PRA FRENTE, BRASIL!

Ontem à noite, ouvi apenas alguns gritinhos, duas vezes, vindos do prédio em frente, o mesmo que, outrora,  ouvia panelas batendo. Já se foi o tempo em que um jogo entre brasileiros e argentinos, era chamado de jogo do século. Olhando assim pela televisão, o gramado ainda verde do Mineirão, sinto que o Brasil perdeu a graça. Ainda tem gente que tem coragem de vestir uma camisa amarela e sair por aí. O estádio estava cheio mas, venhamos e convenhamos, o entusiasmo foi pro ralo. Já torci muito pelo Brasil, já gritei muito em cada gol de folha seca saído dos pés de Didi. Já vibrei com o jogo de corpo de Mané e do soco no ar de Pelé. Hoje, pouco importa se o Brasil ganhou, empatou ou perdeu da Argentina. Dizem que não podemos misturar futebol com política. Sim, mas eu não tenho mais coragem de vestir uma camisa do escrete canarinho. Sorry! Se o Brasil ganhou de dois a zero, se empatou, se foi para os pênaltis, o meu entusiasmo com essa Copa América é zero. Não tenho ânimo pra torcer pelo nosso país. Talvez esteja misturando as coisas, eu sei. Mas, pra que gritar Para frente, Brasil! se o meu país só anda pra trás? Desanime, talvez,  de tanto ver o Brasil perder.

AV

O FALSO SCHROEDER

Não tenho amigos virtuais, nem de carne e osso que ainda defendem esse governo de ultra-direita ou a imparcialidade de um juiz que coloca na cadeia sem provas, mas por convicção. Mas, de tempos em tempos, algumas barbaridades, fake news, pingam no meu WhatsApp, enviadas por amigos dos amigos dos amigos, por vizinhos dos vizinhos, por desconhecidos mesmo. Na noite de domingo passado, por exemplo, piscou no meu celular a imagem dessa figura ai acima, com um pequeno texto de espanto. Segundo quem enviou, este senhor calvo, bem barbeado e de suspensórios, era ninguém menos que Carlos Henrique Schroder, o diretor-geral da Rede Globo. Num breve discurso, o falso Schroeder faz uma apologia da ditadura militar que mandou e desmandou no Brasil por mais de vinte anos. E o remetente, quase tendo orgasmos, ao ver o diretor-geral da Rede Globo denunciando em público um complô contra o governo daquele que, um dia, foi chamado de Mito. Como conheço Schroeder desde 1997, quando pus os pés na Rede Globo pela primeira vez, dei gargalhadas, que foram, aos poucos, se encolhendo de nervoso e vergonha. Vinte e quatro horas depois da mensagem ter piscado no meu celular, fico aqui pensando com os meus botões, quantas milhares de pessoas não receberam a mesma mensagem e continuam acreditando, achando que o depoimento é mesmo do Schroeder. E espalham por ai, sem dó nem piedade, aumentando os comentários, acrescentando coisa e jurando de pés juntos que a mensagem é verdadeira. Onde vamos chegar com isso.

AV

TRINTA E DOIS POR CENTO

Era pouco mais de oito horas da manhã de domingo, eu caminhava rumo ao supermercado Pão de Açúcar, quando, de repente, um vulto surgiu por detrás de três pequenos pés de bananeira que ficam na calçada da Swift. A Rua Tito, na Lapa, em São Paulo, estava vazia e silenciosa e o meu susto foi inevitável. Era um senhor grisalho, paramentado de cooper dos pés à cabeça. Ele percebeu o meu espanto e comentou: “A gente leva susto à toa”. Comentei baixinho, quase que somente para os meus botões: “É mesmo”. Ele apressou os passos e foi falando alto, quase ecoando naquele passeio irregular da Rua Tito: “Isso vai acabar! Dentro de um ano, quando o presidente Bolsonaro colocar uma arma na mão de cada um, isso vai acabar. Não podemos desistir, precisamos acreditar, ter confiança!” E o silêncio foi voltando aos poucos ao bairro da Lapa, à medida que ele apressava os passos do seu tênis Nike Air e ia desaparecendo a olhos vistos, na minha frente. Não costumo silenciar, mas silenciei. Não ia comprar briga ali, num domingo de folga que estava apenas começando. Diminui o passo e fiquei imaginando. Aquele senhor era uma porcentagem. Ele faz parte dos 32% ouvidos pelo Ibope, que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo. Vive desinformado, ou melhor, bombardeado por informações do seu grupo no WhatsApp. Todas as notícias que não gosta, considera fake news. Assiste ao Jornal Nacional toda noite e não ficou mais sabendo dos vazamentos da Lava Jato, sequer que Glenn Greenwald foi a Brasília e, durante uma tarde inteira, deu uma aula de Jornalismo aos parlamentares. Aquele homem na minha frente, agora distante, acredita mesmo que uma arma na mão vale mais do que dois passarinhos voando. E não é só. Crê que o ministério é composto de notáveis, já leu pelo menos um livro de Olavo de Carvalho, continua acreditando no kit gay e na mamadeira de piroca. Não soube que Damares viu Jesus na goiabeira, nem mesmo do ministro da Educação dançando na chuva seca. Aquele homem, desaparecendo lá longe, não vai mudar nunca de opinião, o que é um perigo. Certamente prefere uma ditadura militar a um governo civil. Acredita que Lula roubou e, mesmo se não roubou, merece estar preso em Curitiba. Quando a noite chegar, seguramente vai fazer a sua segunda caminhada do domingo. Olhando sempre pra baixo porque não quer olhar pra cima e ver nenhuma estrela brilhar. Vai caminhar em linha reta, acreditando em tudo que o seu mestre mandar.

AV

RUMO AO PARAÍSO

Eram oito horas da manhã, em ponto, quando a mensagem chegou pelo celular de uma ilustre passageira, sentada ao lado de um pintor. Deveria ser pintor porque usava um macacão todo respingado de tinta e tinha uma lata de Coralit entre as pernas.

Ela tirou o celular de uma bolsa vermelha com fivelas douradas e ouviu em viva-voz, na tonalidade máxima:

– Tô ligando pra avisar que a dona de hoje não é igual a de ontem. Essa de hoje é um pé no saco!

Clique. Ela desligou e enfiou o celular de volta pra bolsa. Ninguém riu, ninguém tossiu, todos fizeram cara de pastel. Os que cochilavam continuaram cochilando, os que jogavam paciência continuaram jogando paciência, os que olhavam pra fora, continuaram olhando.

Um boy, sentado ao lado do trocador, perguntou:

– Mano, onde você comprou esse seu tênis?

– Em Pirituba.

– Maneiro, nunca tinha visto dessa cor, cinzão!

Era um All Star novinho, cinza chumbo.

De pé, espio no celular da mocinha sentada, a mensagem que acabou de chegar:

– Cadê você?

Ela respondeu rapidinho:

– No ônibus!

Uma senhora entra meio aflita e pergunta para o motorista:

– Passa perto do metrô Marechal? O motorista fez que sim com a cabeça, ela pediu para avisá-la quando chegar, pegou o telefone e ligou:

-Mãe, estou no ônibus, indo pro metrô Marechal. Vou passar na farmácia e vou praí.

Não, mãe. Aqui não tem Drogajato. Aqui em São Paulo só tem Drogasil.

Ela desligou o celular e comentou baixinho com o motorista:

– É um remédio pra dor muscular.

O ônibus segue, uma moça incomodada com o sol cobre o rosto com uma bolsa preta de pano do I Simpósio de Ecologia e Conservação do Semiárido. Uma outra abre uma mochila da Fjällraven, tira um batom rosa e retoca os lábios. Um senhor cochila, quase deixando cair um imenso envelope do Laboratório Lavoisier, exame de imagem certamente.

O ônibus passa em alta velocidade, onde moradores de rua ainda estão enrolados em seus cobertores, ao lado de seus cachorros, debaixo do viaduto que os protege.

Ouço um papo entre duas senhoras, perto da porta.

– Tem dois dias que não dou mais comida pra ele. Agora é só ração. Acredita que ficou com raiva de mim? Nem olha na minha cara.

Fico observando o olhar de cada um que passa pela roleta. Alguns cumprimentam o trocador, outros fazem um sinal com a cabeça, outros passam batido. Mas todos observam quanto ainda resta de saldo no cartão que a tela ao lado anuncia. O olhar de espanto maior são os daqueles cujos saldos estão no fim. E o mês, ainda não.

Perto do parque da água branca, uma moça faz sinal pro motorista, parado no ponto. Ele espera ela chegar, abre novamente a porta e ela entra, meio esbaforida.

– Dá pra esperar um minutinho só, até minha filha entrar na escola? Ela olha aflita e respira aliviada:

– Pronto! Entrou!

Ela havia deixado a filha na porta da escola, mas não queria perder o ônibus. Sentou-se no primeiro banco, ao lado de uma outra passageira e comentou, pra ela e pro motorista:

– Mãe é foda!

Sobe gente, desce gente. Todos com os seus celulares nas mãos, ligados. Uns passam rapidamente pelo Instagram, outros leem mensagens de Bom dia, o Senhor esteja convosco, alguns cintilantes, emoldurados por rosas cor de rosa.

Ao meu lado uma senhora vê, uma, duas, três vezes, um vídeo em search, tipo GIF, tutorial ensinando a fazer um hambúrguer com alface tomate, pepino, maionese, carne moída e duas fatias de bacon.

De repente, o ônibus estanca num engarrafamento e a moça grudada na porta pergunta:

– Aqui é o Paraíso?

Vários passageiros respondem, ao mesmo tempo, que sim.

Ela fala alto:

– Motorista, pode abrir a porta pra mim? Eu vou descer.

O motorista da uma olhada pra trás e abre a porta. A moça desce rapidamente e segue pela calçada, rumo ao Paraíso.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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ALÔ ALÔ

Com o tempo, tudo desaparece. Raramente você vê um Simca Chambord desfilando pelas ruas, dificilmente você vê uma mãe dando Calcigenol Irradiado para o filho, ou alguém mascando um Ping-Pong, escovando os dentes com Kollynos. As coisas vão sumindo, sumindo, até a gente dar falta deles. Mas, de repente, desde a semana passada, começaram a retirar todos os orelhões de São Paulo, numa operação impressionante. Onde havia um, hoje existe apenas um pequeno poste de ferro sinalizando que, outrora, ali havia um orelhão. O design é brasileiro e os primeiros apareceram nos anos 1970. Virou coqueluche. Todo mundo tinha na carteira uma ficha de telefone. Depois vieram os cartões, que muitos até colecionavam. Acho que todo mundo já falou num orelhão. Talvez essa novíssima geração, não. Nos últimos tempos, ninguém mais usava. Eles serviam apenas para painel publicitário de putas, com cartõezinhos colados por toda parte. Sugiro que quem ainda conseguir ver um, fotografe, para, no futuro, lembrar daquele objeto que ganhou o nome espontaneamente de orelhão, uma ideia genial.

A HORA DO ESPANTO

Amigos meus estão assustadíssimos nos últimos tempos. Que amigos? Aqueles que não suportavam ouvir a voz de um Marco Antônio Villa, o comentário blasé de Miriam Leitão, a voz pastosa de um Gerson Camarotti, o olhar antipático de uma Vera Magalhães, a empáfia de Reinado Azevedo, a obsessão de um Augusto Nunes. Aqueles que pulavam a página 2 de O Globo pra não ver a carinha de um Merval Pereira estampada ali, em meio a tantos comentários reacionários. Nem mesmo a beleza de uma Andrea Sadi, meus amigos queriam passar os olhos. Nem aquele off cantado de Delis Ortiz eles suportavam mais. Alguns comentaristas continuam fiéis ao seu pensamento retrógado e vão com eles pro túmulo, da vida ou do Jornalismo. Outros mudaram e é por isso que os meus amigos estão assustadíssimos. Um dia, um desses amigos, o mais falante, perguntou: “O que está acontecendo? Estou achando o Villa enfático e o Reinaldo simpático”. E mesmo amigo arrematou: “É espantoso! Sabe que estou achando até mesmo que o Mourão seria melhor do que esse jumento…”

AV

O PONTO VERMELHO E OUTRAS ESTÓRIAS

O culpado

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. E se cortou. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes a realidade de uma ficha. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória, aquela vitória que não veio. Não era bem aquilo que lhe informaram, aquilo que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos 45 minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio, sem a necessidade de VAR. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, aquele que todos julgavam ser o Todo Feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu numa ribanceira, num buraco fundo, difícil de sair. Hoje, ele vive numa espécie de inferno particular, em silêncio, como um autêntico mineiro. Se alimenta todos os dias de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: que cagada!

O ponto vermelho

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, embaixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão!, Cálice, e dá stop em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

A velhinha de Taubaté

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê Eu Vou. Ela foi em todas. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda uma selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando diz na televisão que não entende nada disso aí, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu, por exemplo, também não sei o que é déficit público”. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Não sabe, não tem a menor noção do que é The Intercept Brasil. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai ser justa e que a revista Veja virou comunista.

O manifestante

Já segurou todo tipo de placa. Fora Dilma e leve o PT junto. Vai pra Cuba. Vai pra Venezuela. Somos milhões de Cunha. Somos todos Moro. Intervenção Militar já! É aquele cara que vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Postou no Face aqueles famosos Eu Vou! e trocou suas fotos no avatar várias vezes. Já foi Aécio, já foi Cunha, já foi Moro, já foi Bozo. O segurador de placas tinha a revista Veja como Bíblia, vivia citando trechos de artigos fake e postando capas de Lula desmanchando, derretendo. Era assinante e agora está esperando apenas a assinatura acabar. Costuma nem tirar mais a revista do plástico e quando o porteiro do seu prédio diz que a sua Vejachegou, ele responde ‘depois eu pego’. O segurador de placas gastou muita caneta Pilot e muitas folhas de cartolina para escrever seus protestos. Suas fotos em manifestações ao lado de Frota, de Joice e de Kim foram compartilhadas entre amigos, o que o deixou feliz da vida. O carregador de placas está esperando uma nova palavra de ordem, vinda quiçá da Globo, seja qual for. Esperando, esperando, esperando, como se fosse um Pedro Pedreiro dos novos tempos.

Os desvalidos

O nome da cidade não importa. Pode ser Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, Sombrio, em Santa Catarina, Combinado, em Tocantins, Ressaquinha, em Minas Gerais ou Nova Iorque, no Maranhão. Triste é ver o posto de saúde sem um cubano de jaleco branco, sentado na sua surrada escrivaninha de madeira, conversando com os seus pacientes, o povo do lugar. Agora resta apenas uma mesa vazia, alguns frascos de vacinas vencidas num canto, um rolo de gaze quase no fim, um vidro de álcool misturado com água, um cheiro de acetona no ar. Onde havia conversa, há silêncio, onde havia vida, há risco. Um médico contou que ganhou uma galinha viva como recompensa por ser sido salvo de uma picada de escorpião, na porta do Bar e Lanches do Pereira. Outro ganhou seis ovos caipiras e um terceiro, um bode pronto pro abate. Depois que os cubanos foram embora, o posto de saúde existe apenas no nome. Alguns desavisados ainda chegam aqui para ser consultados e voltam pra casa sem perder a esperança de ver, um dia, a estrela voltar a brilhar no céu.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SEM RESPOSTA

Desde meados dos anos 1980, quando a Legião Urbana colocou nas paradas de sucesso uma música chamada “Que país é este?”, nós, brasileiros, vivemos fazendo a pergunta. E nunca encontrando a resposta. EsTa semana, a questão voltou à tona quando o ministro do Turismo do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antônio, acordou cedo e foi até o aeroporto do Galeão para bater palmas para os primeiros turistas americanos que chegavam a esse país que ninguém sabe qual é, sem a necessidade de visto. Fico imaginando que os turistas devam estar rindo até agora, lembrando a cena de um babaca de terno, batendo palmas no aeroporto, quando o sol nem tinha raiado ainda.

AV

A VELHINHA DE TAUBATÉ

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê “Eu Vou”. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda um selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando ele diz na televisão que não entende nada disso ai, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu também não sei o que é deficit público. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai melhorar e que a revista Veja virou comunista.

AV

[ilustração LFVeríssimo]

O CULPADO

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, é o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes da realidade. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória. Não era bem aquilo que lhe informaram, que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, todo feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser  feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu num buraco fundo, ribanceira abaixo, difícil de sair. Hoje ele vive numa especie de inferno, em silêncio. Se alimenta de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: Que cagada!

AV

QUERIDO DIÁRIO

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, em baixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão! Chame o Ladrão! Cálice, e pára em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

AV

NOS TEMPOS DO DULCORA

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje

Quando eu era menino, no tempo do Gumex, do Simca Chambord, da Mirinda Morango e da coleção de flâmulas, o meu pai sempre dizia:

– No meu tempo, quando não tinha televisão…

Eu era criança, mas vivia intensamente a era da televisão, uma novidade. Era fã do Vigilante Rodoviário, da Rua do Ri Ri Ri, do Agarre o que puder, da novela Se o mar contasse.

E ficava imaginando como tinha sido a infância do meu pai sem o Pica-Pau, o Zé Colmeia. o Manda-Chuva, os Flintstones e os Jetsons.

Mas hoje, pensando nessas coisas, eu me lembro que o meu pai só se lembrava de não ter televisão, quando ele ainda usava calças curtas, escrevia a lápis e tomava Cremogema toda manhã.

Cansei de ouvir ele rezando essa ladainha e evitei, durante toda a vida, dizer:

– No meu tempo, quando não havia celular…

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje.

– Como assim, não tinha micro-ondas?, perguntou uma menina aqui em casa, outro dia.

Aí, sentei aqui no computador e comecei a enumerar, a fazer uma lista de algumas coisas que não existiam no meu tempo de criança.

Além do micro-ondas e do caixa eletrônico, não tinha cartão de crédito e a gente pagava tudo com dinheiro vivo ou cheque.

O automóvel não tinha cinto de segurança, vidro elétrico e, para abrir ou fechar, era na base da manivela.

Não tinha pedágio, a gente viajava sem ter de parar naquelas cabines e ficar sabendo que a cobradora chama-se Soraia.

No meu tempo, para acordar, tínhamos um despertador em cima do criado-mudo. Para calcular usávamos a calculadora, para se orientar, a bússola, para apontar o lápis, usava-se gilete, para saber o telefone de alguém consultávamos o catálogo telefônico.

No meu tempo, tempo do Q-Suco e do Q-Refresco, não tinha kiwi. A gente comia banana, mamão, laranja, jabuticaba e goiaba no pé, essas frutas comuns. Uva e pêssego, só no Natal.

Quando eu era criança, no tempo do drops Dulcora, da zebrinha do Fantástico e do Renault Gordini, não tinha TV a cabo, os canais eram do 2 ao 13 e todo mundo sabia que a TV Itacolomi era canal 4 e a TV Record, canal 7.

No tempo em que o símbolo da TV Tupi, canal 6, era um indiozinho, a gente vivia sem aplicativo, sem WhatsApp, sem Instagram, sem Netflix, sem CD, sem Spotify, vivia sem Uber, sem mensagem de voz, sem senha, sem código de barra, , sem iFood, sem e-book, sem e-mail, sem Ipad, sem Gmail, sem UOL, sem www, sem mala com rodinha e sem estresse.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SINGULAR E PLURAL

O meu nome completo é Alberto Villas Bouçada Junior. Passei a ser Alberto Villas desde 1972, quando assinei a minha primeira matéria no jornal Estado de Minas, uma reportagem sobre 24 horas no Edifício JK, uma espécie de Copan de Belo Horizonte. Jornalista tinha de ter nome curto e eu segui a norma.

Mesmo assim, de tempos em tempos, o meu pai, que era Alberto Villas Bouçada, passou a receber elogios pelas matérias publicadas no Estado de Minas. Muitos se perguntavam como poderia um meteorologista estar escrevendo matéria sobre a Rua Guaicurus, zona do baixo meretrício de BH.

Passei a adolescência ouvindo a pergunta “o pai ou o filho?” quando alguém da minha casa atendia o telefone, numa época em que adolescente era viciado em telefone fixo. Foi assim que virei Alberto Villas e o meu pai, o Doutor Bouçada.

Nome, cada um carrega o seu, mas alguns exigem explicação. Desde pequenininho, sempre que alguém vai escrever o meu nome, preciso acrescentar o tal do “Villas com dois éles”.

Com o nome começando com a letra A, sempre fui o primeiro da chamada, a não ser naquele segundo ginasial no Caseb, em Brasília, que o Abel ocupou o meu posto. A vantagem era nos dias de arguição oral, quando o professor ia chamando aleatoriamente. Nunca pensava no número 1. Mas quando o exame era por ordem alfabética, estava ferrado.

Quando vou fazer exame de sangue, a mocinha de branco sempre chega na ponta do corredor e, com aquela ficha nas mãos, me chama:

– Alberto Villas-Boas!

E lá vou eu, Villas Boas, mesmo sabendo que não sou Villas-Boas. No corredor, a caminho da sala de coleta de sangue, elas brincam… “Ah, é Bouçada, pensei que era Villas-Boas!”. Já me acostumei com a cena.

Nesses tempos em que rico chama Joaquim, Pedro, João, José e pobre leva o nome de Daiane, Merilyn, Edivaine e Uélinton, a coisa ficou mais complicada. Com essa quantidade de émes, éles, ípsilones, dáblius, é sempre bom soletrar o nome, letra por letra. Outro dia presenciei uma mulher perguntando como se escrevia José, para um simples José. Sei lá, vai ver que a grafia era Josepph.

Todo ano, quando sai a lista dos aprovados no vestibular da Fuvest, eu me divirto com os nomes. Primeiro, vou ver se tem algum Alberto, nome raro hoje em dia. Quando tem dois, é muito. O que mais me chama a atenção são os nomes da moda. Esse ano, eram duas páginas inteiras só de Bernardo.

Não faz muito tempo, passei por um grande susto. Postei uma crítica a TV Globo no Facebook, por ela não ter noticiado que o Ministério Público Federal autorizou o verdadeiro dono do sítio de Atibaia, o empresário Fernando Bittar, a vender aquele polêmico pedaço de terra.

Dois minutos depois, veio o primeiro comentário, me chamando de traidor, canalha, filho da puta, bandido, além de afirmar que eu era um dos responsáveis pelo golpe de 2016. “Você é pior do que a Veja e a Globo, juntas”, esbravejou minha amiga oculta do Face. Fiquei assustado, decepcionado, branco feito uma cera. O desaforo vinha ainda com um complemento: “Você que espalhava fake news sobre o PT, agora vem defender o Lula? Safado!”

Foram dois minutos de perplexidade, tempo necessário para chegar um inbox: “Desculpe, Alberto Villas, eu confundi o senhor com o comentarista Marco Antônio Villa, que foi demitido recentemente da Jovem Pan.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AQUI JAZ

Lá dentro, por detrás do tapume, havia uma espécie de vida. Não havia um dia sequer que, quando passava por ali, não entrasse. Antes de colocar os pés ali dentro, costumava passar os olhos na vitrine, ver as novidades. Havia sempre algumas surpresas. Foi ali que participei da festa de lançamento do  Livro do Jô, das 101 Atrações de TV que o Brasil sintonizou,  da Patricia Kogut, foi ali que comprei A guerra do porco, do Adolfo Bioy Casares, Caminhando contra o vento, de Igiaba Scego, a biografia do Marighela, os poemas de Pasolini e tantos outros livros. Não era a minha livraria preferida, faltava um pouco o charme da Travessa e o feitiço da Vila, mas estava sempre por ali. Ia até o fundo folhear as revistas, comprar a Quatro Cinco Um, ver as capas da Vogue francesa,  americana, espanhola e portuguesa. Muitas vezes comprava a Rolling Stone, a Bravo, aVida Simples e Saúde é Vital. Nunca deixava de subir a escada rolante para ver os CDs e os vinis. Foi lá que, não sei como, achei o War Zone, da Yoko Ono. Paguei uma fábula, mas levei. Era aqui ali que havia uma passagem meio secreta para chegar ao restaurante Modi. A gente não queria só diversão e arte, a gente queria também comida e no Modi, a polenta de funghi em panelinhas, é imbatível. Ontem passei por lá e trombei num tapume preto e branco anunciando, para breve, mais um restaurante no lugar da livraria. Engoli em seco e sai sem dar um piu.

AV

 

COMO VAI MINHA ALDEIA?

Há um ano, chegávamos de mala e cuia na aldeia de Vryses, no Peloponeso, dispostos a passar uma temporada. Conhecia o Peloponeso dos livros de Geografia, do Atlas Mundial Melhoramentos e das arguições que os Irmãos Maristas nos submetiam nos finais de mês.

Agora estava ali, em pleno Peloponeso, pisando nele, sentindo o calor do sol grego, o cheiro de frutas, alfazema e lavanda.

Subimos de carro, bem devagarinho, durante quinze minutos, uma montanha cheia de curvas até chegarmos a casinha onde moraríamos.

Fomos recebidos com champanhe e flores. Uma salada de tomates maduros, azeitonas pretas e queijo feta, tudo regado ao melhor azeite do mundo. Flores secas espalhadas pelos cômodos, muitas frutas na fruteira, iogurte natural e ovos caipira no balaio.

Aquilo era a mais perfeita tradução da Grécia, sem tirar nem por.

Na primeira manhã, saímos para conhecer a aldeia e alguns moradores. Colhemos flores amarelas e nos deparamos com árvores frutíferas carregadas de damascos, limões sicilianos, maçãs, peras, uvas, figos quase maduros e as primeira cerejas.

O dia terminou com um por do sol vermelho e deslumbrante, lá embaixo mergulhando no mar Egeu.

Vryses tem pouco mais de setenta habitantes, todos gregos, quase todos idosos e que falam uma única língua, aquela que costumamos brincar.

– Você acha que estou falando grego?

Aos poucos, fomos conhecendo seus moradores. Tia Margaritae, no auge dos seus 90 anos, de olho em toda a aldeia, na vida que cada um leva. Dimitre, o professor de física que passa bom tempo do dia em seu escritório transbordando de livros de filosofia, um olho em Kant, outro no computador com as imagens de oito câmeras espalhadas por seu latifúndio. Nunca entrou um ladrão ali. Mas na tela dá pra ver formigas levando folhas para dentro do formigueiro.

Vick, mulher do professor, que nos serviu um café grego autêntico, acompanhado de biscoitinhos que ela mesmo amassa a massa e coloca no forno.

Tio Fux, que não me lembro o nome, mas que ganhou esse apelido devido a aparência com o juiz do STF, com aquele topete suntuoso e um charme de Zé Bonitinho. Conhecemos tio Fux montado numa motocicleta Jawa empoeirada, com cara dos anos 1960.

Conhecemos os donos do Café do Moinho com sua horta orgânica, seus petiscos deslumbrantes e um chá dos deuses.

Conhecemos Heleni, a dona do restaurante onde os velhos amigos passam a tarde tomando café gelado e contando as novidades de Vryses. Ela nos serviu tzazik e um cabrito que estava desfiando no prato, com temperos locais, de comer de joelhos.

Conhecemos pessoas que não ficamos sabendo o nome, pessoas que nos ofereciam pepinos, cebolas e verduras no meio do caminho, enquanto caminhávamos para conhecer a plantação de oliveiras.

Em um mês em Vryses, peguei várias vezes na enxada para tirar o mato que cresce sem parar na redondeza da casa, pintei a calçada com cal branco, em desenhos à moda grega, colhi figos agora maduros e derretendo das mãos, escrevi algumas páginas do meu novo livro, roubei internet do vizinho e fiz uma salada de celeri, como os franceses.

Colhi limões pra temperar a salada, damascos com uma cestinha de pescar, fotografei o que via de bonito e pequei tomando uma Fanta Goiaba, mesmo sabendo do teor de açúcar. Andei quilômetros a pé, tomei banho no Mar Egeu, comi muito souvlaki, muito gyros, tomei muita cerveja Mythos, muita cerveja Alfa e sonhei muito.

Um dia voltei pra São Paulo e hoje estou aqui em meio a automóveis, engarrafamentos, fumaça e motocicletas. Mas o sonho ainda não acabou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PÃO NOSSO DE CADA DIA

foto ac espilotro

Todo dono de padaria era português, chamava-se Manuel, mesmo que não fosse Manuel, e andava sempre com um avental meio sujo de farinha, um casquete na cabeça e um lápis atrás da orelha. A padaria vendia pão e leite e geralmente quem entrava ali, desconhecia o plural.

– Um litro de leite e quatro pãozinho.

A padaria era simples e vendia dois tipos de pão, o de sal e o doce. Em Minas Gerais, lembro-me bem, as pessoas chegavam e pediam “eu quero um pão de sal”! Pão de sal era um pão enorme, meio quilo, que seu Manoel embrulhava num papel cinza, que era chamado de papel de pão.

No fim da vida, meu avô ficou meio pão duro e costumava cortar o papel de pão em quadradinhos pra fazer de papel higiênico, porque achava o Tico-Tico caro demais.

O pão doce era um luxo, não era o pão nosso de cada dia, acho que na minha casa só tinha pão doce em ocasiões especiais, quando vinha uma visita, uma tia mais cerimoniosa. Ele era delicioso, o pão doce. Vinha com açúcar cristal por cima e aquele miolo molinho. Tão gostoso, que o Carlos Sandroni fez uma canção pra ele e Adriana Calcanhoto gravou.

Não adianta mentir pra mim mesma

Ficar me enganando, tentando dizer

Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce

Porque por mais que eu queira esconder

A verdade é que eu adorava pão doce

Não podia passar sem pão doce

Bastava ver padaria, que logo eu ia, que logo eu ia

Comprar

No Natal, as padarias vendiam também o pão pra rabanada. Ele era diferente, cheio de furinhos e só servia para rabanada. Pelo menos era o que dizia a minha mãe, cercada de cinco filhos, todos querendo tirar uma lasquinha daquele pão especial que só era vendido no mês de dezembro.

Quando abro os olhos hoje, fico encantado com as padarias, que os paulistas aqui chamam de padoca. Vendem de tudo. Além do pão, vendem frios, queijos, manteiga, refrigerantes, coxinhas, empadinhas, macarons, refrigerantes, sucos, geleias, vinhos e até Moët & Chandon.

A gente para uns minutinhos na padaria e fica só observando os clientes apontando pra vitrine e a mocinha explicando.

– Esse é de azeitona

– Esse é de laranja

– Esse é de castanha.

– De frutas secas

– De linguiça

– De azeite

– De presunto com catupiry

– De aveia, de milho, de centeio, integral, sem glúten, sírio, italiano, australiano, linhaça, batata, ciabata, preto… é pão que não acaba mais.

Na padaria do seu Manuel, quem trabalhava era o seu Manuel, a mulher do seu Manuel e o filho de seu Manuel. Hoje, são dezenas de mocinhos e mocinhas uniformizadas, especialistas em pães, queijos, frios e geleias. Tem uma aqui perto de casa que contratou um sommelier que te ensina como harmonizar o vinho com os queijos e os pães.

Queijo? Foi bom ter falado em queijo. Se no meu tempo de criança só tinha o queijo Minas e o queijo prato, hoje são dezenas e dezenas.

Camembert, Brie, Gorgonzola, Mozzarella, de búfala, Gruyère, Edam, Gouda, Feta, Provolone, Roquefort, Cottage, Mascarpone, Ricota, Meia Cura… mas essa é uma outra história que conto depois.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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UM DIA QUALQUER

Folheando o livro 1001 dias que abalaram o mundo, me veio à cabeça os dias que não abalaram o mundo, dias quaisquer que costumamos dizer que passaram em branco.

Em 1992, a redação da revista semanal de informação francesa Le Nouvel Observateur, que todos chamam carinhosamente de Nouvel L’Obs, começou a pensar nos trinta anos que a revista faria em 1994. Dois anos antes, numa reunião de pauta, mais precisamente em junho de 1992, foi convocada uma reunião para pensar número especial de aniversário.

No meio da reunião, alguém teve uma ideia brilhante.

A ideia era a seguinte: pedir a escritores de todas as partes do mundo para fazer o relato de um dia qualquer escolhido pela redação. Imediatamente, aqueles especialistas em derrubar pautas colocaram inúmeras pedras no caminho.

Como escolher os escritores?

Como entrar em contato com todos eles?

Vocês acham que eles vão responder?

Como vão nos enviar os textos?

Numa época sem internet, o único meio de enviar o pedido a eles era através de carta ou telegrama, mas por telegrama seria difícil, em poucas palavras, explicar o objetivo. Apesar dos pessimistas, a ideia foi adiante. Uma equipe formada pela direção da revista começou a fazer a lista dos escritores, enquanto outros buscavam os contatos. A carta para eles foi padrão. Resumindo: Escreva como você viu o dia 29 de abril de 1994.

Cartas foram disparadas para a América do Norte, para a América do Sul, América Central, Europa, Ásia, Oceania e Oriente Médio.

O entusiasmo na redação da Nouvel L’Obs era grande quando pensaram que os escritores, naquele momento, estavam começando a receber o pedido.

Thanassis Valtinos, na Grécia, Ryôtarô Shiba, no Japão, Lu Wenfu, na China, Putu Wijaya, na Indonésia, Gamal Al Ghitany, no Egito, Pierre Mertens, na Bélgica, Amoz Oz, em Israel, Ernesto Sábato, na Argentina, Václav Ravel, na República Checa, Daniel Boulanger, na França, Salman Rushdie, na Inglaterra, Kitia Touré, da Costa do Marfim, Osvaldo Soriano, na Argentina e tantos outros.

Para o Brasil, seguiram três cartas. Uma para o escritor baiano Jorge Amado, uma pra o mineiro Autran Dourado e uma terceira para o gaúcho Moacyr Scliar.

Passaram-se alguns dias, meses, mais de ano. Quando o dia 29 de abril de 1994 chegou, a redação da Nouvel L’Obs não cabia em si. Era hoje, uma sexta-feira, o dia escolhido para os escritores colocarem no papel os seus relatos.

Será que vai dar certo?

Será que estão lembrando?

O que vão escrever?

O dia passou sereno, nada aconteceu que abalasse o mundo naquele 29 de abril de 1994. Agora restava esperar os envelopes chegar.

E chegaram. Muitos logo no início de maio, alguns em envelopes pardos, outros em envelopes com as cores das bandeiras dos países e selos maravilhosos. Na data prevista, lá estavam os 240 envelopes, três deles eram verdes e amarelos.

Foi uma leitura atenta e minuciosa. Os primeiros relatos eram bem pessoais.

“Nesse dia, eu sai da cama às sete horas da manhã, onde dormi em Sidney com o amor da minha vida”, começou o seu relato o escritor australiano Frank Moorhouse.

“Abri a cortina e o sol iluminou o meu leito”, escreveu na primeira linha o japonês Junuchi Saga.

“Oito horas da manhã. Aqui é o Irã. Estou no meu pequeno apartamento em Teerã”, contou o escritor iraniano Ramin Jahan Begloo.

‘Meu dia começou às quatro horas da madrugada e só terminou por volta de onze da noite, como de costume, aqui em Brazzaville. Estou nesse Congo podre, nessa África podre, mas me pergunto se não é o mundo inteiro que está podre”, desabafou o congolês Labou Tansi.

“Acordei em Madri e o telefone não me dá sossego”, foram as primeiras palavras do colombiano Gabriel García Márquez.

“Como todos os dias, acordei disputando o jornal com Helena. Ela só toma o café da manhã lendo as notícias. Um dia, ela me disse: Quando eu morrer, não coloque flores no meu túmulo. Coloque jornais”, foi o que disse o uruguaio Eduardo Galeano, ao iniciar o seu depoimento.

“Um dia comum em que não aconteceu nada de extraordinário”. O norte-americano Norman Mailer foi super sincero.

Jorge Amado começou assim: “As emoções do 29 de abril de 1994 começaram no dia anterior, quando visitamos o Axé Opo Afonjá, um dos terreiros de candomblé mais importantes do Brasil”.

Autran Dourado não dormiu à noite: “Acordei várias vezes durante a madrugada, ansioso porque teria de escrever o que aconteceu hoje”.

Os primeiros relatos foram bem pessoais, mas muitos escritores procuraram fugir do narcisismo nostálgico e escreveram contos extraordinários, alguns com um pé no realismo fantástico.

Com aquela montanha de cartas guardadas a sete chaves, os editores começaram a colocar ordem, separando cada depoimento por região do Planeta Terra. A edição demorou um mês para ficar pronta e o resultado foi um número especial de 282 páginas: 240 Escritores contam como foi um dia no mundo.

Nessa tarde ensolarada de maio, me veio na cabeça, a ideia de pedir a alguns escritores brasileiros para contar como foi o primeiro de janeiro de 2023. Isso, se sobrevivermos até lá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AQUELE OUTRO MUNDO

Era um garoto que, como eu, amava passear pela cidade com os pais. Com o pai, a diversão era ir de bonde e parar na avenida principal, no ponto final, que todos chamavam de Abrigo do Bonde. Sair andando pelas sombras das árvores frondosas, chegar ao Café Pérola, onde ele tomava um cafezinho ralo com muito açúcar, numa xícara de porcelana com pires de alumínio. Enquanto o menino se lambuzava com um sorvex Kibon.

Com a mãe, era saborear uma banana split na lanchonete das Lojas Americanas, dar uma passadinha no Mundo Colegial para comprar uma sunga Big – aquela do macaco – que o capitão do time de futebol da rua exigia. Voltavam pra casa de táxi, dirigido por um chofer de camisa branca, paletó azul-marinho e boné.

O menino foi crescendo e, apaixonado por discos, livros e revistas, já ia sozinho ao centro da cidade, de lotação, que também parava na avenida principal de uma cidade que fazia jus ao nome e se chamava Belo Horizonte. Todos os caminhos levavam à avenida principal e era ali, perto da agência central do Correio – que ainda não era no plural – onde ficavam as Lojas Gomes, a melhor e mais sortida loja de discos da cidade.

Foi na vitrine das Lojas Gomes que o menino viu pela primeira vez a capa do disco do Chico, aquele com duas fotos, uma Chico sério, outra Chico sorrindo. Viu também o disco Domingo, do Caetano e da Gal, o Louvação, do Gil, e o Travessia, do Milton.

O menino passava horas dentro daquela loja vasculhando vinil por vinil. Ainda não havia reggae, rap ou funk por ali. Ele se distraia com os discos de música popular brasileira, dava uma passada na sala de música clássica, onde se ouvia baixinho o concerto de Brandemburgo, de Johann Sebastian Bach, até chegar bem no fundo onde ficava os discos de jazz. Pedia ao vendedor para colocar Louis Armstrong, apaixonado que era por ele.

O menino ficava ali fingindo que estava escolhendo um disco da Mahalia Jackson, do Dizzy Gillespie, do Charles Mingus ou do Thelonious Monk, só pra ficar ouvindo Armstrong cantando High Society.

O menino saia da Lojas Gomes nas nuvens, às vezes sem comprar nada porque o dinheiro era curto e seguia seu caminho, parando de banca em banca.

Enquanto as pessoas liam as primeiras páginas dos jornais dependuradas com pregadores de roupa, o menino observava as novidades. Se encantava com aquelas mulheres lindas na capa da Manchete, com uma abelha pousada numa flor na capa da Enciclopédia Bloch, com Ronnie Von na capa da Intervalo e Maria Thereza Goulart maravilhosa na capa da O Cruzeiro, enquanto Dina Sfat ficava escondida por um plástico opaco na capa da Fairplay. Sonhava em ter todos aqueles fascículos dos Gênios da Pintura, da Ciência Ilustrada, da Bíblia mais Bela do Mundo e da Medicina e Saúde. Queria conhecer tudo.

Por fim, a livraria. Foi numa bem antiga do centro da cidade que o menino descobriu as obras completas de Monteiro Lobato, que comprou O meu pé de Laranja Lima, que folheou Ulisses, de James Joyce, que se encantou com o Flicts, de Ziraldo, e descobriu o plano de voo de Saint Éxupery.

O menino foi crescendo, começou a ganhar dinheiro trabalhando num laboratório de defesa vegetal e, com o pouco dinheiro que ganhava, só comprava livros, discos e revistas porque não pagava aluguel, não ia ao supermercado, não tinha carnês para pagar.

A casa do menino foi ficando cheia e quase transbordando de tanto disco, de tanto livro, de tantas revistas. Mas ele não se desfazia de nada, daqueles livros de marxismo que comprou aos dezoito anos, dos Irmãos Karamazov, de Dostoievski que nunca leu, do Agonia e Êxtase, do Irving Stone, Eram os Deuses Astronautas, do Erich Von Däniken, O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, de nada.

Ele também não conseguiu se desfazer das revistas Realidade, Senhor, Rolling Stone, Escrita, José, Ficção, Inéditos, Circus, A Pomba, do Verbo Encantado, nem mesmo das revistinhas do Mickey, do Pato Donald, do Zé Carioca, do Bolinha, da Luluzinha, do Manda Chuva, dos Jetsons e dos Flintstones.

O menino ficou velho e hoje não tem onde cair morto. Vive rodeado dessas lembranças que cobrem doze paredes de sua casa, que exalam um leve cheiro de mofo e um som de Peter, Paul and Mary.

De uns tempos pra cá, caiu a ficha do velho. Tudo isso ao seu redor é apenas o princípio do prazer, porque prazer mesmo ele tem ultimamente, quando está sentado em seu computador baixando os discos Mal dos Trópicos, do Tiago Pethit, Matriz, da Pitty, Viver, do Marcelo Falcão, Transpyra, do Felipe Cordeiro, Desastre Solar, da Laura Lavieri e Bluesman, do Baco Exu do Blues.

Mas, o velho não passa um dia sequer sem levantar a bunda da cadeira e ir até a vitrola pra ouvir, ainda em vinil, um velho disco do baiano João Gilberto chamado Chega de Saudade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O MUNDO DA CRIANÇA

Filho pequeno não é fácil. Quando o meu primeiro nasceu, eu jurava que nunca deixaria o pobrezinho levar um tombo, bater a cabeça na quina da mesa, escorregar no box do banheiro, brigar na escola, chorar. Bobagem, Julião já passou dos quarenta anos e guarda até hoje algumas cicatrizes pelo corpo, de tantos tombos que tomou, esperto que era. Correndo de meia pela casa, foi o mais grave. Nove pontos na testa. Mas virou um homem inteiro, ético, bacana.

Riponga em Paris, não deixava ele ver televisão – o ópio do povo – tomar Coca-Cola – produto do imperialismo – ou comer qualquer coisa industrializada que tivesse acidulante, corante, emulsificante ou coisa parecida. A carne, a gente substituía pela soja, o chocolate por uma mistura de cereais e o refrigerante pelo suco de pamplemouse, espremido com as mãos e sem açúcar. Fui assim uma espécie de Bela Gil do século passado.

Veio a segunda, a Sara, e a história começou a mudar. Ela chorava, batia a cabeça na quina da mesa, escorregava pela casa andando de meia, adorava escalar o vão da porta, tomava chuva e vento encanado. E eu não achava assim tão grave, ficava menos aflito. Aprendi que criança precisa chorar, cair, tomar chuva, se defender.

Maria Clara, a terceira, foi mais tranquilo ainda. Eu já tinha passado dos 40 anos e via a vida com outros olhos. Ela cortou o dedo numa lata de leite Ninho, deu pontos, tomou antitetânico e a vida continuou. Mas repito, filho pequeno não é fácil. Nunca me esqueço dos banhos quase frios no meio da madrugada pra baixar a febre, as compressas e as idas ao Pronto-Socorro do Samaritano com a menininha fazendo corpo mole de verdade.

Marília, a quarta, seguiu a mesma linha. Febre, dedinho cortado brincando com a bicicleta de cabeça pra baixo e uma história engraçada pra contar. Ela, pequenininha, seis meses, precisava de uma foto pro passaporte. E lá fomos nós numa maquina de tirar fotos 5X7. Enquanto a mãe colocava as moedas e apertava o botão, eu segurava a menina, tentando focá-la na tela. Quando a foto saiu naquele buraquinho de vento, lá estava ela de corpo inteiro numa foto 5X7, que a Polícia Federal não aceitou, claro.

Mas eu vim aqui pra falar de comida. Hoje, a moda é deixar a criança comer do jeito que ela quiser. Os pais modernos abandonaram definitivamente a papinha, o amassadinho, a colherzinha, aquele papo furado de abre o bocão ou olha o aviãozinho.

O negócio agora é entregar pro bebê a comida em sua forma mais natural possível. Beterraba, batata, cenoura, abobrinha, mandioquinha, para que ela sinta a consistência, a textura e o sabor de cada alimento. Tenho visto bebê brigando com uma manga inteira, sem dentes tentando morder uma maçã e outros lutando para chupar uma laranja cortada ao meio. É divertido, principalmente pra quem já tem quatro filhos criados.

Lembro-me bem que aquele ritual de cozinhar os legumes, cozinhar o ovo e separar a gema e depois passar tudo no liquidificador. Era um trabalhão danado. Depois, ainda tinha de acrescentar uma manteiguinha, esperar esfriar um pouco, sentar o bebê na cadeirinha e começar aquela novela diária de fazê-lo comer.

Que eu me lembre, Sara era a mais rebeldezinha dos quatro, às vezes cuspia a comida na primeira aterrisagem do aviãozinho e achava graça. Cansamos, então ela acabou sendo pioneira em provar os alimentos separados. Lembro-me bem que ela se apaixonou pelo limão, que chupava como se fosse um pirulito e sem fazer careta.

Quarenta anos atrás, em pleno 1979, a gente resolveu deixar que ela comesse sozinha. E foi assim. Hoje, ela cuida muito bem do meu neto Raul, é uma dedicada professora de História e que, pequeninha, comia até mesmo um chuchu cozido com gostinho de tênis Conga e sem fazer cara feia. A foto acima não me deixa mentir.

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foto Alberto Villas

 

ERA DOMINGO

O dia vermelho no calendário era o dia de se deliciar com aqueles jornalões

 

Num dia desses eu me lembrei de um cartum do Millôr Fernandes em que ele abre a porta da sua casa e quando vê o Estadão de domingo jogado em cima do capacho, exclama:

– Meu Deus, o que aconteceu ontem em São Paulo?

Era assim, os jornais de domingo pesavam uns cinco quilos e tinham quase trezentas páginas e não sei quantos cadernos, suplementos e revistas, sem contar aqueles cadernos que eram só publicidade. Era leitura pra semana inteira.

O barato, às vezes, era comprar os jornalões no final da tarde do sábado, saindo do forno, ainda quentes, manchando nossas mãos de tinta.

Mas ler mesmo, era no domingo à tarde. A gente deitava na rede, levava aquele calhamaço junto e começava a colocar os cadernos em ordem, jogando no chão uns dois quilos de classificados. Eram uns cinco minutos que durava essa operação.

Esses classificados no chão, deixávamos pra espiar depois, mais tarde, com calma. Dávamos uma olhada, mesmo que não estivéssemos procurando um apartamento pra alugar, uma casa pra comprar, um carro velho pra trocar. Mesmo que não estivéssemos atrás de um emprego de almoxarife, de escrevente datilógrafo ou estenodatilógrafo.

Procurando com calma, a gente encontrava de tudo naqueles páginas: uma máquina de costura Singer, uma máquina de escrever IBM de bolinha, uma geladeira Kelvinator vermelha ou uma televisão Colorado RQ.

Mesmo sendo um jornalão conservador, uma gostosa, 18 aninhos, iniciante, se oferecia por ali.

Tinha o primeiro caderno, o de Política Nacional, Internacional, o caderno de Economia, o caderno de Esportes, o caderno de Variedades, o caderno de Cidades, o suplemento Feminino, o suplemento Agrícola, o de Turismo, o de Literatura, o de Cultura, a Folhinha, o Globinho, o Estadinho, o Gurilândia.

A Folha tinha a revista São Paulo, já teve a Folha D, já teve o Mais!, o Folhateen, o Folha Viva, o Folhetim, o Ciência, o Sinapse, o Agrícola, a Folhinha, o Equilíbrio e até o resumo traduzido do The New York Times.

A gente ficava ali na rede até o dia escurecer, lendo quase tudo. Líamos até mesmo aqueles artigos traduzidos que forravam os classificados do Estadão, os textões de Raymond Aron e aquele caderno Cultura que perguntava na capa: Por que ler Tocqueville hoje?

Os jornais eram mesmo enormes, pesados, e quando a gente saia da rede pra ir até a geladeira pegar uma Coca já meio choca, vinha aquela dor de consciência: Meu Deus, faltou tanta coisa pra ler.

Ler os jornais de domingo era um prazer que não tinha preço. No final do dia, era aquela preguiça, aquela jornalada esparramada pelo chão, algumas páginas dobradas, amassadas, pisadas e até recortadas.

Era pauta que não acabava mais. Os repórteres saiam às ruas durante a semana, muitas vezes sem um assunto definido. Nos becos, nos mercados, nos ônibus, descobriam histórias extraordinárias que eram bancadas pelo editor-chefe que ia bolando, durante a semana, a edição de domingo.

Oito horas, vinha o show da vida, aquela mulher linda e colorida saindo da água, o humor de Chico Anísio, as reportagens assustadoras do Hélio Costa, os clipes do Raul Seixas, a zebrinha anunciando o resultado da Loteria Esportiva, o Mister M e os gols do Fantástico.

E depois, vinha aquele bode. Aquela música anunciando que o domingo estava acabando e a gente ali comendo um resto de macarronada esquentada com a Coca já totalmente choca, a certeza que o dia seguinte era segunda-feira.

O único consolo era saber que, na segunda, tinha o caderno de Esportes, com as tabelas atualizadas de todos os campeonatos estaduais e internacionais, aquelas fotos maravilhosas que lembravam o Canal 100, aquela radiofoto da bandeirada final da fórmula 1, as barbadas do turfe e a última página com a seção Penalty, de Otelo. Adorava recortar o Diploma de Sofredor e entregar pro chefe na firma, logo cedo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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