RATO DE BIBLIOTECA

Era um velho fantasma. Claudicava da perna e padecia de asma. Baixando de seus mundos
intersidéreos, vagos, à procura de afagos, encontra a noite quente, noite aberta, carioca,
e uma porção de gente. Ontem fui um rato de biblioteca, arrumando os meus livros, passei o dia. Estava pra fazer isso há anos e ontem, domingo de confinamento, um solzinho frio lá fora, comecei cedo. Descobri livros esquecidos, todos absolutamente fora de ordem para diversão da minha cabeça organizada, que não admite nada fora de ordem. Aqui é o meu canto anárquico, espanta com a surpresa de ver Francisco Julião ao lado de Sartre, Salinger encostadinho em Sontag, Matisse vivendo em perfeita harmonia com Clarisse. Minha mulher se espanta ao ver tantos livros tão organizadinhos,espanados, mas absolutamente fora de ordem. Gosto disso para exercitar minha memória de velho. Onde está Istambul de Orham Pamuk? Onde está Um Campo Vasto, de Günter Grass? E O Rio é tão longe, de Otto Lara Resende? Vem um frio na barriga, mas acabo achando. O desafio é este. Chego quebrado ao final do dia, de tanto subir e descer uma pequena escada de alumínio em busca daquele Rubem Fonseca sumido, para reler. Encontro quatro Garcia-Rosa e folheio. Paro em cada um: Paul Auster, Chico Buarque, Piglia, Bolaño, Mário Faustino e todos os latino-americanos: Puig, Fuentes, Sábato, Cortázar, Borges, e aquela montanha de García Márquez, minha paixão desde jovem, quando li pela primeira vez Cem anos de Solidão. Dor nas costas, exaustão. Engulo um Dorflex. Amanhã tem mais. Terminei o dia folheando Drummond. Parei em Assombração: “Era um velho fantasma. Claudicava da perna e padecia de asma. Baixando de seus mundos intersidéreos, vagos, à procura de afagos, encontra a noite quente, noite aberta, carioca, e uma porção de gente.” Poema que me esqueci de colocar aspas lá no início. 

COMO VAI MINHA ALDEIA?

O que será que se passa lá fora? Será que faz calor? Dizem que “o frio doer”. Será que a banca em frente ao supermercado Madrid, onde compro a Quatro Cinco Um está aberta? Já perdi o número de abril e vi pela Internet que o de maio já saiu. O de abril sei que está guardado pra mim na casa do Humberto Werneck, mas me envergonha pedir o de número de maio também. Tenho um mês pela frente pra inventar o jeito de não desfalcar a minha coleção. Sinto falta de ler a Quatro Cinco Um. Será que as flores do Pão de Açúcar estão vistosas e com um preço em conta? Onde andarão as pessoas que vivem debaixo do viaduto Presidente João Goulart com esse frio que dizem fazer? Sinto saudade da janela do ônibus onde via os vendedores de frutas espalhados pela Marechal. Há cinquenta dias não vou a uma padaria, a um sacolão, a uma livraria. Será que os livros expostos na Livraria da Vila escura são os mesmos de cinquenta dias atrás. Estariam empoeirados? Estou sabendo que filme nenhum está em cartaz no Petra Belas Artes. Filmes agora é só no Netflix e com uma platéia reduzidíssima, essa aqui da minha casa. Será que algum camelô ainda entra no vagão do metrô vendendo fones de ouvido, dois por dez? Será que os pombos da Praça Cornélia ainda ciscam farelos por lá? E o vendedor de cigarro picado na porta da Estação Ciência da CPTM, onde andará? Como vai minha aldeia? Os executivos de terno atravessando a Paulista, as diaristas aflitas dentro do ônibus Vila Iório, meia hora atrasadas, ainda existem? Que dia vou desviar das poças nas calçadas, correr dos carros assim que o sinal fica verde para os motoristas? Que dia vou acordar e vestir um sapato?

[ilustração Thibaut Guittet]

GENTE

É tanta gente nas ruas que desconfio que ninguém mais está assistindo televisão. Só estão assistindo o Jornal Nacional aqueles que não saem de casa pra nada, aqueles que assistem a agonia de um país, de gente sem fôlego, de filhos chorando a morte dos pais, de pais chorando a morte dos filhos, de netos chorando a morte dos avós, de gente esperando respirador, de gente sem  leito, de máquinas abrindo covas, de pessoas sendo enterradas umas ao lado das outras, de containers repletos de brasileiros congelados. O que passa na cabeça desse povo que não consegue ficar em casa? Não estou falando dos trabalhadores da saúde, dos funcionários das farmácias, dos supermercados, dos postos de gasolina, aqueles que recolhem nosso lixo de cada dia. Estou falando daquele senhor idoso de chinelo, bermuda, camisa sem manga, máscara no queixo, andando calmamente no meio da multidão numa feira em Madureira.

[ilustração/Bucchi] 

LUZES DA CIDADE

Só mesmo Gregório Gruber foi capaz de tirar todas as pessoas das ruas de São Paulo. Não havia ordem, lei, pedido encarecido para que as pessoas ficassem em casa. Não havia coronavírus, pessoas usando máscaras, filas nas portas da Caixa Econômica Federal, gente assustada. Não havia uma viva alma no Viaduto do Chá, na Avenida Paulista, na 25 de Março, no Monumento das Bandeiras, na Doutor Arnaldo, na Rua Augusta a 120 por hora. Não havia ninguém no cruzamento da Ipiranga com Avenida São João, sequer cenas de sangue no bar. Eram oito milhões de habitantes armados de ruge e batom na terra da garoa. A minha visão hoje da maior cidade da América do Sul, são algumas janelas retangulares que funcionam como aquelas câmaras paradas instaladas em cada esquina. Pode ter movimento, ou não. Na janela da varanda vejo uma pequena floresta e no meio dela, coloridos que sobraram da vista de um parquinho. Das janelas da sala vejo a piscina vazia do prédio ao lado, as sombrinhas recolhidas, as cadeiras espreguiçadeiras empilhadas. Da janela do escritório, vejo minha ameixeira crescendo na jardineira e ouço o barulho dos automóveis que passam na rua, que quase não enxergo. Do meu quarto é que vejo, de tempos em tempos algumas almas passando, mascaradas e apressadas. Da janela da área de serviço dá pra ver um pedaço da piscina também esvaziada do meu prédio e me lembro da algazarra da meninada nas manhãs de domingos azuis de sol. Vou parar por aqui porque o Doutor Davi Uip vai começar a falar na televisão e eu preciso prestar atenção.

[ilustração/Obra de Gregório Gruber]     

A

[ilustração/Obra de Gregório Gruber]

O JOGO

Da Copa do Mundo de 1958, lembro-me vagamente. Em preto e branco, nas ondas de um rádio GE, apenas a final. No dia seguinte, vi a fotografia de Pelé saindo de campo, menino ainda, às lágrimas. E o nome Mazzola também me vem à memória. Lembro-me também do meu pai que foi ver a taça exposta em algum lugar de Belo Horizonte, talvez a Prefeitura. Tinha oito anos de idade. A de 1962, lembro-me um pouco mais. Era ainda pelo rádio que escutava os jogos,  estávamos em Brasília. Amarildo era o meu ídolo e a musiquinha “a Copa lá no Chile vai ser nossa…” grudou na minha cabeça. Copa mesmo foi a de 1970. O Brasil matava seus filhos e nós naquela saia justa danada. Como não torcer por Tostão, Jairzinho, Pelé, Rivelino e Gerson? “Noventa milhões em ação/Salve a seleção! De repente/Aquela corrente pra frente?Salve a seleção”. Não foi fácil, foi duro de engolir o ditador Garrastazu Medici levantando aquela taça na porta do seu palácio. A camisa amarela, naquela época, nos remetia a uma certa alegria, válvula de escape, folga na escola, pipoca, mandiopã e a primeira cerveja. Uma sensação meio esquisita, mas era a camisa canarinho, bola rolando em campo ainda sem a chatice e o ufanismo de um Galvão Bueno. Vieram outras Copas, vitórias e derrotas, até que chegou 2016 e a pior seleção de todos os tempos vestiu aquela camisa amarela e entrou em campo. Ensandecidos, cegos, levavam cartazes que diziam: Somos todos Cunha, Fora Dilma e leve junto o PT, Quero voltar a viajar para a Disneylândia, Lula Ladrão, Impeachment Já, Tudo menos o PT, coisas assim. A camisa amarela passou a ser a camisa da seleção rival, aquela que eu queria ver massacrada por um 7 a 1, no mínimo. Quem a vestia não tinha preparo físico, tática de jogo nem jogo de cintura. Qualquer um que tivesse ideologia de direita, tinha o direito de vestir-la e entrar em campo. Hoje, quando vejo alguém com uma camisa amarela, só penso em uma coisa: precisamos ganhar esse jogo!

[ilustração Obra de Tomie Ohtake]

ADEUS ANO VELHO!

Nada mais atual que o poema José, de Carlos Drummond de Andrade, que apresentamos na festa de formatura do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Era tempo dos jograis e nós subimos no palco com o bumbum cheirando a talco e perguntamos pra distinta platéia: E agora, José? Hoje acordei no meio da madrugada, fiquei alguns minutos com os olhos abertos na escuridão e resolvi dar adeus a 2020. A festa acabou, o ano acabou. E agora, José? O carnaval já foi tenso, já não teve ovo de páscoa de Kopenhagen, não vai ter Dia da Mães, Dia dos Pais em agosto, nada disso. O centenário aqui em casa já esquecemos: Eu setenta e minha filha trinta. Não vai ter a Flip, não vai ter a festa dos empreendedores da Folha, não vai ter o Ciro de Nazaré, não vão ter os encontros do Sempre um Papo, não vão ter renas flutuando nos shopping center, crianças chorando no colo do Papai-Noel, sequer amigo secreto ou festa da firma. Não vai ter Prêmio Jabuti, Miss Brasil, apenas o concurso da garota Totalmente Demais na televisão está, por enquanto, mantido. Já enterramos Moraes Moreira, Luiz Alfredo Garcia-Rosa, Rubem Fonseca, Nené da Portela, Nirlando Beirão, Flavio Migliaccio, Aldir Blanc. Chega! Adeus ano velho, feliz ano novo! 

[ilustração Obra de Gregório Gruber]

NINGUÉM É SUPER-HOMEM

Todo mundo sente aquele princípio de gripe, o corpo meio mole, olho ardendo, nariz escorrendo e uma enxurrada de atchim. Todo mundo sente um pouco de dor nas costas, uma dorzinha de cabeça chata, uma tosse enjoada, uma vontade de só ficar na cama. Mas agora é diferente. No primeiro sinal de gripe, de dor de cabeça, de tosse, vem o pânico. XI, o coronavírus chegou. Os pacotes de lenço Yes multiplicaram por dez dentro do armarinho do banheiro, o termômetro digital está ali de plantão em cima do criado-mudo e o envelope de Advil, no bolso esquerdo do moletom, porque agora quem fica em casa usa confortáveis moletons, mesmo que quase puídos, com o elástico meio bambo e uma cor fora da moda. O mundo agora está dividido em dois. Aqueles que estão em casa, lavando as mãos durante quase um minuto com água e sabão, usando máscara para colocar o lixo do lado de fora, tomando banho com as Havaianas que deram sete passos no hall do andar para colocar o lixo no galão, espirrando no cotovelo e esperando o Doria na televisão ampliando a quarentena até junho. E aqueles que estão cagando e andando pro vírus, os super-homens que acreditam piamente que nunca vão morrer, nem mesmo quando um asteroide atravessar a atmosfera e cair no oceano trazendo uma força imbatível. Aqueles que acreditam que o Batman e a Mulher-Maravilha jamais fugirão dessa ameaça correndo pelas ruas da cidade. Aqui, quietinho no meu canto, continuo lutando pela hashtag fique em casa.

[ilustração Cristina Spano]

 

APRENDER A NADAR

Nunca fui um exímio nadador, pelo contrário. Sou mais uma galinha esbaforida dentro d’água do que aquele pato que vinha cantando alegremente. Mas, mineiro, tenho uma verdadeira paixão pelo mar, piscina não, mar. Mar de água salgada, horizonte sem fim. Seja o mar da Bahia, do Espírito Santo, de todos os estados do Nordeste, Mar de Espanha. Menino, catava conchinhas, pegava peixinhos, corria atrás de Marias Farinhas. Copacabana, São Sebastião, Praia do Rosa, morro de saudade. Quando vejo uma imagem na televisão ou uma fotografia, aumenta a vontade. Sonho com o mar, mar de Dorival Caymmi, aquele que quando quebra na praia é bonito. Hoje sonhei com você, com Edu, quem sabe hoje tem jangada no mar, hoje tem arrastão, todo mundo pescar. Chega de sombra João. Pois é, tu me acostumbraste a todas esas cosas, y tú me enseñaste que son maravillosas. Sútil llegaste a mí como una tentación, llenando de ansiedad mi corazón. Yo no comprendía cómo se quería, en tu mundo raro y por ti aprendí. Por eso me pregunto al ver que me olvidaste. por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti.

[foto Gaia Degli Esposti]

NIRLANDO

Sem palavras para exprimir tristeza e admiração, faço uma homenagem ao querido Nirlando Beirão, que nos deixou no último dia de um abril despedaçado. Éramos felizes no Caderno 2 e sabíamos.

[1986]

A LINHA

Quisera eu ter a paciência das bordadeiras do Nordeste, aquelas que sentam nas varandas de suas casas e passam o dia a bordar, enfiando linha e agulha no linho. Com uma garrafa de café ao lado, no cantinho, de tempos em tempos dão uma goladinha. Ficam ali de sol a sol num papo sem fim, contando histórias dos antepassados, o avô sertanejo, o tio-avô que diziam ter sido do bando de Lampião e Maria Bonita. Não precisam mais olhar para o trabalho que fazem, craques que são. Os bordados vão saindo, formando motivos com perfeição. Quisera eu ter a calma da minha vó, que colocava uma almofadinha no parapeito da janela da sua casa simples, almofadinha feita pelo meu avô, incomodado com aquele cotovelo magro machucando em cima do cimento. Ela via os automóveis passando, as pessoas, conhecidas ou não. Passava as manhãs ali ouvindo ‘bom dia, dona Zizinha, bom dia, bom dia”, enquanto o meu avô socorria o arroz queimando no fogão. A paciência dele era amor, puro e verdadeiro, que durou bem mais que cinquenta anos.Quisera eu ter a paciência daquele casal belga que se instalou numa luxuosa barraca ao lado da nossa num camping em Toledo, na Espanha. Acordavam, faziam alongamento, ele e ela, e passavam horas no café da manhã conversando, sem pressa de ir ao mar se purificar. Tinham um pequeno aparelho de som, um frigobar, um fogãozinho à gás, uma torradeira, uma frigideira onde faziam ovos mexidos com jamon. Nosso café da manhã era mais pobrezinho, mas também gostoso. Pão integral, geléia de laranja amarga e Nescafé. O belga tinha assim uma aparência de George Harrison e ela, pensando bem hoje, uma Marisa Monte. O Jeep deles era poderoso e foi através dele que soubemos que eram da Bélgica, pela placa miudinha, branca com escrito em vermelho. Ainda não havia a Comunidade Européia que unificou o dinheiro e as placas dos automóveis. Quisera eu ter liberdade que tinham. Um dia, bem cedinho quando acordamos, a vaga ao lado da nossa barraca estava vazia, eles tinham pegado a estrada. Não me pergunte rumo a que lugar desse planeta. Quem sabe, rumo a uma liberdade tão preciosa, tão desejada.

[ilustração: trabalho em linha de Bel Barcellos]

URUBU

Quando eu era criança, havia um matadouro dentro da cidade onde nasci. Sempre que íamos visitar o meu avô, em Santa Tereza, a gente passava por ele. De longe, sentíamos um mau cheiro que fazia meu pai fechar o vidro do Jeep girando a manivela porque ainda ainda não havia vidro elétrico. Passava, ele abria novamente o vidro, mas mesmo assim o “fedô” – como chamávamos – ainda persistia por alguns minutos. Eu nunca gostei de passar na porta do Matadouro Modelo, que todos chamam de Perrela. Imaginava bois e vacas sendo sacrificadas ali dentro, carne para um lado, ossos enormes para o outro, restos de gordura no chão, pele e sangue. Aquilo era a minha imaginação. Diziam que os animais eram abatidos com uma cacetada na cabeça, que ficavam tremendo, agonizando por um longo período, até o coração parar e os funcionários entrar em ação para destrinchar aquele animal enorme. Sentia que estávamos chegando perto do matadouro quando via os primeiros urubus voando no céu azul de Belo Horizonte. No telhado daquele galpão enorme e fúnebre, os urubus saltitavam meio desajeitados disputando um pedaço de muxiba, que é como chamávamos os restos de carne. Eram muitos e viviam por ali. O urubu sempre me impressionou. Meu pai dizia que onde tinha urubu voando é porque tinha carniça por perto. Era mesmo. Na estrada, bastava avistar um urubu que, daqui a pouco, enxergávamos o cachorro morto no acostamento. Só me simpatizei um pouco com ele quando Tom Jobim lançou um disco com o seu nome. Fiquei impressionado, mas sabia da paixão de Tom pelas aves: sabiá laranjeira, cardeal, azulão, perdiz e até aquela com nomes que só ele conhecia. Tururim, inambu-de-coroa-preta, jacupiranga, mutua-do-norte, mergulhão, curicaca, essas aves brasileiras. Tom era capaz de reconhecer todos os urubus que eu, menino, achava que era um só. Urubu-rei, urubu-de-cabeça-amarela, urubu-da-mata, urubu-de-cabeça-vermelha. Depois de muito tempo sem ver um urubu aqui na maior cidade da América do Sul, pude revê-los anos atrás em Belém do Pará, onde fotografei um em pleno voo. Sempre tive um certo medo de urubu. E agora ele voltou. 

[foto Alberto Villas]

HOJE É DIA 29

Hoje é dia de comer o nhoque da sorte e, ainda é cedo, não sei se teremos. Nunca pesquisei que história é essa, de onde veio, preciso. Comíamos nhoque todo dia vinte e nove e tem mais. Colocávamos uma nota de um dólar, hoje quase seis reais, debaixo do prato. Tínhamos certeza de que a sorte viria e veio. Estamos aqui até hoje, de pé. Fazer nhoque hoje aqui para poucos, sei não. Faz tanta sujeira na cozinha, farinha pra todo lado, melhor não. Nice não vem tão cedo pra dar aquele trato. Vou ficar calado, não vou lembrar da data, mas pensando bem, estamos precisando de sorte e nhoque. Sorte pra nos tirar dessa prisão domiciliar, ganhar as ruas sem perigo de contaminação, lavar as máscaras pela última vez e nem sei se guardar de lembrança ou para o próximo vírus. Precisamos de sorte para tirar esse analfabeto do poder, cortar as asas dele, mandar-lo de volta para o condomínio da Barra, nunca mais lembrar o seu nome. Precisamos de sorte para escaparmos dessas dessas duas pragas, cada vírus pior do que o outro. 

A DANÇA DAS CADEIRAS

Observo que as cadeiras da minha casa estão quase sempre vazias, diferentes de outrora, ocupadas por amigos e por aquelas que ainda chamamos de meninas. De tempos em tempos passamos um pano úmido nelas, embebido de álcool 70 graus e lysoform. Só mesmo para espantar bactérias porque pó quase não há. Observo que o sol começa a bater no parapeito das janelas da sala por volta de sete, sete e pouco. É quando levo pra lá as seis canecas com pezinhos de limão, plantados com todos cuidado e que vão crescendo a cada dia. O verde das folhas misturado ao sol, resulta numa coloração única. Olho para a estante na certeza que preciso de ânimo para tirar todos os livros e ir arrumando uma a uma, as estantes ligeiramente empoeiradas. Isso requer tempo e força. Misturados, tenho tido dificuldade de achar o que quero, como as cem fábulas fabulosas do Millôr que pretendo reler uma a uma nos intervalos de folga. Pulo da cama e observo que hoje a cozinha está impecavelmente arrumada, pronta para que eu comece a preparar o café da manhã. Os jogos americanos passaram por uma boa lavagem na máquina e alguns ficaram ligeiramente desbotados, resultado da água sanitária. Observo da janela que o pé de nêspera ganhou proporções inesperadas na jardineira e começa a ficar ligeiramente torto, procurando o céu e evitando o teto do vizinho de cima. Sei que um dia vou ter de tira-lo dali porque não tem cabimento um pé de nêspera na jardineira de um edifício, tão grande que chega a fazer sombra aqui dentro. Observo certas coisas dentro da minha casa que costumava não observar. Como um box com todos os discos de Baden Powell que, tão escondida, não ouço há anos. “Quando eu morrer/Me enterre na Lapinha/Calça, culote, paletó almofadinha…”

A VARANDA

Sinto-me privilegiado por ter uma varanda, uma pequena varanda, numa hora dessas. É nela que tomo um pouquinho de sol de manhã, quando o sol dá as caras. A varanda tem uma rede vinda do Nordeste, tem dois vasos com plantas verdes e floridas, dependurados no teto. Um bebedouro para os beija-flores que aparecem cedinho, junto com o dia que vai clareando. Gosto da varanda nesse horário, silencioso em que até parece que as pessoas estão respeitando o confinamento. Tem uma pequena horta, que adoro. Numa jardineira, plantei sementes de tomate que germinaram, cresceram e já apontam as primeiras flores amarelas indicando que em breve teremos tomatinhos cereja sem agrotóxico. Na outra jardineira tem alecrim, que vive em plena harmonia com o manjericão. Na mesinha com pé de ferro, mais ervas: tomilho limão, sálvia, hortelã, que anda meio derrubado com folhas secas ou pequenas. Precisa se reabilitar urgentemente porque usamos muito hortelã nessas casa. Tem um pé de capim santo, um de arruda, um abacateiro com mais de metro, um pé de carambola que está difícil passar dos 30 centímetros. Tem dois pés de inhame que crescem a olhos vistos, quatro pés de gengibre, um vaso com várias mudas brotando que ainda não o que são. Semeei ameixa, caqui, mamão, pêssego. O que será que está brotando? Tem ainda um pé de cactus e um coqueirinho. Quem vê assim imagina um agronegócio, mas é um pequena varanda, tudo juntinho ao mesmo tempo agora. A varanda tem sido o meu quintal, a minha rua, o meu ar livre. O prazer de ler ali é muito grande. O cheiro dos tomateiros é cada vez mais acentuado quando bate o vento. Fechamos a varanda com janelas de vidro, decisão acertada que lembramos a cada dia. Molhava quando chovia e fazia muito frio no inverno. Agora estamos protegidos. E os outros? 

HOJE EU NÃO SAIO NÃO

Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Lá no boteco, não
Telecoteco
No trio elétrico, não
Teatro, não
Não vou no esquema não
Nem no cinema, não
Em Ipanema, não
No circo, não
Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Na padaria, não
Na academia, não
Periferia, não
No centro, não
No casamento, não
No lançamento, não
No movimento, não
Na praia, não
Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
No restaurante, não
Roda gigante, não
No baile funk, não
No parque, não
Não vou na Lapa não
Na batucada, não
Na passeata, não
Nem no portão

[Hoje eu não saio não/Arnaldo Antunes-Marcelo Jeneci-Betão-Chico Salem]

O SOM AO REDOR

Não conheço o vizinho de cima nem o de baixo, conheço o que mora em frente ao meu apartamento, no mesmo andar. E só. Nesse confinamento, ouço panelas de tempos em tempos, não sei de onde vem o grito de Fora Bolsonaro. Não são muitos, são poucos. Muitos, eram na época da Dilma, quando ela começava a falar na televisão. Lá longe, o Fora Bolsonaro soa como aquele Boa noite, presidente Lula! Nem os funcionários do prédio, vejo mais. Deixam os jornais em cima do capacho todos os dias, invisíveis e silenciosos. De vez e quando o interfone toca, é quando ouço a voz do Sandro, do Bahia, do Manoel avisando que chegou alguma coisa pra gente. Vinho, supermercado, boleto ou o livrinho infantil bilingue da Folha que estou colecionando para o Raul, meu neto. Não sei que músicas meus vizinhos ouvem, que livros leem, que séries assistem no Netflix. Não ouço barulho de aspirador de pó, não ouço mais as diaristas chegando cedo e batendo um papo rápido com os porteiros. Não ouço a algazarra das crianças no parquinho nas manhãs de sábado aqui na frente, nem a gritaria na piscina nas manhãs de domingo, lá no fundo. O meu prédio parece um prédio fantasma. Cultivo minha horta na varanda e não sei se nas outras varandas, os meus vizinhos cultivam tomate, hortelã, alecrim, manjericão, inhame, como eu. Não dá pra ver, daqui de dentro, se existem redes nordestinas ou orquídeas dependuradas na parede. Nos fins de semana, costumo sentir o cheiro de carne. Não é churrasco, talvez carne de panela ou rosbife. Ainda bem que não perdi o olfato. 

NAU SEM RUMO

Aqui dentro da minha casa fico sabendo que lá fora o circo está pegando fogo, o mar está revolto, um iceberg à vista e é o capitão quem dá ordens para a orquestra continuar tocando. Separo e vou ouvindo aos poucos todos os discos de Moraes Moreira até chegar aquele da capa colorida que diz: Lá vem o Brasil descendo a ladeira. Durmo como uma pedra, ao contrário de muitos amigos que custam a pegar no sono. Mas acordo todos os dias sobressaltado com as notícias. O que teria acontecido durante a madrugada? Quantos mais morreram de coronavírus? Quem foi demitido? Como foi a noite em Brasília? Quanto o PIB vai cair? Quanto o dólar vai subir? E pergunto aos botões do meu pijama: Quantos dias ainda vamos viver até nos livrarmos dessas duas pragas? O Covid-19 e o Jair ex-17.

O APRENDIZ

Gente que só sabia fazer macarrão com molho de tomate pronto está aprendendo a fazer um carbonara, gente que só sabia fritar ovo está aprendendo a fazer omelete de cogumelos, gente que só sabia fazer suco de poupa está aprendendo a fazer suco de caju com limão e gengibre, gente que nunca havia colocado a mão num ferro está aprendendo a passar roupa, gente que nunca tinha lavado uma cueca está aprendendo onde coloca o sabão em pó e onde coloca o Fofo na máquina, gente que nunca tinha passado uma vassoura no chão está descobrindo  as maravilhas de um aspirador de pó, tem gente aprendendo que água sanitária mancha a roupa, que é preciso deixar os panos de prato de molho no sabão, que roupa lavada dentro da máquina, se ficar muito tempo pega cheiro de mofo. Tem gente que já sabe que o lava-louças chama Ypê, que existe um antibactericida chamado Mr. Músculo, que o limpa-móveis chama Polyflor e que o limpa-vidros chama Veja, como a revista. Tem gente que só agora percebeu que a pá de lixo é de plástico, bem como o cabo da vassoura, que não é mais de madeira. 

VIAJANDO NA MAIONESE

Na sala da minha casa tem um móvel antigo, fino e comprido, com seis gavetas enormes, datado do início do século passado. Daqueles com engrenagem que, para abrir uma gaveta, é preciso abrir a primeira. Dentro dessas gavetas, durante muito tempo, guardamos os guias de viagem. Alguns ainda novos, outros meio estropiados, gavetas dos sonhos. Com o tempo, eles foram ficando abandonados, inúteis. Com o advento da Internet, perderam um pouco o sentido, já que temos todas as informações atualizadas, tipo a Notre Dame está fechada há um ano porque parte virou cinzas. Nunca mais esses guias viajaram conosco, pelo peso, pela inutilidade. Na última viagem que fizemos com um deles, não saiu da mala. As coleções da Viagem e Turismo e da Próxima Viagem foram passadas adiante. As prateleiras com a Geo e a National Geographic continuam lá, pela atualidade científica e de comportamento. Jamais serão desfeitas. Como a coleção da Ulysse, encadernada. Para esse ano, não temos planos de viagem. A vontade de ver o mar, nossa grande paixão, é muito grande, mas não sei se veremos. As caixinhas com nossas fotografias dos lugares por onde andamos estão organizadíssimas com essa quarentena. Se não tivessem, seria um bom motivo para arrumá-las. Penso numa velha canção de Gilberto Gil, “Vamos Fugir”, bem como na “Fuga número 2 dos Mutantes”, com Rita Lee, Arnaldo e Serginho Dias Baptista. Penso numa outra velha canção do Mestre Pastinha que diz “Eu já vivo tão cansado/De viver aqui na Terra/Minha mãe eu vou pra Lua/Eu mais a minha muié/Vou fazer um ranchinho/Todo feito de sapé/Amanhã às sete horas/Nós vamos tomar café”. E volto a dormir mais um pouco.