O TRABALHO

Eu estava brincando de cabana com o meu primeiro filho quando, de repente, olhei o relógio, sai da brincadeira, fui tomar banho e me aprontar. Era era pequeno ainda, ele já tinha ido na escola de manhã e feito os deveres da escola, logo depois do almoço. O meu trabalho só começava bem no final da tarde, se não me falha a memória, no oitavo andar da Avenida Engenheiro Caetano Álvares. Todos os dias, neste período da tarde, costumava brincar com os dois, nessa época eram dois, o Julião e a Sara. Nossas cabanas eram muito bacanas, de dar inveja. Ali dentro sonhávamos com os clássicos da literatura juvenil: Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, As Aventuras de Peter Pan, Simbá, o Marujo.Vivíamos com Alice no País das Maravilhas. Nossas cabanas tinham teto de cobertor xadrez e um puxadinho que saia do beliche e ocupava parte do quarto deles. Eram cabanas misteriosas e quando entrávamos, iluminávamos com duas lanternas grandes. Cada canto tinha um segredo, caixinhas de madeiras, segredos guardados a sete chaves. Todo dia, no auge da brincadeira, dava a hora de eu ir embora, mergulhar no noticiário da América Latina, do Oriente Médio, da América do Norte, da Oceania, até tarde da noite. Um dia, quando estávamos no auge da brincadeira, o meu filho olhou nos meus olhos com uma cara de tristeza e lamentou: “pai, por que você não vai trabalhar só no dia que tem notícia?” Hoje amanheci com essa pergunta do Julião na cabeça, dita lá no início dos anos 1980. 

 

VAMOS FUGIR!

Hoje eu vou fugir de casa, vou levar a mala cheia de ilusão. Vou deixar alguma coisa velha esparramada toda pelo chão.Vou correr num automóvel enorme e forte, a sorte e a morte a esperar. Vultos altos e baixos que me assustavam só em olhar. Pra onde eu vou, venha também. Eu vou pra Maracangalha, eu vou. Eu vou de liforme branco, eu vou de chapéu de palha, eu vou convidar Anália e se a Anália não quiser ir, eu vou só! Faróis altos e baixos que me fotografama me procurar. Dois olhos de mercúrio iluminam meus passos a me espionar. O sinal está vermelho e os carros vão passando e eu ando, ando, ando.bMinha roupa atravessa e me leva pela mão do chão, do chão, do chão. Vamos fugir deste lugar, baby. Estou cansado de esperar que você me carregue. Vamos fugir pra onde haja um tobogã e que a gente escorregue. Todo dia de manhã, flores que a gente regue, uma banda de maçã, outra banda de reggae. Vamos pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

[Letras citadas: Fuga Número 2 dos Mutantes, Maracangalha, Vamos Fugir, Pense em Mim, Irene. Autores: Mutantes, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Leandro, Leonardo e Caetano Veloso]

O OLHO DA RUA

No dia em que completei exatos quatro meses confinado dentro de casa, sai de automóvel para ver a cidade, uma volta rápida por ruas ainda esburacadas, sinais piscando desorientados. Senti tontura, apesar de São Paulo não ser aquela coisa engarrafada, poluída, tão suja. Me pareceu meio fantasma, não por respeito ao confinamento, mas porque era domingo e domingo, pensando bem, a cidade é mesmo assim. Apostava no meu susto, no meu espanto, diante de tamanha confusão. Mas praticamente nenhuma. O comércio estava quase todo fechado, bares e restaurantes abertos, quase vazios, sem graça. Vi máscaras de todos os tipos e cores, muitas pessoas sem elas como se nada estivesse acontecendo no mundo, Placas improvisadas de aluga-se e passa-se o ponto dependuradas em portas de aço. Minha cidade parece que parou, que o sangue de sal de frutas não ferve mais no copo d’água. Voltei para minha casa como um pássaro que volta para o seu ninho. Estou preferindo aqui.

[ilustração/Obra de Edward Hopper] 

COMO UMA ONDA

Ando meio desconfiado que somente eu ainda estou dentro de casa me guardando pra quando o carnaval não chegar. Da janela, ouço o barulho dos motores logo cedo, antes do dia amanhecer. Ele só diminui um pouco quando faz muito frio e as pessoas ainda estão se guardando debaixo do cobertor esperando o sol chegar. Uma saudade grande do mar do litoral de São Paulo onde o caminhar de um lado a outro, até bater nas montanhas e voltar, é possível, é viável. Desviar das algas, evitar as águas vivas, um peixinho morto aqui, um caco de concha acolá, um baldinho vermelho perdido, um castelo de areia desmanchando. Dizem que não, mas o domingo é diferente dos dias da semana, mesmo dentro de casa. Daqui a pouco tem uma lasanha no forno, prato sempre de domingo. Um Aperol na taça com três cubos de gelo e uma fatia de laranja não tem cara de segunda. Um lata de Schwepps amassada no lixo e o vermelho na folhinha. A desobrigação de acompanhar as notícias minuto a minuto também dão um ar novo, longe do chamado dia útil. Não, hoje não é um dia inútil. É quando mais avanço o meu livro, que mais ouço Tchaikovsky no Spotify, é o dia que não desço para caminhar três quilômetros em volta do prédio porque ninguém é de ferro. Não sei se hoje ainda tem arrastão, tem jangada no mar, mas quando ele quebra na areia, é bonito, é bonito.

SENHORES PASSAGEIROS!

Estou quase desistindo, acho que nunca mais vou entrar no ônibus Lapa, Via Iório, Correios, Praça Clovis, Cohab Adventista. Acho que nunca mais vou entrar no metrô Vila Madalena, passar pelo Hospital das Clínicas e para descer na Consolação. Acho que nunca mais vou andar de bicicleta, entrar num trem de ferro, sim era assim que chamávamos os trens, hoje modernos. Acho que nunca mais vou entrar num avião, procurar meu assento, sentar, pegar a revista de bordo, o folheto que ensina onde fica a saída de emergência. Nunca mais vou ouvir a aeromoça perguntar se quero massa ou frango, tinto ou branco. Acho que nunca mais vou ver o policial conferindo a minha fotografia, me olhando desconfiado, que barba é essa? Acho que nunca mais vou ultrapassar aquela cabine, enxergar as placas bilingues saída, sortie, exit, uscita, austang. No meu cafofo, ouço músicas de além mar, leio livros cuja pilha vai diminuindo, guardados esperando tempo. Escrevo um livro longo e difícil, cheio de fatos e fotos. Perambulo do quarto pro corredor, do corredor pra cozinha, da cozinha pra sala, da sala para a varanda, onde as coisas mudam todos os dias: crescem os pés de alho, de beterraba, de inhame e as ervas finas do meu agronegócio. Por ali passa todas as manhãs um beija-flor. Não se admire se um dia, um invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir, foi eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade você.

[ilustração/Obra de Robert Rauschenberg]

ANDANDO NAS NUVENS

Sonho com serpentes, com serpentes do mar, largas, transparentes. E quando a mato, aparece uma maior. Sonho também com bichos escrotos saindo dos esgotos, bichos estranhos, metade peixe, asas de dodô, metade cão. Mas sonho também com nuvens de chumbo, branquinhas, viagens de avião. Sonho com muitas aves, de todos tipos, de todas as cores. Garças, flamingos, tuiuiús, pelicanos, gaivotas meninas de asas paradas voando no sonho. Eu tive um sonho que eu estava certo dia num congresso mundial discutindo economia. Argumentava em favor de mais trabalho, mais emprego, mais esforço, mais controle, mais-valia. Falei de pólos industriais, de energia. Demonstrei de mil maneiras como que um país crescia. E me bati pela pujança econômica baseada na tônica da tecnologia. Nos sonhos, estou sempre nu, como um índio do Xingu. Entre uma da madrugada e seis da manhã, é a hora que saio de casa para sonhar, há cento e dezessete dias. Etelvina, acertei no milhar! Ganhei quinhentos contos, não vou mais trabalhar. Você dê toda roupa velha aos pobres e a mobília podemos quebrar. Até que enfim agora sou feliz, vou passear a Europa toda até Paris. 

AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

Não são mais oito milhões de habitantes, de todo canto em ação, que se agridem cortesmente, morrendo a todo vapor e amando com todo ódio, se odeiam com todo amor. São muito mais, se multiplicaram, cresceram milhões. Nunca tinha vivido confinado por tanto tempo desde que aqui cheguei, quando ainda não havia Rita Lee para mim e os Novos Baianos passeavam na sua garoa, curtindo numa boa. Hoje, de noite, eu não rondo mais a cidade a te procurar, sem encontrar. Não volto mais pra casa abatido, desencantado da vida. Só o sonho alegria me dá porque nele você está. Nas bancas, não existe mais o Notícias Populares. Por isso, não sei se amanhã vai dar na primeira edição: cena de sangue num bar da Avenida São João. O povo oprimido continua nas filas, nas vilas, favelas. A força da grana ainda ergue e destrói coisas belas. A feia fumaça ainda sobe apagando as estrelas. Mesmo aqui confinado eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços, tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva. Nenhum outro som no ar pra que todo mundo ouça. Eu agora vou cantar para todas as moças, eu agora vou bater para todas as moças, eu agora vou dançar para todas as moças, para todas Ayabás, para todas elas. Eu não posso mais ficar aqui a esperar que um dia de repente você volte para mim. Aqui dentro, o sol não queima mais o meu rosto. Ainda existe um resto de esperança de ver de perto o seu olhar que eu trago na lembrança. Não me pergunte, não me responda, não me procure e não se esconda. Não diga nada, saiba de tudo, fique calada, me deixe mudo. Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo. 

[foto Alberto Villas]

 

 

 

 

PENSAR PODE

Ouvi isso no primeiro dia útil da semana, da boca de um padre no papo de segunda. Se pensar pode, quero ir pro sertão colocar ração de poedeira para as galinhas legorn, jogar milho pros pombos, farelo pros porcos, canjiquinha pros pintinhos. Quero experimentar a rapadura ainda mole, ver as águas do rio correr, ouvir os pássaros cantar. Quero tomar sol no rosto, correr domingo no parque, ir ao Instituto Moreira Sales comprar a Quatro cinco um de junho com Caetano desfigurado na capa. Quero tomar chuva, molhar meu All Star branco pra depois enfiar dentro da máquina de lavar com Vanish. Quero chutar pedras no caminho, comer uma coxinha na Cristallo, procurar lichias no sacolão só de brincadeira porque sei que a safra ainda está verde. Perguntar o nome do bebê no carrinho, errar mais uma vez: como ele chama? É ela! Como ela chama? É ele! Já que pensar pode quero ir-me embora daqui, voltar pra Firenze, passar horas na Feltrinelli procurando um livro do Erri De Luca que ainda não tenho, tomar um sol levante no Zoe, fazer a milésima foto do por do sol no Arno, levar umas latinhas de San Pellegrino de frutas exóticas pra casa, ler o La Repubblica todos os dias, comprar  o Il Manifesto na sexta, a L’Expresso no domingo. Voltar ao mercado pra dividir em três uma bisteca do tamanho de um boi, acompanhada de uma Moretti estupidamente gelada. Ouvir crianças falando italiano, avere un sconto, papà! Já que pensar pode, eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

ONDE FICA YAOUNDÉ?

Toda manhã, depois de folhear os jornais nacionais, eu me pergunto: que notícias me dão da África? Quase nenhuma, nenhuma. Vejo fotografias de pessoas circulando usando máscaras em Londres, em Amsterdam, em Nova York, em Roma, mas nunca vejo ninguém caminhando pelas ruas de Kwanza, de Guitega, Yaoundé, Bamako ou Nouakchott. A pandemia se espalhou, fomos informados do número de mortos na China, no Japão, na Tailândia, no Laos, na Austrália, entre os índios, os quilombolas, os esquimós, os aborígenes. Mas quase nenhuma notícia dos africanos. O que chega aqui são apenas hard news, de tempos em tempos. Um general que tomou uma rádio aqui e deu um golpe ali, uma guerra lá e outra acolá. Ouvimos Chico César cantando Mamma África e Chico Buarque cantando a morena de Angola que leva o chocalho na canela, sem nunca saber se é ela que mexe o chocalho ou o chocalho que mexe com ela, aquela camarada do MPLA. Acordei querendo saber como vai o povo de Freetown, de Lomé, de Kampala, de Lusaka, de Harare. Cartas para a redação, please. 

BEAUCOUPS OF BLUES

Não me lembro se chorei, acho que não, era feio homem chorar. Mas o fim dos Beatles me derrubou. Eu não queria acreditar que o sonho havia acabado. Mas logo vieram os primeiros discos solos, que me colocaram de pé novamente. John Lennon cantando Imagine naquele longplay em que ele parece não ser o único sonhador em meio à nuvens. Veio aquele disco do Paul, o das cerejas em conserva espalhadas em cima da mesa, que abria com The Lovely Linda. E o álbum triplo de George Harrison dentro daquela misteriosa caixa? Eram os Beatles separados, mas Beatles forever. E o quarto a lançar o seu disco solo foi Ringo, o patinho feio. Olhar tristonho, vago, cigarro na mão, Ringo parecia um pouco desolado na capa de Beaucoups of Blues. Foi um susto quando comecei a ouvir Ringo Starr, eu não tinha vinte anos de idade e praticamente nenhum conhecimento de blues. Jamais ouvira falar de Jimmy Witherspoon, Menphis Slim, Etta James, Lind Boy Fuller ou Champion Jack Dupree. Quem era aquele cara cantando Woman of the Night, Waiting, Nashville Jam e Silent Homecoming? Cinquenta nos depois, confesso que ouvi o disco apenas uma vez e dei  de presente para um amigo, da mesma forma que dezenas de pessoas se desfizeram do Araça Azul, do Caetano, em setenta e três. Eu queria rock and roll e Ringo veio com romance. Fiquei com essa história na cabeça o domingo inteiro, depois de ler a entrevista com o  Ringo Starr, 80 anos, feita pela querida Ana Maria Bahiana para a Ilustríssima. Ele lembrou a ela que sempre foi um apaixonado por blues. Como eu me arrependo de ter desfeito daquele vinil, mas guardo aqui o CD e agora voltei a ouvir no Spotify. No meu confinamento, que remédio bom é o tal do Beaucoup of Blues. 

GÊNIOS DA PINTURA

Eu não tinha NCr$2.50 por semana para comprar os fascículos dos Gênios da Pintura naquele ano de 1967. Ganhava NCr$10.00 por mês de mesada do meu pai e já gastava NCr$2.00 para comprar os quatro fascículos de Conhecer. Não tinha como passar o mês sem nada, perder todas as matinês do Cine Pathé, não ir ao cinema para ver as meninas. Então eu namorava, na banca do Seu Benito, toda segunda-feira, um novo fascículo dos Gênios da Pintura. O primeiro foi Van Gogh, seu autorretrato na capa me encheu de emoção e curiosidade. Procurava saber na Barsa tudo sobre ele, mas aquele fascículo maravilhoso da Editora Abril eu não tinha como comprar. Depois vieram outros: Leonardo da Vinci, Rembrandt, Renoir, Goya, Portinari, Matisse e tantos outros. Seu Benito deixava que eu folheasse com cuidado cada fascículo, sem pagar. Os que mais gostavam eram os impressionistas, Edouard Manet, Claude Monet, Edgard Degas, Alfred Sisley e tantos outros. Foi folheando esses fascículos na Praça da Savassi que conheci Murillo, Hals, Watteau, Hollbein, Uccello. Essa noite sonhei que estava no museu D’Orsay. As viagens dos meus sonhos ou os sonhos das minhas viagens estão fazendo muito bem pra minha cabeça confinada. Um dia depois de sonhar que estava na cidadezinha de Kyparessia, no Peloponeso, cuidando de cabras, no dia seguinte eu apareço no salão principal do Museu D’Orsay, à beira do Sena. Muitos anos depois, matei meu desejo quando entrei no Sebo do Messias e vi lá à venda, a coleção completa, os 96 fascículos dos Gênios da Pintura, em ótimo estado. O colecionador deve ter morrido e os filhos passaram aquilo adiante. Paguei em três vezes no cartão. Se não posso pegar o primeiro avião com destino a Paris, baixei (no sentido de colocar uma escadinha e ir descendo um a um) toda a coleção para passar o domingo vendo: Cèzanne, Mirò, Seurat, Klimt, Kandinsky, Toulouse-Lautrec, todos eles.

[ilustração Andy Wahrol] 

[ilustração Andy Wahrol]

ASAS DO DESEJO

Pardal existe por tudo quanto é canto do mundo, quase todos iguais. Só no Japão que não são iguais aos daqui, aos de Djibuti, aos de Cariri. Ganharam uma leve plumagem amarela, talvez resultado de um cruzamento com canarinho belga. Mas não cantam também, vivem nas ruas de Tóquio, de Kioto, como qualquer outro. Quando cheguei a Paris para enfrentar aqueles longos invernos, assim que vi um pardal na Rue Souflot, logo perguntei como era o nome dele por ali e alguém me explicou que era Piaf, como Edith que conhecia pouco, mas aos poucos fui me apaixonando. Ela pegou o nome do passarinho por viver cantando pelas ruas do Quartier Latin. Mas piaf não canta, guardei isso para sempre e nunca entendi direito. Talvez Edith quisesse apenas a liberdade deles e não o canto. Nunca vi um ninho de pardal, mas sei como vivem, o que comem, por onde andam. Sei distinguir o macho de uma fêmea. O macho tem manchas marrons escuras nas asas e uma espécie de babador preto no peito. São maiores que as fêmeas, que têm uma plumagem marrom clara e uniforme. Gosto dos pardais e sempre que posso dou migalhas de pão para eles, sua comida preferida. Há cento e onze dias não vejo um. Da janela, procuro e vejo apenas maritacas, sabiás que são muitos e beija-flor que se aproximam da varanda para beber água fresca que troco todo dia no bebedor colorido. Nesses tempos de coronavírus, ando tentando desconstruir a frase genial de Mario Quintana. Eles passarinho, eu passarei. 

CIDADE OCULTA

Fico aflito porque ainda imagino a cidade viva, cheia de pessoas sem máscara, quando me retiro. Quando desligo a televisão, coloco o Spotify em pause, enjôo da live, fecho o livro e apago a luz. Cinco minutos depois, cansado de guerra, já estou viajando. Quatro meses já se passaram, ainda não sonhei com uma viva alma usando máscara, alguém com a máscara no queixo, dependurada na orelha, embrulhadinha na mão. Ainda não sonhei com uma mão esfregando na outra, lambuzada de álcool gel. Não sonhei com a torneira aberta, água escorrendo e eu com a mão cheia de Protex, esperando ela esquentar. Não sonho com notícias, com número de mortos, plantões, infectologistas falando, com as ruas de São Luiz do Maranhão transbordando. Sonho com uma cidade em preto e branco, vazia, tipo the end, enquanto o leão da Metro está ruivando, anunciando o filme que está apenas começando. Vejo uma roupa vermelha comum dependurada, bandeira que me acompanha há muitos e muitos anos, desde os tempos do quarto andar da 79, Rue de la Roquete, quando abanava a toalha vermelha na janela enquanto os manifestantes passavam em coro dizendo: Nem Giscard, nem Mitterrand, uma só solução, a revolução!

FAZENDO AS CONTAS

Acordei meio Walter Franco perguntando o que é que tem nessa cabeça, irmão? Cabeça de vento, cabeça vazia, cabeça oca, cabeça doendo, cabeça raspada, cabeça de nego, aquela bombinha dos tempos de menino, do politicamente incorreto. O que tem nessa cabeça de cada um? Aquele que está confinado, aquele que bebe Devassa num certo bar Leblon, aquele que carrega uma casa do Rappi nas costas, aquele que vende bala no farol, aquele que aparece todo dia na tela da TV falando de infectologia, aquele a ama, protesta. E agora? As cabeças estão todas voltadas para dois mil e vinte dois, já que meio um ano passou desse jeito. Passam dentro da cabeça planos para o Natal, planos para pular sete ondas, como se não houvesse meio julho, agosto, setembro, outubro, novembro e trinta e um dias de dezembro. Já providenciou o calendário de imã do ano novo pra grudar na geladeira, deu por encerrado esse dois mil e vinte e um, cancelou o sete de setembro, o dia de finados, o show do Roberto, a retrospectiva do Globo Repórter. Estamos no dia cento e oitenta e vamos pular logo para o trezentos e sessenta e seis, já que este ano tivemos o vinte e nove de fevereiro que nem me lembro mais o que aconteceu, a não ser os parabéns que mandei pro Jaguar. Vou jogar a chave do ano velho no mar, trocar a fechadura. Quem sabe?

O CASTIGO

Eu me lembro bem as vezes que fiquei confinado, no máximo quinze, vinte minutos. Era dentro de um banheiro espaçoso, mas tedioso. Havia um vaso, um bidê, uma banheira, um box protegido por uma toalha de peixes coloridos nadando. Havia um cesto de vime onde minha mãe ia juntando a roupa suja, um armarinho espaçoso com um espelho carcomido por uma espécie de ferrugem nas bordas. Dentro do armarinho, ela guardava as caixinhas de dentifrício Kollynos, os sabonetes Vale Quanto Pesa, o estojo de primeiros socorros, uma caixinha de grampos, um pente Flamengo, o vidro de brilhantina do meu pai. No box, o Vale Quanto Pesa quase sempre no fim, uma pedra palmes, uma bucha vegetal e um vidro de xampu de ovo. A parede era de azulejo branco até a metade e a outra metade pintada de azul, tinta epóxi. Haviam toalhas comuns dependuradas, cada um tinha a sua. A minha era de cor laranja. Era ali que, de tempos em tempos, passava aqueles quinze, vinte minutos de castigo. Quando o clima esquentava entre os cinco filhos, minha mãe escolhia um, pegava pelo braço e colocava no banheiro. Eu ficava sentado o tempo todo na beirada da banheira, olhando para aquelas coisas, para o nada, esperando o tempo passar. Quando passava, minha mãe abria a porta, mostrava o caminho de saída e dizia apenas uma frase: Veja se aprende! Eu aprendi.

NO FUTURE

Aí, de repente, o mundo ficou esquisito pra caramba. Até as casas foram separadas umas das outras, distância mínima de cinco metros medida por uma trena dos vigilantes da saúde. Acabou o beijo, o falar no ouvido, o chupão no cangote e a canção Aquele Abraço virou uma coisa tão do passado quanto nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia. Os dermatologistas passaram a ser chamados de pessoas da linha de frente, convocados para curar as mãos secas de tanto álcool gel, de tanta água com sabão. Os pés também secaram e enrugaram de tanta água sanitária, de tanto lysoform, de pisar em tapetes antissépticos. Agora são apenas cabines individuais feitas de acrílico. Nos equipamentos das academias, nas mesas dos cafés, nas poltronas dos cinemas, nas cadeiras dos estádios de futebol, nas pistas de cooper nos parques, de dança nos inferninhos, nas raias das piscinas, até nas mesas de reuniões da repartição. No Recife, não se fala mais um cheiro pra você porque ninguém mais sente cheiro de ninguém. Ninguém se toca mais em ninguém, ninguém respira mais perto de ninguém, até o ridículo cumprimento com o cotovelo caiu de moda. Inventaram a máquina de lavar compras, os sapatos com solas descartáveis, capacetes leves e maleáveis e plástico resistente para abraço apertado. A última moda são as máscaras transparentes para sabermos se as pessoas estão rindo ou chorando.  

AQUELE ABRAÇO

Ontem à noite, depois de consultar o meu calendário particular, deitei pensando nele, no seu aniversário de setenta e dois anos neste seis de julho, dois anos mais velho que eu. Não, não há mais uma estrada de ferro que liga Minas ao mar para que eu possa embarcar no Vera Cruz, saltar no meio do caminho, ficar em Juiz de Fora para dar-lhe um abraço apertado. Adormeci com fragmentos de suas canções na cabeça, coisas do tipo eu não gosto do Alice Cooper, onde é que está o meu rock and roll? Dizem que sou louco, mais louco é quem me diz. Ora, você está pensando que eu sou Loki, bicho? Eu quero ver o sol nascer, antes do outro comercial. Meu caro amigo, me perdoe se hoje não vou lhe ver. Sei que vai ter bolo, velinhas acesas, sopro. Sei que vai ter solo de guitarra Fender, sei que vai ter corta-jaca se tiver alguém, presente. Como será que vai ficar, corta jaca na cidade não é mole não. Onde será que eu vou ficar se o vento levou tudo e o meu cavalo já empacou. Quatro, cinco, seis! Onde é que está o meu rock and roll? De novo. Hoje o dia corre o risco de passar assim, amontoando palavras do tipo eu não quero virar bolor. Em quarentena desde mil novecentos e oitenta e dois, cultivando seus lápis de cor, suas cordas, seus marrecos, você passou dos setenta. No início, era a verve. Astronauta libertado, andava meio desligado, tempo de aprender inglês, saber o que eu sei. Tempo de cantar ela é minha menina, eu sou o menino dela, tempo de cantar adeus Maria Fulô. Misturar Jorge Ben com o rei do baião. Mais tarde, os genocidas vão abrir os bares de São Paulo e eu nem morto vou lá tomar uma 1606, comemorar os seus setenta e dois anos de vida. Então eu mando um abraço pra ti, Arnaldo Dias Baptista. 

A CANÇÃO QUE VOCÊ FEZ PRA MIM

Vivo em círculo, no interior de quadrados, e quando ligo a televisão, vejo milhares de vidas por um fio, em todas as regiões do país. Observo as máscaras cafonas do Esporte Clube Bahia, do Payssandu, do Tupi, do Figueirense, do Sampaio Correia. Meu coração vai ficando cada vez menor e cada vez mais na mão com a pobreza exposta do meu país. Nos barracos da cidade ninguém mais tem ilusão, o governador promete, o sistema diz não. Uma antiga canção entoada por John Lennon acompanhado da Plastic Ono Band volta a me fazer pensar, como naqueles último dias dos anos 1960. A canção chama-se God e o ex-beatle rezava o seu rosário: Eu não acredito em mágica, eu não acredito em I-ching, eu não acredito em Biblia, eu não acredito em Jesus. Nunca foi tão fácil traduzir o inglês, sem o auxílio luxuoso do Oxford Dictionary: I don’t believe in Hitler, I don’t believe in Jesus, I don’t believe in Kennedy, I don’t believe in Buda, I don’t believe in Mantra, I don’t believe in Gita, I don’t believe in Yoga. O som ia se desfazendo aos poucos e ele continuava sua ladainha: Eu não acredito em reis, eu não acredito em Elvis. De repente, com a voz um pouco mais doce, ele disse: I don’t believe in Zimmerman! Foi ai que soube que o nome completo de Bob Dylan era Robert Allen Zimmerman. E terminou: Eu não acredito em Beatles, apenas acredito em mim, Yoko e eu. Essa é a realidade. O sonho acabou e o que posso dizer? Que eu não acredito em Doria, eu não acredito em Covas, eu não acredito em Caiado, eu não acredito em Jair, eu não acredito em Fabricio, eu não acredito em Flávio, eu não acredito em Wassef, eu não acredito em quarentena, eu não acredito em números, eu não acredito em Moro, eu não acredito em Damares, eu não acredito em Salles, I dont believe in Brazil. The dream is over!

A SABIÁ

Caminho entre muros no jardim do meu prédio. Trinta minutos contados no cronômetro do iPhone. No segundo andar, tem um cachorrinho desses de latido fino que não pode me ver que põe a boca no trombone. Acho que se espanta com a máscara. Late com a cabecinha do lado de fora da grade, nervosinho, raivoso. Tem uma sabiá fazendo ninho na primeira curva que faço. Dá dó. Toda vez que passo ela voa assustada. Quando sumo da sua vista, ela volta pro ninho, mas quando aproximo novamente, ela voa. Já tentei mostrar a ela que não levo nenhum perigo a seu ninho, mas não adianta, ainda não se acostumou comigo. Bem que poderia ficar ali, quietinha. Outro dia tinham sete maços vazios de cigarros juntos no chão, todos da mesma marca, certamente do mesmo fumante, não sei de que andar. Já achei um jogo americano que deve ter caído da janela da cozinha e hoje achei um terço de madeira, bem bonito. Entreguei na portaria. O chão é de pedra e o jardim está muito florido. Dá gosto caminhar ali, apesar de tedioso. De vez em quando aparecem alguns companheiros de caminhada. Uma japonesa e um idoso que dá poucas voltas e senta-se no sol para fazer suas palavras cruzadas. Meu mundo lá embaixo é limitadíssimo. De vez em quando faço umas fotos. Do contraste do concreto com o céu azul, do cachorrinho latindo, do piso de pedras. Mas ainda não fotografei a sabia, nem quis. Tenho receio de que ela se assuste mais ainda e abandone o seu ninho. Já fotografei também o tronco de uma árvore estranha, descascado, com manchas brancas como se tivesse vitiligo. Não tenho mais nada para contar. A piscina está vazia, a brinquedoteca fechada, a academia trancada. O mundo parece  que parou, mas eu continuo dando voltas. Até quando não sei, talvez até a sabiá chocar os seus ovinhos. Vou voltar, sei que ainda vou voltar a viver.  

PAPÉIS

Não embolo mais papéis e jogo na lata de lixo como fazia no século passado. Aquela mania de fazer um monte de XXXXXXX em cima da palavra mal escrita foi embora com minha Lettera portátil que me acompanhava por esse mundo afora. Quase não escrevo mais em papel, ficou mais simples e é nessas horas que saúdo a tecnologia. Mas ainda imprimo cada página dos cadernos da família e ainda faço uma coisa que acho que poucas pessoas fazem nesse mundo de hoje: recorto com uma tesoura notícias importantes do jornal e colo. Uso cola, não goma arábica ou Tenaz, uso cola em bastão. O caderno fica impecável assim e não como meus álbuns de figurinhas que, preenchidos, viraram uma espécie de sanfona de oito baixos como a de Januário. Lápis de cor ainda uso e gosto. Não para colorir aqueles livrinhos que viraram moda contra o estresse. Esses, nunca abri. Gosto de fazer os meus próprios desenhos ruins e sem criatividade. Nunca consegui chegar aos pés de nenhuma criança que pega um papel qualquer, um lápis colorido qualquer e traça sempre um objeto não identificado, uma pessoa, um pássaro, um sapo, um boi, melhor que eu. Guardo em casa um caderno que tem todos os meus desenhos que fiz durante dez anos de reuniões de pauta do Fantástico. Aquele sim, eu gosto. Desenhei ratos, avestruzes, porcos, cangaceiros, forasteiros, homens duelando, porquinhos-da-índia e kiwis. Tudo com caneta Bic. Não sei porque guardei esses desenhos, alguns minúsculos, um dia recortei e colei nesse caderno. Ali está o show da vida. Guardei todos, mas não me lembro das pautas relativas a cada um deles. Nenhuma. O dia ainda não amanheceu por aqui, mas já ouço barulhos de motor lá fora. Daqui a pouco o dia vai clarear e eu vou olhar pela janela, pro céu cinza de inverno nessa São Paulo e me perguntar qual é o meu verdadeiro papel.