QUEM É QUEM

A imprensa brasileira não tem coragem de escrever que Jair Bolsonaro é o candidato da extrema-direita. Somente lendo os jornais estrangeiros, no caso aqui do italiano La Replubblica de hoje, você lê claramente que o candidato Bolsonaro é da ultra-direita e que Fernando Haddad, que está encostando no primeiro colocado, é um candidato de esquerda. Simples, não é mesmo?

[foto Reprodução]

O SHOW DA VIDA

Há dezessete anos, coloquei no ar no programa Fantástico, outrora “show da vida”, um VT que está seguramente na minha lista particular do Top 5. Naquele fim de semana que seguiu ao ataque terrorista em Nova York, que colocou abaixo as duas torres gêmeas, era o meu plantão para fechar e colocar no ar o programa dominical da Rede Globo. Voei mais cedo pro Rio de Janeiro porque sabia que os dias iam ser pesados. E foram. Recebemos na redação, via escritório de Nova York, um vídeo de 26 minutos, gravado por um médico que resolveu, por conta própria, socorrer as vítimas. Com uma câmera numa mão e os aparelhos de medicina na outra, ele entrou nos escombros correndo risco, sabendo que poderia não sair dali com vida. Foi gravando o que via, o sofrimento das pessoas, aquelas imagens aterrorizantes. O diretor do programa sugeriu que eu transformasse aquilo numa reportagem de, no máximo, dez minutos, com off e tudo mais. Assisti e assisti novamente três vezes aquele vídeo e fui lutar por ele. Argumentei que deveríamos colocar no ar o que chamamos de matéria bruta, os 26 minutos, sem edição, sem off, apenas com legendas, de tempos em tempos, que eram as observações que o médico fazia. Venci e os 26 minutos brutos abriram o programa naquele domingo. Me senti realizado profissionalmente quando, na reunião de pauta da terça-feira, entrei na redação e recebi um forte abraço do repórter Eduardo Faustino e um curto: “Parabéns, cara!”

 

 

 

LEITORES

O Globinho acabou, o Estadinho acabou e a Folhinha acabou. Alguém ainda se lembra do Suplemento Juvenil, das revistas Explora, da Recreio, da Pop e de tantas outras revistas e suplementos dirigidos às crianças e adolescentes? Acabaram todas. Enquanto isso, o jornal francês anuncia hoje que chegou a 1 milhão de assinantes adolescentes. A França tem uma política de oferecer assinaturas a estudantes pela metade do preço. O hábito faz o monge. O estudante acostuma a ler jornais, a ler revistas semanais de informação, a ler. E, formado, continua assinando e lendo. Aqui, pelo visto, temos cada vez menos e menos leitores. Menos e menos jornais e revistas. Menos e menos um país.

[foto Reprodução]

DOIS PESOS, UMA MEDIDA

Folha de S.Paulo, sexta, 7 de setembro

Folha de S.Paulo, sábado, 8 de setembro

Folha de S.Paulo, domingo, 9 de setembro

O jornal Folha de S.Paulo, nos últimos três dias, dedicou uma foto com a imagem do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, em sua primeira página. Até ai, tudo bem. Cada jornal escolhe a foto que acha mais importante do dia para colocar na sua vitrine. Mas, observando acima, percebemos o seguinte: No primeiro dia, 7 de setembro, o jornal estampa, com grande destaque, uma sequência de fotos do momento em que o direitista estava sendo esfaqueado em Juiz de Fora.   No segundo dia, 8 de setembro, com destaque igual, a foto de um boneco inflável, cuja legenda dizia “apoiadores…” (no plural), sendo que a imagem mostrava apenas um homem singular, segurando uma bandeira nacional. No terceiro dia, ontem, 9 de setembro, uma fotografia da maior importância mostrando um candidato numa cadeira de hospital, convalescendo de um ataque violento, fazendo, com as mãos, o sinal característico de uma arma, da mais mais extrema violência. Apesar do choque da imagem, a Folha preferiu dar apenas um pequeno destaque, publicando a foto quase como se fosse um 3X4.

[fotos Reprodução]

 

O DIA DOS CANDIDATOS

Não tem nada mais chato, burocrático e previsível quando o apresentador do telejornal, seja ele qual for, anuncia: Veja agora como foi o dia dos candidatos. É sempre a mesma coisa. Imagens do candidato visitando um hospital, uma escola, um restaurante popular. Depois das imagens do candidato prestando atenção nas máquinas, vem sempre a palavrinha do candidato, coisas do tipo: Vamos fortalecer a saúde, construindo novos hospitais, com alta tecnologia, profissionais competentes e bem remunerados. Com isso, vamos acabar com as filas e o sofrimento de quem necessita de tratamento. Se a visita foi numa escola, o mesmo lengalenga: Vamos reformar e construir novas escolas, que terão computadores e professores com salários dignos. Vamos dar uma educação de primeiro mundo. Se é no restaurante popular, vem aquelas imagens do candidato sentando à mesa junto de um desconhecido, cumprimentando-o e provando o arroz com feijão. Aliás, arroz com feijão é a cobertura que todos os telejornais estão fazendo, sem exceção.

[foto Reprodução Internet]

HORÓSCOPO

O Brasil tem uma turma grande de comentaristas econômicos. A perder de vista. Muitas vezes estão ao mesmo tempo aparecendo na TV, falando no rádio e escrevendo nos jornais. Dão palpite sobre tudo e sobre todos. São sempre levados a sério, como se tivessem a palavra final sobre inflação, crise, gestão e o que mais vier pela frente. Muitas vezes erram feio, mas o erro nunca é lembrado, é geralmente esquecido pelos editores-chefes e pelos leitores que nem precisam levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. E não é somente na área econômica. Lembro-me bem que há aproximadamente dez anos, uma jornalista da Folha de S.Paulo decretou, na capa da Ilustrada, “o fim do pretinho básico”, como se dali pra frente quem usasse um desses modelitos, estaria completamente fora de moda. Dez anos depois, trombamos com nove entre dez mulheres com pretinho básico em qualquer festa noturna. Hoje, vimos uma Argentina mergulhada numa crise econômica brava, feroz, revoltante. Para conferir tudo que disse acima, basta ler esse comentário escrito por Miriam Leitão, no jornal O Globo, em outubro do ano passado. Sua previsão é tão certeira quanto aquele horóscopo de um endividado que diz assim: “Dia bom para as finanças”.

[foto Reprodução/via Julio Cesar]

A IMPRENSA ESCANCARADA

Com certeza, o editor-chefe do jornal O Estado de S.Paulo sabe que, com raríssimas exceções, políticos brasileiros são eleitos – e não é de hoje – com ajuda de caixa 2. Mas, bem perto das eleições, ele resolve colocar em sua manchete principal, uma acusação contra o candidato a vice na chapa de Lula, o primeiro disparado em todas as pesquisas. É claramente uma tentativa desesperada de diminuir os pontos que o PT tem nas pesquisas do Ibope e do DataFolha, dos dois principais institutos do país. Para escancarar ainda mais sua parcialidade, o jornal coloca, no alto da página, uma chamada positiva para o candidato do Partido Novo, seguramente o candidato do Estadão, já que Geraldo Alckmin não consegue decolar, não sai do chão, talvez por falta de combustível ou enguiço na mecânica mesmo.

[foto Reprodução]

ENVIADOS ESPECIAIS

O Libération chegou hoje cedo às bancas da França com uma grande cobertura. Os repórter do jornal foram até a Faixa de Gaza para ouvir os seus moradores. São palestinos mutilados, ameaçados, que convivem com uma guerra que não tem hora para terminar. Mostram o dia a dia daqueles que convivem diariamente com o temor, o horror. Chamo isso de Jornalismo.

[foto Reprodução]

CRISE DE ABSTINÊNCIA

Sim, estou. Desde que deixei Florença, sinto falta. Sinto falta do Rio Arno, por onde passava todos os dias, iPhone na mão, sempre captando uma novidade. Sinto falta da Ponte Vechio transbordando de gente e da banquinha de jornais que tinha, bem na esquina da casa onde morávamos. Era lá que toda manhã ia comprar o jornal La Repubblica. O dono da banca, a edicola, já me conhecia e ia lá dentro buscar o jornal assim que me via despontar. Todos os dias, ele me entregava nas mãos, um La Repubblica gordo, pesado e cheio de novidades. Estou em crise de abstinência. Queria voltar a ler as páginas iniciais, o Primo Piano, as notícias mais importantes do dia. Estou em crise de abstinência porque já faz mais de mês que não leio nas minhas mãos o caderno Food, o caderno Lab, o caderno Club e o caderno Salute. Já faz mais de mês que quando chega sexta-feira eu não tenho nas minhas mãos a revista Il Venerdi, com pautas maravilhosas. No domingo, sinto falta do suplemento Robinson, com dicas de todos aqueles livros maravilhosos pra ler, todos aqueles discos maravilhosos pra ouvir. E da revista L’Espresso, que vem junto com o La Repubblica. Eu quero um jornal de papel pra viver. A minha assinatura virtual é apenas um paliativo, os 15 euros mais bem gastos todos os meses, mas não me satisfaz completamente.

[foto Reprodução]

TRISTE BRASIL

Enquanto os nossos jornais vão minguando, demitindo jornalistas, encolhendo a olhos vistos, os jornais europeus procuram uma saída para o avanço do mundo edital. O diário comunista italiano, por exemplo, que publica um caderno de cultura excepcional no final de semana, o Aliás, foi buscar na natureza uma inspiração para mais um caderno que seguramente vai atrair leitores. L’Extra Terrestre, um suplemento de ecologia está aí para engordar o jornal, proporcional maior volume de leitura e com um assunto que interessa a todos os moradores do Planeta Terra.

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