ANOREXIA

Todos sabemos que no verão os jornais emagrecem. Não para ficar bem na foto, mas por falta e publicidade. Os suplementos de turismo, sobreviventes de cortes que fizeram desaparecer cadernos importantes, resistem graças à publicidade que ainda pingam em suas páginas. Nos últimos tempos vimos desaparecer das bancas boas revistas como a Viagem e Turismo e Próxima Viagem. Com todas as informações disponíveis sobre viagem estão na Internet, inclusive hospedagem, restaurantes, museus, ruas, tudo atualizado, as revistas foram perdendo o sentido, bem como os guias de viagem. Hoje o turista prefere um smartphone na mão do que um pesado guia turístico, muitas vezes desatualizado. Neste carnaval sentimos o drama de perto. Os suplementos de turismo do Globo e da Folha estavam com o tamanho de um folheto de publicidade, de uma capa tipo informe publicitário. O Turismo da Folha, por exemplo, tinha 4 páginas. Resumindo: os suplementos de turismo estão com os dias contados, com a morte anunciada.

[foto Reprodução]

FAMOSA QUEM

A minha primeira leitura nos jornais de domingo é a página C2 da Ilustrada que abriga um perfil/entrevista, quase sempre bem conduzido, de pessoas interessantes, algumas vezes em voga, outras não. Neste domingo, primeiro dia de março, tive uma surpresa ao abrir o suplemento de variedades da Folha e encontrar lá a personagem da semana que, confesso, nunca tinha ouvido falar. Talvez por ignorância ou por não costumar ler as colunas onde o seu nome costuma frequentar: Antonia Fontenelle! Aos poucos, lendo a matéria, fui sabendo de quem se tratava. Companheira do ator e diretor Marcos Paulo durante alguns anos, comprou uma briga na justiça com a família dele para ter uma fatia do bolo, assim que ele morreu. Antonia é um pouco de tudo. Meio atriz, meio socialite, meio famosa, meio jornalista, soube que tem um programa de entrevistas no Youtube chamado “Na Lata”, que “bomba”. Acabei de ler a página com o seu perfil e fui direto pro computador para me inteirar que programa era esse. Descobri que Antonia é assim uma espécie de Joice Hasselmann, no jeitão. Suas entrevistas são geralmente com pessoas de direita, pessoas que pensam como ela. Usa e abusa daquela frase “eu sou assim, pergunto mesmo”, como se estivesse arrancando do entrevistado um grande furo de reportagem. Tive a paciência de ver algumas dessas entrevistas, sempre lembrando dos milhares e milhares de seguidores que ela tem. No fundo, a gente se diverte. Por exemplo, ao ouvir dela que o GNT é um canal de esquerda e que o cantor e compositor Gilberto Gil é incoerente, pois como pode uma pessoa de esquerda (só faltou dizer que ele é comunista) fazer uma música que diz “andar com fé eu vou porque a fé não costuma falhar”. Essas duas afirmações foram ditas a Danilo Gentilli, seu companheiro de “partido”. Resumo da ópera: daqui pra frente, quando alguém falar em Antonia Fontenelle eu vou saber quem é. Infelizmente. (AV)

[foto Reprodução Na Lata]

AGORA, FALANDO SÉRIO!

O título da reportagem sobre a live de Jair Bolsonaro, publicado na edição desta sexta-feira (28) na Folha de S.Paulo, pisa em ovos. Na verdade, o mais forte das bobagens que falou na noite de quinta-feira foi atacar os jornalistas, destruir a Folha de S.Paulo, a revista Época e a TV Globo principalmente, além de dizer que vai aconselhar os seus ministros a dar entrevistas à CNN Brasil (que ele não lembrou o nome na hora) e não à Globo que, segundo ele, é sensacionalista, canalha e mentirosa. Agora, falando sério: os jornais estão com medo do presidente de ultra-direita. 

[foto Reprodução]

CIDADE

O jornal Le Monde anunciou em sua edição datada desta quinta-feira (20), matéria de página inteira, como ficará a Avenida dos Champs Elysées, que vai passar por um banho de loja. 

[foto Reprodução]

A CAPA DE HOJE

Pauta boa, nova e interessante, é ouvir o artista chinês Ai Weiwei sobre o coronavírus que assola o seu país e dar no título: “O antivírus”. Robinson é um suplemento semanal do jornal italiano La Repubblica.

[foto Reprodução]

MACONHA LIVRE!

A edição de fim de semana do jornal francês Le Monde, publica uma extensa reportagem sobre a liberação da cannabis no Uruguai, nosso vizinho. O texto foca no quesito pesquisa e mostra fatos importantes como, por exemplo, dezenas de países do chamado primeiro mundo que mandou pesquisadores ao país de Mujica, para estudar a evolução da planta como medicamento. Um mapa mostra em que países a cannabis está liberado e sendo estudado, tipo de informação que a maioria dos brasileiros, infelizmente não têm.

[fotos Reprodução]

SE ESSA RUA FOSSE MINHA

Nunca me esqueço das aulas de Jornalismo no prédio da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. Apaixonado pela profissão, desde pequenininho, virei uma espécie de ombudsman de jornais, telejornais, revistas, folhetos de propaganda, outdoors, bulas de remédio. Por pura paixão. Acordo todos os dias com o barulho do porteiro do meu prédio jogando o jornal em cima do capacho, cinco, cinco e pouco da manhã. A primeira coisa do dia que faço é dar uma primeira olhada nos jornais, uns de papel, outros na tela do computador. Dia desses, quando bati os olhos na primeira página da Folha de S.Paulo e vi as fotografias em destaque, lembrei-me logo de um clássico do jornalismo quando ainda não havia carnaval em São Paulo, tempo que assumíamos o apelido dado por Vinícius de Moraes, o túmulo do samba. Os jornais costumavam, fazer um paralelo entre a cidade caótica e a patética. Publicavam duas fotografias, uma do lado da outra, mostrando a Avenida Paulista na hora do rush, num dia útil e, ao lado, a mesma avenida, do mesmo ângulo, sem uma viva alma. Fazia sentindo. Dia desses, duas fotos publicadas pela Folha, lado a lado, mostravam uma rua vazia e outra completamente destruída, acabada pelos temporais. Pensei com os meus botões: Meu Deus, olha como era essa rua em Belo Horizonte e como está hoje. Que nada, a foto da esquerda estava distante mais de 15 mil quilômetros da foto da direita. O jornal mostrou a cidade fantasma de Wuhan, na China, epicentro do coronavírus e, ao lado, era a minha Belo Horizonte arrasada pelos temporais. Voltando às aulas de Jornalismo na UFMG, pensei: O que tem a ver uma rua vazia, com a população com medo de um vírus, asfalto lisinho, com uma rua de Belo em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, destruída pelas águas? Não estavam ali lado a lado por acaso, já que a legenda era uma só. Mais de quatro décadas depois daquelas aulas na Fafich, ainda continua intrigado com o jornalismo. 

[foto Reprodução Folha de S.Paulo]

A MANCHETE DE HOJE

Enlatados, industrializados, poluição, estresse, mundo moderno, agrotóxicos… o número de diagnosticados com câncer aumenta assustadoramente no mundo. Enquanto a televisão diz que o “agro é pop/o agro é tudo”. Manchete principal do jornal Le Monde datado de 05/02/20.

[foto Reprodução]

DIA DE INDÍGENA

A edição de desta terça-feira (4), dedica duas páginas aos nossos indígenas. Uma boa entrevista com Davi Kopenawa, xamã e líder Yanomami, além de um texto sobre a exposição de fotos da tribo, feitas pela competentíssima Claudia Andujar, que acompanha a vida dos yanomamis há décadas. A exposição, em cartaz na Fondation Louis Vuitton, está merecendo elogios em cima de elogios, ganhando inclusive a capa da prestigiosa revista Télérama. Filas diárias são vistas na porta da Fondation para ver a exposição, que já esteve em cartaz por aqui no Instituto Moreira Salles. Veja na foto abaixo.

[fotos Reprodução/Divulgação] 

O SONHO ACABOU

Que sonho? O sonho de ter uma profissão, aquele sonho que desperta na juventude e a pessoa vai em frente. Estuda, fez vestibular, faz estágio, se forma e consegue um emprego. 

A Sandra faz brigadeiros, mas a profissão dela é advogada.

A Eunice faz bolos, mas a profissão dela é jornalista.

O Eduardo é motorista de Uber, mas a profissão dele é professor.

A Madalena faz cestas de café da manhã, mas a profissão dela é farmacêutica.

A televisão nos mostra todos os dias casos assim, como se fossem novos empreendedores, considerados empregados pelas pesquisas do IBGE.

Será que a farmacêutica Madalena descobriu, de repente sua nova profissão, a de fazer cestas de café da manhã?

E o Eduardo? Cansou de dar aulas e sacou que o que gosta mesmo de fazer na vida é viver engarrafado no trânsito de São Paulo?

Mudar de profissão não tem nada de anormal, é muito comum. Mas no Brasil de hoje, o que está acontecendo é que, depois de passar dois anos desempregada, uma jornalista passe a fazer bolos. Depois de cinco anos enviando currículos, a secretária bilingue passe a vender roupas do Paraguai. Fazer bolo é uma profissão, além de prazeiroso. Mas a jornalista, queria mesmo mudar de profissão? Ser comerciante é digno como qualquer profissão, mas será que a secretária bilingue está vendendo roupas do Paraguai porque ama fazer isso, mais do que ser secretária bilingue?

A televisão tenta esconder esse lado e rotulou a todos de novos empreendedores. E assim essas pessoas vão seguindo a vida. Fazendo casinhas de Pet, vendendo capinhas de celular, entregando quentinhas em domicílio, fazendo coxinhas para vender na firma onde trabalhava como auxiliar de almoxarife, fazendo um biquinho aqui, outro ali. 

São brasileiros que trabalham duro, às vezes sete dias por semana. Não têm férias, não tem plano de saúde, vale-refeição, vale-transporte, décimo-terceiro salário, horas-extras, crachá, não pagem INSS,  nada disso. Mas estão contribuindo para que os jornais estampem na manhã seguinte: “Desemprego cai em 2019”.

[foto Internet]  

 

 

HISTÓRIA EM QUADRINHOS

O diário francês Libération é a minha Bíblia. Mesmo sendo um pouco distante daquele jornalzinho preto e branco de 1968, lançado nas ruas de uma Paris em chamas. Aquele jornal que não aceitava publicidade e era uma arma que se juntava às pedras do Boulevard St.Germain contra policiais e um governo conservador. Acompanho desde então o Libé, como sempre foi chamado. Já escrevi crônicas sobre essa paixão, artigos para o Caderno 2 do Estadão e também para a luxuosa revista The President. Não me canso de exaltar esse tabloide. Estou aqui hoje para falar da edição desta quinta-feira, 30 de janeiro, que está nas bancas espalhadas pela França. O meu amor por esse jornal é a sua criatividade. Ele está sempre surpreendendo os seus leitores, como eu. Procura nunca ser o óbvio, encadernado numa fórmula. Quando preciso rompe com o logotipo, rompe com o papel, rompe com qualquer ranço de tradição. Qual é a novidade de hoje? Aproveitando a ocasião do Festival de Quadrinhos de Angoulême, o maior do mundo, a redação entregou a quadrinistas todas as ilustrações do jornal. Nenhuma foto, só quadrinhos, em todas as páginas, ilustrando greves, coronavirus, Trump, Macron, gols, filmes, economia, tudo. Dá gosto acompanhar um jornal que nos surpreende a cada dia, desde 1968. 

[foto Reprodução]

MUDANÇA DE HÁBITO

Jornais brasileiros geralmente resistem em mudar seu lar-out. Quando mudam, surpreendem. Recentemente tivemos dois casos: o do jornal carioca O Dia, que fez uma capa caindo aos pedaços, assim que o Rio começou a despencar, e mais recentemente, o jornal mineiro O Tempo, que seguiu a linha do Dia e fez a sua capa afundando o logotipo num mar de lama. Pena que foram em duas tragédias que os jornais decidiram ousar. Eles precisavam ousar mais, no dia a dia, para surpreender seus leitores. 

[fotos Reprodução]

MULHER DE MALANDRO

Um relatório da Federação Nacional dos Jornalistas(FENAJ) divulgado recentemente, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro, em um ano e um mês de mandato, já desmoralizou, xingou, humilhou e chacoteou os jornalistas mais de cem vezes. Tudo isso, praticamente num só lugar: no gradil que cerca o Palácio da Alvorada, onde eles se apertam toda manhã, ao lado de fiéis seguidores do presidente de ultra-direita. Os jornalistas estão fazendo o papel daquela velha história, hoje quase proibida, da mulher de malandro. Que apanha, apanha, apanha do marido mas não o larga. Quando Bolsonaro disse que jornalista é uma raça em extinção, que jornalista mente, quando respondeu a um dizendo “é a sua mãe”, a outro que “você tem uma cara terrivelmente de gay”, era para os jornalistas ali presentes terem dado um basta e voltado para as redações, deixado aquele gradil para sempre. Mas não. Eles insistem. Mesmo com o presidente fazendo chacota dizendo que não ia mais dar entrevistas a eles ali, os funcionários da imprensa voltaram no dia seguinte, como carneirinhos. Todos sabem que aquela participação matinal do presidente ali é uma jogada de marketing. A bobagem que ele fala logo cedo repercute durante todo o dia. Se eles não aparecessem mais ali na porta do Alvorada, em protesto, aquele pitstop do presidente não duraria mais que uma semana. Mas ai, pobres jornalistas que cobrem o presidente, ficariam sem pauta. Vale lembrar aquele protestos dos repórteres fotográficos, no início do anos 1980, quando colocaram as suas máquinas no chão e não fotografaram o presidente João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, em protesto contra as agressões do presidente. O combinado é que apenas um registrasse a foto para a história. Parece que os jornalistas tinham mais peito na ditadura do que agora, nessa coisa que ninguém explica o que é. 

[fotos Internet]

250 ANOS

As revistas e jornais europeus estão saudando com grandes festividades os 250 anos de nascimento de Ludwig Van Beethoven. Aqui, El Viajero, o suplemento de viagem do jornal espanhol El País, que faz um circuito Beethoven por Viena, sua cidade natal.

[foto Reprodução]

FOFOCALIZANDO

Londres sempre foi uma cidade muito chique. Muito mais que Paris. O chá das cinco, os ovos com bacon, o táxi preto, o ônibus vermelho, a cabine telefônica. Reis e rainhas, os Beatles e os Rolling Stones. Londres é Londres, com seu fog, sua chuvinha fina, seus verdes lindos gramados campos de lá. Londres tem a Harrold’s, a Saint Martin Shoes, as cerejas vistosas, os luminosos de Picadilly Circus, a Economist. Mesmo quando os punks invadiram a cidade, esfarrapados, espetados, rasgados, Londres foi sempre Londres. Mas lá tem também uma porção Datena, uma porção Venenosa, fofocalizando. Estou falando dos trabloides sensacionalistas que invadem aos milhões as lojinhas de jornais, já que Londres não tem bancas. É o lado esquisito de uma cidade tão aristocrata.  Os ingleses compram os jornais na boca do metrô e, no ponto final, ele vai pro lixo. Sempre foi assim. Londres é uma pessoa que usa black-tie e, um dia, resolve vestir uma bermuda surrada, uma camiseta puída, um chinelo Rider. Quem explica o sucesso dos tabloides no país da Radio Times, da Wild Life, da Face?

[foto EPA]

OLHA O PASSARINHO!

Bombardeado por notícias que chegam 24 horas de todos os lados, o leitor às vezes cansa. E pede uma leitura apenas leitura, nova e interessante. Quando alguns jornais percebem isso, acertam na mosca. O Le Monde, por exemplo, em sua última edição, publicou uma matéria de página inteira revelando que cinco novas espécies de pássaros foram identificadas na Indonésia. O editor-chefe convencional deixaria a notícia de lado ou simplesmente registraria tal novidade em uma nota curta. “Indonésia? Pássaros? Onde está o gancho?”, perguntaria ele. O editores do Monde estão procurando, cada vez mais, esse tipo de notícia. Aquela que dá ao leitor o prazer da leitura. Com um texto bem costurado, quase literário, acabamos  apaixonados pelo passarinho vermelho de Taliabu, aquele que ninguém tinha percebido nesse Planeta tão judiado e destruído.

[fotos Reprodução] 

VIRE À DIREITA

Em Hong Kong, os guarda-chuvas viraram símbolo das manifestações. No Chile, foi um olho fechado e, no Brasil, todos lembram, a camisa da seleção brasileira, além de um pato amarelo. Manifestações de esquerda, no caso do Chile, e de direita, no caso do Brasil. Na França, foram as patinetes que transformaram-se em símbolo dos direitistas. O suplemento L’Époque, do jornal Le Monde, publica uma curiosa matéria de capa em que pergunta: “A patinete é de direita?” Se não é, ficou com o estigma. Como no Brasil. Uma pessoa que veste uma camisa amarela canarinho e sai por aí, dificilmente é de esquerda.

[foto Reprodução]