A QUE PONTO CHEGAMOS

A quarta-feira, 7 de agosto, foi apenas um dia a mais do mês do cachorro louco. Logo cedo, logo após o café da manhã, chegou a notícia pelo computador. Para quem trabalha diariamente com notícia, ela chegou fresca, quente. Em mais um golpe em meio a dezenas, uma juizeca do Paraná, com uma canetada, resolveu transferir o ex-presidente Lula, da Polícia Federal de Curitiba, para o presídio de Tremembé onde, segundo a imprensa calhorda, estão presas as celebridades. Quase todas essas celebridades proclamadas pela imprensa, ficaram célebres como presos, por cometerem assassinatos, estupros, tiros nas costas da namorada inocente, essas coisas. Inconformados com os vazamentos comprometedores de juizes e promotores, eles tramaram mais uma. O dia inteiro passou sobre forte emoção, sobre alta tensão. Um juizeco de São Paulo logo se arvorou em designar que o ex-presidente iria para o Tremembé. Quando chegou o final do dia, aquele 10 a 1, soou como o avesso de um outro 7 a 1. Lavamos a alma e comemoramos a permanência de Lula em Curitiba, quem diria? Lula, preso político, condenado a oito anos de cadeia porque disseram que uma empreiteira teria reformado um apartamento no Guarujá, apartamento que não é e nunca foi dele. Sem contar um sítio, que ele está sendo condenado por frequentar. Fomos dormir sossegados mas o objetivo final nosso é tirar Lula daquele lugar. Sonhamos com a liberdade dele, na certeza de que vai passar. Boa noite, presidente Lula! Bom dia, presidente Lula? (Alberto Villas)

OLHA A FACA!

Por Alberto Villas

Olha a faca! Olha a faca! Mas não vimos o sangue no chão. O puro aço de um punhal luminoso também não era de puro aço luminoso como aquela velha canção mutante. Era talvez uma faca de cozinha, dessas precisando ser afiada, que custa a cortar carne de segunda, custa a tirar a casca da cana e fere a laranja ao descascar. Talvez foi a faca a culpada de tudo e hoje não adianta reclamar com o bispo. Foi aquela faca meio suja, cabo de madeira, quem a livrou dos debates, de explicar o PIB, os juros bancários, o desmatamento da nossa floresta maior, as leis que devem ser respeitadas, os mais médicos, a lista da geografia da pobreza e o nosso país fora, os direitos dos negros, dos índios, dos gays, das mulheres, os estupros de cada dia. Ele não saberia explicar nada, não sabe número nenhum, não compreende bem as coisas e, naquela época acreditava que um posto de gasolina seria a salvação da pátria. Uma pátria amada que ele enxergava armada. Foi a faca a culpada, que o transformou em pobre coitado. Onde estará hoje aquela lâmina cega se não temos um museu do horror. O bispo, dizem, foi parar num hospício qualquer, duvidoso. A imprensa esqueceu dele e hoje sentimos uma faca imaginária rasgando o céu que não nos protege mais, rasgando direitos, perfurando tudo que havia dado certo. A faca invisível continua por ai e é de cortar o coração.