CHEGA DE SAUDADE

Tinha eu oito anos de idade quando chegou às lojas de discos o vinil do baiano João Gilberto, Chega de Saudade. Não me lembro se meu pai comprou ou não, talvez sim. Talvez sim porque ele sabia de cor e salteado a canção que diz assim: “Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou/e em nome de Jesus/um grande amor você jurou/Jurou mas não cumpriu/Fingiu e me enganou/Pra mim você mentiu/pra Deus você pecou”. O disco está fazendo sessenta anos nesse agosto de 2018, proibido de ser reeditado no Brasil por determinação da Justiça, de um processo entre João e a gravadora. Fico aqui ajoelhado aos pés da Santa Cruz, a gravadora Audiophile Clear Vinil, que relançou o disco histórico de João Gilberto nos Estados Unidos e na França. E agradeço a sorte de ter entrado na Fnac Rue de Rennes e encontrado, escondidinho na prateleira de World Music, o vinil novinho em folha, curiosamente transparente. É tempo de ouvir Lobo Bobo, Maria Ninguém, É luxo só, Manhã de Carnaval, Ho-Ba-La-La, além de Aos pés da cruz e Chega de saudade!

[foto Alberto Villas]

OK OK OK

Em meio a essa confusão generalizada em que vivemos no Brasil hoje, a notícia da chegada às lojas de um disco de inéditas de Gilberto Gil deve ser sempre festejada. Talvez poucas pessoas se lembram, mas a expressão Ok Ok Ok foi usada por Gil num disco de 1969, no início da gravação de 2001, música de Tom Zé e Rita Lee. Ouça:

 

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO

                                                                              

O livro Caminhando contra o Vento, da italiana de origem somali, Igiaba Scego (Editora Buzz, tradução de Francesca Cricelli) já está nas livrarias. Trata-se de um curioso texto escrito por uma fã de carteirinha, que conhece melhor o cantor e compositor baiano Caetano Veloso do que muitos brasileiros. Ela traça um perfil bem completo dele, seus discos, suas parcerias, sua família e de uma maneira muito particular. O livro bem que poderia chamar-se O meu Caetano. É um prazer ler em cada página, passagens da vida do compositor e perceber que Igiaba conhece o movimento musical brasileiro de cor e salteado. Curiosamente, ela conheceu a obra do baiano quando trabalhava como vendedora de discos. Quando descobriu o disco Cores, Nomes, sua paixão nasceu e só foi crescendo. Tenho apenas duas observações a fazer, erros que podem ser corrigidos na próxima edição. Primeiro, quando fala de Araça Azul, ela diz que todas as canções foram compostas por Caetano. Na verdade, o disco tem três músicas que não são dele: Cravo e Canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos}, Tu me acostumaste (F. Dominguez) e Eu quero essa mulher (Monsueto Menezes e João Batista). Segundo, ela troca o nome de um dos filhos de Caetano. Chama Zeca de Zé. E como ela comenta várias capas de seus discos, faltou lembrar (quando fala de Qualquer Coisa) que a capa é uma brincadeira com Let It Be, dos Beatles. No mais, um livro admirável para qualquer pessoa que gosta de Caetano e de sua obra. A gente lê numa golada só.

                                                                                                       

[fotos Reprodução]

 

MÚSICA, MAESTRO!

Um dos maiores tesouros do nosso país é a música popular brasileira. Não estou falando apenas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Chico Buarque. Estou falando de Tom, Vinicius, Baden, Edu, Wilson Batista, Noel Rosa, Pixinguinha, Jorge Benjor, Luiz Gonzaga, Monsueto, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Arnaldo Antunes, João Bosco, Ismael Silva, Paulinho da Viola, Rita Lee, Jackson do Pandeiro, Tom Zé, Walter Franco, Hermeto Paschoal e tantos outros. Quando pego o Le Monde de hoje e vejo uma reportagem de página inteira falando dos shows que nossos craques andam fazendo no verão europeu, morro de inveja. Morro de inveja quando ligo a TV e vejo as chamadas dos musicais prometidos pela Globo para o nosso tenebroso inverno. Porque será que só a segunda e a terceira divisão da nossa música aparece na tela da Globo? É grana? É falta de criatividade? É falta de conhecimento? Ou é mau gosto mesmo?

[foto Reprodução]

SHOW!

A reunião entre Gilberto Gil, Gal Costa e Nando Reis deu muito certo. O show que rodou por ai, agora virou CD duplo, transbordando de músicas bacanas que ganharam uma roupagem nova. O disco Trinca de Ases é um grande show e vice-versa.

[foto Reprodução]

MORTE ANUNCIADA

Mais uma revista que se vai. A inglesa NME, bíblia da música, criada em 1966, no auge dos Beatles, deixa de circular em papel. O anúncio foi feito para tristeza de milhares e milhares de leitores que mergulharam de cabeça no mundo pop durante todos esses anos. Uma tristeza.

[foto/NME número 1/Reprodução]

PAÍS TROPICAL

Quem não leu há vinte anos, é chegada a hora. E quem leu, vale a pena ler de novo. Com um novo – e mais bonito – projeto gráfico, Verdade Tropical, de Caetano Veloso volta mais gordo. Com um capítulo extra e atualíssimo, além de notas e observações sobre a edição original é, ao mesmo tempo, um passeio pela história do Brasil e da nossa música, uma das mais ricas do mundo.

[foto Reprodução]

REFAZENDO

Nas lojas de discos, uma edição comemorativa – em vinil – do disco Refavela, de Gilberto Gil. O LP, gravado há quarenta anos, guarda o vigor que sempre teve.

E nas livrarias, o livro do disco, de Maurício Barros de Castro, que conta tintin por Tintin, a história de um dos discos mais brilhantes do compositor baiano.

TROPICÁLIA, 50

Na boa reportagem sobre os cinquenta anos da Tropicália, publicada na edição de domingo de O Globo, ficaram de fora pequenos detalhes importantes. Por exemplo, a informação de que o cartaz da peça O Rei da Vela, montado pela primeira vez em 1967, virou capa do disco Estrangeiro, de Caetano Veloso, em 1989. E faltou também a informação de que Geléia Geral, música de Torquato Neto, era também o nome da coluna que o poeta assinava no Jornal do Brasil. A informação está, inclusive na letra da canção.

[reprodução VillasNews]

 

AS LISTAS

Desde que ele apareceu no cenário nacional, achava o poeta e compositor Renato Russo meio estranho. Sorumbático, triste, mas um ótimo poeta. A Companhia das Letras está colocando nas livrarias, uma faceta curiosa de Russo, seu lado homem-listas. Renato Russo escrevia em cadernos listas e mais listas, quase que diariamente. Fazia listas de livros que precisava ler, discos que precisava comprar, filmes que queria assistir. Sem contar, os afazeres. O livro das listas, de Renato Russo, é um apanhado desses escritor, em faz-simile e devidamente “traduzidos”, explicados para quem não viveu aqueles anos 80. Um documento e tanto para fãs, memorialistas e curiosos.