ERRAMOS

Diferentemente do que publicamos ontem na entrevista com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, (Ministra diz que viu Jesus, página 6), Damares Alves afirmou que viu Jesus subindo numa goiabeira e não no Monte das Oliveiras.

Ao contrário do que foi publicado na reportagem Ministro quer por mordaça no Ibama (página 8, edição de domingo), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse não ter conhecimento de quem foi Chico Mendes.

A legenda da foto publicada na página 4 da edição de sábado está invertida. Quem está na foto maior é o trapalhão Dedé Santana e não o presidente Jair Bolsonaro.

O título principal da página 7, da edição de ontem, foi publicado erroneamente. Onde se lê Bolsonaro convoca ministros para falar de laranjas, o correto é Bolsonaro convoca ministros para falar dos pepinos.

Houve um erro de impressão no título da reportagem Moro comenta todos os problemas do governo (edição de 22/2, página 4). O correto é Mourão e não Moro.

Diferentemente do que foi publicado na legenda da foto na primeira página da edição de domingo, o presidente da República estava usando, na reunião com seus ministros, um chinelo Ryder e não sandálias Havaianas.

O nome do ex-secretário geral da Presidência da República foi grafado incorretamente na reportagem da página 10, na edição de 2/3. O certo é Gustavo Bebianno e não Gustavo Bobeando.

Por um erro de impressão, na reportagem sobre a família Bolsonaro (Quem são eles?, edição de terça-feira, página 5) saiu grafado malícia ao invés de milícia.

Diferentemente do que informamos no artigo publicado na quarta-feira, na página 12, (Alexandre Frota posta vídeo pornô durante o carnaval), na verdade foi o presidente da República quem postou o vídeo pornô e não o ex-ator Alexandre Frota.

Por um erro de impressão, a informação de que o presidente Jair Bolsonaro passa suas horas de folga ouvindo Wagnerestá errada. O correto é Fagner.

Está errada a informação que publicamos na edição de 10/1, na página 7 (As leituras do presidente). Na verdade, o livro de cabeceira do presidente não é Seja Foda, de Caio Carneiro, e sim O mínimo que você precisa saber para não ser umidiota, de Olavo de Carvalho.

Diferentemente do que foi publicado na edição de 17/2, o ministro da Educação, Ricardo Vélez, refere-se ao Hino Nacional, e não à música Apesar de você, de Chico Buarque.

Na edição de 14/3, houve um erro de informação na página 3. Ao invés de depois do Paraguai, Bolsonaro irá aos Estados Unidos, o correto é: Depois do Paraguai, Bolsonaro irá à merda.

Diferentemente do que foi publicado na edição de terça-feira passada, na página 22, o tempo em todo o território nacional nesta quinta-feira será instável, sujeito a chuvas e trovoadas e não ensolarado durante todo o dia.

Na edição de 2/11, houve um erro de informação no editorial, na página 2, intitulado Que futuro nos espera. Ao invés de ler: em novembro devemos unir forças para eleger Jair Bolsonaro, do PSL, leia-se: em novembro devemos unir forças para eleger Fernando Haddad, do PT.

O trending topics da semana foi #émelhorjáirsearrependendo e não #émelhorjáirseacostumando, conforme publicamos na edição da última segunda-feira, na página 12.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

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ILHA DO NORTE

Quando o dia amanhece cinza como hoje, chuvoso, meio frio, o excesso de passado toma conta de mim. Então, lembro-me de Londres, a primeira vez que pisei ali na esperança de escrever um livro e, quem sabe, nunca mais voltar ao meu país tropical, com quem andava rompido.Tinha vinte e poucos anos, a minha calça Lee era desbotada pela água sanitária, a camiseta do Grateful Dead era preta, e os tamancos eram suecos. Os cabelos eram rebeldes, presos com um elástico para tapear a polícia inglesa, severa com os forasteiros que ali chegavam. Na mochila, havia apenas três cadernos Avante!, duas canetas Bic de cor roxa, sonhos guardados e uma boa dose de ilusão.
Gostei dali à primeira vista. No primeiro dia, ao chegar na Estação de Waterloo, sai andando pelas ruas molhadas brilhantes, encantado com as árvores uniformes, a limpeza das calçadas, o silêncio, os prédios revestidos de tijolinhos bonina com portas maravilhosas, vermelhas, verdes, azuis, amarelas e vinho. Cada uma mais linda que a outra.
Procurando no parque o albergue que me abrigaria nos primeiros dias, passei por esquilos comendo nozes, cavalheiros de fina estampa, galgos elegantes com um olhar blasé, nem aí para os pombos. Até chegar ao meu destino, passei por gansos, marrecos de Pequim, gaivotas, pardais e muitos melros beliscando o gramado.
Me instalei num pequeno quarto, o único para um hóspede só. Havia uma cama de solteiro e duas toalhas imaculadamente brancas em cima dela. Uma cadeira acolchoada, um guia da cidade, uma escrivaninha, uma chaleira elétrica em cima dela, dois ou três pacotinhos de chá Twinings de menta e nada mais.
Uma janela pequena dava para o gramado do parque e estava constantemente escorrendo água pelo vidro, suando, uma alquimia entre o quente ali dentro e o frio lá fora.
Lá fora, era Londres. Sonhava um dia em chegar ali e ir ficando. Gostava daquele ar sombrio, cinza, frio, triste, estrangeiro, europeu, que via de tempos em tempos nas páginas da revista Manchete. Meu inglês ruim seria corrigido em pouco tempo ao assistir a BBC todos os dias, ao ler o sisudo The Times e as revistas que gostava: Bird Magazine, Willd Life, New Statesman, Melody Maker, New Musical Express, Radio Times e Time Out.
Durei três dias naquele albergue, com dificuldade para aprender o inglês britânico e sem saber como a chaleira elétrica funcionava. Três dias era o tempo permitido para cada hóspede e nem insisti em ficar mais. Saí com a mochila nas costas rumo a Earls Court, onde me disseram que havia pequenos hotéis, baratos e limpos.
Cheguei em um simpático, depois de muito caminhar, de almoçar um arroz com curry e peru desfiado num pequeno restaurante indiano, onde a tristeza no olhar dos donos me comoveu, olhar que acabei me acostumando com o passar dos dias.
Dias que passei num hotel de chão irregular, janela travada pela tinta com que foi pintada, cama de casal, um quadro mostrando um cavalo em bico de pena e o nome dele: Filho da Puta, assim mesmo em bom português. Todas as noites, quando chegava no quarto do hotel, conversava com o Filho da Puta.
Contava a ele as lojas de discos que havia descoberto, os novos parques que havia percorrido, os cassinos onde arriscava algumas velhas moedas em troca de uma pequena fortuna que nunca veio. E as horas que passava na WHSmith decifrando os títulos dos livros, e folheando a Bird Magazine, sentado numa poltrona de couro marrom.
Tudo isso em busca de imaginação para um livro de contos curtos que chamaria O colecionador de passarinhos, uma ideia que vinha costurando desde que ouvi Blackbird pela primeira vez, no álbum branco dos Beatles, quando revi Ospássaros, de Alfred Hitchcock e li O corvo, de Edgar Allan Poe.
Não durou muito Londres na minha vida. Foi apenas um sonho de algumas noites de inverno, coisa de quem tem vinte e poucos anos e uma bagagem cheia de sonhos e ilusão. No dia da despedida fui até a feira de Portobello e comi um fish & chips embrulhado num papel de pão acompanhado de uma Guinness, sentado no meio-fio, não poderia ser de outra maneira.
São apenas algumas as lembranças dos poucos dias que passei ali. A fotografia da faixa para pedestres de Abbey Road, os primeiros discos de reggae que escutei nos guetos jamaicanos, os caramelos que roubei na Harrods, os cadernos Avante! na mochila, o prazer de andar no segundo andar dos ônibus vermelhos sem saber pra onde ir, a noite que passei dentro de uma cabine de telefone, com pouco dinheiro no bolso, comendo papinha da Nestlé.
Hoje, amanheceu assim aqui em São Paulo. O tempo cinza lá fora, a chuva fina caindo e o céu pesado nos protegendo, me fez lembrar da primeira vez que cheguei a Londres sonhando ficar para sempre e do livro O colecionador de passarinhos, que nunca escrevi.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

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ENCAIXOTANDO FAGNER

Joguei fora todos os discos do Lobão e da banda Ultraje a Rigor. Nunca tive coragem de jogar os do Fagner

Pouco antes de deixar o país, no início da década de 1970, comprei o disco Manera Fru Fru, Manera, de Raimundo Fagner. Foi um dos últimos long-plays que comprei antes de pegar o avião da Varig com destino ao desconhecido. Estávamos em busca de um movimento musical que substituísse o sucesso de Chico, Caetano, Edu, Milton, Tom, Lyra, Hime e tantos outros. E Fagner me pareceu o cara.

Manera Fru Fru, Manera era uma espécie de Sgt. Peppers do cearense, assim como foi Pérola Negra para Luiz Melodia, Alucinação para Belchior, Pavão Misterioso para Ednardo, Krig-Ha Bandolo para Raulzito e o Clube da Esquina para Milton.

O primeiro disco de Raimundo Fagner voou comigo pra Paris em forma de fita K7 da Basf e rodou naquele pequeno apartamento da Rue de la Roquette até virar pó. Longe daqui, chorava ao ouvir sua voz cortante lamentando que só deixaria o seu Cariri no último pau de arara ou declamando os versos de Mucuripe: “vento, vela, leva-me daqui”

Durante os anos distante do Brasil, recebi todos os discos de Raimundo Fagner pelo correio: o primeiro foi Ave Noturna, em que ele abria dizendo:

“Não chore se eu disser que já vou

Você quem quis assim, vai sofrer

Não faça eu perder a razão

Você machuca o meu coração”.

À beira do Sena, eu andava triste chutando folhas secas do outono, cantarolando Riacho do Navio:

“Riacho do navio corre pro Pajeú

O rio Pajeú vai despejar no São Francisco

O Rio São Francisco vai bater no meio do mar”.

Depois chegou o Traduzir-se, com poemas de Florbela Espanca (“Minh’alma de sonhar-te anda perdida/Meus olhos anda cegos de te ver/Não és sequer a razão do meu viver/Pois que tu és já toda a minha vida”) e, mais tarde, veio Raimundo Fagner cantando Sinal Fechado, de Paulinho da Viola, numa gravação histórica, bem como As rosas não falam, de Cartola. De chorar, de tão bonita.

Recebi também pelo correio uma edição do jornal Opinião que trouxe, na última página, uma entrevista com o cantor e compositor que já estava no topo do hit parade. Com o título “Eu quero ser o rei da juventude”, Fagner brincava com o rei de verdade e de plantão, Roberto Carlos. Antes de entrar na linha do tempo do sucesso fácil, ainda lançou Orós, que teve o auxílio luxuoso de Robertinho de Recife e Hermeto Pascoal.

A partir daí, a história de Raimundo Fagner é outra. Ou a minha história é outra, não sei. Continuei comprando seus discos depois que voltei ao Brasil, mas nunca mais encontrei aqueles versos cortantes e contundentes da sua juventude. Acontece.

Confesso o que muitos podem achar uma heresia, que é descartar obras. Um dia, joguei fora no latão de lixo do meu prédio todos os discos do Lobão e todos da banda Ultraje a Rigor, comandada por Roger Moreira. Mas, nunca tive coragem de jogar fora os discos de Raimundo Fagner. Estão todos aqui guardados dentro de uma caixa preta e branca, até que a plenitude e a morte nos separem.

Nos últimos anos, o cantor e compositor só soube pisar na bola. Apareceu na televisão elogiando Aécio Neves, fez uma musiquinha pro ex-juiz Sergio Moro e, nas últimas eleições, gravou um vídeo de 35 segundos afirmando que o seu candidato a presidência da Republica era Jair Bolsonaro. Ele termina a gravação dizendo: “Estamos juntos”. Na semana passada, em entrevista ao jornal O Globo, Fagner disse que o presidente da extrema-direita está fazendo as escolhas certas e que, por enquanto, está indo tudo muito bem.

A caixa preta e branca continua aqui, até quando, não sei. Nunca mais ouvi Penas do Tiê, Sina ou Pé de Sonhos. Tenho preferido Walter Franco na vitrola:

“É uma dor canalha

Que te dilacera

É um grito que se espalha

Também pudera

Não tarda nem falha

Apenas te espera

Num campo de batalha

É um grito que se espalha

É uma dor

Canalha”

O VIZINHO DO OITAVO

Tenho uma amiga muito divertida, muito animada, que gosta de conversar com todo mundo, puxa papo todo dia com o porteiro do prédio, com a diarista, com quem está dentro do elevador, na fila do banco, na feira escolhendo tomates durinhos, na porta do banheiro do shopping ou na fila da Claro.

Minha amiga gosta de ser amiga de todo mundo, ninguém escapa do seu papo, nem que seja pra comentar o calor, o frio, se vai chover ou não vai chover. Tudo que acontece ao seu redor é assunto, até mesmo aquele pernilongo de barriguinha cheia pousado no teto.

– Como tem pernilongo por aqui, né?

Quando minha amiga se mudou para um grande condomínio, foi um problema. Era gente demais pra fazer amizade. Conseguiu muitas, na piscina, no salão de festas e, principalmente, nas reuniões de condôminos.

Ficava às vezes assustada de ver tanta gente reunida, gente que morava em cima dela, embaixo, ao lado, em frente e, mesmo depois de alguns anos morando ali, nunca tinha visto.

Conheceu donas de casa, advogados, professoras, engenheiros, comerciantes, contadores, tinha de tudo naquele grande condomínio. Famílias com um filho, dois, três. Gente solteira, gente com trinta anos que ainda morava com os pais, artistas, jornalistas, gays dentro do armário e fora.

Toda vez que minha amiga estacionava o carro na garagem, ficava imaginando quem seria dono daquele Onyx laranja, daquele fusquinha azul-calcinha, daquela camionete Toro novinha e daquele Mini Cooper preto e branco.

Era difícil para ela decifrar quem era quem naquele condomínio quase cidade. Com alguns, ela fez uma amizade mais sólida, gente que ela conheceu no dia da inauguração da churrasqueira. Entre um coraçãozinho de galinha e uma costelinha, ela ficou sabendo que a moradora do sétimo também estudara no Colégio de Aplicação, que o morador do quinto era o dono do Mini Cooper preto e branco e que o senhor grisalho do décimo era o pai de uma famosa apresentadora de TV.

Mas tinha um morador que ainda intrigava a minha amiga, aquele que sempre parava no oitavo andar. Às vezes, entrava no elevador, cumprimentava todo simpático, comentava que estava um dia bom pra piscina, que era o dia do rodízio dele e que com os assaltos no bairro, estavam precisando colocar câmeras de vigilância no muro do prédio.

No dia seguinte, ao cruzar na portaria, ele sequer olhava pra ela, fingia que não conhecia e se ela dizia bom dia, ele muitas vezes nem respondia.

– Só pode ser um cara bipolar, ela pensou.

Na semana passada, abriu a porta do elevador e o morador fez questão de ajudá-la a colocar pra dentro todas as sacolas de cânhamo que comprara no Whole Foods Market de Picadilly Circus, em Londres. Ele foi gentil e até elogiou as sacolas, tão resistentes e bonitas.

Mas, no dia seguinte, subiu no elevador, desceu, como sempre, no oitavo andar, sem sequer olhar pro seu rosto.

Minha amiga chegou em casa, abriu a porta e foi logo dizendo pra filha:

– Que cara louco esse do oitavo. Tem dias que me cumprimenta, que conversa, tem dias que finge que nem me conhece. Agora, nunca mais cumprimentar. Vá se danar!

Foi quando a filha olhou pra ela e disse:

– Mãe, você não percebeu que eles são dois, que são gêmeos?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TOMBO

Pequena história de um acidente dentro de casa

Eram duas e meia da madrugada quando Julião, com nove anos de idade, despencou da cama beliche, estatelando no chão. O barulho foi um barulho surdo, seco, nós não imaginávamos que seria um tombo do beliche, no máximo suas revistas Recreio que ele costumava ler antes de dormir.Do tombo, vou contar mais tarde.

Julião era um menino muito curioso, sempre foi. Pequenininho ainda, era apaixonado por três coisas, além das revistas Recreio: Bandeiras, moedas e capitais. Todo final de ano, quando eu chegava em casa com o Almanaque Abril, ele debruçava sobre aquele calhamaço pra conferir as bandeiras de novos países que surgiam na África, as mudanças de moedas e a população das capitais.

Sim, antes do tombo, ele andou se interessando também pela população das capitais. Vinha encantado dizer que morávamos numa cidade que tinha uma população quatro vezes maior que a de Copenhague, a capital da Dinamarca.

Assinávamos a Folha e o Estadão e ele, logo cedo, ia direto nos cadernos de Economia pra ficar comparando o marco com o dólar, o franco com o peso, o iene com o dracma, numa época em que ainda não havia o euro. Vivia me pedindo laudas do Estadão, onde eu trabalhava, pra fazer gráficos e planilhas, reais e imaginárias. Gostava de fazer projeções.

As bandeiras, outra paixão, ele desenhava com esmero. Copiava direitinho do Atlas Melhoramentos, da enciclopédia Geografia Ilustrada que tínhamos em casa e também do Almanaque Abril, que trazia, em cores, cada uma delas.

Julião sempre foi uma figuraça. Nessa época, ainda sem Internet, eu jurava de pés juntos que ele seria economista, ia fazer FGV e ter uma profissão nada a ver com a nossa. Errei feio. Julião fez a Escola Guignard e hoje mexe com informática, com teatro, com arte e adora entrar numa briga política no Facebook. Nesse último quesito, não sei quem ele puxou. Risos.

Ele aprendia essas coisas olhando também um mapa-mundi que tínhamos em casa, enorme, brinde da revista Geo. Costumava ficar medindo a distância entre um país e outro com uma régua de 30 centímetros. O mundo para ele não tinha curvas.

O mapa do Brasil, Julião olhava com desconfiança porque ele não nascera em nenhum daqueles Estados. Não era paulista (apesar de ser um pouco), não era mineiro (apesar de ser muito), não era carioca, nem gaúcho. Na carteira de identidade dele estava escrito: Nacionalidade – Paris, França.

Agora vamos ao tombo. Quando vimos o Julião estatelado no chão, a primeira coisa que pensei foi: Será que bateu a cabeça em algum lugar? Será que está consciente de tudo? Levantamos o menino, meio sonolento, desorientado e a saída que encontrei foi fazer perguntas:

– Qual é o seu nome?

– Julião.

– Sobrenome?

– Villas.

Não me contentei e prossegui:

– Qual é a capital do Japão?

E ele respondeu, meio irritado:

– Tóquio!

– E da Tchecoslováquia?

– Praga!

– Como é a bandeira do Líbano?

Vermelha, branca e tem uma árvore no meio!

– E a moeda da Suíça, qual é?

– Franco Suíço.

Não tive dúvidas, carreguei ele no colo e devolvi pra parte de cima do beliche. Julião dormiu feito uma pedra o resto da noite.

No dia seguinte, liguei pro médico só pra narrar o acontecimento da madrugada e, além de rir, ele advertiu:

– Você não deveria ter colocado ele na cama imediatamente. Deveria ter ficado uma meia hora conversando, para que ele despertasse completamente.

Pensei com os meus botões: Conversar sobre o quê, aquela hora da madrugada? Sobre o dirrã marroquino, a moeda do Marrocos? A bandeira verde, amarela e azul do Gabão ou sobre Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim? Vai que ele não respondesse…

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SONHOS

Pequena história de um amigo que continua no lado esquerdo do meu peito

Um dia, meu médico disse que dificilmente eu teria problemas de memória na velhice. Não somente pelo jornal diário da família que escrevo e cultivo, desde 6 de novembro de 1977, mas também porque trabalho com a cabeça dia e noite. Fiquei feliz.

Meu pequeno museu do jornalismo não é informatizado e funciona à base da lembrança. Outro dia, um amigo meu perguntou se eu tinha uma reportagem sobre racismo, publicada na revista francesa Actuel e eu me lembrei perfeitamente, era assunto de capa. Fui procurar na minha revistaria e, depois de muito vasculhar, achei. Era uma revista com mais de quarenta anos.

Esse mesmo médico me sugeriu anotar meus sonhos diariamente, já que gosto de escrever, às vezes misturando a realidade com a ficção. Topei e hoje já tenho 1843 sonhos registrados e catalogados. Desde aquele janeiro de 2014, nunca mais deixei de sonhar um dia sequer. E registrar.

Sonho constantemente com passarinhos. São eles que mais aparecem nos meus sonhos. Curiós, periquitos australianos, canarinhos belgas, coleirinhas. Freud tentou me explicar com o livro A Interpretação dos Sonhos, mas não conseguiu. Li muito sobre o assunto, mas nunca cheguei a uma conclusão. O Guia dos Sonhos, Sonho e Arte, O Livro dos Sonhos, O Livro dos Sonhos e da Sorte, li tudo isso por curiosidade.

Diz a lenda que sonhar com dentes caindo significa que alguém da família vai morrer. Já sonhei muito, fiquei preocupado, mas fomos em frente. Diz a lenda que sonhar com fezes significa muito dinheiro. Nunca sonhei.

Minha mãe sonhava com coisas incríveis. Um dia, o meu pai foi Banco do Brasil receber o seu ordenado, voltou para a repartição e o dinheiro sumiu. Naquela época, as pessoas iam ao banco e levavam pra casa o salário inteiro. Um mês depois, minha mãe sonhou com um funcionário do Serviço de Meteorologia, que havia sido assassinado num hotel no centro de Belo Horizonte e ele disse a ela que o envelope com o dinheiro estava caído dentro do sofá de couro que ficava na sala do meu pai. Ela ligou pra ele na certeza de que o dinheiro estava lá. Viraram o sofá de cabeça pra baixo e o envelope caiu no chão com o ordenado do meu pai.

Lembro-me bem quando minha irmã mais velha era só preocupação, medo de tomar bomba em Francês no Colégio Sion. Minha mãe sonhou com o mesmo funcionário assassinado, o Osvaldo Menezes, dizendo para ela estudar o ponto de número 9. Era uma prova oral em que o aluno tirava de dentro de um saquinho de pano, um número com um assunto e tinha de dissertar sobre ele. Não deu outra. A minha irmã enfiou a mão no saquinho de pano e tirou o ponto número 9. Ela quase desmaiou na hora, mas recuperou-se porque sabia tudo de cor. Tirou 10 com louvor e foi aprovada.

Além dos passarinhos, sonho muito com peixes voando, aviões caindo, elevadores abertos de prédios em construção, paredes para serem escaladas e esquilos andando pelos gramados de Londres, Sonho muito com pessoas.

A pessoa que mais sonhei desde o dia em que comecei a anotar os meus sonhos é a minha amiga Sandra Annenberg. Treze vezes. Não sei se Freud explica. Talvez a vontade que temos de voltar a trabalhar juntos novamente, explique. Nos sonhos, temos sempre muitos projetos, como se sonho fosse vida real.

Não sei se é porque editei no inicio dos anos 2000, o livro A Fantástica Volta ao Mundo, de Zeca Camargo, ele está em segundo lugar nos meus sonhos, mas distante da Sandra. Seis vezes. Hoje resolvi contar aqui essa história, porque o meu amigo Geneton Moraes Neto, morto em 2016, empatou com Zeca Camargo essa noite.

Há várias semanas venho sonhando com ele e hoje foi um sonho, digamos, de verdade. Geneton tocou a campainha da minha casa e quando atendi, disse a ele:

– Eu sabia que você não tinha morrido!

Geneton vestia uma calça Lee, uma camisa cor de rosa e um tênis Conga sem cadarço. Nos abraçamos fortemente e ele estava vivo, senti isso. Estava ali para retomarmos o nosso projeto.

Nosso projeto, quando o seu coração parou de bater, estava andando. Queríamos fazer o Museu do Jornalismo, juntando meu acervo ao dele. Estávamos entusiasmados quando ele se sentiu mal numa ilha de edição e foi levado ao hospital, onde passou alguns meses e acabou nos deixando.

Como penso muito nesse projeto, talvez venha sonhando muito com ele, Geneton, amigo do peito. Não sei que fim levaram suas revistas, seus recortes de jornal, suas cadernetas de anotações, suas fitas K-7, seus vídeos em Super-8. Falha minha. Deveria ter procurado a Beth, sua mulher, mas não procurei.

Como toda vez que ia ao Rio, jantava com ele no Restaurante À Mineira, em Botafogo, onde comíamos aquele angu mole e planejávamos o Museu do Jornalismo, ir à Cidade Maravilhosa virou um sonho. O Rio de Janeiro está em terceiro lugar. Quatro vezes.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DOMINGO NO PARQUE

Um homem solitário ficou ali parado durante muito tempo, contemplando o verde da natureza do Parque Municipal. Também o céu infinitamente azul e nuvens que mais pareciam algodão. Ao lado do Teatro Francisco Nunes, ele apreciava tudo: O lago manso, as pequenas ondas que vinham quando um barco à remo ia. Ou quando um casal de patos mergulhava a cabeça n’água, em busca de resíduos para comer. As pessoas que passavam, nós por exemplo. Mas o homem que estava ali solitário praticamente não mudava de posição, só os olhos mexiam pra lá e pra cá. Quem é ele? Por que estaria ali no parque? Descansando de um final de semana de trabalho duro, respirando um pouco de ar puro? Teria ele mulher, seria viúvo? Teria filhos, genros, noras. netos? Não teria sido convidado pro churrasco do domingo? Não sei. Sei que ficou ali debaixo de uma árvore centenária que lhe dava sombra e um pouco de conforto. Vai ver que não é nada disso que imaginei. Estava ali apenas esperando o seu amor para um encontro marcado, título de uma velha crônica do seu conterrâneo.

[foto Alberto Villas]

 

HORIZONTES

Eu me lembro quando Belo Horizonte cabia quase toda dentro do contorno que dá nome a avenida. Pouca coisa saia fora dali, as primeiras ruas tortas, as primeiras favelas, a periferia. Hoje, a cidade se perdeu. Cresceu pra todos os lados mas continua Belo Horizonte, uma cidade maior e mais viva. Protesta em seus muros, escreve suas poesias nas paredes, expõe sua arte onde der, principalmente nas laterais dos edifícios. É uma cidade viva e confusa como todas as outras, com motocicletas do Uber Eats circulando por todos os cantos, entregando comida aos funcionários que não tem mais tempo, como o meu pai tinha, de ir em casa  almoçar o seu arroz, seu feijão tropeiro, sua couve, seu franguinho com quiabo, sua marmelada de sobremesa. Continuo andando por aqui, buscando na memória os lugares que não existem mais. As Estâncias Califórnia, a Guanabara, a Bemoreira, o Cine Pathé, o indiozinho da TV Itacolomi, Cafunga comentando os gols na rádio, a coxinha da Torre Eiffel e a Padaria Savassi. Continuo circulando por aqui e vendo coisas que gosto. A cada esquina eu me espanto e, mineiramente, digo: Nu!!!

Visto assim da Praça da Estação

O vendedor de algodão-doce

A presença de Niemeyer

Que tal um selfie?

[fotos Alberto Villas]

UM PASSEIO PELA MINHA BH

Uma volta pela cidade para matar a saudade

O Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, cartão postal que não poderia passar em branco

A intervenção urbana, presente nas esquinas do clube

Os grafitis que se espalham pelos muros

As peças de chita, a cara de Minas

Os irresistíveis queijos no Mercado Central

Mil tipos de pimenta, outra marca registrada

As livrarias de rua, o charme que ainda resiste. Aqui, a Dom Quixote

A coleção BH, a cidade de cada um, para quem quiser conhecer o coração da cidade. O volume 13, Carmo, foi escrito por este cronista

[fotos Alberto Villas]

A PEDRA FUNDAMENTAL

A casa da Rua Rio Verde ficou pronta em julho de 1950. Não houve festa de inauguração, nem mesmo chope na laje, quando a laje secou. Foi construída passo a passo, devagarinho, cada tijolo comprado, anotado numa caderneta Deve/Haver.

O velho era assim. Anotava não somente o tijolo que comprava, mas a cal, as pedras, o cimento, as telhas, as portas, as janelas, os tacos, os canos, os fios. Orgulhava-se do feito, mostrando aos cinco filhos aquela velha caderneta, nem me lembro mais em que moeda.

A casa ficou pronta um mês antes do meu nascimento. Meu umbigo ainda não havia caído, quando minha mãe deixou a Maternidade dos Comerciários e foi pra essa casa nova, cheirando a tinta e taco novo.

Era uma casa à moda antiga, não tinha armários embutidos, por exemplo, uma novidade que surgiu anos depois. Tinha copa com uma pia para lavarmos as mãos antes das refeições, tinha despensa onde meus pais guardavam pacotes e mais pacotes de papel higiênico Tico-Tico, muito arroz, muito feijão, muito fubá e engradados de água mineral São Lourenço, vício do velho.

E tinha um quintal, onde durante toda a nossa juventude, criamos porquinhos-da-índia, periquitos australianos, pombos, galinhas, coelhos e até mesmo um velho cágado, que metia muito medo na minha irmã mais nova.

A casa foi reformada várias vezes. Ganhou armários embutidos, uma garagem, uma lavanderia, móveis pés palito, tapetes com ondas estampadas inspiradas na bossa-nova, uma parreira e cimento no galinheiro, pra nosso desgosto. Gostávamos daquele chão de terra, onde as galinhas ciscavam caçando minhocas e os coelhos faziam buracos, seus ninhos.

Quando foi construída, ficava longe de tudo, no fim do mundo. Tínhamos que descer no ponto final do bonde e subir uns dez quarteirões a pé até chegar na Rua Rio Verde. O bairro foi crescendo e, com o passar dos anos, a casa acabou ficando no coração do bairro do Carmo, praticamente na Savassi, a Ipanema dos belo-horizontinos.

Lembro-me bem quando o meu pai recebeu uma proposta milionária do jornal O Globo, que queria transformar a nossa casa em sede do jornal carioca nas Minas Gerais. Lembro-me que eram dois milhões, não me lembro mais se de cruzeiros ou cruzados.

O velho resistiu bravamente, dizendo que não vendia a casa por dinheiro algum e não vendeu mesmo. Dizia que o seu caixão seria velado na sala principal, o que não aconteceu, porque o mundo mudou e o corpo foi para o Parque da Colina. Ninguém mais velava seus mortos na sala principal da casa.

O tempo foi passando, o bairro do Carmo crescendo, se desfigurando. Casas dos anos cinquenta, sessenta e setenta, aquelas com alpendre e jardins cheios de roseiras, foram dando lugar a cabelereiros, brigaderias, mini-mercados, botecos, sorveterias e lojinhas de operadoras de celular.

A casa da Rua Rio Verde foi se transformando num oásis que não suportava mais a modernidade, lembrando aquela velha canção do Caetano que fala da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Até que foi vendida, depois de muito pensar, porque a paixão que tínhamos por ela era muito grande.

Poucos dias depois da venda, lembramos de uma outra canção, aquela do Adoniran Barbosa, quando veio os home com as ferramentas e o dono mandou derrubá.

Mas como filho de peixe, peixinho é, meu filho Julião correu até lá e conseguiu recuperar cinco pedaços de pedras da casa, uma para cada filho do querido Doutor Bouçada.

Um prédio de apartamentos subiu num piscar de olhos e a fachada ganhou uma placa: Residencial Villas.

A pedra chegou às minhas mãos na semana passada e hoje ela repousa na estante do meu escritório, ao lado de três pedaços do muro de Berlim que, um dia, com as ferramenta na mão, arranquei e trouxe pro Brasil de recordação.

Depois de citar Caetano e Adoniran, lembro-me agora do poeta Drummond com o seu poema que diz: No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PERU

Quando eu era criança, no tempo do Mandiopã, não existia peru morto pra comprar, só vivo. Ainda mais peru congelado e com apito. Nem pensar. O meu pai comprava no mercado, que era onde se vendia peru vivo, levava o bicho pra casa, matava, temperava e assava quando chegava o Natal.

Um desses natais, entrou pra história porque o meu pai foi pro Mercado Central de Belo Horizonte com três amigos de copo, funcionários do Serviço de Meteorologia: Jesus, Mateus e Aurino.

Depois de uma dúzia de Brahmas, eles lembraram de comprar o peru, porque o objetivo inicial era esse. Escolheram o maior de todos e nem quiseram que o vendedor amarrasse as pernas do bicho com um barbante. Saíram com ele debaixo do braço, todo nervoso, se debatendo.

Debateu tanto que acabou escapulindo dos braços de Mateus e aprontando a maior confusão no mercado. O peru estava doidaço, subiu na banca de laranja, jogou frutas pra todos os lados, desceu, saiu correndo e os bebuns atrás dele. Entrou no açougue, passou pelas picanhas, pela alcatra e pelo acém e foi-se embora mercado afora. E a meninada correndo atrás, assobiando, porque quando a gente assobia, o peru glugluta.

Só mesmo um policial fez o bicho parar. Enfiou o danado dentro de um saco de linhagem, depois de dar uma bronca nos quatro meteorologistas que, seguramente, seriam reprovados no teste do bafômetro.

O peru é motivo de chacota. É concorrente do pinto, quando o menino chega aos sete anos, mais ou menos. Quem nunca ouviu uma mãe dando uma dura no filho?

– Tira a mão do peru, menino!

Nos tempos de TV Globo, todo ano era a mesma piada quando chegava o final do ano. A emissora dava um peru e dois panetones de presente pros funcionários. Só se ouvia nos corredores:

– Você já pegou o peru do Doutor Roberto?

Quem morre na véspera é peru! Essa frase, piada bem velha, era muito falada quando eu era criança, ainda no tempo do Cremogema.

Vinicius de Moraes viu poesia no peru e colocou o bicho dentro da Arca de Noé.

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

O peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-tico riu-se tanto

Que morreu de congestão

O peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão

Mulher muito enfeitada, oxigenada, com brincos enormes, colares, pulseiras, salto sete e meio e uma capinha do celular de oncinha, é chamada de perua. Não sei porque, a perua ave, na verdade, é bem mais simples que o peru macho, aquele que se exibe orgulhoso o seu rabo em forma de leque.

Não deve ser fácil pro peru, quando chega dezembro, ser chamado de peru de Natal. Isso significa que vai estar bem assado, recheado com farofa e, quem sabe, de uva passa, numa mesa cheia de família e ao som do Jingle Bell.

Procurei no Google e fiquei sabendo que o peru tem o nome científico de Meleagris, que pesa de 5 a 10 quilos, que a perua bota uma média de 12 ovos pra chocar, e se ele for malandro, consegue viver – ou melhor, sobreviver – a dez natais.

Quase todo peru é cinza, os únicos brancos que vi foi quando fui a Giverny, no interior da França, na casa do pintor Claude Monet. Lá tinha peru branco, iguais aos que ele pintou um dia.

Mas a grande confusão com o peru é geográfica. Existem mil versões para nosso país vizinho se chamar Peru. Uns dizem que o nome vem de uma tribo panamenha chamada Biru e que foi se transformando até chegar a Peru. Outros dizem é o nome de um rio que tem por lá, o Viru. E tem gente que garante que Peru na língua quíchua significa natureza. Quer dizer, nada a ver com a nossa ave.

E o mais curioso de tudo é a Turquia, em inglês Turkey, que traduzindo, é Peru. Quer dizer, temos um Peru aqui do lado e outro do outro lado do mundo, a Turkey, que também é Peru, mas não tem nada a ver com a ave. Deu pra entender? Boa ceia a todos!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TUCANO

Quando eu era criança, o nosso vizinho do lado tinha um tucano de verdade. Ele vivia solto no quintal, pulando de galho em galho das árvores frutíferas. A laranjeira, a mangueira, a goiabeira e uma ameixeira. De vez em quando, ele ia pro telhado e ficava espiando, do nosso lado, as galinhas procurando minhocas, os pombos catando palha pra fazer seus ninhos, os coelhos fazendo buracos na terra vermelha.

Toda ave tem um nome de família complicado, difícil de falar. A família do tucano á a Ramphastidae, mas poucas pessoas sabem, só mesmo os biólogos mais estudiosos. O que todo mundo sabe é que o tucano é bem brasileiro, tem um bico enorme que parece forte, mas é frágil, e muitas vezes caem em contradição.

Os tucanos vivem nas florestas da América Central, mas, principalmente nas florestas da América do Sul. São vistos também em Brasília, duas ou três vezes por semana, aqueles com uma plumagem cinza ou preta. No Brasil, existem em maior quantidade no Estado de São Paulo, desde que ocuparam o território, no dia primeiro de janeiro de 1995.

Eles se alimentam de frutas, são chegados nas menores, tipo pitanga, jabuticaba, seriguela, essas frutinhas. São conhecidos também por roubar ovos nos ninhos de outras aves, mas nunca são punidos por isso.

Os tucanos não são machistas, ajudam a fêmea a construir seus ninhos, a chocar os ovos e ajudam também a mamãe tucana a alimentar os filhotes. Voam meio desconjuntados e só alcançam voo pleno quando estão em helicópteros nos céus de Minas Gerais.

Tucanos adoram uma árvore grande e frondosa, passam o dia por lá, mas gostam também de um muro, principalmente no planalto central do país, onde, no cerrado, as árvores não são tão frondosas assim.

Em mil novecentos e sessenta e pouco, o tucano virou pop star na televisão brasileira, ao topar ser garoto propaganda da Varig, a maior companhia aérea nacional na época. A cada anúncio novo que aparecia na telinha, minha mãe me chamava: “Corre, vem ver o tucano da Varig!”

Eu corria pra frente da televisão e me lembro bem do tucano carioca passeando pelas praias de Copacabana, o tucano mineiro sobrevoando o Mineirão, o tucano cearense navegando numa jangada e o tucano gaúcho tomando chimarrão.

O meu pai, toda vez que via o tucano do nosso vizinho do lado, em cima do muro, ele dizia que tucano é bom de bico. Ele tinha razão. Nunca aquele tucano foi preso por roubar as ameixas e as goiabas no nosso quintal. Sempre viveu leve e solto.

Os tucanos medem aproximadamente 60 centímetros e pesam por volta de 620 gramas. Claro que tem algumas espécies que são maiores, chegam a 1 metro e 90 e pesam, às vezes, mais de 90 quilos.

Existem várias espécies de tucanos. O tucanuçu, o tucano-grande-de-papo-branco, o tucano-de-bico preto, o tucano-de-bico-verde, entre outros.

Recentemente descobriram três novas espécies: O tucano-da-mala, tucano-cocae e o tucano-propinae. Esses são os mais espertos da espécie e dificilmente são pegos, dificilmente irão um dia pro cativeiro.

Não é comum ver tucanos voando nas metrópoles.  Nas grandes cidades, costumam passar dias e dias em cima do muro. Essa espécie urbana é o tucano-amarelo-e-azul. Em São Paulo, costumam ser vistos no Parque Buenos Aires, no bairro de Higienópolis. Costumam sair de lá apenas em dias de eleição.

São tucanos que geralmente vivem numa boa, passeando por aqui na sua garoa. Mas desde o dia 28 de outubro, eles desapareceram da mídia, quase do mapa. Pelo que estou percebendo, estão correndo sério risco de extinção. Quem viver verá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRIMEIRO JORNAL

No inicio dos anos 70, nosso sonho não tinha acabado, apesar daquela declaração de John Lennon, no final dos 60. Nosso, isto é, calouros de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais.

O sonho, já nos primeiros dias de aula, era fazer um jornalzinho, poder espalhar nossas ideias, nossa opinião, nossa voz. Sermos donos do nosso nariz. Em abril, fizemos a primeira reunião e quando foi maio, o jornalzinho já estava circulando de mão em mão nos corredores da Faculdade de Filosofia.

Demos a ele o nome de Flã. Flã, segundo o Dicionário de Comunicação do Pasquim, era um cartão especial, semelhante a um papelão grosso, composto por folhas de papel de seda e de papel mata-borrão intercaladas, próprio para moldar matrizes de estereotipia. Coisa do século passado.

Era um jornalzinho pobre, magro, mimeografado em folha A4, e cheirava a álcool. Ele falava de música, de cinema, literatura, teatro, esportes, televisão, tinha uma grande matéria de capa, o editorial e um conto.

No primeiro número falamos de Transa, de Caetano Veloso, do Clube da Esquina, de Milton e Lô Borges, de Atom Heart Mother, do Pink Floyd, do Killer, de Alice Cooper e do Passado, Presente e Futuro, de Sá, Rodrix e Guarabira.

Charles Magno escreveu sobre a coqueluche do momento, Jane Fonda, enquanto um artigo assinado por Miriam Crysthus, começava assim: “Qualquer um que tenha irmão, primo, parentes nessa faixa de idade (14-18 anos) já deve ter notado que o jovem definitivamente não lê”.

Dinorah do Carmo, minha parceira na direção do jornal e apaixonada pelo palco, escrevia na página quatro sobre duas estreias no teatro: Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol, e As Visitas, de José de Souza.

 

“Falar sobre televisão é o negócio mais chato do mundo e fazer televisão é o negócio mais bacana do mundo”. Assim começava a crítica de Marco Pieroni sobre os telejornais da Globo: JH, JN e JI, o Jornal Internacional.

Eu comentava a chegada às bancas da Revista de Fotografia, do Grilo e do Jornalivro, da editora Arte & Comunicação, aquela que fez uma pequena revolução na imprensa brasileira naquele início dos anos 70.

Dinorah do Carmo assinava também a matéria de capa sobre os cinquenta anos da Semana de 22 e o saudoso Benjamin Abaliac, anunciava a falência do futebol mineiro, numa matéria de página inteira.

E pra terminar, o conto Ana, assinado por Lucia Helena, dizia nas primeiras linhas: “Ana Maria andava sozinha, olhando pro mar. Tarde no Rio, céu já vermelho, mostrando que o amanhã seria dia de praia cheia”.

O número 1 do Flã esgotou em poucas horas. Fizemos uma segunda tiragem, que saiu meio desbotada porque o papel do mimeógrafo já não aguentava mais a impressão.

Queríamos, para o segundo número, a participação de toda a galera do Jornalismo da UFMG. Colamos uns anúncios nas paredes da faculdade, pedindo sugestões de pauta e a colaboração de todos.

Colocamos uma caixa para coletar as sugestões ao lado do elevador e, dois dias depois, fomos lá colher os frutos, sonhando com um segundo número robusto, plural e com muito conteúdo.

Abri a caixinha que estava fechada com cadeado e a surpresa foi encontrar lá dentro, vinte e dois contos. E só. Minas Gerais tem o maior número de contistas por metro quadrado, era uma frase que circulava pelo Brasil afora. E era verdade.

Corremos pra fechar o segundo número a toque de caixa e, lembro-me bem, espinafrei, no editorial, o fato de termos recebido apenas contos. Aqui é uma Faculdade de Jornalismo e não de Letras, esbravejei. Foi aí que tive uma briga com Luiz Fernando Emediato, que defendia que jornalista poderia ser também contista. Ele citava o caso do premiado jornalista Roberto Drummond, autor de A Morte de D.J em Paris e Sangue de Coca-Cola.

Resumo da ópera: Quase cinquenta anos depois, Emediato é um dos grandes amigos que tenho e que guardo no lado esquerdo do peito.

Ele saiu de Minas Gerais, tomou o rumo do jornalismo, ganhou prêmios trabalhando como repórter especial no Estadão durante muitos anos. Depois tomou o rumo da literatura, publicou vários livros e hoje é dono de uma editora. Como escritor, ganhou o Concurso de Contos do Estado do Paraná, um prêmio cobiçado, como é hoje o Jabuti. Ganhou também o Concurso de Contos Eróticos da revista Status, prestigiadíssimo na época.

Durante décadas, trabalhamos juntos em vários projetos, editando livros da falecida Editora EMW e até mesmo em Cuiabá, numa temporada de 40 graus à sombra, estivemos lado a lado numa redação.

Um dia, fui embora do Brasil, virei correspondente da imprensa alternativa, voltei ao meu país, encontrei o Emediato no corredor do Estadão e comecei a trabalhar lá no dia seguinte. Foi com o Emediato que criamos, juntos, o Caderno 2 do jornal, reservando um espaço diário para a crônica, numa época em que a crônica não estava com essa bola toda.

Voltei a trombar com ele no SBT, onde colocávamos no ar um divertido e criativo telejornal, aquele que deu na escalada: Margareth Tatcher morre, porque ninguém é de ferro!   

 Fechando o resumo da ópera. As nossas vidas misturaram-se entre boas doses de Jornalismo e Literatura, pitadas de realidade e ficção, entre o furo e o conto, e política à gosto, jogando por água abaixo aquele editorial no número 2 do Flã, um jornalzinho que durou apenas dois números.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRINCÍPIO DO PRAZER

A nova mãe anunciou, na véspera, que eles viriam. Acordamos no feriado com o coração na mão, batendo mais forte, numa ansiedade que não dava pra medir nem mesmo com uma trena daquelas de mestre de obras.

Meio dia e pouco, o interfone tocou, eram eles, a nova mãe, a nova avó e os dois, um menino e uma menina, já crescidos. Chegaram tímidos, olhando para todos os cantos da casa, o chão, o teto, as janelas, as cores diferentes das paredes, as estantes, os livros, os dvds, os discos. Observando cada detalhe, cada minúcia.

À primeira vista, parece que gostaram. A menina fez a primeira observação: Parece casa de boneca! Ela, cinco anos mais velha que ele, parecia servir de âncora, mas ele, esperto, parecia protegê-la da vergonha de chegar pela primeira vez numa casa onde não conheciam ninguém.

A menina ficou sentada no sofá da sala, ainda tímida, e ele veio até o meu escritório e se encantou com a coleção de carrinhos da Norev. Pegou um a um com todo cuidado, porque avisei-lhe que eram frágeis. A portinha abre? ele quis saber. Disse que alguns abriam, outros não. Quais que abrem? Os caminhões.

Então fomos até a revistaria para mostrar onde estavam os caminhões que abriam a portinha e levantavam a caçamba. Mais encantamento. Gostou da miniatura do dálmata em cima das revistas Quatro Cinco Um e fez mais uma pergunta: Você tem coleção de cachorros também?

Passamos pela lavanderia e chegamos à cozinha, onde ele viu uma gamela de frutas. Olhou, pegou um kiwi e perguntou que fruta era aquela? Expliquei que era kiwi e fomos até o computador para eu explicar porque a fruta se chama kiwi. Abri o Google em Kiwi Ave e ele ficou espantado de ver como aquele bichinho que vive na Nova Zelândia era tão parecido com a fruta.

Eu não quero comer isso não! Creio que o menino desconfiou que kiwi era uma mistura de fruta com animal, uma espécie de boimate que a revista Veja inventou faz anos. Voltamos à cozinha, peguei a faca e parti o kiwi no meio. Ele ficou admirado. Peguei uma colherzinha e expliquei como comia. Ele aprendeu rapidinho e raspou o kiwi. Perguntou se podia comer a casca, disse que não, que era áspera, mas mesmo assim quis experimentar. Experimentou.

A irmã já tinha saído do sofá, estava no quarto perguntando o que eram aqueles bichos de papelão na parede. Explicamos que compramos as peças num país muito longe daqui e montamos. Ela achou lindo.

Estávamos emocionados com aquelas duas crianças descobrindo a nossa casa, observando e comentando tudo. Mostrei a ele meus brinquedos antigos, de lata. O disco voador de 1960 e o Pato Donald equilibrista de 1956, presente da minha madrinha. Viu o elefantinho da Shell, a gotinha da Esso, o cavalinho de pau, o ônibus amarelo e azul do Magical Mystery Tour e o elefante de lata enferrujada que compramos um dia na Fundação Saramago.

O menino olhou, olhou e foi muito sincero: Tio, seus brinquedos são muito sem graça. Pode me chamar de Villas, eu disse, mas ele insistia que eu era o tio. Percebi que ele achou os brinquedos sem graça porque eram parados, estáticos, imóveis. Queria algo que mexesse, que interagisse, que brilhasse, que piscasse.  Mudou de ideia quando viu os jogadores de ping pong dos anos 1950 que, basta dar corda, eles começam a jogar, a bolinha pra lá e pra cá. Seus olhinhos brilharam e ele quis dar mais corda e ficar ali brincando

A irmã já tinha voltado pra sala e estava em outros papos, altos papos, contando o dia em que ela fugiu do posto de saúde com medo de tomar vacina e que gostava das cores preto, cinza, branco e roxo. Odeio rosa, disse ela.

O irmão continuava explorando a casa. Voltou para a cozinha e disse que estava com sede. Perguntei se queria um suco de caju, ele não conhecia caju. Abri a geladeira, mostrei a ele três cajus lindos que compramos no sacolão da Lapa. Quis experimentar. Comeu um pedacinho, achou meio estranho o gosto, mas expliquei que bom mesmo era o suco. Cortei em pedaços e coloquei dentro do liquidificador. Pus água, liguei na tomada e ele comentou: Tio, esse bagulho faz muito barulho! Adorei ele usar a palavra bagulho, que eu não ouvia há anos. Suco pronto, ele tomou e adorou. A irmã também quis.

O menino mostrou a ela o kiwi e pediu outro. A irmã quis experimentar e ele se arvorou em explicar a ela como se comia e mostrou com sabedoria. Ela também gostou, não achou azedo porque compramos sempre aqueles kiwis Sun Gold, amarelos, mais doces.

Será que eles não querem jogar lince? perguntou a minha mulher. Buscamos o jogo e os dois sentaram-se no chão. A menina, mais velha, claro, foi achando as figurinhas antes dele, mas ele também muito esperto e competitivo, não deixava a desejar. Comentamos que ela era muito boa no jogo e ela disse: Bem que o oftalmologista disse que eu tenho vista boa.

Gostei da palavra oftalmologista porque, menina dessa idade, diria oculista ou médico, não é mesmo? Hora do almoço. O cardápio era arroz branco, tambaqui ao forno, pirão, farofa com farinha de Belém do Pará e molho vinagrete. A menina, acho eu, gostou mais do que o menino. Quis experimentar tudo e repetiu. Ele comeu pouco. Tinha comido muito pão com queijo e ervas, que achou estranho no início, mas amou. Além do kiwi e do suco de caju.

Mostrei pra eles a hortinha que temos na varanda, a máquina de escrever que foi do meu pai, ele tentou datilografar, mas achou as teclas muito duras. Mostrei os cadernos que faço para os meus quatro filhos, desde o dia em que o primeiro nasceu, em 1977. Ela ficou admirada e comentou: É uma espécie de diário, né? Sim, é uma espécie de diário que, a partir de hoje, ganhou dois novos personagens muito queridos.

A noite chegou e eles foram embora, de mãos dadas com a nova mãe e a nova avó. Fomos na varanda dar tchau pra eles. A menina voltou dois passos, olhou pra cima e disse: Gostei muito da casa de vocês! O menino foi saltitando, acredito eu, que ainda meio desconfiado se kiwi era fruta ou bicho.

 

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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PARE 2018 QUE EU QUERO DESCER

Passado o Natal, vinha aquela euforia com a chegada do ano novo, uma semana depois. Era quando o meu pai chegava em casa carregando uma enorme folhinha da KLM com aquelas imagens maravilhosas de moinhos de vento, holandesas de tranças e tamancos e campos de tulipas.

Antes mesmo de acabar o ano, ele dependurava na parede, com a ajuda de um martelo e um prego, aquela folhinha maravilhosa. Ficávamos em volta dela, passando os meses, cada um querendo saber em que dia da semana cairia o seu aniversário.

Meu pai trazia da repartição uma agenda Pombo para cada filho e imediatamente pegamos uma caneta e preenchíamos o nome, o endereço, telefone e o tipo sanguíneo.

Minha mãe fazia uma faxina na casa, abrindo gavetas, picando e jogando papéis fora, guardados durante o ano inteiro, inutilmente. Passava Silvo nas pratarias e óleo de peroba nos móveis coloniais, à espera de um ano novo e feliz.

Fazíamos uma montanha de promessas. Passar de ano sem segunda época, tomar pouca Coca-Cola, ler um livro por semana, anotar e cumprir todos os afazeres na agenda Pombo, não perder as missas de domingo, não brigar com os irmãos, ver menos televisão e guardar dez por cento da mesada todo mês.

Não havia promessa de fazer dieta naquela época em que não havia academia, se cozinhava com banha, comia-se torresmo, passava manteiga no miolo do pão, o café era com açúcar e não havia leite desnatado, nem semidesnatado. A promessa da minha mãe era uma só, saúde para todos. E o meu pai completava, rindo: E muito dinheiro no bolso!

O fim do ano ia chegando e nossa euforia era grande. Lavávamos o pombal com Creolina para que, no primeiro dia de janeiro, estivesse limpinho e cheiroso. Tirávamos o mato da horta, os pulgões das folhas de couve e fazíamos uma armação de arame para que o pé de chuchu pudesse se acomodar no muro, sem incomodar o vizinho.

A última semana do ano parecia que não existia. Ninguém mais conseguia direito, ninguém estudava mais porque as férias já tinham começado, não tínhamos paciência nem pra sentar e ver o Zé Colmeia na televisão. Era só preparação pro ano novo que estava despontado. Todos os anos, nessa semana, o meu pai vinha com uma velha piada e minha mãe sempre caia. Ele chegava da Meteorologia, abria a porta e dizia:

– Sabe quem está nas últimas?

– Quem? Quem? perguntava minha mãe, arregalando os olhos.

– O ano velho! dizia ele, enquanto todos caiam na gargalhada, dizendo:

– Mas mãe, você caiu de novo?

No fim da manhã do dia 31, sabíamos que já era ano novo na Austrália, mas naquela época não havia o Jornal Hoje pra anunciar na escalada: Já é ano novo em Sidney! Só víamos os fogos explodindo por lá, no dia seguinte, numa radiofoto toda riscada, no jornal O Globo.

Os papeis picados caindo das janelas na avenida Paulista, na Avenida Brasil e na Avenida Afonso Pena, na minha Belo Horizonte, eram uma atração à parte. Não tinha ano que o meu pai não comentasse “eu tenho dó dos garis, amanhã cedo, que vão começar o ano varrendo rua”.

Não havia ceia na passagem do ano, na minha casa. Comíamos uma comida dessas de domingo, por volta das dez horas da noite porque, onze e pouco, íamos todos pra Sociedade Mineira de Engenheiros pro Réveillon.

Meia noite em ponto, a banda dava o grito de carnaval e nós pulávamos até nos acabar, ao som de olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é. Ao som do joga a chave, meu amor, não chateia por favor, ao som de Bandeira branca, amor, eu peço paz e índio quer apito, se não der pau vai comer!

Chegávamos em casa estropiados, abríamos a geladeira pra ver se tinha sobrado um pouco da maionese, um pedacinho frio de lombo e umas uvas geladas. Ainda dava tempo de ver na televisão o videoteipe da queima de fogos em Copacabana, a cascata caindo do Hotel Meridien, as velas acesas na areia e as palmas pra Iemanjá, indo e vindo nas onda do mar.

Mas esse ano, não vai ser igual aquele que passou. Estamos aqui em casa todos assustados e com temor de que dois mil e dezenove, queria ou não queira, vai chegar. Dois mil e dezoito ainda não está nas últimas, mas já está desenganado.

Ouvi dizer que, a partir do dia primeiro de janeiro, vão começar a matar gays, lésbicas e simpatizantes. Vão agredir quem estiver com camisa vermelha e colocar na clandestinidade o MST e o MTST. Vão prender o Boulos, o Stédile e metralhar a petezada.

Estão dizendo que vão perseguir os professores, vão acabar com os livros de História e colocar na fogueira todos os do Paulo Freire. Vão fechar a TV Brasil, vender a Petrobras, cercar os índios, prender cem mil, fechar jornais e disseram até que vão declarar guerra à Venezuela.

Só me resta colocar na vitrola aquele velho disco do meu pai que ele fazia questão de ouvir, todo dia 31 de dezembro:

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que tudo se realize

No ano que vai nascer!

Muito dinheiro no bolso

Saúde pra dar e vender!

Para os solteiros, sorte no amor

Nenhuma esperança perdida

Para os casados, nenhuma briga

Paz e sossego na vida

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Captal]

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ENTÃO ERA NATAL

O clima natalino começava no início de dezembro. Agora não, em pleno setembro, os panetones já estão espalhados pelos corredores dos supermercados. E não é aquele panetone caseiro, embrulhado cuidadosamente um a um em papel manteiga. Agora, industrializados, temos panetone de chocolate, de goiabada, de doce de leite, de Leite Moça e em pleno setembro!

Quando chegava dezembro, a gente subia no sótão da nossa casa para pegar umas caixas de papelão, onde guardávamos durante o ano inteiro, a árvore, as bolas, os enfeites e o presépio. Tudo embrulhadinho em jornal, amarelado e empoeirado com o passar do ano.

Para montar o presépio, um canto da sala de visitas era rearranjado para que coubesse a manjedoura e todos aqueles personagens. Vendedores passavam de porta em porta vendendo musgo fresco para deixar o presépio com cara de presépio. A árvore ganhava bolas, fitas prateadas, enfeites e algodão para imitar neve.

Quando dezembro chegava, a gente escrevia uma cartinha pro Papai Noel com uma lista enorme de presentes, noventa por cento brinquedos. Ninguém queria ganhar meia, camisa, calça, sapato ou sabonete. Nossos pais fingiam que tinham postado a carta nos correios, a gente acreditava e ficava esperando o dia 25 chegar.

Era uma época em que íamos na papelaria comprar cartão de Natal. Fazíamos uma lista e levávamos pra casa umas duas dúzias de cartões com imagens de trenós, renas, pinheiros, muita neve salpicada de purpurina, desejando um feliz natal e um próspero ano novo a todos.

O peru, era comprado vivo e muitos dias antes. Ficava no terreiro, fazendo o seu glu glu cada vez que assobiávamos. Alguns dias antes da noite de Natal, ele era passado na faca. Lembro da agonia do bicho, o sangue espirrando num prato fundo com vinagre pra não talhar. Depois de limpo e temperado, ia pra padaria assar.

Passávamos uma flanelinha nos discos natalinos, alguns já bem judiados, cheios de chiados. Quando a vitrola era ligada e Carlos Galhardo começava a cantar é porque o Natal estava pertinho:  Eu pensei que todo mundo/Fosse filho de Papai Noel/Bem assim felicidade/Eu pensei que fosse uma/Brincadeira de papel/Já faz tempo que pedi/Mas o meu Papai Noel não vem/Com certeza já morreu/Ou então felicidade/É brinquedo que não tem.

Íamos na panificadora comprar pão pra rabanada, um pão especial. Ele era cortado em fatias, passado no ovo e frito. Depois ganhava um caprichado banho de açúcar com canela e não havia dieta. Regime, só o militar.

Cada um em casa escolhia onde deixar o sapato. Perto da árvore, ao lado do presépio, junto à mesa da ceia.

A ceia era servida só depois da missa do Galo. A gente se aprontava todo e ia pra Missa do Galo, uma missa interminável, celebrada por vários padres, diferente da missa de todo domingo.

A ceia era farta. Tinha peru recheado com farofa e ameixa preta, arroz de forno, salpicão, uma cesta linda com pêssegos, ameixas, uvas Niágara, morangos, figos, frutas que só comprávamos na época do Natal. Havia também uma cesta de frutas secas, transbordando de nozes, amêndoas e avelãs. Uma travessa com castanhas portugueses cozidas, quentinhas, e tâmaras para adoçar aquela noite tão especial. E aquele garrafão de Sangue de Boi enorme, no meio da mesa.

A gente ia dormir querendo acordar no meio da noite pra ver Papai Noel passando. Nunca acordamos. Dormíamos o sono dos anjos, ao som baixinho de Carlos Galhardo na vitrola, lá na sala: Anoiteceu/O sino gemeu/ A gente ficou/Feliz a rezar/Papai Noel, vê se você tem/A felicidade/Pra você me dar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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Day After

No dia seguinte do golpe militar de 1964, viajamos numa Rural Willys, o meu pai, minha mãe e meus quatro irmãos, de Brasília para Belo Horizonte.

No dia seguinte em que passei no exame de Admissão no Colégio Marista, minha mãe comprou, na Guanabana, uma calça comprida pra mim.

No dia seguinte ao Ato Institucional número 5, escondi no sótão da minha casa, todos os livros de Karl Marx e Friedrich Engels.

No dia seguinte em que descobri o meu primeiro amor, dei a ela de presente o álbum branco dos Beatles.

No dia seguinte em que comprei o primeiro número da revista Realidade, pensei em ser jornalista.

No dia seguinte da morte de Ernesto Che Guevara, eu vi num jornal boliviano a tal fotografia dele morto com os olhos abertos.

No dia seguinte em que vi Tom Zé cantando São São Paulo no Festival da Record, pensei em morar e trabalhar na maior cidade da América do Sul.

No dia seguinte em que levei bomba em Francês no Colégio de Aplicação, prometi, um dia, falar a língua de Roland Barthes, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

No dia seguinte em que fui confundido com o guerrilheiro Alemão na Praça da Savassi, tomei a decisão de ir-me embora do Brasil e só voltar depois que a ditadura acabasse.

No dia seguinte em que pesquei piabas no Rio das Velhas pela primeira vez, fritei cada uma e comi com angu.

No dia seguinte em que um vizinho envenenou nossos pombos, eu joguei um tijolo na vidraça da casa dele.

No dia seguinte em que passei no vestibular para Jornalismo na UFMG, joguei todas as minhas apostilas de Física, Química e Biologia, na lagoa da Pampulha.

No dia seguinte em que acabei de ler Cem Anos de Solidão, eu me apaixonei por Gabriel Garcia Márquez.

No dia seguinte em que deixei o Brasil, acordei numa pensão barata, num Portugal de Salazar.

No dia seguinte em que cheguei na Gare d’Austerlitz, em Paris, vi neve pela primeira vez.

No dia seguinte em que nasceu o meu primeiro filho, na clínica do Doutor Frédérick Leboyer, voltei pra casa e tomei uma latinha de Kronnebourg.

No dia seguinte em que ouvi Jelly Roll Morton ao piano interpretando Black Bottom Stomp, quis ouvir de novo.

No dia seguinte em que nasceu a minha primeira filha, fiquei encantado como ela era loirinha e do cabelo espetado.

No dia seguinte em que voltei para o Brasil, tomei uma garrafa de guaraná, ainda no aeroporto do Galeão.

No dia seguinte em que cheguei a Cuba, dei de presente a um jovem que insistiu muito, uma camiseta com a estampa da Madonna.

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‘Em Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas’ (Reprodução)

No dia seguinte à eleição de Fernando Collor de Mello, pensei: Foi a TV Globo que elegeu esse canalha!

No dia seguinte em que o meu primeiro casamento acabou, acordei de madrugada para cobrir os meus filhos e eles não estavam lá.

No dia seguinte em que a Paulinha se mudou pra minha casa, eu preparei um frango assado com batatas e farofa pra ela e pros meus dois filhos do primeiro casamento.

No dia seguinte em que coloquei o primeiro Jornal Nacional no ar, acordei e fui para a TV Globo para colocar o segundo Jornal Nacional no ar.

No dia seguinte em que minha terceira filha nasceu, o meu filho mais velho disse: Pai, finalmente você tem uma filha brasileira!

No dia seguinte em que meu pai morreu, eu coloquei uma fotografia 3X4 dele num porta retrato, em cima da minha escrivaninha.

No dia seguinte em que vi o filme A Vida é Bela, pensei com os meus botões: Será mesmo que a vida é bela?

No dia seguinte em que minha mãe morreu, peguei uma fotografia 3×4 dela, coloquei num porta retrato ao lado do meu pai.

No dia seguinte em que o meu América foi campeão mineiro, ganhei um coelho de plástico de presente.

No dia seguinte em que minha quarta filha nasceu, lembrei-me de uma cigana que leu a minha mão, em Paris, e disse que eu teria quatro filhos.

No dia seguinte em que Lula ganhou a primeira eleição para presidente da República, comprei as quatro revistas semanais de informação e mandei encadernar.

No dia seguinte em que a minha primeira neta nasceu, me senti um velhinho com 47 anos.

No dia seguinte em que cheguei a São Miguel dos Milagres, em Alagoas, acordei na certeza de que a vida é mesmo bela.

No dia seguinte em que Dilma foi eleita, prometi passar um ano sem tomar cerveja e cumpri.

No dia seguinte em que cheguei a Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas em cima de um telhado.

No dia seguinte em que cheguei a Tóquio, descobri uma loja só de discos brasileiros e lembrei-me do Caetano: A bossa-nova é foda!

No dia seguinte em que deram um golpe em Dilma Rousseff, abri a janela da sala do meu apartamento e gritei: Golpistas filhos da puta!

No dia seguinte em que nasceu o meu segundo neto, eu ouvi Raul Seixas cantando Eu nasci há dez mil anos atrás.

No dia seguinte em que entrevistei o ex-presidente Lula, ouvi a gravação e senti um nó no peito.

No dia seguinte que vi um menino, morador de rua, admirando a vitrine de uma loja de brinquedos na Vila Madalena, eu tive certeza de votar 13.

No dia seguinte às eleições de 28 de outubro de 2018, perdi o sono, acordei no meio da madrugada e escrevi esta crônica pra CartaCapital.

 

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

BOM DIA, BRASIL

O dia em que voltei a pisar em terras brasileiras, depois de sete invernos, fazia 40 graus naquela terça-feira de carnaval. Não me esqueço do primeiro guaraná, ainda no aeroporto, depois de tantos anos bebendo Orangina. Conheci dezesseis sobrinhos no mesmo dia. Todos loirinhos, era incapaz de saber quem era quem.

Os sustos foram muitos. No porão da casa dos meus pais, me equilibrei entre livros e revistas espalhados pelo chão, empoeirados, guardados ali a sete chaves por minha mãe. Descobri que a coleção daRolling Stone estava intacta, apenas um número completamente amarelado, segundo ela, xixi da Pink, nossa pequinês que um dia entrou ali sem ninguém ver.

Susto com os motoristas que avançavam seus automóveis em cima dos pedestres, assim que o sinal abria. Susto com as pessoas que não cumprimentavam a cobradora no ônibus, o porteiro do prédio, a vendedora da mercearia. Chegavam e diziam simplesmente: Seis pãozinho!

As alegrias foram muitas também. Ouvir Cajuína pela primeira vez e trazer da banca uma revista novinha em folha, diferente daquelas que chegavam estropiadas na Rue de la Roquette, depois de semanas e semanas nos navios. Alegria de morder uma carambola, de tirar com a colherzinha o miolo da fruta do conde, de espocar na boca uma jabuticaba, coisa que não fazia há quase uma década.

Os primeiros dias foram uma mistura de princípio do prazer com cair a ficha, até me acostumar. Acordava ouvindo o barulho da água saindo da mangueira, da vizinha lavando o quintal e falando português. Estranhava isso. Entrava no armazém, cumprimentava a todos dando bom dia, como se estivesse dando bonjour e quase ninguém respondia.

Ainda na casa dos meus pais, gostava de acordar de manhã e pegar, em cima do capacho, O Globo e o Estado de Minas. Os jornais tinham cheiro, eram em preto e branco e manchavam as mãos. Gostava de ouvir os passarinhos nas árvores do jardim e ver os canarinhos belgas nas gaiolas, saltitando, comendo sementes de jiló e cantando sem parar.

Foram poucos dias em Belo Horizonte, até que peguei um ônibus com destino a São Paulo, precisava trabalhar, dar leite aos dois pequenos francesinhos que trouxe de lá.

No meio do caminho, outros prazeres. O reencontro com o pão de queijo, com o Guarapan e com a paçoquinha Amor nos botecos que o ônibus fazia suas paradas. Ouvia coisas que havia me esquecido, como o motorista estacionar, abrir a portinha e dizer: Quinze minutos!

Tudo era novidade, de novo, para mim. Procurava pela Mirinda Morango e já não havia mais. Como já não havia mais o iogurte Itambé em vidrinho, o Supra Sumo em pacotinhos de alumínio, o drops Dulcora de cevada, nem o suco Yuki em latinha. Mas a bala Chita ainda tinha, mastiguei umas, quase chegando em São Paulo.

Voltei de longe nas asas da abertura, na esperança de que a democracia estava em obras. Encontrei muitas ruínas, prédios abandonados que precisavam de dinamites para serem destruídos e construídos novamente. E foi assim.

Veio a abertura, o Osmar Santos no palanque, ali também Leonel Brizola, Luiz Inácio, Ulysses Guimarães, Mario Covas, Fernando Henrique, toda essa turma. A camiseta com a frase hoje eu não estou bom, a estrelinha de alumínio no peito e uma canção que dizia assim: Passa o tempo e tanta gente a trabalhar/De repente essa clareza pra votar/Quem sempre foi sincero e confia/Sem medo de ser feliz/Quero ver você chegar.

Passei muito calor e alguns vexames, no princípio. Perguntei, um dia, onde andava o estilista Dener e me responderam que havia morrido há anos. Perguntei pelo Dudu da Loteca e me disseram que a Loteca não era mais a Loteca que era.

Fui ficando velho. Vi Collor vencer Lula depois de um debate editado pela TV Globo, vi o Plano Real eleger Fernando Henrique, vi o povo sem medo de ser feliz eleger e reeleger Lula, vi Dilma subir e cair, vi o golpe. Mas 2018 ia chegar, íamos nos livrar de um vampiro e voltar a ser feliz. E o que vejo pela frente, na televisão, é tempo instável, sujeito a rajadas e chuvas no cair da tarde de domingo.

Quase cinco décadas depois, tenho vontade de recomeçar. Ouvir Cajuína num velho disco de vinil, afinal, existirmos a que será que se destina? Mas troco o disco. Vou lá na letra L da minha coleção em ordem alfabética e tiro um disco de Luiz Melodia, que começa com uma canção de Papa Kid que diz assim: Ao som da maraca, do tambor, do bambu, eu vou para Ilha de Cuba, eu vou pra Ilha de Cuba.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.com

[foto Alberto Villas]

O FIM

A historinha é simples. Um amante da música procura, na maior cidade da América do Sul, os novos discos de Paul McCartney e de Paul Simon. Vai de Fnac em Fnac e encontra as portas fechadas. Fnac não há mais. Resolve ir até a Livraria Cultura do Conjunto Nacional e encontra as prateleiras de discos praticamente vazias, com discos velhos porque os novos não chegam mais, por falta de pagamento aos fornecedores. Tenta a Livraria Saraiva do Shopping Higienópolis e só encontra uns poucos discos do tipo The Best Of. Desce as escadas, chega à Livraria da Vila e quando procura o canto onde ficavam os discos, encontra uma cadeira na frente fechando o espaço. Recebe então a informação de que a Livraria da Vila não trabalha mais com discos. Ai vem um estalo. O amante da música sai do shopping e caminha até a Praça Vilaboin, onde está a Musical Box, uma das mais charmosas lojinhas de discos nacionais e importados da maior cidade da América do Sul. Estava. A Musical Box fechou. Nem a placa está mais lá. O amante da música volta pra casa e coloca no aparelho de som o disco Chega de Saudade, de João Gilberto.