A GREVE

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando  que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada. Fechada por quê? Perguntou uma senhora! Manifestação! Greve! respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Eles não têm o que fazer? Todos tinham suas opiniões. mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve nem queria saber. Um último arriscou dizer “Porque não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angelica à pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava. Os resmungos continuaram por algum tempo. Na noite de ontem,todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente, informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava. O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso ai. Não sei se entenderiam.Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia. (AV)

PAÍS DO MERDA

Eles não batem mais panelas, não vestem uma camisa amarela, alguns estão com o rabo entre as pernas. Outros, que nem a velhinha de Taubaté, pedem a orquestra para não parar. Afundam juntos. O nosso Brasil virou um país qualquer, uma nau sem rumo. Uns insistem que a reforma da Previdência será a tauba de salvação, vai acabar com o desemprego, como a reforma trabalhista acabou. Somos apenas 14 milhões sem ação, pra frente Brasil, salve a seleção. Acordamos e, ao invés de procurar nos jornais o que aconteceu de bom, procuramos a merda que o presidente falou ontem. Todo dia tem uma, senão duas ou três. Já daria pra escrever um livro avesso dos pensamentos, pensando bem, estou sendo muito bonzinho de chamar o que ele fala de pensamento. O país sem importância alguma vai se vendendo, vai derretendo a cultura, nem mais bonito por natureza vai ser mais. Triste Brasil, o quão desemelhante. Ninguém sabe e todos perguntam até quando ele aguenta. Oh, céus, onde estão as famosas Creusets? Onde foram parar os pixulecos murchos? Onde foram parar os adesivos fora Dilma e leve o pt junto? Ou aquele pato amarelo.O país envergonhado chegou à beira do abismo. Sete meses já se passaram. Daqui a pouco oito, e nove. O que vamos fazer no nono mês? Gritar puta que o pariu?             (AV)

CARTA ABERTA AO CRONISTA ANTONIO PRATA

Quisera eu esquecer o B, esquecer de vez, pra nunca mais. Quisera eu acordar de manhã, pisar na Folha sobre o capacho, ignorar O Globo na caixa de cartas, sequer piscar pro Estadão. Ir direto pra rede que tem na varanda da minha casa, pegar a Visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ler as últimas doze páginas que ainda me restam.

Quisera eu ignorar as frases imbecis do B, observar o crescimento das couves, do alecrim, da sálvia e do tomilho limão que plantei na hortinha que temos aqui. Esperar o beija-flor que chega voando toda manhã, já sugando a água com açúcar que pinga do bebedouro, me olhando desconfiado, partiu!

Quisera eu não ver mais nem a fotografia asquerosa do B, escolher um entre os muitos discos organizados em caixotes da Tok Stok no chão do meu escritório. Pegar o Domingo, passar uma flanela no vinil e ouvir Caetano cantando que menina é aquela que entrou na roda agora, ela tem um remelexo que valha-me Deus Nossa Senhora.

Quisera eu nem mais pensar no B, deixar os dias passarem devagar numa operação tartaruga, com tempo para ir até a cozinha e preparar um café de cápsula, adoçar só com um pouquinho de açúcar, contrariando os conselhos que o doutor Drauzio Varella me dava quando eu trabalhava no show da vida.

Quisera eu não ouvir mais ninguém falar do B, ter tempo de escolher o próximo livro, Os anos felizes, o diário de Emilio Renzi e confessar minha paixão por Ricardo Piglia. Ter tempo de pegar o iPhone e ligar pra Travessa do IMS pra saber se o número de agosto da Quatro Cinco Um já chegou.

Quisera eu ao menos uma vez, não ligar a televisão no Jornal Nacional às oito e meia em ponto, passar batido sem notícias do B, mudar de canal, ver o Decora, o Perto do Fogo, ver aquela receita de chuchu ao forno da Rita Lobo, no GNT.

Quisera eu nunca mais ouvir a voz do B, ter tempo e tranquilidade para dobrar bem dobradas minhas camisetas, tirar as bolinhas das blusas de lã e enrolar minhas meias coloridas arrumando-as numa cestinha de ferro que comprei faz tempo na Etna.

Quisera eu esquecer de vez o B, preparar o meu almoço, uma moqueca de cação comprado no Mercado da Lapa, jogar o leite de coco, picar a cebola, o tomate e o pimentão. Esparramar por cima o coentro, porque eu gosto mesmo é de comer com coentro, eu gosto mesmo é de estar por dentro.

Quisera eu deletar os B do Twitter pra não ter mais notícias do zero um, do zero dois, do zero três, quiçá do zero à esquerda. Pegar a bola de couro e descer até a quadra pra jogar um bolão com o João Trindade, craque do Colégio Ofélia Fonseca.

Quisera eu ignorar o B, percorrer correndo corredores em silêncio, perder as paredes aparentes do edifício, penetrar no labirinto, um labirinto de labirintos dentro do apartamento.

Quisera eu não pronunciar mais o nome do B, pegar o primeiro avião com destino a felicidade, pousar em Maceió, seguir até São Miguel dos Milagres, comer uma tapioca, provar da água salgada do mar morno e perguntar de quem é esse jegue?

Quisera eu, Antonio Prata, poder ler os originais da biografia do Drummond que, sei, está sendo escrita, chutar a pedra no caminho, já que a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E para aquele que é sem nome, que zomba dos outros, aquele que faz versos, que ama, protesta, perguntar: E agora, José?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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7 MESES E 3 HISTÓRIAS

A besta humana

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios Apesar de Você.

A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tchauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia.

A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedista.

A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

A CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação.

O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento.

Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol.

O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama o WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

O porta-voz

O porta-voz tem carta de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos.

Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar.

Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava.

Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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FAKE NEWS

Acabo de ler no Libération que tossir sem parar, quando você sente pontadas no coração, não evita ataque cardíaco. Sim, de repente, no primeiro sintoma – ou não – de um enfarte, os franceses começaram a tossir sem parar. A reportagem do Libération, no entanto, alerta que se trata de uma fake news.

Esqueça! Quando sentir aquela primeira pontadinha no peito, não adianta nada sair tossindo por aí.

Nos últimos tempos, não está nada fácil ler jornais e revistas e separar o que é verdade do que é mentira. A gente desconfia de tudo, inclusive da capa da Veja com essa história dos terroristas brazucas de um grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre.

Nas redes sociais, a gente fica com um pé atrás até mesmo com fotos. É só bater os olhos numa que vem logo aquela dúvida: não seria montagem?

Hoje fiquei sabendo:

É falso que abrir perfume com o ar-condicionado ligado provoca incêndio dentro do carro.

É falso que vídeo mostra deputado que chamou Moro de ladrão colocando dinheiro na cueca.

É falso que Padre Marcelo foi empurrado após atacar mulheres.

É falso que haja mais de 400 casos de doença causada pelo consumo de tucunaré no Brasil.

Fake news sempre existiram, mas não com esse nome, aqui no Brasil. Quem será que espalhou, um dia, que manga com leite faz mal? E olha que não tinha rede social pra gente compartilhar e multiplicar por vinte mil essa história.

De boca em boca, silenciosamente, alguém colocou na cabeça do brasileiro que manga com leite faz mal. Faz mal, não. Mata! Ninguém nesse pedação de terra tinha coragem de arrancar a fruta do pé e misturar com o leitinho da vaca que pastava sossegada no campo. A não ser um amigo meu que, rebeldezinho que era, aos seis anos de idade fez um coquetel de leite com manga, deixando todos na casa desesperados.

De meia em meia hora, o menino dizia: “Já passou uma hora eu ainda não morri, já passou uma hora e meia e eu não morri, já passaram duas horas e eu ainda não morri”. E a família, enlouquecida, esperando ele bater as botinhas a qualquer momento.

Esse meu amigo nunca morreu e já passou dos setenta.

Mas não era só de manga com leite que viviam as fake news do passado. Minha mãe, por exemplo, colocou na cabeça dos cinco filhos que sair do banho e pisar fora do tapete, no chão frio, entortava a boca. Quando ela via um de nós correndo do banheiro pro quarto, depois do banho, descalço, gritava:

– Você vai ficar que nem seu Moacir!

Seu Moacir era um homem esbelto, dois metros de altura, que trabalhava no Serviço de Meteorologia com o meu pai. E tinha boca torta. Ele era muito engraçado, mas nunca tivemos coragem de perguntar por que tinha a boca torta. Minha mãe jurava que era porque pisou no chão frio ao sair do banho, na sua casa lá no bairro da Ressaca.

E quando a gente brincava de ficar vesgo? Adorávamos juntar os dois olhos, quando a mãe da gente aparecia e dizia:

– Não faz isso porque, se bater um vento, você fica caolho pro resto da vida!

Tudo fake news!

E não eram poucas. Eu acreditava que as pessoas têm aquelas manchas roxas no rosto porque a mãe tomou vinho durante a gravidez. Fake news!

Quantos dentes de leite eu não coloquei debaixo do travesseiro, quantos dentes de leite eu não joguei no telhado, esperando a fadinha trazer uma grana boa pra mim?

Quantas noites de Natal eu não fiquei segurando os olhos com os dedos pra eles não fecharem, esperando Papai Noel chegar?

Tudo fake news!

Algumas fake news acabam caindo por terra, desmoralizadas. Mas outras não, elas sobrevivem anos e anos. Ontem, por exemplo, ouvi de um motorista de Uber, que jurou de pés juntos, que o filho do Lula é dono da Friboi.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

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O ELEITOR TÍPICO

O eleitor típico é aquele que dizia, em outubro passado, “qualquer um, menos o PT”. O eleitor típico é aquele que votou em qualquer um. E hoje, mesmo sem dar uma avestruz, acha que tudo vai bem como dois dois e dois são cinco. Ele defende o porte de arma para proteger os seus bens, mesmo sem saber dar um tiro, mesmo sem ter bens. Ele torce para ser entrevistado pelo Datafolha pra cravar “bom ou ótimo”. Não se interessa muito pelo desmonte do país, acredita piamente no Messias, gosta do jeitão dele, da maneira popular como diz “paraíba”, como diz que tem governador “sacaneando” ele. O eleitor típico não está nem aí pra liberação de agrotóxicos, pro fim da Ancine, pros 48 envelopes com dois mil cruzeiros em cada um, pra quem vai ser o embaixador do Brasil nos States, onde está o Queiroz ou quem matou Marielle.  Não se importa se temos uma doida varrida num ministério ou um posto Ipiranga em outro. Se o ministro do Meio Ambiente quer cortar árvores ou se o ministro da Educação tem um português ruim. Ele ama de paixão o ex-juiz, é capaz de gastar todo o seu fôlego para encher com o seu ar o boneco inflável do agora ministro. Acredita em hackers e na organização criminosa que roubou os diálogos da Lava Jato. Está se lixando pro Intercept e nem cita Glenn Greenwald nos papos de botequim porque não sabe falar direito o nome do jornalista americano. O eleitor típico não vê problema no PIB negativo e nem se lembra que o Pib maior de Dilma era chamado de Pibinho. Ele acha que bandido bom é bandido morto e, mesmo sem saber direito onde fica a Venezuela e Cuba no mapa, ele gosta de mandar algumas pessoas pra lá, quando os parcos argumentos acabam. O eleitor típico ama fazer arminha com as mãos e agora chama a Veja, a Globo e a Folha de comunista. Ele sequer se deu o trabalho de olhar no Aurélio o significado de “viés” ou “nepotismo” e segue em frente, dando suas opiniões. Ele concorda com o o presidente eleito quando ele diz que o Brasil precisa produzir “filmes de heróis” e acha mesmo que aqui não tem faminto porque não tem esquelético. É a favor da reforma da Previdência e qualquer outra reforma que venha a ser proposta pelo político preocupado com o implante de cabelos. O eleitor típico  é isso e muito mais. Vou continuar, outro dia.

AV

 

EU NÃO FUI

Vivíamos uma confusão urbana, suburbana e rural naquele verão de 1969, quando começaram a chegar as primeiras fotografias, radiofotos rajadas mostrando kombis floridas, impalas conversíveis, camionetes estropiadas e gente a pé.

Com seus jeans desbotados, camisetas puídas, all stars maltrapilhos, jujus, balangandãs coloridos pelo corpo e sonhos na cabeça, o destino era uma fazenda perto de White Lake, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Ali, vacas leiteiras ruminavam fenos em 600 acres e debaixo de muito sol. A meteorologia prometia chuva naquele fim de semana, naqueles três dias de paz e música.

Um único anúncio no New York Times fez com as pessoas corressem às lojas de discos e comprassem, por um punhado de dólares, o direito de passar ali trinta e seis horas ouvindo Joe Cocker cantando With a Little Help From MyFriends, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Grateful Dead, The Who, Creedence Clearwater Revival, Santana, Crosby, Stills, Nash & Young.

O estado de calamidade pública foi decretado quando mais de 500 mil pessoas já estavam ali reunidas, envoltas em cobertores e muita lama, banhos de rios, algumas nuas, como se fosse uma grande balbúrdia

Com os cabelos desgrenhados, os corpos e as mentes brilhantes, os hippies já tinham se espalhado pelo mundo, falando como quê de língua de fogo para que todos entendessem como é viver como os passarinhos, livres, leves e soltos.

Eu já usava minhas calças vermelhas, meu casaco de general cheio de anéis. Já sonhava em ir descendo por todas as ruas, tomar aquele velho navio, eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus.

Eu não gostava do Alice Cooper e perguntava onde estava o meu rock and roll. Perdidamente apaixonado, ainda ouvia Márcio Greyck cantando Minha Menina.

E veio a chuva e vieram os relâmpagos, os trovões, quase tufões, e veio a lama, era a lama, era a lama. Depois chegaram as fotografias em branco e preto na Rolling Stone e coloridas na Life. E eu gastei o pouco dinheiro que tinha comprando essas revistas que guardo até hoje.

Um dia, voei para Amsterdã e, na Praça Dan, vi os últimos hippies curtindo os seus baratos ao som de Give Peace a Chance e All is Need is Love. Um dia cheguei a Copenhague e fui passar o dia fotografando Christiania, onde ainda havia um restinho de sonho, aquele que nunca acabou.

Hoje, eu sei que o futuro esperado que eu não dei, sei que é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais. Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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UM PUNHADO DE BALAS

19 horas e vinte minutos. Rua Martinico Prado, Higienópolis, São Paulo. Ontem, saia do trabalho em passos apertados, enfrentando o vento frio que vinha em sentido contrário. Poucas pessoas na rua, apenas  seguranças de restaurantes italianos, um morador de rua já se ajeitando na esquina de Sabará, onde mora, e carros passando. De repente, vem vindo ladeira abaixo, uma mocinha que não aparentava trinta anos, a Katia. Ela foi se aproximando de mim e falou:

– Boa noite!

– Desculpe, eu tenho vergonha, estou há quatro meses desempregada e agora estou fazendo esses saquinhos de doces pra vender na rua.

Ela abriu uma sacola bonita de pano e tirou lá de dentro um saquinho com algumas balas, dois pirulitos e um pacotinho de drágeas de eucalipto.

– É uma questão de sobrevivência, estou vendendo a 5 reais. Você pode me ajudar?

Perguntei a ela:

– Você tem uma profissão?

– Sim, sou publicitária e fui demitida por causa da crise.

Eu disse que ela jornalista e ela completou: “Cara, o que aconteceu com nossa profissão?”

Sorte que eu tinha o dinheiro no bolso e dei a ela.

Ela abriu um sorriso enorme, agradeceu muito e seguiu o seu caminho.

Enfiei o pacotinho na mochila e continuei caminhando. Não sei se emocionado, se triste, se profundamente triste ou alegre. O que ela vai comprar com aqueles 5 reais?

Mais uma vez, pensei, que país de merda esse em que vivemos.

AV

 

 

NO MUNDO DA LUA

Mil novecentos e sessenta e oito parecia um ano que não ia terminar, mas num piscar de olhos, já estávamos em julho de 1969. Já tínhamos chorado a morte de Cacilda Becker, nos espantado com o desaparecimento de Judy Garland aos 47 anos e nos revoltado com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

London! London!

Havia uma emoção e uma tristeza no ar. Estávamos há seis meses remoendo o Ato Institucional número 5, tempo de prisões, de censura e tortura, amigos sumindo pra nunca mais. Estávamos tristes.

A emoção ficava por conta de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins se preparando para pisar na Lua pela primeira vez, naquele julho de 1969.

Cely Campelo já tinha tomado banho de lua, ficado branca como a neve.

Ângela Maria cantava Lua, oh lua, querem te passar pra trás. Lua, oh lua, querem te roubar a paz. Lua que no céu flutua, lua que nos dá luar.

Olhando a lua através de uma luneta, eu vi Jorginho passeando de lambreta. Fazia curvas, na contramão, e na garupa quem ia era o dragão. A lua tinha virado marchinha de carnaval.

Eu me lembro direitinho, que alguns meses antes do 19 de julho, a revista Veja, dirigida por Mino Carta, começou a publicar fascículos da Conquista da Lua. Toda semana, eu lia com atenção, ia colecionando e a contagem regressiva para o último fascículo ia coincidir com o homem chegando lá.

Eu me lembro vagamente de ver as primeiras imagens na televisão, em preto e branco e muitos chuviscos, de Louis Armstrong pulando no solo da Lua e fincando a bandeira americana por lá.

Não se falava em fake news, mas a maioria dos meus tios e minhas tias não acreditavam naquilo que estavam vendo com os próprios olhos.

– Isso é cenário, disse tio Carlinhos!

– Isso não é possível, isso não é coisa de Deus, disse um de nossos vizinhos.

Dois dias depois, a revista Veja chegou às bancas com uma radiofoto dos americanos na lua: Chegaram! Estava escrito na capa.

A revista Manchete saiu com um número especial e, encartado, um mapa de mais de metro, da lua já loteada. Um espertalhão pegou o mapa e saiu vendendo terrenos na lua, dando a escritura e tudo mais. E teve muita gente que comprou. O negócio só acabou quando ele foi preso.

Hoje, cinquenta anos depois, Gilberto Gil garante: Do luar não há mais nada a dizer, a não ser, que a gente precisa ver o luar.

Caetano talvez seja o que mais cantou a lua.

Lua de São Jorge, lua deslumbrante, azul verdejante, calda de pavão.

Lua, lua, lua, lua, por um momento meu canto contigo compactua, e mesmo o vento canta-te, compacto no tempo, estanca, banca, branca, branca.

Cinquenta anos depois, ainda maravilhado com aquela imagem em branco e preto, recorro-me aos versos de Gregório de Matos:

Eu já vivo tão cansado

De viver aqui na Terra

Minha mãe eu vou pra lua

Eu mais a minha mulher

Vamos fazer um ranchinho

Tudo feito de sapé

Minha mãe eu vou pra lua

E seja o que Deus quiser

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A ARTE DE NÃO ENTREGAR OS PONTOS

Há muitos anos, a gente passa o tempo todo mostrando para as pessoas, quem está do lado dos pobres, quem se interessa pelos menos favorecidos, pelos excluídos. A gente anda na rua, olha nos olhos de cada um e fica imaginando a vida que guardam dentro de si. No ônibus, muitos cochilam, segurando uma sacolinha do Boticário – presente da patroa – e a gente sabe que ali dentro tem uma marmita preparada às quatro horas da madrugada. Vem na cabeça aquela velha canção do Adoniran: “Que é que você troxe/Na marmita, Dito?/Truxe ovo frito/Truxe ovo frito/E você, Beleza,/o que é que você troxe?/Arroz com feijão/E um torresmo à milanesa/Da minha Tereza”. Então a gente vira o disco: “A gente andou/A gente queimou/Muita coisa por aí/Ficamos até mesmo todos juntos/Reunidos numa pessoa só/Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?” Vai de Arnaldo Dias Baptista, tomando vento frio no rosto, já que o passageiro da frente o deixou semi-aberto. Eu vivo pensando em quem as pessoas votaram. Ontem vimos mais um show de horrores na televisão. Quem votou nessa gente? Quem votou no Frota, na Joyce, no Kim, no Abou, no Aécio, no capitão, no coronel, no delegado? Tem horas que a gente desanima, tem vontade de entregar os pontos, solenemente. Mas não. Desço na Avenida Angélica rumo ao trabalho, com a consciência tranquila. Eu votei no Ivan, não o terrível, o Valente.

AV

VERDE E AMARELO

Tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança

Já tive uma verdadeira paixão pelo verde e pelo amarelo, juntos. Foi durante aqueles longos invernos que passei fora do país, numa época em que as notícias só chegavam dentro de um envelope verde e amarelo, escrito Via Aérea/Par Avion.

Descendo a escada do prédio onde morava, antes mesmo de colocar os pés no térreo, já via os envelopes verde-amarelo vazando pelo escaninho com o meu nome. Era sinal de que ali havia noticias frescas do Brasil.

Hoje, ninguém mais escreve cartas. E nenhuma papelaria vende mais envelope verde-amarelo. Mas sempre que vejo um, seja no fundo de um velho baú ou numa pasta perdida no tempo, eu me emociono.

Viajo no tempo e fico imaginando que ali dentro daquele envelope tem recortes do Jornal do Brasil, do jornal Opinião, poemas meus que saíam no Suplemento Literário do Minas Gerais, foto de um sobrinho que nasceu, outros que foram passar as férias em Camboriú.

Me lembro bem quando a música Camisa Amarela, de Ary Barroso, tocava no radinho de pilha dependurado no registro de água que ficava acima do tanque, enquanto Antônia batia a roupa.

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela
A Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia

Já torci muito pela seleção canarinho, mesmo naqueles anos em que não deveria estar torcendo. Gostava de ver em campo Amarildo, Didi caprichando na folha seca, Mané Garrincha sambando e Gilmar indo buscar a pelota na última gaveta. Torcia por Pelé dando socos no ar, Tostão correndo para abraçá-lo, Rivelino eufórico correndo em campo e Gerson pulando de alegria.

O tempo passou, o mundo mudou, a festa acabou. E agora? Agora eu tenho uma verdadeira ojeriza só de ver, mesmo que de longe, alguém com uma camisa amarela. Pra mim, é sinônimo de extrema-direita, de gente reacionária, de ‘somos todos Moro’, de ‘vai pra Cuba’, de ‘intervenção militar já’.

Não posso ver uma que me lembro do Frota, do Kim, do Roger, do Lobão, do Feliciano, da Joyce, dessa gente.

Hoje, tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança para quem quiser, quando eu não estiver mais aqui.

Pra terminar essa crônica, lembrei de uma velha expressão que ninguém usa mais, mas que nos dias de hoje, cai como uma luva: a gente se f**** de verde e amarelo!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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PRA FRENTE, BRASIL!

Ontem à noite, ouvi apenas alguns gritinhos, duas vezes, vindos do prédio em frente, o mesmo que, outrora,  ouvia panelas batendo. Já se foi o tempo em que um jogo entre brasileiros e argentinos, era chamado de jogo do século. Olhando assim pela televisão, o gramado ainda verde do Mineirão, sinto que o Brasil perdeu a graça. Ainda tem gente que tem coragem de vestir uma camisa amarela e sair por aí. O estádio estava cheio mas, venhamos e convenhamos, o entusiasmo foi pro ralo. Já torci muito pelo Brasil, já gritei muito em cada gol de folha seca saído dos pés de Didi. Já vibrei com o jogo de corpo de Mané e do soco no ar de Pelé. Hoje, pouco importa se o Brasil ganhou, empatou ou perdeu da Argentina. Dizem que não podemos misturar futebol com política. Sim, mas eu não tenho mais coragem de vestir uma camisa do escrete canarinho. Sorry! Se o Brasil ganhou de dois a zero, se empatou, se foi para os pênaltis, o meu entusiasmo com essa Copa América é zero. Não tenho ânimo pra torcer pelo nosso país. Talvez esteja misturando as coisas, eu sei. Mas, pra que gritar Para frente, Brasil! se o meu país só anda pra trás? Desanime, talvez,  de tanto ver o Brasil perder.

AV

O FALSO SCHROEDER

Não tenho amigos virtuais, nem de carne e osso que ainda defendem esse governo de ultra-direita ou a imparcialidade de um juiz que coloca na cadeia sem provas, mas por convicção. Mas, de tempos em tempos, algumas barbaridades, fake news, pingam no meu WhatsApp, enviadas por amigos dos amigos dos amigos, por vizinhos dos vizinhos, por desconhecidos mesmo. Na noite de domingo passado, por exemplo, piscou no meu celular a imagem dessa figura ai acima, com um pequeno texto de espanto. Segundo quem enviou, este senhor calvo, bem barbeado e de suspensórios, era ninguém menos que Carlos Henrique Schroder, o diretor-geral da Rede Globo. Num breve discurso, o falso Schroeder faz uma apologia da ditadura militar que mandou e desmandou no Brasil por mais de vinte anos. E o remetente, quase tendo orgasmos, ao ver o diretor-geral da Rede Globo denunciando em público um complô contra o governo daquele que, um dia, foi chamado de Mito. Como conheço Schroeder desde 1997, quando pus os pés na Rede Globo pela primeira vez, dei gargalhadas, que foram, aos poucos, se encolhendo de nervoso e vergonha. Vinte e quatro horas depois da mensagem ter piscado no meu celular, fico aqui pensando com os meus botões, quantas milhares de pessoas não receberam a mesma mensagem e continuam acreditando, achando que o depoimento é mesmo do Schroeder. E espalham por ai, sem dó nem piedade, aumentando os comentários, acrescentando coisa e jurando de pés juntos que a mensagem é verdadeira. Onde vamos chegar com isso.

AV

TRINTA E DOIS POR CENTO

Era pouco mais de oito horas da manhã de domingo, eu caminhava rumo ao supermercado Pão de Açúcar, quando, de repente, um vulto surgiu por detrás de três pequenos pés de bananeira que ficam na calçada da Swift. A Rua Tito, na Lapa, em São Paulo, estava vazia e silenciosa e o meu susto foi inevitável. Era um senhor grisalho, paramentado de cooper dos pés à cabeça. Ele percebeu o meu espanto e comentou: “A gente leva susto à toa”. Comentei baixinho, quase que somente para os meus botões: “É mesmo”. Ele apressou os passos e foi falando alto, quase ecoando naquele passeio irregular da Rua Tito: “Isso vai acabar! Dentro de um ano, quando o presidente Bolsonaro colocar uma arma na mão de cada um, isso vai acabar. Não podemos desistir, precisamos acreditar, ter confiança!” E o silêncio foi voltando aos poucos ao bairro da Lapa, à medida que ele apressava os passos do seu tênis Nike Air e ia desaparecendo a olhos vistos, na minha frente. Não costumo silenciar, mas silenciei. Não ia comprar briga ali, num domingo de folga que estava apenas começando. Diminui o passo e fiquei imaginando. Aquele senhor era uma porcentagem. Ele faz parte dos 32% ouvidos pelo Ibope, que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo. Vive desinformado, ou melhor, bombardeado por informações do seu grupo no WhatsApp. Todas as notícias que não gosta, considera fake news. Assiste ao Jornal Nacional toda noite e não ficou mais sabendo dos vazamentos da Lava Jato, sequer que Glenn Greenwald foi a Brasília e, durante uma tarde inteira, deu uma aula de Jornalismo aos parlamentares. Aquele homem na minha frente, agora distante, acredita mesmo que uma arma na mão vale mais do que dois passarinhos voando. E não é só. Crê que o ministério é composto de notáveis, já leu pelo menos um livro de Olavo de Carvalho, continua acreditando no kit gay e na mamadeira de piroca. Não soube que Damares viu Jesus na goiabeira, nem mesmo do ministro da Educação dançando na chuva seca. Aquele homem, desaparecendo lá longe, não vai mudar nunca de opinião, o que é um perigo. Certamente prefere uma ditadura militar a um governo civil. Acredita que Lula roubou e, mesmo se não roubou, merece estar preso em Curitiba. Quando a noite chegar, seguramente vai fazer a sua segunda caminhada do domingo. Olhando sempre pra baixo porque não quer olhar pra cima e ver nenhuma estrela brilhar. Vai caminhar em linha reta, acreditando em tudo que o seu mestre mandar.

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RUMO AO PARAÍSO

Eram oito horas da manhã, em ponto, quando a mensagem chegou pelo celular de uma ilustre passageira, sentada ao lado de um pintor. Deveria ser pintor porque usava um macacão todo respingado de tinta e tinha uma lata de Coralit entre as pernas.

Ela tirou o celular de uma bolsa vermelha com fivelas douradas e ouviu em viva-voz, na tonalidade máxima:

– Tô ligando pra avisar que a dona de hoje não é igual a de ontem. Essa de hoje é um pé no saco!

Clique. Ela desligou e enfiou o celular de volta pra bolsa. Ninguém riu, ninguém tossiu, todos fizeram cara de pastel. Os que cochilavam continuaram cochilando, os que jogavam paciência continuaram jogando paciência, os que olhavam pra fora, continuaram olhando.

Um boy, sentado ao lado do trocador, perguntou:

– Mano, onde você comprou esse seu tênis?

– Em Pirituba.

– Maneiro, nunca tinha visto dessa cor, cinzão!

Era um All Star novinho, cinza chumbo.

De pé, espio no celular da mocinha sentada, a mensagem que acabou de chegar:

– Cadê você?

Ela respondeu rapidinho:

– No ônibus!

Uma senhora entra meio aflita e pergunta para o motorista:

– Passa perto do metrô Marechal? O motorista fez que sim com a cabeça, ela pediu para avisá-la quando chegar, pegou o telefone e ligou:

-Mãe, estou no ônibus, indo pro metrô Marechal. Vou passar na farmácia e vou praí.

Não, mãe. Aqui não tem Drogajato. Aqui em São Paulo só tem Drogasil.

Ela desligou o celular e comentou baixinho com o motorista:

– É um remédio pra dor muscular.

O ônibus segue, uma moça incomodada com o sol cobre o rosto com uma bolsa preta de pano do I Simpósio de Ecologia e Conservação do Semiárido. Uma outra abre uma mochila da Fjällraven, tira um batom rosa e retoca os lábios. Um senhor cochila, quase deixando cair um imenso envelope do Laboratório Lavoisier, exame de imagem certamente.

O ônibus passa em alta velocidade, onde moradores de rua ainda estão enrolados em seus cobertores, ao lado de seus cachorros, debaixo do viaduto que os protege.

Ouço um papo entre duas senhoras, perto da porta.

– Tem dois dias que não dou mais comida pra ele. Agora é só ração. Acredita que ficou com raiva de mim? Nem olha na minha cara.

Fico observando o olhar de cada um que passa pela roleta. Alguns cumprimentam o trocador, outros fazem um sinal com a cabeça, outros passam batido. Mas todos observam quanto ainda resta de saldo no cartão que a tela ao lado anuncia. O olhar de espanto maior são os daqueles cujos saldos estão no fim. E o mês, ainda não.

Perto do parque da água branca, uma moça faz sinal pro motorista, parado no ponto. Ele espera ela chegar, abre novamente a porta e ela entra, meio esbaforida.

– Dá pra esperar um minutinho só, até minha filha entrar na escola? Ela olha aflita e respira aliviada:

– Pronto! Entrou!

Ela havia deixado a filha na porta da escola, mas não queria perder o ônibus. Sentou-se no primeiro banco, ao lado de uma outra passageira e comentou, pra ela e pro motorista:

– Mãe é foda!

Sobe gente, desce gente. Todos com os seus celulares nas mãos, ligados. Uns passam rapidamente pelo Instagram, outros leem mensagens de Bom dia, o Senhor esteja convosco, alguns cintilantes, emoldurados por rosas cor de rosa.

Ao meu lado uma senhora vê, uma, duas, três vezes, um vídeo em search, tipo GIF, tutorial ensinando a fazer um hambúrguer com alface tomate, pepino, maionese, carne moída e duas fatias de bacon.

De repente, o ônibus estanca num engarrafamento e a moça grudada na porta pergunta:

– Aqui é o Paraíso?

Vários passageiros respondem, ao mesmo tempo, que sim.

Ela fala alto:

– Motorista, pode abrir a porta pra mim? Eu vou descer.

O motorista da uma olhada pra trás e abre a porta. A moça desce rapidamente e segue pela calçada, rumo ao Paraíso.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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ALÔ ALÔ

Com o tempo, tudo desaparece. Raramente você vê um Simca Chambord desfilando pelas ruas, dificilmente você vê uma mãe dando Calcigenol Irradiado para o filho, ou alguém mascando um Ping-Pong, escovando os dentes com Kollynos. As coisas vão sumindo, sumindo, até a gente dar falta deles. Mas, de repente, desde a semana passada, começaram a retirar todos os orelhões de São Paulo, numa operação impressionante. Onde havia um, hoje existe apenas um pequeno poste de ferro sinalizando que, outrora, ali havia um orelhão. O design é brasileiro e os primeiros apareceram nos anos 1970. Virou coqueluche. Todo mundo tinha na carteira uma ficha de telefone. Depois vieram os cartões, que muitos até colecionavam. Acho que todo mundo já falou num orelhão. Talvez essa novíssima geração, não. Nos últimos tempos, ninguém mais usava. Eles serviam apenas para painel publicitário de putas, com cartõezinhos colados por toda parte. Sugiro que quem ainda conseguir ver um, fotografe, para, no futuro, lembrar daquele objeto que ganhou o nome espontaneamente de orelhão, uma ideia genial.

A HORA DO ESPANTO

Amigos meus estão assustadíssimos nos últimos tempos. Que amigos? Aqueles que não suportavam ouvir a voz de um Marco Antônio Villa, o comentário blasé de Miriam Leitão, a voz pastosa de um Gerson Camarotti, o olhar antipático de uma Vera Magalhães, a empáfia de Reinado Azevedo, a obsessão de um Augusto Nunes. Aqueles que pulavam a página 2 de O Globo pra não ver a carinha de um Merval Pereira estampada ali, em meio a tantos comentários reacionários. Nem mesmo a beleza de uma Andrea Sadi, meus amigos queriam passar os olhos. Nem aquele off cantado de Delis Ortiz eles suportavam mais. Alguns comentaristas continuam fiéis ao seu pensamento retrógado e vão com eles pro túmulo, da vida ou do Jornalismo. Outros mudaram e é por isso que os meus amigos estão assustadíssimos. Um dia, um desses amigos, o mais falante, perguntou: “O que está acontecendo? Estou achando o Villa enfático e o Reinaldo simpático”. E mesmo amigo arrematou: “É espantoso! Sabe que estou achando até mesmo que o Mourão seria melhor do que esse jumento…”

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O PONTO VERMELHO E OUTRAS ESTÓRIAS

O culpado

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. E se cortou. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes a realidade de uma ficha. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória, aquela vitória que não veio. Não era bem aquilo que lhe informaram, aquilo que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos 45 minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio, sem a necessidade de VAR. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, aquele que todos julgavam ser o Todo Feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu numa ribanceira, num buraco fundo, difícil de sair. Hoje, ele vive numa espécie de inferno particular, em silêncio, como um autêntico mineiro. Se alimenta todos os dias de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: que cagada!

O ponto vermelho

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, embaixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão!, Cálice, e dá stop em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

A velhinha de Taubaté

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê Eu Vou. Ela foi em todas. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda uma selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando diz na televisão que não entende nada disso aí, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu, por exemplo, também não sei o que é déficit público”. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Não sabe, não tem a menor noção do que é The Intercept Brasil. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai ser justa e que a revista Veja virou comunista.

O manifestante

Já segurou todo tipo de placa. Fora Dilma e leve o PT junto. Vai pra Cuba. Vai pra Venezuela. Somos milhões de Cunha. Somos todos Moro. Intervenção Militar já! É aquele cara que vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Postou no Face aqueles famosos Eu Vou! e trocou suas fotos no avatar várias vezes. Já foi Aécio, já foi Cunha, já foi Moro, já foi Bozo. O segurador de placas tinha a revista Veja como Bíblia, vivia citando trechos de artigos fake e postando capas de Lula desmanchando, derretendo. Era assinante e agora está esperando apenas a assinatura acabar. Costuma nem tirar mais a revista do plástico e quando o porteiro do seu prédio diz que a sua Vejachegou, ele responde ‘depois eu pego’. O segurador de placas gastou muita caneta Pilot e muitas folhas de cartolina para escrever seus protestos. Suas fotos em manifestações ao lado de Frota, de Joice e de Kim foram compartilhadas entre amigos, o que o deixou feliz da vida. O carregador de placas está esperando uma nova palavra de ordem, vinda quiçá da Globo, seja qual for. Esperando, esperando, esperando, como se fosse um Pedro Pedreiro dos novos tempos.

Os desvalidos

O nome da cidade não importa. Pode ser Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, Sombrio, em Santa Catarina, Combinado, em Tocantins, Ressaquinha, em Minas Gerais ou Nova Iorque, no Maranhão. Triste é ver o posto de saúde sem um cubano de jaleco branco, sentado na sua surrada escrivaninha de madeira, conversando com os seus pacientes, o povo do lugar. Agora resta apenas uma mesa vazia, alguns frascos de vacinas vencidas num canto, um rolo de gaze quase no fim, um vidro de álcool misturado com água, um cheiro de acetona no ar. Onde havia conversa, há silêncio, onde havia vida, há risco. Um médico contou que ganhou uma galinha viva como recompensa por ser sido salvo de uma picada de escorpião, na porta do Bar e Lanches do Pereira. Outro ganhou seis ovos caipiras e um terceiro, um bode pronto pro abate. Depois que os cubanos foram embora, o posto de saúde existe apenas no nome. Alguns desavisados ainda chegam aqui para ser consultados e voltam pra casa sem perder a esperança de ver, um dia, a estrela voltar a brilhar no céu.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

SEM RESPOSTA

Desde meados dos anos 1980, quando a Legião Urbana colocou nas paradas de sucesso uma música chamada “Que país é este?”, nós, brasileiros, vivemos fazendo a pergunta. E nunca encontrando a resposta. EsTa semana, a questão voltou à tona quando o ministro do Turismo do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antônio, acordou cedo e foi até o aeroporto do Galeão para bater palmas para os primeiros turistas americanos que chegavam a esse país que ninguém sabe qual é, sem a necessidade de visto. Fico imaginando que os turistas devam estar rindo até agora, lembrando a cena de um babaca de terno, batendo palmas no aeroporto, quando o sol nem tinha raiado ainda.

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A VELHINHA DE TAUBATÉ

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê “Eu Vou”. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda um selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando ele diz na televisão que não entende nada disso ai, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu também não sei o que é deficit público. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai melhorar e que a revista Veja virou comunista.

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[ilustração LFVeríssimo]