ABRIL DESPEDAÇADA

Lembro-me bem, início dos anos 1980, quando Seu Carolino, o jornaleiro da Rua Sabará, em Higienópolis, me avisou da chegada do primeiro número de uma nova coleção infantil da Editora Abril: Taba. Levei pra casa o número de estréia e os meus filhos ficaram encantados. Tão encantados quanto eu. Vivíamos a era do vinil e o livrinho, de papel, além de uma história infantil cem por cento brasileira, escrita pelos bambas da literatura infantil, tinha ilustrações também feitas por craques da pena, ainda com o uso de lápis de cor, e um disquinho com músicas que conversavam com a historinha. O primeiro número era Marinho, o Marinheiro, uma história de Joel Rufino dos Santos, em que Gilberto Gil cantava Gaivota. Depois ouvimos New Matogrosso cantando Homem com H na historinha Pererê na Pororoca, de Sylvia Orthof. Assim que saia a Taba, nosso programa era, de noite no sofá, ler as historinhas com nossos filhos, ouvindo a música. Malaquias, o Macaco Cismado, de Cristina Porto, ouvindo Tom Zé cantando Cisma, Severino faz Chover, de Ana Maria Machado, com o Quinteto Violado cantando Asa Branca, Marte invade a Terra, de Sonia Robatto, com Jorge, ainda Ben, cantando Sempre Flamengo, e tantas outras. A Editora Abril era a dona do pedaço e nos enchia de alegria. Esse mundo acabou. [AV]

MÚSICA, MAESTRO!

Onde anda o Brasil Paulinho da Viola, de Pixinguinha, de Dorival Caymmi, de Jorge Benjor, de Sinhô, de Egberto Gismonti, de Hermeto Paschoal, de Tom Jobim, de Baden Powel, de Capiba, de Nelson Ferreira, de Edu Lobo, de Tom Zé, de Arrigo Bernabé, de Vinicius, de Nelson Sargento, de Cazuza, de Catulo, de Monsueto? Onde anda o Brasil de Chico, de Gil, de Caetano, de Walter Franco, de Rita Lee, de Dolores Duran, de Tito Madi, de Donga, de Elton Medeiros, Carlos Cachaça, de Cartola, de Adoniran, de Abel Silva, de Belchior, de Alceu, de Macalé, de Lupicínio, de Zé Keti, de Herivelto, de Raul, de Moraes, de Nelson Cavaquinho, de Luiz Gonzaga, de Melodia, de Gonzaguinha, de Johnny Alf, de João do Vale, de João Gilberto, de Jackson do Pandeiro, de Ismael Silva, de Sergio Ricardo, de Billy Blanco, de Noel Rosa, de Orts Barbosa, de Francis Hime, de Candeia, de Bide, de Marçal, de Geraldo Vandré, de Geraldo Pereira, de Geraldo Azevedo, de Geraldo Vandré, de Edu da Gaita, de Haroldo Barbosa, de Milton, de Ataulfo Alves, de Chiquinha Gonzaga? Onde andam os Novos Baianos, onde andam os Secos & Molhados? Você liga a televisão e pergunta. [AV]

ANOREXIA

Banca de jornal vendia só revista e jornal. Aos montes. Tinha O Globo, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Última Hora, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Notícias Populares, Diário Carioca, Jornal dos Sports, Diário de Notícias, Diário de Minas, Jornal da Tarde, Diário da Tarde, Zero Hora, Jornal do Commércio. Havia os undergrounds, o Rolling Stone, Movimento, Em Tempo, Opinião, Coojornal, Versus, Pasquim, Mulherio, Nós Mulheres, Lampião, De Fato. Havia revistas, a Enciclopédia Bloch, Realidade, O Cruzeiro, Manchete, Visão, Senhor, FairPlay, Playboy, Mickey, Tio Patinhas, Luluzinha, Bolinha, Os Jetsons, Flintstones, Manda-Chuva, Manequim, Desfile, Amiga, Careta, Placar, Set, Bizz, Ciência e Vida, Planeta, História. Havia undergrounds, A Pomba, O Saco, José, Inéditos, Circo, Silêncio, Escrita, Ficção. Havia fascículos, Gênios da Pintura, História da Música Popular Brasileira, Ciência Ilustrada, Mãos de Ouro, Bom Apetite, Taba, Vida a Dois, A Bíblia Mais Bela do Mundo, Medicina e Saúde, Povos & Países, Georama, Tecnirama, Segunda Guerra Mundial, Grandes Compositores da Música Clássica, As Grandes Óperas, Conhecer, Menu, Arte nos Séculos. Hoje banca de jornal tem chip da Claro, Vivo, Tim, Oi. Hoje tem Coca-Cola.

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SAUDADE DO BRASIL

Sete dias após a morte de João Gilberto, chegou o final de semana, empilhei todos os seus discos e fui ouvindo, um a um. São preciosidades que não tem preço. Não tem um melhor que o outro. Me fixei principalmente em dois, ambos com capas brancas. Um que começa com Águas de Março e outro que começa com Aquarela do Brasil, um disco chamado Brasil. Um país que praticamente não existe mais, apesar de estar tudo ai, o coqueiro que dá coco, o mulato inzoneiro. Um fruto maduro sequer, apesar de ouvir na televisão que o agro é pop, o agro é tudo, e que tá na Globo. Essa entressafra não tem sol, não tem chuva, arado arando, não tem tardinha que cai, nem barquinho que vai. Somos uma espécie de Síria, contando os mortos de cada dia, com túneis e mais túneis sem luz no fim. Ouvir João Gilberto durante dois dias foi bom. Mas foi sofrido. Sei que a bossa nova é foda, mas passou, precisamos tirar nossa nacionalidade portuguesa, passaporte na mão, descobrir novamente esse país, terra em transe, terra arrasada, terra nostra. Alguns discos são de vinil, outros compact, um no Spotify. O som é puro em todos eles porque João era meticuloso. Hoje, as coisas andam de qualquer jeito. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, João? Eu, você, girando na vitrola sem parar e o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar, tentamos inventar,tentamos inventar, tentamos. (AV) Agora ouça:

O NÚMERO 1

Hoje está fazendo exatamente cinquenta anos que o primeiro número do Pasquim chegou às bancas de todo o país. Não sei se de todo o Brasil, porque morava em Belo Horizonte e perdi os primeiros números, apesar de ser um rato de banca, desde pequenininho. Comecei a comprar, a ler, a acompanhar a turma do Pasquim lá por volta do número 9. Eu me lembro bem, estudava no Colégio Arnaldo e fazia, toda semana, uma vaquinha pra comprar o jornal. Eu era o encarregado de fazer a vaquinha, recolher o dinheiro, comprar o jornal e levar para o colégio, onde ele passava de mão em mão. Cinquenta anos depois, cá estou eu falando do jornal que fez a minha cabeça, que me fez sonhar com um jornalismo independente, sem medo, sem pisar em ovos. Que bom que vivo assim hoje, longe das garras dos patrões, aqueles que orientam, mandando sempre você virar à direita. Fui ver o que tinha nas bandas do lado esquerdo e descobri a encruzilhada, caminhos que vão para todos os lados. Graças ao Pasquim. Merci beaucoup Jaguar, Millôr, Francis, Ivan, Ziraldo, Henfil, Luis Carlos, Tarso, Sérgio Miguel, Sergio Augusto e todo o pessoal da pesada.

TOCA RAUL!

Lembro-me perfeitamente do dia dessa foto. Era meados dos anos 1980 e foi assim, de pijama, que Raul Seixas, autor de Maluco Beleza, nos recebeu, repórteres do Caderno 2 do Estadão. Ficamos um bom tempo, observando cada detalhe da sua casa – os discos de ouro e as muitas fotos de Elvis Presley na parede – até que ele aparecesse para falar de Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum, seu novo disco. Juvenal Pereira, um dos melhores repórteres fotográficos do país, captou rapidinho o espírito da coisa e pediu a ele uma escova de dentes e uma tomada, para mostrar que todos nós estávamos ligados. A foto foi capa do Caderno 2, numa época em que o Caderno 2 era assim uma espécie de Pasquim encartado dentro do jornal dos Mesquita. A imagem agora roda por todos os cantos e aparece sempre quando se fala de Raul Seixas. Ainda bem que com o crédito, foto: Juvenal Pereira.

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A MORTE DE UM CANTOR

Lembro-me muito bem daquele 11 de maio de 1981, uma segunda-feira. Fazia pouco tempo que tinha voltado a viver no Brasil e trabalhava na editoria Internacional do jornal O Estado de S.Paulo. Minha função era quase de um foca, separar por assunto, os telex que iam pipocando naquele monstrengo. América do Sul, EUA, Oriente Médio, Malvinas, Europa, Ásia, acidentes, artes e espetáculos, correspondentes. De repente, no meio da tarde, a máquina de telex anunciou uma chegada de urgência. O telex vinha cheio de asteriscos no cabeçalho, que repetia freneticamente a palavra Urgente! “Parem as máquinas! disse eu, usando um jargão da época. “Morreu Bob Marley!” Um dos meus colegas de Internacional, já de cabelos brancos, tirou o olhar meio blasé da Remington e comentou: “Amanhã, ao ler o jornal, saberei quem é este senhor!” Eu, apaixonado pelo Exodus, pelo Babilonia by bus, pelo Kaya, achei que era brincadeira. E era verdade o que ouvira. Ontem, quando todos os canais de televisão entraram em plantão para anunciar a morte do cantor Gabriel Diniz, lembrei-me do dia da morte de Bob Marley. Em 1981, não havia Google, Youtube ou Spotify e era preciso mesmo aguardar o jornal do dia seguinte para, quem ainda não sabia, tomar conhecimento de saber quem era Bob Marley. Fiquei curioso. Entrei no Google, no Youtube e no Spotify e ouvi pela primeira vez a música Jenifer, aquela que diz “O nome dela é Jenifer/Eu encontrei ela no Tinder/Não é minha namorada/Mas poderia ser”.

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O LIVRO DO SÁBADO

Nos últimos tempos, os brasileiros ganharam belas, honestas e bem escritas biografias. Para citar apenas algumas, a de Carlos Marighella, de Mario Magalhães, a de Francisco Julião, de Claudio Aguiar, a de Luis Carlos Prestes, de Daniel Aarão Reis, sem contar as mais antigas de Ruy Castro – Garrincha, Nelson Rodrigues e Carmem Miranda -, as de Fernando Morais – Chatô e Paulo Coelho – e as estrangeiras: Matisse, Van Gogh, Paul, John, Michael Jackson, Godard, Sartre e tantas outras. Junte-se a todos essas citadas, a de Maria Theresa Goulart – Uma mulher vestida de silêncio -, de Wagner William, que acaba de sair do forno da Editora Record. Trata-se de uma história meticulosamente contada, cheia de charme e detalhes desconhecidos, até mesmo por aqueles que acompanharam, nos anos 60, 70, principalmente, a vida da mais charmosa e bonita primeira-dama da História, que fora casada com João Goulart, o presidente da República derrubado por um golpe militar. A vida de Maria Theresa Goulart é escrita com esmero e capricho. Logo nas primeiras linhas, temos a impressão de estar lendo um grande romance. Não falta nada, nenhum detalhe. Nenhuma história saborosa – ou não – ficou de fora. Nem mesmo uma canção que o menestrel fez para aquela beleza pura, a música Dona Maria Thereza. Uma mulher vestida de silêncio é daqueles livros que você desacelera nas páginas derradeiras, com pena de acabar. Altamente recomendável. Vale, vale, vale!

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O LIVRO DO SÁBADO

Para lembrar os 500 anos da morte do gênio Leonardo da Vinci, a melhor leitura, não resta a menor dúvida, é esta biografia escrita por Walter Isaacson. Não trata apenas de um livro que fala da vida e obra de Leonardo. Vai muito além. O livro equivale a um curso de história da arte.

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MAIO

Maio, que começa hoje, é um mês todo especial. Entrou para a história em 1968, quando estudantes desceram o Boulevard Saint Michel, armados de paus e pedras, dispostos a mudar o mundo. O que parecia uma simples manifestação, foi um ato que marcou o início de uma revolução. Paris ficou em chamas. Os protestos se espalharam pelo mundo, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. E chegou ao Brasil. Maio é um mês muito especial e todos nós precisamos estar atentos e fortes, porque não temos tempo de temer a morte. Que venha maio, bye bye abril despedaçado.

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