AMÉLIE POULAIN

Gosto dos pequenos detalhes da vida, coisas miúdas que acontecem, às vezes sem muita importância mas que guardam uma história por detrás. Sofro de uma leve síndrome de Amélie Poulain. Gosto de ir a sebos e ler as dedicatórias dos livros que estão ali à venda. Qual o motivo de alguém se desfazer de um livro com dedicatória? E os bilhetes que às vezes encontro dentro deles? Um dia, encontrei um boleto sem pagar, de 1980. Será que foi pago um dia? Fico curioso quando acho, dentro de um carrinho de supermercado, uma lista de compras deixada ali. Gosto de saber o que as pessoas compram, o que estava faltando na casa daquela pessoa invisível. Outro dia, andando por Florença, vi na calçada a fotografia de uma moça morena, com os cabelos negros lisos, achei até que era minha amiga Ananda Apple. Mas, olhando bem, vi que não era. A moça tirou, numa máquina automática, pelo que tudo indica, uma fotografia para sua carteira de identidade. Duas, aliás. Usou uma e a outra ficou ali jogada na calçada. Não sei se caiu das suas mãos ou simplesmente jogou fora, quis se desfazer da outra, já que a gente sempre acha que não está bem na foto. Ficou o mistério.

[foto Alberto Villas]

IL MERCATO CENTRALE

Nasci numa cidade onde tem um dos mercados mais simpáticos do mundo, o Mercado Central de Belo Horizonte. Frequento, desde pequenininho, quando ia com o meu pai para comprar alpiste para os passarinhos, ração para galinha poedeira e pintinhos de um dia. Por isso, sou viciado em mercados. Por onde ando, onde chego, sempre vou atrás do mercado da cidade. Hoje, passamos a manhã no Mercado Centrale di Firenze. A fachada é magnífica e algumas coisas que vi lá dentro, cliquei para vocês.

Dá só uma espiadinha…

Cogumelos da Toscana

Tâmaras do Irã

Peixe fresco

Abobrinhas com flor

Beringelas de Bangladesh

Abacaxis da Costa do Marfim

Pimenta seca

E chuchus do Brasil, embrulhinhos um a um

[fotos Alberto Villas]

A FOICE E O MARTELO

Um dos grandes prazeres que tenho aqui em Florença, é caminhar pelas ruas e pelas ruelas da cidade e encontrar as livrarias. Grandes, pequenas, charmosas, muitas com o melhor café do mundo  ou comidinhas transadas deliciosas. Sou rato de livrarias e aqui, o prazer maior é entrar, sentir o cheiro, dar de cara com a simpatia dos donos e ir fuçando aqui e ali, descobrindo autores e folheando as novidades. Muitas delas são uma mistura de livrarias e sebos, com uma boa parte reservada aos livros usados, onde encontramos verdadeiras preciosidades. Essa semana, na seção de novidades, bati os olhos num livro, daqueles que a gente não resiste.

Em comemoração aos cem anos da Revolução Russa, festejados em outubro do ano passado, a Editora Centauria lançou La Storia del Comunismo, com pequenos perfis de comunistas históricos, alguns que não aparecem nos livros de História como comunistas de carteirinha, no sentido estrito da palavra. As ilustrações de Ivan Canu dão um charme especial ao livro que tem uma edição primorosa, marca registrada das editoras italianas. Reproduzo algumas abaixo.

Víctor Jara

Pier Paolo Pasolini

Yuri Gagarin

Pablo Neruda

Louis Aragon

Pablo Picasso

Patrice Lumumba

[fotos Reprodução]

 

 

GOL DE PLACA

Finalmente conhecemos o artista francês Clet Abraham, o jovem que faz intervenções nas placas de Florença, trazendo o ar da graça e da irreverência à cidade. Lá estava ele quietinho no seu canto em seu ateliê, no bairro de San Niccolò, coincidentemente o bairro onde moramos. O clique deste blogueiro com o artista foi feito pela jornalista Annamaria Marchesini, que também fez um texto superbacana mostrando quem é Clet Abraham. Confira em: https://medium.com/@anna.marchesini/sinais-de-arte-rebeldia-e-ironia-e3d93ef10376)

Depois, veja as fotos das placas que fiz, aqui em Florença.

[fotos das placas/Alberto Villas]

 

NAS RUAS DE AREZZO

Num sábado em Arezzo, uma hora e pouco de trem de Firenze, flagrei algumas pessoas na cidade.

Pessoas na estação, comprando bilhetes de trem.

Uma italianinha comendo lascas de pizza, nas primeiras horas da manhã.

Amigos comemorando um casamento num bar, como se fosse uma cena do cinema italiano dos anos 1960.

Uma senhora com a mão na massa, na porta de uma pizzaria.

Dois turistas, cansados de guerra, sentados numa escadaria.

Aposentados conversando numa pracinha da cidade.

Dois modernetes à caminho da Igreja, onde se realizava um casamento.

Um homem escolhe flores numa lojinha, entre as dezenas espalhadas pela cidade, nessa primavera de 2018.

[fotos Alberto Villas]

PARIS É UMA FESTA

Chego a Paris, cinquenta anos depois daquele Maio de 68 e, no primeiro dia, clico algumas coisas que vi pela cidade.

Uma mãe, na Place dês Voges, cultivando a amizade entre sua filha e uma menininha que estava na praça, com o pai.

Um homem à beira do Sena, curtindo o sol, bebendo uma água Perrier e ouvindo o som do Buena Vista Social Clube.

O grafite de uma mulher com um manteau preto na esquina da Rue du Marché des Blancs Manteaux, no Marais.

Mangas vindas do México, num supermercado no 19ème arrondissement.

A barraquinha de um buquinista à beira do Sena que pegou fogo e foi abandonada pelo dono.

Uma jovem lendo mensagens do smartphone, em frente ao Fórum des Halles.

Uma intervenção urbana num bueiro no 5ème arrondissement.

Quiabos congelados na geladeira de um supermercado onde entramos para comprar sabonete.

Um buquinista à beira do Sena lendo e tomando um chá com limão, enquanto espera seus clientes.

[fotos de Alberto Villas]

 

 

CIDADE LINDA

Cidade linda é aquela que nas primeiras horas da manhã já tem gente sentada nas mesas dispostas no calçadão tomando o café da manhã. Croissants, geléia orgânica de pêssego, morangos vermelhinhos, capuccino e um suco natural de laranja. Cidade linda é aquela cheia de vida, cheirinho de expresso no ar, grafites por todos os lados dando um colorido às construções centenárias. Cidade linda é aquela que pessoas vestidas de preto, à espera do verão, passeiam à beira do rio Arno, escrevendo seus nomes na areia como se estivessem num filme de Pier Paolo Passolini. Motocicletas que vão e que vem, moças lindas que passam mordiscando um pedaço de pizza quadrada. Cidade linda tem poucos carros e muitas bicicletas, um mercado central vendendo alcachofras cor de vinho enormes porque é tempo de alcachofras. Senhoras de cabelo branco carregando sacolas de vime deixando pra fora as folhas do alho poró. Cidade linda é aquela que recicla, é aquela que se deixa clicar, faz até pose pra ficar bem na foto. Cidade linda é Florença, por exemplo.

Grafite à beira do Arno.

[foto Alberto Villas]

NÃO VAI TER COPA

Quando coloquei os pés no aeroporto de Fiumicino, em Roma, pensei em dar uma de João Paulo II e beijar o chão, mas não beijei. O papa polonês já não há mais e beijar o chão caiu de moda. E, pensando bem, a gente nem chega mais em terra firme e sim em fingers de ferro e alumínio. A primeira imagem que vi ao esperar as malas que iam e vinham na esteira, foi a de um telão mostrando um jogo de futebol. Os italianos se juntaram para ver  as jogadas, quase se esquecendo das malas.

Na estação ferroviária de Santa Maria Novela, em Florença, ao chegar, foi a mesma cena. Era um outro jogo de futebol mas o telão estava lá, dando o maior Ibope. Foi quando pensei: Como é possível a Itália ficar de fora de uma Copa do Mundo, como essa que vem ai daqui a uns dias, na Rússia?

Você dá uma espiadinha nas bancas e lá está o Tutto Sport, La Gazetta dello Sport, o Corriere dello Sport e a Gazzetta Sportiva. Você dá uma olhada no La Repubblica, no Corriere della Sera, no Il Messaggero, em qualquer jornal italiano e lá estão os cadernos de esportes, robustos, gordos, cheios de noticias. Mas nada de Copa.

Uma tristeza no ar.

A Itália ficar de fora da Copa é como os Estados Unidos ficarem de fora de um campeonato mundial de basquete ou Cuba não participar de um torneio mundial de rugby.

É como dizia Adriana Calcanhoto, numa velha canção que tocava no rádio: “É avião sem asa, fogueira sem brasa, Bochecha sem Claudinho, Piu Piu sem Frajola, futebol sem bola”.

A FOTO DO DIA

Num mercado de Florença, o capricho do ninho de ovos e o charme de um quebrado.

[foto Alberto Villas]

OS SEM-ÁGUA

Todos os relatórios estão apontando para um futuro seco, um futuro onde 60% da população do Planeta Terra, vai sofrer com a escassez de água. Em Bangalore, por exemplo, este homem tem de percorrer todos os dias um longo caminho para volta pra casa com uma moringa de água.

[foto Jogadeesh NV/EPA-EFE]