DEZENOVE

Pela primeira vez não teve a procissão do fogaréu na cidade de Goiás. Isso marcou minha quinta-feira, eu viciado em clássicos do Jornalismo na televisão. Sim, coleciono clássicos do Jornalismo para, quem sabe, um dia escrever um livro chamado Dicionário Amoroso do Jornalismo. Rascunho já existe. As flores mais caras na véspera de finados, o preço salgado do bacalhau, aquele vivo da rodoviária e o repórter dizendo que não tem mais passagens pro Rio e pro Sul de Minas no feriadão, aquela imagem do panetone ainda em massa e o confeiteiro jogando nela as frutas secas, gente comprando ovos de Páscoa quebrados em cima da hora, sem contar o tal do “já é ano novo em Sidney!”. Pois é, “a festa não tem hora pra acabar!” E eu me pergunto: o que essa gente toda está fazendo na rua se o comércio fechou, a luz apagou e a festa acabou? Vejo na telinha filas pra regularizar o CPF e poder receber os 600 reais do governo. Fico pensando quanto será que ganha no final de um mês, aquele velhinho cujo comércio é um tamborete e um pedaço de madeira, e seu estoque é meia-dúzia de cigarros vindos do Paraguai, aqui vendidos picados. Fico pensando no seu colega ao lado que expõe na sua vitrine, um carrinho velho e enferrujado de supermercado, garrafas vazias de Dolly Guaraná e Chá Mate Leão. Não os vejo há vinte dias. Não devem estar lá na saída da Estação Ciência da CPTM, como sempre estiveram, todo final de tarde. Queria ser um drone para sobrevoar a cidade que me acolhe desde 1980, quando aqui cheguei e os novos baianos ainda te curtiam numa boa.

DEZOITO

Dentro de casa caminhando pra um mês, já sei de cor todos os cantos, até mesmo alguns que havia esquecido. Enfeites guardados, livros uns por cima dos outros, muitos discos. Penso nas músicas que teriam a ver com o momento e vou fazendo uma playlist: Aquele Abraço com Gilberto Gil, Beija Eu com Marisa Monte, Exile on Main Street com os Rolling Stones, O que será com Milton Nascimento, Vai Passar com Chico Buarque, O mundo é um moinho com Cartola, Alucinação com Belchior, Eu preciso aprender a ser só com Marcos Valle, Besame Mucho com João Gilberto, Eu sei que vou te amar com Caetano Veloso, No Future com os Sex Pistols, São São Paulo com Tom Ze, Coração Tranquilo com Walter Franco, e volto a Gilberto Gil com Vamos Fugir. “Vamos fugir, baby, desse lugar, onde quer que você vá, que você me carregue”. Coloco os pratos na máquina, passo álcool nos interruptores, no teclado do computador, nos plásticos que envolvem as revistas que assino, bato uma limonada suíça no liquidificador, escrevo o Diário de Notícias pro Nocaute, rego as plantas, me assusto como os tomateiros crescem tão rapidamente, leio a Superinteressante, a Piauí, a Serrote, a L’Histoire, preencho uma CDA, tarde da noite pergunto se a Maju está se cuidando e ela responde que sim. Acordo sossegado e sossegado fico durante uns dois segundos, até lembrar-me do coronavírus. Levanto, ainda é noite no céu, vou pegar a Folha no capacho, mas antes, passo álcool nas mãos e no braço. Sou movido à álcool, eu e o automóvel da minha mulher, parado na garagem há um mês. Hoje acabo as últimas páginas de “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, de Rosa Montero. 

DEZESSETE

Por volta de mil novecentos e sessenta e seis, mil novecentos e sessenta e sete, quando ainda sonhava em ser jornalista, lembro-me bem de ter lido na revista Realidade uma reportagem sobre o fantástico mundo da criança. A revista colheu pequenos depoimentos da meninada e um deles deu o título para a matéria: “O mundo é aqui lá fora onde todas as coisas acontecem”. Lembrei disso hoje porque o meu mundo lá fora, há 19 dias, é visto pela janela, como se fosse uma tela de televisão passando um programa meio sem graça. O que me alegra é ver as árvores ainda estão bem verdes e os passarinhos que pulam nos galhos. Não ouço ninguém falando, conversando outro assunto, dando um abraço ou um simples aperto de mão. Me irrito com os ônibus que ainda circulam, não sei bem o motivo. Quem sabe são as enfermeiras e eu aqui achando que é gente que simplesmente desafia a quarentena para agradar o idiota que está no poder. Estou cansado de ver televisão de verdade, vejo sem parar por dever da profissão. Acabo trabalhando o dia inteiro, meio sem perceber. Nos minutos de folga que agora decidi ter por obrigação, vou pra rede que fica na varanda, o único lugar ao ar livre da casa, e mergulho na leitura de um livro fascinante: “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, da espanhola Rosa Montero”, o último que comprei na Travessa, num dos últimos dias que ainda estava aberta. Fico maravilhado com a vida de Marie Curie, vítima do rádio que ela mesmo descobriu e a matou, depois de receber o Nobel junto com o marido, Pierre, morto esmagado pela roda de uma carroça. Quando acabar, vou reler os poemas de Pier Paolo Pasolini, minha paixão, e depois vou voltar à escravidão, de Laurentino Gomes. Hoje cedo, o carteiro deixou em cima do capacho a Superinteressante de abril, dois exemplares da Carta Capital que estavam acumulados na portaria do meu prédio e também a Piauí. Deixo tudo pro final de semana, quando acordo um pouquinho mais tarde e vejo que está passando o Globo Rural. Mas hoje ainda é quarta. 

DEZESSEIS

Fico assustado quando olho aqui da minha janela e vejo, a cada dia que passa, aumentando o número de pessoas que circulam. Dentro dos ônibus, à pé, de bicicleta. Quem são essas pessoas que, pelo visto, não têm medo do vírus? Dizem que são as pessoas dos serviços essenciais: enfermeiras, médicos, funcionários de farmácias, de supermercados, de postos de gasolina. O portão da garagem do meu prédio abre e fecha sem parar. Gente chegando, gente saindo. O comércio está fechado. Me contam que há avisos escritos em papel A4 colados nas portas de aço, anunciando o fechamento provisório. Ligo a televisão e vejo Madri completamente vazia, e também minha Florença. Vejo na capa do Libération uma fotografia quase em preto e branco, apenas um homem numa rua de Paris. Na capa da New Yorker a mesma coisa,  um desenho de Françoise Mouly mostra um homem e Nova York, creio eu. Um carteiro, talvez. O silêncio se instalou no meu bairro, a Lapa, enquanto ouço panelas no Facebook. O meu bairro é reacionário, fazia festas e mais festas na era do panelaço contra Dilma. Me mandaram pra Cuba, pra Venezuela e hoje se recolhem num silêncio constrangedor. Nesse silêncio, nossa voz ecoa no quarteirão todos os dias, oito e meia em ponto: Fora Bolsonaro! e Bolsonaro acabou!, inspirado naquele haitiano que ninguém nunca soube que é, como aquele chinês que parou tanques que se dirigiam à Praça da Paz Celestial. Sim, eu gostaria de poder descer e, no meio da rua, parar os ônibus que dirigem só Deus sabe pra onde. É uma ideia. 

QUINZE

Viver com medo hoje, imaginando o futuro que não vem. Não vai ser um plantão do Jornal Nacional, com aqueles microfones voando, que vai anunciar o fim do isolamento. Todos às ruas! Não vai ser o plantão do JN que vai fazer barulho na minha rua, o portão da garagem subir e descer. Os cafés servir café, os restaurantes a quilo oferecer aquelas saladas maravilhosas, a Zara voltar a vender roupa de frio, o porteiro ligar dizendo que chegou encomenda, minhas filhas baterem na porta, meu filho  ligar dizendo que está chegando de BH. As bicicletas voltarem a circular Parque Villa-Lobos, a Livraria da Travessa exibir na vitrine o livro-reportagem sobre João de Deus da Todavia, o primeiro a dizer a verdade. O sol está difícil de mostrar a sua cara. A Patricia Mesquita disse que muitos passarinhos deixaram de cantar no seu jardim, por aqui não. As maritacas, aproveitando a calmaria, tomaram conta da árvore que dá pra minha varanda. O beija-flor sim, esse não tenho visto nas manhãs, enquanto leio os jornais. Á água no bebedouro que trocava dia sim, dia não, agora dura a semana inteira. Que dia a terra vai voltar a girar como sempre girou? Os jornais mostram pessoas nas ruas caminhando nas calçadas de Ipanema, como se caminhar é preciso, viver não é preciso. Pessoas dentro de casa diminuem as mortes, todos sabem, mas tem gente que não entende isso e não abre mão de ir pra rua, zambetar. O dia vai ser de muito trabalho, de exercícios de pilates aqui dentro porque lá fora, meu mundo caiu. Saudade de Marisa Monte: beija eu, beija eu, beija eu! 

[arte Magritte]

TREZE

Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
Percorrer correndo os corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento
Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas,
as sete moradas Na sala receber o beijo frio em
minha boca Beijo de uma deusa morta Deus morto,
fêmea de língua gelada Língua gelada como nada Sim,
eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada uma matar um membro da família Até que a
plenitude ea
morte coincidissem um dia O que aconteceria de
qualquer jeito
Mas eu prefiro abrir as janelas prá que
entrem todos os insetos

Janelas Abertas Número 2, Caetano Veloso

[arte: Edward Hopper]

DOZE

A palavra sextou perdeu o sentido porque amanhã sabadou, depois de amanhã domingou e quando chegar a segunda-feira, segundou. Os guias de arte e espetáculos dos jornais não existem mais, foram transformados em uma página dentro do jornal e hoje insistem que vai ter Páscoa sim, com chocolate e tudo mais. Sei não! Será que algum vizinho está perguntando “o que vamos comer no domingo de Páscoa?” Arroz com feijão está bom demais. Meus vizinhos são silenciosos e nem aparecem na janela para cantar como vi na Itália e no Rio de Janeiro, dando os parabéns para um garoto que fazia oito anos. Por aqui, quando chega a noite, poucos se animam a bater panelas e quando batem gritam fora Bolsonaro, assassino, nazista, miliciano ou Bolsonaro acabou, lá longe. Depois volta o silêncio. No meu escritório, antes mesmo de botar os pés já vejo trabalho na tela do computador, de longe. Não para nunca. A televisão fica ligada o dia inteiro. Já pareço íntimo dos apresentadores, dos comentaristas e dos repórteres da GloboNews e da CNN Brasil, os dois canais que fico pra lá e pra cá até começar o JH. Desconfio que a Julia Duailibi, o Valdo Cruz, o Otávio Guedes moram na GloboNews. O Gottino, esse sim, mora na CNN Brasil, não é possível, virou cenário. Espero o porteiro subir com a Piauí de abril que trás o Bozo na capa, fazendo malabares com o coronavírus. Ele vai trazer também o quarto livrinho de uma coleção que estou comprando para o meu neto Raul: Hansel and Gretel, em bom português, João e Maria. Dezessete horas tenho de apresentar o Jornal do Fim da Tarde, ao vivo daqui mesmo, da minha quarentena, do meu confinamento, da minha prisão domiciliar.

ONZE

Quantas pessoas no mundo estão lavando as mãos neste momento? Quantas pessoas estão acordando e lembrando do coronavírus? Quantas pessoas estão colocando a roupa na máquina, preparando o café da manhã, prestando atenção no número de mortos que a televisão anuncia, olhando pela janela o vazio lá fora, fazendo uma listinha pra ligar pro supermercado, arrumando uma gaveta, passando roupa, ligando o computador, postando uma foto, respondendo um e-mail, instalando o Skype, procurando uma música no Skype, olhando a despensa vazia, sentindo fome, preocupado com o sobrinho no Peru, dando banho no cachorro, procurando o Jogo da Vida no fundo do armário, prestando atenção na Julia Duailibi mostrando as primeiras páginas dos jornais de hoje na televisão, lendo o livro Escravidão do Laurentino Gomes, fazendo contas, sonhando em um dia voltar ao parque no domingo, vendo que a pasta de dentes está acabando? Quantas pessoas no mundo estão sonhando? 

DEZ

A frase do biólogo Atila Iamarino não saiu da minha cabeça desde aquela noite de segunda-feira. Será mesmo que a próxima viagem está tão longe assim? Queria ainda conhecer a índia e o Vietnã, pelo menos. Não tenho pensado em mandar os casacos pro 5-à-Sec, juntar um dinheiro pra trocar por euros, entrar no site do Airbnb, nada disso. Concentro-me no vírus, em lavar as mãos com água e sabão durante 20 segundos, enxugar com uma toalha de papel e aproveitar o mesmo papel para apagar a luz do banheiro. Pelo jornal e pela televisão acompanho o drama de quem mora nas ruas ou em poucos metros quadrados, cinco ou seis pessoas juntas dormindo no mesmo cômodo. Fico aqui matutando como ajudar essa gente. Sou do grupo de risco e não posso sair de casa. Fico aqui entre algumas paredes, uma cor de rosa. Esse sofrimento persiste dentro de mim. A cada dia que passa ouço menos barulho lá fora. Nem os passarinhos do jardim do meu prédio tenho ouvido. De tempos em tempos passa um carro e eu me pergunto onde estará indo. Tenho visto na televisão distribuição de álcool em gel, cestas básicas e escutado a voz do morro nas reportagens de Chico Regueira. Me pergunto quando sairei daqui. Para o diário da família, fotografo fragmentos da minha casa, um enfeite aqui, um disco que estou ouvindo, um livro que estou lendo. O Home office tem funcionado, mas sinto saudade das frases da Marília Moraes ao cair da tarde. Sinto falta de passar na Livraria da Vila, de tomar um café na Cristallo, das frases que ouço dentro do ônibus Vila Anastácio. Onde será que está aquelas pessoas que via despertar todas as manhãs debaixo do Viaduto Presidente João Goulart? A viagem à India que eu me prometi fica pro São João, que não vai ser mais em junho, nem agosto, nem setembro. Nada mais atual que o primeiro verso de Drummond: E agora, José?

AO VIVO

Aconteceu sábado passado, diante o programa É de casa, na TV Globo. O repórter reuniu uma pequena turma de motoboys, entregadores de comida e outras coisas mais. Um papo ótimo. Eles explicaram como tem sido esses dias de coronavírus, nada fáceis. Quando o repórter ia se despedindo, um deles chamado Paulo, pediu a palavra: “Eu queria acrescentar uma coisa”. Educado, o repórter deu a palavra ao motoboy, que soltou os cachorros. Disse que o trabalho deles é muito pesado, é muita pressão, ganham pouco, qualquer coisinha que acontece são advertidos, cassados e terminou: “Eu tenho consciência de que o que eu faço é trabalho escravo!” Enfim, TV ao vivo é outra coisa.

[foto Reprodução TV Globo]

OITO

Sobraram ainda alguns limões sicilianos da nossa compra de mercado feita há dez dias atrás. Na despensa, ainda havia um pacote de arroz arbóreo e foi dele que surgiu na nossa mesa um risoto de limão siciliano digno de um dia de domingo. Colocamos a mesa e almoçamos. Bebi a última garrafinha de Estrella Galícia. Os próximos dias, enquanto o supermercado não entrega nossa compra, tudo vai ser muito mais simples. Mais simples que um omelete, porque ovo, o último foi num bolo. A manchete da Folha nos inquieta, as pessoas passando fome nas favelas. Vou acrescentar na compra do supermercado, mais arroz e feijão. Temos de encontrar uma maneira de colocar dentro da janelinha do Senac Moda, onde as pessoas deixam roupas que não vão usar mais e onde, toda semana, deixo lá as revistas lidas que não guardo. Na televisão vejo imagens do lunático percorrendo as cidades satélites de Brasília, fazendo selfies com crianças, imitando Hitler. Tal e qual. De noite, um certo alívio quando lemos que o Twitter retirou do ar, mesmo que tarde demais, as postagens do idiota em pessoa. As ruas estão vazias por aqui, mas nem tanto. Deveriam estar mais, completamente às moscas. Nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro as cidade vazias. Milão, Nova York, Paris, Berlim, Lisboa, Roma, Madri. Alguns jornais daqui mostram um idiota na Ceilândia cercado de pessoas que o seguem com se ele fosse o flautista de Hamelim. Hoje é dia de home office. A ideia é começar a fazer exercícios dentro de casa. Uma filha faz pilates na sala da casa dela e manda a foto. A outra, quando ligamos, estava ofegante, fazendo exercícios com Jane Fonda. A terceira, deu sorte de morar numa casa e é no quintal que encontra sua liberdade com meu netinho. O quarto, mora num sítio e está se guardando também. Todos nós. Que vida há la fora? Sem futebol, o Globo Esporte sumiu, o Esporte Espetacular sumiu, o Lance sumiu. Na França, pela primeira vez, o jornal Le Canard Enchaîné deixou de circular, virou online sem nunca ter sido antes. Em Portugal, a Time Out Lisboa virou Time In Lisboa. Os guias da metrópole onde moro sumiram do mapa, bem como os suplementos de turismo. Tem alguma coisa no ar e não é mais aquele avião de carreira. Assim caminha a humanidade.

[foto Reprodução/Matisse – detalhe]

SETE

Eu preciso te falar,
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar,
Depois andar de encontro ao vento.
Eu preciso respirar
o mesmo ar que te rodeia,
E na pele quero ter
o mesmo sol que te bronzeia,
Eu preciso te tocar
e outra vez te ver sorrindo,
e voltar num sonho lindo
Já não da mais pra viver
um sentimento sem sentido,
Eu preciso descobrir
a emoção de estar contigo,
Ver o sol amanhecer,
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo.

[Como um dia de domingo/Michael Sullivan-Paulo Massadas • trecho]

SEIS

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. 
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas 
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra 
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra 
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. 
Na verdade, o homem não era necessário 
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. 
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias 
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa 
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos 
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. 
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes 
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia 
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo 
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia, 
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias 
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio 
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula. 
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos 
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas 
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade 
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo 
E para não ficar com as vastas mãos abanando 
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança 
Possivelmente, isto é, muito provavelmente 
Porque era sábado.

[Dia da Criação/Vinicius de Morais – Parte III]

foto Fan Ho

CINCO

O vírus perderá a coroa.

Há vírus, sim, mas há o esplendor do céu azul que me entra pela vidraça e a música de Gershwin que ouço nesta manhã de reclusão forçada. Tão bela, tão bela que eu gostaria de ouvir bem alto de modo a compartilhá-la com os vizinhos.

Mas a boa educação não permite. E eu ainda me julgo educado.

Um americano em Paris é o nome do concerto. Americano numa Paris de outros tempos. Qual seria a representação musical que outro americano comporia para a Paris de hoje?

Meu gosto musical é eclético e após a erudita composição de Gershwin em CD, ponho no toca-discos (sim, sou moderno e antiquado) o vinil de nossa eterna caipira, Inezita, e ouço Lampião de Gás, canção que fala de uma São Paulo de outros  tempos, tão antigos que nem eu que já sou muito antigo vivenciei.

 Sampa, de Caetano Veloso ou São São Paulo Meu Amor, de Tom Zé são do meu tempo. Mas como seria uma melô para esta Sampa de hoje, a Sampa que nestes dias, está paralisada pelo coronavírus?

Como diz Camões em um dos seus belos poemas, o mundo é feito de mudanças. Tudo muda e tudo passa. Tudo? O vírus passa, porém quero crer que a beleza da literatura, da dança, do cinema, do teatro, enfim da Arte humana, esta não passará. Pelo menos enquanto houver um ser humano sobre a terra.

Portanto, minha amiga, meu amigo, esta reclusão que vivenciamos, logo, logo, passará. Aproveite-a e divirta-se. Leia ou releia uma boa obra, prosa ou poesia, reveja bons filmes e, sobretudo, ouça boas músicas…

As dançáveis, dance-as com sua parceira ou seu parceiro. Solitário ou solitária? Dance solitariamente, pois só pode ser boa companhia para outros quem é boa companhia para si mesmo.

Vida é movimento, movimento que pode ser apenas interior quando, por exemplo, você ouve uma sinfonia executada por uma grande orquestra ou um solo de piano ou flauta…

Portanto, meu caro, minha cara, aproveite a reclusão forçada e do limão faça uma limonada.

Leia poesias, ouça música e cante ou dance com a certeza de que esse famigerado coronavírus, breve, breve, perderá sua coroa.

QUATRO

Saudade de lá fora. Da calçada esburacada, de correr dos carros na hora de atravessar a rua, do bar e lanches, do ponto de ônibus, dos grafites nos muros, das bancas de jornal, do cheiro de pão na porta da Fabrique, do sacolão que vende Fanta pêssego, da Livraria da Vila, da fila na Lotérica Sorte Grande, dos cachorros que cruzo. Já se vai mais uma semana que não coloco os pés na rua. Escrevo muito, trabalho, rego minhas plantas, observo o crescimento das sementes de limão nas canecas colorias, vejo o bolo sair do forno, o barulho seco dos boletos que ainda jogam debaixo da porta da sala. E vejo muita televisão, todas as noticias que vêm dos canais à cabo, principalmente. De olho na GloboNews, experimento a CNN Brasil e, aqui chamo a atenção para o programa #grandedebate, que não perco, a melhor coisa que tem por lá. Mas, no fim da manhã, estava eu sintonizado na GloboNews vendo a coletiva do governador João Doria, o político mais educado dos últimos tempos. Certamente fez curso para agradecer cada jornalista numa coletiva. Agradece, manda um abraço, elogia e solicita, por obséquio, “a sua pergunta”. Ontem foi assim, mas quando disse ao final,” então vamos à pergunta da CNN Brasil” e a jornalista disse “gostaria de dizer que a CNN Brasil está transmitindo ao vivo essa coletiva”, no switcher, o diretor de TV simplesmente cortou para as apresentadoras no estúdio, aparentemente sem saber o que tinha acontecido. Nunca tinha visto a GloboNews cortar bruscamente uma coletiva, a não ser em nome de uma notícia mais importante, de última hora, um plantão. Mas foi assim. A GloboNews cortou a pergunta da CNN Brasil, a nova emissora que agora está no ar e no seu pé. Mudei pra CNN Brasil e lá estava o Doria respondendo à pergunta que não ouvi na emissora concorrente. Mas eis que de repente, na coletiva seguinte, quando se ouviu “agora vamos a pergunta da jornalista Delis Ortiz, ouviu-se uma voz grave do âncora da CNN Brasil, que abafou a pergunta da jornalista da Globo: “Bem estamos transmitindo ao vivo, diretamente de Brasilia…” e ficou falando até que a pergunta da Delis chegou ao fim. Então ouvimos a resposta da pergunta que não escutamos. Tem uma guerra no ar, guerra mais boba. 

(Alberto Villas)

TRÊS

Dormir e acordar com a imagem daquele monstro que apareceu na televisão na noite de terça-feira. Acreditar piamente que estamos sendo governados por um jegue, pedindo desculpas a todos os jegues que circulam por ruas de terra em pequenas cidades do interior nordestino. Perplexo, ainda ouvir o forró de Genivaldo Lacerda perguntando “de quem é esse jegue?” O imbecil que nos governa esquece em segundos o que disse, como naquele dia em que afirmou para as câmeras da televisão que “o importante são os 220 milhões de brasileiros que estão no Brasil e não um grupo de pessoas em Wuhan querendo voltar pra cá”. Chamou de Doutor Henrique Mandetta o ministro da saúde, indo contra tudo o que ele diz diariamente nas coletivas. “Fiquem em casa!” Não, aquele monstro apareceu na televisão para dizer saiam de casa, acabem com essa bobagem. Vamos reabrir as escolas, os bares, os restaurantes, o comércio, as estradas. Preciso da economia para me reeleger em 2022. E foda-se o resto. Foi o que passou na sua cabeça durante aqueles quatro minutos e pouco em que ficou ali exposto, enquanto as panelas batiam e os gritos saiam das janelas. Ele foi ali para jogar veneno na imprensa, na TV Globo, ironizar o Doutor Drauzio Varella. É caso de internamento. Chega, né?

(Alberto Villas)

DOIS

Hoje acordei, percorri meus metros quadrados, tomei meu Puran 25mcg, vi que tinha sol lá fora. Passei álcool gel nas duas mãos e no antebraço, peguei a Folha de S.Paulo e vi, de cara,  que encolheram a Ilustrada. Ontem já tinham encolhido a Mônica Bergamo e hoje foi o caderno onde ela está hospedada. O mesmo aconteceu com o Caderno 2, que desapareceu hoje pela primeira vez do jornal, desde abril de 1986. Virou um caderno chamado Na Quarentena. Cinema lá fora não há mais, como não há mais teatro, shows, livrarias, Sescs, Senacs, sebos, cantadores de rua. Restou a televisão, o Netflix, a Globoplay, alguns shows via Internet, todos em carreira solo e os livros e discos de cada um. Trabalho o dia inteiro nesses meus metros quadrados e me alegro em ver o sol lá fora assim tão cedo. Dizem que espanta coronavírus. De tempos em tempos ligo, de tempos em tempos desligo a televisão, passo quinze minutos na rede, mergulhado na Escravidão, de Laurentino Gomes. Observo as plantas crescerem. O abacateiro enorme, o inhame quase na hora de colher, os tomateiros subindo, as ervas verdes, por enquanto. Não sei como vai ser no futuro. Nunca o slogan “no future” dos primeiros punks que surgiram em Londres foi tão atual. Descubro velhos discos ainda em CD para ouvir, discos que não ouvia há anos: Michelle Phillips e Denny Doherty, ex-mama e ex-papa. Releio poemas de Ernesto Cardenal, esquecido lá na prateleira do alto, quando fuço a biblioteca. Apresento o Jornal do Fim da Tarde, do Nocaute, no Youtube e me alegro ao conversar com os internautas, cada um no seu canto. Eles me dão força pra não sucumbir. Ainda não estou puxando o cabelo nervoso querendo ouvir Cely Campelo pra não cair. Ouço Letrux Aos Prantos e me animo. Por incrível que pareça, a gente vai levando. [Alberto Villas]

•••  

“Em quarentena, descobri que meu avô viu seu pai ser assassinado.  Nunca me envolvi sentimentalmente com ele. Tinha um semblante pesado, olheiras fartas, inchadas – emanava medo e distância. Um cheiro estranho – eram suas roupas, sempre cinzas – moda romena, antiquada, corte reto e suturado. Nunca me fez um carinho, apesar de sua gentileza. Não me lembro de sua voz e nenhum de seus sorrisos consigo engendrar. Será que algum dia sorriu? Como será sorrir-superar a morte matada de um pai? Viver uma vida aterrorizado por lembranças de perseguição, da Guerra, do genocídio? Ouvir, dia a dia – na vigília e sonho – o tiro seco, o tombo ríspido, o barulho aterrorizante de um corpo caído? Será que é isso que também nos espera? Uma catástrofe, uma hecatombe – e se eu sobreviver, terei o mesmo semblante pesado do meu avô? Sim, eu tomarei seu lugar, e meus netos me olharão com a ausência e a frieza com que encarava o agora compreendido avô”.
[texto do escritor Jacques Fux, que recebi por e-mail]

UM


Numa hora dessas, o planeta Terra deve estar sentindo um vazio dentro dela. As ruas sem ninguém, a alma, a cabeça, cheias. Cada qual no seu canto e em cada canto uma dor. A banda não passa lá fora e não vai tocar tão cedo. Recolhidos estamos, cada um nos seus metros quadrados. Aqui são exatamente cem, que agora conheço centímetro por centímetro, como a palma da minha mão. Tem gente nas ruas, os médicos, as enfermeiras, os auxiliares, os lixeiros, os garis, os moradores de rua e tantos outros. Pensemos neles. Vamos sobrevivendo. Acordo cedo e pego a Folha jogada no capacho. Quem trouxe até a minha casa? Quem subiu o elevador e a jogou no capacho? A capa é azul e vejo online que todas as capas dos jornais brasileiros são iguais nessa manhã de segunda-feira: “Juntos vamos vender o vírus”. Do outro lado, desunido, desorientado, burro mesmo, temos um presidente imbecil, presente apenas no quadradinho de humor dos jornais, nos cartuns. Passo os olhos em dezenas de jornais do mundo. As pessoas usando máscaras nas fotografias nas primeiras páginas vão desaparecendo, dando lugar a grandes galpões, estádios de futebol improvisados em hospital. E ruas vazias, muitas ruas vazias. A Paulista, a beira do Sena em Paris, Picadilly Circus em Londres, Central Station em Nova York, a Ponte Vechio em Florença, a Praça Dam em Amsterdam, a Fontana di Trevi em Roma, o coreto em Santa Rita do Sapucaí., a Praça de São Pedro, nenhuma alma viva. Penso no poema de Drummond e pergunto para os meus botões: E agora, José? Pessoas estão aprendendo a lavar louça, a arrumar a cama, a fazer almoço, a varrer o chão, a lavar o banheiro, a colocar a mesa do café. Todos os dias passava debaixo do Viaduto Presidente João Goulart e via os moradores, alguns dormindo, outros acordando, uns fazendo o café numa fogueirinha de papel, o cão ao lado. Onde eles estarão, eu me pergunto. Da minha janela, vejo um enorme jardim e, sorte nossa, o sol despontando. Que seja bem vindo, que traga o calor, que espante o vírus. Tenho um dia inteiro pela frente. Informações a dar, um jornal para apresentar, um livro para escrever, uma crônica pra Carta Capital. O almoço, o chão por varrer, as plantas para molhar, a roupa para lavar. Não posso parar de pensar. [AV]