MUDANÇA DE HÁBITO

Jornais brasileiros geralmente resistem em mudar seu lar-out. Quando mudam, surpreendem. Recentemente tivemos dois casos: o do jornal carioca O Dia, que fez uma capa caindo aos pedaços, assim que o Rio começou a despencar, e mais recentemente, o jornal mineiro O Tempo, que seguiu a linha do Dia e fez a sua capa afundando o logotipo num mar de lama. Pena que foram em duas tragédias que os jornais decidiram ousar. Eles precisavam ousar mais, no dia a dia, para surpreender seus leitores. 

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MULHER DE MALANDRO

Um relatório da Federação Nacional dos Jornalistas(FENAJ) divulgado recentemente, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro, em um ano e um mês de mandato, já desmoralizou, xingou, humilhou e chacoteou os jornalistas mais de cem vezes. Tudo isso, praticamente num só lugar: no gradil que cerca o Palácio da Alvorada, onde eles se apertam toda manhã, ao lado de fiéis seguidores do presidente de ultra-direita. Os jornalistas estão fazendo o papel daquela velha história, hoje quase proibida, da mulher de malandro. Que apanha, apanha, apanha do marido mas não o larga. Quando Bolsonaro disse que jornalista é uma raça em extinção, que jornalista mente, quando respondeu a um dizendo “é a sua mãe”, a outro que “você tem uma cara terrivelmente de gay”, era para os jornalistas ali presentes terem dado um basta e voltado para as redações, deixado aquele gradil para sempre. Mas não. Eles insistem. Mesmo com o presidente fazendo chacota dizendo que não ia mais dar entrevistas a eles ali, os funcionários da imprensa voltaram no dia seguinte, como carneirinhos. Todos sabem que aquela participação matinal do presidente ali é uma jogada de marketing. A bobagem que ele fala logo cedo repercute durante todo o dia. Se eles não aparecessem mais ali na porta do Alvorada, em protesto, aquele pitstop do presidente não duraria mais que uma semana. Mas ai, pobres jornalistas que cobrem o presidente, ficariam sem pauta. Vale lembrar aquele protestos dos repórteres fotográficos, no início do anos 1980, quando colocaram as suas máquinas no chão e não fotografaram o presidente João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, em protesto contra as agressões do presidente. O combinado é que apenas um registrasse a foto para a história. Parece que os jornalistas tinham mais peito na ditadura do que agora, nessa coisa que ninguém explica o que é. 

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250 ANOS

As revistas e jornais europeus estão saudando com grandes festividades os 250 anos de nascimento de Ludwig Van Beethoven. Aqui, El Viajero, o suplemento de viagem do jornal espanhol El País, que faz um circuito Beethoven por Viena, sua cidade natal.

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FOFOCALIZANDO

Londres sempre foi uma cidade muito chique. Muito mais que Paris. O chá das cinco, os ovos com bacon, o táxi preto, o ônibus vermelho, a cabine telefônica. Reis e rainhas, os Beatles e os Rolling Stones. Londres é Londres, com seu fog, sua chuvinha fina, seus verdes lindos gramados campos de lá. Londres tem a Harrold’s, a Saint Martin Shoes, as cerejas vistosas, os luminosos de Picadilly Circus, a Economist. Mesmo quando os punks invadiram a cidade, esfarrapados, espetados, rasgados, Londres foi sempre Londres. Mas lá tem também uma porção Datena, uma porção Venenosa, fofocalizando. Estou falando dos trabloides sensacionalistas que invadem aos milhões as lojinhas de jornais, já que Londres não tem bancas. É o lado esquisito de uma cidade tão aristocrata.  Os ingleses compram os jornais na boca do metrô e, no ponto final, ele vai pro lixo. Sempre foi assim. Londres é uma pessoa que usa black-tie e, um dia, resolve vestir uma bermuda surrada, uma camiseta puída, um chinelo Rider. Quem explica o sucesso dos tabloides no país da Radio Times, da Wild Life, da Face?

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OLHA O PASSARINHO!

Bombardeado por notícias que chegam 24 horas de todos os lados, o leitor às vezes cansa. E pede uma leitura apenas leitura, nova e interessante. Quando alguns jornais percebem isso, acertam na mosca. O Le Monde, por exemplo, em sua última edição, publicou uma matéria de página inteira revelando que cinco novas espécies de pássaros foram identificadas na Indonésia. O editor-chefe convencional deixaria a notícia de lado ou simplesmente registraria tal novidade em uma nota curta. “Indonésia? Pássaros? Onde está o gancho?”, perguntaria ele. O editores do Monde estão procurando, cada vez mais, esse tipo de notícia. Aquela que dá ao leitor o prazer da leitura. Com um texto bem costurado, quase literário, acabamos  apaixonados pelo passarinho vermelho de Taliabu, aquele que ninguém tinha percebido nesse Planeta tão judiado e destruído.

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VIRE À DIREITA

Em Hong Kong, os guarda-chuvas viraram símbolo das manifestações. No Chile, foi um olho fechado e, no Brasil, todos lembram, a camisa da seleção brasileira, além de um pato amarelo. Manifestações de esquerda, no caso do Chile, e de direita, no caso do Brasil. Na França, foram as patinetes que transformaram-se em símbolo dos direitistas. O suplemento L’Époque, do jornal Le Monde, publica uma curiosa matéria de capa em que pergunta: “A patinete é de direita?” Se não é, ficou com o estigma. Como no Brasil. Uma pessoa que veste uma camisa amarela canarinho e sai por aí, dificilmente é de esquerda.

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UMA PROVA PARA A CRISE

Numa reportagem de página inteira, a edição de fim de semana do jornal francês Le Monde mostrou nossa realidade: Um país apático diante de um desmonte, o preço da carne nas alturas, que está fazendo muita gente comer ovo e os economistas apostando suas fichas no “agora vai!” Dois mil e vinte é uma incógnita. Se a economia levantar voo, a nave continua indo. Se der água, o risco de uma convulsão é provável. O jornal ilustra a reportagem com um jovem enfrentando a polícia de São Paulo, num protesto contra o aumento da passagem do ônibus que passou de 4,30 para 4,40. Uma notícia da semana passada que  foi praticamente ignorada por nossos jornais nacionais.

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NOVIDADE

Mesmo ainda muito fiel ao jornalismo impresso, os franceses acabam de ganhar um jornal diário de esportes online. Sem edição impressa, o MinuitSport tem contado diariamente, em edições atualizadas, tudo que se passa em campo. Se vai colar, ainda não sabemos. O francês – que tem várias publicações de esporte – ainda gosta de frequentar uma banca de jornal.

[foto Reprodução]

QUE BICHO SOMOS NÓS?

Muito antes de vencer as eleições presidenciais de 2018, o capitão Jair Bolsonaro já havia deixado bem claro o ódio que tem de jornalistas, na verdade, de qualquer coisa escrita. Quem não se lembra dele com um celular nas mãos no jardim do seu condomínio na Barra, gritando para os seus fanáticos seguidores na Avenida Paulista que queria “um Brasil sem Folha de S.Paulo?” Nesse um ano e pouquinho de governo, o capitão só pisou em jornalistas e em seus produtos. Numa madrugada, já foi pra frente das câmeras do outro lado do mundo para, irado, dizer inúmeras vezes que os jornalistas da Globo eram canalhas. “Canalhas!”, gritava ele com gosto. Globo e Folha são os seus alvos preferidos e os dois, respondem – quando respondem – pisando em ovos, educadamente, ao invés de entrar com um processo. Bolsonaro é caso de Justiça, ou melhor, de polícia. Ontem, mais uma vez, voltou ao ataque, ao dizer que “jornalista é uma espécie em extinção e quem deveria cuidar deles é o Ibama”. Simplificando: chamou os jornalistas de animais e a edição da Folha desta terça-feira (7) informa apenas que ele nos chamou de animais. Assim, bonitinho. O capitão que prefere gravuras em livros ao invés de palavras, parece estar com a corda toda. Sabe que tem nas mãos uma polpuda verba de publicidade e que os jornais precisam dela. Age como o dono da bola. “Se vocês não se comportarem, não tem jogo”. Está na hora de virar esse jogo, não acham?

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O PAPEL DO JORNAL

Um amigo meu costumava brincar, dizendo que a decadência do Jornalismo começou quando uma lei proibiu os feirantes de embrulhar o peixe em jornal. A lei pegou e não vemos mais feirante embrulhar nem mesmo banana em jornal. O plástico tomou conta do mercado, contribuindo para o fim do nosso Planeta, mas pelo que vimos, a maioria dos que aqui habitam estão se lixando. Aquele velho jornal que, depois de lido, ia parar na área de serviço com o destino de receber as necessidades dos cães e gatos da casa, agora são comprados à quilo, muitos deles virgens de leitura, nas lojas de conveniência que ainda são chamadas de bancas de jornal. Outro dia, um pintor de paredes me disse que, agora, ele próprio era obrigado a comprar “jornal de pet” nas bancas porque casa nenhuma mais tem jornal velho pra forrar o chão da sala na hora da parede receber uma mão de Suivinil. Aqueles antigos compradores de jornal velho que passavam de porta também mudaram de ramo. Hoje buscam papelões, garrafas de plástico e latinhas pra reciclagem. Se dependessem do jornal velho, estariam passando mais dificuldade que já passam. Começamos 2020 sem saber como os jornais chegarão ao final dele. Na Itália, por exemplo, existe o outro lado da moeda. O jornal La Repubblica, por exemplo, vem reagindo numa tentativa de não perder leitores, mas também de ganhar novos. O jornal italiano, todo dia tem um grande suplemento, um em cada dia: Economia, Saúde, Comportamento, Cultura, Design, Automóvel, sem contar a revista de sexta-feira que raramente tem menos de 200 páginas. E nos fins de semana, o leitor ainda recebe a revista de informação L’Espresso, uma das melhores do país. Por aqui, nadamos no sentido contrário. Os jornais cortam pessoal, acabam com suplementos, eliminam revistas, diminuem o número de páginas e, nos feriados, costumam encolher ainda mais, juntando um caderno no outro, transformando um suplemento em apenas uma página. A verdade é que a nova geração não lê mais jornal de papel, ele não faz mais parte do seu cotidiano. Recentemente, a Folha de S.Paulo publicou um  gráfico mostrando a circulação do jornal. 

Os números tentam justificar a queda de 264,4 mil exemplares para 85,9, mostrando que a edição online pulou de 38,9 para 234,9 mil exemplares. Mas não mostra que, nesse ritmo, o jornal de papel corre o risco de morrer, se não nesse 2020, o mais tardar no ano seguinte. É claro que uma grande revolução aconteceu nessas últimas décadas. O mundo é outro, onde as pessoas são bombardeadas de notícias e números desde o momento em que acordam até quando colocam novamente a cabeça no travesseiro pra dormir, sempre online. Não tem mais volta, não adianta chorar o leite derramado. Mas também não resolve os nossos jornais adotarem a política do avestruz, fingindo que em volta está tudo bem. Os jornais de papel vão morrer. A dúvida é se será neste ano, no próximo ou no outro.

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DEZEMBRO 2020

De uns tempos pra cá, fala-se muito no fim do jornal de papel. Neste final de ano, um ano tenebroso, voltamos a perguntar: Ainda teremos jornal de papel em dezembro de 2020? É uma incógnita. Do jeito que eles vão emagrecendo, do jeito que eles vão esvaziando as redações, eliminando suplementos, fica difícil. Difícil imaginar que vão chegar ao final do ano que vem, firmes e forte. Podem até chegar, aos frangalhos, se não souberem sacudir, levantar a poeira e dar a volta por cima. Por outro lado, esta semana, o jornal francês Le Monde completou 75 anos de vida e anunciou a seus leitores que a partir de primeiro de janeiro estará na nova sede, numa área nobre de Paris. O Le Monde, apesar de todo progresso online, cresce também no papel e em conteúdo. Parece que querem entrar nesse novo mundo mantendo uma tradição antiga que é ler jornal em papel. Não vejo sinais de preguiça, desânimo ou medo nas páginas do Monde. E aqui? O que vamos fazer, como vamos reagir? Ninguém sabe. Só os 365 dias de 2020 dirão. 

OITO OU OITENTA

A cultura é tratada nos produtos Globo como se fosse oito ou oitenta. Quem bateu os olhos na edição desta terça-feira (17) do jornal O Globo deve ter se surpreendido com o espaço dado pelo jornal carioca à recuperação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, depois da sua destruição por um incêndio, em 2015. Além da chamada na primeira página, a reinauguração do museu, programada para junho do ano que vem, ganhou a capa do Segundo Caderno. Ao ler, você descobre que tem a participação da Fundação Roberto Marinho na jogada. Até aí, tudo bem. Sabemos que a organização tem papel fundamental em recuperações de monumentos históricos pelo país afora. O que chamamos aqui é o tratamento dado à cultura em nosso país pelas organizações Globo.. Seguramente, a reinauguração em junho de 2020 vai ganhar uma cobertura exaustiva dos produtos Globo. Teremos notícias no jornal local, em todos os telejornais da casa, além dos programas da Annamaria Braga, da Fátima Bernardes, do Pedro Bial, do Serginho Groismann. Na Globo, a Cultura funciona assim: Oitenta para eventos da casa, oito para o resto. Quando não é zero para os outros. No jargão jornalístico, chamamos isso de “matéria rec”, traduzindo, “matéria recomendada, obrigatória, da casa”. Não deveria ser assim. Eventos importantes em nosso país, muitas vezes passam em branco nos telejornais, jornais e programas da casa. Simplesmente porque não são matérias “rec”.

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DUELO

Não é de hoje que político briga com jornal, que jornal briga com político. O embate mais recente, estamos acompanhando pelas páginas do jornal O Globo e pelo que sai da boca do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. É O Globo implicando com o prefeito e o prefeito implicando com O Globo. Um  assunto diário. Ai vira aquela coisa chata pra quem assina, pra quem ainda vai à banca comprar o jornal. Nos últimos tempos, não passamos um dia sequer sem uma denúncia contra a prefeitura do Rio na primeira página do jornal dos Marinhos. Em todas as áreas. Saúde, educação, saneamento básico, segurança, cultura, nada escapa. Crivella, revoltado com o que chama de perseguição, resolveu barrar a Globo como um todo em suas manifestações. Jornalistas de O Globo, TV Globo, G1, GloboNews, simplesmente andam sendo barrados em qualquer evento da Prefeitura. Mesmo aqueles em que o prefeito se sai bem, faz acordos, inaugura obras. Crivella achou que, com isso, o carioca simplesmente ficaria sem saber como anda a prefeitura, pro bem ou pro mal. De nada adiantou. A popularidade do prefeito despencou, é a pior possível e até o instituto DataFolha entrou na briga pra saber o que o carioca está achando disso tudo. Resultado: 76% da população está contra o prefeito. E agora, a Justiça também entrou no rolo e considerou ilegal a atitude do prefeito birrento. Enquanto isso, uma outra briga é travada em outro ringue: Bolsonaro X Folha. Mas essa é outra história. E quem sai perdendo nesse tipo de briga boba é o pobre do leitor.

NEXO

Fazer títulos é uma arte. Cativar o leitor para a leitura da matéria é a pedra fundamental para um bom título. Um exemplo. Vi, um dia, o título “Cuidado, tinta fresca!”. Comecei a ler a matéria e vi que tratava-se de falsificação de quadros de gênios dia pintura. Talvez tenha sido este um dos melhores que vi. Já fiz milhares de títulos por ai. O que nunca me esqueço foi um que lavrei na certeza de não passar pelo crivo do editor-chefe de Internacional do Estadão, onde eu cuidava da coluna Pelo Mundo, um apanhado de notinhas que não tínhamos onde enfiar. Chegou pelo telex a foto de três carabineiros encurralando uma onça num parque da capital italiana. Ela havia fugido de um circo e estava bem assustada, mostrando os dentes e as garras. O título que dei foi “Roma de Felino”. Passou! Saiu impresso no Estadão e eu o guardo como um troféu de início de carreira. Tudo isso para falar do título que saiu na edição de ontem no suplemento de turismo do jornal O Globo. A foto de uma performance de pinguins amarelos em fila na mas famosa ponte da capital Tcheca caiu nas mãos do editor e ele, para aproveitar a curiosa e inusitada foto, titulou: “Assim caminha Praga”. A princípio, achei que era delírio do tituleiro para não desperdiçar a foto, que é boa. Mas, ao ler a matéria, percebi que ela faz sentido, já que o assunto é a invasão da arte contemporânea numa das cidades mais tradicionais e glamurosas do mundo. Rendi-me ao título e guardei na minha coleção. Assim caminham as boas ideias…

FOTOJORNALISMO

A revista mensal colombiana Arcadia escolheu as melhores fotos feitas por jornalistas profissionais durante as manifestações do mês passado, em várias cidades do país. Muitas vezes, uma foto diz mais do que mil palavras. Como um cartum, inúmeras vezes, vale mais dos que um editorial. Selecionamos aqui cinco fotos de Esteban Veja La-Rotta.

 

[Reprodução/Arcádia]

PUXANDO A BRASA PRA SARDINHA

Quando o Caderno 2 foi lançado, em abril de 1986, eu fazia parte de uma equipe inovadora e, principalmente muito inquieta. Em poucos meses, o suplemento era o mais lido do Estadão. Virou uma espécie de Pasquim encartado dentro de um jornal declaradamente conservador. Costumávamos dizer que o Caderno 2 era uma mistura de Planeta Diário e Gazeta Mercantil. Enfim, o suplemento de artes e espetáculos do Estadão era uma festa. Queríamos fazer um jornal informativo, divertido e bonito. Suas capas eram feitas com esmero a cada dia. Capas que entraram para a história. Assim que o jornalão mudou de direção, em 1987, o Caderno 2 mudou também. Encaretou, ficou igual a todos os outros. Basta comparar as duas capas expostas acima. Uma da década de 1980 e outra de 2019. O Estadão, como um todo, ficou feio. Precisa de uma reforma gráfica urgente, antes de acabe. 

O MEDO

Você já deve ter percebido que a grande imprensa, principalmente a televisão, morre de medo de algumas palavras. Golpe, por exemplo. Alguns, juram de pés juntos que não houve um por aqui em 2016. Acreditam piamente que tudo foi feito dentro da lei. Nem golpe lá fora, no estrangeiro, essa imprensa falava. Medo da associação ao nosso golpe que derrubou uma presidenta eleita democraticamente. Os nossos telejornais, durante meses e meses falou em reforma da Previdência. Colocou no ar cem por cento de sonoras de especialistas a favor. Nunca ouviu o povo. Era só gente falando que se a reforma não passasse, o país quebrava. Quando vieram as manifestações lá fora, principalmente na Argentina e no Chile, a tal reforma da Previdência foi esquecida. Todos sabem que o povo, milhares de pessoas, foram às ruas pra protestar contra a reforma, exatamente a mesma que vai ser implantada por aqui. Mas os telejornais pisavam em ovos, procurando palavras que não faziam lembrar a nossa reforma. Os textos diziam que “foram às ruas para protestar contra o governo” (nunca diziam que tratava-se de um governo de direita como o nosso), “manifestantes tomaram a avenida” (sem dizer o motivo) ou “houve tumulto durante os protestos…” (e aí mostravam cenas de violência, como se os manifestantes fossem um bando de vândalos”. Agora a coisa mudou. A reforma do governo de ultra-direita do presidente Bolsonaro foi aprovada e então fala-se em “protestos contra a reforma da previdência”, explicitamente. Agora pode. Fala-se claramente, na televisão, nos jornais, nos sites de noticia. Protestos contra a reforma da Previdência lá fora pode.