O BRASIL MORRENDO NA PRAIA

Dorival já disse um dia, que é doce morrer no mar. Tantos anos depois, estamos vendo o mar morrer. Morrer de plástico, morrer de óleo, morrer de medo. Achavam que salvar tartaruguinhas era coisa de ecochato. Que recolher sujeira humana na areia, era coisa de militante fanático. Não deram atenção, apertaram a tecla foda-se. Chegou a hora. Não acredito num acidente, simplesmente. Nem na coincidência dessas toneladas de óleo que chegam na costa brasileira, justamente nos estados que não votaram no imbecil para presidente da República. Vingança é o seu nome e ela pode estar chegando pelas ondas do mar. Satélites existem por todos os cantos, até mesmo dentro do elevador que você sobe para ir pra casa, pro trabalho, pro médico. Olhos nos espiam desde 1984, na garagem, no supermercado, na farmácia, no posto de gasolina. Menos no mar. Os satélites estavam de férias ou aposentaram. O departamento que cuida disso foi extinto pelo imbecil. Não acredito em coincidências. O nordestino é um bravo, cabra marcado pra lutar. Está tirando as placas de óleo com as próprias mãos, levando as tartaruguinhas para longe, salvar algumas, continuar a vida. O nosso planeta está na UTI, sinto isso, sinto muito. [AV]

1967

Tinha eu 19 anos naquele 9 de outubro de 1967. Vestia uma calça vermelha, um casaco de general e procurava um velho navio no porto em busca de um caminho, um horizonte, navegar era preciso, viver não era preciso. Era impossível levar o barco sem temporais. Foi quando vi seu nome estampado nos jornais, a fotografia que mostrava seus olhos abertos e seu coração parado. Era um corpo estendido numa mesa fria, militares tupiniquins admiravam o troféu que ainda sangrava. Morreu de susto, de bala ou vício. Che Guevara estava morto, os Beatles estavam mortos e nossa esperança sumia no ar, misturada à fumaça de um Continental sem filtro. O céu parecia não nos proteger mais. Eu era louco por ti, América. Ainda não conhecia Cuba e me armava como podia, por detrás da Miséria da Filosofia, livro de Apolo Heringer Lisboa, longe daqui, sem imaginar quem era eu e onde fora parar o seu livro de capa amarela. Meus primeiros estudos, uma faculdade pela frente, ainda não decidida se Medicina ou Jornalismo. Os meus cabelos pareciam uma juba de leão e os meus óculos redondos era idênticos aos do compositor de Give Peace a Chance. Eu não era eu inteiramente. Carolina ainda guardava tanta dor nos seus olhos fundos, o domingo no parque, o sangue no chão. Caminhávamos e cantávamos e seguíamos a canção. O dia em que Che Guevara caiu morto a gente não esquece jamais. [AV]