O VELHINHO DE TAQUARITINGA

Não há nada mais patético no “jornalismo” do que ouvir os comentários de Augusto Nunes na Rádio Jovem Pan. Depois de passar dez anos sendo pago para criticar o Partido dos Trabalhadores, sua missão agora é defender o governo Jair Bolsonaro, duela a quem duela. Na quinta-feira, Augusto Nunes se ajeitou na cadeira e teve coragem de dizer que era absurda a decisão do juiz Alexandre de Moraes em suspender a posse de Alexandre Ramagem, amigo íntimo do filho de Bolsonaro (acusado de inúmeras falcatruas), como diretor-geral da Polícia Federal. “Que crimes Ramagem cometeu?”, perguntou Nunes ajeitando-se novamente na cadeira. E argumentou: “Lula não nomeou o Palocci? o Zé Dirceu?”. Vocês já ouviram o presidente Bolsonaro elogiando Nunes em suas lives? Pois é, deu nisso. 

[foto Reprodução/Jovem Pan]

HORA DO PÂNICO

Quem acompanhou o noticiário na televisão durante toda a segunda-feira (9), chegou ao fim do dia acreditando piamente que o mundo estava acabando. Mas, na verdade, quem estava na UTI e respirando por aparelhos, era o capitalismo. Repórteres, apresentadores, comentaristas, analistas, especialistas tentavam entender o que estava acontecendo com a Bolsa, com o dólar, com a economia do mundo inteiro. Da janela da redação onde trabalho via, lá embaixo, alguns craqueiros sentados na calçada, outros dormindo, completamente alheios ao que se passava. A televisão estava voltada para um público especializado e em pânico. Qualquer analista diria que sou maluco em não me preocupar com o que estava acontecendo no mundo inteiro porque isso “mexe com o bolso de todos”. Me pergunto se mexe mesmo com a vida dos 26 mil moradores de rua de São Paulo que geralmente perambulam pela cidade vestindo shorts, sem bolso. Posso estar parecendo um radical meio idiota. Como não se preocupar com o que está acontecendo? Concordo em parte. O que precisa ser discutido é a falência do capitalismo, a ode ao consumo, a ganância pelo dinheiro. Sei que quando a Bolsa se acomodar, a vida continua. Os ricos vão continuar mais ricos e os pobres mais pobres. Mas estará tudo bem, alívio geral para os analistas. Enquanto falavam da crise no mercado mundial, no Municipal pessoas circulavam pelas bancas procurando um tomate mais barato, umas batatas em conta, uma dúzia de ovos pra fazer uma omelete já que a carne é fraca e anda muito cara. [AV]

[foto Reprodução Internet]

YES, NÓS TEMOS BANANAS!

Os jornalistas que cobrem o pitstop que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido e sem vergonha) faz todos os dias na porta do palácio onde mora, estão fazendo papel de palhaço. Todo dia ele chega sorridente, como se estivesse tudo bem com o país e com ele e, depois de fazer um agrado a seus fiéis, costuma xingar os repórteres, humilhá-los, desmoralizá-los e, às vezes, mandar uma banana. Os jornalistas estão fazendo o papel daquela velha expressão “mulher de malandro”, que apanha mas não larga o osso. Horas depois, a humilhação pública vira notícia nas telas dos sites de informação e, no dia seguinte, estão impressas nos jornais que ainda sobrevivem ao formato papel. Em janeiro de 1984, depois de sofrerem humilhações do então presidente João Baptista Figueiredo – grosso como Bolsonaro – os repórteres fotográficos que cobriam política em Brasília, resolveram fazer um protesto. Quando o último presidente militar daqueles tempos tristes começou a descer a rampa do Planalto, todos colocaram suas câmeras no chão e a apenas um, o J.França, foi escalado para registrar o protesto. A fotografia entrou para a história com registro na primeira página da Folha de S.Paulo. Até quando, em pleno 2020, repórteres vão continuar fazendo papel de palhaço?

[fotos Reprodução]

NOVE HORAS DA MANHÃ

Da janela do ônibus Ipiranga, vi apenas os dois pés. O corpo, incluso cabeça, estava coberto por um tecido grosso que, assim do alto e de longe, mais parecia um papelão, mas era tecido. Aparecia apenas os pés, sujos, maltratados, calejados. Estava ali exposto no chão, debaixo do Viaduto Presidente João Goulart, aquele que foi deposto para evitar o comunismo, para criar um país novo, que iria um dia pra frente, Brasil. As pessoas que passam desviam do morador de rua ali deitado, como desviam de uma pedra. Nem olham. O ônibus está parado esperando o sinal abrir e ninguém olha para o homem dos pés. Qual é o seu nome? O número do seu CPF? O que foi na vida? O que é hoje? Aflito, espero o sinal abrir e chegar em casa a tempo de ver o telejornal que vai falar de bilhões que o governo vai economizar em dez anos. Vai dar a cotação do dólar, do temporal que desabou no Rio hoje, ontem em Brasília. Mas não vai falar dele, um homem que se resume em dois pés sujos ali expostos a visitação pública. E ninguém vê.

[foto Alberto Villas]

Oplakivanje Krista, Andrea Mantegna (detalhe)

[cerca de 1475]

GOLPES & GOLPES

Quem já foi vítima da censura, lembra-se muito bem. Os espaços negros no semanário Opinião, os espaços em branco no Movimento, os diabinhos na Veja, as receitas no Estadão. A censura que veio dom o AI-5, em dezembro de 1968, cortou as nossas asas. Não podíamos voar, mas caminhar, sim. Nomes eram vetados, charges originais recebiam um X do censor analfabeto e iam pra gaveta. No meio dessa repressão toda, até um Julinho da Adelaide nasceu gritando “Acorda, amor!” Não era fácil. Listas de proibição circulavam pela reações numa época em que Dom Heldes Câmara, Paulo Freire, Miguel Arraes, Augusto Boal, Leonel Brizola, João Amazonas, Luis Carlos Prestes, eram palavrões. Resistimos. Jornal morreram massacrados, outros resistiram. Hoje, chegamos ao que chegamos. Não houve um golpe militar para derrubar a presidenta, tudo muito bem disfarçado, como se fosse a democracia, como se fosse a primavera. Chegamos a que chegamos. O presidente da República ameaçando o maior jornal do país é um escândalo que deveria ser colocado na roda de toda a imprensa. Os ratos estão comendo quietos o queijo, pelas beiradas, aos pouquinhos.  Precisamos reagir. Um espaço preto no jornal dizendo que não existe democracia sem imprensa livre já é alguma coisa, mas não o suficiente para frear facistas. Vamos reagir. [AV]