JORNALISMO NOTA 10

O jornal francês Libération publica na sua edição de hoje, um texto impecável da escritora ruandese Scholastique Mukasonga, que esteve recentemente em nosso país. Com o título “No Brasil, uma mulher negra não vale nada”, ela coloca o dedo na ferida de uma nação que vai descendo ladeira abaixo, dia após dia. E retoma a palavra de ordem: Marielle vive!

[foto Reprodução]

FOI RUIM

Na edição do Le Monde, que começou a circular agora à tarde na França, uma reportagem de página inteira, mostra como foi a primeira semana do novo presidente brasileiro, de extrema-direita. Ataque aos direitos indígenas e à comunidade LGBT e um presidente hesitante e sem consistência na questão econômica. Enfim, começamos mal.

[foto Reprodução]

O TRABALHO

No dia 21 de abril de 1985, fomos convocados para trabalhar numa edição histórica do jornal O Estado de S.Paulo sobre a morte de Tancredo Neves. O jornal era pilotado por Miguel Jorge, que reuniu todos no centro da redação, ainda barulhenta com máquinas de escrever, e disse; “Mãos à obra!” Gente da editoria de Esportes, de Cidades, de Internacional, de Artes e Espetáculos, de Economia, de Política, do Suplemento Agrícola, do Estadinho. Sem contar as sucursais e os correspondentes internacionais que o jornal tinha em vários cantos do mundo. Todos nós nos unimos numa única editoria chamada “Tancredo” e começamos a trabalhar com afinco. Era, na época, redator de Internacional. Junto com os meus companheiros, deixamos de lado os conflitos no Oriente Médio, da América Latina, deixamos de lado Ronald Reagan e fomos quase todos  ajudar a fechar tal edição. Mexendo no baú do Jornalismo que tenho em casa, encontrei esse recorte acima e ele está aqui hoje para mostrar como os tempos mudaram. O que impressiona é o número de pessoas envolvidas no fechamento de uma edição. Como os jornais eram poderosos, gordos, pesados, recheados de conteúdo. Como empregavam gente! Com certeza, toda essa equipe aí acima era contratada, carteira assinada, tinha direito a férias e décimo terceiro salário. Vivíamos num outro mundo.

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A CAPA

O Brasil tem dessas coisas. Muitas vezes, um produto interessante é pouco ou quase nada conhecido do grande público. Outro dia perguntei quem conhecia a Quatro Cinco Um, sem dizer que era uma revista mensal de literatura. Poucos conheciam. No entanto, ela está no mercado há mais de um ano. Não sei se todos conhecem A Capa, um jornal que só tem capa, não tem conteúdo.  Está todo dia aqui no mundo online, sempre com uma surpresa, um toque criativo de publicitários e afins. Vale a pena conhecer. Procure A Capa no Facebook. Vai ter uma boa surpresa. Bem como a Quatro Cinco Um.

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VIROU MANCHETE

Fazendo uma análise rápida das primeiras páginas dos três principais jornais do país, observamos algumas coisas curiosas. Por exemplo, os dois jornais de São Paulo não deram como manchete principal, a principal notícia mais importante do dia no estado, a fuzilada na Igreja em Campinas, quando um homem acima de qualquer suspeita entrou, matou quatro pessoas e depois suicidou-se. A principal notícia de São Paulo foi parar na manchete do jornal do Rio de Janeiro. A operação da Polícia Federal na casa do segundo colocado nas eleições presidenciais de 2010, Aécio Neves, ganhou a manchete da Folha e o cartel dos trens, a manchete principal do Estadão. Resultado final: Funcionou, para os três jornais, a operação abafa Coaf.

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QUERIDA, ENCOLHI O JORNAL

É visível o emagrecimento e o empobrecimento dos jornais brasileiros, ainda no papel. Dá uma certa tristeza quando pegamos o caso da Folha de S.Paulo, por exemplo. O jornal já teve cadernos como Folha Verde, Folhinha, Ciência, Sinapse, Equilíbrio, Folhateen, entre outros, sem contar o suplemento semanal condensado e traduzido do New York Times. E sem contar a revista Serafina, que não dá as caras faz meses. Mas o assunto aqui é a revista semanal São Paulo, que circula na edição de domingo apenas para a cidade de São Paulo. É cada vez mais visível a ligação da revista com o Departamento Comercial. Enquanto revistas semanais que circulam em jornais como a New York Magazine, a M (do Le Monde), a Venerdì (do La Repubblica), a El País Semanal, a Süddeutsche Zeitung Magazine, entre outras, investem pesado na reportagem, a revista São Paulo é apenas uma pálida imagem da cidade. É comum números especiais como Noivas, Reformas, Restaurantes, Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia das Crianças, Natal, Páscoa, nitidamente atreladas aos anúncios. Mas agora, temos a impressão de que se tem anúncio, a revista circula, se não tem, não circula. Basta ter um feriado prolongado, ou isolado no meio da semana, para a revista simplesmente não circular. Este fim de semana, o leitor acostumado com o jornal, procurou, procurou e não encontrou a revista no domingo. O jornal não deu a menor explicação – ou desculpa – ao leitor. A impressão que deixou foi a de que não teve anúncios suficientes. O problema vai ser quando o jornal não tiver publicidade suficiente e o assinante abrir a porta de manhã em casa e não encontrar o seu jornal em cima do capacho. Será que chegaremos ao ponto de se não tiver anúncio, não tem jornal?

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NEWS

A foto de um monumento danificado durante as manifestações no Champs Elysées, em Paris, virou cartão-postal das revistas e jornais. À esquerda, foto publicada no jornal Libération e, à direita, a imagem foi parar na capa da Economist inglesa.

E foi parar também nas capas de duas revistas semanais de informação, na católica La Vie e na Le Point.

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Não disgosto de trocadilhos em títulos, mas quando são bem sacados e com sentido. Na Folha Corrida de hoje, o fato de a polícia investigar a morte de um cão pelo segurança de um supermercado, não merecia o “Bom pra cachorro”. Como a escultura “Aranha”, obra de Louise Bourgeois, que vai sair do MAM, em São Paulo, para percorrer o Brasil, não merecia o título “O fim da picada”. Porque o fim da picada? Apenas um trocadilho e nada mais.

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Os protestos em Paris continuam resultando em belas capas, como a do Libération, que chegou hoje cedo às bancas da França.

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Os estudantes saíram às ruas de várias cidades gregas em protesto contra a morte de uma jovem de 15 anos pelas forças da polícia.

[foto AP]

 

O PACTO

A imprensa brasileira, claro que com algumas raras exceções, parece que fez um pacto com o novo governo eleito em outubro passado. De repente, uma amnésia geral. Ninguém mais lembra que o presidente eleito, de extrema direita, homenageou em rede nacional, ao vivo, um dos maiores torturadores que já tivemos na nossa História. Esqueceram que ele prometeu mandar pro exílio oposicionistas e metralhar metralhas. Esqueceu que ele defende que o salário da mulher deve ser menor que o do homem e que não se deve estuprar mulher feia. Sem contar que o peso dos quilombolas é em arroba e que ele quer um país sem a Folha de S.Paulo. De repente, o ultra-direitista virou um estadista da maior importância, juntamente com sua turma. Canais de televisão, pagas ou não, anunciam com alarde que “esta noite vamos entrevistar, com exclusividade, Flávio Bolsonaro”. Como se esse político de quinta categoria fosse alguém com um pensamento certeiro e importante. Entrevistam Mourão, Onyx, Moro, essa turma toda como se fosse um grande furo de reportagem. Confesso, sinceramente, que ouvir essas pessoas, não me acrescenta em nada. Quando é que vão entrevistar a oposição para fazer jus ao primeiro mandamento da Bíblia do Jornalismo que é ouvir o outro lado? [AV]

ONTEM

É visível a revolução tecnológica por que estamos passando nos últimos vinte anos. E é também visível a crise que vem enfrentando a mídia tradicional, os jornais impressos, as revistas, os telejornais. Pegos parece que de surpresa, vinte anos depois ainda não encontraram os seus caminhos. O jornais impressos emagreceram, acabaram com cadernos de ciência, de gastronomia, de literatura, de bem estar, seus cadernos juvenis e infantis. Demitiram jornalistas para enxugar a máquina e, com isso acabaram perdendo qualidade e, obviamente, leitores. As revistas vão fechando uma a uma. Hoje, quando vamos a um consultório médico, por exemplo, as revistas repousam sobre a mesinha de centro, cercadas por pacientes em seus smartphones. Ninguém se interessa nem em folhear mais as revistas de papel. O mesmo tem acontecido nos laboratórios de análises clínicas. A televisão fica ligada, mas o interesse está é na telinha do smartphone. A manchete do site Noticias da TV, mostrando que o Jornal Hoje, exibido de segunda a sábado, na TV Globo, vem perdendo audiência e, pela primeira vez na história ficou em segundo lugar, perdendo para um concorrente de qualidade duvidosa, é um sintoma claro dessa crise anunciada. Fui editor-chefe do Jornal Hoje, o JH como é chamado, durante uma temporada. Quando assumi o cargo, o telejornal era conhecido como jornal da hora do almoço. Dei ênfase a isso, injetando uma dose de criatividade em suas pautas, claro que dando asas à imaginação de uma equipe muito competente. Podem dizer que estou aqui, puxando brasa pra minha sardinha. Não é verdade, e explico. Fatos importantes, as hardnews, nunca ficaram de fora do nosso jornal, isso no final dos anos 1990. Mas o nosso forte era o comportamento, as mudanças que começavam a aparecer aqui e ali. Inventamos as passagens de bloco animadas e, lembro-me muito bem do sucesso que faziam. Todo dia era uma novidade. No aniversário de Drummond, por exemplo, as passagens mostravam seus poemas animados. Num dia de show de Michael Jackson, era ele que aparecia nas passagens de bloco, no carnaval, eram mulatas sambando como ninguém sabe sambar. O Jornal Hoje dava 25, às vezes 28 pontos no Ibope. Hoje, às vezes, não chega a dois dígitos. Não porque saímos, eu e a equipe, mas porque o telejornal parou no tempo. É raro você ouvir uma notícia na escalada do JH que você ainda não sabia. Um jornal inteiro de hardnews é coisa do passado. As pessoas passam o dia ligados nos sites, nos blogs e a notícia se espalha numa velocidade estonteante. Pra que, então, perder 25 minutos do dia para ver um repeteco? Digo ver, porque os sites não só dão a notícia do avião que caiu, como mostram a imagem. O Jornal Hoje tornou-se, literalmente,um jornal déjà-vu. Quando o telespectador ouve a escalada e percebe que já sabe de tudo, vai ouvir as fofocas na Record, o Chaves no SBT, um jogo no Sport TV ou uma receita da Rita Lobo no GNT. O Jornal Hoje, para recuperar a sua audiência, precisa correr em busca do tempo perdido. Não adianta mudar cenário, mudar apresentador, mudar editor-chefe. O segredo pode ser resumido em uma palavra: Criatividade.

CADEIA

O jornal O Estado de S.Paulo fez um truque, na primeira página da sua edição de hoje, para parecer que Pezão, o governador do Rio preso ontem, estava na cela, atrás das grades. Inclusive o título da foto-legenda é “Atrás das grades”. Por um outro ângulo, o fotógrafo de O Globo mostra Pesão no mesmo lugar, na verdade, na sala de entrada do presídio em Niterói, onde ele chegou e assinava papéis. É o jornalismo do Estadão, perdendo o foco da verdade.

MENOS MÉDICOS

O Fantástico, da Rede Globo, mostrou no domingo, uma longa reportagem sobre o fim da participação cubana no programa Mais Médicos. Por um lado, mostrou o drama de cidadezinhas que vinham sendo atendidas e, de repente, ficaram sem nenhum médico. Mostrou pessoas agradecidas e revoltadas com a saída dos cubanos. Por outro lado, a única sonora com o presidente de extrema-direita eleito, era ele dizendo que 70% do salário dos médicos “vão pra ditadura cubana”. Nesse momento, os eleitores do ultra-direitista, devem ter se levantado do sofá e comentado: “Tá vendo! Tá certo o capitão!” Fica aqui uma sugestão de pauta. Já que estão martelando na cabeça dos brasileiros de que 97% das vagas já foram preenchidas, que tal despachar repórteres, daqui a 30 dias, para essas cidades bem longínquas do Amapá, do Pará, de Rondônia para checar se os brasileiros se apresentaram para trabalhar. Que tal?