O MEDO

Você já deve ter percebido que a grande imprensa, principalmente a televisão, morre de medo de algumas palavras. Golpe, por exemplo. Alguns, juram de pés juntos que não houve um por aqui em 2016. Acreditam piamente que tudo foi feito dentro da lei. Nem golpe lá fora, no estrangeiro, essa imprensa falava. Medo da associação ao nosso golpe que derrubou uma presidenta eleita democraticamente. Os nossos telejornais, durante meses e meses falou em reforma da Previdência. Colocou no ar cem por cento de sonoras de especialistas a favor. Nunca ouviu o povo. Era só gente falando que se a reforma não passasse, o país quebrava. Quando vieram as manifestações lá fora, principalmente na Argentina e no Chile, a tal reforma da Previdência foi esquecida. Todos sabem que o povo, milhares de pessoas, foram às ruas pra protestar contra a reforma, exatamente a mesma que vai ser implantada por aqui. Mas os telejornais pisavam em ovos, procurando palavras que não faziam lembrar a nossa reforma. Os textos diziam que “foram às ruas para protestar contra o governo” (nunca diziam que tratava-se de um governo de direita como o nosso), “manifestantes tomaram a avenida” (sem dizer o motivo) ou “houve tumulto durante os protestos…” (e aí mostravam cenas de violência, como se os manifestantes fossem um bando de vândalos”. Agora a coisa mudou. A reforma do governo de ultra-direita do presidente Bolsonaro foi aprovada e então fala-se em “protestos contra a reforma da previdência”, explicitamente. Agora pode. Fala-se claramente, na televisão, nos jornais, nos sites de noticia. Protestos contra a reforma da Previdência lá fora pode. 

AQUELE ABRAÇO!

Qualquer tipo de protesto é válido, faz parte da democracia. O jornal O Globo é especialista em publicar, na sua primeira página, protestos pacíficos como, esta semana, o abraço ao museu MAR, que anda ruim das pernas. Já tivemos abraços a lagoas, prédios ameaçados de demolição, uma árvore de jacarandá ameaçada de vir abaixo, já vimos antas na Esplanada dos Ministérios, já vimos velas, lenços brancos, cruzes. VillasNews fica aqui torcendo para que esses protestos não passem de uma foto na primeira página de O Globo. Vamos salvar o MAR!

[fotos Reprodução]

 

JORNALISMO NAS COXAS

O acidente doméstico sofrido pelo apresentador Gugu Liberato, ontem em Orlando, nos Estados Unidos, mostrou claramente como é feito o jornalismo às pressas e nas coxas. A noticia circulava nos programas de fofoca à tarde na televisão e nas redes sociais numa velocidade estonteante. Pegamos apenas dois exemplos, um do site da revista Caras, e outro do jornal O Dia, do Rio, para mostrar como é feito tal jornalismo. Com um título de duas linhas e um texto introdutório de seis, veja o primeiro festival de barbaridades.

Na Caras, o titulo diz que ele está em “estado grave”, mas, na verdade, quem diz não é o o site e sim um colunista. É o tal do “tirar da reta”. Se ele está bem, em estado grave ou morto, quem está falando (acertando ou errando) é o colunista, e não nosso site. 

Na legenda, já não é mais “está”, mas “estariam estado grave”. E logo na primeira linha do texto, o redator, ou redatora, escreveu que ele “passou por um susto”. Como assim, foi só um susto e ele está em “estado grave”?

Mais abaixo, o texto diz que o apresentador “estava no local”. Que local? Orlando? O local do acidente? Que local?

Mas, pior mesmo foi a jornalista Fábia Oliveira, do jornal carioca O Dia, que deve ter pensado: “Caiu do telhado, de uma altura de 4 metros, bateu a cabeça numa quina… ah, só pode ter morrido”. E anunciou sua morte no título, mas ressaltando, na primeira linha, que ele “teria tido morte cerebral”.

[fotos Reprodução site Caras/jornal O Dia]

BELEZA PURA

Nos últimos tempos, o jornal Folha de S.Paulo cortou as revistas São Paulo, Serafina, cortou os cadernos Sinapse, Folhateen, Ciência, Equilíbrio, Folhinha, o suplemento semanal do The New York Times e outros que me falha a memória. Ao invés de investir, crescer, cativar e ganhar leitores, o jornal faz exatamente o contrário, cavando o abismo com os seus próprios pés, plagiando Agenor de Oliveira, o Cartola.

Mas justiça seja feita. Mesmo sem crescer em tamanho, a Ilustrada tem brilhado nos últimos tempos. Dizem que em Jornalismo, nunca se deve mexer em logotipo. A Ilustrada mexe e surpreende a cada dia o leitor. Ilustrada tem sido, todas as manhãs, a grande surpresa do jornal. Com uma edição gráfica da capa, que varia a cada dia, virou uma pequena atração dentro do jornal. Trabalhar com criatividade é fundamental para um bom jornal, um bom telejornal, um bom podcast.

Sim, a Folha precisa crescer a Ilustrada em conteúdo. Mas aqui, volto ao assunto: Justiça seja feita. Geralmente os artigos de capa estão bem escritos, atrativos, bem costurados e bem variados. Seria ótimo se a ideia de surpreender o leitor como tem feito com a Ilustrada, se espalhasse pelo jornal inteiro, que é burocrático no formato. Os tempos são de mudanças.

 

 

 

 

PAINEL DOS LEITORES

Dizem que quem escreve cartas para jornais e revistas tem algum distúrbio. Muitos leitores sequer passam os olhos nas cartas dos leitores. A edição desta segunda-feira do jornal Folha de S.Paulo publicou uma carta que registramos aqui. Curta e grossa, saiu do ritmo de elogios & criticas ao jornal. Vale a pena das uma espiada no Painel dos Leitores todos os dias. 

MAMA ÁFRICA

A imprensa brasileira nunca deu muita bola pra África. Notícias do continente, você vê de tempos em tempos quando há um golpe militar, um surto de Ebola, um avião que cai. Nós, brasileiros, sabemos pouco sobre os africanos. Há quanto tempo você não lê uma notícia sobre o Burundi, Burkina Faso, Zâmbia ou Zaire? Nem mesmo sobre Angola ou Moçambique, onde reina o português, temos notícia. Essa semana, o jornal francês Le Monde anunciou uma novidade em suas plataformas digitais. 

O Monde designou nada mais, nada menos que 35 jornalistas para a cobertura permanente do continente africano. Trinta e cinco! Todos eles ficarão por conta de fornecer conteúdo jornalístico para o jornal, uma cobertura jamais vista na imprensa mundial. Política, economia, esporte, meio-ambiente, cultura, religião, as editorias são muitas e abrangentes. O Le Monde Afrique nasce, numa época em que, no Brasil e em vários países, os jornais minguam, os leitores fogem, as luzes se apagam. O Le Monde, remando contra a maré,  dá uma lição. Lógico que o interesse francês sobre o continente africano é imenso. São milhares de imigrantes e filhos de imigrantes que moram no país. Inúmeros países que outrora foram colônias. A música africana em Paris merece prateleiras especiais em todas as lojas de discos e plataformas musicais. 

Enquanto por aqui ficamos apenas com noticias curtas produzidas a partir do material de agências de informação, os franceses entram em campo. Sim, talvez falemos da África no 20 de novembro, dia da consciência negra. Depois, só quando houver um golpe militar, um surto de Ebola, uma queda de avião. E olhe lá!

O QUE PODE ESSA LÍNGUA?

Pode parecer maldade rir do erro dos outros. Mas a seção Erramos do jornal Folha de S.Paulo, não passa desapercebida da lupa do VILLASNEWS. Tem dias que é informativa, realmente um erro a se corrigir. Mas tem dias que mais parece uma seção de humor. “O jogo não foi em Goiânia e sim em Tóquio”, “Fulano é homem e não mulher, conforme foi publicado”, por exemplo. Quem será que no dia 5 de novembro alguém percebeu que “Revolução de Outubro” grafada com sinais do alfabeto cirílico, estava errada?