JEITINHO BRASILEIRO

Enquanto a imprensa internacional é unânime em mostrar ao mundo o pensamento fascista do presidente brasileiro eleito, de extrema-direita, questionando, apontando, revelando suas “idéias”, a nossa imprensa tupiniquim tenta mostrar o seu lado humano, caseiro, simples, para convencer os brasileiros que não é bem assim. E la nave và… rumo ao fundo do mar.

Lua de Mel

Não é preciso dizer, todos já perceberam a lua de mel da imprensa brasileira com o presidente eleito da extrema direita. A figura – abominável – está sendo tratada pelos jornalões como um político competente e da maior seriedade. Para quem lê jornal todos os dias, existem dois Brasis atualmente. Um, aqui dentro, e outro, lá fora. Enquanto todos lá foram continuam chamando o eleito de um político de extrema-direita, cá dentro, a história é outra. O convite aceito pelo juiz de Curitiba para ser ministro da Justiça caiu como uma bomba lá fora, enquanto, aqui dentro, caiu como uma pétala de rosa. Estou falando de jornais estrangeiros sérios, com credibilidade. Estou falando do New York Times, do Le Monde, do La Repubblica, da revista britânica The Economist. Os jornais estrangeiros são unânimes em dizer que o juiz da camisa preta recebeu uma recompensa por ter tirado o favorito da corrida eleitoral, e não um cargo. Para os jornais estrangeiros, ficou claro que Lula é sim um preso político. A manchete do Financial Times é a mais correta e é a que deveríamos encontrar nos nossos jornais, amanhã cedo, mas certamente não será essa: “Jair Bolsonaro promete emprego a juiz que prendeu seu rival”. Abrindo uma exceção para a revista Carta Capital, que chegou hoje cedo às bancas.

 

[fotos Reprodução]

A vida é bela

O filme A Vida é Bela, que vi no último ano do século passado, nunca saiu da minha cabeça. Roberto Benigni, ali naquele campo de concentração querendo mostrar ao filho que a realidade não era nazista alemão querendo liquidar judeu, e sim uma grande gincana, é uma obra prima do cinema, da imaginação. Ao ler os principais jornais do país nesses dias pós-eleição, mais uma vez o filme veio à minha cabeça. Não que o governo eleito esteja querendo mandar esquerdistas pra câmara de gás, não que os jornais estejam tapeando os seus leitores, dizendo que estamos vivendo uma divertida brincadeira. Mas tem um pouco a ver. Acompanho com afinco, diariamente, quatro jornais estrangeiros. O italiano La Repubblica, o espanhol El País e os franceses Le Monde e Libération. Sei que deveria seguir também com afinco, o New York Times, talvez o mais importante e influente de todos. Mas, não tem jeito, guardo da juventude uma birra com americanos. Não tomava Coca-Cola, não mascava chicletes, odiava o Tio Sam, pichava nas ruas Yankees Go Home e só fui conhecer Nova York depois de adulto. Confesso que me encantei, mas continuo apenas dando uma olhada no NYT, apesar de gostar muito da revista que eles editam nos finais de semana. Todos os jornais, nos quatro cantos do planeta, chamam o presidente eleito no dia 28 de outubro, de candidato da extrema-direita. Todos. Aqui, não. Tenho acompanhado com extremo afinco os nossos jornais há muito tempo e desde que o presidente eleito apareceu no cenário nacional, nunca foi chamado de uma figura claramente da extrema-direita. Os jornais têm medo desse nome. Acreditam que podem perder publicidade oficial, ou simplesmente desaparecer do mapa se forem taxados de esquerdistas. Nos primeiros dias pós-eleição, meu afinco redobrou, ao ponto de contar quantas vezes o nome do presidente que venceu as eleições apareceu em cada edição. Na Folha de terça-feira, por exemplo, foram 142 vezes. Nossos jornais estão pisando em ovos, tomando todo cuidado para não aborrecer o novo presidente da extrema-direita. A Folha de S.Paulo, por exemplo, foi desmoralizada – injustamente – ao vivo, em cores e em rede nacional, chamado de jornal mentiroso, um jornal que já morreu. No dia seguinte, os leitores procuraram o editorial na primeira página defendendo a liberdade de imprensa, a pluraridade, e não encontraram. Me perguntei se não é a falta que um Otavinho faz. Não sei. Sei que nossos jornais estão tratando o presidente eleito como um estadista, como um Helmut Kohl ou um Barak Obama. Parece que nenhum jornal se lembra mais que, um dia, o ultra-direitista homenageou, também ao vivo e em rede nacional,  o maior torturador que o país já teve. Ninguém se lembra mais que ele disse, um dia, ser favorável a tortura, não estuprar uma deputada porque ela não merecia, não querer um gay como vizinho e mandar um jovem opositor no aeroporto, ir tomar no cu. Ninguém mais se lembra que o presidente eleito inventou um kit gay  que nunca existiu e disse que o regime militar errou ao não matar umas 30 mil pessoas. Ninguém mais se lembra que, para ele, o peso dos quilombolas é em arroba. Ninguém mais se lembra que ele berrou aos seus fiéis reunidos na Avenida Paulista, poucos dias antes das eleições: Eu quero um país sem Folha de São Paulo, sem Folha de São Paulo! Até quando a vida será bela para os nossos jornais?

[ilustração de Vasco Gargalo, de Portugal, nas redes sociais] 

 

DEMOCRACIA EM XEQUE

Em véspera de eleição, fala-se muito em festa da democracia. Essa eleição, no entanto, não vai ser igual aquela que passou. Esse ano, com um candidato da extrema-direita no segundo turno, um candidato que já declarou ser favorável à ditadura, que homenageia em rede nacional e ao vivo, um dos maiores torturadores que a história do Brasil já teve, um candidato que tem um filho tão aloprado quanto ele, que diz numa aula que para fechar o STF basta um soldado e um cabo, a democracia está sendo questionada. Vamos continuar vivendo na democracia ou vamos mergulhar em novos anos de chumbo? Curiosamente, a revista Superinteressante de novembro, editada pela Abril, chega às bancas com um editorial absolutamente fora do comum à revista, alertando que nossa democracia caso o candidato da ultra-direta vença, está correndo risco.

[fotos Alberto Villas]

 

 

SINISTRO

A M, revista de final de semana do Le Monde, chama o general Mourão, de “sinistro general que vive à sombra de Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita às eleições presidenciais”. A revista deixa claro a seus leitores que Mourão é um nada, um nulo, um zero à esquerda. Depois de falar umas bobagens (ainda maiores que a do seu chefe), Bolsonaro mandou que ele calasse a boca. E ele calou. Coisas de regime militar.

[foto Reprodução]

O TEMOR DA ESCURIDÃO

Quando abri a porta da minha casa hoje, seis horas da manhã em ponto, veio à minha cabeça uma imagem de mil novecentos e setenta e pouco quando, longe daqui, escrevia minhas matérias numa Hermes Baby portátil e, semanas depois recebia o jornal impresso numa cortesia da Varig. Levava um susto com os espaços em preto escrito apenas Leia e Assine Opinião, encobrindo minhas palavras proibidas pelo Departamento de Censura da Polícia Federal. Vinha uma sensação ruim, de tempo perdido, mesmo sabendo que não havia perdido, naquela luta pela democracia. Quando peguei o jornal hoje cedo e virei para ver o que havia na parte de baixo da primeira página, o meu temor era o de encontrar escrito simplesmente Leia e Assine Folha de S.Paulo. É um temor que assombra não somente a mim, mas também as minhas amigas que vieram aqui em casa ontem para conversar e saborear um risoto, ainda com um gostinho de liberdade. E passaram o dia martelando essa palavra e outras ainda não proibidas. O que vi escrito na parte de baixo do jornal de hoje era apenas uma frase anunciando o fim da tela preta. Só me acalmei quando li, bem em cima do logotipo, a informação de que era um informe publicitário. A sobrecapa me acalmou, mas apenas temporariamente. Faltam apenas treze dias pro 28 de outubro.

[foto Alberto Villas]