QUE QUARENTENA?

No final da tarde de quarta-feira (22), cinco dias depois de tomar posse, o ministro da Saúde, Nelson Teich, deu as caras na televisão para uma coletiva. E chegou para avisar que o governo tem um plano para flexibilizar, ordenadamente, a quarentena. Os jornalistas, preocupados em arrancar umas aspas para o seu jornal, para o seu canal de televisão, simplesmente se esqueceram de perguntar: “Ministro, qual quarentena? O presidente da República nunca defendeu isolamento social, nunca defendeu quarentena, muito pelo contrário, sempre saiu às ruas passando a mão no nariz, cumprimentando as pessoas, dando tapinha nas costas e convidando à todos para voltar ao trabalho, deixar de lado essa bobagem de quarentena que só atrapalha a economia brasileira. Qual quarentena, ministro, o senhor está falando?” Os jornalistas parecem estar com medo da cara esquisita do novo ministro da Saúde ou da cara do general Braga Neto, o aprendiz de golpista. Aproveitando a ocasião, copidescamos a manchete do globo.com

O SILÊNCIO DA CONCORRÊNCIA

No final da tarde desta quinta-feira (9), a CNN Brasil deu o seu maior furo desde que foi ao ar pela primeira vez, dia 15 de março. Revelou para o Brasil o vazamento de um diálogo entre o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e o deputado Federal Osmar Terra, também conhecido como Osmar Terra Plana. Os dois fofocavam sobre o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e tramavam sua queda. Um diálogo tão sórdido quanto aquele do “precisamos manter isso aí” de Michel Temer para o dono da JBS, que ninguém mais lembra bem o nome. Foi uma bomba para quem estava sintonizado no novo canal à cabo. Aos poucos, o diálogo foi sendo revelado, inclusive com o áudio. Zapeei para ver como a GloboNews, sua concorrente maior, estava dando o escândalo e deparei com um silêncio sepulcral sobre o que tinha acabado de acontecer. E assim foi até o final da noite. Oito e meia em ponto, o Jornal Nacional foi ao ar e nada de vazamento. O JN informou que o ministro da Saúde não apareceu na já tradicional coletiva das 17 horas, mas não disse o motivo, exatamente porque teria de responder aos jornalistas sobre a conversa dada pela CNN Brasil. O JN usou imagens de arquivo de Mandetta e não procurou saber o motivo de sua ausência. Ou soube, mas silenciou-se. Os telespectadores que sintonizam apenas a Globo, ficaram sem saber o que aconteceu ontem no finalzinho da tarde, inclusive Lorenzoni dizendo que se ele fosse o presidente, teria “cortado a cabeça” do ministro da Saúde “depois daquela reunião” e também que “ele (Mandetta) não tem compromisso com nada”. Na manhã desta sexta-feira, apenas o jornal Folha de S.Paulo deu uma pequena chamada na primeira página: “Terra oferece ajuda a Onyx para tirar Mandetta do cargo”. A CNN Brasil colheu ontem o seu maior fruto, mas no país do jornalismo seletivo, ele ficou praticamente apenas no seu balaio. A notícia quando é notícia não tem dono, mas no Brasil é diferente. “Não vamos dar furo da concorrência”, devem ter pensado todos os editores-chefes que não trabalham na CNN Brasil.

[foto Reprodução/CNN Brasil]

OPS…

Ontem elogiamos aqui neste espaço, o título da matéria de capa da Ilustrada, da Folha, “A rainha da Sucata”. A manchete para a posse de Regina Duarte à frente da Secretaria Nacional de Cultura é realmente boa, mas lembramos que já tinha saído na revista Veja há um mês. 

O JEITINHO DE DAR UMA NOTÍCIA

Este pequeno texto é para mostrar que existem jeitos e jeitos de se dar uma notícia. Todos sabemos que nesses tempos modernos do capitalismo, não é nada fácil uma pessoa acima dos 50 anos conseguir um emprego. Se não é CEO, sobram pouquíssimas vagas para aqueles que já são considerados “idosos”. Mas a GloboNews conseguiu passar uma outra imagem, o outro lado da moeda de um problema. Esse número que mostra um crescimento de 131% de empregos para idosos a partir de 65 anos, é fake. Na verdade, são idosos que não conseguem comprar sequer a listinha de remédios que muitos idosos precisam: pressão, colesterol, artrite, tireóide, para citar apenas alguns. Então saem à procura de um bico, e não de um emprego propriamente dito. Porque emprego propriamente dito, é muito difícil de encontrar, uma pessoa com mais de 65 anos. Com essa tarja no vídeo, a GloboNews passa uma falta informação de que explodiu o número de vagas para os idosos. Sugiro ao pauteiro da emissora à cabo, escalar um repórter para acompanhar a saga de uma pessoa de 65 anos à procura de um emprego de verdade. Vamos ver se ele consegue. 

[foto Reprodução GloboNews]

QUE GREVE?

Se você perguntar para qualquer brasileiro que passa o dia jogado no sofá com o controle remoto da televisão nas mãos, como anda a greve dos petroleiros, ele vai simplesmente responder: “que greve?”. Pois saiba: 20 mil trabalhadores da Petrobras estão de braços cruzados há 14 dias em 108 unidades de 13 estados e 50 plataformas marítimas. O que não se explica é porque a imprensa brasileira resolveu ignorar o movimento, como se fosse um cartel. Ninguém dá. Fica aqui a pergunta: que jornalismo é este que escolhe notícias de acordo com o pensamento do dono? Os donos de jornais, revistas, canais de televisão, de rádios, é bem sabido, odeiam qualquer tipo de greve. Ainda guardam aquele rancor direitista de que greve é coisa de esquerdista, agitador, gente que só quer tumultuar. Os petroleiros estão em greve para evitar que a estatal seja rifada da noite pro dia, que demissões em massa ocorram e que os estrangeiros metam a mão no petróleo que, bem sabemos, é nosso. Onde estão os jornalistas, os editores-chefes que não perguntam a seus patrões o motivo do silêncio em torno da greve dos petroleiros? Talvez se algum mais ousado perguntar, certamente vai ouvir a mesma resposta daquele que está jogado no sofá com o controle remoto nas mãos: “que greve?” Mas, na noite de quinta-feira (13), o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, surgiu na tela da GloboNews, numa longa entrevista para dizer que “a greve dos petroleiros é política”. Alguém conhece alguma greve que não seja política?

 

[fotos Reprodução]

VEJA ESSA!

Redatores às vezes estão presos às normas da casa e não arredam o pé delas. No site da revista Veja na noite de quinta-feira (16), o redator cravou “Entretenimento” no alto da página para situar a morte do cantor e compositor Luiz Vieira. Não seria melhor a morte de um músico receber um chapéu (jargão jornalístico) do tipo: “Despedida” ou “1928/2020”, por exemplo? Mas não, se o assunto é cantor, a ordem é colocar “Entretenimento”. Ficou feio. Outra coisa muito comum nos sites são as informações estapafúrdias sobre datas. Veja bem: O texto foi escrito no dia 16 de janeiro e ficamos sabendo que Luiz Vieira estava hospitalizado “desde quarta-feira, dia 15 de janeiro”. Ora, 15 de janeiro para quem estava no dia 16, foi ontem, não é mesmo? O correto não seria “estava hospitalizado desde ontem”, meu caro redator? 

[Montagem da notícia/VILLASNEWS]

UMA AULA DE JORNALISMO

Já está nas livrarias, uma obra imprescindível para todo estudante de Jornalismo e principalmente para aqueles que estão no ar e nas redações. Trata-se do livro Jornal da Tarde – uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira – de Fernando Casagrande, publicado pela Record. Além de contar os bastidores – e com detalhes – do nascimento do filhote do Estadão, em 1966, Casagrande recolheu as mais deliciosas, extravagantes, aflitivas e engraçadas aventuras dos protagonistas. O tempo era outro, a tecnologia era outra, os sonhos eram outros. A história do JT e da turma que fazia o jornal – e que turma! – já merecia um documento assim. Na equipe, estavam, entre outros, Mino Carta, Murilo Felisberto, Ivan Ângelo, Marcos Faerman, Humberto Werneck, Moisés Rabinovici, Telmo Martino, José Maria Mayrink, apenas para citar alguns. O sonho de fazer um jornal diferente de todos os que estavam nas bancas, transformou o JT num verdadeiro laboratório de invenções. Não dá pra perder!

[foto Reprodução] 

MUDANDO DE ASSUNTO

A ação norte-americana no aeroporto de Bagdá, no segundo dia do ano ainda novo, em que morreu o general iraniano Qassem Soleimane, mostra um lado fascinante do Jornalismo: como uma notícia, pura e simples, engole todas as outras. De repente, sites de notícia, jornais e telejornais focam no acontecimento, deixando em segundo plano praticamente todas as outras notícias. Elas são dadas de uma forma meio blasé, como se não tivessem a menor importância. E muitas vezes não têm mesmo. Mas a guerra de hoje é diferente das guerras de outrora. Com o avanço da tecnologia, a informação chega numa velocidade estonteante, mas quase nunca por vias próprias. Não existe mais, pelo menos entre nós, a figura do correspondente de guerra como foi um dia Rubem Braga ou Joel Silveira. Não vemos mais aquele soldado na trincheira porque a guerra é cibernética. Quem ataca são os drones e o que vimos são apenas clarões no céu. Tudo bem esquecer um pouco as bobagens ditas e feitas pelo presidente Bolsonaro, por exemplo. Mas deixo aqui uma perguntinha: Cadê o impeachment do presidente Donald Trump que estava aqui? A guerra comeu!

[foto Reprodução Le Monde]

JORNALISMO

Uma rápida espiada nas primeiras páginas de dois jornais conservadores brasileiros e na primeira página do jornal português Público, deste domingo, 10, percebemos o motivo de os jornais estarem morrendo por aqui. O discurso de Lula ontem, em São Bernardo, foi o fato principal do dia. Ou não? Os jornais brasileiros acharam que não. Triste visão. [AV]

EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Segunda-feira, dez da noite, por exemplo. Toda semana, na seção Multitela da Folha, anunciam quem será o entrevistado de segunda-feira à noite no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. Essa semana havia uma expectativa se seria ou não o ex-presidente Lula, direto de Curitiba. Não foi. Quem apareceu por lá, foi a deputada Estadual Janaina Paschoal, aquela que costuma rodar a bandeira do Brasil nos momentos de maior euforia ou delírio. Janaina sentou-se no centro da roda-viva, se achando. Dona de verdades mas, dessa vez, pisando em ovos, com um olho nas eleições para prefeito, no ano que vem. Nesses momentos, é preciso parecer séria. O Roda Viva costuma chamar sempre os representantes dos mesmos órgãos de imprensa. Comandado pela jornalista Daniela Lima, da Folha, ela vai anunciando um a um, no início do programa: Estadão, Folha, Época, Valor Econômico, UOL, O Globo… e, muito raramente algum representante de um blog ou site de notícias. Nunca de esquerda. Os entrevistadores do Roda-Viva se preparam através de apostilas que o programa distribui a eles durante a semana, mais ou menos, a vida e a obra do entrevistado. Cada um vai com meia dúzia de perguntas e, raramente, entram em grandes polêmicas. Quando elas começam, a âncora preocupadíssima com o tempo, com um cronômetro na mão, anuncia: “Temos apenas 3 minutos para duas perguntas!”. O programa, no final, é sempre uma frustração. Perguntas ficaram no ar, respostas não foram convincentes. No caso de Janaina, falou-se de laranjas, de caixa-dois, de brigas no partido, rachadinhas, mas nenhuma deixou a deputada vermelha de vergonha. Pelo contrário. Os entrevistadores nunca reagem com veemência. O entrevistado fala verdades, mentiras, meias verdades e fica por isso mesmo. Janaina chegou a dizer que “todos os partidos fazem isso” (no caso dos laranjas) e nenhum dos entrevistados reagiu: “Mas a senhora não disse que o PSL era o novo, o diferente, aquele que ia acabar com a corrupção?” Parece que os entrevistadores não querem entrar em grandes confrontos, querem aparecer na televisão, com cara de intelectual, e pronto. É o suficiente. [AV]

JORNALISMO SELETIVO

Assim virou o Brasil. Em 2050, quando os historiadores forem estudar o nosso século a partir da imprensa, vão concluir que Irmã Dulce não é santa, se basear sua pesquisa na TV Record. E vai concluir que o ex-ministro Sergio Moro foi isento, se basear sua pesquisa na TV Globo. A Record não cobrir nem informar seus telespectadores sobre Santa Dulce dos Pobres e a TV Globo não cobrir nem informar seus telespectadores sobre os vazamentos do Intercept, é uma vergonha para o país, para nós, jornalistas. [AV]

SEM FUTURO

Fico aqui pensando com os meus botões, como será contada nossa história daqui a cinquenta anos. Como dois grandes jornais, O Globo e O Estado de S.Paulo, vão explicar o silêncio em torno de grandes acontecimentos políticos? Como os Marinhos e os Mesquitas vão explicar que decidiram simplesmente não noticiar os vazamentos do Intercept que, em 2016, mudaram o rumo da nossa História? Como irão explicar que esconderam dos seus leitores tais fatos? Vivemos a era da vergonha na imprensa. Escrita e falada. A Rádio Jovem Pan, por exemplo, virou porta-voz da imprensa fascista. Jornalistas e mais jornalistas, todos empregados, mergulharam no política do esconder debaixo do tapete o que não lhe interessa. Vivemos a era da vergonha, em que no principal telejornal do país, plasticamente bonito, existe uma forte autocensura comandada por seus donos ou, quem sabe, por seus poderosos chefões, mais realistas que os reis. [AV]

DESCULPA

Espero ansiosamente pintar na telinha numa noite qualquer, numa dessas matérias comemorando os 50 anos do Jornal Nacional, o dia em que Cid Moreira leu o direito de resposta do governador Leonel Brizola. Espero ansiosamente uma reportagem sobre o pedido de desculpas das Organizações Globo, cinquenta anos depois, por ter apoiado o golpe militar de 1964. Espero ansiosamente uma reportagem que mostre como foi feita a manipulação e a edição do último debate entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. Espero ansiosamente uma reportagem mostrando como a emissora tomou partido contra Lula e o acusou de ser dono de um barquinho de alumínio estacionado no sítio de Atibaia. Espero ansiosamente uma reportagem mostrando como a emissora, com flashes desde as 7 horas da manhã, incentivou a população a ir para as ruas e derrubar a presidenta Dilma, eleita democraticamente. Espero ansiosamente. [AV]

O PERIGO VERMELHO

De vez em quando a gente ouve um “até o Jornal Nacional deu”. Como se fosse uma piedade, o principal jornal do país noticiar favoravelmente a esquerda. Mas, na verdade, o pavor, o medo, o rancor de ver a esquerda no poder é que pauta o JN, como é conhecido. Ontem à noite, por exemplo, o JN foi o JN. A vitória da chapa de centro-esquerda nas eleições primárias na Argentina, provocou um reboliço na hora de montar o telejornal das oito e meia. Quem pegou assim, o bonde andando, deve ter levado um susto. As perspectivas anunciadas pelos dois apresentadores eram as mais terríveis possíveis. A vitória da chapa Alberto-Chistina, acendeu o farol vermelho no cenário futurista do JN. Dólar em alta, bolsa em baixa, crise à vista! Qualquer sinal de vitória da esquerda, o gigante JN acorda. Acorda para passar para os telespectadores que o abismo está próximo. Macri pediu milhões ao FMI e o medo é de que a esquerda adote o calote, disse o apresentador, testa franzida, preocupadíssimo. Como se Macri vencedor, pagaria tal dívida. Mas se a direita não pagar, isso não é crise. O problema é a esquerda. A derrota contundente do candidato de Bolsonaro, fez com que ele aparecessem, lá nos pampas, alertando para o perigo vermelho. “Se a esquerdalha voltar na Argentina, o Rio Grande do Sul pode virar uma Roraima e nós não vamos permitir a entrada de argentinos fugindo do país”. A gente já está acostumado a um presidente que só fala merda e essa foi apenas mais uma. Não se iluda, quando 2022 se aproximar, o gigante JN vai surgir com todas as suas garras para tentar derrubar qualquer sinal de esquerda, e se a arma para combater os vermelhos for fake news, pouco importa. Vale tudo, já dizia o bom, velho e saudoso Tim Maia. [AV]