UM LIVRO PRO SÁBADO

Muitos são os livros que contam histórias do tempo do regime militar, que começou naquele 31 de março de 1964 e durou – infelizmente – mais de duas décadas.Mas nenhum é como A queda, de Antônio Nahas Júnior. A queda foca no estado de Minas Gerais, a luta para derrubar a ditadura que cometeu atrocidades em nosso país. Nahas, que passou dois anos na prisão em Salvador e quando pôde, foi lutar em Minas. Ela conta com detalhes as ações das organizações guerrilheiras, enumerando uma a uma. Uma viagem emocionante pela história do Brasil, nesses tempos sombrios que vivemos. O livro é editado pela editora mineira Scriptum. Todos os brasileiros deveriam conhecer essa parte da história que Nahas conta tão bem.

[AV]

 

 

O LIVRO DO SÁBADO

Já se foi o tempo das grandes reportagens. Época em que o repórter tinha tempo para apurar, juntar os cacos e montar o mosaíco de uma grande história. Eis que de repente, em plena decadência da grande reportagem nos jornais e nas revistas, Chico Felitti nos presenteia com uma história extraordinária em forma de livro. Ricardo e Vânia, publicado pela Todavia, não é a biografia de uma figura lendária de São Paulo, o Fofão da Augusta. É sua história reconstruída, esmiuçada, completa. Ele desvenda o mistério, depois de procurar todos os detalhes com a lupa de um grande repórter. Duvido que alguém comece a ler o livro e pare. Nem pra respirar a gente para. Publicada inicialmente no Buzzfeed em forma de reportagem, Ricardo e Vânia foi revista, ampliada e completada. Recomendo.

[AV]

O LIVRO DO SÁBADO

De tempos em tempos, compro um disco de olhos fechados. E tenho uma boa surpresa. Nunca tinha ouvido falar em Glaura Santos, tampouco do livro Todo mar vai ser você. Na última estada em Belo Horizonte, comprei o livro na charmosa Livraria Quixote, no coração da Savassi. Estava mergulhado na biografia de Jorge Amado, mas dei uma paradinha para espiar o mar de Glaura. Fui lendo, lendo e não parei mais. Lembrei-me vagamente de Ana C., que costurava anotações, cartas, pequenos diários. Glaura conta uma história real, cheia de poesia, costurando palavras até chegar a um bordado magnífico. Ao mesmo tempo que triste, a história é cheia de pequenos detalhes do cotidiano que nos enche de alegria e esperança. Adorei.

O LIVRO DO SÁBADO

A coleção BH – A cidade de cada um, chega ao seu trigésimo livro, dedicado ao Colégio Municipal. Sim, é um livro para mineiros que cultivam a memória da cidade. O livro de José Alberto Barreto, além de recordar muitos casos de quem passou pelo Municipal nas décadas de 1940 e 1950, inclui inúmeros recursos da própria Belo Horizonte, provinciana ainda, cheia de pardais, que o autor reclama que estão acabando. O próximo da coleção será dedicado ao bairro da Renascença.

[AV]

 

UM LIVRO PRO SÁBADO

Algumas biografias, como esta de Jorge Amado, escrito pela jornalista e historiadora Joselia Aguiar, são verdadeiras aulas de história. Em mais de seiscentas páginas, Joselia vai traçando o perfil do escritor baiano e, ao mesmo tempo, nos situando no Brasil, na sua História, no seu folclore, nas suas curiosidades. Muito já se falou e escreveu sobre Jorge Amado, mas a biografia editada pela Todavia é um caso à parte. A jornalista pesquisou durante quase uma década, esmiuçou a vida de Amado e chegou a um resultado exemplar. É leitura boa e cativante da primeira até a última página.

A CAPA

O Brasil tem dessas coisas. Muitas vezes, um produto interessante é pouco ou quase nada conhecido do grande público. Outro dia perguntei quem conhecia a Quatro Cinco Um, sem dizer que era uma revista mensal de literatura. Poucos conheciam. No entanto, ela está no mercado há mais de um ano. Não sei se todos conhecem A Capa, um jornal que só tem capa, não tem conteúdo.  Está todo dia aqui no mundo online, sempre com uma surpresa, um toque criativo de publicitários e afins. Vale a pena conhecer. Procure A Capa no Facebook. Vai ter uma boa surpresa. Bem como a Quatro Cinco Um.

[AV]

AS FLORES DO JARDIM DA NOSSA CASA

Ainda não recebi o livro. Espero ansiosamente, porque sei que é uma boa história, literatura de primeira. O livro As Flores do Jardim da Nossa Casa, do jornalista e escritor Marco Lacerda, está sendo editado pela Chiado, de Portugal, e terá lançamento amanhã, sexta-feira, em Belo Horizonte. Lacerda contou, em entrevista Rádio Inconfidência, um pouco da história das flores. Numa mistura de realidade com ficção, a aventura começa no dia do seu quadragésimo aniversário, quando três homens armados invadiram o seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, onde morava. Amarrado e imobilizado, Lacerda viveu momentos de horror trancado dentro do seu quarto, ouvindo o que os bandidos confabulavam na sala. Foi salvo por uma ligação da sua mãe, que queria ser a primeira a parabenizá-lo pelo aniversário. Não deu vontade de ler? É leitura boa, com certeza. Fica aqui o convite a todos os meus amigos e seguidores de Belo Horizonte. O lançamento é amanhã, dia 23, sexta, na Escola Superior Dom Helder Câmara, Rua Álvares Maciel, 628, no bairro de Santa Efigênia, em BH, a partir de 18 horas. Com direito a intervenções musicais de Fernando Sodré na viola, Maurício Troian no violão e Leda Tavares de Farias, ao piano. Ótimo papo, ótimo programa e boa leitura.

BIBLIOTECAS

Os amantes dos livros estão em festa. No Sesc Paulista, a exposição Bibliotecas à Noite, é um dos eventos mais espetaculares que a cidade de São Paulo já teve nos últimos anos. Mostra, em realidade virtual, o universo de oito grandes bibliotecas do mundo. Uma viagem que dura quase uma hora pelas  bibliotecas da Abadia de Admont, na Áustria, pelo Templo de Base-dera, no Japão, a Biblioteca Vasconcelos, no México, a Biblioteca Real, na Dinamarca, a Biblioteca do Parlamento, em Ottawa, a Biblioteca Nacional e Universitária, da Bósnia e Herzegovina, a Biblioteca Saint Geneviève, da França e a Biblioteca de Nautilus, de 20 mil léguas submarinas. A entrada é gratuita, mas é preciso agendar, porque o número de visitantes por vez é reduzido. Na Biblioteca do Sesc, o livro A Biblioteca, de James Campbell – que inspirou a exposição – está disponível para consulta e na lojinha, está à venda. Aproveitando a onda, lembro que o livro Livrarias, de Jorge Carrión, publicado pela Bazar do Tempo, é uma outra viagem fascinante pelo mundo dos livros.

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Os argentinos são ótimos de contar histórias no cinema. Na literatura, nem se fala. Um bom exemplo é A Uruguaia, de Pedro Mairal. História de amor, de questionamento, de procura, de viagem, tudo em um dia. Mairal se revela como um bom contador de história, com uma literatura simples e cativante. Desses livros que quando a gente pega… Editado no Brasil pela Todavia, já nas poucas boas casas do ramo.

[foto Reprodução]

Pausa pra leitura

A Serrote, revista publicada pelo Instituto Moreira Sales chega ao seu trigésimo número com o primor de sempre. Destaque para esse número o ensaio de Eucanaã Ferraz sobre os anos 60. Este número tem ainda: Djaimila Pereira Almeida, Franz Kafka, Philip Roth, Simone Weil e outros craques. Vale quanto pesa. A gente mergulha na leitura que até esquece o que nos espera a partir de primeiro de janeiro.

[foto Reprodução]

Que mistérios tem Clarice

Nesses dias sombrios que vivemos, nada melhor que uma boa leitura. O Rio de Clarice, passeio afetivo pela cidade, de Teresa Montero, por exemplo, é uma boa pedida. A autora, especialista em Clarice, percorre os passos da escritora pela Cidade Maravilhosa, mostrando onde ela morou, onde ela se inspirava, onde ela passeava e até mesmo onde comprava jornais e revistas. Tudo explicadinho, lugar por lugar, como se fosse um guia amoroso. Você passeia pelo Rio, da primeira à última página.

REVOLUÇÃO

 

Escrito em 1945, a obra prima de George Orwell, A Revolução do Bichos, ganha uma nova versão, adaptada e ilustrada pelo gaúcho Odyr. A versão em quadrinhos, publicada com esmero pela Companhia das Letras, é leitura obrigatória para os dias de hoje.

[foto Reprodução]

 

INGE FELTRINELLI (1930-2018)

Morreu ontem, em Milão, aos 87 anos, Inge Feltrinelli, uma das maiores personalidades do livro na Itália. Inge ficou conhecida no mundo inteiro quando publicou, pela primeira vez, o clássico Doutor Jivago, de Boris Pasternak, provocando a ira da União Soviética. De origem alemã, a editora morava na Itália desde o início dos anos 1960. Hoje, por onde você anda na Itália, você encontra uma Livraria Feltrinelli. Na foto, a publisher com Ernest Hemingway em Cuba, no ano de 1953.

[foto Reprodução]

CHEIRO DE LIVRO

Sim, o mundo moderno nos levou ao Spotify, ao Smartphone, ao Kindle. Nos levou a praticidade de comprar qualquer coisa apenas clicando enter. Mas ainda há os que resistam, aqueles que insistem em comprar um disco numa loja de discos, a ligar do telefone fixo e a ler um livro de papel, comprado numa livraria. Livrarias, uma história da leitura e de leitores, editado caprichosamente no Brasil pela Bazar do Tempo, é um guia romântico para aqueles que ainda entram em livrarias para se deleitar com as ofertas que são tantas, a beliscar as orelhas, descobrir preciosidades. O espanhol Jorge Carrión faz um passeio por livrarias históricas em várias partes do mundo, escrevendo quase que um saboroso conto sobre cada uma. A vontade que dá é de fechar o livro e sair por ai procurando nossas velhas livrarias que, infelizmente, são cada vez menos na nossa cidade. O prazer pela leitura, pelo ambiente das livrarias, suas histórias fabulososas, Carrión reuniu tudo isso num volume de quase 300 páginas que a gente vai saboreando cada uma delas.

[foto Reprodução]

LITERATURA

O Brasil sempre torceu o nariz para as histórias em quadrinhos. Sempre considerou uma arte menor, uma arte para quem não gosta muito de ler. O forte aqui sempre foi (ou era) quadrinhos para muito jovens, tipo Disney ou Mauricio de Souza. Claro que os super-heróis sempre tiveram seus fãs, bem como a Valentina de Guido Crepax, as tirinhas de Angeli, Laerte, a turma do Circo, Chiclete com Banana. Essa é uma visão minha, meio superficial, sem entrar em detalhes, por exemplo, dos livros primorosos que estão saindo aqui com os grandes clássicos da literatura em quadrinhos. Mas o quadrinho para adultos, ainda engatinha. O brasileiro Marcello Quintanilha, por exemplo, ganhou uma página inteira do prestigioso jornal francês Le Monde porque acaba de arrebatar um dos maiores prêmios do setor e quase ninguém o conhece por aqui.  O álbum de Quintanilha – Les Lumières de Niterói – será lançado na França no dia 9 de novembro e está sendo esperado como a grande obra de HQ da rentreé. As historias em quadrinhos para adultos são tratadas na França com valor que merecem. Basta entrar numa das Fnacs de Paris e ver que a seção de quadrinhos é do tamanho de uma livraria grande daqui.

[foto Reprodução/Le Monde]

 

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO

                                                                              

O livro Caminhando contra o Vento, da italiana de origem somali, Igiaba Scego (Editora Buzz, tradução de Francesca Cricelli) já está nas livrarias. Trata-se de um curioso texto escrito por uma fã de carteirinha, que conhece melhor o cantor e compositor baiano Caetano Veloso do que muitos brasileiros. Ela traça um perfil bem completo dele, seus discos, suas parcerias, sua família e de uma maneira muito particular. O livro bem que poderia chamar-se O meu Caetano. É um prazer ler em cada página, passagens da vida do compositor e perceber que Igiaba conhece o movimento musical brasileiro de cor e salteado. Curiosamente, ela conheceu a obra do baiano quando trabalhava como vendedora de discos. Quando descobriu o disco Cores, Nomes, sua paixão nasceu e só foi crescendo. Tenho apenas duas observações a fazer, erros que podem ser corrigidos na próxima edição. Primeiro, quando fala de Araça Azul, ela diz que todas as canções foram compostas por Caetano. Na verdade, o disco tem três músicas que não são dele: Cravo e Canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos}, Tu me acostumaste (F. Dominguez) e Eu quero essa mulher (Monsueto Menezes e João Batista). Segundo, ela troca o nome de um dos filhos de Caetano. Chama Zeca de Zé. E como ela comenta várias capas de seus discos, faltou lembrar (quando fala de Qualquer Coisa) que a capa é uma brincadeira com Let It Be, dos Beatles. No mais, um livro admirável para qualquer pessoa que gosta de Caetano e de sua obra. A gente lê numa golada só.

                                                                                                       

[fotos Reprodução]