EU QUERO VOTAR PRA PRESIDENTE

Minha vontade de votar para presidente da República começou cedo. Pego por um golpe militar na infância, nunca tinha sentido o gostinho de entrar numa cabine de lona e marcar um X no nome do candidato. Era assim que se votava.

Lembro-me do meu pai, Juscelino roxo, com sua pasta 007 cheia de adesivos JK 65, propaganda de uma eleição que ficou pelo meio do caminho.

Quando peguei o avião com destino à felicidade, no início dos anos 1970, fiz uma promessa, a de não cortar o cabelo enquanto a ditadura militar não caísse. Promessa que quebrei, oito anos depois quando a abertura começou a criar asas e o meu cabelo bater na cintura.

A luta pelas diretas, no início dos anos 1980 – eu já de volta à Terra Brasilis – foi contagiante e, ao mesmo tempo frustrante, quando aqueles picaretas de Brasília disseram não e vieram com indiretas.

Eu escrevia, toda semana, uma crônica no “Caderno 2” do Estadão, quando comecei com essa mania de contagem regressiva. No final de cada crônica, eu escrevia: Faltam tantos dias para as eleições diretas. Isso durou um ano, enquanto estive no “Caderno 2”, sem jamais ser censurado. Gostava de ver aquilo impresso no jornal O Estado de S.Paulo, tão conservador, porque sentia o sangue rebelde circulando nas veias a todo vapor.

Quando passei do jornal impresso pra televisão, essa ideia de contagem regressiva me acompanhou. Toda noite, assim que a Dóris Giesse aparecia na tela da Band, no final da escalada do Jornal de Vanguarda, ela dizia: Faltam tantos dias para as eleições diretas no Brasil.

AÍ, mudei de canal, fui pro SBT fazer o telejornal da Lillian Witte Fibe e a história continuou. Só que lá, em vez de ela dizer que faltavam tantos dias para as eleições diretas, aparecia escrito no cantinho da tela, em caracteres amarelos, a contagem regressiva.

Como um controle remoto, eu passei do SBT pra Globo e, na Globo, no telejornal do final de noite que eu comandava com uma equipe nota 10, era a mesma coisa. Toda noite, depois de a Sandra Annenberg ler a escalada, aparecia, agora em azul, a contagem regressiva para as eleições diretas.

Até que um dia, finalmente, chegaram as tais eleições diretas. Votei no Lula mas quem ganhou foi o falso caçador de marajás. Collor foi eleito, veio o impeachment, Itamar Franco assumiu e depois vieram as diretas de novo, pra nossa felicidade.

Votei no Lula mais uma vez, perdi mais uma vez. Fernando Henrique foi eleito e, quatro anos depois, foi reeleito, tudo dentro das normais gerais do estatuto da gafieira.

Até que um dia, oito anos depois, Lula foi eleito. Ganhamos! Foi reeleito e ganhamos de novo. Ele lançou Dilma candidata, vieram as eleições e nós ganhamos pela terceira vez e depois pela quarta vez.

Ai veio o golpe.

Dilma Rousseff
Protesto contra Dilma em 2015. Deu no que deu (Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos Públicas)

Aécio, o segundo, não se conformou com a vitória do Partido dos Trabalhadores pela quarta vez seguida e chegou até a pedir uma vergonhosa contagem de votos. O vice Aloysio disse, numa entrevista, que iria sangrar a presidenta reeleita. E sangrou.

Milhares e milhares de pessoas, inconformadas com a vitória de Dilma nas urnas, vestiram uma camisa amarela da CBF e foram pras ruas pra derrubar a presidenta eleita, com o incentivo da maior parte da mídia, que alegava pedaladas fiscais.

Uns pediam até mesmo a volta dos militares. Outros carregavam cartazes dizendo “Tchau, querida!”, Fora PT, Somos todos Cunha, enquanto me mandavam pra Cuba ou pra Venezuela. Podia escolher.

Deu no que deu.

Sendo assim, tantos e tantos anos depois, eu volto a escrever no final da minha crônica, agora não mais pro “Caderno 2”, mas pra CartaCapital, o meu grito de guerra.

Eu quero votar pra presidente!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br


TIC-TIC NERVOSO

 Parte da seleção da Brasil Extra

Finalmente 1984 chegou. O Big Brother de George Orwell ainda não estava no ar na televisão aberta, mas dezenas de câmeras escondidas pela cidade já botavam os olhos grandes sobre nós.

Milhares de brasileiros estavam nas ruas exigindo eleições diretas já, coisa que não víamos desde os idos de 1960. Enquanto isso, bandidos derretiam a nossa Jules Rimet, a taça conquistada com o talento de Pelé, Gerson, Rivelino e Tostão.

O mundo estava agitado. Em Los Angeles, o cantor Marvin Gaye caía morto no chão, com o corpo crivado de balas disparadas pelo pai. O exército indiano sufocava a revolta dos sikhs que, revoltados, executavam Indira Gandhi.

Perdíamos o charme e o jazz de Count Basie, enquanto Michael Jackson era o popstar da hora com o clipe Thriller, mostrado em primeira mão no show da vida.

Foi nesse clima que um bando de jornalistas se reuniu numa pequena sala meio improvisada no bairro de Pinheiros, em São Paulo, com o sonho de colocar nas bancas uma nova revista alternativa chamada Brasil Extra.

Capitaneados pelos mestres Mylton Severiano da Silva – o Myltainho -, Bernardo Kucinsky e Narciso Kalili, os discípulos se apresentaram para ir à luta, ir às ruas e trazer matérias pra botar a revista de pé. O sonho era fazer uma espécie de Actuel, revista que levei uma pilha para a primeira reunião de pauta.

O time era de jovens e craques. Dagomir Marquesi – o Dagô – foi escalado para traçar o perfil de Paulo Maluf. Marcelo Rubens Paiva para desvendar os mistérios das rádios piratas, Luiz Maklouf foi pra São Bernardo descobrir o que tinha na cabeça de Luiz Inácio da Silva e Bernardo Kucinsky partiu pra Cubarão para relatar o sofrimento dos moradores da Vila Socó que, segundo ele, nasceram como bichos e morreram como bichos.

Edenilton Lampião foi conversar com Claudio Villas Boas, cansado de guerra, se despedindo da vida. Helio Doyle e Juca Martins voaram pro Uruguai para mostrar o renascimento do pais, depois de onze anos de tirania. Enquanto isso, Luiz Gê dava asas aos tubarões voadores.

O time era grande. Tínhamos ainda Lucia Costa, Luisa de Oliveira, Aureliano Biancarelli, Renato Pompeu, Carlos Rennó, Lucia Correia Lima, Cristina Serra e tantos outros.

O número 1, todo desenhado pelo francês Jean Gauvin, um dia ficou pronto. Com uma foto de Paulo Maluf na capa e a manchete O menino que virou Maluf, fomos pras bancas. A reportagem de capa tinha, além do relato do repórter que comeu um quibe de peixe numa festa chez Maluf em que penetrou de boa, um dos melhores títulos que fizemos: Quando Maluf começou a mamar. Esse era o tom da Brasil Extra.

Os exemplares desapareceram das bancas em poucos dias e nós nos entusiasmamos em fazer logo o número 2, que já tinha a manchete de capa: Os filhos da pátria! A redação era uma mixórdia, como quase toda redação naquele 1984. Fumaça de cigarro no ar, copinhos de café espalhados nas mesas, panfletos colados nas paredes, laudas amassadas pelo chão e muitas Remington fazendo aquele barulho toc toc toc.

Nós éramos felizes e sabíamos disso.

Até que uma segunda-feira chegou e o dono da revista convocou todos nós para uma reunião no meio da redação. Em poucas palavras, ele disse o que tinha a nos dizer, sem muita explicação:

– A Brasil Extra acabou!

O número 2, que já estava praticamente pronto para rodar, foi engavetado e um silêncio tomou conta da redação. Silêncio que só foi quebrado quando alguém foi lá no canto da sala, pegou um radinho de pilha e ligou para ouvir as últimas notícias. Não havia noticia alguma naquela hora, havia apenas Kid Vinil cantando Tic-Tic nervoso, o hit parade do momento, cuja letra publicamos no número 1.

Saímos dali cabisbaixos e fomos comer um X qualquer coisa no bar da frente, todos cantarolando Tic-Tic nervoso, uma música deliciosa de Kid Vinil, morto sexta-feira passada, 19 de maio.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

 


MINHA MACONDO

Na minha juventude, li muitos livros por obrigação. Iracema, de José de Alencar, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Li com má vontade, com o único objetivo de passar no vestibular da UFMG. Livros que hoje venero e que talvez, por ironia, guardo num lugar de honra na minha biblioteca.

O primeiro livro que li por vontade própria, aquele que fui lá na Livraria Amadeu e comprei com o meu dinheiro, foi Voo Noturno, de Antoine de Saint-Exupéry. Adorei. Gostei tanto que reli, alguns anos depois. O exemplar que tenho aqui está amarelado, judiado, bem estropiado, mas para mim, um troféu.

O segundo que li com vontade, virou o livro da minha vida: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Já reli três vezes, inclusive uma vez na língua original, para sentir o clima mais de perto, descobrir pequenos detalhes.

Nunca mais me esqueci das primeiras palavras: “Macondo é uma aldeia de vinte casas de barro e taquara construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”.

Nessa época, não pensava em ganhar a vida com a escrita. Queria ser médico e os livros que li por obrigação foram pra passar no vestibular de Medicina. Mas foi a pequena Macondo que um dia me encantou e, certamente, me fez mudar de rumo.

Invejava García Márquez que tinha nascido em Aracataca, a sua Macondo. Eu havia nascido numa cidade que crescia a olhos vistos rumo ao progresso, uma cidade que ia ficando feia e sem destino, passando por cima da Avenida do Contorno, o projeto inicial. Lá longe. via as montanhas sendo engolidas pelos tratores da MBR, acabando com o nosso belo horizonte.

Foi então que imaginei onde seria a minha Macondo, uma cidadezinha de uns trezentos habitantes e que também tinha um riacho de pedras polidas e piabas que pescávamos com peneira nas férias de julho. A cidadezinha chamava-se Soberbo e ficava perto de Rio Doce, interior de Minas Gerais. Soberbo só tinha uma venda, uma rua de terra, uma pracinha com uma mangueira enorme, algumas poucas casas coloniais e nada mais.

Cheguei até a pensar em me mudar pra lá um dia, quem sabe para escrever os meus anos de solidão. Levaria minha máquina Remington portátil, algumas folhas em branco e começaria a contar a história da família Fontes, a minha, que tinha alguns personagens interessantes como Tia Lili, aquela que todos os dias às treze horas e treze minutos tinha de estar em casa para não deixar que o pêndulo do relógio cuco despencasse. Pura ilusão.

Ali em Soberbo, procuraria também o caminho do mar. Entre cascatas, palmeiras, araçás e bananeiras, desbravaria a mata, atravessaria as montanhas e chegaria ao mar, que em Minas não há. Mas nada disso aconteceu. Eu passei no vestibular de Jornalismo e continuei morando numa cidade nada a ver com a Macondo. Um dia fui-me embora pra Paris, mas ai é outra história.

Na minha Beagá, já havia muita fumaça sendo expelida pelos Studebakers e um prefeito chamado Amintas de Barros que derrubava árvores para dar passagem aos automóveis. Os trólebus circulavam pelo centro, os vendedores de loteria gritavam na Avenida Afonso Pena, os engraxates lustravam os sapatos na Praça Sete, os trilhos urbanos refletiam nos meus olhos e o terminal do bonde tinha um leve cheiro de óleo.

A primeira lanchonete da cidade servia milk-shake de morango e uma sorveteria chamada São Domingos oferecia sorvete de jabuticaba. E não acontecia mais nada na minha cidade. Aquilo não dava meio capítulo sequer do livro que sonhava escrever.

Hoje, ao pegar Cem anos de solidão para reler mais uma vez, comemorando os seus cinquenta anos, lembrei-me de tudo isso. Procurei no Google a palavra Soberbo para saber se aquele vilarejo já tinha mais de 300 habitantes, quando dei-me de cara com a realidade: Soberbo não há mais, foi invadida pelas águas como se fosse Orós.

Soberbo hoje virou uma usina hidrelétrica chamada Risoleta Neves que, pensando bem, poderia sim ser personagem dos meus anos de solidão. Pelo menos o nome é um nome ótimo, tudo a ver para estrar num grande romance: Risoleta Neves!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br


ALUCINAÇÃO

Há dois anos não pisava em terras brasileiras e a saudade já doía um pouco. As últimas folhas secas caiam das árvores à beira do Sena, promovendo um festival dourado no chão molhado pela garoa. Sempre com a minha Pentax na sacola de pano, fotografava aquela beleza, revelava e enviava ao Brasil para mostrar o quão bonitas eram aquelas folhas douradas formando um tapete, tão diferentes das nossas tropicais.

O meu francês ainda era ruim e eu só conseguia ler a Nouvel Observateur, toda semana, com um dicionário Petit Robert ao lado. Na faculdade, fazia o maior esforço para entender as aulas do professor Pierre Albert, que já falava, naquela época, de televisão à cabo.

Portugal estava em festa com a eleição do socialista Mario Soares. A Inglaterra, de luto pela partida de Agatha Christie e a Argentina acuada depois de um golpe que derrubou Isabelita Peron e colocou no poder um general chamado Jorge Videla.

Enquanto 800 milhões de chineses faziam silêncio para homenagear o líder máximo Mao Tsé Tung, morto aos 82 anos, no Brasil, a cerimônia do adeus era para dois ex-presidentes, JK e JG. Na televisão, a lei Falcão estava no ar.

Foi num dia, já de inverno, que o carteiro deixou na minha caixa de cartas um papel cor de rosa, anunciando a chegada de uma encomenda, vinda de um Belo Horizonte. Cinco da tarde, ela estaria disponível na agência da Rue Breguete, mas quando ainda faltavam dez minutos para as cinco, eu já estava de pé naquele saguão frio esperando ela chegar.

A encomenda era um pacote leve, embrulhado num papel pardo e cheio de selos do mico leão dourado. Fui caminhando até o nosso apartamento na Rue de la Roquette, segurando firme aquele embrulho,  debaixo de um guarda-chuva barato para que não tomasse um pingo de chuva sequer.

O pacote foi aberto no chão da sala, forrada por um carpete azul anil medonho, rodeado de almofadas e tatames. Nós morávamos numa casa muito engraçada, não tinha sofá, não tinha mesa, não tinha geladeira, não tinha nada.

Com um estilete, fui rasgando com cuidado todo aquele durex que cobria o papel pardo. Rasgava as bordas e, bem devagar, ia deslizando o estilete para que saísse lá de dentro aquilo que certamente era um disco de vinil.

Sabia que era um disco porque os vinis sempre chegavam em Paris embalados entre duas placas de isopor, para que não que não empenassem no meio do caminho.

Alucinação!

Bati os olhos naquela capa do disco de um desconhecido Belchior, que nunca tinha ouvido a voz mas sim, lido algo nos recortes do Jornal do Brasil que me enviavam em  envelopes verde-amarelos.

Na contracapa, li o nome das dez músicas, cinco do lado A, cinco do lado B. O encarte trazia as letras mas não quis ler, tamanha ansiedade para ouvir a voz daquele cantor que surgia em meu país enquanto eu estava tão longe dali.

Retirei o vinil do papel fino, retirei a tampa de acrílico do pequeno som três em um que compramos na Darty e quando a agulha começou a deslizar, eu ouvi, pela primeira vez, o cearense cantando. Eu tinha certeza que ele estava cantando pra mim pra mim, um pobre brasileiro em Paris.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas trago na cabeça uma canção do rádio 
Em que um antigo compositor baiano me dizia: Tudo é divino, tudo é maravilhoso.

Hoje, sei que se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: Amigo, eu me desesperava. Sei que assim falando pensas, que esse desespero era moda em 76. Mas andava mesmo descontente, desesperadamente eu gritava em português.



O HOMEM QUE CALCULAVA

O meu pai tinha um caderno de capa dura, preta, com a borda dourada, que ele carregava pra todo lado. No final de sua vida estava desgastado, desbotado de tanto manuseio. Ele folheava aquele caderno praticamente todos os dias.

Era no café da manhã que ele vinha nos relatar, fazer uma espécie de inventário particular que vinha cultivando desde a juventude. Nesse caderno, ele anotava as datas especiais de todos os grandes acontecimentos e as relacionadas às pessoas que considerava especiais.

– Hoje mamãe estaria fazendo 110 anos!

– Hoje os meus pais estariam fazendo 60 anos de casados!

– Há vinte e oito anos eu pedi a mãe de vocês em casamento.

– Se Rui Demétrio estivesse vivo, já estaria com 50 anos!

Ele dizia isso com muita seriedade e todos nós ouvíamos com atenção e respeito. Nos últimos anos de sua vida, foi crescendo a sua obsessão pela morte. Parecia – como Gilberto Gil – não ter medo dela, mas medo de morrer.

Comprou um túmulo no Parque da Colina, em Belo Horizonte, pertinho do bar e debaixo de uma árvore frondosa. Ele brincava que queria descansar para sempre com sombra e cerveja fresca. Aliás, ele brincava muito com a morte.

Meu pai era um homem que calculava, fazia contas sem parar, somando, diminuindo, dividindo e multiplicando. Sabia com exatidão o número de dias que trabalhou no Serviço de Meteorologia até se aposentar.

Sabia quanto gastou com tijolos, cimento, telhas, portas e tacos na construção de sua casa na Rua Rio Verde, em 1950, e quanto custou seu terno de formatura na Escola de Engenharia da UFMG, pago em doze prestações. Dizia com orgulho até os centavos de uma moeda que nunca conhecemos.

Respondia na lata quando alguém perguntava quanto custou sua Rural Willys zero que comprou em 1963, o preço que pagou naquela TV Colorado RQ e até mesmo quanto custou uma garrafa de água mineral São Lourenço, quando comprou o primeiro engradado na cidade mineira, lá nos anos 1960.

Gostava de fazer contas e fazia tudo de cabeça, numa época em que as calculadoras funcionavam com papel e uma manivelinha ao lado.

Hoje, aos sessenta e seis anos, sou o retrato fiel do meu pai. Também tenho um caderno onde anoto as datas especiais de pessoas especiais na minha vida. A única diferença é que o meu caderno tem uma capa mole de couro vermelho e não dura e preta como a do meu pai. Como o dele, o meu caderno também está gasto e meio estropiado de tanto manuseio.

Não costumo reunir minhas meninas na hora do café da manhã para recitar a ladainha que o meu pai recitava quando éramos crianças. Mas todos os dias, com o caderno na mão, vivo fazendo minhas contas.

– Elis Regina já estaria com 72 anos.

– Já são 26 anos que Cazuza morreu.

– O meu pai faria 100 anos em março do ano que vem.

– Já são quase dezesseis anos que as torres gêmeas despencaram em Nova York.

Aí, no dia 10 de março nasceu o Raul, meu neto. Feliz da vida, anotei no caderno, postei a primeira foto no Facebook e liguei pros meus irmãos pra contar a novidade. Raul é o segundo neto, depois de vinte anos de Flora.

De repente, me vi conversando com a minha irmã mais velha e fazendo contas.

– Quando o Raul estiver com 20 anos, eu terei 86.

– Ele vai votar pela primeira vez em 2033.

– Na passagem de 2099 para 2100, o Raul vai ter 83 anos.

Desliguei o telefone e fui voando pra Minas Gerais conhecer o menininho. Quando cheguei, ele estava dormindo, tranquilo, apenas mexendo as mãozinhas de vez em quando, mãozinhas enfiadas num par de meias azuis listradas de laranja para que o danado não arranhasse o rostinho.

Confesso que fiquei perdidamente apaixonado por ele. Fiz a primeira foto, com o cuidado de desligar o flash para não acordá-lo. Ali, naquela hora, nem me lembrei de fazer conta alguma. Mas quando desci as escada e fui caminhando pela calçada da Rua Riachuelo, fiz apenas uma continha rápida.

Depois de passar 270 dias na barriga de Sara, Raul tinha exatas 120 horas de vida quando dei nele o primeiro beijinho no seu rosto. Ele tremelicou os olhinhos e voltou a dormir. Foi um beijinho doce que talvez vá me fazer esquecer qualquer operação da tabuada.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 


O LÁPIS BRANCO

Que menino por volta de mil novecentos e sessenta e pouco não era apaixonado por uma caixa de lápis de cor da Johann Faber?

Todo início de ano escolar, eu ganhava uma, novinha em folha. No primário, era aquela que tinha 12 cores e, na embalagem, umas araras, uns papagaios, uns maracanãs e um tucano todo colorido.

Até hoje sinto um cheirinho de madeira e tinta que saia lá de dentro quando eu abria a caixinha pela primeira vez e via aqueles lápis coloridos, todos apontadinhos, todos do mesmo tamanho.

O meu sonho era, um dia, ganhar uma caixa maior, com 24 lápis, o que somente aconteceu quando passei direto no exame de admissão e fui pro primeiro ginasial. Eu gostei da novidade, daqueles dois tons de amarelo, dois tons de azul, de verde, de vermelho.

Mas o meu sonho mesmo – e que nunca foi realizado – era ter aquela lata verde da Caran D’Ache com 96 cores. Só de cinza, tinha uns quatro tons.

Mas, enquanto menino de calças curtas, era com aquela caixinha de 12 cores que eu passava o ano.

Com o verde, eu coloria as folhas de uma enorme árvore que desenhava ao lado de uma casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu. Com o marrom, eu coloria o tronco e com o vermelho, as maçãs, num tempo em que o Brasil nem produzia maçãs. A que eu levava na merendeira, uma vez por semana, vinha da Argentina, envolvida num papel de seda azul muito cheiroso.

Com o amarelo, eu coloria as janelas da casinha, com o roxo as portas, com o cor de rosa, as flores nas janelas.

Com o alaranjado, eu coloria as laranjas dentro de um cesto, com o azul claro eu coloria as nuvens do céu que nos protegia, e com o azul escuro, o rio que passava na nossa vida, lá no fundo, cheio de piabas, sem um pingo de poluição.

O cinza, eu guardava para depois de quase tudo pronto, colorir a fumaça que saia da chaminé, caminhando para as estrelas.

Eu sempre fui muito cuidadoso com a minha caixa de lápis de cor. Apontava um a um com uma lâmina Gillete e depois ia afinando cada ponta com uma faquinha bem afiada que minha mãe só deixava usar nessa ocasião.

Quando chegava o final do ano, minha caixinha de lápis de cor, que era de papelão, estava meio estropiada. Os lápis minúsculos, alguns com as pontas mordidas pela aflição quando a professora anunciava arguição oral.

Mas todo ano era a mesma coisa. Aqueles lápis pequenininhos e o branco lá, enorme, do mesmo jeitinho quando compramos a caixa na Copiadora Brasileira.

O lápis branco sempre me impressionou porque ele nunca serviu pra nada. Às vezes, eu tentava clarear um pouco as nuvens do céu e passava por cima do azul, mas não adiantava muito. Ficava feio e sempre meio manchado. Ai eu deixava aquele lápis branco grandalhão de lado, sem uso, inútil. Nem quebrar a ponta, ele quebrava.

Semana passada, a Crayola, uma das mais famosas marcas de lápis de cor do mundo, numa jogada de marketing, anunciou que retiraria um lápis da sua caixa de 24 cores. E fez suspense. Muita gente achou que não passava de um primeiro de abril. Não importa. Numa pesquisa no seu site, a Crayola perguntou aos consumidores qual lápis deveria ser eliminado. Apostei no branco. Eu tenho certeza que será o branco, aquele grandalhão inútil. Só pode.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 


TODA AVÓ ERA VELHA

 Vó Zizinha

Quando eu era menino, não existia avó jovem. Toda avó era velhinha e parece que já nasciam velhinhas, com aquele coque na cabeça, cabelos grisalhos, óculos de grau, aquela saia bege, blusa de cetim e um chinelinho de lã xadrez nos pés.

Avó tinha rugas, muitas rugas e a gente gostava de ficar puxando a pele das mãos dela, como se fosse um elástico.

Vovó era aquela que, com o vovô e com o Ivo, via a uva na cartilha de um curso que se chamava primário. Avó era aquela do Chapeuzinho Vermelho, com um camisolão largo e um gorro na cabeça, preso com uma fitinha de algodão. Avó era a Dona Benta do Sítio do Pica Pau Amarelo, a mais perfeita tradução de uma avó.

Eu só tive uma avó na vida, a vovó Zizinha. Acho que ela nunca foi brotinho, sempre foi velhinha, reclamando de umas dores de lado, do chuvisco na televisão e da velhice. Ela era daquelas que falei lá em cima. Coque na cabeça, óculos de grau, saia bege, blusa e cetim e chinelinho de lã xadrez nos pés.

A única diferença da minha vó para as avós dos meus amigos, é que Zizinha era uma espécie de Chiquinha Gonzaga. Não que tivesse composto Ó Abre Alas, mas tinha ojeriza a vassoura, espanador e pano de prato. Ela era da lira, não posso negar.

Vovó Zizinha tinha cara de vó. Nunca foi de tomar uma Brahma com as amigas num boteco em Santa Teresa, onde sempre morou. Nunca dirigiu um automóvel e nem viajou sozinha pra Ponte Nova, onde nasceu. Ela não discutia política e só votava no candidato que o meu avô dizia pra ela votar. Diz a lenda que, como o voto era secreto, ela não obedecia muito as ordens do vô Neco não.

Confesso que, hoje em dia, estranho a palavra avó.

Quando minhas filhas eram pequenininhas e chegavam em casa contando que pegaram uma carona com a avó de um amiga, eu sempre imaginava uma velhinha de uns setenta e tantos anos, dirigindo um fusquinha velho e ficava aliviado por elas terem chegado vivas em casa.

Na verdade, a avó que trazia minhas filhas era uma mulher de quarenta e poucos anos, que trabalhava numa grande empresa e comandava uma turma de uns cinquenta marmanjos. Não tinha nenhuma cara de vó.

Vó à moda antiga era uma mulher meio ranzinza que tomava um monte de remédios, tricotava até cochilar e assistia todas as novelas na televisão, inclusive Beto Rockefeller.

Vó era vó, e pronto.

Era aquela que dava biscoitinho Mirabel, bala Chita e cigarrinho de chocolate da Pan pros netos, minutos antes do almoço, escondido dos pais.

Vó era aquela que deixava os netos assistirem televisão até mais tarde, mesmo depois que o menininho dos cobertores Parahyba anunciava na TV que já era hora de dormir e que não era pra esperar a mamãe mandar.

Vó era aquela que, na hora do almoço, ia lá na cozinha fritar um ovo pro neto que não gostava de jiló, nem bife de fígado.

Vó era aquela que, todas as noites, lia pros netos a coleção completa dos livrinhos da Mary França e do Eliardo França: A Galinha Choca, A Boca do Sapo, O Rabo do Galo, imitando cada bicho.

Vó era aquela que deixava o neto ir dormir sem tomar banho, com os pés sujos e com a roupa do corpo, preguiça de por pijama.

O figurino mudou.

Avó hoje toma Brahma com as amigas no boteco, dirige automóvel, viaja sozinha, discute política, vai na passeata com cartaz de Fora Temer e assiste todos os seriados americanos no Netflix.

Vó hoje passa horas passando o dedo no Instagram, posta foto no Facebook, procura apartamento pra alugar no Airbnb, chama um Uber, isso quando não está analisando o perfil de um gatão no Tinder.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

 


RETROSPECTIVA 2017

O brasileiro tem mania de dizer que o ano em nosso país começa somente depois do carnaval. Com um calor do Saara, ninguém tem ânimo de ir pro batente, depois de pular sete ondas e fazer seus pedidos pro ano novo.

Em janeiro, de férias, o brasileiro olha preguiçoso pro calendário e pensa com seus botões: O melhor mesmo é começar pra valer o ano depois que os bloquinhos passarem.

Mas esse ano não foi igual aquele que passou. Com apenas três meses de vida, 2017 já dá uma retrospectiva e tanto. Quer ver só o que já aconteceu até aqui?

Dois mil e dezessete começou com um homem armado até os dentes atirando numa multidão que comemorava o ano novo em Istambul, matando 39 e deixando 70 pessoas feridas.

No dia seguinte, o novo gestor de São Paulo fantasiou-se de gari e foi varrer uma praça que já estava varrida.

Como se não bastasse, saiu apagando grafites que eram verdadeiras obras de arte nos muros da cidade.

No dia 3 de janeiro, morreu Vida Alves, a atriz que entrou para a historia com um beijo, o primeiro, na televisão brasileira.

Logo em seguida perdemos o escritor argentino Ricardo Piglia, o autor de Dinheiro Queimado e Respiração Artificial.

Ai veio a morte de Mário Soares, o socialista boa praça que tirou Portugal do atraso.

Já era muitas mortes pra tão poucos dias, quando chegou a notícia do desaparecimento de Zygmunt Bauman, um dos intelectuais mais pop da história.

Ainda no primeiro mês do ano, um surto de febre amarela deixou Minas Gerais em alerta vermelho.

Pra tristeza de muita gente, e principalmente da meninada, o Circo Ringling Bros anunciou que ia ter espetáculo sim senhor, mas era o último.

Enquanto isso, o mundo pegava fogo na prisão de Alcaçus, no Rio Grande do Norte, e o ministro da Justiça se mostrava mais perdido que cego em tiroteio.

Pra piorar a situação, o milionário Donald Trump tomou posse como o quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos.

Quando achamos que as coisas iam se acalmar, o jatinho levando o ministro Teori Zavaski despencou no mar de Paraty.

O jornal Folha de S.Paulo resolveu lançar uma coluna chamada Dias Melhores, só com noticias positivas.

Então ficamos sabendo que os cientistas descobriram uma nova mariposa meio topetuda e que deram a ela o nome de Neopalpa donaldtrump, em homenagem ao maluco da Casa Branca.

Enquanto isso, na China, fogos festejaram a chegada do Ano do Galo.

Janeiro ainda não tinha terminado, quando a polícia bateu na porta do empresário Eike Batista para prendê-lo, mas ele não estava, tinha dado um pulinho nos States. Voltou pro patropi e foi direto pro xilindró, onde perdeu a peruca.

Os dias melhores da Folha finalmente chegaram: Os escoteiros americanos anunciaram que vão permitir a participação de meninos transgêneros na comunidade.

Mas, de repente, uma estrela vermelha apagou. Dona Marisa, mulher de Lula, morreu vítima de um AVC, depois de alguns dias internada no Hospital Sírio-libanês.

Novas denuncias contra Aécio pipocaram na Folha de S.Paulo mas, por ser tucano, as noticias entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Pra nossa tristeza, uma atrofia de múltiplos sistemas levou o filósofo, historiador e critico literário búlgaro Tzvetan Todorov.

Moreira Franco, o Gato Angorá, cercado de denúncias por todos os lados, foi nomeado ministro e passou a ter foro privilegiado.

O TRE cassou o mandato do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, mas ele continuou no cargo como se nada tivesse acontecido.

Jornais foram proibidos de falar da pacata e do lar Marcela Temer, quando o assunto era mensagem pelo celular.

Silêncio. Lá se foi All Jarreau, cantor de jazz, pop e rock and blues.

Kim Jong-nam, irmão do ditador norte coreano Kim Jong-un, foi atacado no aeroporto da Malásia e morreu no atentado mais bizarro da história.

O Brasil ficou sabendo que Luislinda Valois, embaixadora do reverendo Moon e nova ministra dos Direitos Humanos, maquiou o seu currículo.

Alexandre de Moraes, que fez de sua tese um grande plágio, também maquiou o seu currículo e foi indicado como ministro do STF.

Cercado de denúncias por todos os lados, o chanceler José Serra sentiu dor nas costas e deixou o governo.

Pra completar, o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, mandou soltar o goleiro Bruno, preso por um crime indefensável . Alguns fãs, correram pro abraço e para fazer self com o ex-presidiário.

Ai chegou o carnaval dos bloquinhos e do Fora Temer.

Como o show não podia parar, veio o Oscar e com ele o prêmio de maior mico do ano. Muito ti ti ti, muito blá blá blá e o Oscar foi para… La La Land.

E as noticias não pararam de chegar.

Paraisópolis pegou fogo.

Pesquisa mostrou Lula disparado na frente.

Milhares de pessoas saíram às ruas contra a reforma da Previdência.

Mas o ano estava apenas começando.

Enquanto Chuck Berry, aos 90 anos, despedia-se do mundo, Lula, acompanhado de Dilma foi pra Paraíba, onde o sertão virou mar. A festa parecia não ter hora pra acabar.

E como o Brasil é uma caixinha de surpresas e escândalos, veio à tona mais um, o da carne podre, adulterada e recheada de papelão. Temer reagiu e convidou embaixadores dos países importadores para um churrasco amigo em Brasília.

Para mostrar que a carne brasileira era boa e não trazia perigo algum, o presidente golpista mastigou e engoliu uma bela picanha argentina.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br


TAMANHO FAMÍLIA

Família, família
Papai, mamãe, titia
Família, família
Almoça junto todo dia
Nunca perde essa mania

(“Família”, Titãs do Iê-Iê-Iê)

Família não era apenas o pai bravo, a mãe do lar e um punhado de filhos. Tinha o avô, a avó, os tios, as tias, os primos, as primas, os tios tortos, os primos tortos e o que chamávamos de parente longe.

Família tinha jantarada no domingo, todos juntos, e isso era sagrado. A jantarada tinha arroz de forno, tutu de feijão e frango assado, comprado vivo no Aviário Modelo, no Mercado Central. E, de sobremesa, tinha pêssego em calda com creme chantilly.

Família tinha um avô que guardava o dinheiro vivo, uma maço de cruzeiros, num saco de Açúcar Pérola, escrito com letras garrafais VENENO, pra ninguém chegar perto.

Tinha uma avó que passava o dia com os cotovelos na janela, vendo o movimento na Rua Hermilo Alves, no bairro de Santa Teresa.

Tinha uma tia pão dura que, assim que fez sessenta anos, passava o dia andando de ônibus só pra ter o prazer de, no final do dia, contabilizar quanto havia economizado.

Tinha um tio sistemático com o seu Citroën Traction preto, ano 1947, único dono, que não gostava de tirar fotografias e virava o rosto quando ouvia o olha o passarinho.

Tinha uma tia que nunca pegou numa vassoura, num espanador ou numa flanela. Aquela que preferia tomar o café da manhã com a emprega na padaria pra evitar vasilha suja na pia.

Tinha uma tia que, aos 70 anos, contava em alto e bom tom suas aventuras sexuais nos motéis da cidade com namorados ocultos, seguramente inexistentes.

Tinha uma tia torta que, um dia, esqueceu uma calcinha enorme no varal e foi-se embora pra Ponte Nova, motivo de chacota da meninada durante décadas.

Tinha um tio exagerado que ia nas Estâncias Califórnia e voltava com cinco pães de forma – que chamávamos de pão americano – um quilo de presunto e um quilo de queijo prato pra alimentar os seis filhos.

Tinha um tio torto que era separado, que tinha cheiro de tinta e morava na Cidade Maravilhosa, onde confeccionava flâmulas do Clube de Regatas do Flamengo.

Tinha um primo, ovelha negra da família, que passava o dia jogando basquete-ball no quintal, motivo de tititi entre todas as tias, menos a mãe dele.

Tinha uma prima muito comportada que, de repente, engravidou-se aos 16 anos para espanto de todos.

Tinha uma prima muito engraçada, falastrona, que vivia perguntando a todos os homens da família se eles eram chefe e qual era os seus salários.

Tinha um primo que todos diziam que era um crânio e era mesmo. Depois de passar em primeiro lugar no ITA, ganhou uma bolsa para morar na Alemanha, numa época em que quase ninguém viajava pro estrangeiro.

Tinha uma prima que fazia todas as coleções de fascículos. De Medicina e Saúde a Bom Apetite. De Gênios da Pintura a Ciência Ilustrada. De Grandes Personagens da Nossa História a Mãos de Ouro.

Tinha uma prima que era gêmea da prima engraçada, que foi embora com o marido inaugurar Brasília e era a mais elegante de todas as primas.

Tinha uma prima que despertava paixões mas que nunca pintou romance com primo, de tanto que eles ouviam que primo que casa com prima tem filho defeituoso.

Tinha um primo advogado, o mais velho de todos, casado com uma advogada.

Tinha um primo meio doidão, meio hermitão, que era oito ou oitenta. Ora vivia numa mansão, ora voltava pra casa da mãe sem um tostão furado no bolso.

Tinha um primo que mudou-se para São Paulo novinho ainda e nunca mais voltou.

Família era família completa, que antes de ir embora no final do domingo, depois da jantarada, ainda tomava um café ralo em xícaras Colorex, com pão de meio-quilo e manteiga Itambé.

Foi na época em existiam famílias assim que a maior fabrica de refrigerantes do mundo teve uma grande ideia e lançou uma novidade nos armazéns de Belo Horizonte: A Coca-Cola de 1 litro, tamanho família.


FEIJOADA É FEIJOADA, MOQUECA É MOQUECA

Impliquei com essa onda no dia em que vi a Bela Gil preparando um churrasco de melancia na televisão. Onda de inventar moda. Adoro melancia e sempre achei que a fruta é gostosa geladinha, vermelhinha, em pedaços. Ai veio a filha do Gil com o tal churrasco, que acabou viralizando nas redes sociais. Não sei quantos milhões de pessoas curtiram, compartilharam, criticaram ou zombaram.

Adoro ver receitas nas revistas, nos livros, na televisão e agora, a qualquer hora do dia ou da noite, nos sites. Mas, venhamos e convenhamos que estão inventando moda demais.

Pra mim, feijoada é aquele prato tipicamente brasileiro que leva feijão preto, paio, rabo de porco, orelha de porco, costela de porco, carne seca, acompanhado de arroz branco, farofa, couve, bisteca de porco, banana empanada, torresminho e laranja. Sem se esquecer da boa caipirinha de limão ou de uma cervejinha estupidamente gelada.

Pra mim, moqueca capixaba é aquela que leva peixe, coentro, cebola, alho, cebolinha, pimenta, tomate, azeite de oliva e urucum.

Agora, não me venha com invenção de moda. Sexta-feira passada, logo cedo, bati os olhos no caderno Show de O Globo e estava lá, estampada na capa, a nova moda entre os cariocas: A carne na era da pós-verdade. Anunciavam ali, o bacon de coco, o picadinho de caju e a coxinha de jaca, entre outras novidades. Não, não é brincadeira, estava lá escrito. Juro por Deus.

Que papo é esse?

A minha mãe preparava um ensopadinho de chuchu que levava chuchu, um franguinho com quiabo que levava franguinho e quiabo, um tutu de feijão que levava feijão e farinha e uma broa de fubá que levava fubá.

Não existia esse papo de pode substituir a carne do hambúrguer por bolinho de soja ou o queijo chedar por tofu. Quando minha mãe anunciava que domingo ia ter arroz de forno e frango frito lá em casa, era um arroz que ia no forno, frango frito e pronto.

Tudo bem fazer um prato que leva abóbora, berinjela, batata doce, mandioca, inhame. Mas não vamos chamar esse prato de feijoada vegetariana não, combinado?

Não vamos substituir a farinha de rosca que dá aquela crocância ao bife à milanesa por um farelo de milho, né?

No restaurante, o paulistano adora mudar o cardápio. Senta e pede um estrogonofe de frango e vai logo dando as ordens:

– Dá pra trocar a batata palha por batata chips?

– Dá pra  tirar o creme de leite e o catchup?

– Ao invés de arroz branco, pode ser fritas?

– Pode substituir o frango por filé mignon?

Em poucos minutos, lá vem o garçom, pobre coitado, equilibrando aquele prato Frankstein.

Fora a Pepsi, que o freguês sempre pede pra trocar por Coca.

Só nos últimos dias, além de rever a história do churrasco de melancia da Bela Gil, o bacon de coco, o picadinho de caju e a coxinha de jaca na capa do caderno Show, meninos, eu vi:

Uma peixada feita com abóbora.

Um quibe sem carne.

Um estrogonofe de mandioca.

Um arroz de pato sem pato.

Um macarrão à bolonhesa sem carne moída.

E um espetinho de frango sem espetinho.

Sou do tempo em que não existia esse negócio de substituir ingredientes não. Se bem que lá no início dos anos 1970, nos meus tempos de Paris, um amigo meu – o Ceará – um dia estava com tanta vontade de comer uma farofa com ovo e banana e como não havia farinha de mandioca na terra do croque monsieur, ele substituiu por serragem, jurando que daria certo.

Depois de pronta a farofa – que tinha serragem no lugar de farinha – o Ceará experimentou aquela gororoba, fez cara feia, cuspiu, jogou tudo no lixo e acabou voltando pra Quixadá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br


OBJETO DO DESEJO

captura-de-tela-2017-02-24-as-06-24-39

Já fui escoteiro um dia. De uniforme caqui, meia três quartos, lencinho no pescoço, bonezinho na cabeça, cantil na cintura, mochila nas costas e tudo mais. Escoteiro de acordar de madrugada, arrumar a matula e partir para acampar na Serra da Mantiqueira. Era menino ainda, mas queria aventura, queria correr mundo, correr perigo.

Eu tinha um canivete, pobrezinho, bem tosco, que o meu pai comprou numa loja de artigos de pesca no centro da cidade. Ele era fininho, meio cego, mas era o que eu tinha para enfrentar a mata e os bichos.

Os bichos eram singelos tatus bolinhas, minhocas, moscas varejeiras, taturanas, grilos, besouros, sapos e baratas cascudas que insistiam em entrar na minha barraca de lona nas noites escuras e frias da Serra da Mantiqueira.

Eu adorava aquele mundo meio selvagem, de esquentar salsichas tipo Viena em fogareiros improvisados, abrir latas de sardinha e cozinhar macarrão de metro para comer em pratos de alumínio. De sobremesa, Leite Moça.

Bernardo era o único da turma que tinha um canivete suíço, aquele objeto do desejo de todos. O canivete suíço custava uma fortuna e Bernardo tinha um, vim a saber, porque seu pai ganhava muito dinheiro, era chefe na NCR Caixas Registradoras.

Bernardo contava que o pai trouxera o canivete da Suíça, numa viagem que fez para participar de um encontro de funcionários da NCR Caixas Registradoras. Ninguém tinha um canivete suíço como aquele do Bernardo, nem mesmo os monitores.

De noite, sentado perto do fogo, Bernardo tirava o seu canivete de um estojinho de couro gravado Swiss Army Knife e mostrava a todos como ele funcionava. O canivete era tudo. A gente ia abrindo e ia saindo lá de dentro um cortador de unha, uma tesourinha, um saca-rolha, um abridor de latas, uma lixa, um abridor de garrafas, um palito, uma chave de fenda, um alicate, uma canetinha, uma pinça, um escamador de peixes, uma serrinha para madeira e uma serrinha para metal. Isso, que eu me lembro.

Bernardo era gente fina. Ele deixava o canivete passar de mão em mão para que todos pudéssemos ver bem de perto o que era aquela maravilha da invenção. No final da noite, quando o fogo era só cinzas e nada mais, ele colocava novamente o seu canivete no estojinho e guardava dentro da sua mochila.

Quantas e quantas noites, deitado naquele sleeping-bag, com a cabeça num fino travesseiro de paina, eu não sonhei com o canivete do Bernardo. Não eram sonhos muito claros mas aquele canivete suíço aparecia voando no meu escaninho do desejo, lá no cantinho do cérebro.

Na semana passada, enquanto os técnicos preparavam aquela parafernália para que eu pudesse gravar uma participação num documentário, alguém falou do tal canivete suíço. Ali sentado naquela poltrona, maquiado, sem poder me mexer muito para o técnico acertar a luz, fechei os olhos e me lembrei dos acampamentos da minha infância e daquele desejo enorme que tinha de ter um canivete como o do Bernardo.

A jornalista que estava coordenando a gravação, lembrou muito bem:

– Gente, o smartphone é o canivete suíço dos tempos modernos!

E explicou: “Só que ao invés da gente ir abrindo aos pouquinhos, a gente vai clicando nos aplicativos e ele vai abrindo para um mundo maravilhoso”.

É verdade. Mas a única diferença é que meu mundo maravilhoso de menino era um pouco mais simples. Não era o mundo do Waze, do Uber, do WhatsApp, do Facebook, do Safari, do Instagram. Era um mundo da tesourinha, do saca rolha, da lixa, da canetinha e do abridor de latas.

[Crônica da semana publicada pelo site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br


OH! LUAR TÃO CÂNDIDO

captura-de-tela-2017-02-17-as-05-59-40

Já fui perdidamente apaixonado pela Lua. Isso faz muito tempo, quando eu era ainda criança e havia aquela expectativa se o homem conseguiria – ou não – um dia, colocar os pés lá.

Era um tempo em que o meu pai dançava com a minha mãe no Cassino da Pampulha ao som de Ontem ao Luar, de Catulo da Paixão Cearense, uma das canções mais lindas sobre a Lua.

Pergunta ao luar travesso e tão taful

De noite a chorar na onda toda azul

Pergunta ao luar do mar a canção

Qual o mistério que há na dor de uma paixão

O meu pai também era apaixonado por ela e, nos dias de Lua cheia, reunia os filhos no alpendre pra vê-la brilhante e formosa flutuando no espaço sideral. Com os dedos, ele ia traçando o perfil de Jorge, do dragão, da espada, das labaredas. E a gente acreditava porque a gente via nitidamente São Jorge lá.

Quando veio a adolescência, as espinhas e os pelos, nós participávamos de campeonato de twist no bairro, ao som de Cely Campelo.

Tomo um banho de lua, fico branca como a neve

Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve

É tão bom sonhar contigo, oh! Luar tão cândido…

A gente foi crescendo e quando o Carnaval chegou, entre confetes e serpentinas, nos esbaldávamos no salão da Sociedade Mineira de Engenheiros cantando a marchinha que virou hit naquele ano.

Olhando a lua através de uma luneta

Eu vi Jorginho passeando de lambreta

Fazendo curvas na contramão

E na garupa quem ia era o dragão

Num outro carnaval, que não foi igual aquele que passou, a Lua voltou para as paradas de sucesso, na voz de Ângela Maria.

Lua, oh lua

Querem te passar pra trás

Lua, oh lua

Querem te roubar a paz

Lua que no céu flutua

Lua que nos dá luar

Lua, oh lua

Não deixa ninguém te pisar

Mas um dia o homem chegou lá. Vimos emocionados pela televisão, em imagens em preto e branco, Neil Armstrong e Edwin Aldrin dando aqueles saltos desajeitados em seu solo. Lembro-me bem que estávamos na casa do meu avô e ele chorou. Mas não acreditou no que estava vendo.

No dia seguinte, o meu pai correu na banca e comprou a edição histórica da revista Manchete, que veio com um pôster gigante com o mapa da lua, já loteada, um verdadeiro espetáculo!

Na semana seguinte, ele chegou em casa com a edição sonora da Fatos e Fotos, que trouxe um disquinho, um compacto simples, com a voz de Armstrong: “That’s one small step for a man, one giant leap for mankind”.

Foi nos anos 70, muito longe daqui, naquele inverno rigoroso, que ouvi pela primeira vez Caetano cantando a Lua.

Lua, lua, lua, lua

Por um momento meu canto contigo compactua

E mesmo o vento canta-se

Compacto no tempo

Estanca

Branca, branca, branca, branca

A minha, nossa voz atua sendo silêncio

Meu canto não tem nada a ver com a lua

Aí chegaram os anos 80 e o poeta Gilberto Gil chegou, assim de repente, com a última palavra sobre a Lua.

O luar 

Do luar não há mais nada a dizer 

A não ser 

Que a gente precisa ver o luar 

Que a gente precisa ver para crer 

Diz o dito popular 

Uma vez que é feito só para ser visto 

Se a gente não vê, não há 

Se a noite inventa a escuridão 

A luz inventa o luar 

O olho da vida inventa a visão 

Doce clarão sobre o mar

Hoje, uma noite quente de verão paulistano, passei pela Rua Alfonso Bovero e, da janela do ônibus, vi um cachorro vagabundo e sedento, lambendo uma poça formada pela água que escorria de uma lanchonete. Foi aí que me lembrei da minha paixão pela Lua e pelo Millôr, que um dia escreveu um seus hai-kais mais inspirados.

Na poça da rua

o vira-lata

lambe a lua


OH, MINAS GERAIS!

captura-de-tela-2017-02-09-as-16-38-35

Sei que deveria ir mais a Minas Gerais do que vou, umas duas, três vezes ao ano. Pra rever meus parentes, meus amigos, pra não perder o sotaque.

Sotaque que, acho eu, fui perdendo ao longo dos anos, desde aquele 1973, quando abandonei Belo Horizonte pra ir morar a mais de dez mil quilômetros de lá.

Senti isso quando, outro dia, pousei no aeroporto de Uberlândia e fui direto na lanchonete comer um pão de queijo que, fora de brincadeira, é mesmo o mais gostoso do mundo.

– Cê qué qui eu isquento um tiquinho procê?

Foi assim que a mocinha me recebeu, quase de braços abertos, como se fosse uma amiga íntima de longo tempo.

Sei não, mas eu acho que o sotaque mineiro aumentou – e muito – desde que parti. Quando peguei o primeiro avião com destino à felicidade, todos chamavam o centro de Belo Horizonte de cidade. O trólebus subia a Rua da Bahia, as pessoas tomavam Guarapan, andavam de Opala, ouviam Fagner cantando Manera Fru Fru, Manera, chamavam acidente de trombada e a polícia de Radio Patrulha.

Como pode, meu filho mais velho, que nasceu tão longe de Beagá e que hoje mora lá, me ligar e perguntar:

– E ai pai, tudo jóia, tudo massa?

A repórter Helena de Grammont, quando ainda trabalhava no Show da Vida, voltou encantada de lá e veio logo me perguntar se o sotaque mineiro era mesmo assim ou se estavam brincando com ela. Helena estava no carro da Globo procurando um endereço perto de Belo Horizonte, quando perguntou para um guarda de trânsito se ele poderia ajudá-la. A resposta veio de imediato.

– Cê ségui essa istrada toda vida e quando acabá o piche, cê quebra pra lá e continua siguino toda vida!

Já virou folclore esse negócio de mineiro engolir parte das palavras. Debaixo da cama é badacama, conforme for é confórfô, quilo de carne é kidicarne, muito magro é magrilin, atrás da porta é trádaporta, ponto de ônibus é pôndions, litro de leite é lidileiti, massa de tomate é mastumati e tira isso daí é tirisdaí.

Isso é verdade. Um garoto que mora em São Paulo foi a Minas Gerais e voltou com essa: Lá deve ser muito mais fácil aprender o português porque as palavras são muito mais curtas.

Mineiro quando para num sinal de trânsito, se está vermelho, ele pensa: Péra. Se pisca o amarelo: Prestenção. Quando vem o verde: Podií.

Mas não é só esse sotaque delicioso que o mineiro carrega dentro dele. Carrega também um jeitinho de ser.

A Gabi, amiga nossa, mineira que mora em São Paulo há anos, toda vez que vem aqui em casa, chega com um balaio de casos de Minas Gerais.

Da última vez que foi a Minas, ela viu na mesa de café da tia Teresa, uma capinha de crochê cobrindo a embalagem do adoçante. Achou aquilo uma graça e comentou com a tia prendada. Pra quê? Tem dias que Teresa não dorme, preocupada querendo saber qual é a marca do adoçante que a Gabi usa, pra ela fazer uma capinha igual, já que ela gostou tanto. Chega a ligar interurbano pra São Paulo:

– Num isquéci de mi falá a marca do seu adoçante não, preu fazê a capinha de crocrê procê…

Coisa de mineiro.

Bastou ela contar essa historia que a Catia, outra amiga mineira – e praticante – que estava aqui em casa também, contar a historia de um doce de banana divino que comeu na casa da mãe, dona Ita, a última vez que foi lá. Depois de todos elogiarem aquele doce que merecia ser comido de joelhos, ela revelou o segredo:

– Cês criditam que eu vi um cacho de banana madurin, bonzin ainda, no lixo do vizinho, e pensei: Genti, num podêmo dispidiçá não!

Mais de quarenta anos depois de ter deixado minha terra querida, o jeito mineiro de ser me encanta e cada vez mais.

Quer saber o que é ser mineiro? No final dos anos 80, quando o meu primeiro casamento se acabou, minha mãe, que era uma mineira cem por cento, queria saber se eu já “tinha outra”, como se diz lá em Minas Gerais. Um dia, cedo ainda, ela me telefonou e, ao invés de perguntar assim, na lata, se eu já tinha um novo amor, usou seu modo bem mineiro de ser:

– Eu tava pensâno em comprá um jogo de cama procê, mas tô aqui sem sabê. Sua cama nova é di casal ou di soltero?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br


EUREKA!

captura-de-tela-2017-02-03-as-06-33-26

Sou do tempo da decoreba. Um dia antes das provas, ficava trancado no meu quarto decorando. Decorando a tabuada, dois vezes dois, quatro vezes quatro, oito vezes oito. Decorando a capital da Noruega, da Suécia, da Finlândia, os afluentes do Rio Amazonas, quantas eram as Capitanias Hereditárias e o que é uma ilha, aquele pedaço de terra cercado de água por todos os lados.

Decorava o nome de quem  descobriu o Brasil, a raiz quadrada de cento e quarenta e quatro, quem foi Nicolas Durand de Villegagnon e quem foi que inventou a lâmpada elétrica.

Sim, éramos obrigados a saber quem inventou o quê. A lâmpada elétrica foi Thomas Edson, o telefone foi Alexander Graham Bell, o telégrafo sem fio foi Guglielmo Marconi, o cinema foram os irmãos Auguste e Louis Lumière, o automóvel foi o alemão Karl Benz, a imprensa foi Gutemberg e a penicilina, Alexander Fleming.

Quando chegava o dia da prova, sabia tudo de cor. Que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, que a capital da Noruega é Oslo, que a raiz quadrada de cento e quarenta e quatro é doze e que quem inventou a lâmina de barbear foi King Camp Gillette.

Confesso que Nicolas Durand de Villegagnon, me esqueci completamente quem foi.

Quando eu tinha uns dez anos de idade e o caminhão das Lojas Floriano Nogueira daGama chegou na minha casa, em Belo Horizonte, trazendo aquela máquina de lavar roupa Bendix, eu tive certeza de que não havia mais nada o que inventar.

Depois daquela máquina que lavava, enxaguava e torcia, inventar mais o quê?, pensava eu com os botões do meu colete marrom do Colégio Marista.

Nunca poderia imaginar o mundo que ainda viria pela frente e quantas invenções não apareceriam, da noite pro dia, nesses anos todos que tinha pra viver.

Era um tempo em que não havia velcro, não havia cartão de crédito, não havia microondas, televisão de tela plana, controle remoto, cheque especial, cerveja em lata, freio ABS, Fora Temer e Super Bonder ainda era a Araldite.

Era um tempo sem computador, sem smartphone, sem iPad, sem senha, sem DDD, sem WhatsApp, sem Uber, sem Waze, sem Google, sem Wikipédia, sem Netflix.

Hoje, a decoreba está completamente fora de moda. Não tenho notícias de que menino algum nesse mundo se tranca no quarto pra decorar as cores da bandeira de Gana, de Zâmbia e do Zaire.

Hoje, tenho certeza que ninguém sabe quem inventou o leite sem lactose, o arroz parboilizado, a pipoca de microondas, nem o pão sem glúten.

Acho que hoje, menino nenhum sabe de cor a vida da rainha Joana, a Louca, do Conde d’Eu ou de Ivan, o terrível, como a turma do Marista sabia.

Menino nenhum sabe quem foi Mauricio de Nassau, a história de Caramuru, a importância de Zumbi, sequer os detalhes das incríveis aventuras do Bispo Sardinha.

Mergulhado há dias numa pesquisa monstruosa sobre invenções e inventores, fico aqui sentado no computador, olhando para essa pilha de livros ao meu lado e matutando poeticamente, junto com o Chico:

Você que inventou esse Estado

Inventou de inventar

Toda escuridão

Você que inventou a tristeza

Agora tenha a fineza

De desinventar


A CIDADE DOS SONHOS

captura-de-tela-2017-01-27-as-06-48-50

“Alguma coisa acontece no meu coração”

Caetano Veloso, Sampa

Aos onze anos de idade, sabia que não tinha o menor talento para a arquitetura e para o urbanismo. Mas quando conheci Brasília, um canteiro de obras, uma cidade que brotava no planalto central do país, no meio do nada, desconfiei que tinha uma pequena queda.

Quando vi os primeiros tratores amarelos da Caterpillar rasgando a terra vermelha, monumentos brotando do chão árido, a água transformando o sertão em quase mar, até mesmo uma imensa catedral se erguendo majestosa, da noite do pro dia, passou pela minha cabeça fazer pequenos projetos.

Comecei então a roubar uns blocos quadriculados do meu pai meteorologista para planejar cidades, mais especificamente, a nova capital. Munido de régua e compasso, uma caneta hidrocor preta e lápis de todas as cores, fui traçando superquadras como a minha, a 405 Sul, que acabara de inaugurar, sem estar pronta, inaugurar parcialmente.

Haviam apenas cinco blocos de apartamentos construídos ali e eu ficava sonhando com a superquadra pronta, com todos os seus blocos de concreto, sua escola parque, seu supermercado, sua banca de jornal, sua padaria, suas árvores e suas flores do cerrado.

Os quadriculados das folhas do bloco do meu pai me ajudavam a projetar detalhes,  tintim por tintim. Coloria de verde a grama que sonhava plantar ali, de cinza as calçadas cheias de curvas, de amarelo o estacionamento, de marrom as árvores e os jardins tutti-frutti. Sem contar o céu azul, quase anil.

Eu havia deixado pra trás uma Belo Horizonte ainda pequena mas já caótica, com aquele trânsito infernal de Fuscas na Rua Espírito Santo, na Rua da Bahia e na Avenida Amazonas. Calçadas estreitas, buracos no asfalto, lixeiras caídas, a poluição visual, tudo era feio em Minas Gerais, perto daquela Brasilia de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, tão organizada, tão planejada.

Desenhava a Asa Sul do avião, já avançada em suas construções e na Asa Norte, que era só pé de caju, projetava prédios com fachadas coloridas, mas todos iguais.

Fazia croquis do Palácio da Alvorada, do Palácio do Planalto, da Praça dos Três Poderes, da Esplanada dos Ministérios, do Teatro Nacional, da Catedral e até mesmo do pombal que Jânio mandou construir ali.

Sabia desenhar direitinho os dois candangos, aquela mulher puxando os cabelos no Alvorada, o busto do JK e a Justiça sentada na praça com os olhos vendados, naquele sol a pino de rachar a cabeça, derreter os miolos.

Brasília
Quando cheguei a Brasília, desconfiei que tinha uma pequena queda por arquitetura (Foto: Alberto Villas Bouçada)

Pensando bem, eu era um pequeno arquiteto que sonhava com uma cidade ideal, de avenidas largas, parques e jardins, muito verde espalhado entre ipês amarelos, nenhum sinal de trânsito, tudo muito organizado e funcional.

Juro que, menino ainda, imaginava um dia quando fosse velhinho, bem velhinho, ver a cidade pronta como aquelas maravilhosas que via nas folhinhas da KLM que o meu pai trazia pra casa todo dezembro.

Eu ia guardando dentro de uma pasta de cartolina, todos aqueles projetos para o futuro e me orgulhava deles. Mas minha obra foi bruscamente interrompida quando abandonei Brasília naquele 31 de março de 1964, e peguei a estrada de volta para minha cidade, que Carlos certamente já imaginava um Triste Horizonte.

Nunca mais peguei no lápis e papel para fazer projetos de arquitetura e urbanismo, mas continuava acreditando que um dia as obras em BH iam acabar e algum prefeito iria dar o habite-se para que os moradores pudessem usufruir da cidade, como um todo.

Muitos anos depois, cheguei a São Paulo e, como Caetano, aprendi a chamar-te de realidade. Cabeça feita de anos rebeldes, não queria mais uma cidade organizada nem toda pronta. Cheguei por aqui ao som de Tom Zé dizendo que a cidade eram oito milhões de habitantes de todo canto e nação, uma aglomerada solidão. Era aqui que amando com todo ódio, as pessoas se odiavam com todo amor, mas, apesar de todo defeito, te carregava no meu peito.

Aprendi a conviver com o caos. Com os nordestinos vestidos de Lampião cantando o Xote das Meninas na Praça da Sé, com os adventistas pregando nas ruas, com os hippies vendendo incensos nas calçadas.

Eu me apaixonei pelos primeiros grafites coloridos na selva de pedra e pelos japoneses que não falavam português na Liberdade. E, tipo Jorge Ben, por entre bancários, automóveis, ruas, avenidas e milhões de buzinas tocando sem cessar, eu achava tudo uma maravilha.

Pena que 2017 chegou e estou ligeiramente desconfiado que o sonho acabou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br


VALE QUANTO PESA

captura-de-tela-2017-01-20-as-07-35-08

Tenho a leve impressão de que essa história de restaurante por quilo é invenção de brasileiro. Nunca vi, em canto nenhum do mundo, coisa parecida.

Claro que já vi rotisseries pesando rosbifes fatiados e nhoques ao sugo pros fregueses em outras paradas, bem longe daqui, mas montar um prato inteiro e depois botar na balança, tenho quase certeza de que isso é coisa nossa.

Outro dia, fui comer em um desses e fiquei só observando. O curioso é que na calçada, bem em frente ao restaurante, uma banca de jornais exibia dezenas de revistas com o beabá da alimentação saudável e equilibrada. Passei os olhos e vi que, ali expostas, estavam verdadeiras enciclopédias do bem estar.

Então eu entrei no restaurante por quilo e me instalei bem pertinho daquele festival gastronômico, um corredor de uns três a quatro metros de comprimento, onde as pessoas vão escolhendo uma coisinha aqui, outra ali, até encherem o prato e se dirigirem à balança.

É assustador.

Ninguém se controla, tipo hoje eu vou comer um risoto de funghi ou um estrogonofe com arroz e batata palha. A mistureba começa antes mesmo do faminto cliente dar o primeiro passo. É ali que ficam as saladas.

Salada de alface lisa, de alface crespa, de alface roxa e americana. Vagens cozidas, cozidos também estavam o brócolis, a cenoura, o quiabo, a mandioquinha, a beterraba e os ovinhos de codorna. Ai você bate os olhos no grão de bico, nos aspargos, no palmito, nas alcaparras e no milho.

Um cliente, que fiquei observando, pegou um pouquinho de cada coisa. Só deixou lá, intacto, o quiabo. Ainda bem que o prato era enorme, do tamanho de uma embalagem de pizza, quase um disco voador, e cabia muita coisa.

Era quarta-feira e dia de feijoada. Ele não pensou duas vezes, deu um chega pra lá naquela montanha de folhas verdes e legumes cozidos e arranjou um cantinho pra feijoada, pro arroz, pra couve, pra farofa, pro torresminho, pra banana à milanesa, pra bisteca de porco e pra quatro gomos de laranja.

Depois de tudo arrumadinho naquele pratão, ele avistou o que mais tinha pela frente: Do estrogonofe, ele pegou apenas uma lasquinha do frango e dois champignons, do cuscuz marroquino, ele retirou as uvas passas e as amêndoas mas conseguiu colocar uma colherada, bem ao lado da alface americana. Tinha também uns pedacinhos de pizza de calabresa, bem torradinhas. Ele se conteve, pegou apenas um pedaço pequeno que ficou se equilibrando em cima do brócolis.

Deu mais dois passos e bateu os olhos na maionese. Quem resiste a uma maionese? Duas colheradas pra fazer companhia aquelas folhas, que pensando bem, não pesam nada. Olhou pro lado e viu um metro quadrado de comida japonesa. Mesmo sabendo que aquilo ali não combina em nada com a feijoada, ele pegou dois sushis e dois sashimis, procurou o shoyu e pingou por cima.

Quem mandou ele olhar pro outro lado e ver as linguiças na grelha que, pensando bem, fazem parte da feijoada?

Só uma! Só uma! Pensou ele, mas antes pegou dois mini-quibes que estavam quentinhos. Só dois e mini.

Prato feito, aquilo parecia um verdadeiro mapa mundi da gastronomia. Tinha a feijoada brasileira, a pizza italiana, o cuscuz marroquino, o shushi japonês, o grão de bico iraniano, a alface americana, a batata inglesa e o quibe libanês.

Ele foi caminhando lentamente até a balança pra pesar. O prato, não ele. Pesou e na hora de pagar ia se esquecendo de pegar a sobremesa e a bebida. Passou a mão num cheesecake, correu até o baldão com gelo e trouxe uma Coca Zero geladinha.

Afinal, é preciso manter a linha, não é mesmo?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br


AQUELE SETEMBRO

captura-de-tela-2017-01-13-as-06-20-26

Quando aquele setembro chegou era um sábado de muito calor em Belo Horizonte. Eu começava a separar minhas roupas, minhas coisas, colocar tudo em cima da cama para depois arrumar dentro de uma enorme mala Ika forrada de cetim. Eram roupas de frio. Blusas, meias de lã, luvas, gorros. Eu estava indo embora, quiçá para nunca mais voltar.

Vivíamos sob o impacto da morte do estudante de Geologia da USP, Alexandre Vanucci, torturado e morto nos porões da ditadura. Mas os jornais informavam que ele havia sido vítima de traumatismo craniano, depois de ser atropelado por um caminhão.

Engolíamos sapos naquele setembro que começava tenso no Chile de Salvador Allende. Caminhoneiros parados, o país parado, uma panela de pressão. E a classe média, aflita para se ver livre do socialismo, gritava Fora Allende nas ruas e avenidas.

Minha mala já estava praticamente pronta no dia 11, quando veio o golpe. Faltava apenas uma pasta de cartolina onde guardava todos os meus documentos que levaria para a distante e desconhecida Paris. Meu currículo traduzido, as cadeiras que fiz na Faculdade de Filosofia devidamente detalhadas, meu passaporte que tinha uma capa verde e dura onde, na primeira página, um carimbo dizia: Não é válido para Cuba.

A Arena oficializava a candidatura do general Ernesto Geisel para o posto de presidente da República. Era o quarto militar a ocupar o cargo por via indireta, desde o golpe. A notícia me deprimia e me enchia de desilusão. Queria mesmo era pegar o primeiro avião com destino a qualquer lugar do mundo que não fosse essa pátria amada idolatrada salve salve.

Antes de trancar a mala com um cadeado Papaiz comprado no Armazém do Chaim, ainda encontrei espaço nos cantinhos para enfiar algumas fitas K-7 com as música que gostava e que queria ouvir onde quer que eu estivesse. Fagner cantando O último pau de Arara, Gal cantando Índia, Walter Franco cantando Me deixe mudo, Luiz Gonzaga cantando Asa Branca e Caetano cantando Vou-me embora pro sertão/Eu aqui não me dou bem/Ô viola, meu bem/ Viola!

Bombas caíram sob o La Moneda, tanques ocuparam as ruas de Santiago, opositores foram levados ao Estádio Nacional para o juízo final. Torturados e mortos, guerrilheiros eram amarrados em enormes pedras e jogados ao mar.

Uma nuvem escura pairou sob a América do Sul. O avião da Varig levantou voo deixando para trás um setembro sombrio que nunca saiu da minha memória.

Nos primeiros dias longe daqui, passava as manhãs no subsolo da Livraria Joie de Lire, no coração do Quartier Latin, o QG da resistência. Os fanzines chegavam diariamente de todos os cantos da América do Sul trazendo péssimas notícias das estrelas. A imagem de Augusto Pinochet, nas primeiras páginas dos jornais, óculos escuros e braços cruzados era a mais perfeita tradução de uma repressão cruel e assassina.

E eu agora, longe de tudo, cantava London London pelas ruas frias de Paris, como se estive na terra dos Beatles procurando discos voadores pelos céus.

Recitava poemas de Pablo Neruda, morto poucos dias depois do golpe, de susto, de bala ou vício. 

Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso

O tempo passou e minha promessa de somente ir ao Chile após a morte do general foi cumprida. Um dia, não faz muito tempo, fotografei o La Moneda de todos os ângulos, como se fizesse uma autopsia do meu sofrimento, daquele setembro de 1973. Não havia restos de sangue, cheiro de enxofre no ar, nem gritos parados no ar. Mas um silêncio contagiante.

No primeiro dia de 2017, entrei na Livraria Altaïr, na Gran Via de les Corts Catalanes número 6, em Barcelona, e minha filha caçula veio logo com um livro nas mãos que, segundo ela, era a minha cara.

– Pai, uma historia em quadrinhos sobre o golpe no Chile.

Vencidos pero Vivos, de Maximilien Le Roy e Loïc Locatelli Kournwsky, está aqui em cima da minha escrivaninha há mais de dez dias. São 118 páginas, contando passo a passo a tragédia daquele inesquecível setembro.

Lido, ele vai para um lugar nobre da estante, repousar ao lado de Galeano, de Puig, de Fuentes, de Marquéz, de Sábato e de Pablo. Será mais um livro na estante. E como dói.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 


CUIDADO! CACHORRO BRAVO!

captura-de-tela-2017-01-06-as-06-45-45

Sou de um tempo em que cachorro comia osso de frango frito aos domingos, acompanhado do que sobrou da macarronada. Engasgavam, tossiam e seguiam adiante até eliminar toda aquela carcaça.

Sou de um tempo em que atravessávamos a rua toda vez que vinha um cachorro na direção contrária. Era puro medo, porque eles latiam, avançavam e mordiam feio.

Sou de um tempo em que quase todo mundo morava em casa e tinha um vira-lata para espantar ladrão. No portão, havia sempre uma placa esmaltada escrito: “Cuidado! Cachorro bravo!” E põe bravo nisso.

Não tinha bandido que tentava roubar calça Lee no varal que não saísse com uma bela mordida na perna, às vezes com as marcas dos caninos, muitas vezes sangrando.

Quantas e quantas vezes não fui parar no posto do IAPC pra tomar vacina antirrábica depois de uma mordida de cão? Pela minha casa passaram quatro: Joli, Tupi, Pink e a temível Fly, que ficava presa num galinheiro sem galinhas e somente o meu irmão tinha coragem de chegar perto para oferecer uns pedaços de bofe a ela.

Sou de um tempo em que cachorros tinham nomes de cachorro: Rex, Fox, Tupã, nomes assim. Hoje, levam nome de celebridades. Conheço um Einstein, um Brad Pitt, um Michael Jackson e uma Frida.

Sou de um tempo em que não havia pet shop com banho e tosa. Os cachorros tomavam banho no tanque, com água fria e a tosa, quando era feita, era mesmo em casa com uma velha tesoura Mundial.

Hoje. eu me pergunto o que aconteceu com os cachorros que são chamados de filhos. Eles ficaram mansos, pacatos e do lar. Quando trombamos com um no shopping – sim, hoje eles passeiam no shopping – podemos tranquilamente chegar perto, passar a mão na cabeça, brincar com ele, que sempre corresponde com o seu sorriso que está no rabo.

Não vejo mais cachorro bravo por aí, daqueles que latem, avançam e mordem. Os cachorros de hoje me parecem da paz, não querem saber de confusão ou mordidas em ladrão.

Outro dia perguntei a um amigo se os cachorros de hoje têm pulga, porque os do meu tempo andavam infestados de pulgas, que eram combatidas com pó chamado Neocid, que vinha numa latinha amarela que a gente apertava.

Ele disse que sim, mas que elas são eliminadas com uma coleira anti-pulga que vende nos pet-shops da cidade.

Sou de um tempo em que não havia ração pra cachorro nem biscoitinhos Premier Cookie. O cocô deles era fedido que só. Nunca me esqueço no dia em que minha mãe foi jogar água no quintal e encontrou um Bom-Bril inteirinho nas fezes de Tupi.

Outro dia alguém me contestou, lembrando que ainda existem sim os cachorros bravos, os Pit bulls que mordem, matam e vão parar nas páginas policiais dos jornais. Mas até da braveza dos Pit bulls eu desconfio.

Agora, falando sério, minha tese vai por água abaixo quando penso que sou do tempo do Snoopy, da Lassie, do Pluto, do Pateta, do Milu, da Dama, do Vagabundo, do Bob Pai e do Bibo Filho, todos cachorros do bem, que não avançavam nem mordiam ninguém.

[Crônica da semana publicada pelo site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br