DEZEMBRO 2020

De uns tempos pra cá, fala-se muito no fim do jornal de papel. Neste final de ano, um ano tenebroso, voltamos a perguntar: Ainda teremos jornal de papel em dezembro de 2020? É uma incógnita. Do jeito que eles vão emagrecendo, do jeito que eles vão esvaziando as redações, eliminando suplementos, fica difícil. Difícil imaginar que vão chegar ao final do ano que vem, firmes e forte. Podem até chegar, aos frangalhos, se não souberem sacudir, levantar a poeira e dar a volta por cima. Por outro lado, esta semana, o jornal francês Le Monde completou 75 anos de vida e anunciou a seus leitores que a partir de primeiro de janeiro estará na nova sede, numa área nobre de Paris. O Le Monde, apesar de todo progresso online, cresce também no papel e em conteúdo. Parece que querem entrar nesse novo mundo mantendo uma tradição antiga que é ler jornal em papel. Não vejo sinais de preguiça, desânimo ou medo nas páginas do Monde. E aqui? O que vamos fazer, como vamos reagir? Ninguém sabe. Só os 365 dias de 2020 dirão. 

OITO OU OITENTA

A cultura é tratada nos produtos Globo como se fosse oito ou oitenta. Quem bateu os olhos na edição desta terça-feira (17) do jornal O Globo deve ter se surpreendido com o espaço dado pelo jornal carioca à recuperação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, depois da sua destruição por um incêndio, em 2015. Além da chamada na primeira página, a reinauguração do museu, programada para junho do ano que vem, ganhou a capa do Segundo Caderno. Ao ler, você descobre que tem a participação da Fundação Roberto Marinho na jogada. Até aí, tudo bem. Sabemos que a organização tem papel fundamental em recuperações de monumentos históricos pelo país afora. O que chamamos aqui é o tratamento dado à cultura em nosso país pelas organizações Globo.. Seguramente, a reinauguração em junho de 2020 vai ganhar uma cobertura exaustiva dos produtos Globo. Teremos notícias no jornal local, em todos os telejornais da casa, além dos programas da Annamaria Braga, da Fátima Bernardes, do Pedro Bial, do Serginho Groismann. Na Globo, a Cultura funciona assim: Oitenta para eventos da casa, oito para o resto. Quando não é zero para os outros. No jargão jornalístico, chamamos isso de “matéria rec”, traduzindo, “matéria recomendada, obrigatória, da casa”. Não deveria ser assim. Eventos importantes em nosso país, muitas vezes passam em branco nos telejornais, jornais e programas da casa. Simplesmente porque não são matérias “rec”.

[foto Reprodução]

DUELO

Não é de hoje que político briga com jornal, que jornal briga com político. O embate mais recente, estamos acompanhando pelas páginas do jornal O Globo e pelo que sai da boca do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. É O Globo implicando com o prefeito e o prefeito implicando com O Globo. Um  assunto diário. Ai vira aquela coisa chata pra quem assina, pra quem ainda vai à banca comprar o jornal. Nos últimos tempos, não passamos um dia sequer sem uma denúncia contra a prefeitura do Rio na primeira página do jornal dos Marinhos. Em todas as áreas. Saúde, educação, saneamento básico, segurança, cultura, nada escapa. Crivella, revoltado com o que chama de perseguição, resolveu barrar a Globo como um todo em suas manifestações. Jornalistas de O Globo, TV Globo, G1, GloboNews, simplesmente andam sendo barrados em qualquer evento da Prefeitura. Mesmo aqueles em que o prefeito se sai bem, faz acordos, inaugura obras. Crivella achou que, com isso, o carioca simplesmente ficaria sem saber como anda a prefeitura, pro bem ou pro mal. De nada adiantou. A popularidade do prefeito despencou, é a pior possível e até o instituto DataFolha entrou na briga pra saber o que o carioca está achando disso tudo. Resultado: 76% da população está contra o prefeito. E agora, a Justiça também entrou no rolo e considerou ilegal a atitude do prefeito birrento. Enquanto isso, uma outra briga é travada em outro ringue: Bolsonaro X Folha. Mas essa é outra história. E quem sai perdendo nesse tipo de briga boba é o pobre do leitor.

NEXO

Fazer títulos é uma arte. Cativar o leitor para a leitura da matéria é a pedra fundamental para um bom título. Um exemplo. Vi, um dia, o título “Cuidado, tinta fresca!”. Comecei a ler a matéria e vi que tratava-se de falsificação de quadros de gênios dia pintura. Talvez tenha sido este um dos melhores que vi. Já fiz milhares de títulos por ai. O que nunca me esqueço foi um que lavrei na certeza de não passar pelo crivo do editor-chefe de Internacional do Estadão, onde eu cuidava da coluna Pelo Mundo, um apanhado de notinhas que não tínhamos onde enfiar. Chegou pelo telex a foto de três carabineiros encurralando uma onça num parque da capital italiana. Ela havia fugido de um circo e estava bem assustada, mostrando os dentes e as garras. O título que dei foi “Roma de Felino”. Passou! Saiu impresso no Estadão e eu o guardo como um troféu de início de carreira. Tudo isso para falar do título que saiu na edição de ontem no suplemento de turismo do jornal O Globo. A foto de uma performance de pinguins amarelos em fila na mas famosa ponte da capital Tcheca caiu nas mãos do editor e ele, para aproveitar a curiosa e inusitada foto, titulou: “Assim caminha Praga”. A princípio, achei que era delírio do tituleiro para não desperdiçar a foto, que é boa. Mas, ao ler a matéria, percebi que ela faz sentido, já que o assunto é a invasão da arte contemporânea numa das cidades mais tradicionais e glamurosas do mundo. Rendi-me ao título e guardei na minha coleção. Assim caminham as boas ideias…

FOTOJORNALISMO

A revista mensal colombiana Arcadia escolheu as melhores fotos feitas por jornalistas profissionais durante as manifestações do mês passado, em várias cidades do país. Muitas vezes, uma foto diz mais do que mil palavras. Como um cartum, inúmeras vezes, vale mais dos que um editorial. Selecionamos aqui cinco fotos de Esteban Veja La-Rotta.

 

[Reprodução/Arcádia]

PUXANDO A BRASA PRA SARDINHA

Quando o Caderno 2 foi lançado, em abril de 1986, eu fazia parte de uma equipe inovadora e, principalmente muito inquieta. Em poucos meses, o suplemento era o mais lido do Estadão. Virou uma espécie de Pasquim encartado dentro de um jornal declaradamente conservador. Costumávamos dizer que o Caderno 2 era uma mistura de Planeta Diário e Gazeta Mercantil. Enfim, o suplemento de artes e espetáculos do Estadão era uma festa. Queríamos fazer um jornal informativo, divertido e bonito. Suas capas eram feitas com esmero a cada dia. Capas que entraram para a história. Assim que o jornalão mudou de direção, em 1987, o Caderno 2 mudou também. Encaretou, ficou igual a todos os outros. Basta comparar as duas capas expostas acima. Uma da década de 1980 e outra de 2019. O Estadão, como um todo, ficou feio. Precisa de uma reforma gráfica urgente, antes de acabe. 

O MEDO

Você já deve ter percebido que a grande imprensa, principalmente a televisão, morre de medo de algumas palavras. Golpe, por exemplo. Alguns, juram de pés juntos que não houve um por aqui em 2016. Acreditam piamente que tudo foi feito dentro da lei. Nem golpe lá fora, no estrangeiro, essa imprensa falava. Medo da associação ao nosso golpe que derrubou uma presidenta eleita democraticamente. Os nossos telejornais, durante meses e meses falou em reforma da Previdência. Colocou no ar cem por cento de sonoras de especialistas a favor. Nunca ouviu o povo. Era só gente falando que se a reforma não passasse, o país quebrava. Quando vieram as manifestações lá fora, principalmente na Argentina e no Chile, a tal reforma da Previdência foi esquecida. Todos sabem que o povo, milhares de pessoas, foram às ruas pra protestar contra a reforma, exatamente a mesma que vai ser implantada por aqui. Mas os telejornais pisavam em ovos, procurando palavras que não faziam lembrar a nossa reforma. Os textos diziam que “foram às ruas para protestar contra o governo” (nunca diziam que tratava-se de um governo de direita como o nosso), “manifestantes tomaram a avenida” (sem dizer o motivo) ou “houve tumulto durante os protestos…” (e aí mostravam cenas de violência, como se os manifestantes fossem um bando de vândalos”. Agora a coisa mudou. A reforma do governo de ultra-direita do presidente Bolsonaro foi aprovada e então fala-se em “protestos contra a reforma da previdência”, explicitamente. Agora pode. Fala-se claramente, na televisão, nos jornais, nos sites de noticia. Protestos contra a reforma da Previdência lá fora pode. 

AQUELE ABRAÇO!

Qualquer tipo de protesto é válido, faz parte da democracia. O jornal O Globo é especialista em publicar, na sua primeira página, protestos pacíficos como, esta semana, o abraço ao museu MAR, que anda ruim das pernas. Já tivemos abraços a lagoas, prédios ameaçados de demolição, uma árvore de jacarandá ameaçada de vir abaixo, já vimos antas na Esplanada dos Ministérios, já vimos velas, lenços brancos, cruzes. VillasNews fica aqui torcendo para que esses protestos não passem de uma foto na primeira página de O Globo. Vamos salvar o MAR!

[fotos Reprodução]

 

JORNALISMO NAS COXAS

O acidente doméstico sofrido pelo apresentador Gugu Liberato, ontem em Orlando, nos Estados Unidos, mostrou claramente como é feito o jornalismo às pressas e nas coxas. A noticia circulava nos programas de fofoca à tarde na televisão e nas redes sociais numa velocidade estonteante. Pegamos apenas dois exemplos, um do site da revista Caras, e outro do jornal O Dia, do Rio, para mostrar como é feito tal jornalismo. Com um título de duas linhas e um texto introdutório de seis, veja o primeiro festival de barbaridades.

Na Caras, o titulo diz que ele está em “estado grave”, mas, na verdade, quem diz não é o o site e sim um colunista. É o tal do “tirar da reta”. Se ele está bem, em estado grave ou morto, quem está falando (acertando ou errando) é o colunista, e não nosso site. 

Na legenda, já não é mais “está”, mas “estariam estado grave”. E logo na primeira linha do texto, o redator, ou redatora, escreveu que ele “passou por um susto”. Como assim, foi só um susto e ele está em “estado grave”?

Mais abaixo, o texto diz que o apresentador “estava no local”. Que local? Orlando? O local do acidente? Que local?

Mas, pior mesmo foi a jornalista Fábia Oliveira, do jornal carioca O Dia, que deve ter pensado: “Caiu do telhado, de uma altura de 4 metros, bateu a cabeça numa quina… ah, só pode ter morrido”. E anunciou sua morte no título, mas ressaltando, na primeira linha, que ele “teria tido morte cerebral”.

[fotos Reprodução site Caras/jornal O Dia]

BELEZA PURA

Nos últimos tempos, o jornal Folha de S.Paulo cortou as revistas São Paulo, Serafina, cortou os cadernos Sinapse, Folhateen, Ciência, Equilíbrio, Folhinha, o suplemento semanal do The New York Times e outros que me falha a memória. Ao invés de investir, crescer, cativar e ganhar leitores, o jornal faz exatamente o contrário, cavando o abismo com os seus próprios pés, plagiando Agenor de Oliveira, o Cartola.

Mas justiça seja feita. Mesmo sem crescer em tamanho, a Ilustrada tem brilhado nos últimos tempos. Dizem que em Jornalismo, nunca se deve mexer em logotipo. A Ilustrada mexe e surpreende a cada dia o leitor. Ilustrada tem sido, todas as manhãs, a grande surpresa do jornal. Com uma edição gráfica da capa, que varia a cada dia, virou uma pequena atração dentro do jornal. Trabalhar com criatividade é fundamental para um bom jornal, um bom telejornal, um bom podcast.

Sim, a Folha precisa crescer a Ilustrada em conteúdo. Mas aqui, volto ao assunto: Justiça seja feita. Geralmente os artigos de capa estão bem escritos, atrativos, bem costurados e bem variados. Seria ótimo se a ideia de surpreender o leitor como tem feito com a Ilustrada, se espalhasse pelo jornal inteiro, que é burocrático no formato. Os tempos são de mudanças.

 

 

 

 

PAINEL DOS LEITORES

Dizem que quem escreve cartas para jornais e revistas tem algum distúrbio. Muitos leitores sequer passam os olhos nas cartas dos leitores. A edição desta segunda-feira do jornal Folha de S.Paulo publicou uma carta que registramos aqui. Curta e grossa, saiu do ritmo de elogios & criticas ao jornal. Vale a pena das uma espiada no Painel dos Leitores todos os dias. 

MAMA ÁFRICA

A imprensa brasileira nunca deu muita bola pra África. Notícias do continente, você vê de tempos em tempos quando há um golpe militar, um surto de Ebola, um avião que cai. Nós, brasileiros, sabemos pouco sobre os africanos. Há quanto tempo você não lê uma notícia sobre o Burundi, Burkina Faso, Zâmbia ou Zaire? Nem mesmo sobre Angola ou Moçambique, onde reina o português, temos notícia. Essa semana, o jornal francês Le Monde anunciou uma novidade em suas plataformas digitais. 

O Monde designou nada mais, nada menos que 35 jornalistas para a cobertura permanente do continente africano. Trinta e cinco! Todos eles ficarão por conta de fornecer conteúdo jornalístico para o jornal, uma cobertura jamais vista na imprensa mundial. Política, economia, esporte, meio-ambiente, cultura, religião, as editorias são muitas e abrangentes. O Le Monde Afrique nasce, numa época em que, no Brasil e em vários países, os jornais minguam, os leitores fogem, as luzes se apagam. O Le Monde, remando contra a maré,  dá uma lição. Lógico que o interesse francês sobre o continente africano é imenso. São milhares de imigrantes e filhos de imigrantes que moram no país. Inúmeros países que outrora foram colônias. A música africana em Paris merece prateleiras especiais em todas as lojas de discos e plataformas musicais. 

Enquanto por aqui ficamos apenas com noticias curtas produzidas a partir do material de agências de informação, os franceses entram em campo. Sim, talvez falemos da África no 20 de novembro, dia da consciência negra. Depois, só quando houver um golpe militar, um surto de Ebola, uma queda de avião. E olhe lá!

O QUE PODE ESSA LÍNGUA?

Pode parecer maldade rir do erro dos outros. Mas a seção Erramos do jornal Folha de S.Paulo, não passa desapercebida da lupa do VILLASNEWS. Tem dias que é informativa, realmente um erro a se corrigir. Mas tem dias que mais parece uma seção de humor. “O jogo não foi em Goiânia e sim em Tóquio”, “Fulano é homem e não mulher, conforme foi publicado”, por exemplo. Quem será que no dia 5 de novembro alguém percebeu que “Revolução de Outubro” grafada com sinais do alfabeto cirílico, estava errada?