SE O CASO É CHORAR

Aquele ano começou com a chegada de Caetano Veloso no aeroporto do Galeão, que nem Tom Jobim ainda era. Chegou esquelético com seus 48 quilos, dentro de um macacão jeans e uma bolsa de palha a tiracolo. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, trazia um soluço e a vontade de ficar um pouco mais.

As minhas malas estavam sendo preparadas para uma longa viagem, aparentemente só de ida, com destino a felicidade. Eram duas malas Ika forradas de cetim cor de rosa que, a cada dia, iam ganhando um objeto imprescindível para aquele exílio que me esperava.

Gravava fitas e mais fitas K7 porque não suportaria viver sem música, longe dez mil quilômetros do meu país. Ia gravando e escrevendo com caneta Bic em pequenas fichas de cartolina, o número da fita e as músicas de cada uma.

Já não gastava dinheiro com mais nada, cada cruzeiro ia para uma caixa psicodélica e depois transformado em franco francês. E foi por isso que não comprei aquele disco que vi na vitrine das Lojas Gomes na Avenida Afonso Pena, ao lado dos Correios.

Observei bem a capa, o rosto do compositor num desenho em traços de cor vinho, mas o disco ficou ali dependurado entre A dança da solidão, de Paulinho da Viola, Exile on Main Street, dos Rolling Stones, Expresso 2222, de Gilberto Gil e Hoje é o último dia dos resto da minha vida, de Rita Lee.

O Edifício Andraus ardeu em chamas, Richard Nixon encontrou-se com Chu En-lai, a televisão ficou colorida, Jesus Cristo virou Superstar, Jacqueline Kennedy foi fotografada nua, Torquato Neto abriu o gás e Minas Gerais respirou aliviada com a prisão de Orlando Sabino, o Louco do Triângulo.

O tempo passou, a festa acabou, o avião partiu. Longe daqui, aquele disco continuou na minha cabeça. Durante muitos e muitos anos não pude ouvi-lo, não tinha como. Ensaiei pedir para que algum filho de Deus me enviasse o vinil pelo correio, em vão. Ninguém achava mais o disco em nenhuma loja de Belo Horizonte.

Me contentava em ouvir minhas fitas nos dias de dança da solidão e saudade do Brasil. Elas já estavam muito gastas e deslizavam no pequeno gravador com capa de couro que levei daqui. Ouvi mil vezes Gal cantando índia teus cabelos nos ombros caídos, ouvi mil vezes Ednardo cantado amanhã se der o carneiro vou-me embora pro Rio de janeiro e Caetano cantando vem comigo no trem da Leste peste, vem no trem pra Boranhém.

Muitos anos depois, de volta ao Brasil, andando pelo centro de São Paulo, bati os olhos naquele disco na vitrine do Sebo do Messias. Paguei caro por ele, já com a capa bem estropiada e cheio de chiados. Foi no décimo-sexto andar do nosso apartamento em Higienópolis que ouvi pela primeira vez, o compositor baiano cantando: Oh senhor cidadão/Eu quero saber/Com quantos quilos de medo se faz uma tradição.

Aquele velho disco não tinha encarte nem mesmo plástico protegendo o vinil. Eu ouvia uma música e voltava a agulha para ouvi-la novamente: Menina, a felicidade/É feita de ano/É feita de Eno/É feita de hino/É feita de ONU.

A faixa de número 9 era a mais animada mas também a mais arranhada, a mais judiada e eu insistia em ouvir vezes seguida: Minha terra é boa/Plantando dá/O famoso abacaxi de Irara.

O disco sobreviveu ao casamento desfeito, a tempos instáveis sujeitos a chuvas e trovoadas, mudanças de casas e de rumo, até desaparecer na poeira da estrada, talvez de volta ao Sebo do Messias, não me lembro mais.

 Recuperando meus escritos para uma pesquisa que estou fazendo sob encomenda, deparei com o sofrimento de querer ouvir esse disco que vi pela primeira vez na vitrine das Lojas Gomes. Um sofrimento que ia e vinha em plena Paris do Beaujolais Nouveau, do croissant, do croque monsieur, do chausson aux pomme, de Jacques Higelin, Brel, Piaf, Rita Mitsouko, Serge Gainsbourg e Jane Birkin. E de uma banda de rock chamada Les Odeurs.

Na semana passada, uma pequena nota na coluna do Ancelmo me fez reviver toda essa história. Ela dizia que quarenta e seis anos depois, o disco Se o caso é chorar, de Tom Zé, será reeditado em vinil, com tudo que tem direito. A capa original, o desenho do compositor baiano em tons de vinho, o encarte, o plástico protegendo o vinil e as doze canções.

Agora sim, vou poder ouvir pela primeira vez e sem chiados aquela velha canção: Se o caso é chorar/Te faço chorar/Se o caso é sofrer/Eu posso morrer de amor/Vestir toda a minha dor/No seu traje mais azul/Testando aos meus olhos/O dilema de rir ou chorar.

Agora sim, vou poder ouvir pela primeira vez e sem chiados, o sonho colorido de um pintor: Sonhei que pintei/Minhas noites de amarelo/Lindas estrelas no meu céu eu coloquei/O feio que era feio ficou belo/Até o vento do meu mundo eu perfumei/Numa apoteose de poesia/Um conjunto de harmonia/Uma lua roxa pra iluminar/As águas cor de rosa do meu mar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
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1968

00

Na semana passada, eu postei o seguinte no Facebook:

 

Percebo que estou ficando

velho quando vejo que todas as

coisas que estão fazendo 50 anos,

eu me lembro quando aconteceram

 

Imediatamente começaram a chover curtidas, coraçõezinhos e, principalmente comentários. Solidários, os sessentões se arvoraram em dizer que todo mundo um dia chega lá, que tudo que aconteceu há décadas parece que foi ontem, que isso não é velhice, é sabedoria e amadurecimento.

Fiz o comentário no Face quando bati os olhos na legenda de uma foto que lembrava os cinquenta anos daquele prisioneiro sendo executado por um general vietnamita numa rua de Saigon.

Acontece que tudo que aconteceu há cinquenta anos, foi exatamente naquele ano que ainda não terminou. E foram muitas coisas.

Eu me lembro perfeitamente da guerra do Vietnã, que acompanhava diariamente nas páginas do Jornal do Brasil.

Do dia em que o cosmonauta Yuri Gagarin, o primeiro homem a ir pro espaço, morreu aos 34 anos de idade num acidente de ultraleve.

Quando o estudante Edson Luís caiu morto na fila do Restaurante Calabouço, no Rio, com um tiro no peito disparado pelas forças da ditadura militar.

Lembro-me perfeitamente da estreia do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço, daqueles macacos jogando ossos pra cima, que assisti no Cine Pathé, em Belo Horizonte.

Do assassinato do líder negro Martin Luther King, aquele que tinha um sonho.

Da morte de Jim Clark, o campeão da Fórmula 1, que eu guardava um pôster da revista Autoesporte na porta do meu armário.

Dos metalúrgicos que pararam durante 10 dias em Contagem, exigindo aumento salarial e desafiando os militares de plantão.

Do dia em que comprei nas Lojas Gomes um disco de vinil chamado Tropicália e ouvi pela primeira vez Os Mutantes cantando “Panis et Circenses”.

Da revista Manchete dependurada numa banca da Savassi mostrando a imagem do primeiro transplante de coração no Brasil, realizado pelo Doutor Euryclides de Jesus Zerbini.

Da voz aflita do meu pai ligando dos Estados Unidos no momento em que Bob Kennedylevou dois tiros no Hotel Ambassador, em Los Angeles.

Das páginas da Fatos e Fotos mostrando a polícia batendo nos estudantes que protestavam conta a repressão nas ruas do Rio de Janeiro.

De Martha Vasconcellos, tarde da noite, sendo coroada Miss Universo.

Do tititi em torno do Comando de Caça aos Comunistas que espancou o elenco da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, em São Paulo.

Dos tanques da União Soviética invadindo a Tchecoslováquia, pondo fim na Primavera de Praga.

Do Repórter Esso anunciando que o compositor de Coração Materno havia morrido.

De Seu Benito, o dono da banca, me entregando o primeiro número da revista Veja com a foice e o martelo na capa.

Da polícia invadindo um sitio em Ibiúna, no interior de São Paulo, e prendendo todos os participantes do Congresso da UNE.

Lembro-me perfeitamente do dia em que corri até a Enciclopédia Barsa para saber sobre a vida de Marcel Duchamp, depois de ler uma matéria no Estado de Minas sobre sua morte.

Do golpe militar que colocou o general Velasco Alvarado na presidência do Peru.

Do poema Porquinho-da-Índia que reli no meu quarto, assim que soube da morte de Manuel Bandeira.

Da radiofoto na primeira página do Globo no dia em que a Apollo 8 foi pro espaço.

Lembro-me do dia em que gastei todo o meu salário que ganhava no Ministério da Agricultura comprando os discos Beggars Banquet, dos Rolling Stones, e o álbum branco dos Beatles.

Quando soube à boca pequena que Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam sido presos na boate Sucata, no Rio de Janeiro.

Lembro do dia em que o ditador Arthur da Costa e Silva fechou o Congresso, apertando ainda mais a ditadura.

Lembro do meu pai pedindo silêncio na sala de jantar para ouvir no seu radio GE, a leitura do Ato Institucional número 5.

A única coisa que eu não me lembro que aconteceu naquele ano de 1968 foi a inauguração da zona de livre comércio em Lomé, capital do Togo, que está fazendo 50 anos.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NOSSAS TIAS

Volta e meia, vira e mexe, o pauteiro de televisão, num dia sem assunto e precisando de uma matéria de comportamento, pensa numa daquelas reportagens sobre nomes bizarros, diferentes, pra lá de esquisitos. A melhor história que já vi, lembro-me bem, foi aquela do repórter Mauricio Kubrusly que coloquei no ar no Fantástico, quando ainda era chamado de show da vida.

Kubrusly pegou o primeiro avião com destino a Minas Gerais e foi lá que encontrou uma mulher com o nome de Elis Chamela de Maria. O pai, um caipira tipo Pirapora, chegou ao cartório de uma cidadezinha do interior para registrar a pimpolha recém-chegada ao mundo quando a mulher pegou um livrão de capa preta, dura, e perguntou:

– Como vai ser o nome da sua filha?

O caipira olhou pro teto, coçou a barbicha, arrumou o chapéu e disse:

– Elischamela de Maria…

E o registro foi feito, assinado, selado e carimbado. Só quando chegou em casa e a família foi ler o que estava escrito na certidão de nascimento é que descobriram que tinham em casa um bebê com um nome pra lá de esquisito: Elis Chamela de Maria.

A mulher do cartório, registrando uma criança atrás a outra, não percebeu que aquele caipira tinha dito, na verdade, eles chamam ela de Maria.

Mas hoje, não estou aqui para contar histórias de nomes bizarros. Estou aqui pra dizer que os nomes das nossas tias estão desaparecendo do mapa.

Será que alguém ainda tem alguma tia que se chama Tia Sinhá, Tia Nenê, Tia Zinhoca ou Tia Lelê?

Eu tinha muitas tias e todas elas carregam nomes assim. Nunca soube como era o verdadeiro nome de cada uma, aquele que estava no registro. Como se chamava Tia Ninita, Tia Dadá, Tia Laurita e Tia Zulu?

Na família da minha mãe, do meu vô Neco e da minha vó Zizinha, eram quatro filhas: Lali, Lili, Lilita e Liria. E diziam as más línguas que havia uma Lila, fruto de uma pulada de muro do velho.

Nomes assim estavam presentes em todas as famílias. Alguns, a gente até desconfiava qual era o verdadeiro nome. Tia Dasdô, por exemplo, devia ser Maria das Dores, Tia Gracinha era Maria das Graças e Tia Fatinha era Maria de Fátima. Mas se chamássemos cada uma com o seu nome próprio, ficava meio ridículo. Se alguém dissesse Tia Maria das Graças, por exemplo, ninguém sabia quem era.

Tive tias que morreram sem eu saber o nome. É o caso de Lenita, Maricas, Bibita e Zica.

Hoje, quando ouço alguém falando Tia Valéria, Tia Vera, Tia Paula, Tia Cristina, fico pensando com os meus botões: Mas que tias mais comuns, meu Deus! Morro de saudade de Tia Nicinha, Tia Dorinha, Tia Lurdinha e Tia Izildinha.

Nomes entram e saem de moda. Sofia, Joana e Alice, por exemplo, eram nomes de gente velha. Agora virou moda. Basta passar os olhos na lista dos aprovados no Sisu. Tem uma página inteira de jornal só de Mateus, de Vinicius, de André e de Gustavo. Tem uma página inteira só de Isadora, de Elisa, de Beatriz e de Camila.

Fico imaginando que, dentro de dez anos, vai ser uma enxurrada de João, de Joaquim, de Alice e de Valentina. Mas uma coisa é certa: Tem nome que não volta nunca mais. Geraldo, Djalma, Altair e Osvaldo, por exemplo. Desconfio  que esses nomes nunca mais surgirão na face da Terra, nem mesmo lá no interior de Minas Gerais, terra de Elis Chamela de Maria. Será que, nesse mundo, ainda vai nascer uma Marlene, uma Zilda, uma Sonia ou uma Elvira?

Mas voltando às nossas querida tias, eu sempre achei que isso era coisa desse nosso Brasil, ainda com um pé de moleque no caipira. Mas não é não. Quem não se lembra que o beatle John Lennon, lá em Liverpool, na terra da rainha, foi criado por Mary Elizabeth Smith, irmã de sua mãe, a famosa Tia Mimi?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MUSEU DE TUDO

Tenho a mania de guardar pequenas coisas desde pequeno. Minha mãe nunca implicou comigo e acho que por isso eu ia guardando. Guardava tampinhas de Crush, de Mirinda, de Guarapan, de Guaraná Gato Preto e de Mate-Couro. Guardava caixinhas de fósforo da Panair, da Bardahl, do Copacabana Palace, da Pepsi-Cola e da Copa de 58. Guardava chaveiros da Mesbla, da Bemoreira, do Mappin, da Sloper e um escrito Dead End que o Beto Rockfeller usava na novela.

Colecionava selos que chegavam da União Soviética, da Tchecoslováquia, da Guiana Holandesa e da Alemanha Oriental, países que nem estão mais no mapa. Colecionava soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy, marcadores de livros, carrinhos miniatura da Matchbox e moedas que o meu avô me dava nos fins de semana.

Quando morei em Brasília, na inauguração, a onda era colecionar adesivos de plástico. Muitos eram roubados e guardados numa caixa de sapato, os mais variados adesivos de plástico. Hoje, só sobrou um, o elefantinho do Jornal do Brasil, presente da Dayse. Era lá na sucursal que o seu pai trabalhava.

Eu gostava muito também dos brinquedos de lata, aqueles que fazem todo tipo de estripulias quando pegamos a chave e damos corda. O meu sonho de consumo era um disco voador, que até hoje fica aqui no meu escritório me espiando o dia inteiro.

Cresci e nunca perdi essa mania, uma mania de guardar coisinhas. Mas o que impressiona quem vem aqui me visitar é a organização. Não sei se isso é coisa de leonino, de mineiro ou de maníaco mesmo.

Passo o dia aqui nesse meu canto olhando as coisas que guardo há muitas décadas. De uns tempos pra cá dei pra guardar pedrinhas. Em cada cidade que vou trago uma, escolhida a dedo. Já tenho pedrinhas de Kyoto, de Itabira, de Atenas, de Cataguases, de Barcelona, de Belém do Pará, de Istambul, de Cunha, de Bogotá, de Belo Horizonte e tem uma que trouxe de Tóquio, achada num canteiro da avenida principal, que parece preciosa.

Guardo lápis também. Tem de tudo quanto é lugar, de tudo quanto é museu. Lápis quadrado, grande, pequeno, transparente, tem um que é a minha moeda número um. Ele é metade azul, metade vermelho, igualzinho ao lápis da Dona Maria Augusta Toscano, minha primeira professora. A resposta certa ela fazia um C em azul e quando estava errado, virava o lápis e fazia um X em vermelho.

Guardo muitas coisas avulsas que lembram a minha infância. Uma gotinha da Esso de porcelana, um elefantinho da Shell de plástico, um cachorrinho da RCA, a voz do dono, e muitos robôs de lata que andam quando a gente dá corda.

Tenho também centenas de cartões postais, mas não são cartões postais de paisagens não. São reproduções de obras de arte que vão de Botero a Van Gogh, passando por Renoir, Matisse, Monet, Gauguin, Coubert, Pissaro, Seurat, chegando a Basquiat, a Lucien Freud, Bacon e Mark Rothko. Sem contar os de Robert Crumb e o seu Mr. Natural.

O meu mundo é esse. Uma galinha de louça, um urso panda de feltro, um pato de porcelana, um cavalinho de pau, um pássaro de papel machê, um Gandhi de barro, um Buda de vidro, um Pinóquio de madeira, um cogumelo de papel celofane, cadeirinhas de plástico, um boton de Fora Temer, uma caixinha de chicletes do Líbano, coisas assim.

São muitas coisas e não posso me esquecer de algumas peças queridas. Uma garrafa de Ricard dos anos 1960, uma caixa de fósforo com a estampa de São Jorge, um ônibus de lata do Magical Mystery Tour, uma velhinha alemã de andador, uma garrafa marrom de Fanta alemã, um oratório feito pelo meu sogro com a imagem de Tim Maia, um elefante enferrujado da Fundação Saramago, é tanta coisa que me perco aqui.

Isso sem contar os livros e discos. O primeiro livro que li – Voo noturno, de Saint Exupéry – e o primeiro disco que comprei com o meu salário – Domingo, do Caetano e da Gal – estão aqui intactos. Só consigo trabalhar cercado das minhas coisas. Tem o livrinho vermelho do Mao em chinês, um exemplar de La Divina Commedia, de Dante Alighieri em italiano, as tragédias de Shakespeare em inglês, coisas antigas, bem mais antigas que eu.

Tenho um livro do João Cabral de Melo Neto que resume bem isso aqui. Chama-se Museu de Tudo  e, na página 269, tem um poema que diz assim: Esse museu de tudo é museu/Como qualquer outro reunido/Como museu, tanto pode ser/Caixão de lixo ou arquivo/Assim não chega ao vertebrado/Que deve entranhar qualquer livro/É depósito do que ai está/Se fez sem risca ou risco.

Esse meu museu de tudo, muitas vezes, me distrai tanto que, ao invés de escrever a crônica da semana pra CartaCapital, fico aqui só sonhando, só espiando, só viajando.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU AMIGO CHE

Havia um clima de medo no céu daquele belo horizonte. Nuvens de chumbo cobriam a cidade, até mesmo quando a meteorologia anunciava tempo bom, temperatura em elevação.

Num desses dias, logo cedo, fui na Livraria do Amadeu em busca de um livro que Aretuza me indicara. Éramos cúmplices na luta e tínhamos medo, juntos.

Líamos Eram os Deuses Astronautas e sonhávamos pegar o primeiro foguete com destino à felicidade. Cabo Kennedy ainda era chamado de Canaveral.

Distribuíamos, no recreio, escondido dos professores, um pequeno calendário do ano novo, na certeza de que aquele mil novecentos e sessenta e oito era iria terminar.

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Ainda não havia para nós o Festival de Woodstock, sequer o da Ilha de Wight, mas os Mamas & Papas anunciavam um verão cheio de amor na Califórnia.

O estudante Edson Luís de Lima Souto estava morto na porta do Restaurante Calabouço, caído de susto e de bala. O sangue no chão era vermelho forte, quase bonina.

Os nossos cabelos haviam crescido e florescido caracóis que despertavam em nós um soluço, talvez uma vontade de ficar um pouco mais.

Peguei alguns cruzeiros do meu trabalho na Brasanitas para comprar aquele livro que Aretuza falou. O vendedor embrulhou num pedaço de papel, porque saco plástico ainda não havia. E eu fui-me embora.

Minha casa era uma casa grande onde a gente jantava com os nossos pais, uma mesa farta, feijão, verdura, ternura e paz. Minha mãe acendia uma vela toda noite e pedia: Ó Deus nos salve essa casa santa!

No meu quarto havia uma escrivaninha de madeira de lei onde, nas gavetas, guardava meus diários, meus calendários da UNE, régua, compasso e a minha coleção da revista Fairplay.

Foi ali, numa delas, a segunda à direita, que guardei o livro que trouxe da Livraria do Amadeu, cheirando a novo, uma capa marrom e preta, com o título escrito em vermelho.

O homem ainda sonhava e ir à lua e eu acompanhava nos fascículos da revista Veja, cada capítulo da epopeia no espaço, a conquista definitiva.

O sonho não tinha acabado, mas John Lennon não acreditava mais em Jesus,  Buda,  IChing, Tarô, Hitler, Elvis, em Zimmerman, acreditava apenas nele. John e Yoko.

Com o meu inglês ruim e um dicionário no colo, eu amava a Rolling Stone tentando decifrar as letras do rock and roll, digerir a macrobiótica e entender o significado do Yin Yang.

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Gostava das páginas cor de rosa do Jornal dos Sports, me emocionava com o rosto de Fidel na capa da Realidade e com as manchetes criativas do Sol nas bancas de revista.

Rompíamos com aquelas camisas caretas da Casa José Silva que o meu pai comprava, trocando-as por camisetas coloridas, manchadas de água sanitária.

Mas o medo nos perseguia pelos corredores enormes do Colégio Arnaldo, onde o jogral entoava José porque, afinal de contas, Drummond estudara ali e a festa parecia ter acabado.

A bandeirinha da UNE, feita de pano branco e tinta azul, eu e Aretuza nunca conseguimos uma. Ela bem que tentou conseguir uma pra mim mas nunca conseguiu.

O álbum branco dos Beatles nos contaminava, ouvíamos do início ao fim várias vezes e a canção que mais gostávamos era a mais estranha do long-play: Revolution 9!

Tínhamos um pé ali e outro ainda na infância, com gosto de Cremogema, chuviscos na televisão em preto e branco e Guaraná Champagne Antártica na mesa aos domingos.

Aquele talvez foi o quinto livro que comprei. Já tinha lido Voo Noturno, de Saint Exupéry, O Velho e o Mar, de Hemingway, Agonia e Êxtase, de Irving Stone, além dos Deuses Astronautas.

Comecei a leitura tarde da noite, debaixo do cobertor, escondendo o livro com uma capa falsa das Mais Belas Histórias caso fosse pego em flagrante.

Quando terminei, dei um jeito de escondê-lo bem escondido na gaveta da escrivaninha, entre os números da Fairplay. Ele ficou ali entre Tania Sherer e Cely Ribeiro.

O livro chamava-se Meu Amigo Che, escrito por Ricardo Rojo e, dias depois, proibido pela censura.

 

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TAXISTA E O JORNALISTA

  

Sou do tempo em que motorista de táxi era chamado de chauffeur. Ele usava terno e gravata, sapatos polidos e um quepe da cabeça. Os táxis eram chamados de carros de praça e estavam sempre brilhando, cheirosos, à espera dos distintos clientes.

chauffeur costumava ficar com o automóvel estacionado no ponto mas, quando o movimento estava fraco, dava uma volta pela cidade em busca de passageiros. Passageiros que faziam o sinal com a mão para que eles parassem e, quando paravam, perguntavam:

– Está livre?

Sou do tempo em que jornalista chegava na redação, passava na sala de telex pra saber as últimas notícias, sentava na sua mesa e começava a batucar na Remington, na Olivetti ou na Royal.

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A redação era um fumacê barulhento e inquieto. As notícias chegavam pelas mãos dos contínuos, que iam distribuindo aquelas páginas recortadas do telex que sujavam as mãos.

Quando uma notícia urgente chegava ao redator, ele geralmente anunciava a última aos berros. Como, por exemplo:

– Bob Marley morreu!

Era uma correria, até mesmo aquele jornalista da editoria de economia vinha pra ver de perto o despacho que acabara de chegar. Um outro contínuo era requisitado para ir ao arquivo e tirar xerox de todo o material que havia sobre o rei de reggae, além de buscar nas pastas, a melhor radiofoto para ilustrar a página do jornal do dia seguinte.

Sou do tempo em que havia um garçom no andar da redação. Ele passava o dia vestido de garçom, com uma calça preta, paletó branco e gravata borboleta. Umas duas vezes por dia, passava com o seu carrinho de mesa em mesa oferecendo cafezinho quente em xícaras de porcelana aos jornalistas nervosos com seus cigarros no canto da boca, muitas vezes com o pincel do branquinho nas mãos, consertando os erros na lauda.

Sou do tempo em que jornalista usava carbono e escrevia suas matérias em laudas de papel, uma original e duas cópias. Uma ia para o editor, uma ele guardava e a outra ia para o diagramador que, com régua e compasso, já ia adiantando o desenho da página.

O taxista era e sempre foi taxista. Não tinha essa história de taxista que foi advogado, que trabalhava no RH do Bradesco, foi contador ou chefe do almoxarifado na Editora Melhoramentos e hoje é taxista. Era uma profissão de pai pra filho.

A vida do jornalista que trabalhava em jornal era meio dura e, muitas vezes, ele precisava de um segundo emprego pra poder dar conta de pagar as contas.

Foi assim para o jornalista durante muitos e muitos anos até que um dia apareceu o computador na redação, silenciando o ambiente, colocando a régua e o compasso do diagramador pra escanteio e o contínuo, sabe Deus pra onde foi.

O garçom foi substituído por uma máquina de café no corredor e aquelas máquinas pesadonas de telex foram para o museu ou para o ferro-velho.

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Foi assim para o taxista durante muitos e muitos anos até que apareceu o aplicativo, o Uber, o Cabify. E não é só aqui, é a mesma coisa no Zâmbia, no Zaire, no Zimbábue, em Cabul ou em Istambul.

Hoje circulo por ai e vejo muito jornalista meio perdido, bastante saudoso, aquele que gostava do cafezinho na xícara de porcelana, do tok tok tok da Olivetti e de ir na gráfica pra sentir o cheiro de tinta na sua reportagem.

Aqui na porta da minha casa ainda tem um ponto de táxi com meia dúzia de velhinhos que já se arvoraram em me dizer que estão conectados com o novo estilo de vida. Nada de passar o dia estacionado esperando cliente. De minuto em minuto eles atendem o celular pra ir buscar clientes.

Os novos taxistas não têm mais sossego nem pra ler o Notícias Populares porque, pensando bem, o Noticias Populares nem existe mais. Hoje, o máximo que conseguem é folhear o Metro, aquele jornalzinho distribuído nos sinais de trânsito. O mesmo que acontece com os jornalistas.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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COMO FUNCIONA?

Meus amigos Claudia e Marcello tiveram uma ideia superbacana, decorar a árvore de Natal da casa deles com fotos Polaroiddos amigos. Semana passada, nós, amigos do peito, fomos convocados para uma feijoada completa em sua casa, seguida de uma seção de clicks.

A feijoada estava divina, o caju amigo geladinho, a sobremesa de comer de joelhos, o café no ponto e o papo maravilhoso. Mas a árvore ainda estava muito verde, sem as tais fotografias. Estava enfeitada com apenas umas cinco chapas, contando com a da cadelinha Madalena.

 

No final da tarde, chegou o momento das fotos. Claudia pegou a Polaroid último tipo, recém chegada dos States, e veio toda serelepe para fazer as fotos, uma a uma. De repente, olhou para aquela engenhoca, olhou pra cá, olhou pra lá e soltou um help:

– Isabela! Como funciona isso aqui?

Isabela, uma simpatia em pessoa, nem vinte anos, veio lá de dentro e, num toque mágico, simplesmente apertou o botão e pronto. Em menos de dez segundos, as chapas foram saindo lá de dentro da câmera, uma a uma, todas lindas.

Senti-me aliviado quando ouvi aquele Isabela, como funciona isso aqui? Sempre desconfiei que era só eu que não me dava bem com essas mil e uma novas invenções da tecnologia. A Polaroid, apesar de ser uma invenção dos anos 1940, pra mim ainda é uma novidade.

Hoje, aqui em casa tem apenas um marido e uma mulher. Vivemos perguntando como estamos sobrevivendo sem as meninas pra colocar essa parafernália toda pra funcionar.

Lembrei outro dia quando minha neta tinha ainda dois, três anos, e me viu atrapalhado com um controle-remoto na mão tentando ligar a TV. Ela olhou meio assustada pra mim e disse, com uma vozinha doce:

– Vovô, é só apertar o play!

E era. Ela foi lá com o seu dedinho, apertou o botão de play e a televisão se iluminou.

Vivemos muitos anos preguiçosos e dependentes das meninas.

– Má, vem ver o que aconteceu com o meu computador!

– Li, porque será que a impressora parou?

– Má, como faz pra melhorar essa foto?

– Li, porque a TV está sem sinal?

– Má, dá uma olhada aqui nesse micro-ondas que está todo apagado.

– Li, chama o Uber pra mim?

– Má, faz essa transferência?

– Li, você instala o Word pra gente?

Confesso que, sem elas, já aprendi a ligar a máquina de lavar roupa, a secadora, já aprendi a gravar um programa na TV, fazer o GloboPlay funcionar, melhorar as fotos, fazer a impressora imprimir e chamar o Cabify.

Somos da geração que nasceu em um mundo e está vivendo em outro. Temos medo das máquinas e o medo maior é apertar o botão errado e ele apagar o livro que estou escrevendo, apagar as luzes da casa pra sempre ou tirar a internet do ar.

Somos da geração que, nem morto, enfiamos uma nota de cem euros numa daquelas máquinas enfileiradas na estação Châtelet do metro, em Paris. Vai que ela engole o dinheiro e chama o próximo cliente…

Somos da geração incapaz de montar um simples criado-mudo da Tok Stok, quanto mais uma cama de casal ou umas prateleiras para dependurar vasos.

Agora, chegamos em casa, ligamos uma nova engenhoca na tomada e não acontece nada. Ai ligamos pra uma das filhas e ela pergunta calmamente…

– Mas vocês já configuraram?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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VOU ASSIM MESMO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ando, como nunca, um bisbilhoteiro em silêncio. Como ando muito de metrô, de ônibus, de Cabify e à pé, fico de olho em tudo. Gosto de ver, de ouvir, de conversar e, às vezes, fotografar. Seja a deselegância discreta das nossas meninas de Sampa, seja a burca das senhoras de Istambul ou a elegância oriental das meninas de Tóquio.

No dia da Black Friday, por exemplo, descendo a imensa escada rolante da estação Vila Madalena do metrô, espiei a tela do smartphone de uma moça e vi que ela estava respondendo uma mensagem assim: “Número 36 é aquele que comprei e ficou apertado”.

Sentado no coletivo, observo a roupa que cada um está usando e fico imaginando como escolheu aquele modelito pra sair de casa.

Tem de tudo. Gente bem vestida, gente de qualquer jeito, bom gosto, mau gosto, roupa limpa, roupa suja. Bota, sapatênis, mocassim e bico fino.

Toda vez que penso nisso, lembro-me do poeta Paulo Leminski, com quem trabalhei no final dos anos 1980. Leminski era o que chamamos de figuraça. Fazíamos o Jornal de Vanguarda juntos na TV Bandeirantes, numa redação que era um verdadeiro muquifo em pleno Morumbi, pura elegância.

Lema, como chamávamos, ia trabalhar de qualquer jeito. Uma calça Lee surrada, sem cinto, caindo, camiseta branca encardida e muitas vezes aparecia na redação de chinelo Franciscano.

Um dia, foi surpreendido no corredor da Band pelo comentarista de economia Celso Ming.

– Paulo Leminski, você percebeu que está usando uma meia de cada cor?

Lema levantou ligeiramente sua calça Lee e constatou que Ming – que ele chamava de Dinastia Ming – estava certo. Não pensou duas vezes e respondeu na lata.

– Dinastia Ming, eu estou me lixando! Acordo, me visto no escuro e só vejo como estou quando chego na rua.

Estou lembrando dessas histórias aqui, algumas até já sabidas, porque, na verdade, o que mais tenho observado ultimamente é o trajar das pessoas no sábado de manhã, bem cedinho, quando vou ao Pão de Açúcar comprar leite fresco e depois passo na Merci pra comprar pão de laranja, um dos melhores da cidade.

Ali estão pessoas usando uma moda que eu chamo de “vou assim mesmo”. Sabe aquela preguiça que bate quando você acorda sem pão, sem leite e tem de ir comprar?

Você se olha no espelho e vê que está, como se diz lá em Minas, um trem: Sandálias Havaianas desbotadas, bermuda velha e uma camiseta do Rock in Rio 88 escrito Eu fui!

Ai você lembra que é sábado de manhã, não tem ninguém na rua, não vai encontrar nenhum conhecido e fala baixinho com os seus botões:

– Vou assim mesmo!

E vai. Chega lá e encontra pessoas na mesma situação. Mulheres usando uma legging preta quase cinza, de chinelo, cabelo sujo disfarçado num rabo de cavalo e homens com camisetas estropiadas, bermudas manchadas de cândida enfim, gente de qualquer jeito.

Outro dia, num desses sábados, minha mulher chamou a minha atenção para uma figura que escolhia entre o Pilão e o Três Corações. Ela estava com um casaco marrom e de baby-doll por baixo. Como faltava um botão no casaco, dava pra ver que ela estava com um baby-doll cor de rosa por baixo, bem do tipo vou assim mesmo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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HOJE NÃO TEM MARMELADA

Quando a gente acordava e via aqueles cartazes enormes colados nos muros, era sinal de que o circo estava chegando à cidade. Coloridos, com letras garrafais e trabalhadas, anunciavam. O circo vem aí!

A concretização daquele sonho de menino vinha quando as primeiras carretas começavam a descer a BR-3 rumo a um terreno baldio, não muito longe dali do bairro do Carmo.

Sentávamos no capim meloso à beira da estrada e ficávamos ali vendo aquele desfile que durava um bom tempo. Eram caminhões e carretas pintadas de vermelho, amarelo e azul, carregadas de sonhos e ilusões.

Quando ficávamos sabendo onde o circo seria montado, corríamos pra lá para acompanhar o passo a passo. Era uma semana inteira de trabalho, da estaca principal para montar a lona até a chegada dos animais.

Eles chegavam quando tudo já estava praticamente pronto, inclusive a serragem espalhada no chão, encobrindo aquela terra vermelha batida dos lotes vazios onde jogávamos finca.

Quando os bichos apontavam, era um espetáculo à parte. Eles vinham em carretas especiais, gradeadas e estavam sempre andando de um lado para o outro dentro daquelas jaulas, ligeiramente aflitos. Leões, tigres, ursos, macacos e quando o circo era grande, vinham também elefantes, cavalos e camelos.

Até o dia da estreia, gostávamos de passar as tardes ali, muitas vezes indo direto do Colégio Marista sem nem mesmo almoçar, só pra ver o movimento, os funcionários acertando os últimos detalhes. Encaixando as arquibancadas, dependurando bandeirinhas, molhando a serragem pra baixar a poeira, montando a bilheteria, escovando os bichos.

Ficávamos impressionados com a quantidade de carne que jogavam para as feras. Eles estraçalhavam em segundos aquelas peças de carne de terceira, com uma fome de leão.

O tratador vinha com uma caixa de bananas maduras e ia jogando uma a uma pros macacos, que descascavam e comiam, como se fossem gente.

Os camelos ruminavam sem parar um capim seco, enquanto os ursos comiam um peixe que exalava um cheiro forte e ruim.

O dia da estreia era de pura excitação. Para garantir um bom lugar na arquibancada, íamos para o circo muito antes mesmo de abrir a bilheteria. Era bonito quando entrávamos e víamos o sol que filtrava e passava por aquela lona com listras azuis e brancas. Lá estava o picadeiro arrumadinho e o trapézio balançando vagarosamente a espera dos artistas.

Quando o palhaço entrava saltitante perguntando pra meninada se hoje tinha marmelada, era sinal de que o espetáculo estava começando. Passávamos mais de uma hora ali sentados comendo pipocas, chupando drops Dulcora, fumando cigarrinhos de chocolate da Pan e bebendo Crush.

Não tirávamos os olhos de nada, observávamos cada detalhe, cada cantinho. Os leões pulando o arco de fogo, os cavalos dançarinos, os ursos equilibristas e os macacos andando de bicicleta.

As trapezistas entravam com minúsculos shortinhos de seda azul piscina, quase voando bem em cima das nossas cabeças.

Os palhaços faziam a gente rir com aqueles tapas falsos e quedas livres. Tinha um, anão, que nunca me esqueci. Era o Meio Quilo.

Nunca perdíamos o último dia de espetáculo, quando baixava uma tristeza em todos nós. Na manhã seguinte, voltamos àquele terreno para ver os funcionários desarmarem tudo e seguir viagem. A gente sonhava em ir embora com eles, viver essa vida meio de cigano andando por aí, mas nunca tivemos coragem.

Era um tempo em que vivíamos sem smartphone, sem microondas, sem Netflix, sem senhas, sem caixa 24 horas, sem Waze, sem as cores da televisão, sem cartão de crédito.

Era um tempo em que tínhamos a Varig, a Mesbla, a Revista do Rádio, o Simca Chambord, o Rintintin, o Joãozinho da piada, a enceradeira, a calça Far-West, a Família Trapo e o Circo Orlando Orfei.

[Crônica da semana publicadas no site da revista Carta Capital]

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PROFISSÃO REPÓRTER

A primeira vez que pus os pés numa redação de jornal, senti um frio na barriga, um tremor nas pernas. Entrei pela porta principal do Estado de Minas, subi as escadas e fui direto na mesa do pauteiro, que já me esperava com uma lauda na mão.

Tinha eu 21 anos de idade, Glostora no cabelo e alguns meses de faculdade. Carregava dentro de mim aquela declaração de Gabriel García Márquez a um jornal colombiano, no auge do sucesso dos Cem anos de solidão: “O Jornalismo é a melhor profissão do mundo”.

A minha pauta era passar o dia no Edificio JK, uma espécie de Copan à mineira, plantado na Praça Raul Soares. Queriam uma grande reportagem e lá fui eu. Bloquinho espiral e caneta Bic nas mãos, passei o dia observando e entrevistando pessoas no Edifício JK. O síndico, os visitantes, os vizinhos, os moradores, que iam de idosas a hippies, de travestis a executivos. O JK era uma fauna e um prato cheio – chavão da época – para uma reportagem de comportamento.

Só no dia seguinte, o segundo de trabalho, sentei na máquina de escrever e comecei a decifrar aquelas anotações feitas às pressas, quase ininteligíveis. Suei frio até colocar o ponto final. A reportagem, de página inteira, saiu na edição de domingo daquele jornal que era gordo e pesado nos fins de semana.

Quase não dormi no sábado, esperando o dia amanhecer e o entregador do Estado de Minas passar de bicicleta e jogar o jornal no alpendre da minha casa.

Quando ouvi o barulho, abri a porta, peguei o danado nas mãos e comecei a folheá-lo ali mesmo, meio desesperado, deixando de lado os classificados.

De repente, lá estava minha primeira reportagem assinada, a primeira, aquela que a gente nunca esquece. Bonita, bem diagramada, cheia de bossa. Pelo menos era assim que eu a via.

Logo cedo o telefone começou a tocar. Eram os amigos do meu pai, desorientados, perguntando se era ele quem tinha escrito a reportagem sobre o Edifício JK. O meu pai tinha o mesmo nome que eu mas era um meteorologista apaixonado pelas nuvens cumuliformes, pelo barógrafo, pelo higrógrafo, pelo heliógrafo e pelo pluviômetro, que media a quantidade de chuva que desabava sobre nós.

Acreditei mesmo no Gabo e segui em frente. Foram muitos e muitos anos de jornal e de televisão, exercendo a melhor profissão do mundo.

Nessas décadas todas, o jornalismo mudou muito. Trocamos as máquinas de escrever pelos computadores, a mocinha do arquivo pelo Google, trocamos a régua e o compasso da diagramação pelo design arrojado dos Macintoshs. Lá se foram as laudas, as radiofotos, o cafezinho em xícaras de porcelana e o contínuo que sabia direitinho quem estava ficando com quem.

Hoje, ninguém mais precisa esperar a segunda-feira para ver no jornal a radiofoto da bandeirada do Grand Prix da Inglaterra, toda cheia de riscos.

Os jornais em preto e branco ficaram coloridos e a televisão também ganhou cores e mais de cem canais. Foi-se embora o botão de horizontal, de vertical e o da luminosidade.

Um dia, um amigo meu disse que o jornalismo começou a morrer quando proibiram os feirantes de embrulhar o peixe em jornal. Fiz cara feia, na época.

O mundo hoje é outro. As noticias e as imagens entram pelo smartphone 24 horas por dia. Mas o bom e velho jornal de papel resiste bravamente. Se você passar hoje numa banca ele vai estar lá, escondidinho no meio de refrigerantes, brinquedos, chips, chocolates e chicletes. A única diferença é que agora são vendidos por quilo, embrulhados em pacotes de plástico e o aviso que é pra cachorro.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

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“COISA DE PRETO”

Toda vez que Gilberto Passos Gil Moreira, ainda com um pé na administração de empresas, aparecia na tela daquela televisão valvulada e sem cor, no canto da sala de uma casa em Santo Amaro da Purificação, Dona Canô, uma baiana cem por cento, enxugava as mãos no avental e chamava:

– Caetano, vem correndo ver aquele preto que você gosta!

O jovem Caetano, ainda caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, parava encantado diante da tela e ficava admirando aquele preto de rosto redondo dedilhando o violão, cantando suas primeiras canções, ainda meio bossa nova: Serenata de Teleco-TecoMaria Tristeza, Vontade de Amar e Meu luar, minhas canções.

Era agosto de 1964, o golpe militar ainda estava fresco e o marechal Castelo Branco aquecendo a cadeira de ditador, quando Caetano conheceu o preto da televisão que ele gostava tanto.

Com a irmã Maria Bethânia, Tom Zé, Alcyvando Luz, Antônio Renato, Djalma Corrêa e Fernando Lona, todos doces bárbaros, montou um espetáculo para inaugurar o Teatro Vila Velha, em Salvador: Nós, por exemplo.

Gilberto Passos Gil Moreira virou simplesmente Gilberto Gil e nunca deixou de ser aquele preto que aparecia na televisão e encantava Caetano e a todos nós.

Foi ele que um dia cantou para o Brasil uma canção chamada Sarará Miolo:

Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo

Foi aquele mesmo preto que um dia, ao lado de Chico Buarque, cantou as mãos da limpeza:

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída
Imagina só
Vai sujar na saída
Imagina só
Que mentira danada
Na verdade a mão escrava/Passava a vida limpando
O que o branco sujava
Imagina só
O que o branco sujava
Imagina só
O que o negro penava/Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza
Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza

Foi aquele preto que, com sua guitarra em punho, definiu a raça humana:

A raça humana é uma semana do trabalho de Deus
A raça humana é a ferida acesa
Uma beleza, uma podridão
O fogo eterno e a morte
A morte e a ressurreição
A raça humana é o cristal de lágrimas da lavra da solidão
Da mina cujo o mapa trás na palma da mão
A raça humana risca, rabisca, pinta, a tinta à lápis, carvão ou giz

Foi aquele preto que um dia apareceu na tela da televisão lá em Santo Amaro da Purificação, agora em cores, para cantar a oração pela sua libertação da África do Sul.

Se o rei Zulu já não pode andar nu
Salve a batina do bispo Tutu
Ó, Deus do céu da África do Sul
Do céu azul da África do Sul
Tornai vermelho todo sangue azul
Já que vermelho tem sido todo sangue derramado
Todo corpo, todo irmão, chicoteado
Senhor da selva africana, irmã da selva americana
Nossa selva brasileira de Tupã

Foi aquele preto da televisão que, num dia de verão, fez Paris inteira cantar: Touche paz à mon pote, cuja letra, em bom português, diz que o Ser que fez Jean-Paul Sartre pensar é o mesmo que fez Yannick Noah jogar.

DOIS MIL E DEZOITO

Quando novembro chegava, era sinal de que o Natal não estava muito longe. Era na primeira semana do mês que um caminhão Dodge1958 parava na porta da nossa casa e buzinava.

O meu pai ia lá e acompanhava a descida da carroceria de um engradado com um peru, vivo. O bicho, ofegante de uma viagem de Ponte Nova a Belo Horizonte, era levado pro quintal. Minha mãe vinha logo com uma latinha de marmelada Cica com água fresca para recompor o danado.

O meu pai chegava com o martelo na mão e começava a desencaixotar o peru, retirando grampo por grampo, prego por prego. De repente, ele estava solto no galinheiro, todo serelepe, sacudindo o corpo e dando suas primeiras glugluzadas.

Pobre coitado, não sabia o que o esperava.

Nos supermercados não havia, para vender, peru morto, congelado, temperado, ou com apito. Para comer um na ceia do dia 24, era preciso comprar, vivinho da silva.

O nosso vinha de Ponte Nova, terra da minha mãe e do João Bosco, e era de graça, presente de um tio torto, o Zezé Santana. O peru ficava ali engordando no galinheiro um mês e pouco, às vezes procurando briga com o galo índio, o dono do pedaço.

Os vizinhos não se importavam com o barulho que ele começava a fazer logo cedo, quando o meu pai chegava no quintal e assobiava. Era só assobiar que ele soltava o seu gluglu.

O peru no galinheiro era o começo de tudo. Minha mãe descia do sótão as caixas com o presépio, as bolas e os penduricalhos da árvore e os enfeites vindos da América do Norte que espalhávamos pela casa, desejando Merry Christmas e Happy New Year.

Ela começava a fazer uma lista de compras e a observar, no Mercado Central, se as frutas secas já estavam com um preço bom e se as uvas Niágara já estavam docinhas. O meu pai ficava de olho no garrafão de Sangue de Boi.

Na metade pra frente do mês de novembro começava o fuzuê na nossa casa. O meu pai pegava papel, régua e compasso e bolava como seria o presépio daquele ano. Engenheiro, calculava cada centímetro quadrado numa projeção em 3D, numa época em que ninguém ainda falava em 3D.

Quando dezembro chegava, o clima de Natal esquentava. Minha mãe comprava pêssegos e figos verdes pra preparar compotas e passava horas descascando aquelas frutas, que deixavam sua mão preta de nódoa.

Lá pelo dia 20, era o dia da matança do peru. Uma cena cruel que nunca saiu da cabeça dos cinco pequenos Villas. Era um ritual. O meu pai dava uma talagada de cachaça pro bicho, antes de começar o assassinato.

Depenava o pescoço e passava a faca afiada. O sangue esguichava e ia caindo num prato de ágata com um pouco de vinagre para não talhar. Muitas vezes – lembro-me bem – o danado escapulia de suas mãos e saía pulando pelo quintal, já sem cabeça, espirrando sangue no muro branco que deixava minha mãe muito furiosa.

No dia 24, o meu pai levava o peru para assar na Padaria Savassi. Era no porão da padaria que ficavam aqueles perus enfileirados, devidamente etiquetados pra ninguém levar pra casa o peru de outro.

Paro por aqui porque esse ano, sei lá, não estou sentindo clima de que vai haver peru, que vai haver presépio, árvore, compotas de pêssego e figo, nem Sangue de Boi.

Não vai haver rabanadas como aquelas que minha mãe fritava num tacho de cobre, nem mesmo presentes nos sapatos. Desconfio que não vai ter Merry ChristmasHappy New Year, sequer Brasil.

[Crônica da semana publicada no site da revistas Carta Capital]

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RENASCI

Por volta de sete horas da manhã, o mensageiro, montado num cavalo branco, chegou com a notícia. Pulei da cama patente quando a tramela virou e a porta se abriu. Era Leninha com a novidade.

– Seu irmão pediu pra você ligar pra Belo Horizonte!

Pensei logo na morte de alguém. Só podia ser, aquela hora da manhã.

A Fazenda do Sertão ficava no interior de Minas Gerais, tão interior que não havia luz elétrica, telefone, geladeira, nada disso. Até o café adoçávamos com rapadura porque açúcar refinado não havia ali.

Pegando carona no mesmo pangaré do mensageiro, fui até o povoado de Soberbo, onde havia um único telefone, e pedi uma ligação pra Belo Horizonte. Época que, para falar interurbano, era preciso pedir uma ligação.

A noticia chegou pela voz do meu irmão, do outro lado da linha.

– Você ganhou um concurso de contos no Paraná!

Gelei.

Tinha eu dezenove anos de idade e me preparava para ser doutor. Fazia um cursinho para medicina quando vi, num canto de página na revista Realidade, um anúncio do Concurso de Contos do Estado do Paraná.

Sentei na Remington do meu pai, coloquei três folhas de papel A4 e dois carbonos. Era o que exigia o regulamento do concurso, um original e duas cópias legíveis.

Escrevi um conto chamado Nasci, que começava assim:

Era novembro de 1949, um domingo. Talvez o lugar mais perto fosse infinitamente longe daquele barraco de zinco feio e pobre. Chovia muito e os pingos no telhado pareciam pedras atiradas numa vidraça, fazendo um barulho horrível. Meu pai estava em Leningrado desde janeiro e minha mãe por aqui, só, mordiscando a ponta do lápis toda vez que riscava mais um dia na folhinha dependurada atrás da porta da cozinha.

No conto, narrava a minha história dentro da barriga da minha mãe, uma saga que durou exatos nove meses.

Arrumei a mala de couro e fui-me embora para a capital, num velho ônibus da Viação Pioneiro. Foram algumas horas de buracos e comendo poeira até chegar na rodoviária de Belo Horizonte.

Pela janela, via as montanhas lá longe e não podia imaginar o que estava por vir. Não havia contado pra ninguém, nem mesmo da família, que estava participando de um concurso de contos. Meus pais, meu irmão, minhas irmãs, avó, tios, tias, primos, ninguém sabia da existência desse menino que escrevia.

Na rodoviária, vi a noticia na primeira página do Estado de Minas, dependurado na banca de jornal.

Mineiro anônimo vence Concurso de Contos do Paraná

Com o autor refugiado de férias numa fazenda, entrevistaram o meu irmão que declarou solenemente: “Ele ia fazer vestibular para Medicina mas agora, acredito eu, que com essa vitória no Paraná, vá fazer Jornalismo”.

Foi assim que abandonei a ideia de trabalhar com bisturis para trabalhar com máquinas de escrever.

Peguei o primeiro avião pra Curitiba e lá fui eu, de terno e gravata, receber o prêmio. Se a memória não falha, um prêmio de 2 mil cruzeiros, uma pequena fortuna na época, para quem ganhava um salário mínimo como Escrevente Datilógrafo no Ministério da Agricultura, meu primeiro emprego.

Voltei todo animado pra minha terra e na primeira entrevista declarei, ao mesmo Diário de Minas: “Com parte do dinheiro, vou comprar um jipe para viajar pelo Brasil!”

Nasci foi publicado numa revistinha underground de BH, a BelContos, e só. Sempre reneguei aquela primeira experiência literária, nunca vi valor nela, também nunca entendi o porquê.

Arrumando o meu baú, deparei com velhos exemplares da BelContos e resolvi reler Nasci. Continuo renegando. Acho que nem mesmo meus filhos já leram o conto premiado. Li, reli, e tomei a decisão de reescrevê-lo, metido a Murilo Rubião.
Um dia, quem sabe eu o publico aqui na Carta Capital?

Agora, quanto ao jipe, nunca comprei. Na verdade, nunca dirigi um automóvel nessa minha vida de escritor.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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UMA FOTOGRAFIA NA PAREDE

De Lilás, guardei a imagem das gotinhas de sangue que pingaram quando cortei o umbigo do meu primeiro filho, ali na clínica do Doutor Frédérick Leboyer.

De Paris, guardei calos nas mãos, lembrança da vida de operário construindo autoestradas que rasgavam a paisagem roxa de lavandas.

De Belo Horizonte, guardei a casa da rua Rio Verde onde nasci, hoje demolida para dar lugar a um empreendimento imobiliário que ganhou o nome de Memorial Villas.

De Istambul, guardei a reza com tons de lamento que ecoava dos autofalantes das mesquitas todos os dias, seis horas em ponto.

De Amsterdam, guardei aquela draga retirando dezenas e dezenas de bicicletas do fundo dos canais.

De Havana, guardei os retratos de Fidel nas carteirinhas das meninas de trança saindo da escola.

De Kaymakli, guardei a música Olhar 43 na voz de Paulo Ricardo, saindo de um radinho de pilha num hotelzinho de barro onde dormi, fugindo das bombas.

De Tóquio, guardei a delicadeza da vendedora da Uniqlo pegando o meu cartão de crédito com as duas mãos e me explicando que ele seria colocado numa máquina para me cobrar 98 ienes.

De Abidjan, guardei o vapor da sopa quente de pimenta que tomei na calçada, no dia em que o povo foi às urnas eleger Félix Houphouët-Boigny o seu presidente.

De Londres, guardei a performance de Sid Vicious e Johnny Rotten num show que vi quando era fã dos Sex Pistols.

De Estocolmo, guardei a imagem da cidade branca de neve que via da janela de um castelo, enquanto esperava a princesa Silvia para uma entrevista.

De Praga, guardei o jogo americano do McDonald’s que oferecia, além do Big Mac, meio repolho cru.

De Damasco, guardei o gosto das tâmaras que serviam no café da manhã num albergue pobre onde dormi.

De Roma, guardei o ronco das lambretas que passavam levando freiras, padres e coroinhas para lá e pra cá.

De Kyoto, guardei uma pedra porosa que colhi no Templo Kinkaku-ji para enfeitar minha escrivaninha.

De Beirute, guardei o rastro dos jatos israelenses ameaçadores cortando o céu que nos protegia.

De Montevidéu, guardei a busca incansável atrás do fusca azul de José Mujica, que nunca vi.

De Brasília, onde morei menino, guardei o verde tão lindo dos gramados campos de lá.

De Santiago, guardei a estátua de Salvador Allende na porta do Palácio de la Moneda, onde o presidente socialista morreu de susto e de bala.

De Viena, guardei os petit fours das vitrines das confeitarias, que mereciam ser embrulhados pra presente, um a um.

De Buenos Aires, guardei o sabor da tábua de frios do adorável Café Tortoni.

De Manaus, guardei a gordura escorrendo das costelas de tambaqui no Canto da Peixada.

De Cuiabá, guardei as histórias de capivaras que o repórter Heraldo Pereira contava todas as noites, na mesa do Caxara na Brasa.

De Dacar, guardei os lambris das paredes do aeroporto internacional onde, numa madrugada de chuva, fizemos um pouso forçado.

De Cataguases, guardei o primeiro beijo tímido e torto, ali na praça Santa Rita, depois de uma festa de São João.

Do Rio de Janeiro, guardei um tiroteio na Rua Farme de Amoedo, no meio da madrugada quando voltava do show da vida.

De Barcelona, guardei as linhas tortas da Casa Milà riscadas por Antoni Galdi.

De Lisboa, guardei o Guia Fernando Pessoa que comprei na Livraria Bertrand, indicando as ruas por onde andou.

De Berlim, guardei a fotografia da seleção da Alemanha Oriental vestida de azul, que vi dependurada na parede do museu da DDR.

De Ouro Preto, guardei as performances de Julian Beck e Judith Malina numa noite fria em praça publica, quando a polícia chegou.

De Ouagadougou, guardei a única partida de rugby que vi e nada entendi.

De Atenas, guardei o gosto da melhor melancia do mundo que comprei numa barraquinha na periferia.

De São Miguel dos Milagres guardei a esperança que não vinha do mar nem das antenas de TV.

De Ponte Nova, guardei a goiabada cascão da Zélia e o queijo do Armazém de Zezé Santana, que comíamos de joelho.

De Sófia, guardei os biscoitos wafer que fui obrigado a comprar com o dinheiro local para poder entrar na Bulgária.

De Itabira, que vou conhecer nesse fim de semana, quero guardar aquela fotografia na parede e sentir como dói.

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TUDO PASSA

Quando lancei o meu primeiro livro  – O mundo acabou! – há dez anos, reuni nele tudo que tinha sumido do mapa com o tempo. Tudo mesmo. Do horizontal da TV ao Simca Chambord, do Crush às calças Far-West, da fotonovela ao Mug.

Dez anos se passaram e as coisas continuam desaparecendo. Hoje, algumas pessoas se lembram com saudade do Orkut e outros nem se lembram mais da palavra sumidade.

Lendo uma carta que Jorge Amado escreveu em 1994 a José Saramago, me deparei com um baiano espantado perguntando ao português como era possível ter vivido, até então, sem o fax. Pobre fax, que surgiu como uma revolução e está se despedindo do mundo como uma tralha pesadona e ultrapassada.

No meu livro, eu não lamentei melancolicamente a morte de algumas coisas, apenas constatei com um tiquinho de saudade, por exemplo, o fim da revista em quadrinhos do Reizinho, da banana Split das Lojas Americanas, dos soldadinhos que vinham dentro do vidro do Toddy e daquele brinquedo chamado O Pequeno Cientista que um dia ganhei do Papai Noel.

Senti saudade das garotas do Alceu nas páginas da O Cruzeiro, daquela brincadeira da Língua do P, da primeira japona que ganhei e de um programa que passava na TV Itacolomi chamado Agarre o que puder.

Mas, sinceramente, não senti saudade nenhuma daquele sabonete Maderas do Oriente que ganhava da minha tia todo aniversário. Odiava ganhar sabonete de aniversário e ela insistia em me dar uma caixa com três.

Como também não senti saudades das camisas Volta ao Mundo que espetavam, do Ki-Suco que tinha gosto de remédio, nem da escola de datilografia que minha mãe não sossegou enquanto não tirei o diploma.

O mundo caminha e, como disse George Harrison em seu primeiro disco solo, tudo passa.

Nesses dez anos que passaram, a gente está vendo o desaparecimento de muita coisa. Acredito que, em pouco tempo, não teremos mais jornal de papel, chave ou cheque. O jornal agora está na tela, a chave está virando cartão e do cheque vai sobrar apenas o nome, principalmente quando falamos de cheque especial.

Brinquedos desaparecem, revistas desaparecem, programas de televisão desaparecem, automóveis desaparecem, modas desaparecem, costumes, gírias, piadas, tudo desaparece.

Essa semana, andando pelas ruas de São Paulo e olhando de vez em quando pra cima, senti falta de uma coisa.

Onde andam os tênis que viviam dependurados nos fios da cidade? Por tudo quanto é canto que passávamos, lá estava o par de Bamba estropiado balançando no fio. Se não era Bamba, era Kichute ou Conga.

O tênis ficava velho e os jovens adoravam jogar ele pra cima, até que ficasse lá apodrecendo pela chuva. Perguntei para amigos porque as pessoas não jogam mais o tênis nos fios e vieram algumas respostas.

O tênis está custando muito caro. Ninguém tem coragem de jogar um Nike, um Puma, um Le Coq Français, um Misuc ou um Asics pros ares, por mais escangalhado que esteja.

Segundo, os homens da Vivo, da Net, da Tim, da Claro e da Oi vivem subindo nos postes e mexendo nos fios. Se alguém se atrever a jogar um tênis lá, ele não dura meia hora. Em outros tempos, os fios de telefone, que eram fixos, e os de luz, ficavam lá quietinhos anos e anos. Agora a coisa mudou.

Olha, eu decidi que assim que o meu Adidas acabar de acabar, vou amarrar um par no outro e jogar pra cima. Quero só ver quanto tempo ele vai ficar ali balançando no fio que passa na porta da minha casa.

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BELEZA INTERIOR

Sou um ser urbano. Daqueles que mora numa selva de pedra, cheira fumaça de gasolina, corre dos automóveis para não ser atropelado, enfrenta fila de espera no restaurante e acha bonito o que é feio nas paredes da cidade.

Quando pequeno, tinha um pé no galinheiro. Cuidava das minhas galinhas, dos patos, das codornas e dos perus. Regava as taiobas da minha mãe e comia jabuticabas no pé. Guardava o meu bodoque, andava descalço e me equilibrava em muros, mesmo aqueles com cacos de vidro pra espantar ladrões.

De tempos em tempos, volto ao interior para abastecer minha alma de jornalista e escritor. Recarregar a munição para enfrentar a guerra diária por aqui. Foi o que aconteceu na semana passada quando pegamos a estrada com destino à felicidade.

Foi lá que revi lojas com nomes de A Favorita,  A Noiva Moderna e A Barateira. Vi homens de chapéu sentados na mesma praça, no mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Não consegui captar o que conversavam, enquanto o sol atravessava a cidade de cabo a rabo, do nascente ao poente.

É em cidades assim que a gente ainda vê ruas calçadas com pedras irregulares, casinhas coloridas, a Oficina do Baiano, a Farmácia do Djalma e placas como Miudezas em Geral, Secos e Molhados e Servimos Prato Comercial. São cidades cheias de Bar & Lanches, cidades onde os nomes do comércio continuam simplórios: Padaria Dois Irmãos, Dora Modas ou Mecânica Irmãos Reis.

não que a modernidade não tenha chegado por aqui. As pessoas olham sem parar as telas dos seus smartphones e escrevem mensagens com uma rapidez que eu, apesar de exímio datilógrafo, diplomado, nunca consegui.

Os shoppings centers com o Boticário, o Starbucks, a Side Walk, o Spoleto e a Vivenda do Camarão ainda não chegaram por aqui porque Cunha e São Luiz do Paraitinga não comportam. Ainda bem.

É em cidades assim que as famílias ainda colam nos postes os avisos de morte. Fiquei sabendo que Serafim Matoso morreu aos 81 anos e que o enterro seria daqui a pouco no Cemitério da Cidade. O único.

Um fim de semana em Cunha, passando por São Luiz do Piraitinga não é apenas sair de São Paulo. É uma viagem à infância. De repente me vejo espiando na janela de uma casa para ver se, lá dentro, ainda enxergo a foto do casal, colorida à lápis, dependurada na parede da sala.

Se a televisão ainda é em preto e branco e alguém está mexendo no botão do horizontal. Se nos armazéns de secos e molhados, de miudezas em geral ainda encontro bombas de Flit, Mirinda Morango, o pirulito de chocolate da Kibon, fósforos marca Olho, drops Dulcora, sabonetes Myrugia, um espiral para matar pernilongos ou uma caixa de Modess Pétala Macia.

Ando pelas ruas da cidade procurando o Banco Nacional, a Mesbla, a loja da Varig, a carrocinha de cachorro, alguém calçando  tênis bamba ou um telefone publico que ainda funciona com ficha.

Nada disso.

O que mais vejo são os automóveis que sumiram das metrópoles. As ruas estão cheias de Polaras, Fuscas, Unos Mille, Kadetts, Belinas, Ipanemas, Opalas, Vemaguetes e Corcéis 73.

No último dia, já saindo da cidade, quando paramos numa esquina, vi estacionado na garagem um carro que nem me lembrava mais, apesar de nem tão antigo assim. Vi um Twingo azul calcinha tinindo, conservadíssimo, um brinco.

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AS QUATRO ESTAÇÕES

foto Alberto Villas

O susto começou com o choque térmico, quando voltei ao Brasil depois de sete invernos. Zurique ficou pra trás abaixo de zero e o Rio 40 graus chegou depois de doze horas de voo, em plena terça-feira de Carnaval.

Nos anos longe daqui, fui me acostumando, aos poucos, com cada estação. Cheguei no auge de um rigoroso inverno e convivi os primeiros meses com a cidade encoberta por nuvens de um cinza quase chumbo. Era o céu que tínhamos para nos proteger.

Nos primeiros dias, saía de casa levando um guarda-chuva, acreditando que um toró iria desabar sobre nossas cabeças a qualquer momento. Acostumei-me com aquele ritual de meias de lã, ceroulas, luvas e gorro na cabeça antes de por os pés na rua e o clarear apenas às nove horas da manhã.

Vi neve pela primeira vez, escorreguei no Boulevard Saint-Michel, quase caí. Fiz fotos, revelei e mandei pro Brasil.

Acostumei com as árvores sem folhas que, de início, achei que estavam todas mortas, marinheiro de primeira viagem.

De repente, foi chegando assim de mansinho, a primavera. O primeiro sinal foram os brotinhos verdes despontando nas árvores secas que não estavam mortas nada, apenas hibernando.

Os primeiros raios de sol apareceram na janela do nosso apartamento e cantamos juntos com George Harrison, Here Comes de Sun.

Aos poucos, a cidade foi ficando toda verde e iluminada. As pessoas começaram a colocar as manguinhas de fora, a deitar na grama dos parques e arriscar a primeira lambida no copinho de sorvete de pistache do Berthillon.

Depois da primavera, veio o verão. E veio pra valer. Com todas as suas cores e lufadas de vento quente à beira do Sena, outrora caudaloso, cinza e sombrio.

A cidade ficou vazia de seus moradores e foi invadida por turistas que circulavam com a cabeça cheia de ideias e máquinas fotográficas nas mãos. Com os seus mapas abertos, iam de norte a sul, de leste a oeste, descobrindo as surpresas da cidade mais linda do mundo.

O verão foi longo, só foi desaguar no fim de setembro, quando o vento chegou derrubando as folhas agora secas das árvores. Elas caíam sem parar e, com uma super-8 na mão, ia registrando aquele balé dourado, o começo do outono, o fim do verão.

Foi assim durante muitos e muitos anos passados fora, praticamente sem ver o mar, mas maravilhado com o verde tão lindo dos gramados campos de lá.

Era batata. Todo ano tinha, religiosamente, inverno, primavera, verão e outono, como se ilustrassem as quatro estações, obra prima de Antônio Vivaldi.

De volta, custei a me acostumar com o nosso país tropical. Não foram poucos os dias em que senti na pele o inverno, bem cedinho, a primavera no meio da manhã, o verão no inicio da tarde e o outono ao escurecer.

Vivi um verão que não acabava mais, durante uma longa temporada em Manaus. Fui curtir o nosso inverno em Penedo e o verão em São Miguel dos Milagres. Só faltou o outono, que nunca encontrei direito por aqui.

Agora, o calendário garante que a primavera acabou de chegar. Olho da janela e vejo, lá fora, o sol de verão, algumas folhas do outono caindo e, do outro lado da cidade, vejo nuvens cinzas do inverno e os ipês amarelos da primavera. Tudo ao mesmo tempo, ao som de Tim Maia.

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti, pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Porque é primavera e eu trago pra ti esta rosa para te dar porque, pensando bem, hoje o céu esta tão lindo, vai chuva!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TELEFONE

Com o adiantado da idade, muitos jovens começam a me perguntar sobre a vida, como ela era. Hoje vou falar do telefone.

Ele era preto, pesado, fixo, preso por um fio. Ficava geralmente na sala de jantar, em cima do catálogo telefônico.

O catálogo era um calhamaço, metade branco, metade amarelo. Nas páginas brancas os nomes e os números de todas as pessoas que possuíam um telefone. Ordem alfabética e por endereço. Nas páginas amarelas, anúncios.

O telefone era de disco e a gente ficava girando, compondo o número de quem queríamos falar.

A gente tirava do gancho e ele estava sempre mudo. Ficávamos um tempão esperando ele dar o sinal.

Com o telefone, passávamos trote porque ninguém sabia, nem desconfiava, quem estava ligando.

– Quem está na linha?

– É o Juarez.

– Então sai da linha que lá vem o trem, Juarez.

Eram trotes bobos mas nós nos matávamos de rir.

Telefone custava uma fortuna, o preço de um Volkswagen. Era tão caro que quem tinha um, era obrigado a declarar no Imposto de Renda

Havia uma loja que se chamava Banco do Telefone. Lá, eles informavam quanto estava valendo o seu número naquele momento. Muitas pessoas não vendiam, esperando valorizar.

Gente pobre não tinha telefone mas, na comunidade, sempre tinha alguém que tinha. Então esse número era passado adiante e, em seguida do número, entre parênteses, vinha a palavra recado.

Todo mundo sabia de cor o telefone de todo mundo, principalmente dos parentes, da farmácia, do armazém, da Rádio Patrulha e do Corpo de Bombeiros.

Para comprar um telefone, você precisava entrar numa fila de espera da Companhia Telefônica e, só por um milagre, eles te chamavam.

A primeira música registrada no Brasil, como samba, chamava-se Pelo Telefone. Foi composta por Donga e Mario de Almeida em 1917 e dizia assim:

O chefe da polícia 

Pelo telefone

Manda me avisar

Que na Carioca tem uma roleta

Para se jogar

Na escola, nas aulas de História, éramos obrigados a decorar quem foi o inventor do telefone. Todo aluno sabia que foi o inglês Alexander Graham Bell.

Não havia DDD nem DDI. Para fazer uma ligação para outro estado ou outro país, era preciso chamar a telefonista e pedir a ligação que, às vezes, demorava horas. E quando a ligação saía, a gente tinha que quase gritar pra pessoa do outro lado da linha ouvir.

O preço da ligação interurbano era muito alto e as pessoas falavam somente o necessário e numa velocidade estonteante.

– Tô ligando pra dizer que tia Maricota morreu e o enterro é amanhã cedo!

Todo adolescente passava horas conversando no telefone e todo pai ficava uma fera quando tentava falar com a casa e estava sempre ocupado, com o adolescente na linha. Quando ele conseguia, era uma bronca de todo tamanho.

– Tem duas horas que estou tentando ligar ai!

Havia uma brincadeira idiota chamada dar um telefone. Era dar um tapão nas duas orelhas ao mesmo tempo, deixando a pessoa ouvindo aquele zumbido durante um tempão.

Quando a conta do telefone chegava, todo mundo levava um susto com o valor e sempre descobria um telefonema para uma cidade lá do interior do Piauí que ninguém sabia quem foi que deu.

Em 1969, o telefone era uma coisa tão importante que ele foi capa da revista Veja, quando a revista Veja era uma revista muito importante.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NOSSA MASTERCHEF

A Margarida é imbatível na culinária. Não conheço ninguém que cozinha melhor do que ela. Tudo que faz é de comer de joelhos. Seja um singelo ovo frito ou uma simplória salada de alface. Não existe igual.

Onde ela põe a mão, tudo fica delicioso, parece mágica. Até mesmo aquele mexidão de fim de noite, tipo Lavoisier. Na carne louca, no risoto de aspargos, na polenta com ragu, na sopa de legumes, no caldo verde, a Margarida é um espetáculo. O creme de cupuaçu, uma de suas especialidades, é divino e maravilhoso.

Mas a minha sogra tem um particular: Não gosta de seguir à risca receita de ninguém. Seja Rita Lobo, Claude Troigois, Rodrigo Oliveira, Henrique Fogaça, Nigella Lawson, Paola Carosella, Tatiana Cardoso, Olivier Anquier ou Jamie Oliver. Ela gosta de mudar, de ir adaptando as receitas, fazer do seu jeito.

Aqui em casa funciona mais ou menos assim quando ela assume a cozinha: A Paulinha abre o laptop na bancada e coloca todos os livros da Panelinha ao seu inteiro dispor. Ela dá só uma olhadela por cima e pede pra ir ditando os ingredientes.

– Dois ovos!

– Não precisa de dois, só um ovo basta.

– Duas xícaras de farinha de trigo integral.

– Não precisa ser integral.

– 200 gramas de manteiga.

– Duzentas? Vou por cem.

– Três copos de leite.

– Vou colocar um e meio.

– Vai precisar de um abacaxi em pedaços.

– Banana picada fica muito mais gostoso.

– Deixe descansar por 15 minutos.

– Não precisa disso tudo.

A Margarida vai mudando a receita, mudando, mudando e o resultado é sempre surpreendente, muito melhor do que o original.

É sempre assim. Ela não se conforma com os ingredientes das receitas, tampouco com as medidas. Outro dia ela começou a fazer um feijão tropeiro, foi mudando tanto que chegamos a uma deliciosa feijoada completa.

E que feijoada!

Eu até que arrisco umas coisinhas na cozinha aqui em casa, mas perto dela sou um Zé Mané qualquer.

A Margarida faz bolos que deixa qualquer pâtissier no chinelo. Bolo de laranja, de fubá, de coco, recheado com morango e leite condensado, de chocolate belga, quase todo dia ela faz um e cada um melhor que o outro.

Tem mais um detalhe. Ela também não gosta de ver ninguém por perto ajudando ou palpitando.

– Não é assim que corta cebola!

– Não pode picar o tomate tão pequeno!

– Tirou o caroço da azeitona?

– Não! Não! Não! É preciso lavar e secar o arroz.

– Você esqueceu de deixar o feijão de molho, né?

– Tá errado! Morango tem de ser orgânico!

A bagunça que nossa querida Margarida faz na cozinha é um capítulo à parte. Não vou entrar em detalhes porque ela não vai gostar. Mas já teve um dia que, depois de fazer um risoto de aspargos aqui no domingo, tinham 16 panos de pratos usados, sete panelas, onze facas, cinco colheres de pau, três raladores de queijo, sem contar os potes e gamelas.

Só pra ferver uma água, às vezes ela usa umas quatro panelas.

A verdade é que a Margarida cozinha mesmo como ninguém. Não existe língua de boi com ervilhas melhor que a dela. E a salada de bacalhau? E a rabada com cenoura?

Mas se você esta achando que a minha sogra não se conforma apenas com as receitas dos chefs e seus ingredientes, ledo engano. Ela não se conforma também com as bulas de remédio, nem mesmo obedece as indicações daquela voz do Waze.

– A 200 metros, vire à direita.

Vou virar à direita coisa nenhuma. Cê tá maluco?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ÀS MOSCAS

As moscas marcaram uma presença forte e constante durante toda a minha infância e juventude. Tinha mosca pra tudo quanto é lado. Não que eu vivesse num lixão ou coisa parecida. Elas estavam é dentro da minha casa.

Lembro-me bem da minha mãe espantando moscas na cozinha na hora de abrir a lata do Leite Moça pra fazer pudim. Elas entravam pelo basculante, ficavam sobrevoando a fruteira, o açucareiro, pousavam no teto, se equilibravam na boca da jarra de laranjada, sem o menor constrangimento.

Na hora do almoço, lá estavam elas sobrevoando a mesa, tentando pousar em algum lugar. Meu pai vinha com uma régua de madeira, assassinando uma a uma, em golpes certeiros. Mas algumas conseguiam se safar e voltavam minutos depois.

As moscas fizeram parte da minha vida durante muitos e muitos anos. Quem não se lembra da expressão comeu mosca? Era aquele cara desatento que perdeu o fio da meada, pegou o bonde andando.

E tinha mais.

Mosca morta era aquela figura meio lesa, meio devagar, sem sal.

Acertou na mosca era quando a professora perguntava a capital da Noruega e a gente respondia na lata: Oslo!

Quem não se lembra da expressão em boca fechada não entra mosca?

E nos jogos do meu América Mineiro, que os locutores viviam dizendo que o campo estava praticamente às moscas?E o cara que bobeou, que deu uma moscada?

Quem não se lembra daquelas lâmpadas azuis nos lustres, pra espantar as moscas dos pães doces nas padarias?

Millôr Fernandes, um dia, escreveu que “pior não é morrer. É não poder espantar as moscas”.

Ela já foi capa do jornal Opinião no auge da repressão, já foi capa daquele primeiro disco experimental de Walter Franco, já virou até filme. Quem não viu A Mosca, de David Cronemberg? Ela já foi musa de Raul Seixas quando pousou na sua sopa e até atriz principal do filme Fly, da Yoko Ono.

Não sei se o Globo Repórter já fez um programa sobre ela, explicando quem são, de onde vieram, onde vivem, de que se alimentam, mas a verdade é que elas estão desaparecendo. Pelo menos aqui em São Paulo, no meu bairro, na minha casa, está cada vez mais difícil ver uma mosca.

A última aparição dela, em grande estilo, foi no dia 2 de maio do ano passado, na primeira página da Folha de S.Paulo, mais precisamente no rosto da então presidente Dilma Rousseff. Mas, no dia seguinte, veio o Erramos: “A legenda da sequência de fotos com Dilma Rousseff afirma que a presidente estaria sendo perturbada por uma mosca. Não é possível afirmar com precisão, entretanto, se o inseto é, de fato, uma mosca”. Ficou a dúvida no ar.

Não que eu sinta falta delas, na verdade, mosca enche o saco, mas hoje acordei intrigado com essa história de as moscas estarem sumindo do mapa.

O mais impressionante dessa história toda é que quando eu terminei esse texto e fui regar minha pequena horta na varanda do meu apartamento, lá estava uma, paradona, esperando pra ser fotografada, acho que pra ilustrar essa crônica e contrariar minha tese.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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