NOVE HORAS DA MANHÃ

Da janela do ônibus Ipiranga, vi apenas os dois pés. O corpo, incluso cabeça, estava coberto por um tecido grosso que, assim do alto e de longe, mais parecia um papelão, mas era tecido. Aparecia apenas os pés, sujos, maltratados, calejados. Estava ali exposto no chão, debaixo do Viaduto Presidente João Goulart, aquele que foi deposto para evitar o comunismo, para criar um país novo, que iria um dia pra frente, Brasil. As pessoas que passam desviam do morador de rua ali deitado, como desviam de uma pedra. Nem olham. O ônibus está parado esperando o sinal abrir e ninguém olha para o homem dos pés. Qual é o seu nome? O número do seu CPF? O que foi na vida? O que é hoje? Aflito, espero o sinal abrir e chegar em casa a tempo de ver o telejornal que vai falar de bilhões que o governo vai economizar em dez anos. Vai dar a cotação do dólar, do temporal que desabou no Rio hoje, ontem em Brasília. Mas não vai falar dele, um homem que se resume em dois pés sujos ali expostos a visitação pública. E ninguém vê.

[foto Alberto Villas]

Oplakivanje Krista, Andrea Mantegna (detalhe)

[cerca de 1475]

GOLPES & GOLPES

Quem já foi vítima da censura, lembra-se muito bem. Os espaços negros no semanário Opinião, os espaços em branco no Movimento, os diabinhos na Veja, as receitas no Estadão. A censura que veio dom o AI-5, em dezembro de 1968, cortou as nossas asas. Não podíamos voar, mas caminhar, sim. Nomes eram vetados, charges originais recebiam um X do censor analfabeto e iam pra gaveta. No meio dessa repressão toda, até um Julinho da Adelaide nasceu gritando “Acorda, amor!” Não era fácil. Listas de proibição circulavam pela reações numa época em que Dom Heldes Câmara, Paulo Freire, Miguel Arraes, Augusto Boal, Leonel Brizola, João Amazonas, Luis Carlos Prestes, eram palavrões. Resistimos. Jornal morreram massacrados, outros resistiram. Hoje, chegamos ao que chegamos. Não houve um golpe militar para derrubar a presidenta, tudo muito bem disfarçado, como se fosse a democracia, como se fosse a primavera. Chegamos a que chegamos. O presidente da República ameaçando o maior jornal do país é um escândalo que deveria ser colocado na roda de toda a imprensa. Os ratos estão comendo quietos o queijo, pelas beiradas, aos pouquinhos.  Precisamos reagir. Um espaço preto no jornal dizendo que não existe democracia sem imprensa livre já é alguma coisa, mas não o suficiente para frear facistas. Vamos reagir. [AV]