UM DISCO

O cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro é também um cronista em suas letras. Desde o primeiro disco, Por onde andaram Stephen Fry, de 1997. Seu ritmo inconfundível vem recheado de poemas que são belas crônicas. No seu mais novo trabalho, O amor no Caos, Zeca Baleiro continua fiel ao seu estilo, contando pequenas histórias e refletindo sobre esse admirável mundo novo. Ouça Todo Super-Homem e sinta o clima.

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Apenas uma sutileza entre duas capas

 

UM DISCO

Nos anos 1980, o sucesso de Lulu Santos e a alegria pop de suas canções, fizeram o Brasil dançar ao som de O último romântico, Como uma onda, Tempos modernos, Toda forma de amor e tantos outros hits. Dançou-se muito Lulu, como dançou-se ao som de Marina Lima e de todas aquelas bandas de rock ao mesmo tempo. Lulu está de volta. Aos sessenta e cinco anos, agora assumidamente gay, Lulu está mais romântico do que nunca e o disco é uma declaração de amor explícito. O seu disco é um delicioso passeio por letras & músicas, como se estivéssemos nos anos 1980 mas, ao mesmo tempo, 2019. Let’s Dance!

[Pra sempre, nas plataformas digitais]

UM DISCO

Pablo Milanés, 76 anos, é a mais perfeita tradução da ilha de Cuba. Agora, reuniu em disco, 21 canções da sua melhor safra, de um concerto que deu em Habana, no ano passado. Com roupagem nova, estão clássicos eternos como De que callada manera, Yolanda, El breve espacio en que no está e Amo esta isla, claro. Um magnifico recuerdo do cantor e compositor cubano. Imperdível.

UM DISCO

Aconteceu com Elza Soares. Depois de dezenas de discos, ela se redescobriu no alto dos seus mais de setenta anos e começou a gravar discos contundentes. Elza sempre foi o samba, a voz do morro era ela mesmo. Fafá, distante ainda dos seus setenta anos, mesmo sendo um pouco diferente, resolveu se impor, gravando uma pequena obra-prima, esquecendo todos os seus discos irregulares. Humana lembra um pouco Ângela RoRo, com pitadas de Maria Bethânia. Além das músicas inéditas, Fafá colocou no disco três velhas canções, com uma interpretação irreparável: Revelação, Dona do Castelo e Toda forma de amor. Um disco altamente recomendável.

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[foto Reprodução]

O DISCO DO SÁBADO

Viajamos até 1965 para recomendar o disco do domingo. Trata-se do primeiro compacto simples (quem tem mais de 60 anos, sabe o que é) de Chico Buarque, em vinil. De um lado Pedro Pedreiro e, do outro, Sonho de um Carnaval. O disco está sendo relançado pela Polyson. Nada mais atual que a música Pedro Pedreiro. Ítem de colecionador.

O DISCO DO DOMINGO

Gilberto Gil fez mais ou menos isso em 1975, quando compôs, em parceria com João Donato, oito canções que estão no disco Lugar Comum. Oito canções inéditas de Gil num disco de outro compositor. Agora, tantos anos depois, Gil compôs nada mais nada menos que onze canções e entregou de bandeja para Roberta Sá. O resultado é Giro. Gi, de Gilberto e Ro, de Roberta. Na capa, a mão de Gil segura um pequeno espelho refletindo o rosto da cantora. Um disco lindo, cheio de composições singelas bem Gil. Uma delas, Xote da Modernidade, é um aconchego, como todo o disco de uma cantora exemplar.

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Pós Scriptum:

A Editora Hachette colocou nas bancas da Itália uma coleção preciosa de discos de jazz do selo verve: Il Capolavori del Jazz in Vinil. Só obras-primas, como este The Ben Webster Quintet.

 

 

 

O DISCO DO DOMINGO

Quem ouve o quarto disco do grupo Terno, no meio de uma confusão, conversas atravessadas ou barulho de trânsito, não vai gostar. Vai achar meio devagar, meio sonolento. Agora, quem ouvir em silêncio, prestando atenção nas letras de Tim Bernardes, vai se apaixonar e vai querer ficar com ele para sempre, ouvindo sem parar. O Terno é isso. Tim, que surgiu como um compositor absolutamente original, mantem a forma em <atrás/além> com vigor. O terno será eterno. Adorei.

O DISCO DO DOMINGO

Primeiro foi Nara Leão, em 1978. Gravou um disco inteirinho com canções de Roberto e Erasmo, com o seu  jeitinho bem particular de cantar, bem Narinha. Deu o nome ao disco de E que tudo mais vá pro inferno mas, mais tarde, teve de retirar o nome e a canção do disco, por pedido do Rei. Depois, em 1993, foi a vez de Maria Bethânia gravar As canções que você fez pra mim, um disco deslumbrante, também com o jeito Bethânia de cantar. Recentemente, Ângela Maria, um ano antes de sua morte, no ano passado, também gravou um disco inteirinho só de Roberto e Erasmo. Em 1994, roqueiros se reuniram para prestar um tributo a dupla e gravaram Rei, com participações especiais de Marina Lima, Skank, Toni Platão, Kid Abelha, Blitz, entre outros. Agora chegou a vez do ex-titã Nando Reis homenagear os dois. Não sou nenhum Roberto, mas às vezes chego perto é diferente dos discos citados aqui. É um disco assumidamente brega, em que Nando deixou de lado grandes sucessos da dupla, como Cavalgada, Emoções, Amigo e dezenas de outras. Optou por um repertório quase cem por cento romântico, quase mela cueca, sem grandes invenções. A surpresa fica por conta de Nossa Senhora, em que o ateu Nando, fica apenas no nananananana e A guerra dos meninos, que tem a participação made in Jorge Manter. Usando um termo bem antigo, um disco ótimo para se ouvir no motel. Muito romântico, mais impossível. Nando fez o que Ringo Starr fez assim que os Beatles se desfizeram. Gravou Sentimental Journey, só com músicas que gostava e pronto.[AV]

PS: Lembrando que cantores já transformaram canções da dupla em obras-primas. Basta ouvir Adriana Calcanhoto cantando Caminhoneiro, Caetano cantando Debaixo dos caracóis dos seus cabelos e Marisa Monte cantando com o Rei, De que vale tudo isso.

Discos citados

[fotos Reprodução]

O DISCO DA SEMANA

Não há escaninho numa loja de discos em que a música e a poesia de Jorge Mautner caiba. Disco novo do profeta do Kaos é um acontecimento. É ouvir e ouvir várias vezes Não há abismo em que o Brasil caiba. São quatorze canções, pequenos contos, histórias que saíram desse compositor de quase 80 anos, mas com o corpinho e a cabeça de 18. Emocionante a canção Marielle Franco. Uma delícia de disco.[AV]

O DISCO DA SEMANA

Acompanho o trabalho da banda eslovena Laibach desde os anos 1980, quando eles lançaram um disco furioso chamado Let It Be, com músicas dos Beatles e uma pegada punk. Algo de muito surpreendente.

O novo trabalho, que leva apenas o nome da banda, é mais uma pequena obra-prima. Os eslovenos pisam forte no rock industrial, mas a pegada continua punk, com doses de meigas cantigas. Adoro e recomendo. Ouça a música The Sound of Music e veja o clipe:

O DISCO DA SEMANA

O primeiro disco dos tribalistras Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, foi uma surpresa. Sucesso de público e venda, eles preferiram se recolher e não fizeram sequer um show. O segundo disco tribalista, não. Foi anunciado com alarde e os três resolveram mostrar suas músicas em público. O show virou disco, que já está nas lojas e no Spotify. São vinte e cinco canções, quase todas hits consagrados. No quesito música, um disco delicioso do início ao fim, mas no clima “bom de ouvir”, ruim, culpa do over de “ao vivo”. Palmas, gritos e o que é mais grave, com o público cantando junto na maioria das músicas. A qualidade da gravação parece, com isso, que foi pra cucuias. Uma pena. Disco bom. Para colecionadores e fãs muito de carteirinha. [AV]