PARE 2018 QUE EU QUERO DESCER

Passado o Natal, vinha aquela euforia com a chegada do ano novo, uma semana depois. Era quando o meu pai chegava em casa carregando uma enorme folhinha da KLM com aquelas imagens maravilhosas de moinhos de vento, holandesas de tranças e tamancos e campos de tulipas.

Antes mesmo de acabar o ano, ele dependurava na parede, com a ajuda de um martelo e um prego, aquela folhinha maravilhosa. Ficávamos em volta dela, passando os meses, cada um querendo saber em que dia da semana cairia o seu aniversário.

Meu pai trazia da repartição uma agenda Pombo para cada filho e imediatamente pegamos uma caneta e preenchíamos o nome, o endereço, telefone e o tipo sanguíneo.

Minha mãe fazia uma faxina na casa, abrindo gavetas, picando e jogando papéis fora, guardados durante o ano inteiro, inutilmente. Passava Silvo nas pratarias e óleo de peroba nos móveis coloniais, à espera de um ano novo e feliz.

Fazíamos uma montanha de promessas. Passar de ano sem segunda época, tomar pouca Coca-Cola, ler um livro por semana, anotar e cumprir todos os afazeres na agenda Pombo, não perder as missas de domingo, não brigar com os irmãos, ver menos televisão e guardar dez por cento da mesada todo mês.

Não havia promessa de fazer dieta naquela época em que não havia academia, se cozinhava com banha, comia-se torresmo, passava manteiga no miolo do pão, o café era com açúcar e não havia leite desnatado, nem semidesnatado. A promessa da minha mãe era uma só, saúde para todos. E o meu pai completava, rindo: E muito dinheiro no bolso!

O fim do ano ia chegando e nossa euforia era grande. Lavávamos o pombal com Creolina para que, no primeiro dia de janeiro, estivesse limpinho e cheiroso. Tirávamos o mato da horta, os pulgões das folhas de couve e fazíamos uma armação de arame para que o pé de chuchu pudesse se acomodar no muro, sem incomodar o vizinho.

A última semana do ano parecia que não existia. Ninguém mais conseguia direito, ninguém estudava mais porque as férias já tinham começado, não tínhamos paciência nem pra sentar e ver o Zé Colmeia na televisão. Era só preparação pro ano novo que estava despontado. Todos os anos, nessa semana, o meu pai vinha com uma velha piada e minha mãe sempre caia. Ele chegava da Meteorologia, abria a porta e dizia:

– Sabe quem está nas últimas?

– Quem? Quem? perguntava minha mãe, arregalando os olhos.

– O ano velho! dizia ele, enquanto todos caiam na gargalhada, dizendo:

– Mas mãe, você caiu de novo?

No fim da manhã do dia 31, sabíamos que já era ano novo na Austrália, mas naquela época não havia o Jornal Hoje pra anunciar na escalada: Já é ano novo em Sidney! Só víamos os fogos explodindo por lá, no dia seguinte, numa radiofoto toda riscada, no jornal O Globo.

Os papeis picados caindo das janelas na avenida Paulista, na Avenida Brasil e na Avenida Afonso Pena, na minha Belo Horizonte, eram uma atração à parte. Não tinha ano que o meu pai não comentasse “eu tenho dó dos garis, amanhã cedo, que vão começar o ano varrendo rua”.

Não havia ceia na passagem do ano, na minha casa. Comíamos uma comida dessas de domingo, por volta das dez horas da noite porque, onze e pouco, íamos todos pra Sociedade Mineira de Engenheiros pro Réveillon.

Meia noite em ponto, a banda dava o grito de carnaval e nós pulávamos até nos acabar, ao som de olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é. Ao som do joga a chave, meu amor, não chateia por favor, ao som de Bandeira branca, amor, eu peço paz e índio quer apito, se não der pau vai comer!

Chegávamos em casa estropiados, abríamos a geladeira pra ver se tinha sobrado um pouco da maionese, um pedacinho frio de lombo e umas uvas geladas. Ainda dava tempo de ver na televisão o videoteipe da queima de fogos em Copacabana, a cascata caindo do Hotel Meridien, as velas acesas na areia e as palmas pra Iemanjá, indo e vindo nas onda do mar.

Mas esse ano, não vai ser igual aquele que passou. Estamos aqui em casa todos assustados e com temor de que dois mil e dezenove, queria ou não queira, vai chegar. Dois mil e dezoito ainda não está nas últimas, mas já está desenganado.

Ouvi dizer que, a partir do dia primeiro de janeiro, vão começar a matar gays, lésbicas e simpatizantes. Vão agredir quem estiver com camisa vermelha e colocar na clandestinidade o MST e o MTST. Vão prender o Boulos, o Stédile e metralhar a petezada.

Estão dizendo que vão perseguir os professores, vão acabar com os livros de História e colocar na fogueira todos os do Paulo Freire. Vão fechar a TV Brasil, vender a Petrobras, cercar os índios, prender cem mil, fechar jornais e disseram até que vão declarar guerra à Venezuela.

Só me resta colocar na vitrola aquele velho disco do meu pai que ele fazia questão de ouvir, todo dia 31 de dezembro:

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que tudo se realize

No ano que vai nascer!

Muito dinheiro no bolso

Saúde pra dar e vender!

Para os solteiros, sorte no amor

Nenhuma esperança perdida

Para os casados, nenhuma briga

Paz e sossego na vida

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Captal]

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ENTÃO ERA NATAL

O clima natalino começava no início de dezembro. Agora não, em pleno setembro, os panetones já estão espalhados pelos corredores dos supermercados. E não é aquele panetone caseiro, embrulhado cuidadosamente um a um em papel manteiga. Agora, industrializados, temos panetone de chocolate, de goiabada, de doce de leite, de Leite Moça e em pleno setembro!

Quando chegava dezembro, a gente subia no sótão da nossa casa para pegar umas caixas de papelão, onde guardávamos durante o ano inteiro, a árvore, as bolas, os enfeites e o presépio. Tudo embrulhadinho em jornal, amarelado e empoeirado com o passar do ano.

Para montar o presépio, um canto da sala de visitas era rearranjado para que coubesse a manjedoura e todos aqueles personagens. Vendedores passavam de porta em porta vendendo musgo fresco para deixar o presépio com cara de presépio. A árvore ganhava bolas, fitas prateadas, enfeites e algodão para imitar neve.

Quando dezembro chegava, a gente escrevia uma cartinha pro Papai Noel com uma lista enorme de presentes, noventa por cento brinquedos. Ninguém queria ganhar meia, camisa, calça, sapato ou sabonete. Nossos pais fingiam que tinham postado a carta nos correios, a gente acreditava e ficava esperando o dia 25 chegar.

Era uma época em que íamos na papelaria comprar cartão de Natal. Fazíamos uma lista e levávamos pra casa umas duas dúzias de cartões com imagens de trenós, renas, pinheiros, muita neve salpicada de purpurina, desejando um feliz natal e um próspero ano novo a todos.

O peru, era comprado vivo e muitos dias antes. Ficava no terreiro, fazendo o seu glu glu cada vez que assobiávamos. Alguns dias antes da noite de Natal, ele era passado na faca. Lembro da agonia do bicho, o sangue espirrando num prato fundo com vinagre pra não talhar. Depois de limpo e temperado, ia pra padaria assar.

Passávamos uma flanelinha nos discos natalinos, alguns já bem judiados, cheios de chiados. Quando a vitrola era ligada e Carlos Galhardo começava a cantar é porque o Natal estava pertinho:  Eu pensei que todo mundo/Fosse filho de Papai Noel/Bem assim felicidade/Eu pensei que fosse uma/Brincadeira de papel/Já faz tempo que pedi/Mas o meu Papai Noel não vem/Com certeza já morreu/Ou então felicidade/É brinquedo que não tem.

Íamos na panificadora comprar pão pra rabanada, um pão especial. Ele era cortado em fatias, passado no ovo e frito. Depois ganhava um caprichado banho de açúcar com canela e não havia dieta. Regime, só o militar.

Cada um em casa escolhia onde deixar o sapato. Perto da árvore, ao lado do presépio, junto à mesa da ceia.

A ceia era servida só depois da missa do Galo. A gente se aprontava todo e ia pra Missa do Galo, uma missa interminável, celebrada por vários padres, diferente da missa de todo domingo.

A ceia era farta. Tinha peru recheado com farofa e ameixa preta, arroz de forno, salpicão, uma cesta linda com pêssegos, ameixas, uvas Niágara, morangos, figos, frutas que só comprávamos na época do Natal. Havia também uma cesta de frutas secas, transbordando de nozes, amêndoas e avelãs. Uma travessa com castanhas portugueses cozidas, quentinhas, e tâmaras para adoçar aquela noite tão especial. E aquele garrafão de Sangue de Boi enorme, no meio da mesa.

A gente ia dormir querendo acordar no meio da noite pra ver Papai Noel passando. Nunca acordamos. Dormíamos o sono dos anjos, ao som baixinho de Carlos Galhardo na vitrola, lá na sala: Anoiteceu/O sino gemeu/ A gente ficou/Feliz a rezar/Papai Noel, vê se você tem/A felicidade/Pra você me dar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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Day After

No dia seguinte do golpe militar de 1964, viajamos numa Rural Willys, o meu pai, minha mãe e meus quatro irmãos, de Brasília para Belo Horizonte.

No dia seguinte em que passei no exame de Admissão no Colégio Marista, minha mãe comprou, na Guanabana, uma calça comprida pra mim.

No dia seguinte ao Ato Institucional número 5, escondi no sótão da minha casa, todos os livros de Karl Marx e Friedrich Engels.

No dia seguinte em que descobri o meu primeiro amor, dei a ela de presente o álbum branco dos Beatles.

No dia seguinte em que comprei o primeiro número da revista Realidade, pensei em ser jornalista.

No dia seguinte da morte de Ernesto Che Guevara, eu vi num jornal boliviano a tal fotografia dele morto com os olhos abertos.

No dia seguinte em que vi Tom Zé cantando São São Paulo no Festival da Record, pensei em morar e trabalhar na maior cidade da América do Sul.

No dia seguinte em que levei bomba em Francês no Colégio de Aplicação, prometi, um dia, falar a língua de Roland Barthes, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

No dia seguinte em que fui confundido com o guerrilheiro Alemão na Praça da Savassi, tomei a decisão de ir-me embora do Brasil e só voltar depois que a ditadura acabasse.

No dia seguinte em que pesquei piabas no Rio das Velhas pela primeira vez, fritei cada uma e comi com angu.

No dia seguinte em que um vizinho envenenou nossos pombos, eu joguei um tijolo na vidraça da casa dele.

No dia seguinte em que passei no vestibular para Jornalismo na UFMG, joguei todas as minhas apostilas de Física, Química e Biologia, na lagoa da Pampulha.

No dia seguinte em que acabei de ler Cem Anos de Solidão, eu me apaixonei por Gabriel Garcia Márquez.

No dia seguinte em que deixei o Brasil, acordei numa pensão barata, num Portugal de Salazar.

No dia seguinte em que cheguei na Gare d’Austerlitz, em Paris, vi neve pela primeira vez.

No dia seguinte em que nasceu o meu primeiro filho, na clínica do Doutor Frédérick Leboyer, voltei pra casa e tomei uma latinha de Kronnebourg.

No dia seguinte em que ouvi Jelly Roll Morton ao piano interpretando Black Bottom Stomp, quis ouvir de novo.

No dia seguinte em que nasceu a minha primeira filha, fiquei encantado como ela era loirinha e do cabelo espetado.

No dia seguinte em que voltei para o Brasil, tomei uma garrafa de guaraná, ainda no aeroporto do Galeão.

No dia seguinte em que cheguei a Cuba, dei de presente a um jovem que insistiu muito, uma camiseta com a estampa da Madonna.

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‘Em Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas’ (Reprodução)

No dia seguinte à eleição de Fernando Collor de Mello, pensei: Foi a TV Globo que elegeu esse canalha!

No dia seguinte em que o meu primeiro casamento acabou, acordei de madrugada para cobrir os meus filhos e eles não estavam lá.

No dia seguinte em que a Paulinha se mudou pra minha casa, eu preparei um frango assado com batatas e farofa pra ela e pros meus dois filhos do primeiro casamento.

No dia seguinte em que coloquei o primeiro Jornal Nacional no ar, acordei e fui para a TV Globo para colocar o segundo Jornal Nacional no ar.

No dia seguinte em que minha terceira filha nasceu, o meu filho mais velho disse: Pai, finalmente você tem uma filha brasileira!

No dia seguinte em que meu pai morreu, eu coloquei uma fotografia 3X4 dele num porta retrato, em cima da minha escrivaninha.

No dia seguinte em que vi o filme A Vida é Bela, pensei com os meus botões: Será mesmo que a vida é bela?

No dia seguinte em que minha mãe morreu, peguei uma fotografia 3×4 dela, coloquei num porta retrato ao lado do meu pai.

No dia seguinte em que o meu América foi campeão mineiro, ganhei um coelho de plástico de presente.

No dia seguinte em que minha quarta filha nasceu, lembrei-me de uma cigana que leu a minha mão, em Paris, e disse que eu teria quatro filhos.

No dia seguinte em que Lula ganhou a primeira eleição para presidente da República, comprei as quatro revistas semanais de informação e mandei encadernar.

No dia seguinte em que a minha primeira neta nasceu, me senti um velhinho com 47 anos.

No dia seguinte em que cheguei a São Miguel dos Milagres, em Alagoas, acordei na certeza de que a vida é mesmo bela.

No dia seguinte em que Dilma foi eleita, prometi passar um ano sem tomar cerveja e cumpri.

No dia seguinte em que cheguei a Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas em cima de um telhado.

No dia seguinte em que cheguei a Tóquio, descobri uma loja só de discos brasileiros e lembrei-me do Caetano: A bossa-nova é foda!

No dia seguinte em que deram um golpe em Dilma Rousseff, abri a janela da sala do meu apartamento e gritei: Golpistas filhos da puta!

No dia seguinte em que nasceu o meu segundo neto, eu ouvi Raul Seixas cantando Eu nasci há dez mil anos atrás.

No dia seguinte em que entrevistei o ex-presidente Lula, ouvi a gravação e senti um nó no peito.

No dia seguinte que vi um menino, morador de rua, admirando a vitrine de uma loja de brinquedos na Vila Madalena, eu tive certeza de votar 13.

No dia seguinte às eleições de 28 de outubro de 2018, perdi o sono, acordei no meio da madrugada e escrevi esta crônica pra CartaCapital.

 

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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BOM DIA, BRASIL

O dia em que voltei a pisar em terras brasileiras, depois de sete invernos, fazia 40 graus naquela terça-feira de carnaval. Não me esqueço do primeiro guaraná, ainda no aeroporto, depois de tantos anos bebendo Orangina. Conheci dezesseis sobrinhos no mesmo dia. Todos loirinhos, era incapaz de saber quem era quem.

Os sustos foram muitos. No porão da casa dos meus pais, me equilibrei entre livros e revistas espalhados pelo chão, empoeirados, guardados ali a sete chaves por minha mãe. Descobri que a coleção daRolling Stone estava intacta, apenas um número completamente amarelado, segundo ela, xixi da Pink, nossa pequinês que um dia entrou ali sem ninguém ver.

Susto com os motoristas que avançavam seus automóveis em cima dos pedestres, assim que o sinal abria. Susto com as pessoas que não cumprimentavam a cobradora no ônibus, o porteiro do prédio, a vendedora da mercearia. Chegavam e diziam simplesmente: Seis pãozinho!

As alegrias foram muitas também. Ouvir Cajuína pela primeira vez e trazer da banca uma revista novinha em folha, diferente daquelas que chegavam estropiadas na Rue de la Roquette, depois de semanas e semanas nos navios. Alegria de morder uma carambola, de tirar com a colherzinha o miolo da fruta do conde, de espocar na boca uma jabuticaba, coisa que não fazia há quase uma década.

Os primeiros dias foram uma mistura de princípio do prazer com cair a ficha, até me acostumar. Acordava ouvindo o barulho da água saindo da mangueira, da vizinha lavando o quintal e falando português. Estranhava isso. Entrava no armazém, cumprimentava a todos dando bom dia, como se estivesse dando bonjour e quase ninguém respondia.

Ainda na casa dos meus pais, gostava de acordar de manhã e pegar, em cima do capacho, O Globo e o Estado de Minas. Os jornais tinham cheiro, eram em preto e branco e manchavam as mãos. Gostava de ouvir os passarinhos nas árvores do jardim e ver os canarinhos belgas nas gaiolas, saltitando, comendo sementes de jiló e cantando sem parar.

Foram poucos dias em Belo Horizonte, até que peguei um ônibus com destino a São Paulo, precisava trabalhar, dar leite aos dois pequenos francesinhos que trouxe de lá.

No meio do caminho, outros prazeres. O reencontro com o pão de queijo, com o Guarapan e com a paçoquinha Amor nos botecos que o ônibus fazia suas paradas. Ouvia coisas que havia me esquecido, como o motorista estacionar, abrir a portinha e dizer: Quinze minutos!

Tudo era novidade, de novo, para mim. Procurava pela Mirinda Morango e já não havia mais. Como já não havia mais o iogurte Itambé em vidrinho, o Supra Sumo em pacotinhos de alumínio, o drops Dulcora de cevada, nem o suco Yuki em latinha. Mas a bala Chita ainda tinha, mastiguei umas, quase chegando em São Paulo.

Voltei de longe nas asas da abertura, na esperança de que a democracia estava em obras. Encontrei muitas ruínas, prédios abandonados que precisavam de dinamites para serem destruídos e construídos novamente. E foi assim.

Veio a abertura, o Osmar Santos no palanque, ali também Leonel Brizola, Luiz Inácio, Ulysses Guimarães, Mario Covas, Fernando Henrique, toda essa turma. A camiseta com a frase hoje eu não estou bom, a estrelinha de alumínio no peito e uma canção que dizia assim: Passa o tempo e tanta gente a trabalhar/De repente essa clareza pra votar/Quem sempre foi sincero e confia/Sem medo de ser feliz/Quero ver você chegar.

Passei muito calor e alguns vexames, no princípio. Perguntei, um dia, onde andava o estilista Dener e me responderam que havia morrido há anos. Perguntei pelo Dudu da Loteca e me disseram que a Loteca não era mais a Loteca que era.

Fui ficando velho. Vi Collor vencer Lula depois de um debate editado pela TV Globo, vi o Plano Real eleger Fernando Henrique, vi o povo sem medo de ser feliz eleger e reeleger Lula, vi Dilma subir e cair, vi o golpe. Mas 2018 ia chegar, íamos nos livrar de um vampiro e voltar a ser feliz. E o que vejo pela frente, na televisão, é tempo instável, sujeito a rajadas e chuvas no cair da tarde de domingo.

Quase cinco décadas depois, tenho vontade de recomeçar. Ouvir Cajuína num velho disco de vinil, afinal, existirmos a que será que se destina? Mas troco o disco. Vou lá na letra L da minha coleção em ordem alfabética e tiro um disco de Luiz Melodia, que começa com uma canção de Papa Kid que diz assim: Ao som da maraca, do tambor, do bambu, eu vou para Ilha de Cuba, eu vou pra Ilha de Cuba.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

O FIM

A historinha é simples. Um amante da música procura, na maior cidade da América do Sul, os novos discos de Paul McCartney e de Paul Simon. Vai de Fnac em Fnac e encontra as portas fechadas. Fnac não há mais. Resolve ir até a Livraria Cultura do Conjunto Nacional e encontra as prateleiras de discos praticamente vazias, com discos velhos porque os novos não chegam mais, por falta de pagamento aos fornecedores. Tenta a Livraria Saraiva do Shopping Higienópolis e só encontra uns poucos discos do tipo The Best Of. Desce as escadas, chega à Livraria da Vila e quando procura o canto onde ficavam os discos, encontra uma cadeira na frente fechando o espaço. Recebe então a informação de que a Livraria da Vila não trabalha mais com discos. Ai vem um estalo. O amante da música sai do shopping e caminha até a Praça Vilaboin, onde está a Musical Box, uma das mais charmosas lojinhas de discos nacionais e importados da maior cidade da América do Sul. Estava. A Musical Box fechou. Nem a placa está mais lá. O amante da música volta pra casa e coloca no aparelho de som o disco Chega de Saudade, de João Gilberto.

 

ACORDA, AMOR

Sentia um temor permanente no corpo, na atmosfera. Antes de sair de casa, olhava pela janela, para um lado e para o outro, com a sensação de ver um Chevrolet Veraneio estacionado, um milico à paisana na rua, uma rua pacata, ainda com calçamento de pedras retangulares à espera de asfalto, do progresso.

Caminhava até o ponto do ônibus Carmo-Sion, levando a tiracolo uma bolsa de couro cheirando cabrito, comprada no Mercado Modelo de Salvador. Dentro dela, evitava colocar qualquer objeto suspeito. Nenhum livro que tinha na minha pequena biblioteca em quatro móbiles da Mobília Contemporânea. Evitava levar o que estava lendo, O Abajur Lilás, de Plinio Marcos e o que estava relendo, O Vermelho e o Negro, de Stendhal.

Minha mãe tinha os seus temores, mas os guardava em silêncio nas suas preces, já o meu pai era mais rigoroso. Um dia me chamou no seu escritório, trancou a porta, e falou olho no olho. Mandou que eu tirasse imediatamente o calendário da UNE debaixo do vidro que protegia a minha escrivaninha e rasgá-lo em pedacinhos. Tirar, eu tirei, picar não. Escondi. Ele me alertava diariamente, dizendo que todo cuidado era pouco.

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Aconselhava não dar opinião política na escola, não falar alto o que eu pensava. Ele sabia que pessoas estavam sendo presas, torturadas, sumindo pra nunca mais. Mas nunca falou disso abertamente comigo.  Ele se incomodava até mesmo com a minha juba de leão, minha calça boca de sino, minha camiseta manchada de água sanitária e os meus tamancos suecos que não tirava dos pés.

O meu irmão mais velho era diferente de mim, mais pé no chão. Trabalhava e estudava, e já tinha guardado dinheiro suficiente para comprar um fusca branco zero, coitado, que se esfacelou depois de atropelar um cavalo branco na BR-3, quase perda total. Ele era considerado um crânio, colecionava medalhas de ouro que ganhava no Colégio Marista, eram tantas que o meu pai mandou emoldurá-las com um fundo de veludo azul marinho. Eu nunca ganhei uma medalha sequer no Colégio Marista, nem de ouro, nem de prata, nem de bronze.

Às vezes, me perguntava se eu não seria a ovelha negra da família. Levei bomba em francês, repeti o ano e levei bomba de novo em francês. Eu participava do movimento estudantil, não perdia uma reunião do DCE, frequentava as reuniões secretas dos frades capuchinos, recortava e guardava numa pasta, todas as notícias que saiam sobre sequestros, manifestações. sobre José Dirceu, Vladimir Palmeira, Luis Travassos, Jean Marc Fréderic Charles von der Weid e Daniel Cohn Bendit. Numa outra, guardava os recortes sobre a RAF alemã, as Brigadas Vermelhas italianas, os Tupamaros, os Montoneros, o Sendero Luminoso e os primeiros passos dos Sandinistas.

Tudo muito escondido. A minha revolta aumentou no dia em que um tiro atingiu o peito do estudante paraense de dezesseis anos, o Edson Luis de Lima Souto, na porta do restaurante Calabouço, na Cidade Maravilhosa. Comprei a Fatos e Fotos com os estudantes, na capa, carregando o seu caixão pelas ruas do Rio de Janeiro e escondi no sótão da minha casa. Nossa casa era uma casa santa, minha mãe fazia suas novenas, acendia suas velas e rezava por nós, cinco filhos, todas as noites.

Eu tinha muito temor, temor de colocar na parede do meu quarto uma tela em óleo de Ho Chi Min, presente de uma amiga, de colocar na vitrola o compacto simples do Geraldo Vandré cantando Pra não dizer que falei de flores e de tirar de debaixo da cama aquele caixote com os livros marxistas de Apolo Heringer Lisboa. Eu tinha temor de conversar com Aretusa pelo telefone, numa época que grampo não significava escuta telefônica.

Os poucos exemplares do jornal A Voz Operária, os poucos números da Revista Civilização Brasileira, os poucos números da revista Aparte, eu guardava numa gaveta fechada a sete chaves, juntamente com a coleção da Fairplay. Eu fazia das tripas coração para não deixar o temor se espalhar e tomar conta dos cômodos daquela casa grande em que vivíamos. Falava de futebol com o meu pai, flamenguista roxo, e comprava os fascículos de Bom Apetite para agradar a minha mãe. Cuidava do pombal com o meu irmão, dos passarinhos e dos porquinhos-da-índia.

Ouvia atento e guardava para o resto da vida, as histórias do Colégio Sion que minha irmã contava quando chegava em casa. No hall de entrada, havia um mural reproduzindo a vida como as freiras queriam que fosse. Era um cartaz feito com cartolina, algodão imitando nuvens no alto e, embaixo, um colorido azul imitando um lago.

As freiras colocavam nas alturas, fotografias três por quatro das meninas mais aplicadas, aquelas que tiravam dez com louvor. No lago, quase afogando, as fotografias das meninas que corriam risco de levar bomba e repetir de ano. Um dia, fui lá ver se era verdade e era. E sai de lá gostando mais das fotografias das meninas afundando no lago, do que as meninas cdf nas nuvens. A minha guerrilha era silenciosa e particular. Imprimia um jornalzinho no mimeógrafo da escola e saia de lá cheirando a álcool. Era um jornalzinho cultural, com críticas de livros, de filmes e discos e cheio de entrelinhas. Tinha contos porque, nós mineiros, éramos todos contistas.

Lia as cartas que o Caetano mandava de Londres, via Intelsat, para o Pasquim, e tinha vontade de ir embora, pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu tinha temor de ser preso, de enfrentar o pau de arara, de sumir de repente.

Foi longe, a mais de 10 mil quilômetros do meu país, que ouvi pela primeira vez Chico cantando Acorda, amor/Eu tive um pesadelo agora/Sonhei que tinha gente lá fora/Batendo no portão, que aflição/Era a dura, numa muito escura viatura/Minha nossa santa criatura. Ontem à noite, ouvi novamente essa música no YouTube e o meu temor voltou. Mas fui dormir com a certeza de que, apesar de você, amanhã será outro dia.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ilustração Alberto Villas

O TEMOR DA ESCURIDÃO

Quando abri a porta da minha casa hoje, seis horas da manhã em ponto, veio à minha cabeça uma imagem de mil novecentos e setenta e pouco quando, longe daqui, escrevia minhas matérias numa Hermes Baby portátil e, semanas depois recebia o jornal impresso numa cortesia da Varig. Levava um susto com os espaços em preto escrito apenas Leia e Assine Opinião, encobrindo minhas palavras proibidas pelo Departamento de Censura da Polícia Federal. Vinha uma sensação ruim, de tempo perdido, mesmo sabendo que não havia perdido, naquela luta pela democracia. Quando peguei o jornal hoje cedo e virei para ver o que havia na parte de baixo da primeira página, o meu temor era o de encontrar escrito simplesmente Leia e Assine Folha de S.Paulo. É um temor que assombra não somente a mim, mas também as minhas amigas que vieram aqui em casa ontem para conversar e saborear um risoto, ainda com um gostinho de liberdade. E passaram o dia martelando essa palavra e outras ainda não proibidas. O que vi escrito na parte de baixo do jornal de hoje era apenas uma frase anunciando o fim da tela preta. Só me acalmei quando li, bem em cima do logotipo, a informação de que era um informe publicitário. A sobrecapa me acalmou, mas apenas temporariamente. Faltam apenas treze dias pro 28 de outubro.

[foto Alberto Villas]

É BRINDE!

Uma senhora de meia idade desceu esbaforida do seu Jeep Renegade preto, pegou o corredor do estacionamento, subiu uma pequena rampa, virou à direita e foi direto no balcão de atendimento ao cliente:

– Eu quero o tomatinho vermelho de pelúcia!

A resposta negativa da funcionária do supermercado, deixou a senhora de meia idade arrasada, os olhos caídos e um ar de desesperança.

– Como assim, acabou? É o único que falta para a coleção do meu neto Joaquim! Ele tem a banana, o brócolis, a pera e a laranja. Só falta o tomatinho!

Ela apertou nas mãos os códigos de barra de cartolina que dariam direito ao tomatinho vermelho de pelúcia, jogou dentro da bolsa e deu meia volta. Com certeza vai entrar no seu Jeep Renegade, acionar o Waze e procurar onde existe outro supermercado da rede, quem sabe lá ainda tenha um tomatinho vermelho dentro do armário de vidro de brindes?

Brasileiro é doido por brinde e não é de hoje. Menino ainda, meus olhos brilhavam quando o meu pai chegava em casa aos domingos com uma Coca-Cola Família. A felicidade era abrir a garrafa, pegar a tampinha e tirar a cortiça para ver se estava premiada.

O brinde era uma coleção de vinte e um personagens do Walt Disney, que demorávamos meses para conseguir completar. Com cinco tampinhas premiadas, trocávamos por um personagem, o Mickey, o Pateta, a Margarida, o Pato Donald, o Pluto, todos. Lembro-me que a menorzinha era a Sininho.

A Pepsi-Cola correu atrás e, nas Olimpíadas de 1964, lançou uma coleção de bonequinhos, cada um representando um esporte:  Esgrima, lançamento de dardo, natação, futebol, levantamento de peso, eram dez bonequinhos brancos que podíamos colorir com uma tinta especial, da cor que quiséssemos.

A onda dos brindes foi se espalhando. O Toddy dava soldadinhos, o chiclete Ping-Pong dava figurinhas, o Crush dava miniatura de engradado com garrafinhas de Crush, os Postos Shell davam o cafezinho do astronauta, quando ainda escrevíamos cafèzinho assim, com acento diferencial no e.

Era uma época em que colecionávamos selos, colecionávamos chaveiros, caixinhas de fósforo, moedas, carrinhos da Mathbox, colecionávamos até besouros e borboletas no isopor.

A moda era tão moda que o Guaraná Champagne Antártica – era assim que chamávamos – fez uma propaganda na televisão em que um mágico tirava um monte de trolhas da cartola e anunciava: Não troque o seu bom gosto por quinquilharias! O guaraná nunca deu brindes.

A moda do brinde voltou com tudo nesses tempos malucos que vivemos e os supermercados estão surfando na onda. Tem panelas de brinde, tem facas, tem tábuas de carne, tem travessas, tem sementes pra hortinha e tem os charmosos bonecos de pelúcia do Jamie Oliver. Pra mim, está faltando só a pera pra completar a coleção do meu neto Raul.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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É ISSO AI, BICHO!

Quando bati os olhos na fotografia do candidato à presidência da República, Fernando Haddad, com Stick e Atena, várias coisas me vieram à cabeça. Primeiro, Tupi, Jolie, Fly e Pink, cachorros da minha infância. Dois morreram de velhos, um fugiu de casa, talvez tenha sido sequestrado,  e o quarto morreu atropelado por um ônibus da linha Carmo-Sion, em Belo Horizonte. Os quatro foram, durante toda as suas existências, os xodós da família, numa época em que comiam o que sobrava do nosso frango e tomavam banho de água fria no tanque que havia no quintal. Esse amor aos cachorros é real e conheço de perto. A Atena, do ex-prefeito, é muito parecida com a Cher que, de uns tempos pra cá, frequenta nossa casa. Cara de uma, focinho da outra, como dizíamos. Tem o lado do amor e do ódio. Lembrei-me daquele manifestante, defensor do fascismo, que disparou sua arma pra cima de um cachorro que latia muito, atrapalhando a sua manifestação, isso ocorreu recentemente. E lembrei-me também de um parente torto, distante, que adora uma arma, e que vive ameaçando cachorros e gatos sem teto. São essas pessoas que votam em fascistas mas, quem sabe, um dia, o dia 28 de outubro, por exemplo, mudem de opinião? Como disse: Tem o lado do amor e do ódio. O nosso por aqui é do amor.

[foto Ricardo Stuckert]

JK 65

A febre eram os Beatles e quando eles pousaram pela primeira vez no aeroporto JFK, em Nova York, foi difícil para a polícia conter a euforia das garotas enlouquecidas, dispostas a fazer qualquer maluquice por John, Paul, George e Ringo. As rádios não paravam de tocar I want to hold your hand naquele início de mil novecentos e sessenta e quatro.

Por aqui, uma hemorragia no esôfago levava Ary Barroso, autor de canções que bem poderiam ser o nosso Hino Nacional. Foi ele que escreveu os versos que diziam assim: Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos.

No boxe, o bamba era Cassius Clay, que se tornou campeão mundial dos pesos pesados, deixando Sonny Liston caído no chão, sangrando, sangrando muito.

No dia 14 de março, o presidente João Goulart anunciou em um comício na Central do Brasil, as importantes reformas de base que o país tanto precisava. As ideias de Jango não caíram bem na caserna.

 

Uma semana depois, quinhentas mil pessoas saíram às ruas de São Paulo, exigindo a renúncia do presidente da República. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um pontapé para derrubar Jango, acusado de querer trazer o comunismo de Cuba para nossas bandas.

Morávamos em Brasília naquele 31 de março, quando o golpe foi dado. Talvez fomos os primeiros a ver, na calada da noite, a movimentação de tanques na Praça dos Três Poderes, retrato de que a coisa não ia nada bem.

O meu pai não era um homem de esquerda, era apenas apaixonado por Juscelino Kubitscheck, que ele chamava de Nonô. Por ele, o meu pai despencou de Belo Horizonte com cinco filhos, rumo ao planalto central do país, no início dos anos 1960, para instalar ali o Serviço de Meteorologia.

Éramos uma espécie de candangos, comendo poeira que o diabo espalhou naquele fim de mundo. Todos nós gostávamos de morar naquela cidade em obras, menos a minha mãe, que tinha os pés rachados pela secura daquela região.

Meninos ainda, estávamos empenhados na campanha de Juscelino Kubistchek, candidato a presidente novamente em 1965, o ano que não chegou. O meu pai trazia para casa adesivos plásticos que eram moda naquele tempo, todos anunciando que JK vinha aí.

Um abril despedaçado foi passando e, a cada dia, íamos percebendo que aqueles adesivos colados na Rural Willys vermelha e branca do meu pai, estavam perdendo a cor e o sentido. As eleições foram canceladas e uma tristeza enorme se abateu no meu pai.

Ele retirou os adesivos da Rural, talvez com medo da repressão que era maior a cada dia e por ter caído a ficha, o sonho havia acabado.

Ele guardava vários exemplares da revista Manchete com o Nonô na capa, sempre sorridente. Era uma pilha, porque a amizade do velho Bloch com Juscelino era coisa pra se guardar

Domingo, enquanto o meu pai preparava aquela tradicional macarronada na nossa casa, ele colocava na vitrola um disco de Juca Chaves, aquele que tinha uma música para o presidente do coração dele:

villas.pngJK, o presidente bossa nova (Reprodução)

Bossa nova

Mesmo é ser presidente

Dessa terra descoberta por Cabral

Para tanto basta ser tão simplesmente

Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha

De ser o presidente do Brasil

Voar da Velhacap pra Brasília,

Ver a alvorada e voar de volta ao Rio

Um dia, a poeira baixou e voltamos pra nossa Belo Horizonte, tristes e cabisbaixos. O meu pai nos contou que haviam caçado o mandato do presidente Juscelino e que ele nunca mais seria presidente do Brasil.

O meu pai, que era bom em matemática, fez as contas, e nos disse que quando ele pudesse novamente voltar à politica já não teria mais idade. Ou vida.

Com o tempo, o disco de Juca Chaves era só chiado e aquela vontade de ver o meu pai eleger Juscelino Kubitscheck presidente do Brasil novamente, ficou pra trás. Os adesivos, que ele guardava com todo carinho numa caixinha de relógio Omega, hoje, são apenas objetos de desejo de colecionadores à venda no Mercado Livre. E como dói.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU TIPO INESQUECÍVEL

Conhecíamos, de nome, há muito tempo, a Tia Margarita, ainda com o “a” no final. Ela ganhou esse “ae”, na Itália, quando descíamos rumo a Grécia para conhecê-la pessoalmente.  Foi de repente que o apelido surgiu e pegou, para sempre, apenas para dar um ar de antigo, de latim a seu nome.

Sabíamos pouco dela, que morava no povoado de Vryses, no Peloponeso, que já passava dos noventa anos e que tinha uma espingarda atrás da porta principal da sua casa, pro que desse e viesse.

A única foto que conhecíamos de Tia Margaritae, era uma imagem em preto e branco, meia sem foco, ela com a espingarda em punho na varanda da sua casa, acredito eu que uma brincadeira das irmãs Vlahou, sobrinhas dela.

Cruzamos a Itália, chegamos a Brindisi, esperamos horas e horas o navio para, finalmente ganhar Patras e continuar a viagem de carro, rumo a Vryses, onde passaríamos uma temporada, numa casa quase em frente a da Tia Margaritae.

Chegamos cansados, aflitos e muito ansiosos para ver como era a vida no povoado e finalmente, conhecer a tal tia.

Pouco mais de um minuto depois de estacionar o carro debaixo de uma árvore, ela ouviu o ronco do motor e apareceu. Desceu as escadas da sua casa e veio andando devagarinho, amparando-se numa velha bengala, nos saudando.

Chegou até nós, abraçou um a um e, mais efusivamente, Olga, a sobrinha de sangue. Ela falava grego com todos, como se não houvesse outra língua no mundo, acreditando que todos entendiam perfeitamente a língua de Sófocles. Não fosse Olga, amiga do peito e nossa tradutora, estaríamos perdidos porque, para nós, o que Tia Margaritae falava parecia – e era – grego.

Não demorou muito, ainda estávamos desfazendo as malas e tentando entender o funcionamento da casa, ela surgiu novamente na nossa sala, com meia dúzia de figos nas mãos, oferecendo a cada um de nós e tentando explicar que eram frescos, safra 2018, retirados agorinha do pé no seu quintal.

Durante uma semana, Tia Margaritae frequentou a nossa casa como uma velha amiga. Nunca quis comer nada que oferecíamos porque estava no período de jejum e isso, para ela, era sagrado.

Depois dessa primeira semana, a sobrinha grega foi-se embora e nós três – eu, Paulinha e Annamaria – ficamos ali prontos para viver sozinhos num pequeno povoado de 74 moradores em que todos falavam o grego perfeitamente, mas só o grego.

Tia Margaritae virou nossa guardiã. Durante um mês, ela vigiou nossa casa quando estávamos fora, sempre preocupada com os ladrões, mesmo sabendo que o último larápio que passou por ali data de mil anos antes de Cristo. O medo dela era que alguém roubasse a torneira que ficava na varanda da casa.

Ela me ensinou a capinar, a colher limões sicilianos no pé, a podar a trepadeira, a varrer a calçada, a regar as plantas, a fechar portas e janelas e, principalmente, retirar a torneira do cano à noite para que nenhum aventureiro passasse a mão. Ela dava ordens como um bom sargento e só nos restava obedecer.

Tia Margaritae nos abasteceu quase que diariamente com uma verdura que ela fazia refogada no azeite e nos trazia em pratinhos de porcelana, uma verdura que nunca soubemos o que era. Só sabíamos que a tradução era verdura e era deliciosa, comida com pão.

Um dia ela preparou a sua especialidade, batatas fritas com dois ovos estalados em cima. Trouxe até a nossa casa e aquilo, para nós, foi o manjar dos deuses. Ela mesmo não experimentou sequer uma batatinha, respeitando o seu jejum. Tia Margaritae fritava tudo no azeite, acho mesmo que nunca soube da existência do óleo de soja, milho ou girassol.

Num domingo, ela nos levou para conhecer a Igreja Ortodoxa do povoado, uma construção deslumbrante. Ela ficou um bom tempo sentada na primeira fila, olhando curiosa a luz que entrava pelos vitrais, cada imagem, cada cantinho, apesar de conhecê-los de cor e salteado.

Um dia, ela nos convidou a ir até a sua casa. Foi então que colhemos cebolas na sua horta e aprendemos a arrancar figos maduros do pé, no seu quintal. Até alcachofra ela tinha plantada, quase em flor.

Tia Margaritae nos serviu um café à sua moda, forte e parecido com o café dos turcos, com um pouco de pó no fundo da xícara. Lembro-me que repeti a dose três vezes, de tão gostoso que estava.

Tia Margaritae contou histórias da sua infância, de uma aventura na Turquia quando os inimigos jogaram ribanceira abaixo, o ônibus de excursão em que ela estava.

Na parte de cima da casa, uns poucos móveis, uma cristaleira com louças empoeiradas porque, cansada de guerra, raramente ela subia aquelas escadas. Ao lado de um armário, havia uma imensa bandeira da Grécia enrolada, talvez usada no passado nas festas do povoado.

Durante um mês, nossa convivência foi diária e intensa. Os figos que ela nos trazia, quando não estávamos em casa, deixava no cantinho da janela, que logo percebíamos quando chegávamos.

No dia em que despedimos dela, vi que havia um brilho de lágrima em seus olhos e um ar de tristeza profunda. Ia me esquecendo de contar que, atrás da porta principal da casa de Tia Margaritae, não era lenda, havia mesmo uma espingarda, uma velha garrucha enferrujada, incapaz de matar uma mosca.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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QUARENTA E CINCO DIAS DE SOLIDÃO

Na primeira manhã em Beirute, acordei ao som de uma bolinha de ping-pong. Desci as escadas ainda meio sonolento e vi, antes de chegar ao térreo, dois soldados animados jogando, enquanto um terceiro enchia um embornal no bebedouro instalado ao lado da mesa.

A primeira refeição na American Comunity Scholl, onde me instalei para passar quarenta e cinco dias, foi suco de romã, pão preto com geleia de laranja amarga, um copo de coalhada, uma ameixa vermelha e uma xícara de Nescafé granulado, diferente do nosso, em pó.

Na mesinha de centro da sala de recepção, rodeada de confortáveis poltronas, o jornal L’Orient-Le Jour anunciava, na primeira página, os conflitos do dia de uma guerra sem fim. Também na mesinha, um catálogo telefônico magrinho como um fascículo com os telefones de todo o país. A curiosidade me levou até a letra H – de Haddad – do meu primeiro sogro, que fugiu da guerra para o Brasil, na juventude, e nunca mais voltou.

Do lado de fora, o jipe dos soldados estava estacionado em cima da calçada e, debaixo dele, um gato cinza morto cheirava mal. Prendi a respiração e vi, lá longe, o sol refletindo no mar azul, batendo nas pedras.

Não havia Internet, não havia Google, Smartphone, Instagram, WhatsApp, Waze, não havia o mundo digital e um telefonema custava os olhos da cara. Me senti meio no fim do mundo, isolado, longe de tudo e de todos, sem notícias das coisas do meu país abençoá por Dê e boni por naturê. Senti-me preparado para viver quarenta e cinco dias de solidão.

O primeiro dia foi de andanças, entrando e saindo por ruas, ruelas, becos, avenidas, ruinas. A cidade não era bonita à primeira vista, muitos buracos de balas nas paredes, sacos de areia nas esquinas, muita poeira, tanques a postos em lugares estratégicos, mas ao mesmo tempo, uma cidade fascinante, viva, sobrevivente.

De perto, vi que aquele mar rebelde era tão violento que descolava os musgos das pedras, jogando fiapos nas calçadas, onde algumas prostituas se ofereciam em vestidos curtíssimos e olhos borrados de preto.

O cheiro que vinha dos restaurantes espalhados pela cidade dava muita fome. Parei em um deles – Le Renard et les Raisins – com mesinhas espalhadas debaixo de uma imensa parreira carregada de uvas verdes, a sombra que precisava naquele verão árabe de 40 graus.

Havia quibe no menu, quibe assado numa pequena travessa, feito com muito hortelã e carne de carneiro. Aquele quibe, arroz branco com amêndoas e uma salada de pepino foi a minha refeição, acompanhada de um copo de cerveja Almaza, estupidamente gelada, e um pedaço de melancia de sobremesa.

A essa altura, meus cabelos longos já haviam virado um rabo de cavalo escondido dentro de um boné porque era impossível naquela Beirute conservadora dos anos 1970, um cabeludo andar sossegado pelas ruas da cidade. Fazia fotos de tudo que via de interessante pela frente. Cabras pastando em lotes vazios, homens de mãos dadas, idosos de bengala e kufiya na cabeça, vendedores de chá circulando pelo rush, homens rezando nas mesquitas e geladeiras dos bares cheias de Crush. Foram dezenas de fotografias que acabaram se perdendo quase todas com o tempo e com o rumo que a vida tomou.

(Reprodução)

Comprei de um ambulante que vendia revistas em cima de uma lona estendida na calçada, um exemplar da Luluzinha em árabe, que se chamava simplesmente Lulu.  Capa colorida, miolo em preto e branco, impressa num papel quase jornal. Paguei com duas moedas, sem dar uma palavra com o jornaleiro, que não falava francês.

Procurava os cedros e não achava. Em pouco tempo percebi que era o mesmo que procurar uma árvore de Pau-Brasil na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “Só no interior, numa pequena reserva” – me diziam – estavam os últimos cedros.  Mas ele continuava firme e forte estampado nas bandeiras tremulando espalhadas por todos os cantos da cidade.

No fim da tarde, já exausto, com calos nos pés e o meu tênis Bamba coberto de poeira, voltei para a American Comunity Scholl. Foi então que percebi que na porta de entrada havia uma reprodução do famoso Love, de Robert Indiana. Mais uma fotografia para o meu álbum.

No quarto, debaixo de uma luz forte de uma luminária em cima da escrivaninha, arrumei na minha carteira de couro, as notas sujas e amassadas de libras libanesas, tirei da máquina o filme Kodachrome de 36 poses que ainda estava ali dentro, folheei a Luluzinha falando árabe com o Bolinha e fiz minhas anotações. Só hoje, relendo essas anotações, vejo que escrevi: “No radinho de pilha em cima do criado-mudo, Maria Bethânia canta Esse Cara”, como se aquela canção estivesse ali dentro guardada para me saudar.

No final da noite, desembrulhei o pedaço de quibe que sobrou do almoço, coloquei num pratinho e peguei uma Pepsi-Cola na geladeira que ficava ao lado da porta com o Love. Fui dormir com o barulho ensurdecedor dos aviões de guerra que cruzavam o céu da cidade. Fui dormir tentando sintonizar alguma língua conhecida no radinho de pilha que pouco antes tocara Bethânia em bom português.

No meio da noite, acordei com o silêncio que se instalara. Fiquei ali deitado debaixo de um lençol de listras azuis e amarelas, pensando nos quarenta e quatro dias que ainda tinha pela frente e a missão de achar algum Haddad, algum parente do meu primeiro sogro.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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BEIRUTE À VISTA!

De tempos em tempos, eu me pergunto por que diabos resolvi, um dia, no verão de mil novecentos e setenta e cinco, aos vinte e cinco anos de idade, sair de Paris e ir parar em Beirute, por terra.

Não houve planejamento algum. Não comprei passagem, não reservei hotel, apenas coloquei um mapa-mundi no chão da sala da minha casa e fiz um traçado com caneta Stabilo Boss verde limão. Era um mapa mundi surrado, comprado ainda na Livraria Itatiaia, antes de deixar o Brasil.

Parti numa manhã de verão, com a cara e a coragem, levando apenas, nas costas, uma mochila de lona cheia de ilusão. Aos vinte e cinco anos de idade, tudo era divino, tudo era maravilhoso e eu não tinha tempo de temer a morte.

Durante muitos dias, andei de trem, de ônibus, de caminhão, de carona, de navio, e até de avião, num pequeno percurso antes de chegar a Beirute. Eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus, e seguia à risca a música de Jards Macalé e Waly Salomão.

Atravessei montanhas, lagos, rios, sete mares até chegar ao meu destino. Sai da França, desci a Itália, atravessei pra Grécia, passei pela Bulgária, cheguei perto da Albânia, alcancei a Turquia, depois a Síria e finalmente, Beirute.

As anotações que restaram são poucas, mas não me esqueço do longo percurso dentro de um vagão de trem, atravessando a Itália, de norte a sul, com aquela mochila nas costas, sem espaço para colocá-la no chão. Não me esqueço das horas e horas que passei no porto de Brindisi, esperando aquele velho navio, na esperança de reaver o passaporte que foi embora nas mãos de um policial.

Da Grécia, lembro-me de uma praça central, rodeada de árvores floridas que faziam sombra nos bancos de concreto, onde fiz da minha mochila, travesseiro.

Lembro-me das doze horas que passei para entrar na Bulgária e dos dois dias que passei comendo biscoito waffes, a única coisa que tinha para comer. Da Síria, não me esqueço da poeira e das primeiras placas enferrujadas escritas em árabe, aquele alfabeto que me deixou embriagado de paixão.

Nunca me esqueci de Alepo, quando Alepo ainda era uma cidade de pé, viva, onde as pessoas se divertiam nos cafés jogando dominó e bebendo arak, o néctar dos deuses.

A chegada a Beirute foi nas asas de uma velha aeronave da Turkish, cujo guardanapo, lembro-me bem, tinha a imagem de um porco e um X cruzando o seu corpo.

Já era noite e com aquele calor sufocante, só me restou pegar um taxi, um velho Impala 1960 e pedir ao motorista que me levasse até a Universidade Americana, onde passaria os próximos quarenta e cinco dias.

O alívio foi muito grande quando percebi que todas as pessoas no aeroporto de Beirute falavam francês e o motorista do táxi também. Depois de tantos dias driblando o italiano, tentando falar inglês com os búlgaros, fazendo mímica para os gregos e turcos, e sem entender uma palavra sequer na Síria, me senti em casa.

Na primeira esquina, o motorista perguntou de onde vinha e eu fui bem claro. De um país tropical, muito longe dali, onde uma ditadura militar tomou conta do espaço e me sufocou. Ele não quis saber mais nada, contou que o que conhecia de Brasil era a música de Jorge Ben. Cantarolou Mais que nada/Sai da minha frente que eu quero passar/O samba está animado/O que eu quero é sambar, e me contou que tinha todos os seus vinis.

Desviou o caminho e me levou até a sua casa, um pequeno apartamento onde vivia com a mãe. Era um ambiente sombrio, o chão coberto de tapetes persas, as paredes entupidas de fotografias de parentes mortos e uma antiga eletrola com espaço para guardar os discos de vinil, na parte de baixo.

Ali estavam os velhos e surrados discos de Jorge Ben, que ele conhecia tão bem. Ligou a geringonça e logo ouvi aquela voz inconfundível cantando Take It easy, my brother Charles/Take It easy meu irmão de cor…, a canção que ele também sabia de cor.

Tomamos suco de romã pra matar a sede e logo depois sua mãe me serviu arak numa pequena taça vermelha e dourada. Uma, duas, três. Foi difícil conseguir sair dali e pegar o meu rumo com destino a Universidade Americana. Mas cheguei.

Fui instalado num pequeno quarto moderno e colorido. A cama era amarela, o pequeno armário era azul, o criado mudo verde e a escrivaninha preta. A janela era pequena e ficava bem no alto. Tive de subir na cama para ver lá fora.

A escuridão era total e o silencio só era quebrado de tempos em tempos por um barulhinho bom, não sabia se de grilo, cigarra, sapo ou passarinho.

Só na manhã seguinte, com o sol na cara, voltei a observar o lado de fora de Beirute. Era um descampado, chão de terra batida, onde um grupo de jovens militares fazia exercícios. Nada muito interessante. Nenhum cedro, nada que me remetesse a Beirute.

Eu tinha os cabelos compridos, na cintura, e não pesava mais que cinquenta quilos. Quando pus os pés na calçada, um grupo se aproximou de mim e todos ficaram observado a minha figura dos pés a cabeça. O que fazia aquele ET em Beirute, se a manchete do L’Orient-Le Jour era guerra à vista?

Um pequeno bistrô, ao lado, exibia charutinhos de folha de uva na vitrine e um caixote de romãs maduros estava ali encostado na parede, do lado de fora. O cheiro dos temperos que vinha lá de dentro era muito forte, com certeza já fritavam linguiças merguez polvilhadas com harissa.

Com uma Pentax a tiracolo, dei o primeiro passo e vi Beirute. Fiz a primeira fotografia de uma das cidades mais fascinantes do mundo. Isso eu vou contar na semana que vem.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ONDE ANDARÁ BEATRIZ?

Nos anos em que vivi fora daqui, em Paris, fiz muitas amizades. De gente maluca que gostava de sonhar a físicos, matemáticos e músicos que estavam ali de passagem, com o objetivo único de estudar. Muitos continuam presentes virtualmente na minha vida, curtindo e compartilhando nas redes sociais, trocando mensagens sem contato físico, mas dentro do coração. Outros, com o passar do tempo, sumiram na poeira da estrada. Nunca mais tive notícias.

De tempos em tempos, minha memória parte para o espaço sideral, em busca de lembranças, apenas lembranças que ficaram perdidas por aí.

Azeitona, por exemplo, que chegou animado em estudar agronomia e nunca estudou. Cacá, quase um monge budista que dizia estar procurando emprego, mas morrendo de medo de encontrar. O arquiteto Zé Octávio, que abandonou a portaria do Hotel de la Grece, onde trabalhava, e se juntou aos manifestantes que passaram numa ruela do Quartier Latin protestando exatamente contra o governo de Michail Stasinopoulos.

Ceará, que um dia resolveu fazer farofa com ovo, bacon e serragem, acreditando que daria certo. O gaúcho Darci, que inventou seu próprio vocabulário chamando gasolina de essência, a lixeira de pubele e o Líbano de Libão, são alguns exemplos.

E tinha Beatriz.

Beatriz era uma mineira do interior que chegou para animar a festa. Lembro-me bem que tinha onze irmãos, todos com os nomes começados em Be. Adorávamos quando ela repetia, como um narrador de turfe, os nomes de todos eles: Era Beatriz, Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

Beatriz chegou e alugou um pequeno studio num quarteirão aconchegante de Paris. Ficava no sétimo andar de um prédio sem elevador, mas o problema maior é que não tinha banho, isto é, não tinha chuveiro nem banheira. Mas Beatriz deu o seu jeito.

Arranjou um emprego de faxineira e andava pra lá e pra cá com uma sacolinha do Prisunic, com o seu kit banho: Toalha, sabonete, xampu e uma calcinha. Onde chegava, não fazia cerimônia, pedia pra tomar banho. Lá em casa já estávamos acostumados. Quando ia se despedir, perguntávamos se não ia tomar banho. Ia, claro. Ela se deliciava com aquela água quentinha para amenizar o inverno rigoroso.

Beatriz contava histórias ótimas como aquela do pai dela, mineiro metódico, que todos os dias às seis horas da manhã em ponto, pegava o regador e saia para molhar a horta, além das flores e das folhagens que cultivava no quintal de sua casa, lá no interior de Minas. Mesmo quando estava caindo um toró, o pai de Beatriz pegava a galocha, o guarda-chuva e saia com o regador para molhar suas plantas.

Beatriz falava um francês muito particular. Gostava de ensinar para os franceses as delicias da culinária brasileira: Vous prenez le feijão preto, puis vous ajouter toutes les types de viande, carne seca, paio, costelinha, orelha, rabo… E continuava. Ah, il y a aussi de la farinha de mandioca pour faire de la farofa. Ajoutez la couve refogadinha e aussi des morceuax de laranja seleta e torresmo. Os franceses ficavam com os olhos arregalados tentando entender e a gente fazendo xixi de tanto rir.

Um dia ela chegou esbaforida na nossa casa, dizendo  que estava cagada de arara! Um francês perguntou o que ela havia dito e Beatriz começou a explicar: Vous conaissez le perroquet?

De repente, Beatriz chegou com uma novidade. Estava namorando um árabe, não me lembro se do Marrocos ou da Argélia. Mustafá estava apaixonadíssimo por ela, mas tinha um problema. Não se conformava em Beatriz trabalhar fora. E a relação funcionava assim: Ele chegava do trabalho por volta de sete da noite e se ela não estivesse em casa, começava a beber cerveja.

Quantas e quantas vezes ela passou na nossa casa, tomou um banho rápido e saiu voando, porque senão ia chegar tarde em casa e encontrar Mustafá esparramado no sofá, depois de beber uma dúzia de latinhas de Kronnebourg.

A última vez que vi Beatriz foi no seu bota-fora. Prepararmos uma galinha d’Angola com couve de Bruxelas pra ela, uma despedida à altura. Até uma cachacinha mineira apareceu naquele dia. Mais uma vez rimos muito, comemos muito, nos divertimos demais e desejamos a ela boa viagem e sorte na sua volta ao país tropical.

Beatriz pegou o primeiro avião com destino a felicidade e nunca mais tive noticias. Já cansei de procurar nas redes sociais e nada. Queria vê-la nem que fosse um tiquinho, como ela dizia. Pelo menos para ela recitar o nome dos onze irmãos: Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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OS JOVENS NÃO PASSAM ROUPA

É muito vaga a minha lembrança do ferro a brasa. A única que me vem à memória, é lá da Fazenda do Sertão, interior de Minas, eu menino ainda, espiando da janela uma senhora idosa passando roupa com o tal ferro. Éramos proibidos de entrar ali porque saiamos tossindo muito e defumados.

Era uma senhora negra, franzina, um lenço branco na cabeça, que enfrentava com todo vigor uma pilha de roupas pra passar, que ela costumava deixar dentro de um enorme cesto de vime.

Na Fazenda do Sertão não havia eletricidade, vivíamos de lamparina e a solução para passar roupa, era aquele pesado ferro a brasa, uma verdadeira maria fumaça.

A senhora soprava e colocava brasa toda vez que sentia que a roupa não estava ficando lisinha e impecável. Eram uns lençóis brancos, umas fronhas bordadas e muita roupa encardida de crianças que viviam naquela poeira danada, barro quando chovia.

Muitos anos depois, vi alguns ferros a brasa no interior de Minas, decorando casas, com arranjos de flores dentro, ou segurando a porta para não fechar.

Quando chegou o ferro elétrico, o temor da minha mãe veio junto. Era uma época em que os aparelhos eletrodomésticos davam muito choque e minha mãe só encostava no ferro de passar com uma sandália de borracha nos pés.

A minha irmã mais velha logo ficou apaixonada pelo tal ferro elétrico, tão apaixonada que o meu pai deu a ela de presente de Natal, um ferrinho de passar roupa da Estrela. Era um ferrinho de verdade, com fio e tomada, que ligava e esquentava. Parecia que ninguém tinha medo do perigo.

A mamadeira era de vidro, andávamos em muros com cacos, fazíamos guerra de mamona, jogávamos bola na rua e andávamos armados com um revólver de espoleta na cintura, também da Estrela. A gente matava e nossos amigos morriam de mentira.

Voltando ao ferrinho da Estrela, um dia, minha irmã saiu do banho e foi passar a roupinha da boneca. Descalça e com os cabelos molhados, ela acabou levando um choque violento e ficou presa a ele, gritando por socorro. Foi depois disso que minha mãe escondeu o ferrinho no alto do armário, pra ninguém nunca mais pegar.

Estou contando essas histórias, mas a que eu quero mesmo contar é que percebi ultimamente, que essa juventude de hoje não passa mais roupa. Ninguém das amigas ou amigos das minhas filhas, nem mesmo elas, passam roupa. Acham que é inútil, uma bobagem, gastar tempo e energia passando roupa.

Eu não me acostumo com roupa amassada. Outro dia liguei pros meus irmãos e perguntei se eles ainda passavam roupa. Sim, todos continuam saindo sempre na estica. Alguns gostam de passar, outros não. Mas todos fazem questão de sair com a roupa passada.

Foi então que minha irmã lembrou de Maria Passadeira que, confesso, havia sumido da minha memória há décadas. Ela foi reativando à medida que minha irmã ia abrindo seu baú de memórias.

Ninguém sabia o sobrenome da Maria. Era Maria Passadeira e pronto. Uma vez por semana, ela ia na nossa casa pra passar roupa. Chegava, tomava um cafezinho ralo com um pedaço de pão com manteiga, encurtava a conversa e dizia: “O papo está ótimo, mas eu tenho um mundo de roupa pra passar”.

E tinha mesmo. Éramos cinco filhos e muita roupa, muitos lençóis, muito uniforme de futebol, muita camisa social do meu pai. Mas a Maria Passadeira nunca reclamava. No final do dia, ela ia de quarto em quarto e colocava, em cima da cama de cada um, a roupa impecavelmente passada.

Maria Passadeira não sabia cozinhar, não gostava de arrumar a casa, gostava só de passar roupa. E passava bem, inclusive engomando aquelas saias plissadas das minhas irmãs, uniforme do Colégio Sion.

Não sei se ainda existem passadeiras como Maria Passadeira, que vão na casa das pessoas exclusivamente para passar roupa. Talvez tenham desaparecido juntamente com as costureiras à domicilio, com o Simca Chambord, com a Mirinda Morango, com os maiôs Catalina e com as estampas do sabonete Eucalol. Enfim, tudo passa.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NÃO CHORE MAIS

Quando o inverno apertava, os ossos começavam a doer ao abrir, todas as manhãs, a janela da sala, encravada pela ferrugem e por uma tinta óleo de anos. Havia um silêncio no ar e o silêncio ocupava os poucos cômodos daquele apartamento alugado num bairro comunista de Paris, abrigo de exilados. 79, Rue de la Roquette.

O fog, a chuva fina lá fora, o brilho da água no asfalto novo refletia no vidro das janelas e no nosso chão, como se fosse um cinemascope. Eu passava a mão como se fosse a rosa púrpura do Cairo e não sentia nada, nenhum calor naquela luminosidade.

Era melhor mesmo ficar em silêncio por alguns minutos. As cartas não chegavam mais, nenhuma foto, nenhuma revista, nenhum recorte de jornal na caixa de correio instalada na parede mofada na entrada de onde residia.

Líamos jornais clandestinos vindos do Sul, o manual de guerrilha de Carlos Marighela, os fascículos da Editora Maspéro e a Nouvel L’Obs para aluviar.  Vínhamos andando pelo Boulevard Saint Germain, descíamos o Saint Michel, passávamos pela barraca de drágeas colorias, balas perdidas em potes de plástico, e chegávamos na Livraria Joie de Lire.

Um ar meio maoísta tomava conta do lugar e eu descia cuidadosamente os degraus da escada estreita até chegar ao subterrâneo onde estava o Opinião, onde estavam, em uma mesa redonda, todos os jornais uruguaios, argentinos, chilenos e peruanos.

Sabia que a distância era tão sofrida, o mundo tão separado, jamás se hubiera encontrado, sin aportar nuevas vidas. E quem garantia que a história era uma carroça abandonada numa beira de estrada, ou numa estação inglória?

Em casa, lia Dalton Trevisan para aprender a escrever curto e grosso. Queria, para os meus contos, nomes de obras primas dos gênios da pintura espalhadas pelos museus do mundo que começava a conhecer.

Rapariga com brinco de pérola, O cavaleiro risonho, O baile no Moulin de La Galette, A noite estrelada, Menino em um colete vermelho, Natureza morta, O beijo e O grito.

Queria ter nascido holandês para entregar esses manuscritos no Ministério da Cultura em Amsterdam e receber por eles um punhado de florins que daria para comprar pão preto, geleia de laranja amarga, um triângulo da Vache qui ri e um vidrinho de Nescafé.

Queria descrever cenas dos meus companheiros colhendo morangos nas cercanias de Estocolmo, colhendo tâmaras no interior da Síria ou colhendo uvas na região de Bordeaux. Eram amigos que trabalhavam na cozinha, nas estradas, campos e construções.

A dor nas costas era intensa de tanto separar as uvas verdes das maduras, o joio do trigo, encontrar a agulha no palheiro. Queria ser Esopo pra escrever e Marc Chagall para ilustrar as uvas verdes nas alturas, maldita raposa.

Queria colher o trigo, amassar o pão, colocar na vitrola O evangelho segundo Cristiano, mesmo sabendo que o vinil estava arranhado de tanto uso, o chiado forte, Geraldo Vandré.

Me alegrava o pessoal do Nordeste gravando discos na CBS e os urbanos de São Paulo gravando na Continental. Walter Franco cantando nothing, to do nothing, today, about me, I’m happy no, I’m not sad, I just happy now, looking to the empty space.

Eu olhava pro espaço sideral na esperança de ver Laika passeando no céu de cosmonautas que nos protegia. Aqui não era Londres, mas mesmo assim havia no canto o silêncio do meu violão, nem eu mesmo sei porque.

Procurava nas páginas amareladas do Pasquim, notícias sobre aquele exilio recém anistiado de Caetano Veloso e Gilberto Gil e encontrava apenas nostalgia, tudo tão triste, uma saudade danada do mar da Bahia e fragmentos do Demiurgo numa câmera Super-8.

Lembrava da minha coleção do jornal Rolling Stone encadernada e tentava recordar se havia alguma noticia ali do Festival da Ilha de Wright, notícias de Janis, de Jimi e principalmente de Joe. Pedia apenas um help, uma pequena ajuda dos meus amigos, amigos que a essa hora estavam ali sentados no aterro sob o sol, presos ou sumindo pra nunca mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ORGANIZANDO O MOVIMENTO

Andando pela Rue des Écoles, em meados dos anos 1970, parei perplexo diante da vitrine de uma livraria que não conhecia. Vi ali exposto o livro Cemitério de Elefantes, de Dalton Trevisan, de contos curtos e instigantes, que também não conhecia.

O que estaria fazendo aquele livro do vampiro de Curitiba, em português, numa livraria no coração do Quartier Latin? Fui saber quando dei dois passos atrás e li: Librairie Portugaise e Brésilienne.

Longe do meu país há um tempo, entrei maravilhado descobrindo, aqui e ali, livros em português e discos de vinil de MPB. No primeiro dia que entrei ali, levei pra casa, além do Cemitério de Elefantes, o disco Romaria, de Renato Teixeira, que já tinha lido a respeito nos recortes de jornais que meu irmão enviava pelo correio.

Virei freguês. No segundo dia que entrei naquela livraria vi, de pé ao lado do caixa, um senhor elegante que me pareceu familiar, jeito de mineiro como eu. Vim a saber que era o José Maria Rabelo, jornalista, exilado, fundador do jornal Binômio, que circulava na minha Belo Horizonte, quando eu era ainda menino de calças curtas.

O Binômio foi um jornal que virou Minas Gerais de cabeça pra baixo, uma espécie de Pasquim das montanhas. Nunca me esqueci daquela manchete do dia em que o presidente Juscelino Kubitschek voou num jatinho pra Araxá levando o empresário Francisco Rolla. No dia seguinte, lá estava estampada na primeira página do Binômio:

JK vai a Araxá e leva Rolla!

Criei coragem e me apresentei. Zé Maria Rabelo, como todos o conheciam, ficou interessado no Movimento, jornal que eu trabalhava como correspondente na época. Ele era leitor. Contei a ele do nosso plano de vender o jornal para exilados em Paris, que eram mais de dez mil.

– Vamos vender aqui! Disse ele, sem pestanejar.

Aquilo bateu como um vento forte de animo para nós, cansados de guerra, resistindo bravamente. A ditadura militar já começava a dar sinais de que, mais cedo ou mais tarde, bateria as botas.

Todos os dias, eu acordava às quatro horas da madrugada porque, cinco em ponto, eu já deveria estar no restaurante Les Hauts de Belleville, onde servia o café da manhã para os trabalhadores.

Nove horas, com tudo em ordem, fechava as portas e ia pra casa descansar.

Depois daquele encontro com Zé Maria Rabelo, virou rotina. Toda segunda-feira depois do expediente, eu pegava o ônibus na Gare Denfert-Rochereau com destino ao aeroporto de Orly. Na alfândega, me apresentava e recebia um pacote com cem exemplares do jornal Movimento, embrulhados em papel kraft e amarrados com um forte barbante.

Colocava dentro de um carrinho de feira e voltava no mesmo ônibus que me deixava novamente na Gare Denfert-Rochereau. De lá, pegava o metrô e ia até a estação Saint-Michel, que ficava perto da livraria do Zé Maria.

Ele sempre me recebia de braços abertos e, feliz, mostrava a prateleira onde ficava o Movimento, quase vazia. Seus olhos brilhavam ao ver aquele pacote de jornais frescos. Fazia as contas de quantos tinha vendido na semana e me pagava em dinheiro, francos franceses vivos, dinheiro que dava pra comprar o leite e o croissant das crianças.

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Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância 

Ficamos amigos, nunca íntimos, mas amigos. Foi na livraria do Zé Maria Rabelo que um dia, fuçando os vinis, vi, ao meu lado, uma tímida Nara Leão. Mas essa é outra história.Um dia, eu e Zé Maria Rabelo voamos de volta pro Brasil nas asas da abertura, cada um pro seu canto. De vez em quando, tenho notícias dele pelo Facebook.

Essa semana fiquei sabendo que estava comemorando 90 anos de vida, com direito a palestra sobre os caminhos do exílio, no evento Sempre um Papo, do incansável Afonso Borges, um sucesso em BH.

Pedi ao Fernando, filho do Zé Maria Rabelo, uma foto recente dele para ilustrar essa crônica e o retrato chegou em poucos minutos pelo messenger, bem caprichado.

Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância que me recebia toda segunda-feira na Librairie Portugaise et Brésilenne. O Zé Maria Rabelo é um desses tipos inesquecíveis, mineiro boa praça, que continua firme e forte, organizando o movimento.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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