SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Os argentinos são ótimos de contar histórias no cinema. Na literatura, nem se fala. Um bom exemplo é A Uruguaia, de Pedro Mairal. História de amor, de questionamento, de procura, de viagem, tudo em um dia. Mairal se revela como um bom contador de história, com uma literatura simples e cativante. Desses livros que quando a gente pega… Editado no Brasil pela Todavia, já nas poucas boas casas do ramo.

[foto Reprodução]

Pausa pra leitura

A Serrote, revista publicada pelo Instituto Moreira Sales chega ao seu trigésimo número com o primor de sempre. Destaque para esse número o ensaio de Eucanaã Ferraz sobre os anos 60. Este número tem ainda: Djaimila Pereira Almeida, Franz Kafka, Philip Roth, Simone Weil e outros craques. Vale quanto pesa. A gente mergulha na leitura que até esquece o que nos espera a partir de primeiro de janeiro.

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Que mistérios tem Clarice

Nesses dias sombrios que vivemos, nada melhor que uma boa leitura. O Rio de Clarice, passeio afetivo pela cidade, de Teresa Montero, por exemplo, é uma boa pedida. A autora, especialista em Clarice, percorre os passos da escritora pela Cidade Maravilhosa, mostrando onde ela morou, onde ela se inspirava, onde ela passeava e até mesmo onde comprava jornais e revistas. Tudo explicadinho, lugar por lugar, como se fosse um guia amoroso. Você passeia pelo Rio, da primeira à última página.

REVOLUÇÃO

 

Escrito em 1945, a obra prima de George Orwell, A Revolução do Bichos, ganha uma nova versão, adaptada e ilustrada pelo gaúcho Odyr. A versão em quadrinhos, publicada com esmero pela Companhia das Letras, é leitura obrigatória para os dias de hoje.

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INGE FELTRINELLI (1930-2018)

Morreu ontem, em Milão, aos 87 anos, Inge Feltrinelli, uma das maiores personalidades do livro na Itália. Inge ficou conhecida no mundo inteiro quando publicou, pela primeira vez, o clássico Doutor Jivago, de Boris Pasternak, provocando a ira da União Soviética. De origem alemã, a editora morava na Itália desde o início dos anos 1960. Hoje, por onde você anda na Itália, você encontra uma Livraria Feltrinelli. Na foto, a publisher com Ernest Hemingway em Cuba, no ano de 1953.

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CHEIRO DE LIVRO

Sim, o mundo moderno nos levou ao Spotify, ao Smartphone, ao Kindle. Nos levou a praticidade de comprar qualquer coisa apenas clicando enter. Mas ainda há os que resistam, aqueles que insistem em comprar um disco numa loja de discos, a ligar do telefone fixo e a ler um livro de papel, comprado numa livraria. Livrarias, uma história da leitura e de leitores, editado caprichosamente no Brasil pela Bazar do Tempo, é um guia romântico para aqueles que ainda entram em livrarias para se deleitar com as ofertas que são tantas, a beliscar as orelhas, descobrir preciosidades. O espanhol Jorge Carrión faz um passeio por livrarias históricas em várias partes do mundo, escrevendo quase que um saboroso conto sobre cada uma. A vontade que dá é de fechar o livro e sair por ai procurando nossas velhas livrarias que, infelizmente, são cada vez menos na nossa cidade. O prazer pela leitura, pelo ambiente das livrarias, suas histórias fabulososas, Carrión reuniu tudo isso num volume de quase 300 páginas que a gente vai saboreando cada uma delas.

[foto Reprodução]

LITERATURA

O Brasil sempre torceu o nariz para as histórias em quadrinhos. Sempre considerou uma arte menor, uma arte para quem não gosta muito de ler. O forte aqui sempre foi (ou era) quadrinhos para muito jovens, tipo Disney ou Mauricio de Souza. Claro que os super-heróis sempre tiveram seus fãs, bem como a Valentina de Guido Crepax, as tirinhas de Angeli, Laerte, a turma do Circo, Chiclete com Banana. Essa é uma visão minha, meio superficial, sem entrar em detalhes, por exemplo, dos livros primorosos que estão saindo aqui com os grandes clássicos da literatura em quadrinhos. Mas o quadrinho para adultos, ainda engatinha. O brasileiro Marcello Quintanilha, por exemplo, ganhou uma página inteira do prestigioso jornal francês Le Monde porque acaba de arrebatar um dos maiores prêmios do setor e quase ninguém o conhece por aqui.  O álbum de Quintanilha – Les Lumières de Niterói – será lançado na França no dia 9 de novembro e está sendo esperado como a grande obra de HQ da rentreé. As historias em quadrinhos para adultos são tratadas na França com valor que merecem. Basta entrar numa das Fnacs de Paris e ver que a seção de quadrinhos é do tamanho de uma livraria grande daqui.

[foto Reprodução/Le Monde]

 

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO

                                                                              

O livro Caminhando contra o Vento, da italiana de origem somali, Igiaba Scego (Editora Buzz, tradução de Francesca Cricelli) já está nas livrarias. Trata-se de um curioso texto escrito por uma fã de carteirinha, que conhece melhor o cantor e compositor baiano Caetano Veloso do que muitos brasileiros. Ela traça um perfil bem completo dele, seus discos, suas parcerias, sua família e de uma maneira muito particular. O livro bem que poderia chamar-se O meu Caetano. É um prazer ler em cada página, passagens da vida do compositor e perceber que Igiaba conhece o movimento musical brasileiro de cor e salteado. Curiosamente, ela conheceu a obra do baiano quando trabalhava como vendedora de discos. Quando descobriu o disco Cores, Nomes, sua paixão nasceu e só foi crescendo. Tenho apenas duas observações a fazer, erros que podem ser corrigidos na próxima edição. Primeiro, quando fala de Araça Azul, ela diz que todas as canções foram compostas por Caetano. Na verdade, o disco tem três músicas que não são dele: Cravo e Canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos}, Tu me acostumaste (F. Dominguez) e Eu quero essa mulher (Monsueto Menezes e João Batista). Segundo, ela troca o nome de um dos filhos de Caetano. Chama Zeca de Zé. E como ela comenta várias capas de seus discos, faltou lembrar (quando fala de Qualquer Coisa) que a capa é uma brincadeira com Let It Be, dos Beatles. No mais, um livro admirável para qualquer pessoa que gosta de Caetano e de sua obra. A gente lê numa golada só.

                                                                                                       

[fotos Reprodução]

 

LEITURA RECOMENDADA

Me apaixonei por Wander Piroli nos anos 1970, quando morava fora do Brasil, e recebi pelo correio dois livrinhos editados em Belo Horizonte, dois livrinhos com títulos curiosos: O menino e o pinto do menino e A mãe e o filho da mãe. Li de uma talagada só e fui atrás do autor. Numa época em que não havia WhatsApp, Sky, Facebook, nada disso, o jeito foi enviar uma carta para Piroli, depois de muita luta para conseguir o seu endereço. A partir dai começou uma amizade longínqua e constante, uma troca de correspondência que me deixava muito feliz. Conheci Wander Piroli pessoalmente, assim que voltei ao Brasil, desempregado, pai de dois filhos, em busca de um trabalho. Foi ele quem me passou o primeiro frila em terras brasileiras, depois de uma noitada num bar no centro de Belo Horizonte, falando da vida e dos seus personagens, a coisa que ele mais gostava. Acabo de ler e recomendo a todos  o perfil biográfico de Piroli, caprichosamente traçado pelo jornalista e escritor Fabrício Marques, que vasculhou seus arquivos, ouviu seus amigos e parentes, revisitou redações por onde ele passou e deixou sua marca, sua Lagoinha, seu cenário e inspiração. O resultado é perfeito para quem conheceu e gosta de sua obra e também para quem ainda não o conhecia. Histórias exemplares de um escritor mineiro, de um jornalista de mão cheia, de um tipo inesquecível. Wander Piroli, uma manada de búfalos dentro do peito, editado pela Conceito, é um livro que a gente pega pra ler e não larga mais.

[foto Reprodução]

PROCURANDO GRANTA

Era fã de carteirinha da revista de literatura Granta, uma das melhores do mundo, há muito tempo. Vi meu sonho ser realizado quando, na primavera de 2007, lançaram aqui no Brasil, a edição em português. O número 1 trazia os melhores jovens escritores norte-americanos, entre eles Jonathan Safran Foer e Kevin Brockmeier, com um texto que amei, Periquitos. Reservei um lugar especial na minha revistaria para os números que viriam. E vieram. Foram 13 ao todo, alguns muito especiais como o dedicado ao sexo, a ambição, o trabalho, as medidas extremas, a traição e um sobre os escritores sírios e libaneses, coisa rara por aqui. A Granta tem um padrão de  qualidade impecável em  todas as suas edições, em várias partes do mundo. A edição brasileira não ficou devendo nada. Mas morreu. Morreu anunciando que ressuscitaria com uma edição conjunta Brasil-Portugal. Ao invés de uma Granta Brasil e uma Granta Portugal, teríamos uma Granta em língua portuguesa. Me reanimei. Fui-me embora passar uma temporada fora do Brasil e não tive mais notícia. Notícia que recuperei da memória e fui reavivá-la. O primeiro passo foi ir até a Livraria Cultura da Avenida Paulista procurar o número 1 da tal edição portuguesa. Decepção. Quando falei o nome da revista para o vendedor, antes de entrar no computador, já me deu o aviso: “Tem muito tempo que não recebemos”. Expliquei a ele que realmente a Granta havia deixado de circular, mas que voltaria no início de 2018. Ele consultou sua tela e disse que não tinha nenhum sinal da revista. “Nem pedido temos”. Sai de lá meio jururu mas não desisti. Liguei pra algumas livrarias mais descoladas daqui e realmente não havia sinal de vida da Granta. Entrei no Google e… Eureka! Lá estava a capa do primeiro número 1, Fronteiras! Nos nossos sites de venda online, nenhum sinal. Resolvi então procurar num site gringo e achei. No primeiro passo que dei para comprar, veio o aviso: “Produto  não disponível para entrega no Brasil”. Estou pensando em ir-me embora de novo. Quem sabe na Grécia eu encontro a Granta em língua portuguesa?

[foto Reprodução Internet]

VAI PRA CUBA!

Já fui a Cuba duas vezes, o que acho pouco tamanha minha paixão pela ilha. A primeira, em meados dos anos 1980, como repórter do Estadão, pra cobrir o Festival de Música de Varadero. Fui no mesmo avião que Chico Buarque, rei de Havana na época. Passei quinze dias por lá e foi amor à primeira vista. Depois voltei em 2013 com a família – mulher e filhas – como turista. Foram duas viagens bem diferentes, ambas apaixonantes. Agora, acabo de fazer a terceira viagem, lendo Farofa Paradisíaca & outras histórias cubanas, da jornalista e escritora Débora Rubin. Ela partiu em junho do ano passado com o companheiro André Julião, também jornalista, e soube reunir historinhas saborosas e pequenas aventuras que recomendo a todos. Publicado pela Tüz e ilustrado por Rodrigo Terra, a Farofa de Débora é uma delícia para quem já conhece a ilha, agora de Miguel Díaz-Canel, e, para quem não conhece, vai dar aquela vontade louca de pegar o primeiro avião com destino a felicidade.

[foto Reprodução]

SEBOS & LIVRARIAS

Sou viciado em sebos e livrarias. Por onde vou, quero ser seu par. Não importa se estou chegando numa aldeia ou numa megalópole. Procuro sempre onde estão as livrarias da cidade, os sebos, muitas vezes escondidos por detrás de portinhas tortas, antigas, comidas por cupins. Seja em Tóquio, seja em Atenas. Não importa se os livros estão escritos em japonês ou grego. Fico horas observando as capas, tentando descobrir que livro era aquele de Gabriel Garcia Márquez, porque não havia nenhuma pista de ser O amor nos tempos do cólera. Na última ida a Paris, fiquei cinco horas, quase que uma tarde inteira, dentro da Fnac Fórum des Halles. E ainda não sai satisfeito porque não deu tempo de ver tudo. Na Itália, descobri La Feltrinelli, uma rede de livrarias espalhada por várias cidades. Não se trata de uma pequena livraria charmosa, pequena, aconchegante. Mas tem de tudo. Quantos livros de Pier Paolo Pasolini não deixei lá com a promessa de um dia voltar para resgatá-los? A Feltrinelli, que nos primeiros dias chamávamos de “Fantrinele”, virou um vício porque todo dia tinha uma novidade. Foi numa delas que achei, escondidinho, o livro 1968, de Oriana Fallaci, por exemplo. Em São Paulo, sou viciado na Livraria da Vila. Depois de mais de três meses sem ir lá, estou combinando de amanhã cedo ir. Num primeiro momento, estou pensando em deixar o cartão de crédito em casa.

  1. Porta interna da livraria La Feltrinelli, em Roma

2. O amor nos tempos do cólera, numa pequena livraria de Vryses, Grécia

[fotos Alberto Villas]

 

A VOZ DO MORRO

Em 1977, longe daqui, aproximadamente a uns dez mil quilômetros de distância, eu me surpreendi com a linguagem de Dentes ao Sol, de Ignácio de Loyola Brandão. Quarenta anos depois, pertinho do Rio de Janeiro, outrora cidade maravilhosa, me surpreendo com a linguagem de O sol na cabeça, de Geovani Martins. Uma linguagem que mistura ficção com realidade. Os 13 contos do livro poderiam ser 13 reportagens, 13 retratos-falados de uma vida periférica, que acaba de ganhar uma voz. Vamos ouvir falar muito de Geovani Martins, o menino que nasceu em 1991 em Bangu e descobriu uma maneira de mostrar a vida – lá no morro – como ela é. Leitura indispensável.

[fotos Reprodução]