MINHA VIDA DE CACHORRO

Todo dia depois de trabalhar desde a madrugada, descíamos a montanha onde estávamos morando, em Vryses, na Grécia, e ganhávamos a praia de Kyparessia. Era uma praia com um mar muito azul e pedras moldadas e coloridas por Deus, acredito eu. Aos poucos, fomos ficando conhecidos no pedaço. Nos instalávamos debaixo de uma barraca coberta com palha, alguns minutos depois o garçom com um chapéu caribenho vinha, simpático, sabendo que o que queríamos era um capuccino fredo, um café americano double e uma cerveja Mythos estupidamente gelada. Era isso. Levávamos os smartphones pra aproveitar o wi-fi, alguns livros e a edição do dia do La Repubblica. Ali, naquela praia, era o nosso momento de laser, o nosso momento de risos, de saber o que se passava no Brasil e no mundo, altos papos e banho de mar pra descarregar. Não passava muito tempo, antes mesmo do garçom voltar com a bandeja, ele aparecia. Um cachorro marrom, bem vira-lata, morador dali. Não tinha nome e parecia não ter dono. Escolheu – e bem – aquela praia pra viver. Mostrava-se sempre saciado, muitas vezes, recusando alguma coisa que oferecíamos a ele. O curioso é que ele chegava e sempre se instalava perto da gente, como se fôssemos seus protetores. Parecia gostar daqueles brasileiros forasteiros que resolveram passar uma temporada por ali, tão longe do nosso país. Era um cachorro metódico. Olhava para um lado, para o outro, escolhia a sombra de uma das barracas, arranjava sua caminha com as patas e se instalava preguiçoso. Devagarinho, ia fechando os olhos até começar o seu cochilo. Passava um tempo, abria um dos olhos, sentia calor e mudava de lugar, escolhendo uma sombra onde as pedras estavam mais frias, mas sempre pertinho de nós. Assim foi durante muitos dias. Tinha manhãs que o fotografava e ele não estava nem ai, sequer piscava os olhos. No último dia, ficou ainda mais pertinho da nossa barraca, como se estivesse ali se despedindo de nós. Hoje, tantos mil quilômetros de distância, fico aqui pensando que quinze dias já se passaram. Tem duas semanas que não o vejo. Estamos sabendo que o calor por lá aumentou, o verão começou a ferver, é alta estação. Espero que ele esteja por lá ainda e que venha encontrando sempre um cantinho fresco e sossegado pra passar suas manhãs. Se voltar a Kyparessia um dia, vou lá checar se ele está lá, com certeza. Se estiver, vou dar o nome a ele de Aritóteles, Sócrates, Platão ou coisa parecida.

[foto Alberto Villas]

VAI PRA CUBA!

Já fui a Cuba duas vezes, o que acho pouco tamanha minha paixão pela ilha. A primeira, em meados dos anos 1980, como repórter do Estadão, pra cobrir o Festival de Música de Varadero. Fui no mesmo avião que Chico Buarque, rei de Havana na época. Passei quinze dias por lá e foi amor à primeira vista. Depois voltei em 2013 com a família – mulher e filhas – como turista. Foram duas viagens bem diferentes, ambas apaixonantes. Agora, acabo de fazer a terceira viagem, lendo Farofa Paradisíaca & outras histórias cubanas, da jornalista e escritora Débora Rubin. Ela partiu em junho do ano passado com o companheiro André Julião, também jornalista, e soube reunir historinhas saborosas e pequenas aventuras que recomendo a todos. Publicado pela Tüz e ilustrado por Rodrigo Terra, a Farofa de Débora é uma delícia para quem já conhece a ilha, agora de Miguel Díaz-Canel, e, para quem não conhece, vai dar aquela vontade louca de pegar o primeiro avião com destino a felicidade.

[foto Reprodução]

SÃO, São Paulo

Quando deixei o Brasil, no final de março passado, com destino a um trimestre sabático na Itália e na Grécia, Como vai minha aldeia? foi um dos primeiros títulos que dei a um texto escrito, já em Florença. Os primeiros momentos na Toscana foi de abandono total de uma vida agitada em São Paulo e o esquecimento absoluto da palavra estresse. Recorri, para fazer o título, a uma velha canção do mineiro Tavinho Moura, composta nos anos setenta e qualquer coisa. Minha vida em Florença era a de quem vive numa aldeia. Andava pelas ruas e ruelas, comprava frutas e legumes num mercadinho, o jornal toda manhã na banca da esquina, cujo dono, no terceiro dia, já me reconhecia de longe e me esperava com o La Repubblica nas mãos. No fim de tarde, andava pela beira do Arno como se estivesse à beira do Rio Pomba, na minha querida Cataguases, na Zona da Mata mineira. Dois meses passei lá, assim. Logo eu, um homem urbano e tão acostumado com a efervescência de uma metrópole. Depois de Florença, descemos a Itália, atravessamos o mar e chegamos a Patras, na Grécia. De Patras, seguimos para Vryses, nosso destino final. Em Vryses, a canção de Tavinho Moura ganhou mais força. Como vai minha cidade/Oi, minha velha aldeia/Canto de velha sereia/No meu tempo/Isso era meu tesouro/Um portão/Todo feito de ouro. Vryses, uma aldeia com 78 habitantes, levou-me de volta à infância, quando vi tantos pés de frutas nos quintais. Quando ouvi a vizinha batendo na porta para nos dar de presente uma bacia de figos maduros. De madrugada, ouvia o uivo dos lobos e o ladrar dos cães, cuja finalidade era afastar os lobos. Ao amanhecer, ouvíamos mil sons de passarinhos e o sino da igreja tocando chamando os seus fiéis. O por do sol em Vryses era tão magnífico que muitas vezes lamentávamos ter chegado tarde em casa e perdido o espetáculo. O tempo passou com tudo tende passar. No avião que nos levou de Atenas a Roma, a caminho do Brasil, a revista de bordo da Alitalia, a Ulisse, estava no bolsão da frente. Antes de pegar no sono, dei uma folheada e uma reportagem sobre São Paulo foi a senha para lembrar o que me esperava. O Masp, a Japan House, o Beco do Batman, o Ibirapuera, o Instituto Tomie Ohtake, a Avenida Paulista, a efervescência estava de volta, mesmo ainda tão longe, mais de dez mil quilômetros. Então deixei Tavinho Moura de lado e me recorri a Tom Zé, que em 1968, cantou a cidade que tinha oito milhões de habitantes, que era uma aglomerada solidão, onde as pessoas amavam com todo ódio e odiavam com todo amor. Fui lembrando dos versos e cheguei ao final da poesia de Tom Zé, lembrando que apesar de todo defeito, te carrego no meu peito. Então, cheguei.

[foto Alberto Villas]

 

O PAPEL DO JORNAL

A leitura diária do jornal de papel num café foi uma das cenas que mais me chamou a atenção nesses três meses de Europa. Em Roma, particularmente, onde fiz um clic deste senhor que chegou para tomar um spresso, seguramente o melhor do mundo. Ele colocou o cinzeiro no chão por não ser fumante. Todos os restaurantes daqui ainda têm cinzeiros nas mesas e as pessoas – acredito eu – fumam muito mais do que no Brasil. Voltando aos jornais. Eles são interessantes, com muito conteúdo. Com vários suplementos – saúde, comida, medicina, tecnologia, design, viagem, economia, literatura, além de revistas com serviço e grandes reportagens. Todo dia é uma montanha de novidades. E são muitos: La Repubblica, Il Manifesto, Il Messaggero, Corriere della Sera, Il Foglio, Il Fatto Quottidiano, Corriere dello Sport, Gazzetta Sportiva, para citar alguns. Sinto que o brasileiro perdeu o hábito da leitura de jornais por culpa talvez dos próprios jornais, óbvios, envelhecidos e partidários, principalmente. Talvez ainda exista no Brasil uma pequena confraria de leitores de jornal de papel. Eu sou um deles e quero continuar sendo.

[foto Alberto Villas]

CERIMÔNIA DO ADEUS

Aqui em Roma, me despedindo dessa temporada sabática por aqui, ilustro o texto de hoje com a primeira foto que fiz na capital italiana, assim que cheguei, há exatos noventa dias. Uma cesta de limões siciliano que achei linda, ali na porta de uma vendinha, como se fosse uma cidadezinha do interior  e não a movimentada capital da Itália. Quando cliquei, não podia imaginar que tais limões iriam me acompanhar durante toda essa temporada fora do Brasil. Por onde andei, eles estavam lá, vistosos, cheirosos, saborosos. Vi limão siciliano no pé em praticamente todas as cidades por onde passei. Me apaixonei por eles. Na aldeia de Vryses, na Grécia, colhia todos os dias quando a Paulinha, na cozinha, anunciava: Estou precisando de limão. Compramos numa venda uma cestinha para colhê-los no pé, sem que precisasse deixar que eles caíssem no chão. O vizinho, ao ver, riu muito, porque aquela era uma rede de pescar piabas e não de colher limão. Imagino que ele tenha entendido a famosa expressão “jeitinho brasileiro”.

[foto Alberto Villas]

QUE TAL UM CAFEZINHO?

Uma das coisas que mais me impressionou quando cheguei aqui na Grécia, há quase um mês, foi ver os gregos tomando café. Não, não é simplesmente um cafezinho como nós tomamos no Brasil, numa pequena xícara. O grego é apaixonado por café e ao andarmos por vários cantos do país, percebemos que ele tem o café como um companheiro. Café fedo, capuccino frappé, café grego, café americano… se você pede um café, o garçom vem logo com um desfile de variedades a te oferecer. Desde cedo, vimos nos cafés, pessoas sentadas nas mesas com aquele copo companheiro. De segunda a segunda. Fica ali horas, às vezes uma manhã, uma tarde inteira, filosofando com o café, segundo nos revelou um amigo grego que fizemos aqui. E tem mais: Tomam café na praia. A todo minuto lá vem o garçom com um copo para entregar debaixo da sombrinha. Vimos pelas cidades, motoqueiros ágeis e velozes circulando com uma bandeja a céu aberto levando café para clientes. Sim, aqui existe o café delivery. A mania é tão grande que os turistas logo logo se aderem a ela. Porque vale a pena.

Turista toma um capuccino fredo numa praça na cidade de Pylos.

[foto Alberto Villas]

 

 

A FOTO DO DOMINGO

Não é de hoje que o poema No meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade, vive me cutucando. “No meio do caminho tem uma pedra/Tem uma pedra no meio do caminho…” Talvez porque durante a vida, vira e mexe, encontramos pedras. Algumas chutamos, algumas tropeçamos, machucamos. Outras admiramos, como essa no meio do caminho do nosso barco, em pleno Mar Jônico, na Grécia. Deveríamos enxergar todas as pedras que aparecem no meio do caminho como uma maravilha da natureza.

[foto Alberto Villas]

 

 

A FOTO DO SÁBADO

Num lugar distante e longínquo, numa praia considerada uma das mais bonitas do mundo, a Navagio, no mar Jônico, na Grécia, encontrei um par de tênis estropiado, jogado num canto, junto à muralha que cerca a areia. Fiquei impressionado com o seu estado e com as cores pastel que talvez a maresia tenha provocado naquela lona. Nessas horas sempre penso: De quem seria esses tênis abandonado naquele pedaço maravilhoso da natureza? Ninguém ousa tirá-lo daqui porque certamente tem uma história por trás dele. Mesmo que uma historinha banal.

[foto Alberto Villas]

A AREIA DO SAARA

Estou fora do Brasil há três meses. Nesses noventa dias, andei por muitos lugares, cada um mais fascinante que o outro. Atravessei oceanos, vales e montanhas em busca do belo, cada dia mais belo. Molhei os pés no Mar Egeu, colhi figos no Peloponeso, flores na Toscana, catei pedras quadradas no Mar Jônico. Não tem foto, filme ou palestra que ilustre o que os meus olhos viram até aqui.

Se alguém me perguntar o que mais me surpreendeu, o que mais me deixou perplexo nesse trimestre sabático, não vou pensar duas vezes e responder na lata: A areia do Saara.

Explico. Acordamos cedo em Florença e o sol já estava forte. Tomamos o nosso café da manhã, café gostoso preparado na Bialetti e saímos pra caminhar pelas ruas da cidade, uma das mais lindas da Itália.

Nossa surpresa veio quando chegamos na primeira esquina do bairro de San Niccolò, onde estávamos morando, e vimos os carros enfileirados, estacionados rente aos muros da cidade, todos eles cobertos por uma estranha poeira amarelada.

Num primeiro instante, achei que tinha chovido pouco na madrugada e os carros sujos ganharam aqueles respingos que viram uma coisa medonha na lataria. Mas não, não havia chovido e todos os carros estavam com aquela poeira amarelada. Não só os carros, mas também as bicicletas, as lambretas e as motocicletas.

Foi a Paulinha que sacou que aquilo poderia ser a areia do Saara que o vento trouxe na calada da noite. Paramos, pensamos, lembramos  imediatamente e começamos a cantar a canção Reconvexo, de Caetano Veloso, que começa assim:  Eu sou o vento que lança a areia do deserto do Saara/Sobre os automóveis de Roma. Roma não estava tão longe de nós e certamente aquilo era sim a tal areia dos versos do compositor baiano.

Andamos, andamos e vimos que todos os automóveis da cidade estavam assim, pulverizados pelo fenômeno.

Quando chegamos em casa, à noite, fomos buscar mais informações no Google. A última notícia dizia que a paisagem em regiões montanhosas do Leste europeu havia sido modificada devido a uma tempestade de areia do deserto do Saara, no Norte da África. Aquele pó havia atingido a Ucrânia, a Rússia, a Bulgária e a Romênia.

Continuamos pesquisando e ficamos sabendo que cientistas da Nasa apresentaram um estudo que detalha como a areia do deserto do Saara viaja pelo Oceano Atlântico e chega até mesmo a fertilizar a floresta Amazônica. Ela contém fósforo, um dos principais ingredientes para o crescimento das plantas.

O estudo da Nasa feito pelo Goddard Space Flight Center, chegou à conclusão que mais de 27 milhôes de toneladas de areia viaja do Saara até a Amazônia, todos os anos. Ficamos deslumbrados.

A certeza absoluta veio quando Frederico, um italiano boa praça, veio inspecionar o apartamento que alugamos e apontou para a janela de vidro da sala, localizada no teto, e disse: Está um pouco suja hoje por causa da areia que vem do Saara.

Conectamos no Youtube a canção Reconvexo e ela virou nossa trilha sonora há três meses. Sei o valor dos versos de Caetano, mas, para nós, foi maravilhoso pensar que ele achou poesia no vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma.

Pensando bem, não era para se espantar, Caetano já encontrou poesia até mesmo no papel de seda azul que envolve a maça, não é mesmo?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

A ILHA

Se há uma resposta que nunca errei numa prova de Geografia foi aquela O que é uma ilha? Sabia na ponta da língua que era um pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Hoje, acordamos cedo, viajamos duas horas por terra e chegamos a cidade de Killini, onde pegamos o navio Andreas Kalvos e, uma hora depois, chegamos ilha de Zakynthos, na Grécia. Vamos passar a noite num pedaço de terra cercado de água por todos os lados. As primeiras imagens que captei de Zakyntos foram essas.

Uma loja de chapéus

Uma casa

Um goleiro à espera do chute numa pracinha

Pombos no telhado

Um quiosque de guloseimas

Um automóvel estacionado

Um anúncio de frozen iogurte grego

E uma escada que te leva ao mar

[fotos Alberto Villas]

NA PRAIA

O mar da Grécia é de um azul infinito, um dos mais bonitos do mundo. Acho até que bate o de Cuba. As praias são diferentes das nossas, muitas pedras, pouca ou quase nada de areia. Os espaços são menores e existem praias quase que particulares, que só cabe um. O que mais chama a atenção de um brasileiro, são os gregos tomando café gelado. Uma mania nacional, quase todos tomam. Não existem vendedores ambulantes oferecendo protetor solar, cangas, toalhas, bijuterias, biquínis, queijo assado, limonada gelada ou biscoito Globo. Mas os bares da orla oferecem cerveja estupidamente gelada – Mytos ou Alfa – sanduiches e batatas fritas. Colhi alguns flagrantes esses dias e deixo aqui pra vocês.

Crianças brincando na praia do Mar Jônico

“Eu vi um menino correndo/Eu vi o tempo brincando/Ao redor no caminho daquele menino…”

Minha vida de cachorro

No meio do caminho tinha muitas pedras, tinha muitas pedras no meio do caminho

O velho e o mar

A praia do eu sozinha

O menino grego desconfiado, olhando pra mim, que fazia um bolinho de areia para ele

Tudo azul

[fotos Alberto Villas]

A JANELA

Tenho ainda um sonho, um sonho antigo de realizar um documentário mostrando como é a vista da janela onde algumas pessoas moram, em vários cantos do mundo. A ideia é mostrar a vista que cada um tem, assim que abre a janela de sua casa. De Nova York a Brumadinho, de Bombai a Coromandel, de Paris a Carneiros, de Tóquio a Palmas. Sei que o projeto custa caro mas ainda não desisti. Hoje, lembrei-me dessa pauta que me persegue ao abrir a nossa janela aqui em Vryses, na região do Peloponeso, na Grécia, onde estamos morando. É uma aldeia de 78 moradores e nossa vista é essa.

[foto Alberto Villas]

TÁ NA MESA!

Por onde andamos, gostamos de experimentar a comida local. Lembro-me perfeitamente a primeira vez que chegamos em Praga, o comunismo estava indo embora e ninguém por ali falava inglês. Lembro-me perfeitamente de três coisas: A inauguração do primeiro McDonalds, onde vendiam mini-repolhos crus, as flores para o líder estudantil Jan Palach na praça principal da cidade e de um restaurante que fomos comer. O cardápio era em tcheco e as pessoas ali falavam apenas o tcheco. A saída foi apontar um prato de preço médio e pedir a Deus para não vir, por exemplo, uma taça de sorvete, já que o frio era bem abaixo de zero. Demos sorte. Veio um prato de carne com batatas cozidas, com um molho vermelho de páprica doce, inesquecível. Não era um goulasch, a feijoada dos tchecos mas era um prato delicioso. Vivendo aqui na Grécia há quase um mês, já sabemos de cor a preferência nacional, o que eles gostam de comer muito e sempre. Entramos no ritmo deles e esses têm sido nossos pratos do dia quando saímos pra comer fora. As cinco fotos foram feitas nas mesas dos restaurantes onde comemos. Veja.

O suvlaki, com carne de porco, tomate, salada e pão grego

O tomate recheado com arroz e mil especiarias

O gyros, com carne de carneiro, batata frita, salada, cebola roxa e tzazik, feito com coalhada e pepino

A musaka, com batata, berinjela e carne moída

A famosa salada grega, com queijo feta

[fotos Alberto Villas]

HISTORINHA DE DOMINGO

Andando pelas ruas de Atenas, vi colado no muro um cartaz já meio estropiado, mas onde era possível ler Komünist Önder e Ibrahim Kaypakkaya. Fiquei curioso. Aquilo não era grego, o que seria? Qual o significado da palavra Önder e quem era Ibrahim Kaypakkaya. Só o Google pra me salvar. Vim a saber que Kaypakkaya foi um político e revolucionário turco, fundador do Partido Comunista em seu país. Liderava a guerrilha Tikko, quando foi preso em 1973, e morto na prisão no mesmo ano. A curiosidade acabou, em parte. Continuo me perguntando porque aquele cartaz estaria ali colado naquele muro de Atenas, na Grécia, em junho de 2018? E quem teria escrito – em inglês – a palavra cego, bem abaixo do cartaz rasgado?

[foto Alberto Villas]

HISTORINHA DE SÁBADO

Dia desses fomos tomar um café na casa do curioso professor de física Dimitre Panopoulos, um dos 78 moradores da aldeia de Vryses, na região do Peloponeso, onde estamos morando. Sua mulher, Vick, nos serviu um café divino e não ficou apenas no café. Serviu também um doce de laranja, laranja que colheu do pé no seu extenso quintal e um doce de viceno, uma frutinha prima da cereja, também colhida no pé. Foi lá que conhecemos o Adonis, um albanês que mora e trabalha na Grécia há mais de uma década. Adonis é o braço direito do professor Dimitre, já aposentado, uma espécie de faz-tudo. Adonis nos contou um pouco da sua vida e quando perguntamos se tinha filhos, disse que tinha uma menina, de quatro anos. Qual é o nome dela? Adonis disse: Delícia! E continuou: “O nome é uma homenagem a uma personagem de uma novela brasileira”. Imagine só, a menininha que nasceu na Albânia leva consigo o nome de uma personagem representada por Tatá Werneck na novela Amor à Vida, que foi ao ar na TV Globo, em 2013. Delícia, né?

Adonis, pai da Delícia

[foto Alberto Villas]

TORRE DE PAPEL

Quando fiz o curso de Jornalismo no Institut Français de Presse, em Paris, no início dos anos 1970, tinha matérias como Imprensa do Oriente Médio, Imprensa dos Países do Leste, Imprensa Europeia e imprensa de outros cantos do país. Me entusiasmei com aquilo e fui gostando cada vez mais dos jornais e revistas do mundo inteiro. Virou motivo de estudo, virou paixão. Por onde vou, paro durante horas nas bancas e nos pontos de venda de jornais. Mesmo não entendendo nada de algumas línguas, como é o caso do grego atualmente, onde estou convivendo com essas dezenas de jornais diários em que consigo traduzir as fotos e os títulos dos jornais que estudei quando jovem cabeludo. Fico observando a invasão de edições locais de revistas que viraram a Coca-Cola das bancas. A National Geographic, a Marie Claire, a Playboy, a Rolling Stone, a Wired, as publicações Disney, essas revistas já vi dependuradas nas mais diversas línguas. Ontem fiquei parado diante de uma banca em Atenas observando aquela fileira de jornais dependurados com títulos que mais pareciam erros de digitação, vi o Kim cumprimentando o Trump na primeira página do H KAOHMEPINH e até comprei um exemplar do Mick grego pra ver se dá pra entender essa língua danada.

[fotos Alberto Villas]

AH, OS TURISTAS…

Tem gente que não gosta, acha que eles incomodam, mesmo sem perceber que também são turistas, que fazem parte dessa massa. Eu gosto. Cansado, às vezes eu me sento só pra observar turistas que passam. Tem de todo jeito, de todo tamanho, de toda cor, de todo peso, vestindo roupas diferentes e falando línguas que muitas vezes não fazemos idéia de onde é. De repente, estamos numa Torre de Babel. Turistas adoram monumentos. Não existe a possibilidade de chegar à Torre Eiffel, ao Big Ben, ao Coliseu, à Mesquita Azul, ao Taj Marhal, à Torre de Pisa, e não encontrar uma multidão de turistas. Ontem foi a vez da Acrópole, em Atenas. A gente se esforça, faz o que pode, muitas vezes até deita no chão para tirar-los das fotografias. Eu faço isso, mas também gosto de fotogarafá-los. Eles fazem parte do show. Veja só!

Turista fotografando

Turista conquistando a bandeira

Turista se exibindo

Turista no topo

Turista aproveitando o wi-fi do museu

Turista que gosta de aventura

Turista cansada

Turista em lua de mel

Turista ouvindo a guia turística

 

Turista que se esforça pra pegar o melhor lance

E o turista que passa na frente e atrapalha a foto

[fotos Alberto Villas]

 

VERDE QUE TE QUERO VERDE

Uma reportagem de página inteira publicada recentemente no jornal La Repubblica, mostrava que, com esses tempos modernos das grandes cidades, todo mundo quer um pouco de natureza dentro de casa. O meio encontrado de suprir aquela vida de outrora, onde as crianças conviviam diariamente com pés de árvores frutíferas, hortas e bichos que iam do tatu-bola ao cachorro, foi cultivar numa pequena área, um vasinho de planta, uma hortinha com hortelã, alecrim, tomilho, salvia, essas coisas. O “meu verde” afasta um pouco o estresse do trânsito, do trabalho, da pressão nossa de cada dia. Não existe nada mais prazeroso que ver as flores de um  tomateiro se transformar em tomatinhos cereja ou um pequeno cactus florir. A reportagem do jornal italiano falava apenas da “mania” de plantas que tomou conta de praticamente todas as metrópoles do mundo. Andando pelo interior da Itália durante dois meses e agora pelo interior da Grécia, a gente percebe que cultivar plantas em casa por aqui sempre foi um hábito e não simplesmente moda. Por onde a gente vai, a gente vê sempre um vasinho na janela. Por menor que seja o espaço, lá está uma florzinha revelando a mais perfeita tradução da primavera ou um verde dando o seu ar da graça Não é à toa que as cidades daqui são tão lindas e fotografadas todos os dias.

Uma janela na cidade de Kardamyli, na região de Messinia, no interior da Grécia.

[foto Alberto Villas]

ÁLBUM DE RETRATOS

O meu pai vivia com uma máquina de retrato dependurada no pescoço. Não que ele fosse um fotógrafo profissional, nada disso. Gostava de registrar flagrantes da família, das nossas viagens ao interior de Minas Gerais. Era uma época das máquinas pesadas, dos filmes rolo de 12 chapas, ainda em preto e branco. Essas fotografias estão hoje guardadas num velho baú como se fosse um tesouro. E são. Acho que herdei dele essa vontade de fotografar. Sou amador, velho leitor da revista francesa Camera, a que mais gosto. Fotografo sempre, ainda mais agora que ando com um iPhone no bolso. E não só quando viajo. Quando estou em São Paulo, vivo clicando, principalmente da janela do ônibus, de onde a gente vê uma cidade que motorista nenhum de automóvel consegue ver, tamanha tensão. São quase três meses fora do Brasil e, mesmo morando numa aldeia de 78 habitantes, ainda tenho muito que fotografar. Às vezes saio caminhando aqui por perto sem saber se terei o que registrar. Dou cinco passos e tiro o iPhone do bolso. Começo a achar até que é vício. À noite, sempre descarto dezenas de fotos repetidas ou sem valor, na minha opinião. Ficam aquelas que mais gosto apenas para não engarrafar meu computador. Tem dias que fico satisfeito apenas com uma. Foi o caso dessa que publico abaixo. Gosto de fotos assim. Estava tomando o café da manhã tipicamente grego num antigo moinho d’água aqui perto, onde um tecido amarelo dependurado entre árvores, nos protegia do sol forte do verão grego e nos salvava de ser atingidos por figos maduros que caiam a todo momento, bem em cima da nossa mesa. Quando o sol refletiu no tecido amarelo, achei que poderia dar uma boa foto, em contraste com o verde da mata, dessas que a revista Camera gosta de publicar. Fiquei orgulhoso do trabalho e deixo aqui para vocês apreciarem.

[foto Alberto Villas]