PAISAGEM DA JANELA

Da janela lateral
Do quarto de dormir
Vejo uma igreja
Um sinal de glória
Vejo um muro branco
E um vôo, pássaro
Vejo uma grade
Um velho sinal

Mensageiro natural
De coisas naturais
Quando eu falava
Dessas cores mórbidas
Quando eu falava
Desses homens sórdidos
Quando eu falava
Deste temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Eu apenas era 

Cavaleiro marginal
Lavado em ribeirão
Cavaleiro negro
Que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor
De casa e árvore
Sem querer descanso
Nem dominical

Cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Conheci as torres
E os cemitérios
Conheci os homens
E os seus velórios
Quando olhava
Da janela lateral
Do quarto de dormir

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Um cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Você não quer acreditar

[Fernando Brant/Lô Borges]

 

VINTE E UM

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
E, sem dúvida, sobretudo o verso
É o que pode lançar mundos no mundo
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas
[Livros/Caetano Veloso]

VINTE

Na nossa casa amor-perfeito é mato
E o teto estrelado também tem luar
A nossa casa até parece um ninho
Vem um passarinho pra nos acordar
Na nossa casa passa um rio no meio
E o nosso leito pode ser o mar

A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar
A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar

A nossa casa é de carne e osso
Não precisa esforço para namorar
A nossa casa não é sua nem minha
Não tem campainha pra nos visitar
A nossa casa tem varanda dentro
Tem um pé de vento para respirar

A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar
A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar

[A Nossa Casa/Arnaldo Antunes]

UM DISCO

O cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro é também um cronista em suas letras. Desde o primeiro disco, Por onde andaram Stephen Fry, de 1997. Seu ritmo inconfundível vem recheado de poemas que são belas crônicas. No seu mais novo trabalho, O amor no Caos, Zeca Baleiro continua fiel ao seu estilo, contando pequenas histórias e refletindo sobre esse admirável mundo novo. Ouça Todo Super-Homem e sinta o clima.

AV

Apenas uma sutileza entre duas capas

 

UM DISCO

Nos anos 1980, o sucesso de Lulu Santos e a alegria pop de suas canções, fizeram o Brasil dançar ao som de O último romântico, Como uma onda, Tempos modernos, Toda forma de amor e tantos outros hits. Dançou-se muito Lulu, como dançou-se ao som de Marina Lima e de todas aquelas bandas de rock ao mesmo tempo. Lulu está de volta. Aos sessenta e cinco anos, agora assumidamente gay, Lulu está mais romântico do que nunca e o disco é uma declaração de amor explícito. O seu disco é um delicioso passeio por letras & músicas, como se estivéssemos nos anos 1980 mas, ao mesmo tempo, 2019. Let’s Dance!

[Pra sempre, nas plataformas digitais]

UM DISCO

Pablo Milanés, 76 anos, é a mais perfeita tradução da ilha de Cuba. Agora, reuniu em disco, 21 canções da sua melhor safra, de um concerto que deu em Habana, no ano passado. Com roupagem nova, estão clássicos eternos como De que callada manera, Yolanda, El breve espacio en que no está e Amo esta isla, claro. Um magnifico recuerdo do cantor e compositor cubano. Imperdível.