratador vinha com uma caixa de bananas maduras e ia jogando uma a uma pros macacos, que descascavam e comiam, como se fossem gente.

Os camelos ruminavam sem parar um capim seco, enquanto os ursos comiam um peixe que exalava um cheiro forte e ruim.

O dia da estreia era de pura excitação. Para garantir um bom lugar na arquibancada, íamos para o circo muito antes mesmo de abrir a bilheteria. Era bonito quando entrávamos e víamos o sol que filtrava e passava por aquela lona com listras azuis e brancas. Lá estava o picadeiro arrumadinho e o trapézio balançando vagarosamente a espera dos artistas.

Quando o palhaço entrava saltitante perguntando pra meninada se hoje tinha marmelada, era sinal de que o espetáculo estava começando. Passávamos mais de uma hora ali sentados comendo pipocas, chupando drops Dulcora, fumando cigarrinhos de chocolate da Pan e bebendo Crush.

Não tirávamos os olhos de nada, observávamos cada detalhe, cada cantinho. Os leões pulando o arco de fogo, os cavalos dançarinos, os ursos equilibristas e os macacos andando de bicicleta.

As trapezistas entravam com minúsculos shortinhos de seda azul piscina, quase voando bem em cima das nossas cabeças.

Os palhaços faziam a gente rir com aqueles tapas falsos e quedas livres. Tinha um, anão, que nunca me esqueci. Era o Meio Quilo.

Nunca perdíamos o último dia de espetáculo, quando baixava uma tristeza em todos nós. Na manhã seguinte, voltamos àquele terreno para ver os funcionários desarmarem tudo e seguir viagem. A gente sonhava em ir embora com eles, viver essa vida meio de cigano andando por aí, mas nunca tivemos coragem.

Era um tempo em que vivíamos sem smartphone, sem microondas, sem Netflix, sem senhas, sem caixa 24 horas, sem Waze, sem as cores da televisão, sem cartão de crédito.

Era um tempo em que tínhamos a Varig, a Mesbla, a Revista do Rádio, o Simca Chambord, o Rintintin, o Joãozinho da piada, a enceradeira, a calça Far-West, a Família Trapo e o Circo Orlando Orfei.

[Crônica da semana publicadas no site da revista Carta Capital]

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PROFISSÃO REPÓRTER

A primeira vez que pus os pés numa redação de jornal, senti um frio na barriga, um tremor nas pernas. Entrei pela porta principal do Estado de Minas, subi as escadas e fui direto na mesa do pauteiro, que já me esperava com uma lauda na mão.

Tinha eu 21 anos de idade, Glostora no cabelo e alguns meses de faculdade. Carregava dentro de mim aquela declaração de Gabriel García Márquez a um jornal colombiano, no auge do sucesso dos Cem anos de solidão: “O Jornalismo é a melhor profissão do mundo”.

A minha pauta era passar o dia no Edificio JK, uma espécie de Copan à mineira, plantado na Praça Raul Soares. Queriam uma grande reportagem e lá fui eu. Bloquinho espiral e caneta Bic nas mãos, passei o dia observando e entrevistando pessoas no Edifício JK. O síndico, os visitantes, os vizinhos, os moradores, que iam de idosas a hippies, de travestis a executivos. O JK era uma fauna e um prato cheio – chavão da época – para uma reportagem de comportamento.

Só no dia seguinte, o segundo de trabalho, sentei na máquina de escrever e comecei a decifrar aquelas anotações feitas às pressas, quase ininteligíveis. Suei frio até colocar o ponto final. A reportagem, de página inteira, saiu na edição de domingo daquele jornal que era gordo e pesado nos fins de semana.

Quase não dormi no sábado, esperando o dia amanhecer e o entregador do Estado de Minas passar de bicicleta e jogar o jornal no alpendre da minha casa.

Quando ouvi o barulho, abri a porta, peguei o danado nas mãos e comecei a folheá-lo ali mesmo, meio desesperado, deixando de lado os classificados.

De repente, lá estava minha primeira reportagem assinada, a primeira, aquela que a gente nunca esquece. Bonita, bem diagramada, cheia de bossa. Pelo menos era assim que eu a via.

Logo cedo o telefone começou a tocar. Eram os amigos do meu pai, desorientados, perguntando se era ele quem tinha escrito a reportagem sobre o Edifício JK. O meu pai tinha o mesmo nome que eu mas era um meteorologista apaixonado pelas nuvens cumuliformes, pelo barógrafo, pelo higrógrafo, pelo heliógrafo e pelo pluviômetro, que media a quantidade de chuva que desabava sobre nós.

Acreditei mesmo no Gabo e segui em frente. Foram muitos e muitos anos de jornal e de televisão, exercendo a melhor profissão do mundo.

Nessas décadas todas, o jornalismo mudou muito. Trocamos as máquinas de escrever pelos computadores, a mocinha do arquivo pelo Google, trocamos a régua e o compasso da diagramação pelo design arrojado dos Macintoshs. Lá se foram as laudas, as radiofotos, o cafezinho em xícaras de porcelana e o contínuo que sabia direitinho quem estava ficando com quem.

Hoje, ninguém mais precisa esperar a segunda-feira para ver no jornal a radiofoto da bandeirada do Grand Prix da Inglaterra, toda cheia de riscos.

Os jornais em preto e branco ficaram coloridos e a televisão também ganhou cores e mais de cem canais. Foi-se embora o botão de horizontal, de vertical e o da luminosidade.

Um dia, um amigo meu disse que o jornalismo começou a morrer quando proibiram os feirantes de embrulhar o peixe em jornal. Fiz cara feia, na época.

O mundo hoje é outro. As noticias e as imagens entram pelo smartphone 24 horas por dia. Mas o bom e velho jornal de papel resiste bravamente. Se você passar hoje numa banca ele vai estar lá, escondidinho no meio de refrigerantes, brinquedos, chips, chocolates e chicletes. A única diferença é que agora são vendidos por quilo, embrulhados em pacotes de plástico e o aviso que é pra cachorro.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

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“COISA DE PRETO”

Toda vez que Gilberto Passos Gil Moreira, ainda com um pé na administração de empresas, aparecia na tela daquela televisão valvulada e sem cor, no canto da sala de uma casa em Santo Amaro da Purificação, Dona Canô, uma baiana cem por cento, enxugava as mãos no avental e chamava:

– Caetano, vem correndo ver aquele preto que você gosta!

O jovem Caetano, ainda caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, parava encantado diante da tela e ficava admirando aquele preto de rosto redondo dedilhando o violão, cantando suas primeiras canções, ainda meio bossa nova: Serenata de Teleco-TecoMaria Tristeza, Vontade de Amar e Meu luar, minhas canções.

Era agosto de 1964, o golpe militar ainda estava fresco e o marechal Castelo Branco aquecendo a cadeira de ditador, quando Caetano conheceu o preto da televisão que ele gostava tanto.

Com a irmã Maria Bethânia, Tom Zé, Alcyvando Luz, Antônio Renato, Djalma Corrêa e Fernando Lona, todos doces bárbaros, montou um espetáculo para inaugurar o Teatro Vila Velha, em Salvador: Nós, por exemplo.

Gilberto Passos Gil Moreira virou simplesmente Gilberto Gil e nunca deixou de ser aquele preto que aparecia na televisão e encantava Caetano e a todos nós.

Foi ele que um dia cantou para o Brasil uma canção chamada Sarará Miolo:

Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo

Foi aquele mesmo preto que um dia, ao lado de Chico Buarque, cantou as mãos da limpeza:

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída
Imagina só
Vai sujar na saída
Imagina só
Que mentira danada
Na verdade a mão escrava/Passava a vida limpando
O que o branco sujava
Imagina só
O que o branco sujava
Imagina só
O que o negro penava/Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza
Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza

Foi aquele preto que, com sua guitarra em punho, definiu a raça humana:

A raça humana é uma semana do trabalho de Deus
A raça humana é a ferida acesa
Uma beleza, uma podridão
O fogo eterno e a morte
A morte e a ressurreição
A raça humana é o cristal de lágrimas da lavra da solidão
Da mina cujo o mapa trás na palma da mão
A raça humana risca, rabisca, pinta, a tinta à lápis, carvão ou giz

Foi aquele preto que um dia apareceu na tela da televisão lá em Santo Amaro da Purificação, agora em cores, para cantar a oração pela sua libertação da África do Sul.

Se o rei Zulu já não pode andar nu
Salve a batina do bispo Tutu
Ó, Deus do céu da África do Sul
Do céu azul da África do Sul
Tornai vermelho todo sangue azul
Já que vermelho tem sido todo sangue derramado
Todo corpo, todo irmão, chicoteado
Senhor da selva africana, irmã da selva americana
Nossa selva brasileira de Tupã

Foi aquele preto da televisão que, num dia de verão, fez Paris inteira cantar: Touche paz à mon pote, cuja letra, em bom português, diz que o Ser que fez Jean-Paul Sartre pensar é o mesmo que fez Yannick Noah jogar.

DOIS MIL E DEZOITO

Quando novembro chegava, era sinal de que o Natal não estava muito longe. Era na primeira semana do mês que um caminhão Dodge1958 parava na porta da nossa casa e buzinava.

O meu pai ia lá e acompanhava a descida da carroceria de um engradado com um peru, vivo. O bicho, ofegante de uma viagem de Ponte Nova a Belo Horizonte, era levado pro quintal. Minha mãe vinha logo com uma latinha de marmelada Cica com água fresca para recompor o danado.

O meu pai chegava com o martelo na mão e começava a desencaixotar o peru, retirando grampo por grampo, prego por prego. De repente, ele estava solto no galinheiro, todo serelepe, sacudindo o corpo e dando suas primeiras glugluzadas.

Pobre coitado, não sabia o que o esperava.

Nos supermercados não havia, para vender, peru morto, congelado, temperado, ou com apito. Para comer um na ceia do dia 24, era preciso comprar, vivinho da silva.

O nosso vinha de Ponte Nova, terra da minha mãe e do João Bosco, e era de graça, presente de um tio torto, o Zezé Santana. O peru ficava ali engordando no galinheiro um mês e pouco, às vezes procurando briga com o galo índio, o dono do pedaço.

Os vizinhos não se importavam com o barulho que ele começava a fazer logo cedo, quando o meu pai chegava no quintal e assobiava. Era só assobiar que ele soltava o seu gluglu.

O peru no galinheiro era o começo de tudo. Minha mãe descia do sótão as caixas com o presépio, as bolas e os penduricalhos da árvore e os enfeites vindos da América do Norte que espalhávamos pela casa, desejando Merry Christmas e Happy New Year.

Ela começava a fazer uma lista de compras e a observar, no Mercado Central, se as frutas secas já estavam com um preço bom e se as uvas Niágara já estavam docinhas. O meu pai ficava de olho no garrafão de Sangue de Boi.

Na metade pra frente do mês de novembro começava o fuzuê na nossa casa. O meu pai pegava papel, régua e compasso e bolava como seria o presépio daquele ano. Engenheiro, calculava cada centímetro quadrado numa projeção em 3D, numa época em que ninguém ainda falava em 3D.

Quando dezembro chegava, o clima de Natal esquentava. Minha mãe comprava pêssegos e figos verdes pra preparar compotas e passava horas descascando aquelas frutas, que deixavam sua mão preta de nódoa.

Lá pelo dia 20, era o dia da matança do peru. Uma cena cruel que nunca saiu da cabeça dos cinco pequenos Villas. Era um ritual. O meu pai dava uma talagada de cachaça pro bicho, antes de começar o assassinato.

Depenava o pescoço e passava a faca afiada. O sangue esguichava e ia caindo num prato de ágata com um pouco de vinagre para não talhar. Muitas vezes – lembro-me bem – o danado escapulia de suas mãos e saía pulando pelo quintal, já sem cabeça, espirrando sangue no muro branco que deixava minha mãe muito furiosa.

No dia 24, o meu pai levava o peru para assar na Padaria Savassi. Era no porão da padaria que ficavam aqueles perus enfileirados, devidamente etiquetados pra ninguém levar pra casa o peru de outro.

Paro por aqui porque esse ano, sei lá, não estou sentindo clima de que vai haver peru, que vai haver presépio, árvore, compotas de pêssego e figo, nem Sangue de Boi.

Não vai haver rabanadas como aquelas que minha mãe fritava num tacho de cobre, nem mesmo presentes nos sapatos. Desconfio que não vai ter Merry ChristmasHappy New Year, sequer Brasil.

[Crônica da semana publicada no site da revistas Carta Capital]

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RENASCI

Por volta de sete horas da manhã, o mensageiro, montado num cavalo branco, chegou com a notícia. Pulei da cama patente quando a tramela virou e a porta se abriu. Era Leninha com a novidade.

– Seu irmão pediu pra você ligar pra Belo Horizonte!

Pensei logo na morte de alguém. Só podia ser, aquela hora da manhã.

A Fazenda do Sertão ficava no interior de Minas Gerais, tão interior que não havia luz elétrica, telefone, geladeira, nada disso. Até o café adoçávamos com rapadura porque açúcar refinado não havia ali.

Pegando carona no mesmo pangaré do mensageiro, fui até o povoado de Soberbo, onde havia um único telefone, e pedi uma ligação pra Belo Horizonte. Época que, para falar interurbano, era preciso pedir uma ligação.

A noticia chegou pela voz do meu irmão, do outro lado da linha.

– Você ganhou um concurso de contos no Paraná!

Gelei.

Tinha eu dezenove anos de idade e me preparava para ser doutor. Fazia um cursinho para medicina quando vi, num canto de página na revista Realidade, um anúncio do Concurso de Contos do Estado do Paraná.

Sentei na Remington do meu pai, coloquei três folhas de papel A4 e dois carbonos. Era o que exigia o regulamento do concurso, um original e duas cópias legíveis.

Escrevi um conto chamado Nasci, que começava assim:

Era novembro de 1949, um domingo. Talvez o lugar mais perto fosse infinitamente longe daquele barraco de zinco feio e pobre. Chovia muito e os pingos no telhado pareciam pedras atiradas numa vidraça, fazendo um barulho horrível. Meu pai estava em Leningrado desde janeiro e minha mãe por aqui, só, mordiscando a ponta do lápis toda vez que riscava mais um dia na folhinha dependurada atrás da porta da cozinha.

No conto, narrava a minha história dentro da barriga da minha mãe, uma saga que durou exatos nove meses.

Arrumei a mala de couro e fui-me embora para a capital, num velho ônibus da Viação Pioneiro. Foram algumas horas de buracos e comendo poeira até chegar na rodoviária de Belo Horizonte.

Pela janela, via as montanhas lá longe e não podia imaginar o que estava por vir. Não havia contado pra ninguém, nem mesmo da família, que estava participando de um concurso de contos. Meus pais, meu irmão, minhas irmãs, avó, tios, tias, primos, ninguém sabia da existência desse menino que escrevia.

Na rodoviária, vi a noticia na primeira página do Estado de Minas, dependurado na banca de jornal.

Mineiro anônimo vence Concurso de Contos do Paraná

Com o autor refugiado de férias numa fazenda, entrevistaram o meu irmão que declarou solenemente: “Ele ia fazer vestibular para Medicina mas agora, acredito eu, que com essa vitória no Paraná, vá fazer Jornalismo”.

Foi assim que abandonei a ideia de trabalhar com bisturis para trabalhar com máquinas de escrever.

Peguei o primeiro avião pra Curitiba e lá fui eu, de terno e gravata, receber o prêmio. Se a memória não falha, um prêmio de 2 mil cruzeiros, uma pequena fortuna na época, para quem ganhava um salário mínimo como Escrevente Datilógrafo no Ministério da Agricultura, meu primeiro emprego.

Voltei todo animado pra minha terra e na primeira entrevista declarei, ao mesmo Diário de Minas: “Com parte do dinheiro, vou comprar um jipe para viajar pelo Brasil!”

Nasci foi publicado numa revistinha underground de BH, a BelContos, e só. Sempre reneguei aquela primeira experiência literária, nunca vi valor nela, também nunca entendi o porquê.

Arrumando o meu baú, deparei com velhos exemplares da BelContos e resolvi reler Nasci. Continuo renegando. Acho que nem mesmo meus filhos já leram o conto premiado. Li, reli, e tomei a decisão de reescrevê-lo, metido a Murilo Rubião.
Um dia, quem sabe eu o publico aqui na Carta Capital?

Agora, quanto ao jipe, nunca comprei. Na verdade, nunca dirigi um automóvel nessa minha vida de escritor.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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UMA FOTOGRAFIA NA PAREDE

De Lilás, guardei a imagem das gotinhas de sangue que pingaram quando cortei o umbigo do meu primeiro filho, ali na clínica do Doutor Frédérick Leboyer.

De Paris, guardei calos nas mãos, lembrança da vida de operário construindo autoestradas que rasgavam a paisagem roxa de lavandas.

De Belo Horizonte, guardei a casa da rua Rio Verde onde nasci, hoje demolida para dar lugar a um empreendimento imobiliário que ganhou o nome de Memorial Villas.

De Istambul, guardei a reza com tons de lamento que ecoava dos autofalantes das mesquitas todos os dias, seis horas em ponto.

De Amsterdam, guardei aquela draga retirando dezenas e dezenas de bicicletas do fundo dos canais.

De Havana, guardei os retratos de Fidel nas carteirinhas das meninas de trança saindo da escola.

De Kaymakli, guardei a música Olhar 43 na voz de Paulo Ricardo, saindo de um radinho de pilha num hotelzinho de barro onde dormi, fugindo das bombas.

De Tóquio, guardei a delicadeza da vendedora da Uniqlo pegando o meu cartão de crédito com as duas mãos e me explicando que ele seria colocado numa máquina para me cobrar 98 ienes.

De Abidjan, guardei o vapor da sopa quente de pimenta que tomei na calçada, no dia em que o povo foi às urnas eleger Félix Houphouët-Boigny o seu presidente.

De Londres, guardei a performance de Sid Vicious e Johnny Rotten num show que vi quando era fã dos Sex Pistols.

De Estocolmo, guardei a imagem da cidade branca de neve que via da janela de um castelo, enquanto esperava a princesa Silvia para uma entrevista.

De Praga, guardei o jogo americano do McDonald’s que oferecia, além do Big Mac, meio repolho cru.

De Damasco, guardei o gosto das tâmaras que serviam no café da manhã num albergue pobre onde dormi.

De Roma, guardei o ronco das lambretas que passavam levando freiras, padres e coroinhas para lá e pra cá.

De Kyoto, guardei uma pedra porosa que colhi no Templo Kinkaku-ji para enfeitar minha escrivaninha.

De Beirute, guardei o rastro dos jatos israelenses ameaçadores cortando o céu que nos protegia.

De Montevidéu, guardei a busca incansável atrás do fusca azul de José Mujica, que nunca vi.

De Brasília, onde morei menino, guardei o verde tão lindo dos gramados campos de lá.

De Santiago, guardei a estátua de Salvador Allende na porta do Palácio de la Moneda, onde o presidente socialista morreu de susto e de bala.

De Viena, guardei os petit fours das vitrines das confeitarias, que mereciam ser embrulhados pra presente, um a um.

De Buenos Aires, guardei o sabor da tábua de frios do adorável Café Tortoni.

De Manaus, guardei a gordura escorrendo das costelas de tambaqui no Canto da Peixada.

De Cuiabá, guardei as histórias de capivaras que o repórter Heraldo Pereira contava todas as noites, na mesa do Caxara na Brasa.

De Dacar, guardei os lambris das paredes do aeroporto internacional onde, numa madrugada de chuva, fizemos um pouso forçado.

De Cataguases, guardei o primeiro beijo tímido e torto, ali na praça Santa Rita, depois de uma festa de São João.

Do Rio de Janeiro, guardei um tiroteio na Rua Farme de Amoedo, no meio da madrugada quando voltava do show da vida.

De Barcelona, guardei as linhas tortas da Casa Milà riscadas por Antoni Galdi.

De Lisboa, guardei o Guia Fernando Pessoa que comprei na Livraria Bertrand, indicando as ruas por onde andou.

De Berlim, guardei a fotografia da seleção da Alemanha Oriental vestida de azul, que vi dependurada na parede do museu da DDR.

De Ouro Preto, guardei as performances de Julian Beck e Judith Malina numa noite fria em praça publica, quando a polícia chegou.

De Ouagadougou, guardei a única partida de rugby que vi e nada entendi.

De Atenas, guardei o gosto da melhor melancia do mundo que comprei numa barraquinha na periferia.

De São Miguel dos Milagres guardei a esperança que não vinha do mar nem das antenas de TV.

De Ponte Nova, guardei a goiabada cascão da Zélia e o queijo do Armazém de Zezé Santana, que comíamos de joelho.

De Sófia, guardei os biscoitos wafer que fui obrigado a comprar com o dinheiro local para poder entrar na Bulgária.

De Itabira, que vou conhecer nesse fim de semana, quero guardar aquela fotografia na parede e sentir como dói.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TUDO PASSA

Quando lancei o meu primeiro livro  – O mundo acabou! – há dez anos, reuni nele tudo que tinha sumido do mapa com o tempo. Tudo mesmo. Do horizontal da TV ao Simca Chambord, do Crush às calças Far-West, da fotonovela ao Mug.

Dez anos se passaram e as coisas continuam desaparecendo. Hoje, algumas pessoas se lembram com saudade do Orkut e outros nem se lembram mais da palavra sumidade.

Lendo uma carta que Jorge Amado escreveu em 1994 a José Saramago, me deparei com um baiano espantado perguntando ao português como era possível ter vivido, até então, sem o fax. Pobre fax, que surgiu como uma revolução e está se despedindo do mundo como uma tralha pesadona e ultrapassada.

No meu livro, eu não lamentei melancolicamente a morte de algumas coisas, apenas constatei com um tiquinho de saudade, por exemplo, o fim da revista em quadrinhos do Reizinho, da banana Split das Lojas Americanas, dos soldadinhos que vinham dentro do vidro do Toddy e daquele brinquedo chamado O Pequeno Cientista que um dia ganhei do Papai Noel.

Senti saudade das garotas do Alceu nas páginas da O Cruzeiro, daquela brincadeira da Língua do P, da primeira japona que ganhei e de um programa que passava na TV Itacolomi chamado Agarre o que puder.

Mas, sinceramente, não senti saudade nenhuma daquele sabonete Maderas do Oriente que ganhava da minha tia todo aniversário. Odiava ganhar sabonete de aniversário e ela insistia em me dar uma caixa com três.

Como também não senti saudades das camisas Volta ao Mundo que espetavam, do Ki-Suco que tinha gosto de remédio, nem da escola de datilografia que minha mãe não sossegou enquanto não tirei o diploma.

O mundo caminha e, como disse George Harrison em seu primeiro disco solo, tudo passa.

Nesses dez anos que passaram, a gente está vendo o desaparecimento de muita coisa. Acredito que, em pouco tempo, não teremos mais jornal de papel, chave ou cheque. O jornal agora está na tela, a chave está virando cartão e do cheque vai sobrar apenas o nome, principalmente quando falamos de cheque especial.

Brinquedos desaparecem, revistas desaparecem, programas de televisão desaparecem, automóveis desaparecem, modas desaparecem, costumes, gírias, piadas, tudo desaparece.

Essa semana, andando pelas ruas de São Paulo e olhando de vez em quando pra cima, senti falta de uma coisa.

Onde andam os tênis que viviam dependurados nos fios da cidade? Por tudo quanto é canto que passávamos, lá estava o par de Bamba estropiado balançando no fio. Se não era Bamba, era Kichute ou Conga.

O tênis ficava velho e os jovens adoravam jogar ele pra cima, até que ficasse lá apodrecendo pela chuva. Perguntei para amigos porque as pessoas não jogam mais o tênis nos fios e vieram algumas respostas.

O tênis está custando muito caro. Ninguém tem coragem de jogar um Nike, um Puma, um Le Coq Français, um Misuc ou um Asics pros ares, por mais escangalhado que esteja.

Segundo, os homens da Vivo, da Net, da Tim, da Claro e da Oi vivem subindo nos postes e mexendo nos fios. Se alguém se atrever a jogar um tênis lá, ele não dura meia hora. Em outros tempos, os fios de telefone, que eram fixos, e os de luz, ficavam lá quietinhos anos e anos. Agora a coisa mudou.

Olha, eu decidi que assim que o meu Adidas acabar de acabar, vou amarrar um par no outro e jogar pra cima. Quero só ver quanto tempo ele vai ficar ali balançando no fio que passa na porta da minha casa.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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BELEZA INTERIOR

Sou um ser urbano. Daqueles que mora numa selva de pedra, cheira fumaça de gasolina, corre dos automóveis para não ser atropelado, enfrenta fila de espera no restaurante e acha bonito o que é feio nas paredes da cidade.

Quando pequeno, tinha um pé no galinheiro. Cuidava das minhas galinhas, dos patos, das codornas e dos perus. Regava as taiobas da minha mãe e comia jabuticabas no pé. Guardava o meu bodoque, andava descalço e me equilibrava em muros, mesmo aqueles com cacos de vidro pra espantar ladrões.

De tempos em tempos, volto ao interior para abastecer minha alma de jornalista e escritor. Recarregar a munição para enfrentar a guerra diária por aqui. Foi o que aconteceu na semana passada quando pegamos a estrada com destino à felicidade.

Foi lá que revi lojas com nomes de A Favorita,  A Noiva Moderna e A Barateira. Vi homens de chapéu sentados na mesma praça, no mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Não consegui captar o que conversavam, enquanto o sol atravessava a cidade de cabo a rabo, do nascente ao poente.

É em cidades assim que a gente ainda vê ruas calçadas com pedras irregulares, casinhas coloridas, a Oficina do Baiano, a Farmácia do Djalma e placas como Miudezas em Geral, Secos e Molhados e Servimos Prato Comercial. São cidades cheias de Bar & Lanches, cidades onde os nomes do comércio continuam simplórios: Padaria Dois Irmãos, Dora Modas ou Mecânica Irmãos Reis.

não que a modernidade não tenha chegado por aqui. As pessoas olham sem parar as telas dos seus smartphones e escrevem mensagens com uma rapidez que eu, apesar de exímio datilógrafo, diplomado, nunca consegui.

Os shoppings centers com o Boticário, o Starbucks, a Side Walk, o Spoleto e a Vivenda do Camarão ainda não chegaram por aqui porque Cunha e São Luiz do Paraitinga não comportam. Ainda bem.

É em cidades assim que as famílias ainda colam nos postes os avisos de morte. Fiquei sabendo que Serafim Matoso morreu aos 81 anos e que o enterro seria daqui a pouco no Cemitério da Cidade. O único.

Um fim de semana em Cunha, passando por São Luiz do Piraitinga não é apenas sair de São Paulo. É uma viagem à infância. De repente me vejo espiando na janela de uma casa para ver se, lá dentro, ainda enxergo a foto do casal, colorida à lápis, dependurada na parede da sala.

Se a televisão ainda é em preto e branco e alguém está mexendo no botão do horizontal. Se nos armazéns de secos e molhados, de miudezas em geral ainda encontro bombas de Flit, Mirinda Morango, o pirulito de chocolate da Kibon, fósforos marca Olho, drops Dulcora, sabonetes Myrugia, um espiral para matar pernilongos ou uma caixa de Modess Pétala Macia.

Ando pelas ruas da cidade procurando o Banco Nacional, a Mesbla, a loja da Varig, a carrocinha de cachorro, alguém calçando  tênis bamba ou um telefone publico que ainda funciona com ficha.

Nada disso.

O que mais vejo são os automóveis que sumiram das metrópoles. As ruas estão cheias de Polaras, Fuscas, Unos Mille, Kadetts, Belinas, Ipanemas, Opalas, Vemaguetes e Corcéis 73.

No último dia, já saindo da cidade, quando paramos numa esquina, vi estacionado na garagem um carro que nem me lembrava mais, apesar de nem tão antigo assim. Vi um Twingo azul calcinha tinindo, conservadíssimo, um brinco.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AS QUATRO ESTAÇÕES

foto Alberto Villas

O susto começou com o choque térmico, quando voltei ao Brasil depois de sete invernos. Zurique ficou pra trás abaixo de zero e o Rio 40 graus chegou depois de doze horas de voo, em plena terça-feira de Carnaval.

Nos anos longe daqui, fui me acostumando, aos poucos, com cada estação. Cheguei no auge de um rigoroso inverno e convivi os primeiros meses com a cidade encoberta por nuvens de um cinza quase chumbo. Era o céu que tínhamos para nos proteger.

Nos primeiros dias, saía de casa levando um guarda-chuva, acreditando que um toró iria desabar sobre nossas cabeças a qualquer momento. Acostumei-me com aquele ritual de meias de lã, ceroulas, luvas e gorro na cabeça antes de por os pés na rua e o clarear apenas às nove horas da manhã.

Vi neve pela primeira vez, escorreguei no Boulevard Saint-Michel, quase caí. Fiz fotos, revelei e mandei pro Brasil.

Acostumei com as árvores sem folhas que, de início, achei que estavam todas mortas, marinheiro de primeira viagem.

De repente, foi chegando assim de mansinho, a primavera. O primeiro sinal foram os brotinhos verdes despontando nas árvores secas que não estavam mortas nada, apenas hibernando.

Os primeiros raios de sol apareceram na janela do nosso apartamento e cantamos juntos com George Harrison, Here Comes de Sun.

Aos poucos, a cidade foi ficando toda verde e iluminada. As pessoas começaram a colocar as manguinhas de fora, a deitar na grama dos parques e arriscar a primeira lambida no copinho de sorvete de pistache do Berthillon.

Depois da primavera, veio o verão. E veio pra valer. Com todas as suas cores e lufadas de vento quente à beira do Sena, outrora caudaloso, cinza e sombrio.

A cidade ficou vazia de seus moradores e foi invadida por turistas que circulavam com a cabeça cheia de ideias e máquinas fotográficas nas mãos. Com os seus mapas abertos, iam de norte a sul, de leste a oeste, descobrindo as surpresas da cidade mais linda do mundo.

O verão foi longo, só foi desaguar no fim de setembro, quando o vento chegou derrubando as folhas agora secas das árvores. Elas caíam sem parar e, com uma super-8 na mão, ia registrando aquele balé dourado, o começo do outono, o fim do verão.

Foi assim durante muitos e muitos anos passados fora, praticamente sem ver o mar, mas maravilhado com o verde tão lindo dos gramados campos de lá.

Era batata. Todo ano tinha, religiosamente, inverno, primavera, verão e outono, como se ilustrassem as quatro estações, obra prima de Antônio Vivaldi.

De volta, custei a me acostumar com o nosso país tropical. Não foram poucos os dias em que senti na pele o inverno, bem cedinho, a primavera no meio da manhã, o verão no inicio da tarde e o outono ao escurecer.

Vivi um verão que não acabava mais, durante uma longa temporada em Manaus. Fui curtir o nosso inverno em Penedo e o verão em São Miguel dos Milagres. Só faltou o outono, que nunca encontrei direito por aqui.

Agora, o calendário garante que a primavera acabou de chegar. Olho da janela e vejo, lá fora, o sol de verão, algumas folhas do outono caindo e, do outro lado da cidade, vejo nuvens cinzas do inverno e os ipês amarelos da primavera. Tudo ao mesmo tempo, ao som de Tim Maia.

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti, pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Porque é primavera e eu trago pra ti esta rosa para te dar porque, pensando bem, hoje o céu esta tão lindo, vai chuva!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TELEFONE

Com o adiantado da idade, muitos jovens começam a me perguntar sobre a vida, como ela era. Hoje vou falar do telefone.

Ele era preto, pesado, fixo, preso por um fio. Ficava geralmente na sala de jantar, em cima do catálogo telefônico.

O catálogo era um calhamaço, metade branco, metade amarelo. Nas páginas brancas os nomes e os números de todas as pessoas que possuíam um telefone. Ordem alfabética e por endereço. Nas páginas amarelas, anúncios.

O telefone era de disco e a gente ficava girando, compondo o número de quem queríamos falar.

A gente tirava do gancho e ele estava sempre mudo. Ficávamos um tempão esperando ele dar o sinal.

Com o telefone, passávamos trote porque ninguém sabia, nem desconfiava, quem estava ligando.

– Quem está na linha?

– É o Juarez.

– Então sai da linha que lá vem o trem, Juarez.

Eram trotes bobos mas nós nos matávamos de rir.

Telefone custava uma fortuna, o preço de um Volkswagen. Era tão caro que quem tinha um, era obrigado a declarar no Imposto de Renda

Havia uma loja que se chamava Banco do Telefone. Lá, eles informavam quanto estava valendo o seu número naquele momento. Muitas pessoas não vendiam, esperando valorizar.

Gente pobre não tinha telefone mas, na comunidade, sempre tinha alguém que tinha. Então esse número era passado adiante e, em seguida do número, entre parênteses, vinha a palavra recado.

Todo mundo sabia de cor o telefone de todo mundo, principalmente dos parentes, da farmácia, do armazém, da Rádio Patrulha e do Corpo de Bombeiros.

Para comprar um telefone, você precisava entrar numa fila de espera da Companhia Telefônica e, só por um milagre, eles te chamavam.

A primeira música registrada no Brasil, como samba, chamava-se Pelo Telefone. Foi composta por Donga e Mario de Almeida em 1917 e dizia assim:

O chefe da polícia 

Pelo telefone

Manda me avisar

Que na Carioca tem uma roleta

Para se jogar

Na escola, nas aulas de História, éramos obrigados a decorar quem foi o inventor do telefone. Todo aluno sabia que foi o inglês Alexander Graham Bell.

Não havia DDD nem DDI. Para fazer uma ligação para outro estado ou outro país, era preciso chamar a telefonista e pedir a ligação que, às vezes, demorava horas. E quando a ligação saía, a gente tinha que quase gritar pra pessoa do outro lado da linha ouvir.

O preço da ligação interurbano era muito alto e as pessoas falavam somente o necessário e numa velocidade estonteante.

– Tô ligando pra dizer que tia Maricota morreu e o enterro é amanhã cedo!

Todo adolescente passava horas conversando no telefone e todo pai ficava uma fera quando tentava falar com a casa e estava sempre ocupado, com o adolescente na linha. Quando ele conseguia, era uma bronca de todo tamanho.

– Tem duas horas que estou tentando ligar ai!

Havia uma brincadeira idiota chamada dar um telefone. Era dar um tapão nas duas orelhas ao mesmo tempo, deixando a pessoa ouvindo aquele zumbido durante um tempão.

Quando a conta do telefone chegava, todo mundo levava um susto com o valor e sempre descobria um telefonema para uma cidade lá do interior do Piauí que ninguém sabia quem foi que deu.

Em 1969, o telefone era uma coisa tão importante que ele foi capa da revista Veja, quando a revista Veja era uma revista muito importante.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NOSSA MASTERCHEF

A Margarida é imbatível na culinária. Não conheço ninguém que cozinha melhor do que ela. Tudo que faz é de comer de joelhos. Seja um singelo ovo frito ou uma simplória salada de alface. Não existe igual.

Onde ela põe a mão, tudo fica delicioso, parece mágica. Até mesmo aquele mexidão de fim de noite, tipo Lavoisier. Na carne louca, no risoto de aspargos, na polenta com ragu, na sopa de legumes, no caldo verde, a Margarida é um espetáculo. O creme de cupuaçu, uma de suas especialidades, é divino e maravilhoso.

Mas a minha sogra tem um particular: Não gosta de seguir à risca receita de ninguém. Seja Rita Lobo, Claude Troigois, Rodrigo Oliveira, Henrique Fogaça, Nigella Lawson, Paola Carosella, Tatiana Cardoso, Olivier Anquier ou Jamie Oliver. Ela gosta de mudar, de ir adaptando as receitas, fazer do seu jeito.

Aqui em casa funciona mais ou menos assim quando ela assume a cozinha: A Paulinha abre o laptop na bancada e coloca todos os livros da Panelinha ao seu inteiro dispor. Ela dá só uma olhadela por cima e pede pra ir ditando os ingredientes.

– Dois ovos!

– Não precisa de dois, só um ovo basta.

– Duas xícaras de farinha de trigo integral.

– Não precisa ser integral.

– 200 gramas de manteiga.

– Duzentas? Vou por cem.

– Três copos de leite.

– Vou colocar um e meio.

– Vai precisar de um abacaxi em pedaços.

– Banana picada fica muito mais gostoso.

– Deixe descansar por 15 minutos.

– Não precisa disso tudo.

A Margarida vai mudando a receita, mudando, mudando e o resultado é sempre surpreendente, muito melhor do que o original.

É sempre assim. Ela não se conforma com os ingredientes das receitas, tampouco com as medidas. Outro dia ela começou a fazer um feijão tropeiro, foi mudando tanto que chegamos a uma deliciosa feijoada completa.

E que feijoada!

Eu até que arrisco umas coisinhas na cozinha aqui em casa, mas perto dela sou um Zé Mané qualquer.

A Margarida faz bolos que deixa qualquer pâtissier no chinelo. Bolo de laranja, de fubá, de coco, recheado com morango e leite condensado, de chocolate belga, quase todo dia ela faz um e cada um melhor que o outro.

Tem mais um detalhe. Ela também não gosta de ver ninguém por perto ajudando ou palpitando.

– Não é assim que corta cebola!

– Não pode picar o tomate tão pequeno!

– Tirou o caroço da azeitona?

– Não! Não! Não! É preciso lavar e secar o arroz.

– Você esqueceu de deixar o feijão de molho, né?

– Tá errado! Morango tem de ser orgânico!

A bagunça que nossa querida Margarida faz na cozinha é um capítulo à parte. Não vou entrar em detalhes porque ela não vai gostar. Mas já teve um dia que, depois de fazer um risoto de aspargos aqui no domingo, tinham 16 panos de pratos usados, sete panelas, onze facas, cinco colheres de pau, três raladores de queijo, sem contar os potes e gamelas.

Só pra ferver uma água, às vezes ela usa umas quatro panelas.

A verdade é que a Margarida cozinha mesmo como ninguém. Não existe língua de boi com ervilhas melhor que a dela. E a salada de bacalhau? E a rabada com cenoura?

Mas se você esta achando que a minha sogra não se conforma apenas com as receitas dos chefs e seus ingredientes, ledo engano. Ela não se conforma também com as bulas de remédio, nem mesmo obedece as indicações daquela voz do Waze.

– A 200 metros, vire à direita.

Vou virar à direita coisa nenhuma. Cê tá maluco?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ÀS MOSCAS

As moscas marcaram uma presença forte e constante durante toda a minha infância e juventude. Tinha mosca pra tudo quanto é lado. Não que eu vivesse num lixão ou coisa parecida. Elas estavam é dentro da minha casa.

Lembro-me bem da minha mãe espantando moscas na cozinha na hora de abrir a lata do Leite Moça pra fazer pudim. Elas entravam pelo basculante, ficavam sobrevoando a fruteira, o açucareiro, pousavam no teto, se equilibravam na boca da jarra de laranjada, sem o menor constrangimento.

Na hora do almoço, lá estavam elas sobrevoando a mesa, tentando pousar em algum lugar. Meu pai vinha com uma régua de madeira, assassinando uma a uma, em golpes certeiros. Mas algumas conseguiam se safar e voltavam minutos depois.

As moscas fizeram parte da minha vida durante muitos e muitos anos. Quem não se lembra da expressão comeu mosca? Era aquele cara desatento que perdeu o fio da meada, pegou o bonde andando.

E tinha mais.

Mosca morta era aquela figura meio lesa, meio devagar, sem sal.

Acertou na mosca era quando a professora perguntava a capital da Noruega e a gente respondia na lata: Oslo!

Quem não se lembra da expressão em boca fechada não entra mosca?

E nos jogos do meu América Mineiro, que os locutores viviam dizendo que o campo estava praticamente às moscas?E o cara que bobeou, que deu uma moscada?

Quem não se lembra daquelas lâmpadas azuis nos lustres, pra espantar as moscas dos pães doces nas padarias?

Millôr Fernandes, um dia, escreveu que “pior não é morrer. É não poder espantar as moscas”.

Ela já foi capa do jornal Opinião no auge da repressão, já foi capa daquele primeiro disco experimental de Walter Franco, já virou até filme. Quem não viu A Mosca, de David Cronemberg? Ela já foi musa de Raul Seixas quando pousou na sua sopa e até atriz principal do filme Fly, da Yoko Ono.

Não sei se o Globo Repórter já fez um programa sobre ela, explicando quem são, de onde vieram, onde vivem, de que se alimentam, mas a verdade é que elas estão desaparecendo. Pelo menos aqui em São Paulo, no meu bairro, na minha casa, está cada vez mais difícil ver uma mosca.

A última aparição dela, em grande estilo, foi no dia 2 de maio do ano passado, na primeira página da Folha de S.Paulo, mais precisamente no rosto da então presidente Dilma Rousseff. Mas, no dia seguinte, veio o Erramos: “A legenda da sequência de fotos com Dilma Rousseff afirma que a presidente estaria sendo perturbada por uma mosca. Não é possível afirmar com precisão, entretanto, se o inseto é, de fato, uma mosca”. Ficou a dúvida no ar.

Não que eu sinta falta delas, na verdade, mosca enche o saco, mas hoje acordei intrigado com essa história de as moscas estarem sumindo do mapa.

O mais impressionante dessa história toda é que quando eu terminei esse texto e fui regar minha pequena horta na varanda do meu apartamento, lá estava uma, paradona, esperando pra ser fotografada, acho que pra ilustrar essa crônica e contrariar minha tese.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NÓS

Durante mais de uma década, os meus fins de semana foram na chamada Cidade Maravilhosa. Lembro-me bem daqueles domingos de sol, logo cedo, eu saindo do Hotel Ipanema Plaza e nadando contra a maré humana a caminho da praia. Vestindo jeans, camiseta e calçando sapato e meia, eu caminhava para o Jardim Botânico porque o show da vida me esperava.

Passava o dia na redação do Fantástico e, da janela, de vez em quando, espiava a vida lá fora. Jovens passavam voando em seus skates, casais passeavam com os seus bebês nos carrinhos e mocinhas desfilavam de bicicleta. Muitos esperavam o ônibus perto da Pacheco Leão, a caminho das areias de Copacabana, Ipanema e Leblon.

Era na esquina da Pacheco Leão que estava a Padaria Século XX. O movimento ali – da janela dava pra ver – era contínuo. E eu, pra descansar a cabeça e forrar o estômago, descia por volta do meio-dia. Pedia sempre o mesmo, um pão com pernil com gotinhas de limão e uma Fanta Laranja. O português já sabia o meu gosto e quando eu sentava naquele banco surrado, ele já soltava um “o de sempre?” Sim, o de sempre!

Era na Século XX que eu encontrava, quase todos os domingos, Luiz Melodia. O Negro Gato morava ali na esquina mesmo e sua presença na padaria, domingo cedo, era sagrada.

Melodia era apenas um carioca com um copo de Brahma Chopp na mão, ali de pé, domingo de sol, na porta da Século XX. Calçava chinelos Ryder, uma bermuda florida e uma camisa aberta no peito.

Custei a chegar perto dele. Mas um dia cheguei. Aos poucos, fui confessando minha paixão por sua música, desde Pérola NegraEstácio, Holly Estácio e Ébano. Contei que havia transformado quase todos os seus vinis em modernos CDs, mas que não me conformava porque ainda não haviam relançado o Nós, que gostava tanto.

Contei a história da música Ébano, que chegou na minha casa, em Paris, numa Fita K-7, e também a história de Maravilhas Contemporâneas e Mico de Circo, que vieram em vinis embalados em placas de isopor. Ele achou graça.

Melodia confessou que havia perdido um pouco o controle sobre seus discos, e que foram tantas as compilações que o Nós acabou esquecido.

– Talvez o disco já tenha saído todo, uma faixa aqui, outra ali.

Sabia que Melodia gostava mesmo era de uma Black Princess, mas como ali na Século XX não tinha Black Princess, ia de Brahma Chopp mesmo, enquanto eu, ia de Fanta Laranja, fazendo tintim.

Num desses domingos, levei pra ele ver o Nós que, eu mesmo, caprichosamente havia transformado de vinil pra CD.

Ele olhou, olhou, virou pra ver a contracapa xerocada e me devolveu com apenas duas palavras

– Muito bacana!

Revelei a ele que Nós era o disco que mais ouvia em casa. Aquela primeira música, ele cantando Ilha de Cuba, de Papa Kid, para mim, era o máximo.

Ao som da maraca

Do tambor do bambu

Eu vou pra ilha de Cuba

Eu vou pra ilha de Cuba 

Gostava também de Surra de ChicoteHoje e Amanhã não saio de casaMistério da RaçaFeras que Virão. Sem contar a regravação de Negro Gato, de Getúlio Cortês, sucesso na voz do Rei.

Melodia parecia olhar sempre para o além, tentando lembrar as músicas que eu ia falando, como se elas estivessem perdidas no ar.

Nosso papo, durante anos foi esse, curto e grosso. Nós acabou sendo relançado em formato CD em 2012, quando eu já estava partindo pra carreira solo e já não via mais Melodia aos domingos. O CD veio com o capricho da gravadora Discobertas, encarte e as letras das canções, inclusive Passarinho Viu.

Eram milhões de passarinhos

Era um dia encantador

Há quem salve o meu corpo n’água

Há quem salve o salvador

O passarinho meu vizinho

Onde é que eu vou cantar

Nesta cidade que me encontro, help

De help mesmo não tem nada

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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OS ROBÔS

As primeiras imagens chegaram em radiofotos publicadas no jornal O Globo. O meu pai assinava, lia de cabo a rabo, e quando aparecia uma novidade assim vinha nos mostrar.

– Esse é o mundo em que vocês vão viver.

Lembro-me bem quando ele mostrou a radiofoto dos primeiros robôs que estavam sendo instalados na fábrica da Volvo, na Suécia. Eram monstrengos cheio de braços e aquela imagem mostrava, em primeiro plano, um deles pintando a porta de um Volvo.

– Não tem férias, não tem hora extra, não tem pedido de aumento, não tem indenização, não tem reclamação e ainda por cima, robô não fica grávido!

Esses eram os argumentos do meu pai, fazendo uma previsão do que vinha pela frente, no que iria se transformar esse nosso mundo.

Ficávamos um pouco com medo dessas máquinas, mas achávamos que tínhamos muito chão ainda pela frente antes que eles invadissem nossas vidas.

Na televisão, víamos Os Jetsons. Minha mãe, vassoura na mão e espanador debaixo do braço passava pela sala e parava diante daquela Colorado RQ para admirar a Rosie, a empregada robô que circulava pela casa dos Jetsons espanando, varrendo, lavando e passando.

– Quero uma dessas!

Nós ficávamos ali admirados, imaginando nossa vida quando chegasse o ano 2000. Uma das coisas que eu mais gostava era aquele botãozinho que o Elroy Jetson apertava e saia um sanduíche prontinho, quase um Big Mac.

Voar como eles também era nosso desejo, circular de um lado da cidade para outro em naves velozes era um sonho. Evitaríamos os engarrafamentos de Studbakers que já começavam a aparecer naquela Belo Horizonte de início dos anos 1960.

Quando chegaram às lojas de brinquedos os primeiros robôs da Estrela, pedimos um de Natal e ganhamos, aquele que acendia luzinhas vermelhas, andava pra frente e pra trás, mexia os braços, a cabeça e falava uma língua que nos terráqueos não entendíamos.

O mundo em que nascemos era muito diferente do mundo em que vivemos hoje. Usávamos calça curta, escrevíamos com lápis Johann Faber número 2, o telefone era fixo e ficava na sala das nossas casas. Os canais de televisão iam do canal 2 ao 13, o farmacêutico conhecia todos os moradores do bairro, o pão era de meio quilo, a geleia era de mocotó e todos os dias os irmãos Marista carimbavam nas nossas cadernetas ausente ou presente.

Robôs só existiam lá na Suécia, pitando e apertando parafusos de Volvos. Por aqui, só nas vitrines das lojas de brinquedo, piscando e andando pra frente e pra trás.

O mundo dos Jetsons nunca chegou. Aquela vida da Rosie andando pela casa, colocando tudo em ordem, nunca existiu. Mas eu tenho uma queixa a fazer.

Tem mais de uma hora que estou tentando falar com alguém, com algum ser humano, pra vir consertar o nosso fogão aqui em casa. Uma voz metálica insiste em informar

Se deseja falar com o setor de atendimento ao consumidor, disque 1

Para peças e acessórios, disque 2

Se o assunto é entrega de mercadoria, disque 3

Se deseja fazer uma reclamação, disque 4

Se deseja agendar a visita de um técnico, disque 5

Não sonho mais com uma vida de Jetsons, mas sonho em ligar para um lugar, e um humano me atender.

– Alô, quem fala?

– É do armazém do seu José?

– Eu quero uma lata de biscoitos Aymoré!

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O PATO

Criávamos galinhas legorne, porquinhos-da-índia, periquitos, pintassilgos, coelhos e um cachorro Tupi. Mas nunca criamos patos.

Primeiro, porque aquele quintal era pequeno demais pra tanto bicho e meu pai teimava que pato não sobrevivia sem água pra nadar.

Minha mãe desconfiava era dos ovos de pata, vendidos por ciganas que passavam por nossa rua, em pequenas cestas de vive. Os ovos de pata eram diferentes dos ovos das nossas legornes, meio esverdeados e estavam sempre sujos de terra.

– Estão todos chocos!

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Minha mãe afirmava com conhecimento de causa. Um dia, ela comprou uma dúzia de ovos dessas ciganas e, dos doze, onze estavam chocos. Pra nunca mais.

Ela nunca nos ofereceu ovos de pata porque dizia que eram muito pesados pro estômago de uma criança. Mas a gente gostava de pato. De ver, de correr atrás deles.

Nas férias, convivíamos com os patos na Fazenda do Sertão. Eram muitos e nos deixava implicados porque aqueles patos que viviam ali não voavam. E quando trepavam, ficavam horas naquele lenga lenga. Não eram como o galo e a galinha, que davam uma rapidinha e pronto.

Meninos ainda, gostávamos de ouvir João Gilberto rodando na vitrola. Aquilo nos encantava.

O pato vinha cantando alegremente, quém, quém
Quando um marreco sorridente pediu
Pra entrar também no samba, no samba, no samba

A família do pato era grande e soubemos disso quando fomos pela primeira vez no Parque das Águas, em São Lourenço. Lá tinha, além dos patos, gansos, cisnes e marrecos. Eram diferentes, mas parecidos no jeitão desengonçado de andar e no quém quém.

Os cisnes eram os mais bonitos de todos, elegantes e brancos como a neve. Os gansos, cinzas, eram bravos, enfezados com a meninada. Os marrecos, coitados, ficavam lá no canto deles, de boa, tomando sol, beliscando uma plantinha aqui, outra ali.

Dos personagens de Walt Disney, o que eu mais gostava era o Pato Donald. Mas me amarrava também na Margarida, no Tio Patinhas, no Gastão, no Luizinho, no Huguinho e no Zezinho, todos patos. Até da Maga Patológica, aquela bruxa, a gente gostava.

Quando chegou a Arca de Noé, quer dizer, do Vinicius e do Toquinho, cantei muito pros meus filhos a canção do pato.

Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o pato
Para ver o que é que há

Sempre gostamos de pato na nossa casa, até mesmo na panela. Quem não gosta de um arroz de pato ou um pato no tucupi?

Adultos, fechávamos os olhos para a nossa infância e nunca pensávamos naquele simpático patinho que gostávamos tanto, quando saboreávamos um pato laqueado num bistrô chinês no Marais.

Até que muitos anos depois, um dia, chegou o pato da Fiesp. Foi aí que tomei um bode danado do bicho. Aquele pato amarelo enorme na Paulista, na Cinelândia ou na Esplanada dos Ministérios, me encheu de angústia e tristeza.

Aquela paixão que tinha pelos patinhos de um dia que víamos no corredor de aves do Mercado Central de Belo Horizonte, de repente, desapareceu como um toque de mágica.

O meu consolo, hoje, é saber que todos aqueles que foram pra avenida inflar e saudar aquele pato amarelo medonho, hoje estão pagando caro pelo que fizeram.

Pagando o pato.

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O VERÃO DO AMOR

Por aqui era inverno quando chegou o verão do amor. Quando dez mil hippies se reuniram no Central Park, em Nova York, para empinar pipas, soltar balões, fazer um fumacê e entoar canções que falavam do coração, aqui fazia frio.

Chegava às lojas Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um disco que saiu da vitrola para entrar pra história. Não era pra menos. Quem não se lembra de Lucy flutuando no céu com diamantes?

Biafra virava oficialmente um país africano quando os primeiros acordes foram ouvidos em Monterey naquele 1967. Acordes de Ottis Redding, The Byrds, Jefferson Airplane, The Mamas & The Papas.

A guerra dos seis dias começava, para nunca mais acabar, quando ouviu-se a voz de Janis Joplin ecoar, o som da cítara de Ravi Shankar se espalhar no ar e a guitarra de Jimi Hendrix arder em chamas.

Cinquenta anos depois, comecei a me perguntar que diabos eu estava fazendo naquele verão do amor, quando os hippies deixaram seus cabelos crescer, abriram a boca de suas calças americanas, jogaram água sanitária em suas camisetas, vestiram seus tamancos suecos e começaram a dar poder às flores, espalhando-as pelos campos.

Lembro-me que também vesti um tamanco sueco, enfiei uma camiseta manchada de cândida, deixei crescer os caracóis dos meus cabelos, dependurei no pescoço uma bolsa de couro de bode comprada no Mercado Modelo de Salvador, que fedia muito, cheirava mal, e peguei a estrada.

Fui consultar meus escritos e encontrei poucas anotações. Naquele ano, estudava no Colégio Tito Novaes, depois de tomar bomba em francês no Colégio de Aplicação. Precisava terminar o curso ginasial e foi num colégio pobre que fui buscar o meu canudo.

Era lá que dava aula dona Wanda, a professora de inglês que traduziu pra turma a música A Day in the Life. I read the news today, oh boy… Lembro bem que ela dizia: Eu li as notícias hoje! Esqueçam esse oh boy!

Ouvíamos Sunshine Superman, com Donovan, For what it’s Worth, com Buffalo Springfield, Light my fire, com The Doors, Tales of brave Ulysses, com o Cream, A whiter shade of pale com Procol Harum, Heroes and Villains, com The Beach Boys, e The sound of silence, com Paul Simon e Art Garfunkel, mesmo sem dona Wanda nos ajudando na tradução.

Ainda não havia o Google, a Internet, o WhatsApp, e as notícias chegavam à provinciana Belo Horizonte só Deus sabe como.

Foi no verão do amor que enchi minha mochila jeans de sonhos e segui rumo à Bahia de Todos os Santos. De carona, fui pingando de cidade em cidade, até chegar a Arembepe, nossa praia. Foi lá que montei barraca e sonhei passar o resto dos meus dias, ouvindo as ondas do mar, o canto das gaivotas, o barulhinho bom que as folhas do coqueiro faziam quando caíam na areia branca, que era o meu paraíso.

Foi lá que deixei de comer macarrão com salsicha tipo Viena, angu com sardinha Coqueiro e sanduíche de pão com apresuntado Wilson, em troca de uma gororoba macrobiótica.

Foi lá que ouvi pela primeira vez a poesia de Bob Dylan em uma fita K7 da Basf deslizando num velho gravador de pilha.

Havia ali um sonho no ar, um cheiro de patchouli, uma Kombi customizada estacionada debaixo de um coqueiro verde, roupas comuns dependuradas ao lado de cada barraca e um fogão Jacaré com água fervendo pra mais um chá de camomila.

Havia também uma lanterna com as pilhas do gato, um incenso barato queimando, uma revistinha com os primeiros quadrinhos do Mr. Natural de Robert Crumb e o livro Cien Años de Soledad, já meio estropiado, com um marcador de páginas feito de cânhamo.

Os dias eram assim naquele verão do amor, que se chamava Teresa.

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A VIDA SEM CRACHÁ

Depois de mais de 30 anos escolhendo fotos, fazendo títulos, copidescando textos, fechando jornal, fazendo espelhos, editando matérias e colocando o show da vida no ar, resolvi dar um tempo. Já tem alguns anos que tomei a decisão de partir pra carreira solo, trabalhar em casa. Isso pode parecer o sonho de muita gente, mas calma!

Assim que dependurei as chuteiras no segundo andar da Berrini, pensei cá com os meus botões que poderia acordar mais tarde, ler os jornais que não escrevi, almoçar em casa, fazer um lanchinho à tarde, tomar um banho ao cair do dia e ver os telejornais sem estar na panela de pressão que é um switcher.

Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Mais ou menos.

Nos primeiros dias, sofri e confesso que tive vontade de acordar cedo, tomar banho, vestir uma roupa de trabalho, calçar os sapatos, dependurar o crachá no pescoço e ir pra firma. Assim que me instalei no escritório da minha casa pra escrever o primeiro texto frila, a nossa empregada, que sempre cuidou de tudo, começou a fazer toc toc toc na porta.

– Acabou o sal

– A lâmpada da cozinha queimou

– A máquina de lavar louça parou

– A torneira do tanque está pingando

– O aspirador de pó pifou

Eu me senti como aquele personagem de um velho poema de Drummond que recitávamos no coral do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte.

– E agora, José?

Em uma semana, de jornalista, transformei-me em eletricista, encanador, bombeiro, pacato homem do lar e chefe de cozinha. Sim, chefe de cozinha.

A empregada, que diariamente escolhia, por conta própria, o cardápio do almoço e do jantar, resolveu perguntar, sempre por volta das dez da manhã.

– O que eu faço de almoço?

Deixava o computador de lado e ia até a cozinha escolher, com ela, o menu do dia.

– Vamos fazer abobrinha recheada com quinoa, arroz branco, feijão preto e uma polenta com cebolas por cima.

Mas ainda faltava alguma coisa.

– Faz salada?

– Posso fazer suco de polpa?

Sim, pode fazer salada e suco de polpa.

– Acerola ou uva?

Isso foram nos primeiros talvez 60 dias, depois a coisa foi entrando nos eixos. Acho que ela entendeu que eu estava trabalhando e não apenas curtindo o Face, o Twitter, o Instagram ou mandando mensagens pelo  WhatsApp.

Mas mesmo assim, ela de vez em quando entrava no escritório com uma novidade.

– Interfonaram dizendo que tem uma encomenda lá embaixo.

Hoje as coisas se acalmaram um pouco. Primeiro, porque a Nice só vem uma vez por semana e, segundo, porque eu consegui me organizar, mesmo não tendo horário estabelecido pra nada.

Confesso que é uma delícia ir tomar um café na Livraria Cultura em plena segunda-feira, três da tarde. É uma maravilha poder assistir a um jogo na Europa pela televisão, quatro da tarde de uma quinta-feira. E quando chega a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o Carnaval, que espetáculo ser apenas telespectador.

Imagine o que é cuidar da horta na varanda depois do almoço ou deitar na rede pra ler a biografia do Paul McCartney, cinco da tarde de uma terça-feira.

Mas, como disse lá em cima, calma! Nem tudo são flores.

Hoje acordei às seis horas, preparei o café da manhã pra família, sentei aqui pra escrever essa crônica pra CartaCapital e ainda tenho muita coisa pela frente. Escrever uma matéria sobre hortas pra revista Com Você, da Nestlé, separar 12 fotos e fazer uma pesquisa sobre o mercado Ver o Peso, em Belém, pra revista Vida Simples, mandar um projeto de livro pra Editora Sextante, revisar um capítulo do livro que escrevi pra Editora Planeta, fazer uma pesquisa sobre bala perdida que vai fazer parte de um outro livro, responder uns 20 e-mails, alimentar o meu blog, buscar a encomenda lá na portaria e pensar no cardápio pro almoço, porque a Nice não está mais aqui.

Às vezes me perguntam se tenho saudade de redação. Digo que não mas, pensando bem, sim. Tenho saudade dos amigos que lá deixei e que via todos os dias. Além de um contracheque que a secretária colocava na minha mesa religiosamente no último dia útil de cada mês.

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

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O MAR

Sempre fui apaixonado pelo mar, eu mineiro, cercado de montanhas por todos os lados. Todos nós em casa. Sabíamos que não tínhamos e a vontade de ter um por perto era tão grande que a gente até se embaraçava.

Quando ia chegando julho, era uma animação. Sabíamos que o meu pai ia fazer uma revisão no velho Land Rover e pegar a BR-3 rumo ao Rio de Janeiro, férias de 30 dias em Copacabana.

Enquanto julho não chegava, durante o ano inteiro, ele colocava na vitrola GE os discos de Dorival Caymmi que espalhava aquele vozeirão em suas canções praieiras pela casa inteira.

O mar quando quebra na praia

É bonito, é bonito…

Mas as férias acabavam chegando e lá estávamos nós, branquinhos, instalados no apartamento da Prado Junior, olhando pela janela, ele, tão azul, lá longe.

O clima era outro. Cadeiras de lona empilhadas na sala, saídas de praia espalhadas pelo sofá, uma sombrinha colorida, de pé atrás da porta, o vidrinho de Cenoura & Bronze na mesinha de centro e um isopor na porta.

Aquele apartamento era nosso todo mês de julho. Lembro-me bem da geladeira Kelvinator com a porta enferrujada pela maresia, o aquecedor à gás no banheiro, o chão de porcelanato, coisas que não tínhamos em Minas Gerais.

O mar para nós era tudo e quando púnhamos os pés na areia branca, a piada do meu pai era sempre a mesma e velha.

– Encher aqui de água foi mole. O difícil foi salgar tudo isso…

A gente achava sempre engraçada a piada, mesmo contada pela décima vez.

Do mesmo jeito que Rita Lee contou em seu livro um segredo, que um dia lambeu a maçaneta da Apple, em Abbey Road, vou contar aqui que eu, escondidinho, sempre provava a água do mar pra sentir se continuava salgada.

Os cinco filhos nunca tiveram no dia-a-dia um mar por perto. Vivíamos confabulando porque diabos não juntavam Minas Gerais com o Espírito Santo para termos Guarapari e Santa Mônica só pra gente.

O tempo foi passando e até hoje continuamos sem mar nas nossas cidades. Três em Belo Horizonte, uma em Brasília e eu aqui em São Paulo.

Outras canções vieram. Ouvimos Marilia Medalha na tela da TV Record cantando Arrastão.

Eh! tem jangada no mar

Eh! eh! eh! Hoje tem arrastão

Eh! Todo mundo pescar

Longe daqui, senti na pele o que Gil quis dizer em Back in Bahia.

Do luar que tanta falta me fazia junto do mar 

Mar da Bahia…

Ainda longe daqui, ouvi Caetano cantar Debaixo dos caracóis dos teus cabelos.

Um dia a areia branca

Teus pés irão tocar

E vai molhar seus cabelos

A água azul do mar

Depois veio Eduardo Dusek, todo serelepe.

O mar passa saborosamente a língua na areia

Que bem debochada, cínica que é

Permite deleitada esses abusos do mar

Além da areia branca e do mar azul, havia muitas conchinhas em Copacabana, que íamos colocando uma a uma dentro de um balde vermelho da Trol pra depois, no décimo segundo andar daquele edifício da Prado Junior, escolher as maiores e mais bonitas para esnobarmos na volta às aulas na nossa Belo Horizonte.

Pensando bem, não era só o mar que era gostoso. Gostoso era também o sunday do Gordon, os caramelos Petrópolis, o sorvex na carrocinha amarela da Kibon e uma espécie de selfie que fazíamos todo ano no Cristo Redentor.

Ah, como aquele gostinho salgado de férias custava a passar. Na verdade, nunca passou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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COLHENDO OS FRUTOS

Usufruíamos daquelas frondosas árvores durante muito tempo, nossa infância e juventude. Só na minha casa, havia uma parreira carregada de uvas Niágara todo fim de ano, uma ameixeira e duas laranjeiras. Na casa do vizinho, muitas bananeiras, um pé de jambo amarelo e uma goiabeira.

Na chácara de Dona Catarina, em Cataguases, muitos pés de carambolas, de jambo vermelho, de abil, muitos pés de pitanga, jabuticaba, caju, abacate e fruta do conde.

Fomos acostumados a comer frutas no pé, sem agrotóxico, sem veneno algum. Sequer lavávamos antes de colocar na boca. A goiaba vinha cheia de bichinhos brancos que espantávamos com um peteleco e quando iam parar na nossa boca, cuspíamos.

Subíamos nas árvores como se fôssemos macacos, pulando de galho em galho até o topo, onde estavam as jabuticabas maiores, sempre.

Os meus pais acostumaram os filhos a comer muita fruta. De manhã, não faltava na mesa o mamão com açúcar, a laranjada, e meu pai, metido que era, às vezes comprava melão espanhol nas Estâncias Califórnia, num tempo em que melão era só importado.

A maçã e a pera também eram importadas. Vinham da Argentina, embrulhadas em um papel de seda azul com um perfume que ainda sinto até hoje.

Nossa infância foi coroada de frutas e mais frutas que, segundo a minha mãe, chegavam à mesa, graças a Deus. Mas havia um fantasma no ar, o da nódoa.

Dona Lali lavava nossas roupas com Rinso, uma novidade na época, um sabão em pó que, segundo a propaganda, deixava a roupa mais branca. A única recomendação que ela nos passava era essa:

– Cuidado com a nódoa!

Minha mãe repetia uma ladainha todos os dias: Caju dá nódoa, manga dá nódoa, jabuticaba dá nódoa. Ela tinha um verdadeiro pavor de roupa com nódoa que, para quem não sabe, é uma mancha que fica na roupa pra sempre.

Ainda não havia Google pra ela e por isso não sabíamos porque algumas frutas deixavam aquelas manchas horrendas nas nossas camisas brancas.

As antocianinas presentes nas frutas tendem a fixar-se nas fibras dos tecidos. Quando lhes é aplicado calor a nódoa torna-se mais profunda pois dá-se uma mudança química na sua composição que dificulta grandemente a remoção da nódoa.

Lembro-me bem da minha mãe no tanque tentando retirar nódoa das roupas. Ela colocava um copo de água sanitária Globo, misturada com água e sabão português. Chacoalhava, deixava de molho e depois colocava no sol pra quarar. Mas a nódoa não saia por nada.

Fiz uma pesquisa rápida e constatei que menino nenhum hoje com sete, oito anos,  sequer sabe o que é nódoa. Uma pena, porque em 2040 eles não vão ter uma história assim pra contar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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