SIMPLICIDADE

Essa fotografia foi tirada em 1960, quando Agenor de Oliveira, conseguiu um emprego melhor. Deixou de ser vigia na Comissão Federal de Abastecimento e Preços (COFAP), órgão do Ministério da Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, parar ser garçom, mais precisamente para servir cafezinho no gabinete do ministro. Num tempo em que o Rio era a capital do Brasil, Agenor de Oliveira, com uma certa estabilidade, teve tempo para compor obras primas como As rosas não falam, O mundo é um moinho, Acontece e Ensaboa, entre dezenas de outras. Eu quero o Brasil da simplicidade de volta. Eu quero o Brasil de Agenor de Oliveira, o Cartola, de volta.

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[foto Arquivo Nacional]

[informações Denilson Monteiro e Fernando Rabelo]

BEIJO PARTIDO

Morreu ontem em Middletown, no estado americano de Rhode Island, o marinheiro George Mendonsa, de 95 anos que, um dia, beijou uma moça em plena Times Square, para comemorar o fim da II Guerra Mundial. Apenas um click do fotógrafo Victor Jorgensen bastou para George entrar para a história. Fotografias, algumas vezes, fazem pessoas anônimas entrar para a História. Veja:

Vietnã, 1972

[foto Nick Ut/AP]

China, 2000

[foto Jeff Widener]

Afeganistão, 2002

[foto Steve McCurry]

Vietnã, 1973

[foto Eddie Adams]

Vietnã, 1963

[foto Malcom Browne]

 

 

O LIVRO DO SÁBADO

A coleção BH – A cidade de cada um, chega ao seu trigésimo livro, dedicado ao Colégio Municipal. Sim, é um livro para mineiros que cultivam a memória da cidade. O livro de José Alberto Barreto, além de recordar muitos casos de quem passou pelo Municipal nas décadas de 1940 e 1950, inclui inúmeros recursos da própria Belo Horizonte, provinciana ainda, cheia de pardais, que o autor reclama que estão acabando. O próximo da coleção será dedicado ao bairro da Renascença.

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O SOM DA ÁFRICA

O jornal o Globo publicou na capa do Segundo Caderno de ontem, um assunto pouco falado no Brasil, a música africana. Mais precisamente do nigeriano Fela Kuti, um gênio do Afrobeat, morto em 1997, que acaba de ganhar um documentário das lentes do brasileiro Joel Zito Araújo. Na Europa, mais precisamente na França, Fela Kuti sempre foi rei, mas aqui, quase nada conhecido. Ao ler a matéria, lembrei-me do dia da sua morte, 2 de agosto de 1997. Estava num táxi na Avenida Paulista quando um locutor dessas FMs da vida, leu a notícia. Vou descrever exatamente o que ouvi: “Morreu ontem o músico nigeriano Fela…  Ani… kula… po Kuti. Também com um nome desses tinha mais é que morrer!”. Ponto final. Pena que não me lembro que rádio foi, nem o nome do locutor. Seria bom colocar aqui.

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ABRIL DESPEDAÇADA

O Pato Donald, a primeira revista da Editora Abril, foi lançada em 1950, o ano em que eu nasci. Talvez por isso, eu me apaixonei pela Abril, desde pequenininho. Ainda menino, corria na banca de jornal para comprar os gibis do Mickey, do Pato Donald, do Tio Patinhas. Com dezesseis anos, comecei a comprar, a devorar e a colecionar a revista Realidade, aquela que me despertou para a profissão de jornalista. Talvez tenha sido o primeiro a comprar o número 1 da revista Veja, em Belo Horizonte. Antes da banca de Seu Benito, na Savassi, abrir, eu já estava lá esperando a revista, ainda quentinha. Fui um colecionador da Abril. Comecei com a enciclopédia Conhecer, depois a História da Música Popular Brasileira, Geografia Ilustrada, As Grandes Óperas, Os Cientistas, Ciência Ilustrada, Gênios da Pintura… até a Bom Apetite, eu comprava para minha mãe. Fui leitor da Pop, da Bizz, da Set, da Vida Simples e tantas outras. Mesmo sem nunca ter ligado um automóvel, comprava a Quatro Rodas. Trabalhei na Abril Vídeo, editando o Fantástico do B que se chamava Olho Mágico. Mais recentemente, fui cronista da Viagem e Turismo, até que ela acabou. Na minha casa entrava a Cláudia, a Capricho, a Manequim, a Elle. Éramos todos Abril. Da Veja, fui leitor até a era Lula. Mesmo na década que passei em Paris, ela era enviada semanalmente por navio e quando chegavam, eram três, quatro ao mesmo tempo. Deixei de ler quando ela virou uma revista rancorosa, anti-petista, partidária. Confesso que é com grande tristeza que vejo as folhas da arvorezinha ficarem amarelas e depois cair. A morte de uma revista atrás da outra me enche de angústia. Sobraram poucas e nenhuma me interessa mais. A Abril despedaçada são coleções de revistas e enciclopédias encadernadas, organizadas na estante do meu escritório. E como dói.

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CERIMÔNIA DO ADEUS

No dia em que o abominável Ato Institucional Número cinco fez cinquenta anos, o Brasil despediu-se de uma figura extraordinária da nossa história: Eunice Paiva, viúva do deputado Rubens Paiva, torturado e morto pela ditadura brasileira. Eunice nos deixou sem jamais encontrar o corpo do marido assassinado pelos militares, os mesmos militares que hoje são homenageados em rede nacional pelo presidente eleito da extrema-direita. Na foto, Eunice com a família, sem o marido desaparecido. Recomendo a leitura do livro “Ainda estou aqui”, do seu filho Marcelo Rubens Paiva. Assim, você vai conhecer melhor quem foi essa mulher nota 10.

[foto Acervo da Família Rubens Paiva]

 

CLUBE DA ESQUINA

A série O Livro do Disco, da Editora Cobogó, segue adiante com mais um belo documento: Clube da Esquina, de Paulo Thiago de Mello. A série conta a história do disco de Milton, Lô Borges e amigos, em detalhes e muitas novidades. Clube da Esquina, o álbum duplo, segundo editado no Brasil, chegou às lojas em 1972 e virou um clássico da música popular brasileira, mesmo não estando na prateleira de rock, de bossa nova, de tropicália. A reunião dos mineiros com Milton, o mais mineiro dos cariocas, rendeu um disco cheio de sonoridades que iam das montanhas a Londres dos Beatles. O curioso, me lembro muito bem, foi uma crítica publicada no semanário Opinião na época (juro que não me lembro o nome) dizendo que do disco, daria pra fazer um bom compacto duplo. Criticos também erram. Lembrando que Clube da Esquina I e II saíram esse ano numa luxuosa versão vinil, fiel à original de 1972.

[foto Reprodução]

A ALMA DO NEGÓCIO

No meu livro A Alma do Negócio, lançado pela Editora Globo em 2014, traço um panorama da publicidade nos anos 50, 60 e 70. Saliento como ela já foi declaradamente machista, passo pelos anos de chumbo, mostro a paranóia com a roupa bem passada, as propagandas dirigidas às crianças, que deveriam ser fortes e gordinhas, enfim, passeio pelo mundo da publicidade de uma maneira bem humorada e curiosa. De vez em quando, cai nas minhas mãos, um anúncio que ficou fora do livro mas deveria estar. Como esse, na última página da revista Claudia Cozinha, de 1968. Ele diz claramente que “os pratos mais saborosos levam bastante óleo”. Hoje, o óleo Galeto ficaria encalhado nas prateleiras de qualquer supermercado, porque a fritura virou o grande vilão do novo século.

[fotos Reprodução]

MUSEU DE TUDO

Aos poucos, o Brasil vai recuperando sua memória jornalística. Depois das edições em fac-símile dos jornais alternativos Pif Paf, de Millôr Fernandes, e do jornal Ex, depois do livro Jornal Movimento, uma reportagem, que trouxe encartado um disquete com todas as edições online do jornal, e também das edições online do De Fato, mineiro, chegou a vez de um jornalzinho que foi um verdadeiro porta-voz da resistência ao regime militar na década de 1970, o Coojornal, de Porto Alegre, lançado em 1971. Todos os exemplares estão disponíveis no site do Núcleo de Pesquisa em Ciência da Comunicação. A ideia brilhante foi do professor Antônio Carlos Hohlfeldt, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul. Que venham o Pasquim, o Versus, o Opinião, o Verbo, o Saco, a Flor do Mal e tantos outros.

[foto Reprodução]

1968

     

Incrível pensar que, naquele setembro de 1968, chegavam às bancas de jornais, duas publicações que, cinquenta anos depois, ainda estariam lá, resistindo a ventanias e temporais. A revista Veja, que nasceu nas mãos de Mino Carta, hoje é outra revista. Tenta recuperar o prestígio que tivera outrora, depois de passar por uma fase triste, nos anos Lula, como um panfleto publicitário da direita. E o suplemento Turismo, da Folha de S.Paulo, também resiste, depois de passar pela reviravolta do turismo, com informações online, Airbnb ao invés de hotel, a morte dos guias de papel e de inúmeras revistas como Viagem e Turismo, Próxima Viagem e tantas outras. Motivo de comemoração. Que a Veja recupere o tempo perdido nos informando com imparcialidade e que o suplemento Turismo da Folha continue nos fazendo sonhar em ir a lugares nunca antes imaginados.

[Na foto, o número 1 de Veja e o número 1 do Turismo, da Folha]

Reprodução