INFÂNCIA

Não tinha jeito, aquela maldita vareta preta sempre caia por baixo de todas as outras, verdes, amarelas, azuis e vermelhas. Eu tinha as mãos muito firmes, mas não era fácil chegar até a vareta preta, a mais valiosa. Eu tirava uma amarela com a delicadeza de um monte, uma vermelha com a perspicácia de tirar antes a verde, colada junto a ela. Todo Natal ganhávamos um jogo de Pega-Varetas novo que substituia aquele que passou o ano sendo jogado no chão da sala, já meio estropiado. A vida não era nada fácil: decorar Latim, estudar o significado em português da palavra francesa partout, saber a tabuada de cor, as capitais da Finlândia, da Suécia e da Islândia, entender o que eram as mitocôndrias, essas coisas todas. Desconfiávamos que não era a cegonha que trazia o bebê, mas não podíamos contestar. A gente fingia que Papai Noel existia, que o coelho da Páscoa botava ovo de chocolate, que Eva ofereceu uma maçã a Adão e que Noé colocou um casal de cada bicho na sua arca. Não condenávamos a Dona Chica que atirou o pau no gato e morríamos de medo do boi da cara preta que pegava menino que tinha medo de careta. 

OS COMPRIMIDOS

Menino ainda, fica impressionado com a quantidade de comprimidos que os meus pais engoliam todos os dias. Era na hora do jantar que eles vinham, cada um com a sua caixinha de remédios. O do meu pai era um tubo plástico com as indicações dos dias da semana, pra ele não se perder. A da minha mãe era uma potinho de prata com tampa de madrepérola. Eles abriam suas caixinhas e iam colocando os comprimidos em cima da mesa. Não eram muito velhos ainda, mas eu ficava pensando com os meus botões: porque gente velha toma tanto remédio? Não me lembro que comprimidos engoliam. Um, sei que era para pressão porque o meu pai lembrava minha mãe todos os dias: tomou o seu remédio pra pressão? Ela quase sempre tinha esquecido, mas tomava imediatamente. Hoje eu fico imaginando que deveriam ser remédios pro colesterol, pra ralear o sangue, pra tireóide, pra artrite. Hoje, aqui em casa é na hora do café da manhã que enfileiro meus remédios: Puran 25 mg, Reuquinol 400mg, Plenance 19 mg, Ezetimiba 10mg, Xarelto 20mg e Addera 1000. Pois é, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. 

COISAS DA VIDA, MINHA NEGA

Fiquei sabendo que tem gente escrevendo muito nessa pandemia, gente que nunca escreveu está escrevendo. Diários, poesias, contos, escrevendo o que vem na cabeça. Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar aquele exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: ‘mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo? Pronto, escrevi. 

CORAÇÃO MOLE

Todos em casa temos coração mole, a família inteira. Pai, mãe, filhos, netos, bisnetos. Não existe a palavra insensível por aqui. Não tem como ver alguém mexendo nos sacos pretos de lixo tarde da noite e ficar impassível, cara de paisagem. O coração mole parte em dois. Nas manchetes dos jornais, vejo a euforia com o crescimento do mercado imobiliário. Somos esquerdas demais pra não pensar nas vinte e cinco mil pessoas que moram nas ruas da maior e mais rica cidade da América do Sul. Não tem como ver famílias cujo teto é o viaduto Presidente João Goulart, a marquise da Marabá, o plástico tosco e rasgado daquela que um dia foi uma barraca de camping. O fogareiro na calçada esquentando água para um macarrão, uma flor de plástico em cima de um caixote de frutas selectas, um cão dormindo. Como um argonauta, meu coração não aguenta tanta tormenta. O Doutor Christian Barnard, um dia, trocou um pelo outro, mas era coração com aorta direita e aorta esquerda, aprendi no Marista. Outro dia, o meu irmão mais velho me chamou a atenção: já pensou que o coração da gente é uma máquina que está funcionando vinte e quatro horas por dia, há mais de setenta anos? Uma hora para, não tem jeito. Já cantaram o coração bobo, o coração vagabundo, o coração balão, o coração São João. E também o coração que, não sei porque, bate feliz quando te vê.

ilustração Julian Campos

A MATEMÁTICA

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje. 

BONITA COMO UM CAVALO

Nunca me esqueço daquela noite em 67. Chico Buarque apresentou Roda Viva, Caetano sua Alegria Alegria, Edu Lobo com Ponteio e Gilberto Gil, Domingo no Parque. No meio disso tudo havia o estudante de arquitetura chamado Maranhão, vindo de lá, com sua Gabriela. Afinados, quatro bambas da MPB cantaram: 

Atravessei o mar
a remo e a vela
fiz guerra e em terra
montei a cavalo
e em pelo de sela
cruzei as florestas, montanhas e serras
a lua sorria, eu sorri com ela
quando corria, eu corria dela
pulei cancelas, pulei quintais
deixei donzelas e tudo mais
quantas janelas ficaram atrás
só pra te ver Gabriela

Adolescente, me apaixonei por essa coisa de atravessar o mar a remo e a vela só pra ver Gabriela. Minha Gabriela era um amor oculto, só meu, escondido. Eu morava na parte de cima e a minha Gabriela, que não era Gabriela, na parte de baixo. Ficou nisso. No início dos anos 1970, eu já estava longe dessa Gabriela quando chegou pelo correio, presente de Paulo Augusto Gomes, o primeiro disco do Maranhão. Na capa, o seu perfil em branco e preto, destaque para o nariz e a boca. Sim, eu estava longe dela uns dez mil e poucos quilômetros. Foi quando ouvi naquele inverno rigoroso de Paris, a canção Bonita como um cavalo. Juntei Gabriela, que também estava no disco, com a beleza de um cavalo. Ao abrir as janelas dentro do meu coração ele enxergava ela, bonita como um cavalo caminhando ao luar. Passei a vida pensando naquela mulher, bonita como um cavalo. Passei a vida prestando atenção nos cavalos de Camargue, que vi um dia caminhando ao luar. Sim, ela sempre foi bonita como um cavalo. 

[ilustração/Guernica (detalhe), de Pablo Picasso]

 

UM BALAIO DE FRUTAS DAS QUATRO ESTAÇÕES

Ainda pequeno, eu tinha medo de maçã. Na sala de catecismo tinha um pôster na parede mostrando Eva oferecendo uma maçã ao Adão. Enquanto aprendia o Pai Nosso, a Ave Maria e a Salve Rainha, ficava com os olhos fixos naquela gravura, os dois seminus no meio do mato e uma serpente enrolada nos galhos. Tinha medo da maçã e da serpente. Depois passou. Passei a gostar das maçãs argentinas, vermelhas e cheirosas, embrulhadas num papel de seda azul, uma a uma, aquelas que um dia Caetano encontrou poesia ali. Muitos anos depois, convivia com elas diariamente. Seis horas da manhã eu estava no Mercado Central de Belo Horizonte para comprar uma, duas caixas. Elas eram embaladas bem apertadinhas e me impressionava a cor branca da madeira que vinha dos Pampas e aquele cheiro maravilhoso que se espalhava dentro da Rural Willys a caminho da Savassi, onde eu tinha um carrinho de frutas que funcionava 24 horas, no coração da Praça Diogo de Vasconcelos. Era início dos anos 1970 e foi assim que juntei dinheiro para ir-me embora do Brasil, fugir daqueles hipócritas disfarçados rondando ao redor. Vendia, além das maçãs, peras, bananas, mexericas, mangas, abacaxis, morangos e, na época do Natal, pêssegos, ameixas e uvas Niágara encaixotadas. Hoje, tantos anos depois, continuo convivendo com as maçãs. Lavando uma a uma com água e sabão e depois secando com um pano de prato as mãos úmidas de uma canção.

Fui juntando coisas, juntando, juntando e acabei criando um museu de mim mesmo. Hoje vivo rodeado de memórias e olha que só guardei as boas, nada de ruim. Tenho um gato de porcelana bordado com motivos turcos pechinchado no Grande Bazar de Istambul, como tenho um coelhinho de plástico do América Mineiro, presente do Chico Regueira. Tenho três garrafas de cerveja – Marx, Trotsky e Rosa – que acredito eu já saíram de circulação. Tenho brinquedos antigos, um disco voador de 1960, uma placa metálica na parede onde se lê: Hippies Use Side Door. Tenho um pôster do Yuri Gagarin, um rádio de 1940, um Buda comprado na Feira da Ladra em Lisboa, um azulejo pintado pelo Peticov, um altar do Universo em Desencanto com a imagem do Tim Maia, tenho coisas que nem eu mesmo acredito que tenho. Quem mais teria um elefante enferrujado que veio lá da Fundação José Saramago? Quem teria uma caixa com sete cds da Yoko Ono? Quem teria um cachorrinho verde de porcelana comprado num antiquário em Havana? Não faz muito tempo, passei uma temporada num vilarejo no interior da Grécia, onde no meu inventário constava apenas um laptop. Acordava, olhava pela janela e via o mar azul, lá embaixo. Um pé de limão siciliano no quintal e um outro de abricós carregado, na casa do vizinho. Eu não tinha bibelôs, nenhuma recordação. Além do laptop, agora estou lembrando, tinha também o livro 1968, da Ariana Fallaci, e um livrinho chamado 101 motivos para ser de esquerda, ambos em italiano. Estava vazio em Vryses e me sentia provisório ali. Hoje morro de saudade e queria viver provisório assim para o resto da vida. Vazio, mas tão bonito quanto uma obra de Carlo Benvenutto, onde se vê apenas uma cadeira, uma mesa com uma toalha de algodão e três ovos. Nada mais.

Geralmente é no domingo que lavo as frutas que chegaram do supermercado. Isso desde as águas de março, quando o vírus chegou por aqui. Nos primeiros dias deixava tudo dentro de uma bacia por uns vinte minutos, com água e algumas gotas de Hidrosteril. Depois que vi na televisão que era preciso esfregar uma a uma com água e sabão, compramos uma barra de sabão de coco e começamos a esfregar cada laranja, cada papaia, cada limão siciliano, cada manga espada, cada carambola. Esfrego pensando nas goiabas com bicho que engolia, nas jabuticabas que colhia e ia estalando na boca, uma a uma, uma bacia. Pensando no jambo cheiroso do vizinho que roubávamos, nas ameixas amarelas que, quando cresci, viraram nêspera. Nas pitangas e nas amoras que deixavam roxa a calçada da Rua Grão Mogol. Vou juntando as frutas ao lado da pia, formando numa pirâmide que me lembra vagamente as fruteiras de Paul Cezanne que certamente não lavava as frutas naquele 1900. Elas vão formando um colorido bonito predominantemente amarelo com tons de vermelho e laranja e com toque de verde da manga espada. Tão bonitas que outro dia fotografei, legendei moro num país tropical e postei no Face. Os morangos e os kiwis lavo rapidamente. Porosos não podem ficar de molho, vi também na televisão. Todo domingo é assim. Gasto parte do meu tempo lavando frutas, sentindo o cheiro do sabão de coco, mas principalmente das carambolas, as mais cheirosas.

LIBERDADE LIBERDADE

Nesses tempos em que somos obrigados a sair de casa usando máscara, de lavar as mãos com água e sabão umas vinte vezes por dia, nesses tempos que o álcool gel virou artigo da cesta básica, sinto falta de uma certa liberdade. Liberdade de pintar um asno verde como pintou o bielo-russo Marc Chagall. Não deve ser uma delícia desenhar um asno e poder pintar-lo de verde, verde bandeira? Sinto falta dessas liberdades, desse livre pensar é só pensar. Ninguém chegou para Chagall e disse: mas asno não é verde! Se alguém ousou em dizer, certamente ele replicou: foda-se! E o asno verde entrou para a História.

[ilustração/ O Asno Verde, Marc Chagall]

O JOGO

Pimenta nunca poderia ter feito aquele gol aos 58 segundos do primeiro tempo. Pimenta era ruim de bola, não sabia driblar, chutava fora os pênaltis, mas naquele dia ele foi certeiro. O juiz apitou o início do jogo, Nenenzinho passou a bola pro Pimenta que soltou um Exocet dos pés e foi parar bem no anglo do meu gol. Sim, eu era o goleiro do time da Rua Rio Verde. Vestia uma camisa preta com o número 1 nas costas, calção e meias pretas, uma sunga Big por debaixo. Luvas e joelheiras, chuteiras da melhor qualidade. Estava devidamente paramentado para ser o campeão do Bairro do Carmo naquele 1960. O campo era de terra batida, as traves feitas de bambu, rede não havia. Se Barbosa sofreu em 1950, dez anos depois fui eu, totalmente desmoralizado aos 58 segundos do primeiro tempo. Não vi a bola passar e, caído no chão previa um dez a zero fácil fácil. A vida é assim. Em menos de um minuto, mudei o rumo da minha vida. Nunca mais peguei no gol, nunca mais vesti aquele uniforme preto, bonito, novinho. Desisti de ser goleiro e comecei a pensar em ser piloto de Fórmula 1. 

[ilustração Andrea Serio]

OS BOTÕES

Queria eu ter a simplicidade de um Leonilson, acordar cedo, passar a mão num pedaço de linho e bordar frases, desenhar corações que ficaram perdidos no meio do caminho, pregar botões, uns diferentes dos outros, fazer uma composição. Queria eu ter esse minimalismo, com a agulha e linha escrever devo, não devo ou quero, não quero. Desenhar flores, sapatos, mapas, malas, velas, estrelas, molas. Bordar uma cabra envolta em coroas e escrever a cabra expiatória bem mais magra observa o patético espetáculo da monarquia. Para isso, preciso abandonar todo o noticiário dos jornais, das revistas, da televisão, da web. Me recolher numa verdadeira quarentena e esperar o pesadelo passar. Onde você for eu irei com você, escreveu ele num dia não sei se de céu azul de sol, de céu cinza chumbo de chuva. O vírus era outro e não esse que mata mais de mil pessoas por dia. Mas levou Leonilson. Só me resta ficar aqui chorando com os seus botões.

 

UMA FRUTA

Ainda pequeno, eu tinha medo de maçã. Na sala de catecismo tinha um pôster na parede mostrando Eva oferecendo uma maçã ao Adão. Enquanto aprendia o Pai Nosso, a Ave Maria e a Salve Rainha, ficava com os olhos fixos naquela gravura, os dois seminus no meio do mato e uma serpente enrolada nos galhos. Tinha medo da maçã e da serpente. Depois passou. Passei a gostar das maçãs argentinas, vermelhas e cheirosas, embrulhadas num papel de seda azul, uma a uma, que um dia Caetano encontrou poesia nelas. Muitos anos depois, convivia com elas diariamente. Seis horas da manhã eu estava no Mercado Central de Belo Horizonte para comprar uma, duas caixas. Elas eram embaladas bem apertadinhas e me impressionava a cor branca da madeira que vinha dos Pampas e aquele cheiro maravilhoso que se espalhava dentro da Rural Willys a caminho da Savassi, onde eu tinha um carrinho de frutas que funcionava 24 horas, no coração da Praça Diogo de Vasconcelos. Era início dos anos 1970 e foi assim que juntei dinheiro para ir-me embora do Brasil, fugir daqueles hipócritas disfarçados rondando ao redor. Vendia, além das maçãs, peras, bananas, mexericas, mangas, abacaxis, morangos e, na época do Natal, pêssegos, ameixas e uvas Niágara encaixotadas. Hoje, tantos anos depois, continuo convivendo com as maçãs. Lavando uma a uma com água e sabão e depois secando com um pano de prato as mãos úmidas de uma canção.  

[ilustração/Gravura de Bia Melo]

CARAMBOLAS

Geralmente é no domingo que lavo as frutas que chegaram do supermercado. Isso desde as águas de março, quando o vírus chegou por aqui. Nos primeiros dias deixava tudo dentro de uma bacia por uns vinte minutos, com água e algumas gotas de Hidrosteril. Depois que vi na televisão que era preciso esfregar uma a uma com água e sabão, compramos uma barra de sabão de coco e começamos a esfregar cada laranja, cada papaia, cada limão siciliano, cada manga espada, cada carambola. Esfrego pensando nas goiabas com bicho que engolia, nas jabuticabas que colhia e ia estalando na boca, uma a uma, uma bacia. Pensando no jambo cheiroso do vizinho que roubávamos, nas ameixas amarelas que, quando cresci, viraram nêspera. Nas pitangas e nas amoras que deixavam roxo a calçada da Rua Grão Mogol.Vou juntando as frutas ao lado da pia, formando numa pirâmide que me lembra vagamente as fruteiras de Paul Cezanne que certamente não lavava as frutas naquele 1900. Elas vão formando um colorido bonito predominantemente amarelo com tons de vermelho e laranja, com toque de verde da manga espada. Tão bonitas que outro dia fotografei, legendei moro num país tropical e postei no Face. Os morangos e os kiwis lavo rapidamente. Porosos não podem ficar de molho, vi também na televisão. Todo domingo é assim. Gasto parte do meu tempo lavando frutas, sentindo o cheiro do sabão de coco, mas principalmente das carambolas, as mais cheirosas.

[ilustração/Obra de Paul Cèzanne]

FRAGMENTOS DE UM CONFINAMENTO SEM FIM

Há seis meses estou aqui matutando como arrumar todos esses livros na biblioteca. Já pensei em tudo. Tirar um por um, espanar, catalogar. Já pensei em separar por assunto, por ordem alfabética do autor, ordem alfabética do título. Já pensei até em eliminar alguns, doar, encadernar outros, os estropiados indispensáveis. Há seis meses penso nisso. Só penso, nunca coloquei a mão na massa. Andei bisbilhotando prateleiras que não via há muito tempo. Achei a primeira edição de Fazenda Modelo, do Chico, lá dos anos 1970. Achei o primeiro livro que li, Voo Noturno – vôo ainda com acento circunflexo – de Antoine de Saint-Exupéry, já quase desmanchando as páginas. Achei o Miséria da Filosofia, de Karl Marx, que tantas histórias guardam, motivo de crônicas e palestras Brasil afora. A coleção Encanto Radical, que começou com o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, está toda espalhada: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu, ao lado de Um Café para Sócrates, de Marc Sautet. O que Dentes ao Sol, de Ignácio de Loyola Brandão, está fazendo agarradinho ao lado dos poemas de T.S. Eliot? Já pensei em pagar uma bibliotecária pra por ordem no galinheiro. Só pensei. De vez em quando fecho os olhos e passo a mão num livro aleatório, o primeiro que me vem à vista: Ontem à noite foi Soltando os Cachorros, de Adélia Prado. Comecei a ler: Quarenta anos é demais pra uma mulher. Prefiro quarenta e dois. O Papa tá passando pito nos jesuítas; plantei um pé de samambaia chorona que não vai pra frente de jeito nenhum. Galinho garnizé é galinho à toa, atrevimento empenado. E fui lendo, e fui lendo e pensei com os meus botões: pra quê uma biblioteca organizada?

Ser jovem em 1968 foi uma das experiências mais fascinantes. Além de ser cabeludo, usar tamancos suecos, calça vermelha e casaco de general, tínhamos mil ideias na cabeça. Viver em comunidade, viver sem dinheiro, viver de amor. Viver como passarinho, andar meio desligado, não sentir os pés no chão. Líamos Erich von Daniken na certeza de que eram os deuses astronautas. Sonhávamos com Macondo ao mesmo tempo que com a guerrilha urbana, suburbana e rural. Um exemplar do Voz Operária nas mãos valia ouro, mais valia que qualquer outro jornal. Decifrávamos a guerrilha de Marighela em fascículos proibidos, guardados segredos dentro de uma caixa de papelão do extrato de tomate marca Peixe. Curtíamos o barato de ver Janis Joplin no palco e Jimi Hendrix incendiando uma guitarra. O som de Spanish Castle Magic ia e voltava enquanto o sonho era mesmo caminhar contra o vento, sem lenço, sem documento no sol de quase dezembro. Queríamos debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, plantar batatas e colher frutos. A gente não precisava de muito dinheiro, graças à Deus. Tínhamos na cabeça uma fantástica fábrica de ideias, objetivo dar uma facada certeira no capitalismo, olha o sangue, olha o sangue no chão! Mas não soubemos por ordem nisso tudo. Na parede do meu quarto, atrás da porta, escrevi em letras miúdas com uma caneta Pilot: O último capitalista que vamos dependurar será aquele que nos vendeu a corda. Entre parentes, rabisquei: Karl Marx.

Plantar uma árvore, já plantei. Um chorão que semeei no quintal da Rua Rio Verde e que virou uma frondosa árvore. Plantei também uma ameixeira na varanda do apartamento na Avenida Higienópolis e que está lá até hoje, vejo quando passo. E plantei um abacateiro na varanda do meu apartamento aqui na Lapa. Já está com mais de um metro de comprimento e minha mulher quer que eu tire ele de lá porque, com algumas folhas amarelas, ela acha que ele, no vaso, não cresce mais que isso. Tento resistir, argumentando que o abacateiro será sempre meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar. Ter um filho, já tive, quatro! Todos adultos, crescidos, os meninos estão todos sãos. Dois nasceram em Paris, dois em São Paulo. Um menino, três meninas, todos parecidos, prontos para enfrentar a vida.

Escrever um livro, já escrevi, nove! E estou escrevendo mais um. Minha obra ainda está incompleta. Trato do meu novo livro como tratava daquele chorão na Rio Verde: aguando todos os dias um pouquinho para não deixar a terra muito seca. Trato como tratava dos meus filhos, dando papinha, trocando fralda, colocando panos frios na testa nas madrugadas de febre, vendo o VHS de Óia a Onça cinquenta vezes e ensinando o que foram as Capitanias Hereditárias.

Acabo de completar setenta anos, mas, como dizem que a vida começa aos quarenta, sinto-me feliz com os meus trinta anos, com minhas árvores, meus filhos, meus livros.

 

DEU BRANCO

Branco era o terno de John Lennon e o vestido curto de Yoko Ono no dia do casamento, naquele 1969. Branca era a hóstia que o padre colocava na minha língua de menino do Colégio Marista. Branca era a roupa lavada com Rinso. Brancas eram as asas do anjo que as meninas de Sabará colocavam nas costas pra participar da procissão. Branca era a pomba de Picasso, as penas do albatroz que fotografei no porto de Callais, a capa do álbum duplo dos Beatles. Brancos eram os ovos nevados que o meu pai fazia nos dias de domingo. Branquinho era o líquido que passávanos no papo para corrigir os erros da máquina de escrever. Branco era o giz de Mister Elcio no Colégio de Aplicação. Branca era a toalha de linho que minha mãe colocava na mesa uma vez por ano, na noite de Natal. Brancos eram os mocassins dos playboys da Augusta, dos malandros da Lapa. Branco era o meu tênis Bamba. Branco é o leite das crianças, o queijo fresco vindo lá de Minas. Branco é Joaquim Claudio Corrêa de Mello Junior, baixista dos Titãs. Branca é o nome da empregada da minha irmã mais nova. Branco é o meu All Star que está sem uso há seis meses, lá no fundo da sapateira. 

[ilustração/”White on White”, obra de Kasemir Malevich]

OBRAS QUASE COMPLETAS

Plantar uma árvore, já plantei. Um chorão que semeei no quintal da Rua Rio Verde e que virou uma frondosa árvore. Plantei também uma ameixeira na varanda do apartamento na Avenida Higienópolis e que está lá até hoje, vejo quando passo. E plantei um abacateiro na varanda do meu apartamento aqui na Lapa. Já está com mais de um metro de comprimento e minha mulher quer que eu tire ele de lá porque, com algumas folhas amarelas, ela acha que ele, no vaso, não cresce mais que isso. Tento resistir, argumento que o abacateiro serás sempre meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar. Ter um filho, já tive, quatro! Todos adultos, crescidos, os meninos estão todos sãos. Dois nasceram em Paris, dois em São Paulo. Um menino, três meninas, todos parecidos, prontos para enfrentar a vida. Escrever um livro, já escrevi, nove! E estou escrevendo mais um. Minha obra ainda está incompleta. Trato do meu novo livro como tratava daquele chorão na Rio Verde: aguando todos os dias um pouquinho para não deixar a terra muito seca. Trato como tratava dos meus filhos, dando papinha, trocando fralda, colocando panos frios na testa nas madrugadas de febre, ensinando o que foram as capitanias hereditárias. Acabo de completar setenta anos, mas, como dizem que a vida começa aos quarenta, sinto-me feliz com os meus trinta anos, com minhas árvores, meus filhos, meus livros.  

THE BOOK IS ON THE TABLE

Há seis meses estou aqui matutando como arrumar todos esses livros na biblioteca. Já pensei em tudo. Tirar um por um, espanar, catalogar. Já pensei em separar por assuntos, por ordem alfabética do autor, ordem alfabética do título. Já pensei até em eliminar uns, doar, encadernar outros, os estropiados indispensáveis. Há seis meses penso nisso. Só penso, nunca coloquei a mão na massa. Andei bisbilhotando prateleiras que não via há muito tempo. Achei a primeira edição de Fazenda Modelo, do Chico, lá dos anos 1970. Achei o primeiro livro que li, Voo Noturno, vôo ainda com acento circunflexo, de Antoine de Saint-Exupéry, já quase desmanchando as páginas. Achei o Miséria da Filosofia, de Karl Marx, que tantas histórias guardam, motivo de crônicas e palestras Brasil afora. A coleção Encanto Radical, que começou com o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, está toda espalhada: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu, ao lado de Um Café para Sócrates, de Marc Sautet. O que Dentes ao Sol, de Ignácio de Loyola Brandão está fazendo agarradinho ao lado dos poemas de T.S. Eliot? Já pensei em pagar uma bibliotecária pra por ordem no galinheiro. Só pensei. De vez em quando fecho os olhos e passo a mão num livro aleatório, o primeiro que me vem à vista: Ontem à noite foi Soltando os Cachorros, de Adélia Prado. Comecei a ler: Quarenta anos é demais pra uma mulher. Prefiro quarenta e dois. O Papa tá passando pito nos jesuítas; plantei um pé de samambaia chorona que não vai pra frente de jeito nenhum. Galinho garnizé é galinho à toa, atrevimento empenado. E fui lendo, e fui lendo e pensei com os meus botões: pra quê biblioteca organizada?

CORES E NOMES

Nesses tempos sombrios, agora cheios de tons de cinza, quisera ser pintor. Ter uma palheta profissional, tubos de tinta de todas as cores, vidrinhos de ecoline, bastões de pastel, guache, uma caixa de lápis de cor daquelas de 198 cores, oito tons de amarelo, nove tons de verde, cinco tons de creme. Quisera eu estar enfurnado num ateliê esboçando corvos nos campos de girassóis, catedrais, anjos voadores, mulher de olhos fora do lugar, cabras e vacas. Passar o dia respirando aquele cheiro, criando combinações de cores como Mark Rothko, imaginando mulheres esguias como Paul Gaughin, pêssegos na fruteira como Paul Cèzane, queria ter a simplicidade de um Joan Mirò ou a fúria de um Jackson Pollock. Quando menino sabia desenhar rã, bambu, galo e rato. Fiquei nisso. Tentei, mas morri num quadro medonho que fiz e que chamei de Monkey’s Instalation. Ou, quem sabe, ser cantor, quem dera ser tenor, quem sabe ter a voz igual aos rouxinóis. 

[ilustração/Obra de Joan Mirò]

MORA NA FILOSOFIA

Ser jovem em 1968 foi uma das experiências mais fascinantes. Além de ser cabeludo, usar tamancos suecos, calça vermelha e casaco de general, tínhamos mil ideias na cabeça. Viver em comunidade, viver sem dinheiro, viver de amor. Viver como passarinho, andar meio desligado, não sentir os pés no chão. Líamos Erich von Daniken na certeza de que eram os deuses astronautas. Sonhávamos com Macondo ao mesmo tempo com a guerrilha urbana, suburbana e rural. Um exemplar do Voz Operária nas mãos valia ouro, mais valia que qualquer outro jornal. Decifrávamos a miséria da filosofia em livros proibidos, guardados segredos dentro de uma caixa de papelão do extrato de tomate marca Peixe. Curtíamos o barato de ver Janis Joplin no palco e Jimi Hendrix incendiando uma guitarra. O som de Spanish Castle Magic ia e voltava enquanto o sonho era mesmo caminhar contra o vento, sem lenço, sem documento no sol de quase dezembro. Queríamos debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, plantar batatas e colher frutos. A gente não precisava de muito dinheiro, graças à Deus. Tínhamos na cabeça uma fantástica fábrica de ideias, dar uma facada certeira no capitalismo, olha o sangue, olha o sangue no chão! Mas não soubemos por ordem no galinheiro. Na parede do meu quarto, atrás da porta, escrevi em letras miúdas com uma caneta Pilot: O último capitalista que vamos dependurar será aquele que nos vendeu a corda. Entre parentes, rabisquei apenas as iniciais: KM.  

 

ENQUANTO ISSO, VAMOS ESPERANDO O NOVO NORMAL

Hoje eu não vou sair de casa não. Quero preguiça, ajeitar o altar dos meus santos, raspar a parafina acumulada, renovar a vela, riscar o fósforo. Perdemos Dom Pedro Casaldáliga, perdemos Aldir Blanc, Nirlando Beirão, Moraes Moreira, Enio Moricconi, Chica Xavier, Gilles Lapouge, Antônio Bivar, Rodrigo Rodrigues e outras cem mil pessoas neste 2020, o ano que devia terminar logo. Hoje me resta ir pro sofá, pra rede, pro colchão. Molhar as plantas, catar as coconilhas escondidinhas nos galhos, passar azeite nas folhas de ficus para que elas sobrevivam brilhantes, firmes e fortes. Hoje é domingo, vou ficar distante do noticiário, ao menos uma vez na semana. É domingo aqui e já quase segunda no Vietnã. Hoje é dia de escutar o Jardim Secreto de Claudio Santoro, os cantos afro de Matheus Aleluia, hoje é dia de ouvir Hamilton de Holanda e Mestrinho interpretando Drão e o Trem das Onze na sanfona e no violão. Drão, os meninos são todos são e eu não posso ficar nem mais um minuto sem você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Se eu perder esse trem que passa agora às onze horas, só amanhã de manhã.

Sexta, sábado, domingo? Que dia da semana eu vou criar coragem e sair às ruas? Trombar nas pessoas, sentar lado a lado no ônibus junto com uma diarista justificando seu atraso pra patroa, perguntar se ele passa na Paulista, responder que horas são, tossir, espirrar, abraçar, beijar. Eu tenho medo de viver o velho normal. Entrar no elevador já cheio e lembrar daquele velho anúncio do desodorante VanEss: sempre cabe mais um. Quando vou voltar ao Itaquerão com Clarice e ouvir ela gritando bem baixinho vai, timão! Que dia vou voltar ao fogão domingo cedo pra preparar aquele couscous marroquino pros amigos, que vão chegando e chegando e enchendo a sala da minha casa? Que dia vou pegar o primeiro avião com destino a felicidade? Que dia vou voltar a Vrises, aquele povoado no interior da Grécia onde morei, onde colhi abricôs e limões sicilianos no pé? Será que ainda terei tempo de voltar a fotografar as pessoas no metrô, como faz minha amiga Patrícia Mesquita? Sabe de uma coisa? Quero espiar as bancas de revista, comer um pastel de feira, quero comer um pedaço de abacaxi nos carrinhos de frutas de Higienópolis, quero caminhar até a Livraria Martins Fontes e comprar a nova Edição do livro Admirável Mundo Novo. 

Estão matando os meninos pretos da periferia do Brasil. Não, não são invisíveis, são de carne, osso, alma e sangue escorrendo na calçada. Matando a queima-roupa, sem perguntar o nome, o numero do CPF, o nome do pai, o nome da mãe, débito ou crédito. Basta estar na rua e carregar a cor preta na pele que é suspeito número um, de crime algum. Estão ferindo o coração de mães, como aquela que guardou o bolo de aniversário do Rogério na geladeira para não derreter, para comer mais tarde, depois do parabéns. Daqui a pouco, ela vai aparecer na televisão de novo, soluçando, pedindo justiça e nada mais. Como Pedro Pedreiro, que não vem, que não vem. A nota pé, a nota seca, vai informar que os policiais foram afastados do serviço de rua e que tudo vai ser apurado. Vai nada, a gente sabe. E amanhã vai ter outro Rogério morrendo de susto, de bala ou vício, caindo sangrando na calçada esburacada de um bairro que não está no mapa. E o governador vai aparecer ao vivo e em cores dizendo que esta não é a norma da policia, que repudia o ato, prometendo apuração e julgamento dos culpados, que vão responder pelos seus atos. Vão nada! O boi já está dormindo.

Fugir pra onde? Só se for pra Pasárgada, onde sou amigo do rei. Quem sabe fugir pra Maracangalha de liforme branco? Fugir como? A pé, de carro, de ônibus, de avião, bicicleta ou caminhão? Quem sabe eu vou pegar aquele velho navio? Pensei, pensei, peguei o mapa mundi, olhei, olhei. Eu não tenho para onde ir. Quem sabe eu vou pra lua, eu mais minha muié. Lá, construir um ranchinho todo feito de sapé. Faça sol ou faça chuva eu vou fugir, nem que seja na lógica do pensamento. Olho em volta e vejo tantos bens materiais, meus discos e meus livros. Olha, pensando bem, eu só deixo a minha São Paulo no último pau de arara.

SEGUE O SECO

Muito me impressiona o mandacaru desde Vidas Secas, desde os retirantes de Portinari. Aquele que quando flora lá na seca é o sinal que a chuva chega no sertão. Tenho um em casa há mais de dez anos. Deu flor apenas uma vez e nunca mais, nunca soube porque e sempre espero ao menos uma, tão bela, quando chega a primavera. Sei que o mandacaru não gosta de água, rego a cada quinze dias. Isso é que me impressiona, o viver sem água durante tanto tempo. Nesses dez anos e pouco, ele cresceu uns vinte centímetros. Pelas minhas contas, lá pelo ano 2030 vai chegar ao teto e ai não saberei o que fazer com ele. Ou comigo. Faça sol, faça chuva, ventania branda ou vento bravo, o mandacaru é sempre o mesmo. Não amarela, não balança, não murcha. É um forte. Desde o início da pandemia, da quarentena, do confinamento, ele é o mesmo. Não importa se tem flexibilização, jogo sem público, gente com máscara, jovens nos bares do Leblon, álcool gel nas mão, laranjas lavadas com água e sabão. Com o mandacaru não tem surpresa. Só isso.