SILÊNCIO

Houve um tempo em que, nos bastidores do Jornal Nacional, as pessoas comentavam: Se não deu no JN é porque não foi notícia. Era um tempo em que a televisão reinava quase que absoluta, com o rádio em decadência. Não havia muitos meios de comunicação, era fácil esconder uma notícia. E o Jornal Nacional escondia. Hoje, a história é outra. Ontem, no final da tarde, o site The Intercept divulgou o primeiro áudio do pacote de vazamentos que ela vem soltando. O promotor Deltan Dallagnol, comemorava a decisão do juiz Luiz Fux – aquele do “In Fux we trust”, de não autorizar o preso político Luiz Inácio Lula da Silva, a conceder uma entrevista à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo. A Rede Globo ignorou a notícia, acreditando que se ela não desse, ninguém ficaria sabendo. Nem mesmo o canal 24 horas de notícias dos Marinho deu, seguramente por ordem superior. Mas, em poucos minutos, ela se espalhou pelas redes sociais, pelos blogs alternativos, boca a boca. A expressão de alívio dos apresentadores na hora do “boa noite” era visível, tipo “ufa, nos livramos dessa notícia”. Deveria ser o contrário.

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SOCIEDADE ALTERNATIVA

Nos anos 1970, no auge da ditadura militar, quando prendiam, torturavam e sumiam com brasileiros, surgia a cada dia, em cada esquina, um novo jornalzinho. Geralmente tabloides, eles iam passando de mão em mão. Havia também revistas, tiragem pequena, papel comum, cada uma delas era o retrato-falado da resistência, da criatividade, da denúncia, da literatura. Enumero aqui: O Pasquim, Coojornal, Movimento, Opinião, De Fato, Em Tempo, Mulherio, Nós Mulheres, O Saco, O Verbo Encantado, Flor do Mal, Lampião, JA, A Pomba, Inéditos, José, Escrita, Circus, Silêncio, pra citar apenas alguns. Essa imprensa fez história, começa agora a ganhar biografias e versões digitais. Éramos nós. Meio século depois, as bancas de jornal minguaram, viraram pequenas lojas de conveniência, cujos jornais e revistas são apenas parte do cenário, pano de fundo com ares quase de museu. Mas a resistência sobrevive, online. Nocaute, 247, Viomundo, DCM, Ópera Mundi, Jornalistas Livres, O Cafezinho, Mídia Ninja e tantos outros espalhados por esse Brasil de meu Deus. Como nos jornais alternativos dos anos 1970, a publicidade pinga de vez em quando, em pequenas doses homeopáticas. Precisamos estar atentos e fortes porque resistir, navegar é preciso. Muita gente já percebeu que certas notícias, a gente só encontra por aqui. Os nanicos dos tempos modernos precisam de rum pouco de água todos os dias. Para crescer, dar frutos e flores. Pra não dizer que não falei de.

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O NÚMERO 1

Hoje está fazendo exatamente cinquenta anos que o primeiro número do Pasquim chegou às bancas de todo o país. Não sei se de todo o Brasil, porque morava em Belo Horizonte e perdi os primeiros números, apesar de ser um rato de banca, desde pequenininho. Comecei a comprar, a ler, a acompanhar a turma do Pasquim lá por volta do número 9. Eu me lembro bem, estudava no Colégio Arnaldo e fazia, toda semana, uma vaquinha pra comprar o jornal. Eu era o encarregado de fazer a vaquinha, recolher o dinheiro, comprar o jornal e levar para o colégio, onde ele passava de mão em mão. Cinquenta anos depois, cá estou eu falando do jornal que fez a minha cabeça, que me fez sonhar com um jornalismo independente, sem medo, sem pisar em ovos. Que bom que vivo assim hoje, longe das garras dos patrões, aqueles que orientam, mandando sempre você virar à direita. Fui ver o que tinha nas bandas do lado esquerdo e descobri a encruzilhada, caminhos que vão para todos os lados. Graças ao Pasquim. Merci beaucoup Jaguar, Millôr, Francis, Ivan, Ziraldo, Henfil, Luis Carlos, Tarso, Sérgio Miguel, Sergio Augusto e todo o pessoal da pesada.

O OUTRO LADO

Na primeira página do jornal argentino Página 12, o outro lado da notícia que a imprensa comercial brasileira combinou de não dar: “Aos gritos de ‘seu ódio não é benvindo’, uma multidão na Praça de Maio, repudiou a visita de Bolsonaro a Argentina por suas posições racistas, homofóbicas e ultra-direitistas”.

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TOCA RAUL!

Lembro-me perfeitamente do dia dessa foto. Era meados dos anos 1980 e foi assim, de pijama, que Raul Seixas, autor de Maluco Beleza, nos recebeu, repórteres do Caderno 2 do Estadão. Ficamos um bom tempo, observando cada detalhe da sua casa – os discos de ouro e as muitas fotos de Elvis Presley na parede – até que ele aparecesse para falar de Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum, seu novo disco. Juvenal Pereira, um dos melhores repórteres fotográficos do país, captou rapidinho o espírito da coisa e pediu a ele uma escova de dentes e uma tomada, para mostrar que todos nós estávamos ligados. A foto foi capa do Caderno 2, numa época em que o Caderno 2 era assim uma espécie de Pasquim encartado dentro do jornal dos Mesquita. A imagem agora roda por todos os cantos e aparece sempre quando se fala de Raul Seixas. Ainda bem que com o crédito, foto: Juvenal Pereira.

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QUEM TEM MEDO DE LULA?

Está muito claro para o leitor, para o telespectador mais atento, que existe uma ordem superior dirigida às redações para não dar notícias do ex-presidente Lula, preso em Curitiba há 422 dias, teoricamente por ter frequentado um sítio em Atibaia e ter se interessado em comprar um apartamento no Guarujá. Ontem, em São Paulo, durante todo o dia, uma multidão encheu a Praça da República para participar de um ato em favor do único preso político do país. Em nenhum momento, a televisão ou os sites de notícias informou aos leitores sobre o que acontecia. Qualquer jornalista sabe que, normalmente, o domingo é um dia fraco de notícias, claro que com exceções como a morte dos Mamonas Assassinas e a morte de Ayrton Senna. Mas, mesmo assim, aquela multidão reunida no centro de São Paulo, não foi noticia. É difícil entender um acontecimento como este, em qualquer país do mundo, não ganhar as páginas dos jornais ou as telas dos canais de televisão. Na verdade, acontece sim, em países onde a censura proíbe ou, no nosso caso, onde a autocensura fala mais alto. [AV]

[foto Ricardo Stuckert JR]

UM LIVRO

Nessa semana em que milhares e milhares de estudantes saíram às ruas do Brasil em protesto contra o desgoverno de ultra-direita, a dica da semana é um livro que reúne fotos, cartazes, capas de revistas, tudo muito bem explicado e documentado, sobre a revolução de maio de 1968 na França. Um documento precioso realizado por estudiosos e fotojornalistas que enfrentaram paus e pedras para documentar uma página importante da história. Uma publicação da Bibliotèque National de France, que pode ser encontrado via Amazon.

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[foto Reprodução]

DORIL

Em São Paulo, Daniel Pedroso de Moraes, 74 anos, foi baleado na barriga por um segurança numa agência do Bradesco (um dos maiores anunciantes do país), depois de uma discussão na porta giratória do banco. Daniel continua internado em estado grave. Quem achar a notícia aqui, ganha um doce.

 

NOVO REPUBBLICA

Quando o diário italiano La Repubblica mudou de cara, não faz muito tempo, acreditávamos que tinha chegado a quase perfeição. Agora, resolveu mudar de novo, crescer, inovar. O La Repubblica, um dos principais jornais da Itália, não para quieto, não para de se mexer. Existe um ditado do jornal francês Libération que é, nadando contra a maré, “em time que está vencendo é que se mexe”. É o que acontece com o La Repubblica. Hoje, ele chegou às bancas mostrando sua cara nova e anunciando o que vem por ai: Novos cadernos, nova distribuição das matérias e assuntos, cadernos regionais mais encorpados – Milão, Florença, Roma, Turin,Bolonha, Bari, Palermo e Nápoles – sem contar a revista de fim de semana Il Venerdì, o suplemento de cultura Robinson, a revista L’Espresso aos domingos, junto com o jornal, e um novo caderno Weekend. Isso, sem contar os cadernos de Ciência, de Saúde, de Esportes e outros que virão. É o jornalismo renascendo.

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