ACORDA, AMOR

Sentia um temor permanente no corpo, na atmosfera. Antes de sair de casa, olhava pela janela, para um lado e para o outro, com a sensação de ver um Chevrolet Veraneio estacionado, um milico à paisana na rua, uma rua pacata, ainda com calçamento de pedras retangulares à espera de asfalto, do progresso.

Caminhava até o ponto do ônibus Carmo-Sion, levando a tiracolo uma bolsa de couro cheirando cabrito, comprada no Mercado Modelo de Salvador. Dentro dela, evitava colocar qualquer objeto suspeito. Nenhum livro que tinha na minha pequena biblioteca em quatro móbiles da Mobília Contemporânea. Evitava levar o que estava lendo, O Abajur Lilás, de Plinio Marcos e o que estava relendo, O Vermelho e o Negro, de Stendhal.

Minha mãe tinha os seus temores, mas os guardava em silêncio nas suas preces, já o meu pai era mais rigoroso. Um dia me chamou no seu escritório, trancou a porta, e falou olho no olho. Mandou que eu tirasse imediatamente o calendário da UNE debaixo do vidro que protegia a minha escrivaninha e rasgá-lo em pedacinhos. Tirar, eu tirei, picar não. Escondi. Ele me alertava diariamente, dizendo que todo cuidado era pouco.

Leia também:
JK 65
Quarenta e cinco dias de solidão

Aconselhava não dar opinião política na escola, não falar alto o que eu pensava. Ele sabia que pessoas estavam sendo presas, torturadas, sumindo pra nunca mais. Mas nunca falou disso abertamente comigo.  Ele se incomodava até mesmo com a minha juba de leão, minha calça boca de sino, minha camiseta manchada de água sanitária e os meus tamancos suecos que não tirava dos pés.

O meu irmão mais velho era diferente de mim, mais pé no chão. Trabalhava e estudava, e já tinha guardado dinheiro suficiente para comprar um fusca branco zero, coitado, que se esfacelou depois de atropelar um cavalo branco na BR-3, quase perda total. Ele era considerado um crânio, colecionava medalhas de ouro que ganhava no Colégio Marista, eram tantas que o meu pai mandou emoldurá-las com um fundo de veludo azul marinho. Eu nunca ganhei uma medalha sequer no Colégio Marista, nem de ouro, nem de prata, nem de bronze.

Às vezes, me perguntava se eu não seria a ovelha negra da família. Levei bomba em francês, repeti o ano e levei bomba de novo em francês. Eu participava do movimento estudantil, não perdia uma reunião do DCE, frequentava as reuniões secretas dos frades capuchinos, recortava e guardava numa pasta, todas as notícias que saiam sobre sequestros, manifestações. sobre José Dirceu, Vladimir Palmeira, Luis Travassos, Jean Marc Fréderic Charles von der Weid e Daniel Cohn Bendit. Numa outra, guardava os recortes sobre a RAF alemã, as Brigadas Vermelhas italianas, os Tupamaros, os Montoneros, o Sendero Luminoso e os primeiros passos dos Sandinistas.

Tudo muito escondido. A minha revolta aumentou no dia em que um tiro atingiu o peito do estudante paraense de dezesseis anos, o Edson Luis de Lima Souto, na porta do restaurante Calabouço, na Cidade Maravilhosa. Comprei a Fatos e Fotos com os estudantes, na capa, carregando o seu caixão pelas ruas do Rio de Janeiro e escondi no sótão da minha casa. Nossa casa era uma casa santa, minha mãe fazia suas novenas, acendia suas velas e rezava por nós, cinco filhos, todas as noites.

Eu tinha muito temor, temor de colocar na parede do meu quarto uma tela em óleo de Ho Chi Min, presente de uma amiga, de colocar na vitrola o compacto simples do Geraldo Vandré cantando Pra não dizer que falei de flores e de tirar de debaixo da cama aquele caixote com os livros marxistas de Apolo Heringer Lisboa. Eu tinha temor de conversar com Aretusa pelo telefone, numa época que grampo não significava escuta telefônica.

Os poucos exemplares do jornal A Voz Operária, os poucos números da Revista Civilização Brasileira, os poucos números da revista Aparte, eu guardava numa gaveta fechada a sete chaves, juntamente com a coleção da Fairplay. Eu fazia das tripas coração para não deixar o temor se espalhar e tomar conta dos cômodos daquela casa grande em que vivíamos. Falava de futebol com o meu pai, flamenguista roxo, e comprava os fascículos de Bom Apetite para agradar a minha mãe. Cuidava do pombal com o meu irmão, dos passarinhos e dos porquinhos-da-índia.

Ouvia atento e guardava para o resto da vida, as histórias do Colégio Sion que minha irmã contava quando chegava em casa. No hall de entrada, havia um mural reproduzindo a vida como as freiras queriam que fosse. Era um cartaz feito com cartolina, algodão imitando nuvens no alto e, embaixo, um colorido azul imitando um lago.

As freiras colocavam nas alturas, fotografias três por quatro das meninas mais aplicadas, aquelas que tiravam dez com louvor. No lago, quase afogando, as fotografias das meninas que corriam risco de levar bomba e repetir de ano. Um dia, fui lá ver se era verdade e era. E sai de lá gostando mais das fotografias das meninas afundando no lago, do que as meninas cdf nas nuvens. A minha guerrilha era silenciosa e particular. Imprimia um jornalzinho no mimeógrafo da escola e saia de lá cheirando a álcool. Era um jornalzinho cultural, com críticas de livros, de filmes e discos e cheio de entrelinhas. Tinha contos porque, nós mineiros, éramos todos contistas.

Lia as cartas que o Caetano mandava de Londres, via Intelsat, para o Pasquim, e tinha vontade de ir embora, pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu tinha temor de ser preso, de enfrentar o pau de arara, de sumir de repente.

Foi longe, a mais de 10 mil quilômetros do meu país, que ouvi pela primeira vez Chico cantando Acorda, amor/Eu tive um pesadelo agora/Sonhei que tinha gente lá fora/Batendo no portão, que aflição/Era a dura, numa muito escura viatura/Minha nossa santa criatura. Ontem à noite, ouvi novamente essa música no YouTube e o meu temor voltou. Mas fui dormir com a certeza de que, apesar de você, amanhã será outro dia.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

ilustração Alberto Villas

O TEMOR DA ESCURIDÃO

Quando abri a porta da minha casa hoje, seis horas da manhã em ponto, veio à minha cabeça uma imagem de mil novecentos e setenta e pouco quando, longe daqui, escrevia minhas matérias numa Hermes Baby portátil e, semanas depois recebia o jornal impresso numa cortesia da Varig. Levava um susto com os espaços em preto escrito apenas Leia e Assine Opinião, encobrindo minhas palavras proibidas pelo Departamento de Censura da Polícia Federal. Vinha uma sensação ruim, de tempo perdido, mesmo sabendo que não havia perdido, naquela luta pela democracia. Quando peguei o jornal hoje cedo e virei para ver o que havia na parte de baixo da primeira página, o meu temor era o de encontrar escrito simplesmente Leia e Assine Folha de S.Paulo. É um temor que assombra não somente a mim, mas também as minhas amigas que vieram aqui em casa ontem para conversar e saborear um risoto, ainda com um gostinho de liberdade. E passaram o dia martelando essa palavra e outras ainda não proibidas. O que vi escrito na parte de baixo do jornal de hoje era apenas uma frase anunciando o fim da tela preta. Só me acalmei quando li, bem em cima do logotipo, a informação de que era um informe publicitário. A sobrecapa me acalmou, mas apenas temporariamente. Faltam apenas treze dias pro 28 de outubro.

[foto Alberto Villas]

É BRINDE!

Uma senhora de meia idade desceu esbaforida do seu Jeep Renegade preto, pegou o corredor do estacionamento, subiu uma pequena rampa, virou à direita e foi direto no balcão de atendimento ao cliente:

– Eu quero o tomatinho vermelho de pelúcia!

A resposta negativa da funcionária do supermercado, deixou a senhora de meia idade arrasada, os olhos caídos e um ar de desesperança.

– Como assim, acabou? É o único que falta para a coleção do meu neto Joaquim! Ele tem a banana, o brócolis, a pera e a laranja. Só falta o tomatinho!

Ela apertou nas mãos os códigos de barra de cartolina que dariam direito ao tomatinho vermelho de pelúcia, jogou dentro da bolsa e deu meia volta. Com certeza vai entrar no seu Jeep Renegade, acionar o Waze e procurar onde existe outro supermercado da rede, quem sabe lá ainda tenha um tomatinho vermelho dentro do armário de vidro de brindes?

Brasileiro é doido por brinde e não é de hoje. Menino ainda, meus olhos brilhavam quando o meu pai chegava em casa aos domingos com uma Coca-Cola Família. A felicidade era abrir a garrafa, pegar a tampinha e tirar a cortiça para ver se estava premiada.

O brinde era uma coleção de vinte e um personagens do Walt Disney, que demorávamos meses para conseguir completar. Com cinco tampinhas premiadas, trocávamos por um personagem, o Mickey, o Pateta, a Margarida, o Pato Donald, o Pluto, todos. Lembro-me que a menorzinha era a Sininho.

A Pepsi-Cola correu atrás e, nas Olimpíadas de 1964, lançou uma coleção de bonequinhos, cada um representando um esporte:  Esgrima, lançamento de dardo, natação, futebol, levantamento de peso, eram dez bonequinhos brancos que podíamos colorir com uma tinta especial, da cor que quiséssemos.

A onda dos brindes foi se espalhando. O Toddy dava soldadinhos, o chiclete Ping-Pong dava figurinhas, o Crush dava miniatura de engradado com garrafinhas de Crush, os Postos Shell davam o cafezinho do astronauta, quando ainda escrevíamos cafèzinho assim, com acento diferencial no e.

Era uma época em que colecionávamos selos, colecionávamos chaveiros, caixinhas de fósforo, moedas, carrinhos da Mathbox, colecionávamos até besouros e borboletas no isopor.

A moda era tão moda que o Guaraná Champagne Antártica – era assim que chamávamos – fez uma propaganda na televisão em que um mágico tirava um monte de trolhas da cartola e anunciava: Não troque o seu bom gosto por quinquilharias! O guaraná nunca deu brindes.

A moda do brinde voltou com tudo nesses tempos malucos que vivemos e os supermercados estão surfando na onda. Tem panelas de brinde, tem facas, tem tábuas de carne, tem travessas, tem sementes pra hortinha e tem os charmosos bonecos de pelúcia do Jamie Oliver. Pra mim, está faltando só a pera pra completar a coleção do meu neto Raul.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

É ISSO AI, BICHO!

Quando bati os olhos na fotografia do candidato à presidência da República, Fernando Haddad, com Stick e Atena, várias coisas me vieram à cabeça. Primeiro, Tupi, Jolie, Fly e Pink, cachorros da minha infância. Dois morreram de velhos, um fugiu de casa, talvez tenha sido sequestrado,  e o quarto morreu atropelado por um ônibus da linha Carmo-Sion, em Belo Horizonte. Os quatro foram, durante toda as suas existências, os xodós da família, numa época em que comiam o que sobrava do nosso frango e tomavam banho de água fria no tanque que havia no quintal. Esse amor aos cachorros é real e conheço de perto. A Atena, do ex-prefeito, é muito parecida com a Cher que, de uns tempos pra cá, frequenta nossa casa. Cara de uma, focinho da outra, como dizíamos. Tem o lado do amor e do ódio. Lembrei-me daquele manifestante, defensor do fascismo, que disparou sua arma pra cima de um cachorro que latia muito, atrapalhando a sua manifestação, isso ocorreu recentemente. E lembrei-me também de um parente torto, distante, que adora uma arma, e que vive ameaçando cachorros e gatos sem teto. São essas pessoas que votam em fascistas mas, quem sabe, um dia, o dia 28 de outubro, por exemplo, mudem de opinião? Como disse: Tem o lado do amor e do ódio. O nosso por aqui é do amor.

[foto Ricardo Stuckert]

JK 65

A febre eram os Beatles e quando eles pousaram pela primeira vez no aeroporto JFK, em Nova York, foi difícil para a polícia conter a euforia das garotas enlouquecidas, dispostas a fazer qualquer maluquice por John, Paul, George e Ringo. As rádios não paravam de tocar I want to hold your hand naquele início de mil novecentos e sessenta e quatro.

Por aqui, uma hemorragia no esôfago levava Ary Barroso, autor de canções que bem poderiam ser o nosso Hino Nacional. Foi ele que escreveu os versos que diziam assim: Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos.

No boxe, o bamba era Cassius Clay, que se tornou campeão mundial dos pesos pesados, deixando Sonny Liston caído no chão, sangrando, sangrando muito.

No dia 14 de março, o presidente João Goulart anunciou em um comício na Central do Brasil, as importantes reformas de base que o país tanto precisava. As ideias de Jango não caíram bem na caserna.

 

Uma semana depois, quinhentas mil pessoas saíram às ruas de São Paulo, exigindo a renúncia do presidente da República. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um pontapé para derrubar Jango, acusado de querer trazer o comunismo de Cuba para nossas bandas.

Morávamos em Brasília naquele 31 de março, quando o golpe foi dado. Talvez fomos os primeiros a ver, na calada da noite, a movimentação de tanques na Praça dos Três Poderes, retrato de que a coisa não ia nada bem.

O meu pai não era um homem de esquerda, era apenas apaixonado por Juscelino Kubitscheck, que ele chamava de Nonô. Por ele, o meu pai despencou de Belo Horizonte com cinco filhos, rumo ao planalto central do país, no início dos anos 1960, para instalar ali o Serviço de Meteorologia.

Éramos uma espécie de candangos, comendo poeira que o diabo espalhou naquele fim de mundo. Todos nós gostávamos de morar naquela cidade em obras, menos a minha mãe, que tinha os pés rachados pela secura daquela região.

Meninos ainda, estávamos empenhados na campanha de Juscelino Kubistchek, candidato a presidente novamente em 1965, o ano que não chegou. O meu pai trazia para casa adesivos plásticos que eram moda naquele tempo, todos anunciando que JK vinha aí.

Um abril despedaçado foi passando e, a cada dia, íamos percebendo que aqueles adesivos colados na Rural Willys vermelha e branca do meu pai, estavam perdendo a cor e o sentido. As eleições foram canceladas e uma tristeza enorme se abateu no meu pai.

Ele retirou os adesivos da Rural, talvez com medo da repressão que era maior a cada dia e por ter caído a ficha, o sonho havia acabado.

Ele guardava vários exemplares da revista Manchete com o Nonô na capa, sempre sorridente. Era uma pilha, porque a amizade do velho Bloch com Juscelino era coisa pra se guardar

Domingo, enquanto o meu pai preparava aquela tradicional macarronada na nossa casa, ele colocava na vitrola um disco de Juca Chaves, aquele que tinha uma música para o presidente do coração dele:

villas.pngJK, o presidente bossa nova (Reprodução)

Bossa nova

Mesmo é ser presidente

Dessa terra descoberta por Cabral

Para tanto basta ser tão simplesmente

Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha

De ser o presidente do Brasil

Voar da Velhacap pra Brasília,

Ver a alvorada e voar de volta ao Rio

Um dia, a poeira baixou e voltamos pra nossa Belo Horizonte, tristes e cabisbaixos. O meu pai nos contou que haviam caçado o mandato do presidente Juscelino e que ele nunca mais seria presidente do Brasil.

O meu pai, que era bom em matemática, fez as contas, e nos disse que quando ele pudesse novamente voltar à politica já não teria mais idade. Ou vida.

Com o tempo, o disco de Juca Chaves era só chiado e aquela vontade de ver o meu pai eleger Juscelino Kubitscheck presidente do Brasil novamente, ficou pra trás. Os adesivos, que ele guardava com todo carinho numa caixinha de relógio Omega, hoje, são apenas objetos de desejo de colecionadores à venda no Mercado Livre. E como dói.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital. com.br

MEU TIPO INESQUECÍVEL

Conhecíamos, de nome, há muito tempo, a Tia Margarita, ainda com o “a” no final. Ela ganhou esse “ae”, na Itália, quando descíamos rumo a Grécia para conhecê-la pessoalmente.  Foi de repente que o apelido surgiu e pegou, para sempre, apenas para dar um ar de antigo, de latim a seu nome.

Sabíamos pouco dela, que morava no povoado de Vryses, no Peloponeso, que já passava dos noventa anos e que tinha uma espingarda atrás da porta principal da sua casa, pro que desse e viesse.

A única foto que conhecíamos de Tia Margaritae, era uma imagem em preto e branco, meia sem foco, ela com a espingarda em punho na varanda da sua casa, acredito eu que uma brincadeira das irmãs Vlahou, sobrinhas dela.

Cruzamos a Itália, chegamos a Brindisi, esperamos horas e horas o navio para, finalmente ganhar Patras e continuar a viagem de carro, rumo a Vryses, onde passaríamos uma temporada, numa casa quase em frente a da Tia Margaritae.

Chegamos cansados, aflitos e muito ansiosos para ver como era a vida no povoado e finalmente, conhecer a tal tia.

Pouco mais de um minuto depois de estacionar o carro debaixo de uma árvore, ela ouviu o ronco do motor e apareceu. Desceu as escadas da sua casa e veio andando devagarinho, amparando-se numa velha bengala, nos saudando.

Chegou até nós, abraçou um a um e, mais efusivamente, Olga, a sobrinha de sangue. Ela falava grego com todos, como se não houvesse outra língua no mundo, acreditando que todos entendiam perfeitamente a língua de Sófocles. Não fosse Olga, amiga do peito e nossa tradutora, estaríamos perdidos porque, para nós, o que Tia Margaritae falava parecia – e era – grego.

Não demorou muito, ainda estávamos desfazendo as malas e tentando entender o funcionamento da casa, ela surgiu novamente na nossa sala, com meia dúzia de figos nas mãos, oferecendo a cada um de nós e tentando explicar que eram frescos, safra 2018, retirados agorinha do pé no seu quintal.

Durante uma semana, Tia Margaritae frequentou a nossa casa como uma velha amiga. Nunca quis comer nada que oferecíamos porque estava no período de jejum e isso, para ela, era sagrado.

Depois dessa primeira semana, a sobrinha grega foi-se embora e nós três – eu, Paulinha e Annamaria – ficamos ali prontos para viver sozinhos num pequeno povoado de 74 moradores em que todos falavam o grego perfeitamente, mas só o grego.

Tia Margaritae virou nossa guardiã. Durante um mês, ela vigiou nossa casa quando estávamos fora, sempre preocupada com os ladrões, mesmo sabendo que o último larápio que passou por ali data de mil anos antes de Cristo. O medo dela era que alguém roubasse a torneira que ficava na varanda da casa.

Ela me ensinou a capinar, a colher limões sicilianos no pé, a podar a trepadeira, a varrer a calçada, a regar as plantas, a fechar portas e janelas e, principalmente, retirar a torneira do cano à noite para que nenhum aventureiro passasse a mão. Ela dava ordens como um bom sargento e só nos restava obedecer.

Tia Margaritae nos abasteceu quase que diariamente com uma verdura que ela fazia refogada no azeite e nos trazia em pratinhos de porcelana, uma verdura que nunca soubemos o que era. Só sabíamos que a tradução era verdura e era deliciosa, comida com pão.

Um dia ela preparou a sua especialidade, batatas fritas com dois ovos estalados em cima. Trouxe até a nossa casa e aquilo, para nós, foi o manjar dos deuses. Ela mesmo não experimentou sequer uma batatinha, respeitando o seu jejum. Tia Margaritae fritava tudo no azeite, acho mesmo que nunca soube da existência do óleo de soja, milho ou girassol.

Num domingo, ela nos levou para conhecer a Igreja Ortodoxa do povoado, uma construção deslumbrante. Ela ficou um bom tempo sentada na primeira fila, olhando curiosa a luz que entrava pelos vitrais, cada imagem, cada cantinho, apesar de conhecê-los de cor e salteado.

Um dia, ela nos convidou a ir até a sua casa. Foi então que colhemos cebolas na sua horta e aprendemos a arrancar figos maduros do pé, no seu quintal. Até alcachofra ela tinha plantada, quase em flor.

Tia Margaritae nos serviu um café à sua moda, forte e parecido com o café dos turcos, com um pouco de pó no fundo da xícara. Lembro-me que repeti a dose três vezes, de tão gostoso que estava.

Tia Margaritae contou histórias da sua infância, de uma aventura na Turquia quando os inimigos jogaram ribanceira abaixo, o ônibus de excursão em que ela estava.

Na parte de cima da casa, uns poucos móveis, uma cristaleira com louças empoeiradas porque, cansada de guerra, raramente ela subia aquelas escadas. Ao lado de um armário, havia uma imensa bandeira da Grécia enrolada, talvez usada no passado nas festas do povoado.

Durante um mês, nossa convivência foi diária e intensa. Os figos que ela nos trazia, quando não estávamos em casa, deixava no cantinho da janela, que logo percebíamos quando chegávamos.

No dia em que despedimos dela, vi que havia um brilho de lágrima em seus olhos e um ar de tristeza profunda. Ia me esquecendo de contar que, atrás da porta principal da casa de Tia Margaritae, não era lenda, havia mesmo uma espingarda, uma velha garrucha enferrujada, incapaz de matar uma mosca.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

QUARENTA E CINCO DIAS DE SOLIDÃO

Na primeira manhã em Beirute, acordei ao som de uma bolinha de ping-pong. Desci as escadas ainda meio sonolento e vi, antes de chegar ao térreo, dois soldados animados jogando, enquanto um terceiro enchia um embornal no bebedouro instalado ao lado da mesa.

A primeira refeição na American Comunity Scholl, onde me instalei para passar quarenta e cinco dias, foi suco de romã, pão preto com geleia de laranja amarga, um copo de coalhada, uma ameixa vermelha e uma xícara de Nescafé granulado, diferente do nosso, em pó.

Na mesinha de centro da sala de recepção, rodeada de confortáveis poltronas, o jornal L’Orient-Le Jour anunciava, na primeira página, os conflitos do dia de uma guerra sem fim. Também na mesinha, um catálogo telefônico magrinho como um fascículo com os telefones de todo o país. A curiosidade me levou até a letra H – de Haddad – do meu primeiro sogro, que fugiu da guerra para o Brasil, na juventude, e nunca mais voltou.

Do lado de fora, o jipe dos soldados estava estacionado em cima da calçada e, debaixo dele, um gato cinza morto cheirava mal. Prendi a respiração e vi, lá longe, o sol refletindo no mar azul, batendo nas pedras.

Não havia Internet, não havia Google, Smartphone, Instagram, WhatsApp, Waze, não havia o mundo digital e um telefonema custava os olhos da cara. Me senti meio no fim do mundo, isolado, longe de tudo e de todos, sem notícias das coisas do meu país abençoá por Dê e boni por naturê. Senti-me preparado para viver quarenta e cinco dias de solidão.

O primeiro dia foi de andanças, entrando e saindo por ruas, ruelas, becos, avenidas, ruinas. A cidade não era bonita à primeira vista, muitos buracos de balas nas paredes, sacos de areia nas esquinas, muita poeira, tanques a postos em lugares estratégicos, mas ao mesmo tempo, uma cidade fascinante, viva, sobrevivente.

De perto, vi que aquele mar rebelde era tão violento que descolava os musgos das pedras, jogando fiapos nas calçadas, onde algumas prostituas se ofereciam em vestidos curtíssimos e olhos borrados de preto.

O cheiro que vinha dos restaurantes espalhados pela cidade dava muita fome. Parei em um deles – Le Renard et les Raisins – com mesinhas espalhadas debaixo de uma imensa parreira carregada de uvas verdes, a sombra que precisava naquele verão árabe de 40 graus.

Havia quibe no menu, quibe assado numa pequena travessa, feito com muito hortelã e carne de carneiro. Aquele quibe, arroz branco com amêndoas e uma salada de pepino foi a minha refeição, acompanhada de um copo de cerveja Almaza, estupidamente gelada, e um pedaço de melancia de sobremesa.

A essa altura, meus cabelos longos já haviam virado um rabo de cavalo escondido dentro de um boné porque era impossível naquela Beirute conservadora dos anos 1970, um cabeludo andar sossegado pelas ruas da cidade. Fazia fotos de tudo que via de interessante pela frente. Cabras pastando em lotes vazios, homens de mãos dadas, idosos de bengala e kufiya na cabeça, vendedores de chá circulando pelo rush, homens rezando nas mesquitas e geladeiras dos bares cheias de Crush. Foram dezenas de fotografias que acabaram se perdendo quase todas com o tempo e com o rumo que a vida tomou.

(Reprodução)

Comprei de um ambulante que vendia revistas em cima de uma lona estendida na calçada, um exemplar da Luluzinha em árabe, que se chamava simplesmente Lulu.  Capa colorida, miolo em preto e branco, impressa num papel quase jornal. Paguei com duas moedas, sem dar uma palavra com o jornaleiro, que não falava francês.

Procurava os cedros e não achava. Em pouco tempo percebi que era o mesmo que procurar uma árvore de Pau-Brasil na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “Só no interior, numa pequena reserva” – me diziam – estavam os últimos cedros.  Mas ele continuava firme e forte estampado nas bandeiras tremulando espalhadas por todos os cantos da cidade.

No fim da tarde, já exausto, com calos nos pés e o meu tênis Bamba coberto de poeira, voltei para a American Comunity Scholl. Foi então que percebi que na porta de entrada havia uma reprodução do famoso Love, de Robert Indiana. Mais uma fotografia para o meu álbum.

No quarto, debaixo de uma luz forte de uma luminária em cima da escrivaninha, arrumei na minha carteira de couro, as notas sujas e amassadas de libras libanesas, tirei da máquina o filme Kodachrome de 36 poses que ainda estava ali dentro, folheei a Luluzinha falando árabe com o Bolinha e fiz minhas anotações. Só hoje, relendo essas anotações, vejo que escrevi: “No radinho de pilha em cima do criado-mudo, Maria Bethânia canta Esse Cara”, como se aquela canção estivesse ali dentro guardada para me saudar.

No final da noite, desembrulhei o pedaço de quibe que sobrou do almoço, coloquei num pratinho e peguei uma Pepsi-Cola na geladeira que ficava ao lado da porta com o Love. Fui dormir com o barulho ensurdecedor dos aviões de guerra que cruzavam o céu da cidade. Fui dormir tentando sintonizar alguma língua conhecida no radinho de pilha que pouco antes tocara Bethânia em bom português.

No meio da noite, acordei com o silêncio que se instalara. Fiquei ali deitado debaixo de um lençol de listras azuis e amarelas, pensando nos quarenta e quatro dias que ainda tinha pela frente e a missão de achar algum Haddad, algum parente do meu primeiro sogro.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

BEIRUTE À VISTA!

De tempos em tempos, eu me pergunto por que diabos resolvi, um dia, no verão de mil novecentos e setenta e cinco, aos vinte e cinco anos de idade, sair de Paris e ir parar em Beirute, por terra.

Não houve planejamento algum. Não comprei passagem, não reservei hotel, apenas coloquei um mapa-mundi no chão da sala da minha casa e fiz um traçado com caneta Stabilo Boss verde limão. Era um mapa mundi surrado, comprado ainda na Livraria Itatiaia, antes de deixar o Brasil.

Parti numa manhã de verão, com a cara e a coragem, levando apenas, nas costas, uma mochila de lona cheia de ilusão. Aos vinte e cinco anos de idade, tudo era divino, tudo era maravilhoso e eu não tinha tempo de temer a morte.

Durante muitos dias, andei de trem, de ônibus, de caminhão, de carona, de navio, e até de avião, num pequeno percurso antes de chegar a Beirute. Eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus, e seguia à risca a música de Jards Macalé e Waly Salomão.

Atravessei montanhas, lagos, rios, sete mares até chegar ao meu destino. Sai da França, desci a Itália, atravessei pra Grécia, passei pela Bulgária, cheguei perto da Albânia, alcancei a Turquia, depois a Síria e finalmente, Beirute.

As anotações que restaram são poucas, mas não me esqueço do longo percurso dentro de um vagão de trem, atravessando a Itália, de norte a sul, com aquela mochila nas costas, sem espaço para colocá-la no chão. Não me esqueço das horas e horas que passei no porto de Brindisi, esperando aquele velho navio, na esperança de reaver o passaporte que foi embora nas mãos de um policial.

Da Grécia, lembro-me de uma praça central, rodeada de árvores floridas que faziam sombra nos bancos de concreto, onde fiz da minha mochila, travesseiro.

Lembro-me das doze horas que passei para entrar na Bulgária e dos dois dias que passei comendo biscoito waffes, a única coisa que tinha para comer. Da Síria, não me esqueço da poeira e das primeiras placas enferrujadas escritas em árabe, aquele alfabeto que me deixou embriagado de paixão.

Nunca me esqueci de Alepo, quando Alepo ainda era uma cidade de pé, viva, onde as pessoas se divertiam nos cafés jogando dominó e bebendo arak, o néctar dos deuses.

A chegada a Beirute foi nas asas de uma velha aeronave da Turkish, cujo guardanapo, lembro-me bem, tinha a imagem de um porco e um X cruzando o seu corpo.

Já era noite e com aquele calor sufocante, só me restou pegar um taxi, um velho Impala 1960 e pedir ao motorista que me levasse até a Universidade Americana, onde passaria os próximos quarenta e cinco dias.

O alívio foi muito grande quando percebi que todas as pessoas no aeroporto de Beirute falavam francês e o motorista do táxi também. Depois de tantos dias driblando o italiano, tentando falar inglês com os búlgaros, fazendo mímica para os gregos e turcos, e sem entender uma palavra sequer na Síria, me senti em casa.

Na primeira esquina, o motorista perguntou de onde vinha e eu fui bem claro. De um país tropical, muito longe dali, onde uma ditadura militar tomou conta do espaço e me sufocou. Ele não quis saber mais nada, contou que o que conhecia de Brasil era a música de Jorge Ben. Cantarolou Mais que nada/Sai da minha frente que eu quero passar/O samba está animado/O que eu quero é sambar, e me contou que tinha todos os seus vinis.

Desviou o caminho e me levou até a sua casa, um pequeno apartamento onde vivia com a mãe. Era um ambiente sombrio, o chão coberto de tapetes persas, as paredes entupidas de fotografias de parentes mortos e uma antiga eletrola com espaço para guardar os discos de vinil, na parte de baixo.

Ali estavam os velhos e surrados discos de Jorge Ben, que ele conhecia tão bem. Ligou a geringonça e logo ouvi aquela voz inconfundível cantando Take It easy, my brother Charles/Take It easy meu irmão de cor…, a canção que ele também sabia de cor.

Tomamos suco de romã pra matar a sede e logo depois sua mãe me serviu arak numa pequena taça vermelha e dourada. Uma, duas, três. Foi difícil conseguir sair dali e pegar o meu rumo com destino a Universidade Americana. Mas cheguei.

Fui instalado num pequeno quarto moderno e colorido. A cama era amarela, o pequeno armário era azul, o criado mudo verde e a escrivaninha preta. A janela era pequena e ficava bem no alto. Tive de subir na cama para ver lá fora.

A escuridão era total e o silencio só era quebrado de tempos em tempos por um barulhinho bom, não sabia se de grilo, cigarra, sapo ou passarinho.

Só na manhã seguinte, com o sol na cara, voltei a observar o lado de fora de Beirute. Era um descampado, chão de terra batida, onde um grupo de jovens militares fazia exercícios. Nada muito interessante. Nenhum cedro, nada que me remetesse a Beirute.

Eu tinha os cabelos compridos, na cintura, e não pesava mais que cinquenta quilos. Quando pus os pés na calçada, um grupo se aproximou de mim e todos ficaram observado a minha figura dos pés a cabeça. O que fazia aquele ET em Beirute, se a manchete do L’Orient-Le Jour era guerra à vista?

Um pequeno bistrô, ao lado, exibia charutinhos de folha de uva na vitrine e um caixote de romãs maduros estava ali encostado na parede, do lado de fora. O cheiro dos temperos que vinha lá de dentro era muito forte, com certeza já fritavam linguiças merguez polvilhadas com harissa.

Com uma Pentax a tiracolo, dei o primeiro passo e vi Beirute. Fiz a primeira fotografia de uma das cidades mais fascinantes do mundo. Isso eu vou contar na semana que vem.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

 

ONDE ANDARÁ BEATRIZ?

Nos anos em que vivi fora daqui, em Paris, fiz muitas amizades. De gente maluca que gostava de sonhar a físicos, matemáticos e músicos que estavam ali de passagem, com o objetivo único de estudar. Muitos continuam presentes virtualmente na minha vida, curtindo e compartilhando nas redes sociais, trocando mensagens sem contato físico, mas dentro do coração. Outros, com o passar do tempo, sumiram na poeira da estrada. Nunca mais tive notícias.

De tempos em tempos, minha memória parte para o espaço sideral, em busca de lembranças, apenas lembranças que ficaram perdidas por aí.

Azeitona, por exemplo, que chegou animado em estudar agronomia e nunca estudou. Cacá, quase um monge budista que dizia estar procurando emprego, mas morrendo de medo de encontrar. O arquiteto Zé Octávio, que abandonou a portaria do Hotel de la Grece, onde trabalhava, e se juntou aos manifestantes que passaram numa ruela do Quartier Latin protestando exatamente contra o governo de Michail Stasinopoulos.

Ceará, que um dia resolveu fazer farofa com ovo, bacon e serragem, acreditando que daria certo. O gaúcho Darci, que inventou seu próprio vocabulário chamando gasolina de essência, a lixeira de pubele e o Líbano de Libão, são alguns exemplos.

E tinha Beatriz.

Beatriz era uma mineira do interior que chegou para animar a festa. Lembro-me bem que tinha onze irmãos, todos com os nomes começados em Be. Adorávamos quando ela repetia, como um narrador de turfe, os nomes de todos eles: Era Beatriz, Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

Beatriz chegou e alugou um pequeno studio num quarteirão aconchegante de Paris. Ficava no sétimo andar de um prédio sem elevador, mas o problema maior é que não tinha banho, isto é, não tinha chuveiro nem banheira. Mas Beatriz deu o seu jeito.

Arranjou um emprego de faxineira e andava pra lá e pra cá com uma sacolinha do Prisunic, com o seu kit banho: Toalha, sabonete, xampu e uma calcinha. Onde chegava, não fazia cerimônia, pedia pra tomar banho. Lá em casa já estávamos acostumados. Quando ia se despedir, perguntávamos se não ia tomar banho. Ia, claro. Ela se deliciava com aquela água quentinha para amenizar o inverno rigoroso.

Beatriz contava histórias ótimas como aquela do pai dela, mineiro metódico, que todos os dias às seis horas da manhã em ponto, pegava o regador e saia para molhar a horta, além das flores e das folhagens que cultivava no quintal de sua casa, lá no interior de Minas. Mesmo quando estava caindo um toró, o pai de Beatriz pegava a galocha, o guarda-chuva e saia com o regador para molhar suas plantas.

Beatriz falava um francês muito particular. Gostava de ensinar para os franceses as delicias da culinária brasileira: Vous prenez le feijão preto, puis vous ajouter toutes les types de viande, carne seca, paio, costelinha, orelha, rabo… E continuava. Ah, il y a aussi de la farinha de mandioca pour faire de la farofa. Ajoutez la couve refogadinha e aussi des morceuax de laranja seleta e torresmo. Os franceses ficavam com os olhos arregalados tentando entender e a gente fazendo xixi de tanto rir.

Um dia ela chegou esbaforida na nossa casa, dizendo  que estava cagada de arara! Um francês perguntou o que ela havia dito e Beatriz começou a explicar: Vous conaissez le perroquet?

De repente, Beatriz chegou com uma novidade. Estava namorando um árabe, não me lembro se do Marrocos ou da Argélia. Mustafá estava apaixonadíssimo por ela, mas tinha um problema. Não se conformava em Beatriz trabalhar fora. E a relação funcionava assim: Ele chegava do trabalho por volta de sete da noite e se ela não estivesse em casa, começava a beber cerveja.

Quantas e quantas vezes ela passou na nossa casa, tomou um banho rápido e saiu voando, porque senão ia chegar tarde em casa e encontrar Mustafá esparramado no sofá, depois de beber uma dúzia de latinhas de Kronnebourg.

A última vez que vi Beatriz foi no seu bota-fora. Prepararmos uma galinha d’Angola com couve de Bruxelas pra ela, uma despedida à altura. Até uma cachacinha mineira apareceu naquele dia. Mais uma vez rimos muito, comemos muito, nos divertimos demais e desejamos a ela boa viagem e sorte na sua volta ao país tropical.

Beatriz pegou o primeiro avião com destino a felicidade e nunca mais tive noticias. Já cansei de procurar nas redes sociais e nada. Queria vê-la nem que fosse um tiquinho, como ela dizia. Pelo menos para ela recitar o nome dos onze irmãos: Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

OS JOVENS NÃO PASSAM ROUPA

É muito vaga a minha lembrança do ferro a brasa. A única que me vem à memória, é lá da Fazenda do Sertão, interior de Minas, eu menino ainda, espiando da janela uma senhora idosa passando roupa com o tal ferro. Éramos proibidos de entrar ali porque saiamos tossindo muito e defumados.

Era uma senhora negra, franzina, um lenço branco na cabeça, que enfrentava com todo vigor uma pilha de roupas pra passar, que ela costumava deixar dentro de um enorme cesto de vime.

Na Fazenda do Sertão não havia eletricidade, vivíamos de lamparina e a solução para passar roupa, era aquele pesado ferro a brasa, uma verdadeira maria fumaça.

A senhora soprava e colocava brasa toda vez que sentia que a roupa não estava ficando lisinha e impecável. Eram uns lençóis brancos, umas fronhas bordadas e muita roupa encardida de crianças que viviam naquela poeira danada, barro quando chovia.

Muitos anos depois, vi alguns ferros a brasa no interior de Minas, decorando casas, com arranjos de flores dentro, ou segurando a porta para não fechar.

Quando chegou o ferro elétrico, o temor da minha mãe veio junto. Era uma época em que os aparelhos eletrodomésticos davam muito choque e minha mãe só encostava no ferro de passar com uma sandália de borracha nos pés.

A minha irmã mais velha logo ficou apaixonada pelo tal ferro elétrico, tão apaixonada que o meu pai deu a ela de presente de Natal, um ferrinho de passar roupa da Estrela. Era um ferrinho de verdade, com fio e tomada, que ligava e esquentava. Parecia que ninguém tinha medo do perigo.

A mamadeira era de vidro, andávamos em muros com cacos, fazíamos guerra de mamona, jogávamos bola na rua e andávamos armados com um revólver de espoleta na cintura, também da Estrela. A gente matava e nossos amigos morriam de mentira.

Voltando ao ferrinho da Estrela, um dia, minha irmã saiu do banho e foi passar a roupinha da boneca. Descalça e com os cabelos molhados, ela acabou levando um choque violento e ficou presa a ele, gritando por socorro. Foi depois disso que minha mãe escondeu o ferrinho no alto do armário, pra ninguém nunca mais pegar.

Estou contando essas histórias, mas a que eu quero mesmo contar é que percebi ultimamente, que essa juventude de hoje não passa mais roupa. Ninguém das amigas ou amigos das minhas filhas, nem mesmo elas, passam roupa. Acham que é inútil, uma bobagem, gastar tempo e energia passando roupa.

Eu não me acostumo com roupa amassada. Outro dia liguei pros meus irmãos e perguntei se eles ainda passavam roupa. Sim, todos continuam saindo sempre na estica. Alguns gostam de passar, outros não. Mas todos fazem questão de sair com a roupa passada.

Foi então que minha irmã lembrou de Maria Passadeira que, confesso, havia sumido da minha memória há décadas. Ela foi reativando à medida que minha irmã ia abrindo seu baú de memórias.

Ninguém sabia o sobrenome da Maria. Era Maria Passadeira e pronto. Uma vez por semana, ela ia na nossa casa pra passar roupa. Chegava, tomava um cafezinho ralo com um pedaço de pão com manteiga, encurtava a conversa e dizia: “O papo está ótimo, mas eu tenho um mundo de roupa pra passar”.

E tinha mesmo. Éramos cinco filhos e muita roupa, muitos lençóis, muito uniforme de futebol, muita camisa social do meu pai. Mas a Maria Passadeira nunca reclamava. No final do dia, ela ia de quarto em quarto e colocava, em cima da cama de cada um, a roupa impecavelmente passada.

Maria Passadeira não sabia cozinhar, não gostava de arrumar a casa, gostava só de passar roupa. E passava bem, inclusive engomando aquelas saias plissadas das minhas irmãs, uniforme do Colégio Sion.

Não sei se ainda existem passadeiras como Maria Passadeira, que vão na casa das pessoas exclusivamente para passar roupa. Talvez tenham desaparecido juntamente com as costureiras à domicilio, com o Simca Chambord, com a Mirinda Morango, com os maiôs Catalina e com as estampas do sabonete Eucalol. Enfim, tudo passa.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.com

NÃO CHORE MAIS

Quando o inverno apertava, os ossos começavam a doer ao abrir, todas as manhãs, a janela da sala, encravada pela ferrugem e por uma tinta óleo de anos. Havia um silêncio no ar e o silêncio ocupava os poucos cômodos daquele apartamento alugado num bairro comunista de Paris, abrigo de exilados. 79, Rue de la Roquette.

O fog, a chuva fina lá fora, o brilho da água no asfalto novo refletia no vidro das janelas e no nosso chão, como se fosse um cinemascope. Eu passava a mão como se fosse a rosa púrpura do Cairo e não sentia nada, nenhum calor naquela luminosidade.

Era melhor mesmo ficar em silêncio por alguns minutos. As cartas não chegavam mais, nenhuma foto, nenhuma revista, nenhum recorte de jornal na caixa de correio instalada na parede mofada na entrada de onde residia.

Líamos jornais clandestinos vindos do Sul, o manual de guerrilha de Carlos Marighela, os fascículos da Editora Maspéro e a Nouvel L’Obs para aluviar.  Vínhamos andando pelo Boulevard Saint Germain, descíamos o Saint Michel, passávamos pela barraca de drágeas colorias, balas perdidas em potes de plástico, e chegávamos na Livraria Joie de Lire.

Um ar meio maoísta tomava conta do lugar e eu descia cuidadosamente os degraus da escada estreita até chegar ao subterrâneo onde estava o Opinião, onde estavam, em uma mesa redonda, todos os jornais uruguaios, argentinos, chilenos e peruanos.

Sabia que a distância era tão sofrida, o mundo tão separado, jamás se hubiera encontrado, sin aportar nuevas vidas. E quem garantia que a história era uma carroça abandonada numa beira de estrada, ou numa estação inglória?

Em casa, lia Dalton Trevisan para aprender a escrever curto e grosso. Queria, para os meus contos, nomes de obras primas dos gênios da pintura espalhadas pelos museus do mundo que começava a conhecer.

Rapariga com brinco de pérola, O cavaleiro risonho, O baile no Moulin de La Galette, A noite estrelada, Menino em um colete vermelho, Natureza morta, O beijo e O grito.

Queria ter nascido holandês para entregar esses manuscritos no Ministério da Cultura em Amsterdam e receber por eles um punhado de florins que daria para comprar pão preto, geleia de laranja amarga, um triângulo da Vache qui ri e um vidrinho de Nescafé.

Queria descrever cenas dos meus companheiros colhendo morangos nas cercanias de Estocolmo, colhendo tâmaras no interior da Síria ou colhendo uvas na região de Bordeaux. Eram amigos que trabalhavam na cozinha, nas estradas, campos e construções.

A dor nas costas era intensa de tanto separar as uvas verdes das maduras, o joio do trigo, encontrar a agulha no palheiro. Queria ser Esopo pra escrever e Marc Chagall para ilustrar as uvas verdes nas alturas, maldita raposa.

Queria colher o trigo, amassar o pão, colocar na vitrola O evangelho segundo Cristiano, mesmo sabendo que o vinil estava arranhado de tanto uso, o chiado forte, Geraldo Vandré.

Me alegrava o pessoal do Nordeste gravando discos na CBS e os urbanos de São Paulo gravando na Continental. Walter Franco cantando nothing, to do nothing, today, about me, I’m happy no, I’m not sad, I just happy now, looking to the empty space.

Eu olhava pro espaço sideral na esperança de ver Laika passeando no céu de cosmonautas que nos protegia. Aqui não era Londres, mas mesmo assim havia no canto o silêncio do meu violão, nem eu mesmo sei porque.

Procurava nas páginas amareladas do Pasquim, notícias sobre aquele exilio recém anistiado de Caetano Veloso e Gilberto Gil e encontrava apenas nostalgia, tudo tão triste, uma saudade danada do mar da Bahia e fragmentos do Demiurgo numa câmera Super-8.

Lembrava da minha coleção do jornal Rolling Stone encadernada e tentava recordar se havia alguma noticia ali do Festival da Ilha de Wright, notícias de Janis, de Jimi e principalmente de Joe. Pedia apenas um help, uma pequena ajuda dos meus amigos, amigos que a essa hora estavam ali sentados no aterro sob o sol, presos ou sumindo pra nunca mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

ORGANIZANDO O MOVIMENTO

Andando pela Rue des Écoles, em meados dos anos 1970, parei perplexo diante da vitrine de uma livraria que não conhecia. Vi ali exposto o livro Cemitério de Elefantes, de Dalton Trevisan, de contos curtos e instigantes, que também não conhecia.

O que estaria fazendo aquele livro do vampiro de Curitiba, em português, numa livraria no coração do Quartier Latin? Fui saber quando dei dois passos atrás e li: Librairie Portugaise e Brésilienne.

Longe do meu país há um tempo, entrei maravilhado descobrindo, aqui e ali, livros em português e discos de vinil de MPB. No primeiro dia que entrei ali, levei pra casa, além do Cemitério de Elefantes, o disco Romaria, de Renato Teixeira, que já tinha lido a respeito nos recortes de jornais que meu irmão enviava pelo correio.

Virei freguês. No segundo dia que entrei naquela livraria vi, de pé ao lado do caixa, um senhor elegante que me pareceu familiar, jeito de mineiro como eu. Vim a saber que era o José Maria Rabelo, jornalista, exilado, fundador do jornal Binômio, que circulava na minha Belo Horizonte, quando eu era ainda menino de calças curtas.

O Binômio foi um jornal que virou Minas Gerais de cabeça pra baixo, uma espécie de Pasquim das montanhas. Nunca me esqueci daquela manchete do dia em que o presidente Juscelino Kubitschek voou num jatinho pra Araxá levando o empresário Francisco Rolla. No dia seguinte, lá estava estampada na primeira página do Binômio:

JK vai a Araxá e leva Rolla!

Criei coragem e me apresentei. Zé Maria Rabelo, como todos o conheciam, ficou interessado no Movimento, jornal que eu trabalhava como correspondente na época. Ele era leitor. Contei a ele do nosso plano de vender o jornal para exilados em Paris, que eram mais de dez mil.

– Vamos vender aqui! Disse ele, sem pestanejar.

Aquilo bateu como um vento forte de animo para nós, cansados de guerra, resistindo bravamente. A ditadura militar já começava a dar sinais de que, mais cedo ou mais tarde, bateria as botas.

Todos os dias, eu acordava às quatro horas da madrugada porque, cinco em ponto, eu já deveria estar no restaurante Les Hauts de Belleville, onde servia o café da manhã para os trabalhadores.

Nove horas, com tudo em ordem, fechava as portas e ia pra casa descansar.

Depois daquele encontro com Zé Maria Rabelo, virou rotina. Toda segunda-feira depois do expediente, eu pegava o ônibus na Gare Denfert-Rochereau com destino ao aeroporto de Orly. Na alfândega, me apresentava e recebia um pacote com cem exemplares do jornal Movimento, embrulhados em papel kraft e amarrados com um forte barbante.

Colocava dentro de um carrinho de feira e voltava no mesmo ônibus que me deixava novamente na Gare Denfert-Rochereau. De lá, pegava o metrô e ia até a estação Saint-Michel, que ficava perto da livraria do Zé Maria.

Ele sempre me recebia de braços abertos e, feliz, mostrava a prateleira onde ficava o Movimento, quase vazia. Seus olhos brilhavam ao ver aquele pacote de jornais frescos. Fazia as contas de quantos tinha vendido na semana e me pagava em dinheiro, francos franceses vivos, dinheiro que dava pra comprar o leite e o croissant das crianças.

villas 1 certa.jpg
Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância 

Ficamos amigos, nunca íntimos, mas amigos. Foi na livraria do Zé Maria Rabelo que um dia, fuçando os vinis, vi, ao meu lado, uma tímida Nara Leão. Mas essa é outra história.Um dia, eu e Zé Maria Rabelo voamos de volta pro Brasil nas asas da abertura, cada um pro seu canto. De vez em quando, tenho notícias dele pelo Facebook.

Essa semana fiquei sabendo que estava comemorando 90 anos de vida, com direito a palestra sobre os caminhos do exílio, no evento Sempre um Papo, do incansável Afonso Borges, um sucesso em BH.

Pedi ao Fernando, filho do Zé Maria Rabelo, uma foto recente dele para ilustrar essa crônica e o retrato chegou em poucos minutos pelo messenger, bem caprichado.

Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância que me recebia toda segunda-feira na Librairie Portugaise et Brésilenne. O Zé Maria Rabelo é um desses tipos inesquecíveis, mineiro boa praça, que continua firme e forte, organizando o movimento.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br 

PEG-PAG

Lembro-me muito bem do dia em que foi inaugurado o primeiro supermercado em Belo Horizonte. Ele chamava-se Serv-Bem e ficava na praça Diogo de Vasconcelos, hoje Savassi.

No dia da inauguração, fizemos fila pra entrar naquela maravilha que chegava da América do Norte. Daríamos adeus ao Mercadinho Colombo para mergulhar de cabeça no futuro.

Nada mais bacana do que entrar ali no Serv-Bem, percorrer os corredores vendo os mantimentos, as latarias, as frutas e os legumes, ir colocando tudo dentro do carrinho e só pagar na saída.

A gente pegava o pacote de Cremogema, a latinha de presuntada Wilson, o saquinho de Mandiopã, a pasta de dente Kolynos e saía feliz da vida. Havia chegado ao fim aquela história de ter de ir ao Armazém do Seu José e pedir uma lata de biscoitos Aymoré.

A moda pegou naquele início dos anos 1960 e, num piscar de olhos, a cidade foi ganhando vários peg-pags da vida, enquanto os armazéns baixavam suas portas definitivamente.

Desde o Serv-Bem, eu virei fã de supermercado. Tem gente que odeia, mas eu confesso que gosto. Por onde ando nesse mundo afora, sempre entro em supermercados pra ver as novidades. Nessa última viagem, descobri Fanta sabor flor de sambuco num supermercado de Florença, Fanta sabor goiaba na cidade de Pylos, na Grécia, e encontrei vidros de leite de égua num supermercado em Paris.

Gosto de ver as novidades, os rótulos, ter surpresas como ver a latinha da Amstel e o tubo da Super Bonder escritos em grego. O que não muda é a danada da embalagem laranja do arroz Uncle Bens, que é igual no mundo inteiro.

A gente sabe que supermercado é uma armadilha. Entramos pra comprar um pacote de manteiga e saímos de lá com uma caixa de cerveja, uma dúzia de bananas, uma geleia importada, quatro iogurtes gregos, um sabão em pó, além de pães quentinhos. Mas mesmo assim eu gosto de supermercado.

Gosto até mesmo de ler as listas de compras esquecidas dentro dos carrinhos. Outro dia encontrei uma assim:

Achocolatado (tem de ser Toddy)

Vanish do branco

Pinho Sol do roxo

Sabão pra máquina (o mais barato)

Só não gosto daqueles hipermercados que, pra chegar ao pacote de arroz Tio João, você tem de passar antes pelos pneus, televisores, geladeiras, liquidificadores, flores, roupas e calçados.

Na verdade, ando meio embirrado nos últimos tempos com supermercados, principalmente esse que tem aqui na esquina de casa. E vou contar o motivo. Antes, era só chegar, escolher os produtos, colocar no carrinho e passar pelo caixa. Coisa rápida.

Agora, ir ao supermercado virou uma coisa tão demorada quanto pagar uma conta na boca do caixa de um banco ou pegar uma fila da megasena acumulada na noite de quarta-feira. Depois de passar uns dez minutos na fila, chega sua vez. Ai a caixa dá um sorrisinho amarelo e faz um questionário e dá ordens:

É cliente mais?

Pode digitar o CPF!

Confirma!

Quer nota fiscal paulista?

No mesmo CPF?

Quer carregar o celular?

Vai querer sacolinha?

Aí você começa a colocar os produtos na sua sacola descartável e, quando termina, mais perguntas:

Qual é a forma de pagamento?

Débito ou crédito?

Pode digitar a senha!

Vai querer selinhos pra trocar por bonecos de pelúcia do Jamie Oliver?

Tem o ticket do estacionamento?

Isso sem contar quando o código de barras não passa na leitora e a caixa é obrigada a dar uma esfregadinha, tenta de novo e começa a digitar aquela centena de números.

Isso, sem contar que, a todo momento, você tromba com um cliente, de olho grudado no celular porque agora você tem de checar os descontos no aplicativo.

Nessas horas dá uma certa saudade de Seu Mario, que tinha um armazém na Rua Grão Mogol e vendia tudo a granel. A gente chegava, pedia um quilo de alpiste, meio quilo de ração pra poedeira, dois quilos de canjiquinha e, em poucos minutos, saia de lá com os pacotinhos de papel na mão. Ali sim, era lugar de gente feliz.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

SAI DE BAIXO!

Confesso que ultimamente ando com medo de circular por algumas ruas de São Paulo, uma cidade tão judiada. O temor maior vem quando preciso percorrer a rua que passa por debaixo do viaduto Presidente João Goulart, mais conhecido por aqui como minhocão. Vejo rachaduras, vejo goteiras, vejo mofo e ontem, no final da tarde, vi nada mais nada menos que uma árvore que surge frondosa e bela, bem na junta do concreto. Percorro aquele pedaço com o coração na mão, imaginando que se os engenheiros responsáveis pela manutenção do minhocão, não perceberam aquela árvore ali, com mais de um metro e meio de altura, teriam eles percebido as rachaduras, as goteiras, o mofo? Se um dia esse viaduto despencar sobre a cabeça dos paulistanos vai ser uma tragédia sem tamanho, anunciada aqui.

[foto Alberto Villas]

A ILHA DE CUBA

A emoção é sempre muito grande quando a gente pisa num lugar sonhado pela primeira vez. Foi assim quando cheguei a ilha de Cuba e fui recebido como um pachá. Claro. Estava ao lado de Chico Buarque, nosso embaixador por lá.

– Chico! Chico! Chico! gritavam no aeroporto para um Buarque de Holanda sorridente e meio tímido, cigarro entre os dedos, depois de muitas horas de voo.

Eu era um garoto magro e cabeludo, tênis Bamba nos pés, calça jeans desbotada, camiseta com estampa de rock and roll e uma mochila da Company nas costas, cheia de sonhos e ilusões. Nem parecia um funcionário do Estadão, com carteira assinada e tudo mais.

Voei pro Panamá e depois embarquei num avião da Cubana, que mais parecia um ônibus da Cometa com asas. Gostava daquela aventura, não reclamava do barulho do motor, da turbulência dentro das nuvens, do papel de parede florido descolando da mesinha de lanche. Não reclamava nem mesmo da cerveja quente sem rótulo servida a bordo.

No pensamento, modificava a canção de Luiz Melodia, cantando baixinho se alguém quer matar-me de amor, que me mate no espaço aéreo da ilha de Cuba!

Voava ansioso com a missão de cobrir o Festival de Música de Varadero para o Caderno 2 que, além de Chico, tinha Maria Bethânia numa noite bem brasileira.

O jornalismo não era quadrado, medroso, tampouco burocrático, tanto que o Luiz Fernando Emediato nem percebeu que fiquei na ilha quinze dias pra cobrir um festival que durava apenas três.

Além da cobertura do festival, escrevia crônicas, fotografava o país para uma reportagem do Suplemento de Turismo do jornal e me divertia com o bom humor dos moradores dali. Dancei salsa como nunca com cubanas cheirosas, muito jogo de cintura e rebolado, ao som quente de Los Van Van e Celia Cruz e canções românticas de Silvio Rodriguez e Ibrahim Ferrer.

Cuba era uma festa. Havia uma certa penúria, lembro-me bem, até para comer um perro caliente seco, pão com salsicha e só. Tinha filas enormes e a caixa do trailer demorava um bom tempo para fazer a nota fiscal em quatro vias, que ia colocando uma a uma dentro de escaninhos de madeira. Uma pro governo, outra pro Ministério da Saúde, outra pro Ministério da Agricultura, outra pro Ministério do Comércio, me disseram.

O refrigerante era uma cola meio aguada e muito doce que eu bebia com vontade e prazer, mordendo aquele cachorro quente minúsculo e esquisito.

Gostava de entrar nos sebos e livrarias e ver o preço de banana dos livros impressos em papel jornal e com capas bem populares. Jorge Amado era o pop star da ilha e todos se miravam em Gabriela, cravo e canela.

De noite, a festa era nas praças públicas de Havana. enfeitadas com bandeirinhas de papel crepom colorido e lâmpadas de 40 watts. Muita música, muita margarita e muito mojito. O papo rolava entre política, a resistência aos yankees e o sonho de um dia conhecer Copacabana.

As minhas camisetas faziam sucesso por ali e eu não podia sair com elas nas ruas. Era colocar o pé na calçada, logo aparecia um companheiro querendo trocar a sua branca de algodão rústico por aquela colorida de rock and roll.

Deixei por lá uma com o rosto da Nina Hagen, uma da Madonna, uma da Cindy Lauper e uma quarta com um desenho do Yellow Submarine, que devem existir até hoje, puídas e desbotadas, porque cubano não se desfaz assim de uma camiseta preciosa.

Visitamos o museu e a praça da Revolução, conversamos com estudantes universitários que levavam fotografias de Fidel nas carteiras de couro surrado que guardavam dentro de pastas de cartolina. todos muito orgulhosos da ilha.

Comi muita banana frita e camarões ensopados. Fotografei noivas nas muradas do Malecón, a imagem de Che Guevara nos muros de Havana, comprei livros de Marx e Engels, voltei mais comunista do que fui.

Assisti palestras intermináveis sobre música e cinema cubano, palestras que mais pareciam aqueles históricos discursos do comandante Fidel Castro. Anotava tudo num bloquinho azul que o Estadão dava aos repórteres do Caderno 2. Dos bloquinhos, só sobraram as histórias pra contar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br 

[foto Alberto Villas]

PODE SER A GOTA D’ÁGUA

 

Julho inteiro não choveu em São Paulo, sequer uma gota d’água caiu do céu. A cidade foi ficando com ar de deserto, onde há grama, a grama seca, a cara de Brasília. As árvores foram resistindo porque são firmes e fortes. Até mesmo as flores da varanda da nossa casa quase morreram todas, não sei se de saudade ou de falta d’água. Havia filas para ocupar as poltronas de inalação nos pronto-socorros da cidade e, nos postos do SUS, nunca se viu tanta gente chegando por falta de umidade, nariz seco, garganta seca. Nas farmácias, os inaladores vendiam como banana na feira, todos querendo um pouco de umidade. De repente, veio o chuva, chegou de noite, anunciada por tímidos trovões. Mas veio pra valer. A vontade foi sair na janela e aplaudir, como os cariocas aplaudem o por do sol. É nessas horas que a gente dá valor pra natureza, que a gente se emociona até mesmo por uma gota d’água.

[foto Alberto Villas]

Um dia de fúria

A primeira vez que fui ao Jardim Botânico e coloquei os pés na TV Globo, pisei firme com o direito. Trazia dentro de uma pasta de couro, um contrato de trabalho recém-assinado e sentia nas costas um certo peso, não sei bem porque.

Me identifiquei na portaria, passei por um pequeno jardim muito bem cuidado e entrei no elevador. Apertei o botão do sétimo andar, que era onde ficava a sala do Diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, que todos chamavam de Doutor Evandro, percebi no primeiro momento.

Esperei alguns minutos até que a simpática secretária ordenasse a minha entrada. Encontrei sentado numa enorme mesa transbordando de papéis, um homem muito alto e magro que eu, com mania desde pequeno de procurar semelhanças nas pessoas, vi logo que ele era a cara do grilo do filme Vida de Inseto.

O Doutor Evandro sentou-se numa poltrona para conversar comigo. Calçava sapatos marrom, acredito eu que de legítimo couro alemão. Vestia uma calça jeans Yves St Laurent com friso, uma camisa de cor alaranjada, com o primeiro botão de cima desabotoado, deixando aparecer um delicado cordão de ouro que trazia dependurado um micro olho turco. Superticioso, pensei.

O Doutor Evandro, com aquele vozeirão e tantos anos de poderoso chefão nas costas, dava medo. Ele tinha um vistoso relógio no pulso esquerdo, que olhava de tempos em tempos, deixando parecer que não tinha muito tempo a perder.

Ele quis saber um pouco do meu currículo, desejou-me boa sorte e fez questão de deixar uma coisa bem clara:

– Aqui não temos inimigos. Aqui não temos lista negra, nem proibição alguma. Dizem por aí que não podemos falar bem de Leonel Brizola. Mentira! O que for preciso dizer dele, diremos. Mas sempre a verdade.

Sai dali um pouco aliviado. Antes de assinar o contrato, quis saber da minha liberdade. Recebi carta branca de Amauri Soares e o trabalho começou no dia seguinte, um curioso primeiro de abril de 1997.

Depois desse dia, encontrei-me algumas vezes com o Doutor Evandro, sempre na sua sala. Nunca se queixou do meu trabalho no Jornal Hoje, no Jornal da Globo, no Jornal Nacional e no Fantástico. Ele deixava a impressão de que eu estava fazendo apenas a minha obrigação. Doutor Evandro não era de elogios.

Ele tinha uma postura firme e forte, imbatível. Lembro-me bem do dia – uma sexta-feira – em que fui passar o script do Fantástico pra ele. Quando disse que fecharíamos o programa com um clipe inédito e exclusivo do Chico Buarque, o diálogo foi o seguinte:

inseto.png

– Não!

– Não? Por que não?

– Não estamos aqui para vender discos do senhor Chico Buarque de Hollanda.

– Sei que não estamos aqui para vender disco do Chico, mas estamos aqui para falar de cultura.

– Deixa o Chico pros jornais falarem dele. Nós, não.

Lembrei a ele da tal lista negra que havia me falado no nosso primeiro encontro, ele argumentou que Chico não estava em lista negra alguma, mas colocar um clipe dele no Fantástico era propaganda para vender disco. Discordei.

Mas não teve argumento. Um não do Doutor Evandro era um não e não tinha volta. Sai da sala meio cabisbaixo, carregando a tristeza de não fechar o Fantástico com o Chico cantando Me sinto pisando/Um chão de esmeraldas/Quando levo meu coração/À Mangueira.

Mas isso são águas passadas. O que quero contar aqui hoje nesta crônica, é uma história engraçada, meio sem pé nem cabeça, talvez uma bobagem.

Era domingo, por volta de dez da noite, eu estava no switcher colocando o Fantástico no ar quando o telefone tocou. Quando aquele telefone tocava, era alguma coisa séria porque era uma espécie de telefone vermelho.

O produtor atendeu e, meio pálido, me passou o gancho.

– É o Doutor Evandro!

Doutor Evandro estava tendo um chilique. Furioso e, antes mesmo de perguntar se era eu quem estava na linha, disparou:

– Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor que é militante do Partido Verde!

Segundos antes, tínhamos colocado no ar, uma pequena noticia do domingo, em que os cariocas abraçavam a lagoa Rodrigo de Freitas, em mais um desses atos típicos do domingo carioca, mais uma tentativa de salvar os seus peixes.

Era o que chamamos de nota coberta, em que o apresentador narra e a imagem mostra o fato. O que enfureceu Doutor Evandro foi uma imagem em primeiro plano de um jovem vestindo uma camisa branca com um enorme V no peito, o logotipo do Partido Verde, um partido que não passava de 0,1% da intenção de votos em qualquer pesquisa. Mas o Doutor Evandro encasquetou que ali havia uma mensagem cifrada do pobre editor que, na verdade, tinha razão de colocar no ar apenas uma boa imagem.

Não podia ver seu rosto, mas pelo tom de voz senti que deveria estar espumando de tanta fúria.

Não respondi nada, disse apenas que não poderia interromper o meu trabalho que era tenso, muito tenso, de colocar o Fantástico no ar. Doutor Evandro, antes de bater o telefone na minha cara, disse que queria, no final do programa, o nome do editor.

O Fantástico acabou, recolhi minhas coisas, apaguei as luzes, peguei um taxi amarelo na porta da emissora e me recolhi a um quarto de hotel em Ipanema, esperando o telefone tocar a qualquer momento.

O tempo passou, o telefone ficou em silêncio. Alguns dias depois, encontrei com o Doutor Evandro deixando a emissora no final do expediente. Ele me chamou e disse que acabara de ler um livro espetacular e perguntou se já tinha lido. Era Pastoral Americana, de Philip Roth. Disse que ainda não tinha lida e ele completou:

– Leia! Leia! É uma obra prima.

Passei na Livraria da Travessa, comprei o livro, li, procurando ali uma mensagem cifrada. E nada.

Tivemos alguns outros encontros e o Doutor Evandro nunca mais tocou no assunto Partido Verde. Morreu sem saber o nome do editor que, um dia, me confessou que nem sabia que aquele V dentro de um circulo na camisa daquele manifestante da lagoa, era o logotipo do Partido Verde, partido que ele nunca votou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

MEIA MEIA

Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Mais os Beatles do que os Rolling Stones. Estava mais inclinado para Lucy in the sky with diamonds do que uma Simpathy for the devil. Era mais Rubber Souldo que Let It Bleed.

Um temporal jamais visto, com ventos de cento e quarenta e cinco quilômetros por hora, quase varreu Florença do mapa. Obras de arte boiavam no Rio Arno como se fossem pedaços de tábua a vagar. A Ponte Vecchio, a única que não foi destruída pelo bombardeio alemão, resistia bravamente, mais uma vez.

Num hospital de Houston, no Texas, Marcel de Rudder resistiu apenas cinco dias com uma bomba cardíaca implantada no peito. O doutor Michael de Bakey, responsável pela façanha, explicou ao mundo que a morte foi provocada por um rompimento do pulmão e não tinha relação alguma com o aparelho instalado no peito esquerdo de Rudder.

Nós, terráqueos, vimos, através de radiofotos, as primeiras fotografias da superfície lunar enviadas pela nave Surveyor. Era mesmo uma paisagem lunática, pedras de cor cinza chumbo e nenhum sinal de vida como a nossa por aqui, com luzes, árvores, pessoas, automóveis, intrigas.

Aproveite este dia, aproveite esta hora! /Fora com todas as pragas!/Nossa força é irresistível. O último poema de Mao Tsé-Tung viera à tona naqueles dias e a grande revolução chinesa estava lançada.

A guerra do Vietnã andava a passos largos e definitivos, o cheiro de patchouli começava a impregnar o ar e a moda eram jaquetas jeans bordadas com pequenos cacos de espelho. Os hippies estavam sendo incubados.

O Brasil estava dividido entre uma Arena e um MDB, enquanto um rei era coroado, querendo apenas que alguém lhe aquecesse no inverno e que tudo mais fosse pro inferno.

Eu estava passando férias em Sobradinho, cidade satélite de Brasília, esperando nascer a minha primeira sobrinha, quando o radinho de pilha começou a transmitir a Copa do Mundo, na Inglaterra.

Na pré-história dos satélites, o som vinha e sumia daquele radinho como poeira na estrada. Mas, aos quinze minutos do primeiro tempo, ouvimos o grito de gol. Era Pelé que fazia um a zero em cima dos búlgaros.

O Brasil estava em campo com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Altair, Paulo Henrique, Denílson, Lima, Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Era o nosso escrete canarinho.

A gente ficava ali na varanda de uma casa popular, tentando captar um som mais puro e constante que saia fraco daquele radinho de pilha. Sabíamos que a cor da camisa da nossa seleção era amarelo ouro porque vimos na capa da Manchete, a mais colorida de todas as revistas. Mas, a do adversário, não conseguíamos enxergar, apenas imaginar. Só no dia seguinte, através das radiofotos na primeira página de O Globo, víamos as imagens, mesmo assim em preto e branco.

Campeões em 1958 na Suécia, bi em 1962 no Chile, por aqui só se ouvia falar em tri. Um tri que não veio e que foi transformado em vexame internacional, depois que perdemos da Hungria por 3 a 1 e de Portugal, pelo mesmo placar.

De tempos em tempos, trocávamos as pilhas amarelinhas do rádio, e ele recomeçava bravamente a transmissão. Foram tardes sofridas aquelas de 1966, em busca do som puro, da jogada perfeita, da festa do tri que já tinha um engradado de Brahma Chopp reservado para os que podiam beber.

O radinho de pilha aguentou firme e só foi aposentado em 1970, na Copa do México, na Copa do tri. Naquele 1966, o cinema perdeu Montgomery Clift, o surrealismo perdeu André Breton, as crianças perderam papai Walt Disney, nós perdemos a Copa do Mundo na Inglaterra, mas ganhamos uma sobrinha muito querida, a Chris, que nasceu lá em Sobradinho.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br