JORNALISMO

Uma rápida espiada nas primeiras páginas de dois jornais conservadores brasileiros e na primeira página do jornal português Público, deste domingo, 10, percebemos o motivo de os jornais estarem morrendo por aqui. O discurso de Lula ontem, em São Bernardo, foi o fato principal do dia. Ou não? Os jornais brasileiros acharam que não. Triste visão. [AV]

EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Segunda-feira, dez da noite, por exemplo. Toda semana, na seção Multitela da Folha, anunciam quem será o entrevistado de segunda-feira à noite no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. Essa semana havia uma expectativa se seria ou não o ex-presidente Lula, direto de Curitiba. Não foi. Quem apareceu por lá, foi a deputada Estadual Janaina Paschoal, aquela que costuma rodar a bandeira do Brasil nos momentos de maior euforia ou delírio. Janaina sentou-se no centro da roda-viva, se achando. Dona de verdades mas, dessa vez, pisando em ovos, com um olho nas eleições para prefeito, no ano que vem. Nesses momentos, é preciso parecer séria. O Roda Viva costuma chamar sempre os representantes dos mesmos órgãos de imprensa. Comandado pela jornalista Daniela Lima, da Folha, ela vai anunciando um a um, no início do programa: Estadão, Folha, Época, Valor Econômico, UOL, O Globo… e, muito raramente algum representante de um blog ou site de notícias. Nunca de esquerda. Os entrevistadores do Roda-Viva se preparam através de apostilas que o programa distribui a eles durante a semana, mais ou menos, a vida e a obra do entrevistado. Cada um vai com meia dúzia de perguntas e, raramente, entram em grandes polêmicas. Quando elas começam, a âncora preocupadíssima com o tempo, com um cronômetro na mão, anuncia: “Temos apenas 3 minutos para duas perguntas!”. O programa, no final, é sempre uma frustração. Perguntas ficaram no ar, respostas não foram convincentes. No caso de Janaina, falou-se de laranjas, de caixa-dois, de brigas no partido, rachadinhas, mas nenhuma deixou a deputada vermelha de vergonha. Pelo contrário. Os entrevistadores nunca reagem com veemência. O entrevistado fala verdades, mentiras, meias verdades e fica por isso mesmo. Janaina chegou a dizer que “todos os partidos fazem isso” (no caso dos laranjas) e nenhum dos entrevistados reagiu: “Mas a senhora não disse que o PSL era o novo, o diferente, aquele que ia acabar com a corrupção?” Parece que os entrevistadores não querem entrar em grandes confrontos, querem aparecer na televisão, com cara de intelectual, e pronto. É o suficiente. [AV]

JORNALISMO SELETIVO

Assim virou o Brasil. Em 2050, quando os historiadores forem estudar o nosso século a partir da imprensa, vão concluir que Irmã Dulce não é santa, se basear sua pesquisa na TV Record. E vai concluir que o ex-ministro Sergio Moro foi isento, se basear sua pesquisa na TV Globo. A Record não cobrir nem informar seus telespectadores sobre Santa Dulce dos Pobres e a TV Globo não cobrir nem informar seus telespectadores sobre os vazamentos do Intercept, é uma vergonha para o país, para nós, jornalistas. [AV]

SEM FUTURO

Fico aqui pensando com os meus botões, como será contada nossa história daqui a cinquenta anos. Como dois grandes jornais, O Globo e O Estado de S.Paulo, vão explicar o silêncio em torno de grandes acontecimentos políticos? Como os Marinhos e os Mesquitas vão explicar que decidiram simplesmente não noticiar os vazamentos do Intercept que, em 2016, mudaram o rumo da nossa História? Como irão explicar que esconderam dos seus leitores tais fatos? Vivemos a era da vergonha na imprensa. Escrita e falada. A Rádio Jovem Pan, por exemplo, virou porta-voz da imprensa fascista. Jornalistas e mais jornalistas, todos empregados, mergulharam no política do esconder debaixo do tapete o que não lhe interessa. Vivemos a era da vergonha, em que no principal telejornal do país, plasticamente bonito, existe uma forte autocensura comandada por seus donos ou, quem sabe, por seus poderosos chefões, mais realistas que os reis. [AV]

DESCULPA

Espero ansiosamente pintar na telinha numa noite qualquer, numa dessas matérias comemorando os 50 anos do Jornal Nacional, o dia em que Cid Moreira leu o direito de resposta do governador Leonel Brizola. Espero ansiosamente uma reportagem sobre o pedido de desculpas das Organizações Globo, cinquenta anos depois, por ter apoiado o golpe militar de 1964. Espero ansiosamente uma reportagem que mostre como foi feita a manipulação e a edição do último debate entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. Espero ansiosamente uma reportagem mostrando como a emissora tomou partido contra Lula e o acusou de ser dono de um barquinho de alumínio estacionado no sítio de Atibaia. Espero ansiosamente uma reportagem mostrando como a emissora, com flashes desde as 7 horas da manhã, incentivou a população a ir para as ruas e derrubar a presidenta Dilma, eleita democraticamente. Espero ansiosamente. [AV]

O PERIGO VERMELHO

De vez em quando a gente ouve um “até o Jornal Nacional deu”. Como se fosse uma piedade, o principal jornal do país noticiar favoravelmente a esquerda. Mas, na verdade, o pavor, o medo, o rancor de ver a esquerda no poder é que pauta o JN, como é conhecido. Ontem à noite, por exemplo, o JN foi o JN. A vitória da chapa de centro-esquerda nas eleições primárias na Argentina, provocou um reboliço na hora de montar o telejornal das oito e meia. Quem pegou assim, o bonde andando, deve ter levado um susto. As perspectivas anunciadas pelos dois apresentadores eram as mais terríveis possíveis. A vitória da chapa Alberto-Chistina, acendeu o farol vermelho no cenário futurista do JN. Dólar em alta, bolsa em baixa, crise à vista! Qualquer sinal de vitória da esquerda, o gigante JN acorda. Acorda para passar para os telespectadores que o abismo está próximo. Macri pediu milhões ao FMI e o medo é de que a esquerda adote o calote, disse o apresentador, testa franzida, preocupadíssimo. Como se Macri vencedor, pagaria tal dívida. Mas se a direita não pagar, isso não é crise. O problema é a esquerda. A derrota contundente do candidato de Bolsonaro, fez com que ele aparecessem, lá nos pampas, alertando para o perigo vermelho. “Se a esquerdalha voltar na Argentina, o Rio Grande do Sul pode virar uma Roraima e nós não vamos permitir a entrada de argentinos fugindo do país”. A gente já está acostumado a um presidente que só fala merda e essa foi apenas mais uma. Não se iluda, quando 2022 se aproximar, o gigante JN vai surgir com todas as suas garras para tentar derrubar qualquer sinal de esquerda, e se a arma para combater os vermelhos for fake news, pouco importa. Vale tudo, já dizia o bom, velho e saudoso Tim Maia. [AV]

O OUTRO LADO DA MARGEM DO RIO

Pessoas mudam sim, alguns da água pro vinho, outras do vinho pro vinagre. O que teria acontecido com a jornalista Leda Nagle? Uma simpatia de pessoa. Passou anos no Jornal Hoje despedindo-se com um “com certeza”. Não perdia um, gostava disso. Passou anos, talvez mais de uma década à frente do Sem Censura, um ótimo programa para os fins de tarde. Fui lá umas três vezes, sempre tratado como um paxá. Dei opinião, falei o que quis, literalmente, sem censura. Fico aqui pensando nisso tudo, depois de assistir uma longa entrevista com o presidente de ultra-direita, Jair Bolsonaro, em seu programa no Youtube. Leda já entrevistou o filho Zero Alguma Coisa, o Marco Feliciano, o Marco Antônio Villa e o cantor Lobão. Leda começou a entrevista dizendo que estava se achando. Se achando por estar ali ao lado e pronta para entrevistar, ninguém menos que o presidente da República. Na verdade, uma figura asquerosa, de extrema-direita, homofóbico, anti-feminista, anti-esquerdista, aquele que está desmontando o nosso Brasil, aquele que elogiou em rede nacional e ao vivo, o maior torturador que a História do Brasil já teve. Isso ela não falou ao convidado de honra, claro. Leda era toda felicidade em estar ali frente a frente, sabe Deus se não com o seu ídolo. Patético! A primeira pergunta, sempre muito simpática, foi se ele continuava comendo pão com leite condensado no café da manhã. Nos problemas mais espinhosos do nosso país, ela apenas levantava a bola pro Bozo, como é conhecido, cortar. E a segurança? E a reforma da Previdência? E o desemprego? Foi ai que chegamos ao ponto máximo da entrevista, quando ele disse que gostaria de pegar um desempregado e dar a ele uma empresa, pra ele sentir na pele como é difícil ser patrão no Brasil. Vai pagar FGTS, vai pagar décimo-terceiro, férias, pra 10 empregados pra ver o que é bom pra tosse. Foi mais ou menos assim que o presidente viu o país de 13 milhões de desempregados. Leda ouvia tudo com a mão no queixo, aparentemente admirada com tudo o que a besta dizia. Num momento bizarro, Bolsonaro disse que foi eleito e estava ali conversando com ela, “numa boa”. E completou: “Se o Haddad estivesse aqui, com certeza ele estaria com o Maduro ao lado”. Bom dia a todos, com certeza! (Alberto Villas)

ESQUECERAM DE MIM

Quando um brasileiro leva um escorregão nas montanhas de Katmandu, os repórteres de telejornais logo encontram alguém da família que mora no Brasil e colocam no ar aquelas reportagens da mãe, da tia, da avó chorosa e apreensiva vendo a imagem do jovem acidentado na televisão Logo logo ficam sabendo onde ele estudou, de que gosta, o que come, como vive. Mostra o quarto dele, os seus livros preferidos e por aí vai. Pergunto: E o militar brasileiro, da comitiva de Bolsonaro, preso na Espanha com 39 quilos de cocaína? Ninguém foi atrás da família dele aqui, dos amigos, dos vizinhos, da escola onde estudou… Por quê? O assunto é menos interessante que um brasileiro que escorregou em Katmandu?

AV

SILÊNCIO

Houve um tempo em que, nos bastidores do Jornal Nacional, as pessoas comentavam: Se não deu no JN é porque não foi notícia. Era um tempo em que a televisão reinava quase que absoluta, com o rádio em decadência. Não havia muitos meios de comunicação, era fácil esconder uma notícia. E o Jornal Nacional escondia. Hoje, a história é outra. Ontem, no final da tarde, o site The Intercept divulgou o primeiro áudio do pacote de vazamentos que ela vem soltando. O promotor Deltan Dallagnol, comemorava a decisão do juiz Luiz Fux – aquele do “In Fux we trust”, de não autorizar o preso político Luiz Inácio Lula da Silva, a conceder uma entrevista à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo. A Rede Globo ignorou a notícia, acreditando que se ela não desse, ninguém ficaria sabendo. Nem mesmo o canal 24 horas de notícias dos Marinho deu, seguramente por ordem superior. Mas, em poucos minutos, ela se espalhou pelas redes sociais, pelos blogs alternativos, boca a boca. A expressão de alívio dos apresentadores na hora do “boa noite” era visível, tipo “ufa, nos livramos dessa notícia”. Deveria ser o contrário.

AV

SOCIEDADE ALTERNATIVA

Nos anos 1970, no auge da ditadura militar, quando prendiam, torturavam e sumiam com brasileiros, surgia a cada dia, em cada esquina, um novo jornalzinho. Geralmente tabloides, eles iam passando de mão em mão. Havia também revistas, tiragem pequena, papel comum, cada uma delas era o retrato-falado da resistência, da criatividade, da denúncia, da literatura. Enumero aqui: O Pasquim, Coojornal, Movimento, Opinião, De Fato, Em Tempo, Mulherio, Nós Mulheres, O Saco, O Verbo Encantado, Flor do Mal, Lampião, JA, A Pomba, Inéditos, José, Escrita, Circus, Silêncio, pra citar apenas alguns. Essa imprensa fez história, começa agora a ganhar biografias e versões digitais. Éramos nós. Meio século depois, as bancas de jornal minguaram, viraram pequenas lojas de conveniência, cujos jornais e revistas são apenas parte do cenário, pano de fundo com ares quase de museu. Mas a resistência sobrevive, online. Nocaute, 247, Viomundo, DCM, Ópera Mundi, Jornalistas Livres, O Cafezinho, Mídia Ninja e tantos outros espalhados por esse Brasil de meu Deus. Como nos jornais alternativos dos anos 1970, a publicidade pinga de vez em quando, em pequenas doses homeopáticas. Precisamos estar atentos e fortes porque resistir, navegar é preciso. Muita gente já percebeu que certas notícias, a gente só encontra por aqui. Os nanicos dos tempos modernos precisam de rum pouco de água todos os dias. Para crescer, dar frutos e flores. Pra não dizer que não falei de.

AV

O NÚMERO 1

Hoje está fazendo exatamente cinquenta anos que o primeiro número do Pasquim chegou às bancas de todo o país. Não sei se de todo o Brasil, porque morava em Belo Horizonte e perdi os primeiros números, apesar de ser um rato de banca, desde pequenininho. Comecei a comprar, a ler, a acompanhar a turma do Pasquim lá por volta do número 9. Eu me lembro bem, estudava no Colégio Arnaldo e fazia, toda semana, uma vaquinha pra comprar o jornal. Eu era o encarregado de fazer a vaquinha, recolher o dinheiro, comprar o jornal e levar para o colégio, onde ele passava de mão em mão. Cinquenta anos depois, cá estou eu falando do jornal que fez a minha cabeça, que me fez sonhar com um jornalismo independente, sem medo, sem pisar em ovos. Que bom que vivo assim hoje, longe das garras dos patrões, aqueles que orientam, mandando sempre você virar à direita. Fui ver o que tinha nas bandas do lado esquerdo e descobri a encruzilhada, caminhos que vão para todos os lados. Graças ao Pasquim. Merci beaucoup Jaguar, Millôr, Francis, Ivan, Ziraldo, Henfil, Luis Carlos, Tarso, Sérgio Miguel, Sergio Augusto e todo o pessoal da pesada.