ESSE NÃO É O CARA

A viagem do presidente de ultra-direita aos Estados Unidos, todos sabem, foi um mico. Menos para a imprensa brasileira, principalmente a escrita e falada. Bolsonaro ficou hospedado num anexo da Casa Branca (onde todos os chefes de Estado costumam ficar) mas, para ele, foi “um privilégio concedido a poucos”. Entregou a Base de Alcântara aos americanos, fez uma visita mais ou menos escondida a CIA, uma das grandes responsáveis pelo golpe e implantação de uma ditadura cruel no Brasil, na metade dos anos 1960, não falou uma palavra em inglês, ganhou uma camisa da seleção americana com um adesivo improvisado de última hora que, na primeira lavagem, vai desaparecer, abriu as portas para os turistas americanos enquanto a nossa porta de entrada lá, continua rigorosa e vigiada, e provocou um chilique no chanceler tupiniquim, deixando apenas o seu garoto na sala para o encontro privado (ou seria privada?) com o presidente norte-americano, mesmo sabendo que aquilo não era conversa de criança. Essas são as estratégias erradas e as gafes que vazaram. Com certeza, tiveram outras. Mas para a nossa imprensa, a imagem que ficou foi (enorme) essa que ilustra esse pequeno texto.

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[foto e legenda/Reprodução da primeira página do jornal Folha de S.Paulo]

PASSANDO EM REVISTA

São poucas as pessoas no Brasil que hoje vão, com prazer, até uma banca comprar uma revista. É fato. Primeiro, porque está difícil encontrar publicações em bancas que, na verdade, viraram lojinhas de conveniência. Tem de tudo, menos revistas. Mas o que restou para lermos? A Piauí, a Quatro Cinco Um, a Superinteressante, a National Geographic, qual outra? Semanal de informação, a Carta Capital. Mas, por esse mundo imenso, ainda existem revistas extraordinárias. Vamos lá! Geo, L’˙Histoire, Le Nouveau Magazine Littéraire, M, Jazz Magazine, Cahiers du Cinema, Inrockuptibles, L’Ecologiste (França), Il Fotografo, Il Vènerdi, Linus, Live (Itália), The New York Times Magazine, Mother Jones, The New Yorker (EUA), El País Semanal, Papel (Espanha}. Lógico que são centenas e centenas de outras publicações bacanas mundo afora. Mas, as que citei, são aquelas que acompanho mais ou menos de perto. Até quando vão resistir, não sei. Claro que esqueci muitas, aquelas em formato livro como a Serrote, a Zum, a Papiers, a Margem Esquerda, a Granta, a L’Élephant, a Believer e tantas outras. Desculpe, hoje acordei pensando em revistas.

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JORNALISMO CORAGEM

 

O jornal francês Libération é daqueles que a gente tem prazer de pegar de manhã na porta de casa. Ele não tem medo, não pisa em ovos, não finge de imparcial. Na edição de hoje, a manchete está entre aspas, mas mostra uma foto de Donald Trump: “Um racista, um escroque, um trapaceiro”. São palavras do seu ex-advogado. Gosto desse jornalismo.

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A BOSSA NOVA É FODA

Já perceberam que o Brasil, um país conhecido mundialmente por suas músicas tão variadas, não tem mais sequer uma publicação de música? Nenhuma revista, nadinha, nós que já tivemos a Revista de Música, a Rolling Stone, a Pipoca, a Bizz, a Jazz+, a Canja, a Rock, a Planeta Música e tantas outras. Agora, para lermos sobre a nossa música, só em revistas estrangeiras: Rock & Folk, Rolling Stone, NME, Rock, Mojo, Uncut, são centenas. Ou na Blow Up italiana que publica, no número de fevereiro, um dossiê sobre a Bossa Nova.

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PASSANDO EM REVISTA

São poucas as pessoas nesse mundo moderno e virtual, que ainda param diante de uma banca de jornal para espiar as manchetes dos jornais, ver as revistas novas que saíram, comprar uma. Banca de jornal virou loja de conveniência, aquela que tem mais Coca-Cola que Folha de S.Paulo, mais chip da Tim que Piauí. Sinto-me um dinossauro ao entrar numa banca de jornal da Avenida Paulista, outrora superbancas, e ficar olhando as revistas uma a uma. São poucas e uma se destaca pelo conteúdo, a Superinteressante. A revista, que já teve altos e baixos, está num período de alta. Vale a pena conferir o número de fevereiro, a epidemia de ansiedade na capa. Com muito conteúdo, há mais de três décadas, a Superinteressante anda fazendo jus ao nome. Recomendo. A única reclamação é que a editora que publica a revista, precisa pagar seus ex-funcionários, aquela massa de trabalhadores que foi demitida sumariamente.

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O LIVRO DO SÁBADO

Já se foi o tempo das grandes reportagens. Época em que o repórter tinha tempo para apurar, juntar os cacos e montar o mosaíco de uma grande história. Eis que de repente, em plena decadência da grande reportagem nos jornais e nas revistas, Chico Felitti nos presenteia com uma história extraordinária em forma de livro. Ricardo e Vânia, publicado pela Todavia, não é a biografia de uma figura lendária de São Paulo, o Fofão da Augusta. É sua história reconstruída, esmiuçada, completa. Ele desvenda o mistério, depois de procurar todos os detalhes com a lupa de um grande repórter. Duvido que alguém comece a ler o livro e pare. Nem pra respirar a gente para. Publicada inicialmente no Buzzfeed em forma de reportagem, Ricardo e Vânia foi revista, ampliada e completada. Recomendo.

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SAÚDE!

Os leitores do jornal italiano La Repubblica ganharam hoje uma nova revista mensal – Live – focada em medicina, bem estar e alimentação. São 64 páginas com um projeto gráfico ousado e um conteúdo de tirar o fôlego. Sorte de quem vive num país onde a imprensa cresce. E não desaparece.

VIROU MANCHETE

Gosto de títulos bacanas, acompanho de perto, coleciono. Quer título melhor para falsificação de obras de arte de gênios da pintura, como esse: “Cuidado! Tinta fresca”? Essa semana, destaco a manchete de capa da revista Carta Capital. O lema de Bolsonaro virou “Lucro acima de tudo, Lama acima de todos”. E dentro, na manchete do assunto de capa, outro achado, encontrado nos versos de Tom Jobim: “É a lama, é a lama”.

 

A PÁTRIA SEM CHUTEIRAS

Domingo era dia de bola na rede no país do futebol. Jorge Benjor chamava-se Jorge Ben, era Flamengo e tinha uma nega chamada Teresa. Os porteiros dos prédios ficavam atentos ouvindo o jogo com um ratinho de pilha colado no ouvido, muita gente ficava acordada até tarde para ver o videotape da partido do seu time ou rever o gol no Fantástico. A seleção era chamada de canarinho e Pelé era rei. Na segunda-feira, todos corriam às bancas para comprar o jornal e, mesmo antes de ver a manchete principal, arrancava fora o caderno de esportes, robusto e cheio e atrações. No Globo tinha o Otelo na última página, único, imperdível. Todos os jornais davam a maior atenção ao futebol. Você encontrava nesses cadernos, todos os detalhes de cada jogo, a tabela dos campeonatos regionais, fotos espetaculares dos craques em ação. Ninguém queria perder o jornal de segunda-feira. Havia um jornal inteiro só de futebol, o Jornal dos Sports, cor de rosa. Havia a Gazeta Esportiva, também diário, e as semanais Placar e Manchete Esportiva. Acabou tudo. Ontem, segunda-feira, o futebol na Folha de S.Paulo era tratado em duas páginas, sendo que uma delas, com metade de publicidade. Quem procurasse ali as tabelas, as grandes jogadas, os próximos jogos, não encontrava nada. Só salvava a coluna do Juca Kfouri.

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DORIL

A semana vai chegando ao fim. Quem passar por uma banca de jornal que ainda dependura jornais e revistas, vai se lembrar que um escândalo federal chamado Flávio Bolsonaro está nas capas das quatro revistas semanais, amareladas pelo sol. De repente veio uma avalanche de lama em forma de tsunami e encobriu a notícia. Sim, o jornalismo precisava dar toda atenção as três centenas de mortos, não resta a menor dúvida. Mas onde foi parar o escândalo Flávio Bolsonaro?

Ele foi chamado pra depor?

O seu comparsa Queiroz foi chamado pra depor?

Arquivaram o processo?

Era fake news?

Ele pediu perdão?

Ele foi preso?

Ele fugiu do país?

Ele se escondeu numa favela comandada pela milícia?

Está ocupado enchendo de dinheiro envelopinhos da Caixa?

A Poupança Bamerindus acabou e ele continua aí numa boa?

Alguém pode dar uma luz?

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VENDO TV

Ontem passei parte da tarde trabalhando e vendo TV, esperando uma notícia boa, uma notícia qualquer. O que me chamou a atenção? As inúmeras vezes que as apresentadoras dos telejornais liam uma notícia e faziam uma pergunta para o repórter, ao vivo. Foram pelo menos doze vezes que ouvi: “É isso mesmo, Cristiane!” e “É isso mesmo, Leilane!” De repente, o porta-voz da Presidência da República entra, ao vivo, para informar ao Brasil sobre a operação a que foi submetido Jair Bolsonaro. Falou rapidamente, confusamente e, em seguida, disse: “Agora vou falar de Brumadinho”. Parecia que ele tinha dois minutos para dar três notícias. Falou de Brumadinho e soltou essa: “Agora, o problema do Diesel”. Ah, que saudade do Stanislaw Ponte Preta! Mas o que mais me impressionou no canal de notícias por assinatura, foi o seguinte: A GloboNews emenda um telejornal de duas horas em outro de duas horas de duração e assim por diante. As apresentadoras vão mudando mas as notícias são as mesmas. Dezoito e trinta, Leilane avisa: “Nosso repórter em Brumadinho tem novas informações”. O repórter entra ao vivo e dá a mesma notícia que outro repórter já tinha dado às 16 horas. Hoje, vou apenas trabalhar. Com a televisão desligada.

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