HISTORINHA DE DOMINGO

Andando pelas ruas de Atenas, vi colado no muro um cartaz já meio estropiado, mas onde era possível ler Komünist Önder e Ibrahim Kaypakkaya. Fiquei curioso. Aquilo não era grego, o que seria? Qual o significado da palavra Önder e quem era Ibrahim Kaypakkaya. Só o Google pra me salvar. Vim a saber que Kaypakkaya foi um político e revolucionário turco, fundador do Partido Comunista em seu país. Liderava a guerrilha Tikko, quando foi preso em 1973, e morto na prisão no mesmo ano. A curiosidade acabou, em parte. Continuo me perguntando porque aquele cartaz estaria ali colado naquele muro de Atenas, na Grécia, em junho de 2018? E quem teria escrito – em inglês – a palavra cego, bem abaixo do cartaz rasgado?

[foto Alberto Villas]

HISTORINHA DE SÁBADO

Dia desses fomos tomar um café na casa do curioso professor de física Dimitre Panopoulos, um dos 78 moradores da aldeia de Vryses, na região do Peloponeso, onde estamos morando. Sua mulher, Vick, nos serviu um café divino e não ficou apenas no café. Serviu também um doce de laranja, laranja que colheu do pé no seu extenso quintal e um doce de viceno, uma frutinha prima da cereja, também colhida no pé. Foi lá que conhecemos o Adonis, um albanês que mora e trabalha na Grécia há mais de uma década. Adonis é o braço direito do professor Dimitre, já aposentado, uma espécie de faz-tudo. Adonis nos contou um pouco da sua vida e quando perguntamos se tinha filhos, disse que tinha uma menina, de quatro anos. Qual é o nome dela? Adonis disse: Delícia! E continuou: “O nome é uma homenagem a uma personagem de uma novela brasileira”. Imagine só, a menininha que nasceu na Albânia leva consigo o nome de uma personagem representada por Tatá Werneck na novela Amor à Vida, que foi ao ar na TV Globo, em 2013. Delícia, né?

Adonis, pai da Delícia

[foto Alberto Villas]

TORRE DE PAPEL

Quando fiz o curso de Jornalismo no Institut Français de Presse, em Paris, no início dos anos 1970, tinha matérias como Imprensa do Oriente Médio, Imprensa dos Países do Leste, Imprensa Europeia e imprensa de outros cantos do país. Me entusiasmei com aquilo e fui gostando cada vez mais dos jornais e revistas do mundo inteiro. Virou motivo de estudo, virou paixão. Por onde vou, paro durante horas nas bancas e nos pontos de venda de jornais. Mesmo não entendendo nada de algumas línguas, como é o caso do grego atualmente, onde estou convivendo com essas dezenas de jornais diários em que consigo traduzir as fotos e os títulos dos jornais que estudei quando jovem cabeludo. Fico observando a invasão de edições locais de revistas que viraram a Coca-Cola das bancas. A National Geographic, a Marie Claire, a Playboy, a Rolling Stone, a Wired, as publicações Disney, essas revistas já vi dependuradas nas mais diversas línguas. Ontem fiquei parado diante de uma banca em Atenas observando aquela fileira de jornais dependurados com títulos que mais pareciam erros de digitação, vi o Kim cumprimentando o Trump na primeira página do H KAOHMEPINH e até comprei um exemplar do Mick grego pra ver se dá pra entender essa língua danada.

[fotos Alberto Villas]

AH, OS TURISTAS…

Tem gente que não gosta, acha que eles incomodam, mesmo sem perceber que também são turistas, que fazem parte dessa massa. Eu gosto. Cansado, às vezes eu me sento só pra observar turistas que passam. Tem de todo jeito, de todo tamanho, de toda cor, de todo peso, vestindo roupas diferentes e falando línguas que muitas vezes não fazemos idéia de onde é. De repente, estamos numa Torre de Babel. Turistas adoram monumentos. Não existe a possibilidade de chegar à Torre Eiffel, ao Big Ben, ao Coliseu, à Mesquita Azul, ao Taj Marhal, à Torre de Pisa, e não encontrar uma multidão de turistas. Ontem foi a vez da Acrópole, em Atenas. A gente se esforça, faz o que pode, muitas vezes até deita no chão para tirar-los das fotografias. Eu faço isso, mas também gosto de fotogarafá-los. Eles fazem parte do show. Veja só!

Turista fotografando

Turista conquistando a bandeira

Turista se exibindo

Turista no topo

Turista aproveitando o wi-fi do museu

Turista que gosta de aventura

Turista cansada

Turista em lua de mel

Turista ouvindo a guia turística

 

Turista que se esforça pra pegar o melhor lance

E o turista que passa na frente e atrapalha a foto

[fotos Alberto Villas]

 

VERDE QUE TE QUERO VERDE

Uma reportagem de página inteira publicada recentemente no jornal La Repubblica, mostrava que, com esses tempos modernos das grandes cidades, todo mundo quer um pouco de natureza dentro de casa. O meio encontrado de suprir aquela vida de outrora, onde as crianças conviviam diariamente com pés de árvores frutíferas, hortas e bichos que iam do tatu-bola ao cachorro, foi cultivar numa pequena área, um vasinho de planta, uma hortinha com hortelã, alecrim, tomilho, salvia, essas coisas. O “meu verde” afasta um pouco o estresse do trânsito, do trabalho, da pressão nossa de cada dia. Não existe nada mais prazeroso que ver as flores de um  tomateiro se transformar em tomatinhos cereja ou um pequeno cactus florir. A reportagem do jornal italiano falava apenas da “mania” de plantas que tomou conta de praticamente todas as metrópoles do mundo. Andando pelo interior da Itália durante dois meses e agora pelo interior da Grécia, a gente percebe que cultivar plantas em casa por aqui sempre foi um hábito e não simplesmente moda. Por onde a gente vai, a gente vê sempre um vasinho na janela. Por menor que seja o espaço, lá está uma florzinha revelando a mais perfeita tradução da primavera ou um verde dando o seu ar da graça Não é à toa que as cidades daqui são tão lindas e fotografadas todos os dias.

Uma janela na cidade de Kardamyli, na região de Messinia, no interior da Grécia.

[foto Alberto Villas]

ÁLBUM DE RETRATOS

O meu pai vivia com uma máquina de retrato dependurada no pescoço. Não que ele fosse um fotógrafo profissional, nada disso. Gostava de registrar flagrantes da família, das nossas viagens ao interior de Minas Gerais. Era uma época das máquinas pesadas, dos filmes rolo de 12 chapas, ainda em preto e branco. Essas fotografias estão hoje guardadas num velho baú como se fosse um tesouro. E são. Acho que herdei dele essa vontade de fotografar. Sou amador, velho leitor da revista francesa Camera, a que mais gosto. Fotografo sempre, ainda mais agora que ando com um iPhone no bolso. E não só quando viajo. Quando estou em São Paulo, vivo clicando, principalmente da janela do ônibus, de onde a gente vê uma cidade que motorista nenhum de automóvel consegue ver, tamanha tensão. São quase três meses fora do Brasil e, mesmo morando numa aldeia de 78 habitantes, ainda tenho muito que fotografar. Às vezes saio caminhando aqui por perto sem saber se terei o que registrar. Dou cinco passos e tiro o iPhone do bolso. Começo a achar até que é vício. À noite, sempre descarto dezenas de fotos repetidas ou sem valor, na minha opinião. Ficam aquelas que mais gosto apenas para não engarrafar meu computador. Tem dias que fico satisfeito apenas com uma. Foi o caso dessa que publico abaixo. Gosto de fotos assim. Estava tomando o café da manhã tipicamente grego num antigo moinho d’água aqui perto, onde um tecido amarelo dependurado entre árvores, nos protegia do sol forte do verão grego e nos salvava de ser atingidos por figos maduros que caiam a todo momento, bem em cima da nossa mesa. Quando o sol refletiu no tecido amarelo, achei que poderia dar uma boa foto, em contraste com o verde da mata, dessas que a revista Camera gosta de publicar. Fiquei orgulhoso do trabalho e deixo aqui para vocês apreciarem.

[foto Alberto Villas]

HISTORINHA DE DOMINGO

Quando eu me mudei pra Paris, no início dos anos 1970, fiquei espantado ao entrar nas boulageries e ficar sabendo que o nosso famoso pão francês, aquele pequenininho, não existe na França. No país da baguete, do pain aux raisin, do croissant au beurre e do chausson aux pommes, não adianta entrar numa padaria e pedir un petit pain français. Quando surgiu o iogurte grego no Brasil, não faz muito tempo, eu logo perguntei aos meus botões: Será que existe iogurte grego na Grécia? Claro que eu sabia que existia. Basta provar no Brasil um tzazik – uma comida grega deliciosa – pra saber que o iogurte grego existe. O dia em que resolvi experimentar o tal iogurte grego aqui em Vryses, acabei comendo de joelhos. É uma das coisas mais gostosas do mundo e o mais curioso é que apenas lembra vagamente os que são vendidos no Brasil. A consistência, o sabor, a embalagem, tudo é diferente. Com a explosão das vendas ai, o iogurte grego made in Brazil começou a inventar moda. Hoje temos até de frutas tipicamente brasileiras. O que experimentei aqui foi um iogurte grego comprado num supermercado. Fico imaginando como deve ser aquele feito artesanalmente pelos moradores de Vryses. Ainda vou experimentar e depois conto pra vocês.

[foto Alberto Villas]

COLHENDO FRUTOS

Menino, em Belo Horizonte, costuma ver frutos no pé. Na minha casa tinha uma parreira, duas laranjeiras e uma ameixeira. No vizinho, bananeiras. Cresci vendo o desaparecimento das quitandas e o nascimento dos sacolões, dos supermercados, dos hipermercados. Com o tempo, as frutas foram desaparecendo dos pés nas grandes cidades, nas metrópoles por onde vivi. Mas ainda sou capaz de reconhecer um pé de jabuticaba, uma goiabeira, uma jaqueira. Tantos anos depois, vim passar uma temporada aqui em Vryses, uma aldeia nas montanhas do Peloponeso, na Grécia. E foi aqui que reencontrei os pés de frutas. Dei uma volta por perto da nossa casa  e aqui estão as frutas que vi. No pé.

Damasco

Maçã

Uva

Cereja

Nozes

Pera

Pêssego

Figo

Romã

[fotos Alberto Villas]

PYLOS

Só de noite, quando voltamos pra casa, fui ver na Wikipédia, um pouco da história da cidade que visitamos hoje. Descemos a montanha e saímos andando de carro por estradas lindas e, depois de muitos erros, chegamos a Pylos, uma cidadezinha que deve ter mais mais de 2.104 habitantes porque o último censo, de 2001, registrou esse número. Pylos está situada na região de Messénia, no Sudoeste da periferia do Peloponeso. Foi uma importante cidade durante o período micênico, e subseqüentemente, na Grécia Clássica, onde foi uma aliada de Esparta na Guerra do Peloponeso. No século XII foi ocupada pela República de Veneza. Palavras da Wikipédia. A cidade é toda clara, meio branca, meio beje, meio amarelada, cercada por um mar azul maravilhoso. Tem tudo que uma cidade à beira mar tem. Um porto com barcos ancorados, um cheiro de maresia, uma orla com bares charmosos que vendem Aperol Spritz, cerveja Mythos, Fanta sem gás, café gelado – uma mania nacional – e muitos drinks. Um deles anunciava na lousa,  a nossa famosa caipirinha. Tem pracinha com coreto, bancos de madeira com encosto, árvores frondosas, bicicletas que passam, velhinhas que cochicham, uma banca de jornal que vende o Le Monde, o La Repubblica – pra minha alegria – e até mesmo o Süddeutsche Zeitung, segundo minha filha, o melhor jornal da Alemanha. Ficamos de voltar porque adoramos Pylos, um típico amor à primeira vista. A visita foi curta, tínhamos que voltar pra comer as batatas fritas com um ovo por cima, prato que nossa vizinha da frente, Tia Margaritae, prometeu fazer assim que chegássemos. Os flagrantes de hoje foram esses:

Lembramos do rock rural de Zé Rodrix porque vimos cabras pastando solenes no jardim

Vimos árvores frondosas, misteriosamente mostrando parte dela com a aparência de morta

No meio do caminho, a vontade de parar, admirar e fotografar

Pylos, os casarões perto do porto

Na hora de voltar, uma mocinha nos dá informação: Pra que lado fica Kyparessia?

Kyparessia à vista! Agora é só subir a montanha pra chegar a Vryses, nossa aldeia.

[fotos Alberto Villas]

QUERIDO DIÁRIO

Hoje, no final da tarde, depois de uma manhã resolvendo problemas com a informática em Kyparessia, e um banho de mar pra refrescar o calor de 34 graus,  resolvemos caminhar por nossa rua aqui na aldeia de Vrises. Esperamos primeiro o sol baixar, acabamos de pintar a calçada de casa à moda grega, e ai sim saímos para uma pequena volta. Com o celular na mão, a gente sempre registra uma coisa ou outra.

A primeira fotografia foi da janela de uma casa abandonada e meio misteriosa. Que história teria por detrás dessa casa?

Quase todas as casas aqui têm esse objeto de metal em forma de pássaro preto em cima das chaminés. Ele gira vararosamente, distribuindo a fumaça que sai das lareiras quando é inverno rigoroso.

Na calçada, encontramos uma pereira carregada de frutas. As peras ainda estão verdes.

Lá longe, vinha caminhando uma mãe com o seu filho. Quando passou por nós, perguntamos o seu nome e ficamos sabendo que ele se chama Aristoneme.

Do alto, enxergamos as suntuosas montanhas do Peloponeso.

Passamos pela plantação de oliveiras dos Vlahou, os donos da casa onde estamos morando.

Voltamos pra casa, que agora está com as calçadas pintadas à moda grega. A vizinhança veio ver e achou que ficou muito lindo.

[fotos Alberto Villas]

BELEZA INTERIOR

Conhecer a cidade de Kyparessia, na região do Peloponeso, distante sete quilômetros da nossa aldeia, foi uma surpresa e uma grande emoção. Encontrar uma cidade do interior com todos os seus personagens, com toda uma vida vivida aqui. O cabeleireiro, o dentista, o médico, a loja de armarinho, a farmácia, a banca de jornal, a escola e sua algazarra de crianças, a loja que vende de tudo – de parafuso a pneu – a moça na janela, como se estivesse ali pra ver a banda passar. O calor aqui é intenso, mais de 33 graus, o sol forte e o mar sempre azul. Sim, aqui tem praia com barraquinhas de palha e garçons que oferecem capuccino gelado, uma especialidade e uma mania grega. Tem mocinhas checando o smartphone e mães de olho nos filhos que entram no mar. Kyparessia é um paraíso longe do Brasil mais de 12 mil quilômetros e de todos os seus problemas, que acompanhamos pela Internet. Dá vontade da gente parar o relógio, parar o tempo. Mas antes, soltar o Lula. Quem não se emociona ao ver um armazém que ainda tem os grãos em grandes sacos na entrada? Tem arroz, tem um feijão estranho, essas coisas básicas pra gente viver.

[foto Alberto Villas]

COMO VAI MINHA ALDEIA?

Assim que cheguei na aldeia de Vryses, na Grécia, onde vamos passar uma temporada, duas coisas me vieram à cabeça. Uma velha canção do mineiro Tavinho Moura chamada Como vai minha aldeia, que diz assim: “Como vai minha cidade/Oi, minha velha aldeia/Canto de velha sereia/No meu tempo/Isso era meu tesouro/Um portão/Todo feito de ouro/Uma igreja/E a casa cheia/Cheia/No vazio/Desse meu Brasil”. A segunda coisa que me veio à cabeça foi a disciplina História, nos meus dias de Caseb, em Brasília. Isso porque estamos na região do Peloponeso. Eu sabia que um dia essas aulas seriam úteis pra mim. Ficava ali decorando o que eram as Capitanias Hereditárias, a Guerra dos Emboabas, o Caminho das Índias, a guerra do Peloponeso. Cá estou eu. Deixei a São Paulo de 25 milhões de habitantes, passamos uma temporada em Florença de pouco mais de 300 mil e chegamos a Vrises, com 78 habitantes, sim, 78, contando o Prefeito que já veio nos ver no final da tarde de ontem. A casa é uma casa muito acolhedora, com vista pras montanha, onde, ontem, experimentamos o primeiro por do sol deslumbrante. Foi aqui que nasceu uma das nossas grandes amigas, Olga Vlahou, que veio do Brasil nos recepcionar e passar a primeira semana conosco, nos ensinando as frases básicas do grego e coisas do tipo “precisamos de gás”. Já demos uma volta pela redondeza e muitas coisas nos chamou a atenção, uma delas, foi a quantidade de árvores frutíferas em todas as casas: Uvas, pêssegos, abricots, peras, ameixas, limões sicilianos, uma fartura. Estamos no alto da montanha e das janelas da sala enxergamos toda a natureza em volta. De noite, ouvimos, ao longe, alguns lobos uivando. Ainda não perguntei pra Olga mas acredito que seja lobos. Ouvimos muitos passarinhos ao amanhecer. Acordamos com o canto deles.Não ouvi nenhum sabiá, acho que aqui não há. Daqui a pouco vamos descer pra tomar o primeiro café da manhã em Kyparessia, a cidadezinha mais próxima. No primeiro dia, o café será fora, depois aqui nessa casa tão aconchegante. Chegamos não faz muitas horas em Vrises mas já deu pra registrar as primeiras imagens.

Vimos pêssegos no pé na casa do vizinho.

Da janela da sala, nossa visão é esta.

Vimos flores estranhas, nunca antes vistas.

Vimos a igrejinha e fomos ao cemitério visitar o túmulo do Senhor Vlahou, pai de Olga.

Da porta de entrada da nossa casa, vimos a primavera lá fora, que já chegou.

Comemos o melhor tzazik do mundo, feito pela Helene, na Taberna Panorama.

 

Vimos este por so sol.

Sim, chegamos aqui.

[fotos Alberto Villas]

A FOTO DO SÁBADO

Tenho recebido diariamente e-mails e mensagens pelas redes sociais comentando as minhas fotos. Fico orgulhoso. Não sou muito de fotografar cartões-postais das cidades por onde passo, se bem que de vez em quando brinco com o “pra não dizer que não fotografei cartão-postal”. Gosto de fotografar os moradores das cidades, anônimos, e que retratam o cotidiano. Gosto dos detalhes. De um grafite escondido numa ruela, de um balaio de flores de abobrinha no mercado, de uma garrafa de Fanta sabor Flor de Sambuco na geladeira, de uma frase escrita na parede, de uma criança tomando sorvete, coisas assim. Sinto que, de uma maneira geral, as pessoas gostam de ser fotografadas. Ou simplesmente olham duro pra gente numa janela semi-aberta no terceiro andar. Em Paris, por exemplo, um morador de rua não quis ser fotografado. Ele estava deitado no banco de uma praça no Marais, com uma vara de pescar e, no lugar do anzol, um canequinho de plástico com algumas moedas. Era o seu jeito de pedir esmolas. Não fotografei, claro, perdi esse detalhe de Paris. Às vezes posto fotos “nada a ver”. Deixo aqui a pergunta. O que tem a ver duas latas amassadas de Coca-Cola, formando o Coca e o Cola, jogadas numa estrada a caminho da praia, na região da Puglia, na Itália. Gostei do detalhe da Cola estar desbotada pelo sol, já que rosa. Está aqui só porque achei curioso aquilo ali jogado no chão, o contraste do vermelho com o cinza do asfalto. Confesso que achei a foto, bacana. Espero que gostem.

[foto Alberto Villas]

ESTRADA DA VIDA

Viajar é preciso e continuamos, rumo ao bico da bota, onde pegaremos o navio com destino à Grécia. Duas paradas antes. A primeira foi em Alberobello, a cidade dos trulli, essas construções medievais que encontramos na região da Puglia centro-meridional. Os telhados de pedra não levam argamassa, um segredo que é preciso colocar a mão, ver pra crer. Uma surpresa ao olhar de perto, sentir que está sonhando de olhos abertos. A segunda parada foi em Otranto, onde o verde do mar é o mais verde que existe. Vamos acompanhar juntos, algumas coisas que vimos por lá.

Em Alberobello, vimos uma cidade branca e um céu azul. A impressão que deixa é que são gnomos que moram dentro delas.

Vimos flores por todos os cantos, das mais variadas espécies e cores. Um espetáculo da natureza trabalhado com capricho pelo homem.

Vimos empórios com os embutidos mais gostosos do mundo. Lugar onde você entra e fica observando cada azeitona verde, cada tomate recheado, cada presunto cru, cada lata de azeite, cada pote de geleia. E sentindo o cheiro.

Vimos um senhor de idade vendendo por 120 mil euros, o seu trullo repleto de quinquilharias, enquanto afiava atentamente uma faca.

Vimos cortinas de rendas brancas fechando delicadamente cada porta de vidro da entrada das casas misteriosas.

Em Otranto, vimos uma dos mares mais bonitos do Planeta Terra. Verde que te quero verde!

Vimos estudantes observando as ondas do mar e com toda razão.

Vimos parreiras carregadas de uvas verdes, folhas e frutos disputando o verde com o mar.

E vimos uma senhora sentada num banco, numa esquina da cidade, refletindo, pensativa, com o olhar distante, alcançando as águas verdes lá embaixo. Eu estaria pensando no privilégio de estar aqui e agora.

[fotos Alberto Villas]

AO VIVO E EM CORES

Sempre fui apaixonado por viajar e por revistas de viagem e geografia. Assino a francesa Geo há mais de quarenta anos, a internacional National Geographic há décadas e colaboro com a brasileira Viagem e Turismo, publicada pela Editora Abril. Vivo folheando as italianas  Bell’Italia, a Bell’Europa, a Dove, a In Viaggio. Guardo velhos exemplares das que sumiram do mapa, como a Ulysses, a Próxima Viagem, a Horizonte. Elas falam de muitos lugares maravilhosos onde já fui um dia e de centenas de lugares que conhecia apenas por suas páginas, geralmente de papel couché luxuoso. Polignano a Mare, na região italiana da Puglia, por exemplo, é um desses lugares. Apenas parava de folhear, de ler, para admirar. Parecia um sonho e esse sonho acaba de ser realizado. Aquelas fotos, que às vezes achava que tinha um truque de filtro quando chegava às bancas, eram de verdade. Cliquei algumas e deixo aqui para visitação pública. Venha a Polignano a Mare, assim que puder. Vale por anos e anos de colírio nos olhos e não há contra indicação. Veja.

[fotos Alberto Villas]

MONOPOLI 30 GRAUS

Não conhecia a cidade. Na verdade, pouco ou nada sabia sobre Monopoli antes de chegar aqui, por volta de quatro horas da tarde, debaixo de um sol de verão, mesmo estando ainda na moda primavera-verão. Foi uma surpresa ver o Mar Adriático, tão azul e tão lindo. Descobrir, em plena Puglia, um lugar tão particular, tão cheio de personalidade. O que vimos por aqui nessas primeiras horas de Monopoli? Siga comigo.

Vimos casas brancas espalhadas por todo o centro histórico e, principalmente à beira do velho porto da cidade, um lugar para sair andando, parar e ficar apreciando a beleza do lugar.

Vimos pescadores vendendo o seu peixe na calçada à beira mar. Camarões frescos, sardinhas, anchovas, peixes pequenos mas com uma cara ótima.

Percebemos a paixão dos moradores por cactos, espalhados por todos os cantos, em pequenos e grandes vasos.

Vimos uma exposição linda sobre a obra gráfica de Juan Mirò, no Castelo Carlo V. Trabalhos raros e deslumbrantes, com aquela combinação de cor bem Mirò. A mostra vai até o dia 15 de julho. Veja abaixo, uma das obras expostas.

[Juan Mirò]

Vimos o farol e me lembrei da canção Ela, de Gilberto G: “Cada ilha, um farol/No mar da procela, ela/Ela que me faz um navegador”

E vimos a lua cheia despontar, iluminando todas as belezas à beira do Mar Adriático.

[fotos Alberto Villas]

 

 

 

 

A FOTO DO DOMINGO

Florença é uma cidade com bicicletas por todos os lados. Velhas, novas, coloridas, fora de moda, charmosas. As pessoas andam de bicicleta por todos os cantos da cidade. Crianças, jovens, adolescentes, adultos, idosos. É um meio de transporte e não somente uma moda. Isso faz anos, antes mesmo de qualquer prefeito pensar em fazer ciclovias. As ciclovias aqui ficam à beira do Rio Arno. Mas, nas ruas, o respeito ao ciclista é sagrado, como deveria ser em todas as cidades do mundo. Andar de bike é fazer exercício, é ecológico, é o futuro que queremos para nossas cidades.

[foto Alberto Villas]