CLUBE DA ESQUINA

A série O Livro do Disco, da Editora Cobogó, segue adiante com mais um belo documento: Clube da Esquina, de Paulo Thiago de Mello. A série conta a história do disco de Milton, Lô Borges e amigos, em detalhes e muitas novidades. Clube da Esquina, o álbum duplo, segundo editado no Brasil, chegou às lojas em 1972 e virou um clássico da música popular brasileira, mesmo não estando na prateleira de rock, de bossa nova, de tropicália. A reunião dos mineiros com Milton, o mais mineiro dos cariocas, rendeu um disco cheio de sonoridades que iam das montanhas a Londres dos Beatles. O curioso, me lembro muito bem, foi uma crítica publicada no semanário Opinião na época (juro que não me lembro o nome) dizendo que do disco, daria pra fazer um bom compacto duplo. Criticos também erram. Lembrando que Clube da Esquina I e II saíram esse ano numa luxuosa versão vinil, fiel à original de 1972.

[foto Reprodução]

A ALMA DO NEGÓCIO

No meu livro A Alma do Negócio, lançado pela Editora Globo em 2014, traço um panorama da publicidade nos anos 50, 60 e 70. Saliento como ela já foi declaradamente machista, passo pelos anos de chumbo, mostro a paranóia com a roupa bem passada, as propagandas dirigidas às crianças, que deveriam ser fortes e gordinhas, enfim, passeio pelo mundo da publicidade de uma maneira bem humorada e curiosa. De vez em quando, cai nas minhas mãos, um anúncio que ficou fora do livro mas deveria estar. Como esse, na última página da revista Claudia Cozinha, de 1968. Ele diz claramente que “os pratos mais saborosos levam bastante óleo”. Hoje, o óleo Galeto ficaria encalhado nas prateleiras de qualquer supermercado, porque a fritura virou o grande vilão do novo século.

[fotos Reprodução]

MUSEU DE TUDO

Aos poucos, o Brasil vai recuperando sua memória jornalística. Depois das edições em fac-símile dos jornais alternativos Pif Paf, de Millôr Fernandes, e do jornal Ex, depois do livro Jornal Movimento, uma reportagem, que trouxe encartado um disquete com todas as edições online do jornal, e também das edições online do De Fato, mineiro, chegou a vez de um jornalzinho que foi um verdadeiro porta-voz da resistência ao regime militar na década de 1970, o Coojornal, de Porto Alegre, lançado em 1971. Todos os exemplares estão disponíveis no site do Núcleo de Pesquisa em Ciência da Comunicação. A ideia brilhante foi do professor Antônio Carlos Hohlfeldt, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul. Que venham o Pasquim, o Versus, o Opinião, o Verbo, o Saco, a Flor do Mal e tantos outros.

[foto Reprodução]

1968

     

Incrível pensar que, naquele setembro de 1968, chegavam às bancas de jornais, duas publicações que, cinquenta anos depois, ainda estariam lá, resistindo a ventanias e temporais. A revista Veja, que nasceu nas mãos de Mino Carta, hoje é outra revista. Tenta recuperar o prestígio que tivera outrora, depois de passar por uma fase triste, nos anos Lula, como um panfleto publicitário da direita. E o suplemento Turismo, da Folha de S.Paulo, também resiste, depois de passar pela reviravolta do turismo, com informações online, Airbnb ao invés de hotel, a morte dos guias de papel e de inúmeras revistas como Viagem e Turismo, Próxima Viagem e tantas outras. Motivo de comemoração. Que a Veja recupere o tempo perdido nos informando com imparcialidade e que o suplemento Turismo da Folha continue nos fazendo sonhar em ir a lugares nunca antes imaginados.

[Na foto, o número 1 de Veja e o número 1 do Turismo, da Folha]

Reprodução

INGE FELTRINELLI (1930-2018)

Morreu ontem, em Milão, aos 87 anos, Inge Feltrinelli, uma das maiores personalidades do livro na Itália. Inge ficou conhecida no mundo inteiro quando publicou, pela primeira vez, o clássico Doutor Jivago, de Boris Pasternak, provocando a ira da União Soviética. De origem alemã, a editora morava na Itália desde o início dos anos 1960. Hoje, por onde você anda na Itália, você encontra uma Livraria Feltrinelli. Na foto, a publisher com Ernest Hemingway em Cuba, no ano de 1953.

[foto Reprodução]

TÚNEL DO TEMPO

O anúncio da cerveja Caracu que surgiu, de repente, no Largo do Paissandu, em São Paulo, após o desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado ao lado, tem dividido opiniões. Alguns acham que deve ser apagado para dar lugar ao progresso. Já outros, acham que o anúncio, pintado nos anos 1950, deve ser restaurado para dar um ar vintage à cidade. Ontem, caminhando pela Lapa, observei que a lateral do prédio localizado na Rua Clélia, onde hoje abriga a Igreja Bola de Neve, também está descascando a sua lateral e, dela, surgindo um anuncio da Chevrolet, que patrocinava os espetáculos onde funcionava a antiga casa de shows Olimpia. Quem sabe se descascarmos São Paulo, chegaremos a uma luz no fim do túnel do tempo?

[foto Alberto Villas]

CHEGA DE SAUDADE

Tinha eu oito anos de idade quando chegou às lojas de discos o vinil do baiano João Gilberto, Chega de Saudade. Não me lembro se meu pai comprou ou não, talvez sim. Talvez sim porque ele sabia de cor e salteado a canção que diz assim: “Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou/e em nome de Jesus/um grande amor você jurou/Jurou mas não cumpriu/Fingiu e me enganou/Pra mim você mentiu/pra Deus você pecou”. O disco está fazendo sessenta anos nesse agosto de 2018, proibido de ser reeditado no Brasil por determinação da Justiça, de um processo entre João e a gravadora. Fico aqui ajoelhado aos pés da Santa Cruz, a gravadora Audiophile Clear Vinil, que relançou o disco histórico de João Gilberto nos Estados Unidos e na França. E agradeço a sorte de ter entrado na Fnac Rue de Rennes e encontrado, escondidinho na prateleira de World Music, o vinil novinho em folha, curiosamente transparente. É tempo de ouvir Lobo Bobo, Maria Ninguém, É luxo só, Manhã de Carnaval, Ho-Ba-La-La, além de Aos pés da cruz e Chega de saudade!

[foto Alberto Villas]

UM LIVRO

BOB DYLAN – A YEAR AND A DAY

A luxuosa Taschen está colocando nas livrarias um livro que reúne as fotografias de Daniel Kramer e Robert Santelli, uma obra prima para os fãs. Kramer acompanhou Dylan durante os anos de 1964 e 1965, realizando a mais perfeita tradução do artista quando jovem.

[foto Daniel Kramer/Reprodução]

OK OK OK

Em meio a essa confusão generalizada em que vivemos no Brasil hoje, a notícia da chegada às lojas de um disco de inéditas de Gilberto Gil deve ser sempre festejada. Talvez poucas pessoas se lembram, mas a expressão Ok Ok Ok foi usada por Gil num disco de 1969, no início da gravação de 2001, música de Tom Zé e Rita Lee. Ouça:

 

A FALTA QUE ELE NOS FAZ

Só hoje, mais de dois meses depois, pude folhear a revista Carta Capital número 1000, de papel. Orgulhoso de ter participado dessa edição histórica, contando a minha paixão por revistas, fui saboreando cada página, deitado na rede da minha varanda. Uma boa surpresa encontrei nas páginas 72 e 73, com uma reunião de pessoas notáveis, cujo título é: Brasileiros que fazem falta. Fazem falta porque não estão mais entre nós e quando ainda estavam. eram pessoas notáveis. Lá estão reunidos numa galeria, brasileiros da importância de Celso Furtado, Dom Paulo Evaristo Arno, Sócrates, Rachel de Queiroz, Abdias do Nascimento, Leonel Brizola, entre outros. Embaixo, no cantinho da página 73, tive a grata surpresa de encontrar o jornalista Geneton Moraes Neto, amigo e companheiro de Show da Vida durante mais de dez anos. Sim, o meu amigo Geneton Moraes Neto faz mesmo muita falta, desde que morreu prematuramente em 2016. Estávamos trabalhando a ideia de criar um Memorial da Imprensa, unir seu arquivo ao meu, nossas lembranças e experiências. A vontade surgiu quando Geneton escreveu o prefácio do meu livro A Alma do Negócio, publicado pela Editora Globo. Depois de ler o livro e saber que todo aquele material reunido no livro pertencia ao meu arquivo pessoa, ele não teve dúvidas. Depois de um  jantar no restaurante Comida à Mineira, em Botafogo, saímos animadíssimos com a ideia e começamos a trocar e-mails freneticamente, todos eles com mil ideias. Foi quando, de repente, Geneton caiu doente, foi pro hospital e não saiu mais, até nos deixar. Sim, Geneton Moraes Neto faz muita falta. Eu não tenho mais com quem comentar, discutir a nossa imprensa e o jornalismo que fazem lá fora. Geneton era um craque e o time ficou desfalcado.

[foto Alberto Villas]