UM DIA QUALQUER

Folheando o livro 1001 dias que abalaram o mundo, me veio à cabeça os dias que não abalaram o mundo, dias quaisquer que costumamos dizer que passaram em branco.

Em 1992, a redação da revista semanal de informação francesa Le Nouvel Observateur, que todos chamam carinhosamente de Nouvel L’Obs, começou a pensar nos trinta anos que a revista faria em 1994. Dois anos antes, numa reunião de pauta, mais precisamente em junho de 1992, foi convocada uma reunião para pensar número especial de aniversário.

No meio da reunião, alguém teve uma ideia brilhante.

A ideia era a seguinte: pedir a escritores de todas as partes do mundo para fazer o relato de um dia qualquer escolhido pela redação. Imediatamente, aqueles especialistas em derrubar pautas colocaram inúmeras pedras no caminho.

Como escolher os escritores?

Como entrar em contato com todos eles?

Vocês acham que eles vão responder?

Como vão nos enviar os textos?

Numa época sem internet, o único meio de enviar o pedido a eles era através de carta ou telegrama, mas por telegrama seria difícil, em poucas palavras, explicar o objetivo. Apesar dos pessimistas, a ideia foi adiante. Uma equipe formada pela direção da revista começou a fazer a lista dos escritores, enquanto outros buscavam os contatos. A carta para eles foi padrão. Resumindo: Escreva como você viu o dia 29 de abril de 1994.

Cartas foram disparadas para a América do Norte, para a América do Sul, América Central, Europa, Ásia, Oceania e Oriente Médio.

O entusiasmo na redação da Nouvel L’Obs era grande quando pensaram que os escritores, naquele momento, estavam começando a receber o pedido.

Thanassis Valtinos, na Grécia, Ryôtarô Shiba, no Japão, Lu Wenfu, na China, Putu Wijaya, na Indonésia, Gamal Al Ghitany, no Egito, Pierre Mertens, na Bélgica, Amoz Oz, em Israel, Ernesto Sábato, na Argentina, Václav Ravel, na República Checa, Daniel Boulanger, na França, Salman Rushdie, na Inglaterra, Kitia Touré, da Costa do Marfim, Osvaldo Soriano, na Argentina e tantos outros.

Para o Brasil, seguiram três cartas. Uma para o escritor baiano Jorge Amado, uma pra o mineiro Autran Dourado e uma terceira para o gaúcho Moacyr Scliar.

Passaram-se alguns dias, meses, mais de ano. Quando o dia 29 de abril de 1994 chegou, a redação da Nouvel L’Obs não cabia em si. Era hoje, uma sexta-feira, o dia escolhido para os escritores colocarem no papel os seus relatos.

Será que vai dar certo?

Será que estão lembrando?

O que vão escrever?

O dia passou sereno, nada aconteceu que abalasse o mundo naquele 29 de abril de 1994. Agora restava esperar os envelopes chegar.

E chegaram. Muitos logo no início de maio, alguns em envelopes pardos, outros em envelopes com as cores das bandeiras dos países e selos maravilhosos. Na data prevista, lá estavam os 240 envelopes, três deles eram verdes e amarelos.

Foi uma leitura atenta e minuciosa. Os primeiros relatos eram bem pessoais.

“Nesse dia, eu sai da cama às sete horas da manhã, onde dormi em Sidney com o amor da minha vida”, começou o seu relato o escritor australiano Frank Moorhouse.

“Abri a cortina e o sol iluminou o meu leito”, escreveu na primeira linha o japonês Junuchi Saga.

“Oito horas da manhã. Aqui é o Irã. Estou no meu pequeno apartamento em Teerã”, contou o escritor iraniano Ramin Jahan Begloo.

‘Meu dia começou às quatro horas da madrugada e só terminou por volta de onze da noite, como de costume, aqui em Brazzaville. Estou nesse Congo podre, nessa África podre, mas me pergunto se não é o mundo inteiro que está podre”, desabafou o congolês Labou Tansi.

“Acordei em Madri e o telefone não me dá sossego”, foram as primeiras palavras do colombiano Gabriel García Márquez.

“Como todos os dias, acordei disputando o jornal com Helena. Ela só toma o café da manhã lendo as notícias. Um dia, ela me disse: Quando eu morrer, não coloque flores no meu túmulo. Coloque jornais”, foi o que disse o uruguaio Eduardo Galeano, ao iniciar o seu depoimento.

“Um dia comum em que não aconteceu nada de extraordinário”. O norte-americano Norman Mailer foi super sincero.

Jorge Amado começou assim: “As emoções do 29 de abril de 1994 começaram no dia anterior, quando visitamos o Axé Opo Afonjá, um dos terreiros de candomblé mais importantes do Brasil”.

Autran Dourado não dormiu à noite: “Acordei várias vezes durante a madrugada, ansioso porque teria de escrever o que aconteceu hoje”.

Os primeiros relatos foram bem pessoais, mas muitos escritores procuraram fugir do narcisismo nostálgico e escreveram contos extraordinários, alguns com um pé no realismo fantástico.

Com aquela montanha de cartas guardadas a sete chaves, os editores começaram a colocar ordem, separando cada depoimento por região do Planeta Terra. A edição demorou um mês para ficar pronta e o resultado foi um número especial de 282 páginas: 240 Escritores contam como foi um dia no mundo.

Nessa tarde ensolarada de maio, me veio na cabeça, a ideia de pedir a alguns escritores brasileiros para contar como foi o primeiro de janeiro de 2023. Isso, se sobrevivermos até lá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AQUELE OUTRO MUNDO

Era um garoto que, como eu, amava passear pela cidade com os pais. Com o pai, a diversão era ir de bonde e parar na avenida principal, no ponto final, que todos chamavam de Abrigo do Bonde. Sair andando pelas sombras das árvores frondosas, chegar ao Café Pérola, onde ele tomava um cafezinho ralo com muito açúcar, numa xícara de porcelana com pires de alumínio. Enquanto o menino se lambuzava com um sorvex Kibon.

Com a mãe, era saborear uma banana split na lanchonete das Lojas Americanas, dar uma passadinha no Mundo Colegial para comprar uma sunga Big – aquela do macaco – que o capitão do time de futebol da rua exigia. Voltavam pra casa de táxi, dirigido por um chofer de camisa branca, paletó azul-marinho e boné.

O menino foi crescendo e, apaixonado por discos, livros e revistas, já ia sozinho ao centro da cidade, de lotação, que também parava na avenida principal de uma cidade que fazia jus ao nome e se chamava Belo Horizonte. Todos os caminhos levavam à avenida principal e era ali, perto da agência central do Correio – que ainda não era no plural – onde ficavam as Lojas Gomes, a melhor e mais sortida loja de discos da cidade.

Foi na vitrine das Lojas Gomes que o menino viu pela primeira vez a capa do disco do Chico, aquele com duas fotos, uma Chico sério, outra Chico sorrindo. Viu também o disco Domingo, do Caetano e da Gal, o Louvação, do Gil, e o Travessia, do Milton.

O menino passava horas dentro daquela loja vasculhando vinil por vinil. Ainda não havia reggae, rap ou funk por ali. Ele se distraia com os discos de música popular brasileira, dava uma passada na sala de música clássica, onde se ouvia baixinho o concerto de Brandemburgo, de Johann Sebastian Bach, até chegar bem no fundo onde ficava os discos de jazz. Pedia ao vendedor para colocar Louis Armstrong, apaixonado que era por ele.

O menino ficava ali fingindo que estava escolhendo um disco da Mahalia Jackson, do Dizzy Gillespie, do Charles Mingus ou do Thelonious Monk, só pra ficar ouvindo Armstrong cantando High Society.

O menino saia da Lojas Gomes nas nuvens, às vezes sem comprar nada porque o dinheiro era curto e seguia seu caminho, parando de banca em banca.

Enquanto as pessoas liam as primeiras páginas dos jornais dependuradas com pregadores de roupa, o menino observava as novidades. Se encantava com aquelas mulheres lindas na capa da Manchete, com uma abelha pousada numa flor na capa da Enciclopédia Bloch, com Ronnie Von na capa da Intervalo e Maria Thereza Goulart maravilhosa na capa da O Cruzeiro, enquanto Dina Sfat ficava escondida por um plástico opaco na capa da Fairplay. Sonhava em ter todos aqueles fascículos dos Gênios da Pintura, da Ciência Ilustrada, da Bíblia mais Bela do Mundo e da Medicina e Saúde. Queria conhecer tudo.

Por fim, a livraria. Foi numa bem antiga do centro da cidade que o menino descobriu as obras completas de Monteiro Lobato, que comprou O meu pé de Laranja Lima, que folheou Ulisses, de James Joyce, que se encantou com o Flicts, de Ziraldo, e descobriu o plano de voo de Saint Éxupery.

O menino foi crescendo, começou a ganhar dinheiro trabalhando num laboratório de defesa vegetal e, com o pouco dinheiro que ganhava, só comprava livros, discos e revistas porque não pagava aluguel, não ia ao supermercado, não tinha carnês para pagar.

A casa do menino foi ficando cheia e quase transbordando de tanto disco, de tanto livro, de tantas revistas. Mas ele não se desfazia de nada, daqueles livros de marxismo que comprou aos dezoito anos, dos Irmãos Karamazov, de Dostoievski que nunca leu, do Agonia e Êxtase, do Irving Stone, Eram os Deuses Astronautas, do Erich Von Däniken, O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, de nada.

Ele também não conseguiu se desfazer das revistas Realidade, Senhor, Rolling Stone, Escrita, José, Ficção, Inéditos, Circus, A Pomba, do Verbo Encantado, nem mesmo das revistinhas do Mickey, do Pato Donald, do Zé Carioca, do Bolinha, da Luluzinha, do Manda Chuva, dos Jetsons e dos Flintstones.

O menino ficou velho e hoje não tem onde cair morto. Vive rodeado dessas lembranças que cobrem doze paredes de sua casa, que exalam um leve cheiro de mofo e um som de Peter, Paul and Mary.

De uns tempos pra cá, caiu a ficha do velho. Tudo isso ao seu redor é apenas o princípio do prazer, porque prazer mesmo ele tem ultimamente, quando está sentado em seu computador baixando os discos Mal dos Trópicos, do Tiago Pethit, Matriz, da Pitty, Viver, do Marcelo Falcão, Transpyra, do Felipe Cordeiro, Desastre Solar, da Laura Lavieri e Bluesman, do Baco Exu do Blues.

Mas, o velho não passa um dia sequer sem levantar a bunda da cadeira e ir até a vitrola pra ouvir, ainda em vinil, um velho disco do baiano João Gilberto chamado Chega de Saudade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O MUNDO DA CRIANÇA

Filho pequeno não é fácil. Quando o meu primeiro nasceu, eu jurava que nunca deixaria o pobrezinho levar um tombo, bater a cabeça na quina da mesa, escorregar no box do banheiro, brigar na escola, chorar. Bobagem, Julião já passou dos quarenta anos e guarda até hoje algumas cicatrizes pelo corpo, de tantos tombos que tomou, esperto que era. Correndo de meia pela casa, foi o mais grave. Nove pontos na testa. Mas virou um homem inteiro, ético, bacana.

Riponga em Paris, não deixava ele ver televisão – o ópio do povo – tomar Coca-Cola – produto do imperialismo – ou comer qualquer coisa industrializada que tivesse acidulante, corante, emulsificante ou coisa parecida. A carne, a gente substituía pela soja, o chocolate por uma mistura de cereais e o refrigerante pelo suco de pamplemouse, espremido com as mãos e sem açúcar. Fui assim uma espécie de Bela Gil do século passado.

Veio a segunda, a Sara, e a história começou a mudar. Ela chorava, batia a cabeça na quina da mesa, escorregava pela casa andando de meia, adorava escalar o vão da porta, tomava chuva e vento encanado. E eu não achava assim tão grave, ficava menos aflito. Aprendi que criança precisa chorar, cair, tomar chuva, se defender.

Maria Clara, a terceira, foi mais tranquilo ainda. Eu já tinha passado dos 40 anos e via a vida com outros olhos. Ela cortou o dedo numa lata de leite Ninho, deu pontos, tomou antitetânico e a vida continuou. Mas repito, filho pequeno não é fácil. Nunca me esqueço dos banhos quase frios no meio da madrugada pra baixar a febre, as compressas e as idas ao Pronto-Socorro do Samaritano com a menininha fazendo corpo mole de verdade.

Marília, a quarta, seguiu a mesma linha. Febre, dedinho cortado brincando com a bicicleta de cabeça pra baixo e uma história engraçada pra contar. Ela, pequenininha, seis meses, precisava de uma foto pro passaporte. E lá fomos nós numa maquina de tirar fotos 5X7. Enquanto a mãe colocava as moedas e apertava o botão, eu segurava a menina, tentando focá-la na tela. Quando a foto saiu naquele buraquinho de vento, lá estava ela de corpo inteiro numa foto 5X7, que a Polícia Federal não aceitou, claro.

Mas eu vim aqui pra falar de comida. Hoje, a moda é deixar a criança comer do jeito que ela quiser. Os pais modernos abandonaram definitivamente a papinha, o amassadinho, a colherzinha, aquele papo furado de abre o bocão ou olha o aviãozinho.

O negócio agora é entregar pro bebê a comida em sua forma mais natural possível. Beterraba, batata, cenoura, abobrinha, mandioquinha, para que ela sinta a consistência, a textura e o sabor de cada alimento. Tenho visto bebê brigando com uma manga inteira, sem dentes tentando morder uma maçã e outros lutando para chupar uma laranja cortada ao meio. É divertido, principalmente pra quem já tem quatro filhos criados.

Lembro-me bem que aquele ritual de cozinhar os legumes, cozinhar o ovo e separar a gema e depois passar tudo no liquidificador. Era um trabalhão danado. Depois, ainda tinha de acrescentar uma manteiguinha, esperar esfriar um pouco, sentar o bebê na cadeirinha e começar aquela novela diária de fazê-lo comer.

Que eu me lembre, Sara era a mais rebeldezinha dos quatro, às vezes cuspia a comida na primeira aterrisagem do aviãozinho e achava graça. Cansamos, então ela acabou sendo pioneira em provar os alimentos separados. Lembro-me bem que ela se apaixonou pelo limão, que chupava como se fosse um pirulito e sem fazer careta.

Quarenta anos atrás, em pleno 1979, a gente resolveu deixar que ela comesse sozinha. E foi assim. Hoje, ela cuida muito bem do meu neto Raul, é uma dedicada professora de História e que, pequeninha, comia até mesmo um chuchu cozido com gostinho de tênis Conga e sem fazer cara feia. A foto acima não me deixa mentir.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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foto Alberto Villas

 

ERA DOMINGO

O dia vermelho no calendário era o dia de se deliciar com aqueles jornalões

 

Num dia desses eu me lembrei de um cartum do Millôr Fernandes em que ele abre a porta da sua casa e quando vê o Estadão de domingo jogado em cima do capacho, exclama:

– Meu Deus, o que aconteceu ontem em São Paulo?

Era assim, os jornais de domingo pesavam uns cinco quilos e tinham quase trezentas páginas e não sei quantos cadernos, suplementos e revistas, sem contar aqueles cadernos que eram só publicidade. Era leitura pra semana inteira.

O barato, às vezes, era comprar os jornalões no final da tarde do sábado, saindo do forno, ainda quentes, manchando nossas mãos de tinta.

Mas ler mesmo, era no domingo à tarde. A gente deitava na rede, levava aquele calhamaço junto e começava a colocar os cadernos em ordem, jogando no chão uns dois quilos de classificados. Eram uns cinco minutos que durava essa operação.

Esses classificados no chão, deixávamos pra espiar depois, mais tarde, com calma. Dávamos uma olhada, mesmo que não estivéssemos procurando um apartamento pra alugar, uma casa pra comprar, um carro velho pra trocar. Mesmo que não estivéssemos atrás de um emprego de almoxarife, de escrevente datilógrafo ou estenodatilógrafo.

Procurando com calma, a gente encontrava de tudo naqueles páginas: uma máquina de costura Singer, uma máquina de escrever IBM de bolinha, uma geladeira Kelvinator vermelha ou uma televisão Colorado RQ.

Mesmo sendo um jornalão conservador, uma gostosa, 18 aninhos, iniciante, se oferecia por ali.

Tinha o primeiro caderno, o de Política Nacional, Internacional, o caderno de Economia, o caderno de Esportes, o caderno de Variedades, o caderno de Cidades, o suplemento Feminino, o suplemento Agrícola, o de Turismo, o de Literatura, o de Cultura, a Folhinha, o Globinho, o Estadinho, o Gurilândia.

A Folha tinha a revista São Paulo, já teve a Folha D, já teve o Mais!, o Folhateen, o Folha Viva, o Folhetim, o Ciência, o Sinapse, o Agrícola, a Folhinha, o Equilíbrio e até o resumo traduzido do The New York Times.

A gente ficava ali na rede até o dia escurecer, lendo quase tudo. Líamos até mesmo aqueles artigos traduzidos que forravam os classificados do Estadão, os textões de Raymond Aron e aquele caderno Cultura que perguntava na capa: Por que ler Tocqueville hoje?

Os jornais eram mesmo enormes, pesados, e quando a gente saia da rede pra ir até a geladeira pegar uma Coca já meio choca, vinha aquela dor de consciência: Meu Deus, faltou tanta coisa pra ler.

Ler os jornais de domingo era um prazer que não tinha preço. No final do dia, era aquela preguiça, aquela jornalada esparramada pelo chão, algumas páginas dobradas, amassadas, pisadas e até recortadas.

Era pauta que não acabava mais. Os repórteres saiam às ruas durante a semana, muitas vezes sem um assunto definido. Nos becos, nos mercados, nos ônibus, descobriam histórias extraordinárias que eram bancadas pelo editor-chefe que ia bolando, durante a semana, a edição de domingo.

Oito horas, vinha o show da vida, aquela mulher linda e colorida saindo da água, o humor de Chico Anísio, as reportagens assustadoras do Hélio Costa, os clipes do Raul Seixas, a zebrinha anunciando o resultado da Loteria Esportiva, o Mister M e os gols do Fantástico.

E depois, vinha aquele bode. Aquela música anunciando que o domingo estava acabando e a gente ali comendo um resto de macarronada esquentada com a Coca já totalmente choca, a certeza que o dia seguinte era segunda-feira.

O único consolo era saber que, na segunda, tinha o caderno de Esportes, com as tabelas atualizadas de todos os campeonatos estaduais e internacionais, aquelas fotos maravilhosas que lembravam o Canal 100, aquela radiofoto da bandeirada final da fórmula 1, as barbadas do turfe e a última página com a seção Penalty, de Otelo. Adorava recortar o Diploma de Sofredor e entregar pro chefe na firma, logo cedo.

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ANDAR COM FÉ

 

Cheguei a Paris pela primeira vez, muito cansado depois de horas e horas de viagem de trem, num vagão desconfortável que me trouxe de Lisboa. Minha amiga estava eufórica me esperando na estação, ansiosa por notícias do Brasil, numa era sem e-mail, sem WhatsApp, sem nada. Mal sabia ela que, na matula, eu trazia um pedaço de goiabada cascão, uma latinha de guaraná e algumas paçoquinhas Amor, já meio estropiadas.

Sãozinha morava no coração do Quartier Latin, num quarto quatro por quatro, cômodo que seria minha moradia na cidade nos próximos invernos, nem Deus sabia quantos. Joguei a bagagem num canto, descemos para tomar uma minestrone no Boulevard Saint Michel e fomos fazer um rolê pela cidade, mesmo eu sentindo os pés inchados, mais de trinta horas sentado numa poltrona de trem.

Descemos o Boul’Mich, entramos nas ruelas do Quartier Latin e, de repente, surge majestosa e iluminada, a Catedral de Notre-Dame. Arrepio foi pouco para ilustrar minha emoção. Fomos caminhando, passamos na porta da livraria Shakespeare and Company, ainda aberta. Fiquei maravilhado com as pilhas de National Geographic antigas na porta e, na vitrine, a última edição da New York Review of Books.Chegamos bem perto da Notre-Dame que, tarde da noite, já tinha a porta fechada. Fiquei ali sentado num cone de cimento, maravilhado observando cada detalhe daquela obra prima da humanidade. E fomos embora.

A Notre-Dame virou para mim, a partir daquele dia, o porto seguro, o pitstop para qualquer andança pela cidade. Logo Sãozinha contou que todo domingo, dezoito horas em ponto, havia um concerto gratuito na catedral. Mozart, Chopin, Dvorák, Sibelius, cada domingo um ecoava suas músicas pelas paredes pesadas que me protegiam.

Toda semana, ia bem cedo para conseguir um assento e ouvir os concertos. Era o momento em que fechava os olhos e viajava até o Brasil, saudade à flor da pele. Pensava em tudo, do índio guarani ao guaraná. Pensava nos meus país, nos sobrinhos que iam nascendo, no mar do Espírito Santo, no disco Qualquer Coisa do Caetano, no quibe delicioso que minha sogra Dora fazia toda quinta-feira, no torresmo do Mercado Central, na mandioca frita, no pé de caju, no suco de cajá, no sol dourado, nas coisas do meu país.

Durante meus anos de Paris, voltava ali na Notre-Dame sempre e, cada vez que ia, acendia uma vela para minha mãe, católica fervorosa, amante de uma claridade iluminando suas novenas. Andava por toda a catedral, arrastando o tamanco sueco para não incomodar os fiéis, naquele chão gasto pelos séculos dos séculos.

Os jardins que circundam a catedral, uma outra paixão. Nas tardes de primavera, sentado num banco, ficava admirando os mil tons de verde das folhagens, como se estivesse longe dali, curtindo um jardim japonês em Kyoto. Via os brotinhos despontando nas árvores ainda secas do inverno e observava, ali ao lado, o Sena correndo como se fosse um rio que estava passando na minha vida. Caudaloso, esverdeado, com bateaux-mouches cheios de japoneses indo pra lá e pra cá.

Nunca fui a Paris e deixei de ir a Notre-Dame. Nunca. E toda vez que vou, continuo acendendo uma vela pra minha mãe, já morta, mesmo sabendo que nas suas novenas já não existem mais claridade.

Numa dessas idas, a minha filha com dezoito anos de idade e um olhar de lince, flagrou no chão da catedral, as luzes coloridas que vinham dos vitrais e clicou.

A revelação ficou linda e a fotografia acabou sendo publicada na revista do jornal Le Monde, em maio de 2008, ilustrando um texto cujo título era Marcher avec la foi, em bom português, andar com fé.

Hoje, a minha Notre-Dame praticamente não há mais. Mas tenho certeza que um dia verei a catedral ressurgir das cinzas, e lá estarei para acender uma vela para minha mãe e ouvir, num dia de domingo, mais uma vez, a Valsa Triste, de Jean Sibelius.

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foto Maria Clara Villas

 

ROSA DOS VENTOS

“E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima”

Chico Buarque

Eram sete horas da manhã quando cheguei em casa, um bagaço. Moído, com os ossos doendo, os olhos ardendo, as pernas bambas.

Depois de uma noite inteira de trabalho braçal, só consegui entrar em casa e, sem acender as luzes, apalpar as estantes de livros, localizar o tatame no chão e esticar o corpo.

A cabeça doía e aquele barulho infernal da furadeira não desaparecia. Quando o dia começou a clarear em Paris, abri os olhos e enxerguei na parede um único pôster antigo que ali havia, cor de laranja, uma casa feita de garrafa de Coca-Cola, anunciando uma exposição sobre arquitetura marginal nos Estados Unidos. Cobri a cabeça com um travesseiro fuleiro, disposto a acordar por volta de meio-dia porque, seis da tarde, a luta continuava.

Foi nesse intervalo que acordei assustado, na certeza de que Maria Bethânia estava ali na sala da minha casa, onde dormia. Cheguei a ouvir sua voz, ver sua saia rodada cheia de miçangas e uma camiseta apertando os seios miúdos, desbotada pela água sanitária. Fiquei de pé e olhei para os lados. Os vidros da janela suavam, anunciando a diferença de temperatura de inverno lá fora, e o quentinho de um aquecedor a gás aqui dentro.

Saí percorrendo os outros três cômodos da casa, meio atordoado, um pouco decepcionado por não encontrar Bethânia, mesmo na certeza de ela estar por ali.

Morava em Paris já fazia muitos anos, mas insistia em ouvir num velho disco de vinil cheio de chiados aquele show ao vivo que vi no Teatro da Praia, no Rio, pouco antes de partir. O disco veio na minha bagagem de mão, temeroso de empenar dentro da mala. A Rosa dos Ventos que trouxe, foi presente de uma amiga.

As noticias eram as seguintes:

Vaticano elege João Paulo I, um papa moderado.

 Nasce em Londres o primeiro bebê de proveta.

 João Baptista Figueiredo é escolhido como novo presidente da República.

 Brigadas Vermelhas garantem que Aldo Moro está vivo.

 Itália católica legaliza o aborto.

 Corpo de Charles Chaplin some do túmulo.

 Fim do AI-5 inicia abertura no Brasil.

O meu trabalho, de meia-noite às seis horas da manhã, era ajudar na instalação de guard-rails na autoestrada A4, não muito longe de Paris. Meia-noite em ponto, cones fechavam parte da autoestrada para que pudéssemos começar a colocar estacas, perfurar o ferro e encaixar o aço.

Trabalhava numa equipe com um agrônomo boliviano, um engenheiro colombiano, um estudante peruano e um professor de educação física brasileiro. Todos com carteira de estudante, mas impedidos de trabalhar. Clandestinos! No final de cada madrugada de trabalho, o mestre de obras entregava um envelope para cada um, com duas notas de 200 francos e uma de 100.

As madrugadas eram longas e frias. Lembro-me bem que, de tempos em tempos, colocávamos nossas mãos, protegidas por luvas de couro, em cima do gerador para aquecê-las. O café vinha de hora em hora, puro, servido em copinhos de plástico duro e resistente.

Naquele 1978, não costumava anotar meus sonhos, como faço há mais de dois mil dias por recomendação médica. Mas fazia anotações quase que diárias do que rolava naquele meu exílio.

É assim que às vezes descubro coisas não sei se banais, como o sonho com Maria Bethânia e o trabalho de instalar guard-rails na autoestrada A4, perdidos no tempo.

Sabia que, um dia, essas anotações poderiam ser úteis na minha vida, matéria-prima para escrever crônicas, de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr. O velho disco de vinil já não existe mais, perdeu-se com o tempo e o casamento que ficou pra trás. Foi transformado em CD que agora adormece numa das estantes. Ouço sem chiados no Spotify e ainda me emociono com a voz de Maria Bethânia e os versos de Batatinha:

Se não acerto chorar

Mesmo assim eu vou passando

Vou sofrendo e vou sonhando

Até quando despertar

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRESIDENTE MALUQUINHO

O que não tem governo nem nunca terá. O que não tem vergonha nem nunca terá.  O que não tem juízo… (Chico Buarque)

Já tivemos sim, um outro presidente assim. Eu tinha onze anos quando ele tomou posse e, se forçar um pouco a memória, vou me lembrar dele andando de bonde na Rua da Bahia, em Belo Horizonte, fazendo campanha. Suado e meio maltrapilho, subia no bonde e colocava um boné de condutor, consertava o cabelo que não tinha conserto, ajeitava os óculos de aro grosso e se misturava ao povo, fazendo discursos com um sotaque cem por cento paulistano.

A musiquinha da campanha tomou conta do Brasil e nunca saiu da minha cabeça:

Varre, varre, varre, varre vassourinha!

Varre, varre a bandalheira!

Que o povo já tá cansado

De sofrer dessa maneira

A vassoura era a sua logomarca e ele costumava tirar fotos empunhando uma de piaçava, sua arma contra a corrupção que já havia por aqui, naquele 1961.

Foi nesse ritmo de varrer a bandalheira e nessa euforia popular e populista que, um dia, o homem acabou elegendo-se presidente da República. Vestiu um terno melhorzinho pra posse e foi pra Brasília, que ele odiava.

Antes do Carnaval chegar, o novo presidente começou a agir. O primeiro ato foi, em nome da família e dos bons costumes, proibir o uso do biquíni. Numa época em que já tinha gente de olho no monoquíni, ele voltou aos tempos dos maiôs Catalina.

O segundo ato foi mandar pintar todos os carros oficiais de preto e escrever na porta: Serviço publico federal/Uso exclusivo em serviço. Junto com essa medida, pensou em uniformizar os funcionários públicos. Todos teriam de usar um slack caqui para ir trabalhar. Da mulher do café até a chefe do almoxarifado. Do porteiro ao poderoso chefão. O uniforme foi logo apelidado de pijânio e nem deu tempo da moda pegar.

Depois que conseguiram tirar essa ideia da cabeça do presidente, ele começou a implicar com os galos de briga. Numa canetada, proibiu as rinhas no país, para tristeza geral dos criadores de galos índio. Brigas oficiais, nunca mais. Elas passaram pra clandestinidade, bem como todos os outros bichos do jogo.

O presidente era exótico dos pés à cabeça. Passou a usar slacks ao invés de terno pra dar bom exemplo. Só vestiu terno no dia em que colocou a faixa da Ordem do Cruzeiro do Sul no peito do companheiro Che Guevara, o que provocou a ira do Tio Sam, como eram chamados os americanos naquela metade do século passado.

Numa era sem Twitter, do lápis e da caneta tinteiro, o presidente governava através de bilhetinhos. Andava com um bloquinho num dos bolsos do slack e a toda hora mandava e desmandava, despachando os bilhetinhos.

O presidente durou pouco no poder. Sete meses e o governo foi embora, prematuro. Num desses bilhetinhos, deixou uma mensagem pra nação garantindo que foram forças terríveis, forças ocultas que estavam tramando contra ele e que o levou a renúncia. O presidente pegou o boné e foi embora.

Bat Masterson era uma figura lendária do Velho Oeste americano e fazia muito sucesso na televisão em 1961. Sua musiquinha também grudou no ouvido de todos:

No velho Oeste ele nasceu,

E entre bravos se criou

Seu nome lenda se tornou,

Bat Masterson, Bat Masterson

Rapidinho, a canção virou uma paródia que se espalhou pelo nosso faroeste caboclo:

No Mato Grosso ele nasceu

E em São Paulo se criou

Foi pra Brasília e governou

Mas não aguentou, renunciou

Foram sete meses de bizarrice, trapalhadas, chacotas, piadas e incertezas. Agora, quase seis décadas depois, o que todo mundo pergunta nos botecos é: quanto tempo o Bolsonaro vai durar?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TEMPOS MODERNOS

Não sei se saberia criar quatro filhos nos dias de hoje

Não vou dizer aqui que, numa hora dessas, as crianças de hoje deveriam estar na rua jogando pelada com bola de meia, apostando corrida com carrinho de rolimã ou jogando bolinha de gude no lote vazio.

Não vou dizer que deveriam estar criando pombos, subindo no muro pra roubar goiaba do vizinho ou jogando batalha naval.

O meu pai ficou perplexo quando viu que os dois filhos não queriam mais colecionar carrinhos da Mathbox, armar o forte apache ou brincar de xerife e bandido. Queriam passar a manhã vendo Os Jetsons, Os Flintstones, o Manda-Chuvae o Zé Colmeia na televisão.

OS JETSONS (FOTO: REPRODUÇÃO)

Minhas três irmãs também abandonaram as panelinhas, a boneca Amiguinha e deixaram de pular corda.

O CLÁSSICO MATHBOX

O meu pai, que já não via graças nos carrinhos da Mathbox porque os dele menino, era ele quem fazia com caixinhas de fósforo e tampinhas de garrafa, ficou ainda mais assustado de nos ver hipnotizados diante da telinha vendo aqueles desenhos animados e o Circo do Carequinha.

Quando o meu primeiro filho nasceu, bem longe daqui, havia uma preocupação muito grande com a televisão, considerada por nós, radicais, o ópio do povo, uma máquina de fazer doido.

Voltamos pro Brasil com dois filhos pequenininhos e encontramos aquele Brasil que os militares diziam ser um país que vai pra frente. Sim, ia pra frente da televisão. Tínhamos pavor que eles viciassem em Xuxa e em Angélica e, com isso, a televisão só entrou na nossa casa quando o mais velho tinha sete anos.

Éramos radicais na comida e na diversão. Não comiam açúcar, não tomavam Coca-Cola, não mordiam Cheetos, só ouviam Os Saltimbancos, a Arca de Noé, a Casa de Brinquedos e o Advinha o que é. Na televisão, só assistiam a Ra-Ti-Bum e Glub Glub. Os dois cresceram e foram felizes para sempre.

Depois veio a segunda safra de filhos e a história era outra. A onda eram As Chiquititas, um desenho muito louco chamado A Vaca e o Frango e os filmes da Disney, O Rei Leão, Pocahontas, Procurando Nemo, Toy Story e A Bela e a Fera. Saíram ilesas de Xuxa e Eliana já não cantava mais “meus dedinhos, meus dedinhos, como estão, como estão”. As duas também foram felizes para sempre.

Hoje não temos mais crianças em casa, mas temos netos, afilhados, crianças pra todos os lados nos fins de semana. Sim, são cem vezes mais espertas do que fomos, apesar de não saber jogar finca, fazer guerra de mamona, jogar queimada ou brincar de passa-passa-gavião.

Eu não sei como faria se meus filhos hoje tivessem na faixa dos cinco, oito, dez anos. Como conseguiria deixá-los um pouquinho longe do smartphone ou do iPad? Estabeleceria horário? Esconderia esse apaixonante objeto do desejo? Proibiria de vez? Não sei.

A minha aflição de avô é diferente da de pai, eu sei. Sei que o meu neto Raul, por exemplo, adora comer ervinhas no canteiro, ficar horas no balanço da pracinha, ouvir a história do João e o Pé de Feijão, achar a lua no céu antes de todo mundo e ajudar a varrer a casa em dias de faxina.

Outro dia, de férias aqui em casa, cansados de tanta atividade, de tanto brincar com o tobogã maluco, avô coruja e neto querido, deitaram aqui no chão da minha sala pra assistir, abraçadinhos, eu e ele, a tal da Galinha Pintadinha. Pensando bem, acho que saberia sim criar filhos hoje. Não vou mentir pra vocês. Adorei a Galinha Pintadinha.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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foto Raul: Alberto Villas

ERRAMOS

Diferentemente do que publicamos ontem na entrevista com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, (Ministra diz que viu Jesus, página 6), Damares Alves afirmou que viu Jesus subindo numa goiabeira e não no Monte das Oliveiras.

Ao contrário do que foi publicado na reportagem Ministro quer por mordaça no Ibama (página 8, edição de domingo), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse não ter conhecimento de quem foi Chico Mendes.

A legenda da foto publicada na página 4 da edição de sábado está invertida. Quem está na foto maior é o trapalhão Dedé Santana e não o presidente Jair Bolsonaro.

O título principal da página 7, da edição de ontem, foi publicado erroneamente. Onde se lê Bolsonaro convoca ministros para falar de laranjas, o correto é Bolsonaro convoca ministros para falar dos pepinos.

Houve um erro de impressão no título da reportagem Moro comenta todos os problemas do governo (edição de 22/2, página 4). O correto é Mourão e não Moro.

Diferentemente do que foi publicado na legenda da foto na primeira página da edição de domingo, o presidente da República estava usando, na reunião com seus ministros, um chinelo Ryder e não sandálias Havaianas.

O nome do ex-secretário geral da Presidência da República foi grafado incorretamente na reportagem da página 10, na edição de 2/3. O certo é Gustavo Bebianno e não Gustavo Bobeando.

Por um erro de impressão, na reportagem sobre a família Bolsonaro (Quem são eles?, edição de terça-feira, página 5) saiu grafado malícia ao invés de milícia.

Diferentemente do que informamos no artigo publicado na quarta-feira, na página 12, (Alexandre Frota posta vídeo pornô durante o carnaval), na verdade foi o presidente da República quem postou o vídeo pornô e não o ex-ator Alexandre Frota.

Por um erro de impressão, a informação de que o presidente Jair Bolsonaro passa suas horas de folga ouvindo Wagnerestá errada. O correto é Fagner.

Está errada a informação que publicamos na edição de 10/1, na página 7 (As leituras do presidente). Na verdade, o livro de cabeceira do presidente não é Seja Foda, de Caio Carneiro, e sim O mínimo que você precisa saber para não ser umidiota, de Olavo de Carvalho.

Diferentemente do que foi publicado na edição de 17/2, o ministro da Educação, Ricardo Vélez, refere-se ao Hino Nacional, e não à música Apesar de você, de Chico Buarque.

Na edição de 14/3, houve um erro de informação na página 3. Ao invés de depois do Paraguai, Bolsonaro irá aos Estados Unidos, o correto é: Depois do Paraguai, Bolsonaro irá à merda.

Diferentemente do que foi publicado na edição de terça-feira passada, na página 22, o tempo em todo o território nacional nesta quinta-feira será instável, sujeito a chuvas e trovoadas e não ensolarado durante todo o dia.

Na edição de 2/11, houve um erro de informação no editorial, na página 2, intitulado Que futuro nos espera. Ao invés de ler: em novembro devemos unir forças para eleger Jair Bolsonaro, do PSL, leia-se: em novembro devemos unir forças para eleger Fernando Haddad, do PT.

O trending topics da semana foi #émelhorjáirsearrependendo e não #émelhorjáirseacostumando, conforme publicamos na edição da última segunda-feira, na página 12.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

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ILHA DO NORTE

Quando o dia amanhece cinza como hoje, chuvoso, meio frio, o excesso de passado toma conta de mim. Então, lembro-me de Londres, a primeira vez que pisei ali na esperança de escrever um livro e, quem sabe, nunca mais voltar ao meu país tropical, com quem andava rompido.Tinha vinte e poucos anos, a minha calça Lee era desbotada pela água sanitária, a camiseta do Grateful Dead era preta, e os tamancos eram suecos. Os cabelos eram rebeldes, presos com um elástico para tapear a polícia inglesa, severa com os forasteiros que ali chegavam. Na mochila, havia apenas três cadernos Avante!, duas canetas Bic de cor roxa, sonhos guardados e uma boa dose de ilusão.
Gostei dali à primeira vista. No primeiro dia, ao chegar na Estação de Waterloo, sai andando pelas ruas molhadas brilhantes, encantado com as árvores uniformes, a limpeza das calçadas, o silêncio, os prédios revestidos de tijolinhos bonina com portas maravilhosas, vermelhas, verdes, azuis, amarelas e vinho. Cada uma mais linda que a outra.
Procurando no parque o albergue que me abrigaria nos primeiros dias, passei por esquilos comendo nozes, cavalheiros de fina estampa, galgos elegantes com um olhar blasé, nem aí para os pombos. Até chegar ao meu destino, passei por gansos, marrecos de Pequim, gaivotas, pardais e muitos melros beliscando o gramado.
Me instalei num pequeno quarto, o único para um hóspede só. Havia uma cama de solteiro e duas toalhas imaculadamente brancas em cima dela. Uma cadeira acolchoada, um guia da cidade, uma escrivaninha, uma chaleira elétrica em cima dela, dois ou três pacotinhos de chá Twinings de menta e nada mais.
Uma janela pequena dava para o gramado do parque e estava constantemente escorrendo água pelo vidro, suando, uma alquimia entre o quente ali dentro e o frio lá fora.
Lá fora, era Londres. Sonhava um dia em chegar ali e ir ficando. Gostava daquele ar sombrio, cinza, frio, triste, estrangeiro, europeu, que via de tempos em tempos nas páginas da revista Manchete. Meu inglês ruim seria corrigido em pouco tempo ao assistir a BBC todos os dias, ao ler o sisudo The Times e as revistas que gostava: Bird Magazine, Willd Life, New Statesman, Melody Maker, New Musical Express, Radio Times e Time Out.
Durei três dias naquele albergue, com dificuldade para aprender o inglês britânico e sem saber como a chaleira elétrica funcionava. Três dias era o tempo permitido para cada hóspede e nem insisti em ficar mais. Saí com a mochila nas costas rumo a Earls Court, onde me disseram que havia pequenos hotéis, baratos e limpos.
Cheguei em um simpático, depois de muito caminhar, de almoçar um arroz com curry e peru desfiado num pequeno restaurante indiano, onde a tristeza no olhar dos donos me comoveu, olhar que acabei me acostumando com o passar dos dias.
Dias que passei num hotel de chão irregular, janela travada pela tinta com que foi pintada, cama de casal, um quadro mostrando um cavalo em bico de pena e o nome dele: Filho da Puta, assim mesmo em bom português. Todas as noites, quando chegava no quarto do hotel, conversava com o Filho da Puta.
Contava a ele as lojas de discos que havia descoberto, os novos parques que havia percorrido, os cassinos onde arriscava algumas velhas moedas em troca de uma pequena fortuna que nunca veio. E as horas que passava na WHSmith decifrando os títulos dos livros, e folheando a Bird Magazine, sentado numa poltrona de couro marrom.
Tudo isso em busca de imaginação para um livro de contos curtos que chamaria O colecionador de passarinhos, uma ideia que vinha costurando desde que ouvi Blackbird pela primeira vez, no álbum branco dos Beatles, quando revi Ospássaros, de Alfred Hitchcock e li O corvo, de Edgar Allan Poe.
Não durou muito Londres na minha vida. Foi apenas um sonho de algumas noites de inverno, coisa de quem tem vinte e poucos anos e uma bagagem cheia de sonhos e ilusão. No dia da despedida fui até a feira de Portobello e comi um fish & chips embrulhado num papel de pão acompanhado de uma Guinness, sentado no meio-fio, não poderia ser de outra maneira.
São apenas algumas as lembranças dos poucos dias que passei ali. A fotografia da faixa para pedestres de Abbey Road, os primeiros discos de reggae que escutei nos guetos jamaicanos, os caramelos que roubei na Harrods, os cadernos Avante! na mochila, o prazer de andar no segundo andar dos ônibus vermelhos sem saber pra onde ir, a noite que passei dentro de uma cabine de telefone, com pouco dinheiro no bolso, comendo papinha da Nestlé.
Hoje, amanheceu assim aqui em São Paulo. O tempo cinza lá fora, a chuva fina caindo e o céu pesado nos protegendo, me fez lembrar da primeira vez que cheguei a Londres sonhando ficar para sempre e do livro O colecionador de passarinhos, que nunca escrevi.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

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ENCAIXOTANDO FAGNER

Joguei fora todos os discos do Lobão e da banda Ultraje a Rigor. Nunca tive coragem de jogar os do Fagner

Pouco antes de deixar o país, no início da década de 1970, comprei o disco Manera Fru Fru, Manera, de Raimundo Fagner. Foi um dos últimos long-plays que comprei antes de pegar o avião da Varig com destino ao desconhecido. Estávamos em busca de um movimento musical que substituísse o sucesso de Chico, Caetano, Edu, Milton, Tom, Lyra, Hime e tantos outros. E Fagner me pareceu o cara.

Manera Fru Fru, Manera era uma espécie de Sgt. Peppers do cearense, assim como foi Pérola Negra para Luiz Melodia, Alucinação para Belchior, Pavão Misterioso para Ednardo, Krig-Ha Bandolo para Raulzito e o Clube da Esquina para Milton.

O primeiro disco de Raimundo Fagner voou comigo pra Paris em forma de fita K7 da Basf e rodou naquele pequeno apartamento da Rue de la Roquette até virar pó. Longe daqui, chorava ao ouvir sua voz cortante lamentando que só deixaria o seu Cariri no último pau de arara ou declamando os versos de Mucuripe: “vento, vela, leva-me daqui”

Durante os anos distante do Brasil, recebi todos os discos de Raimundo Fagner pelo correio: o primeiro foi Ave Noturna, em que ele abria dizendo:

“Não chore se eu disser que já vou

Você quem quis assim, vai sofrer

Não faça eu perder a razão

Você machuca o meu coração”.

À beira do Sena, eu andava triste chutando folhas secas do outono, cantarolando Riacho do Navio:

“Riacho do navio corre pro Pajeú

O rio Pajeú vai despejar no São Francisco

O Rio São Francisco vai bater no meio do mar”.

Depois chegou o Traduzir-se, com poemas de Florbela Espanca (“Minh’alma de sonhar-te anda perdida/Meus olhos anda cegos de te ver/Não és sequer a razão do meu viver/Pois que tu és já toda a minha vida”) e, mais tarde, veio Raimundo Fagner cantando Sinal Fechado, de Paulinho da Viola, numa gravação histórica, bem como As rosas não falam, de Cartola. De chorar, de tão bonita.

Recebi também pelo correio uma edição do jornal Opinião que trouxe, na última página, uma entrevista com o cantor e compositor que já estava no topo do hit parade. Com o título “Eu quero ser o rei da juventude”, Fagner brincava com o rei de verdade e de plantão, Roberto Carlos. Antes de entrar na linha do tempo do sucesso fácil, ainda lançou Orós, que teve o auxílio luxuoso de Robertinho de Recife e Hermeto Pascoal.

A partir daí, a história de Raimundo Fagner é outra. Ou a minha história é outra, não sei. Continuei comprando seus discos depois que voltei ao Brasil, mas nunca mais encontrei aqueles versos cortantes e contundentes da sua juventude. Acontece.

Confesso o que muitos podem achar uma heresia, que é descartar obras. Um dia, joguei fora no latão de lixo do meu prédio todos os discos do Lobão e todos da banda Ultraje a Rigor, comandada por Roger Moreira. Mas, nunca tive coragem de jogar fora os discos de Raimundo Fagner. Estão todos aqui guardados dentro de uma caixa preta e branca, até que a plenitude e a morte nos separem.

Nos últimos anos, o cantor e compositor só soube pisar na bola. Apareceu na televisão elogiando Aécio Neves, fez uma musiquinha pro ex-juiz Sergio Moro e, nas últimas eleições, gravou um vídeo de 35 segundos afirmando que o seu candidato a presidência da Republica era Jair Bolsonaro. Ele termina a gravação dizendo: “Estamos juntos”. Na semana passada, em entrevista ao jornal O Globo, Fagner disse que o presidente da extrema-direita está fazendo as escolhas certas e que, por enquanto, está indo tudo muito bem.

A caixa preta e branca continua aqui, até quando, não sei. Nunca mais ouvi Penas do Tiê, Sina ou Pé de Sonhos. Tenho preferido Walter Franco na vitrola:

“É uma dor canalha

Que te dilacera

É um grito que se espalha

Também pudera

Não tarda nem falha

Apenas te espera

Num campo de batalha

É um grito que se espalha

É uma dor

Canalha”

O VIZINHO DO OITAVO

Tenho uma amiga muito divertida, muito animada, que gosta de conversar com todo mundo, puxa papo todo dia com o porteiro do prédio, com a diarista, com quem está dentro do elevador, na fila do banco, na feira escolhendo tomates durinhos, na porta do banheiro do shopping ou na fila da Claro.

Minha amiga gosta de ser amiga de todo mundo, ninguém escapa do seu papo, nem que seja pra comentar o calor, o frio, se vai chover ou não vai chover. Tudo que acontece ao seu redor é assunto, até mesmo aquele pernilongo de barriguinha cheia pousado no teto.

– Como tem pernilongo por aqui, né?

Quando minha amiga se mudou para um grande condomínio, foi um problema. Era gente demais pra fazer amizade. Conseguiu muitas, na piscina, no salão de festas e, principalmente, nas reuniões de condôminos.

Ficava às vezes assustada de ver tanta gente reunida, gente que morava em cima dela, embaixo, ao lado, em frente e, mesmo depois de alguns anos morando ali, nunca tinha visto.

Conheceu donas de casa, advogados, professoras, engenheiros, comerciantes, contadores, tinha de tudo naquele grande condomínio. Famílias com um filho, dois, três. Gente solteira, gente com trinta anos que ainda morava com os pais, artistas, jornalistas, gays dentro do armário e fora.

Toda vez que minha amiga estacionava o carro na garagem, ficava imaginando quem seria dono daquele Onyx laranja, daquele fusquinha azul-calcinha, daquela camionete Toro novinha e daquele Mini Cooper preto e branco.

Era difícil para ela decifrar quem era quem naquele condomínio quase cidade. Com alguns, ela fez uma amizade mais sólida, gente que ela conheceu no dia da inauguração da churrasqueira. Entre um coraçãozinho de galinha e uma costelinha, ela ficou sabendo que a moradora do sétimo também estudara no Colégio de Aplicação, que o morador do quinto era o dono do Mini Cooper preto e branco e que o senhor grisalho do décimo era o pai de uma famosa apresentadora de TV.

Mas tinha um morador que ainda intrigava a minha amiga, aquele que sempre parava no oitavo andar. Às vezes, entrava no elevador, cumprimentava todo simpático, comentava que estava um dia bom pra piscina, que era o dia do rodízio dele e que com os assaltos no bairro, estavam precisando colocar câmeras de vigilância no muro do prédio.

No dia seguinte, ao cruzar na portaria, ele sequer olhava pra ela, fingia que não conhecia e se ela dizia bom dia, ele muitas vezes nem respondia.

– Só pode ser um cara bipolar, ela pensou.

Na semana passada, abriu a porta do elevador e o morador fez questão de ajudá-la a colocar pra dentro todas as sacolas de cânhamo que comprara no Whole Foods Market de Picadilly Circus, em Londres. Ele foi gentil e até elogiou as sacolas, tão resistentes e bonitas.

Mas, no dia seguinte, subiu no elevador, desceu, como sempre, no oitavo andar, sem sequer olhar pro seu rosto.

Minha amiga chegou em casa, abriu a porta e foi logo dizendo pra filha:

– Que cara louco esse do oitavo. Tem dias que me cumprimenta, que conversa, tem dias que finge que nem me conhece. Agora, nunca mais cumprimentar. Vá se danar!

Foi quando a filha olhou pra ela e disse:

– Mãe, você não percebeu que eles são dois, que são gêmeos?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TOMBO

Pequena história de um acidente dentro de casa

Eram duas e meia da madrugada quando Julião, com nove anos de idade, despencou da cama beliche, estatelando no chão. O barulho foi um barulho surdo, seco, nós não imaginávamos que seria um tombo do beliche, no máximo suas revistas Recreio que ele costumava ler antes de dormir.Do tombo, vou contar mais tarde.

Julião era um menino muito curioso, sempre foi. Pequenininho ainda, era apaixonado por três coisas, além das revistas Recreio: Bandeiras, moedas e capitais. Todo final de ano, quando eu chegava em casa com o Almanaque Abril, ele debruçava sobre aquele calhamaço pra conferir as bandeiras de novos países que surgiam na África, as mudanças de moedas e a população das capitais.

Sim, antes do tombo, ele andou se interessando também pela população das capitais. Vinha encantado dizer que morávamos numa cidade que tinha uma população quatro vezes maior que a de Copenhague, a capital da Dinamarca.

Assinávamos a Folha e o Estadão e ele, logo cedo, ia direto nos cadernos de Economia pra ficar comparando o marco com o dólar, o franco com o peso, o iene com o dracma, numa época em que ainda não havia o euro. Vivia me pedindo laudas do Estadão, onde eu trabalhava, pra fazer gráficos e planilhas, reais e imaginárias. Gostava de fazer projeções.

As bandeiras, outra paixão, ele desenhava com esmero. Copiava direitinho do Atlas Melhoramentos, da enciclopédia Geografia Ilustrada que tínhamos em casa e também do Almanaque Abril, que trazia, em cores, cada uma delas.

Julião sempre foi uma figuraça. Nessa época, ainda sem Internet, eu jurava de pés juntos que ele seria economista, ia fazer FGV e ter uma profissão nada a ver com a nossa. Errei feio. Julião fez a Escola Guignard e hoje mexe com informática, com teatro, com arte e adora entrar numa briga política no Facebook. Nesse último quesito, não sei quem ele puxou. Risos.

Ele aprendia essas coisas olhando também um mapa-mundi que tínhamos em casa, enorme, brinde da revista Geo. Costumava ficar medindo a distância entre um país e outro com uma régua de 30 centímetros. O mundo para ele não tinha curvas.

O mapa do Brasil, Julião olhava com desconfiança porque ele não nascera em nenhum daqueles Estados. Não era paulista (apesar de ser um pouco), não era mineiro (apesar de ser muito), não era carioca, nem gaúcho. Na carteira de identidade dele estava escrito: Nacionalidade – Paris, França.

Agora vamos ao tombo. Quando vimos o Julião estatelado no chão, a primeira coisa que pensei foi: Será que bateu a cabeça em algum lugar? Será que está consciente de tudo? Levantamos o menino, meio sonolento, desorientado e a saída que encontrei foi fazer perguntas:

– Qual é o seu nome?

– Julião.

– Sobrenome?

– Villas.

Não me contentei e prossegui:

– Qual é a capital do Japão?

E ele respondeu, meio irritado:

– Tóquio!

– E da Tchecoslováquia?

– Praga!

– Como é a bandeira do Líbano?

Vermelha, branca e tem uma árvore no meio!

– E a moeda da Suíça, qual é?

– Franco Suíço.

Não tive dúvidas, carreguei ele no colo e devolvi pra parte de cima do beliche. Julião dormiu feito uma pedra o resto da noite.

No dia seguinte, liguei pro médico só pra narrar o acontecimento da madrugada e, além de rir, ele advertiu:

– Você não deveria ter colocado ele na cama imediatamente. Deveria ter ficado uma meia hora conversando, para que ele despertasse completamente.

Pensei com os meus botões: Conversar sobre o quê, aquela hora da madrugada? Sobre o dirrã marroquino, a moeda do Marrocos? A bandeira verde, amarela e azul do Gabão ou sobre Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim? Vai que ele não respondesse…

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SONHOS

Pequena história de um amigo que continua no lado esquerdo do meu peito

Um dia, meu médico disse que dificilmente eu teria problemas de memória na velhice. Não somente pelo jornal diário da família que escrevo e cultivo, desde 6 de novembro de 1977, mas também porque trabalho com a cabeça dia e noite. Fiquei feliz.

Meu pequeno museu do jornalismo não é informatizado e funciona à base da lembrança. Outro dia, um amigo meu perguntou se eu tinha uma reportagem sobre racismo, publicada na revista francesa Actuel e eu me lembrei perfeitamente, era assunto de capa. Fui procurar na minha revistaria e, depois de muito vasculhar, achei. Era uma revista com mais de quarenta anos.

Esse mesmo médico me sugeriu anotar meus sonhos diariamente, já que gosto de escrever, às vezes misturando a realidade com a ficção. Topei e hoje já tenho 1843 sonhos registrados e catalogados. Desde aquele janeiro de 2014, nunca mais deixei de sonhar um dia sequer. E registrar.

Sonho constantemente com passarinhos. São eles que mais aparecem nos meus sonhos. Curiós, periquitos australianos, canarinhos belgas, coleirinhas. Freud tentou me explicar com o livro A Interpretação dos Sonhos, mas não conseguiu. Li muito sobre o assunto, mas nunca cheguei a uma conclusão. O Guia dos Sonhos, Sonho e Arte, O Livro dos Sonhos, O Livro dos Sonhos e da Sorte, li tudo isso por curiosidade.

Diz a lenda que sonhar com dentes caindo significa que alguém da família vai morrer. Já sonhei muito, fiquei preocupado, mas fomos em frente. Diz a lenda que sonhar com fezes significa muito dinheiro. Nunca sonhei.

Minha mãe sonhava com coisas incríveis. Um dia, o meu pai foi Banco do Brasil receber o seu ordenado, voltou para a repartição e o dinheiro sumiu. Naquela época, as pessoas iam ao banco e levavam pra casa o salário inteiro. Um mês depois, minha mãe sonhou com um funcionário do Serviço de Meteorologia, que havia sido assassinado num hotel no centro de Belo Horizonte e ele disse a ela que o envelope com o dinheiro estava caído dentro do sofá de couro que ficava na sala do meu pai. Ela ligou pra ele na certeza de que o dinheiro estava lá. Viraram o sofá de cabeça pra baixo e o envelope caiu no chão com o ordenado do meu pai.

Lembro-me bem quando minha irmã mais velha era só preocupação, medo de tomar bomba em Francês no Colégio Sion. Minha mãe sonhou com o mesmo funcionário assassinado, o Osvaldo Menezes, dizendo para ela estudar o ponto de número 9. Era uma prova oral em que o aluno tirava de dentro de um saquinho de pano, um número com um assunto e tinha de dissertar sobre ele. Não deu outra. A minha irmã enfiou a mão no saquinho de pano e tirou o ponto número 9. Ela quase desmaiou na hora, mas recuperou-se porque sabia tudo de cor. Tirou 10 com louvor e foi aprovada.

Além dos passarinhos, sonho muito com peixes voando, aviões caindo, elevadores abertos de prédios em construção, paredes para serem escaladas e esquilos andando pelos gramados de Londres, Sonho muito com pessoas.

A pessoa que mais sonhei desde o dia em que comecei a anotar os meus sonhos é a minha amiga Sandra Annenberg. Treze vezes. Não sei se Freud explica. Talvez a vontade que temos de voltar a trabalhar juntos novamente, explique. Nos sonhos, temos sempre muitos projetos, como se sonho fosse vida real.

Não sei se é porque editei no inicio dos anos 2000, o livro A Fantástica Volta ao Mundo, de Zeca Camargo, ele está em segundo lugar nos meus sonhos, mas distante da Sandra. Seis vezes. Hoje resolvi contar aqui essa história, porque o meu amigo Geneton Moraes Neto, morto em 2016, empatou com Zeca Camargo essa noite.

Há várias semanas venho sonhando com ele e hoje foi um sonho, digamos, de verdade. Geneton tocou a campainha da minha casa e quando atendi, disse a ele:

– Eu sabia que você não tinha morrido!

Geneton vestia uma calça Lee, uma camisa cor de rosa e um tênis Conga sem cadarço. Nos abraçamos fortemente e ele estava vivo, senti isso. Estava ali para retomarmos o nosso projeto.

Nosso projeto, quando o seu coração parou de bater, estava andando. Queríamos fazer o Museu do Jornalismo, juntando meu acervo ao dele. Estávamos entusiasmados quando ele se sentiu mal numa ilha de edição e foi levado ao hospital, onde passou alguns meses e acabou nos deixando.

Como penso muito nesse projeto, talvez venha sonhando muito com ele, Geneton, amigo do peito. Não sei que fim levaram suas revistas, seus recortes de jornal, suas cadernetas de anotações, suas fitas K-7, seus vídeos em Super-8. Falha minha. Deveria ter procurado a Beth, sua mulher, mas não procurei.

Como toda vez que ia ao Rio, jantava com ele no Restaurante À Mineira, em Botafogo, onde comíamos aquele angu mole e planejávamos o Museu do Jornalismo, ir à Cidade Maravilhosa virou um sonho. O Rio de Janeiro está em terceiro lugar. Quatro vezes.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DOMINGO NO PARQUE

Um homem solitário ficou ali parado durante muito tempo, contemplando o verde da natureza do Parque Municipal. Também o céu infinitamente azul e nuvens que mais pareciam algodão. Ao lado do Teatro Francisco Nunes, ele apreciava tudo: O lago manso, as pequenas ondas que vinham quando um barco à remo ia. Ou quando um casal de patos mergulhava a cabeça n’água, em busca de resíduos para comer. As pessoas que passavam, nós por exemplo. Mas o homem que estava ali solitário praticamente não mudava de posição, só os olhos mexiam pra lá e pra cá. Quem é ele? Por que estaria ali no parque? Descansando de um final de semana de trabalho duro, respirando um pouco de ar puro? Teria ele mulher, seria viúvo? Teria filhos, genros, noras. netos? Não teria sido convidado pro churrasco do domingo? Não sei. Sei que ficou ali debaixo de uma árvore centenária que lhe dava sombra e um pouco de conforto. Vai ver que não é nada disso que imaginei. Estava ali apenas esperando o seu amor para um encontro marcado, título de uma velha crônica do seu conterrâneo.

[foto Alberto Villas]

 

HORIZONTES

Eu me lembro quando Belo Horizonte cabia quase toda dentro do contorno que dá nome a avenida. Pouca coisa saia fora dali, as primeiras ruas tortas, as primeiras favelas, a periferia. Hoje, a cidade se perdeu. Cresceu pra todos os lados mas continua Belo Horizonte, uma cidade maior e mais viva. Protesta em seus muros, escreve suas poesias nas paredes, expõe sua arte onde der, principalmente nas laterais dos edifícios. É uma cidade viva e confusa como todas as outras, com motocicletas do Uber Eats circulando por todos os cantos, entregando comida aos funcionários que não tem mais tempo, como o meu pai tinha, de ir em casa  almoçar o seu arroz, seu feijão tropeiro, sua couve, seu franguinho com quiabo, sua marmelada de sobremesa. Continuo andando por aqui, buscando na memória os lugares que não existem mais. As Estâncias Califórnia, a Guanabara, a Bemoreira, o Cine Pathé, o indiozinho da TV Itacolomi, Cafunga comentando os gols na rádio, a coxinha da Torre Eiffel e a Padaria Savassi. Continuo circulando por aqui e vendo coisas que gosto. A cada esquina eu me espanto e, mineiramente, digo: Nu!!!

Visto assim da Praça da Estação

O vendedor de algodão-doce

A presença de Niemeyer

Que tal um selfie?

[fotos Alberto Villas]

UM PASSEIO PELA MINHA BH

Uma volta pela cidade para matar a saudade

O Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, cartão postal que não poderia passar em branco

A intervenção urbana, presente nas esquinas do clube

Os grafitis que se espalham pelos muros

As peças de chita, a cara de Minas

Os irresistíveis queijos no Mercado Central

Mil tipos de pimenta, outra marca registrada

As livrarias de rua, o charme que ainda resiste. Aqui, a Dom Quixote

A coleção BH, a cidade de cada um, para quem quiser conhecer o coração da cidade. O volume 13, Carmo, foi escrito por este cronista

[fotos Alberto Villas]

A PEDRA FUNDAMENTAL

A casa da Rua Rio Verde ficou pronta em julho de 1950. Não houve festa de inauguração, nem mesmo chope na laje, quando a laje secou. Foi construída passo a passo, devagarinho, cada tijolo comprado, anotado numa caderneta Deve/Haver.

O velho era assim. Anotava não somente o tijolo que comprava, mas a cal, as pedras, o cimento, as telhas, as portas, as janelas, os tacos, os canos, os fios. Orgulhava-se do feito, mostrando aos cinco filhos aquela velha caderneta, nem me lembro mais em que moeda.

A casa ficou pronta um mês antes do meu nascimento. Meu umbigo ainda não havia caído, quando minha mãe deixou a Maternidade dos Comerciários e foi pra essa casa nova, cheirando a tinta e taco novo.

Era uma casa à moda antiga, não tinha armários embutidos, por exemplo, uma novidade que surgiu anos depois. Tinha copa com uma pia para lavarmos as mãos antes das refeições, tinha despensa onde meus pais guardavam pacotes e mais pacotes de papel higiênico Tico-Tico, muito arroz, muito feijão, muito fubá e engradados de água mineral São Lourenço, vício do velho.

E tinha um quintal, onde durante toda a nossa juventude, criamos porquinhos-da-índia, periquitos australianos, pombos, galinhas, coelhos e até mesmo um velho cágado, que metia muito medo na minha irmã mais nova.

A casa foi reformada várias vezes. Ganhou armários embutidos, uma garagem, uma lavanderia, móveis pés palito, tapetes com ondas estampadas inspiradas na bossa-nova, uma parreira e cimento no galinheiro, pra nosso desgosto. Gostávamos daquele chão de terra, onde as galinhas ciscavam caçando minhocas e os coelhos faziam buracos, seus ninhos.

Quando foi construída, ficava longe de tudo, no fim do mundo. Tínhamos que descer no ponto final do bonde e subir uns dez quarteirões a pé até chegar na Rua Rio Verde. O bairro foi crescendo e, com o passar dos anos, a casa acabou ficando no coração do bairro do Carmo, praticamente na Savassi, a Ipanema dos belo-horizontinos.

Lembro-me bem quando o meu pai recebeu uma proposta milionária do jornal O Globo, que queria transformar a nossa casa em sede do jornal carioca nas Minas Gerais. Lembro-me que eram dois milhões, não me lembro mais se de cruzeiros ou cruzados.

O velho resistiu bravamente, dizendo que não vendia a casa por dinheiro algum e não vendeu mesmo. Dizia que o seu caixão seria velado na sala principal, o que não aconteceu, porque o mundo mudou e o corpo foi para o Parque da Colina. Ninguém mais velava seus mortos na sala principal da casa.

O tempo foi passando, o bairro do Carmo crescendo, se desfigurando. Casas dos anos cinquenta, sessenta e setenta, aquelas com alpendre e jardins cheios de roseiras, foram dando lugar a cabelereiros, brigaderias, mini-mercados, botecos, sorveterias e lojinhas de operadoras de celular.

A casa da Rua Rio Verde foi se transformando num oásis que não suportava mais a modernidade, lembrando aquela velha canção do Caetano que fala da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Até que foi vendida, depois de muito pensar, porque a paixão que tínhamos por ela era muito grande.

Poucos dias depois da venda, lembramos de uma outra canção, aquela do Adoniran Barbosa, quando veio os home com as ferramentas e o dono mandou derrubá.

Mas como filho de peixe, peixinho é, meu filho Julião correu até lá e conseguiu recuperar cinco pedaços de pedras da casa, uma para cada filho do querido Doutor Bouçada.

Um prédio de apartamentos subiu num piscar de olhos e a fachada ganhou uma placa: Residencial Villas.

A pedra chegou às minhas mãos na semana passada e hoje ela repousa na estante do meu escritório, ao lado de três pedaços do muro de Berlim que, um dia, com as ferramenta na mão, arranquei e trouxe pro Brasil de recordação.

Depois de citar Caetano e Adoniran, lembro-me agora do poeta Drummond com o seu poema que diz: No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PERU

Quando eu era criança, no tempo do Mandiopã, não existia peru morto pra comprar, só vivo. Ainda mais peru congelado e com apito. Nem pensar. O meu pai comprava no mercado, que era onde se vendia peru vivo, levava o bicho pra casa, matava, temperava e assava quando chegava o Natal.

Um desses natais, entrou pra história porque o meu pai foi pro Mercado Central de Belo Horizonte com três amigos de copo, funcionários do Serviço de Meteorologia: Jesus, Mateus e Aurino.

Depois de uma dúzia de Brahmas, eles lembraram de comprar o peru, porque o objetivo inicial era esse. Escolheram o maior de todos e nem quiseram que o vendedor amarrasse as pernas do bicho com um barbante. Saíram com ele debaixo do braço, todo nervoso, se debatendo.

Debateu tanto que acabou escapulindo dos braços de Mateus e aprontando a maior confusão no mercado. O peru estava doidaço, subiu na banca de laranja, jogou frutas pra todos os lados, desceu, saiu correndo e os bebuns atrás dele. Entrou no açougue, passou pelas picanhas, pela alcatra e pelo acém e foi-se embora mercado afora. E a meninada correndo atrás, assobiando, porque quando a gente assobia, o peru glugluta.

Só mesmo um policial fez o bicho parar. Enfiou o danado dentro de um saco de linhagem, depois de dar uma bronca nos quatro meteorologistas que, seguramente, seriam reprovados no teste do bafômetro.

O peru é motivo de chacota. É concorrente do pinto, quando o menino chega aos sete anos, mais ou menos. Quem nunca ouviu uma mãe dando uma dura no filho?

– Tira a mão do peru, menino!

Nos tempos de TV Globo, todo ano era a mesma piada quando chegava o final do ano. A emissora dava um peru e dois panetones de presente pros funcionários. Só se ouvia nos corredores:

– Você já pegou o peru do Doutor Roberto?

Quem morre na véspera é peru! Essa frase, piada bem velha, era muito falada quando eu era criança, ainda no tempo do Cremogema.

Vinicius de Moraes viu poesia no peru e colocou o bicho dentro da Arca de Noé.

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

O peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-tico riu-se tanto

Que morreu de congestão

O peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão

Mulher muito enfeitada, oxigenada, com brincos enormes, colares, pulseiras, salto sete e meio e uma capinha do celular de oncinha, é chamada de perua. Não sei porque, a perua ave, na verdade, é bem mais simples que o peru macho, aquele que se exibe orgulhoso o seu rabo em forma de leque.

Não deve ser fácil pro peru, quando chega dezembro, ser chamado de peru de Natal. Isso significa que vai estar bem assado, recheado com farofa e, quem sabe, de uva passa, numa mesa cheia de família e ao som do Jingle Bell.

Procurei no Google e fiquei sabendo que o peru tem o nome científico de Meleagris, que pesa de 5 a 10 quilos, que a perua bota uma média de 12 ovos pra chocar, e se ele for malandro, consegue viver – ou melhor, sobreviver – a dez natais.

Quase todo peru é cinza, os únicos brancos que vi foi quando fui a Giverny, no interior da França, na casa do pintor Claude Monet. Lá tinha peru branco, iguais aos que ele pintou um dia.

Mas a grande confusão com o peru é geográfica. Existem mil versões para nosso país vizinho se chamar Peru. Uns dizem que o nome vem de uma tribo panamenha chamada Biru e que foi se transformando até chegar a Peru. Outros dizem é o nome de um rio que tem por lá, o Viru. E tem gente que garante que Peru na língua quíchua significa natureza. Quer dizer, nada a ver com a nossa ave.

E o mais curioso de tudo é a Turquia, em inglês Turkey, que traduzindo, é Peru. Quer dizer, temos um Peru aqui do lado e outro do outro lado do mundo, a Turkey, que também é Peru, mas não tem nada a ver com a ave. Deu pra entender? Boa ceia a todos!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TUCANO

Quando eu era criança, o nosso vizinho do lado tinha um tucano de verdade. Ele vivia solto no quintal, pulando de galho em galho das árvores frutíferas. A laranjeira, a mangueira, a goiabeira e uma ameixeira. De vez em quando, ele ia pro telhado e ficava espiando, do nosso lado, as galinhas procurando minhocas, os pombos catando palha pra fazer seus ninhos, os coelhos fazendo buracos na terra vermelha.

Toda ave tem um nome de família complicado, difícil de falar. A família do tucano á a Ramphastidae, mas poucas pessoas sabem, só mesmo os biólogos mais estudiosos. O que todo mundo sabe é que o tucano é bem brasileiro, tem um bico enorme que parece forte, mas é frágil, e muitas vezes caem em contradição.

Os tucanos vivem nas florestas da América Central, mas, principalmente nas florestas da América do Sul. São vistos também em Brasília, duas ou três vezes por semana, aqueles com uma plumagem cinza ou preta. No Brasil, existem em maior quantidade no Estado de São Paulo, desde que ocuparam o território, no dia primeiro de janeiro de 1995.

Eles se alimentam de frutas, são chegados nas menores, tipo pitanga, jabuticaba, seriguela, essas frutinhas. São conhecidos também por roubar ovos nos ninhos de outras aves, mas nunca são punidos por isso.

Os tucanos não são machistas, ajudam a fêmea a construir seus ninhos, a chocar os ovos e ajudam também a mamãe tucana a alimentar os filhotes. Voam meio desconjuntados e só alcançam voo pleno quando estão em helicópteros nos céus de Minas Gerais.

Tucanos adoram uma árvore grande e frondosa, passam o dia por lá, mas gostam também de um muro, principalmente no planalto central do país, onde, no cerrado, as árvores não são tão frondosas assim.

Em mil novecentos e sessenta e pouco, o tucano virou pop star na televisão brasileira, ao topar ser garoto propaganda da Varig, a maior companhia aérea nacional na época. A cada anúncio novo que aparecia na telinha, minha mãe me chamava: “Corre, vem ver o tucano da Varig!”

Eu corria pra frente da televisão e me lembro bem do tucano carioca passeando pelas praias de Copacabana, o tucano mineiro sobrevoando o Mineirão, o tucano cearense navegando numa jangada e o tucano gaúcho tomando chimarrão.

O meu pai, toda vez que via o tucano do nosso vizinho do lado, em cima do muro, ele dizia que tucano é bom de bico. Ele tinha razão. Nunca aquele tucano foi preso por roubar as ameixas e as goiabas no nosso quintal. Sempre viveu leve e solto.

Os tucanos medem aproximadamente 60 centímetros e pesam por volta de 620 gramas. Claro que tem algumas espécies que são maiores, chegam a 1 metro e 90 e pesam, às vezes, mais de 90 quilos.

Existem várias espécies de tucanos. O tucanuçu, o tucano-grande-de-papo-branco, o tucano-de-bico preto, o tucano-de-bico-verde, entre outros.

Recentemente descobriram três novas espécies: O tucano-da-mala, tucano-cocae e o tucano-propinae. Esses são os mais espertos da espécie e dificilmente são pegos, dificilmente irão um dia pro cativeiro.

Não é comum ver tucanos voando nas metrópoles.  Nas grandes cidades, costumam passar dias e dias em cima do muro. Essa espécie urbana é o tucano-amarelo-e-azul. Em São Paulo, costumam ser vistos no Parque Buenos Aires, no bairro de Higienópolis. Costumam sair de lá apenas em dias de eleição.

São tucanos que geralmente vivem numa boa, passeando por aqui na sua garoa. Mas desde o dia 28 de outubro, eles desapareceram da mídia, quase do mapa. Pelo que estou percebendo, estão correndo sério risco de extinção. Quem viver verá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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