FURACÃO

Dorian, mude seu rumo, venha até nós. Não com o seu poder de destruição. Não arranque sequer uma única árvore da nossa floresta em chamas, não derrube uma casa sequer, não leve consigo os abrigos de papelão que protegem brasileiros debaixo do viaduto Presidente João Goulart, sequer uma casa em Paraisópolis ou no Morumbi. Não quero ver paisagens devastadas. Quero, Dorian, que você use sua força apenas para varrer de Brasília, a sujeira, essa gang que está ai. Leve pra longe, bem longe de nós, bem longe daqui. Leve Jair, leve Eduardo, Flávio, Carlos, Joice, Onyx, Damares, leve Sergio, leve Deltan, leve Heleno, leve também, seu quase xará, Dorian. Venha rumo ao sul para varrer esses cafajestes, mas venha com força total, velocidade de um bólido de Fórmula 1, de um avião da Emirates, leve Tereza Cristina, leve Ernesto Araújo, leve o Weintraub também. Seja Benvindo, Dorian! [AV]

ACORDA, AMOR!

Eram cinco horas da madrugada quando o helicóptero começou a sobrevoar o bairro da Lapa, em São Paulo. O silêncio da escuridão só fez aumentar o barulho, acordar os moradores, chamar a atenção. Ele voava baixo, mais baixo que o prédio de vinte e seis andares, em frente ao meu. O holofote aceso focava a esquina da minha casa, o posto Ipiranga, vasculhava a rua em busca de alguma coisa, de alguém. Subi a cortina, abri a janela, fazia frio. E o barulho aumentou ainda mais. Temor daquele holofote mudar o rumo e focar minha janela, meus olhos, me cegar. Tótótótotó, ele ia e vinha e ia e vinha. Juro que, por alguns minutos, pensei, são os homens e eu aqui parado de pijama, eu não gosto de passar vexame. Peguei o interfone, apertei o botão portaria e o Bahia também não sabia o que se passava ali. Não tem sinal de fumaça, ele disse, não é incêndio. O tótótótotó ia e vinha, diminuir e aumentava. Estava com isso na cabeça: Se você corre o bicho pega, se fica não sei não. Atenção! Não demora, dia desses chega a sua hora, não discuta à toa não reclame, chame o ladrão! Quarenta minutos depois e o barulho não passava. Fotografei. Andei no escuro até o outro lado da cama e disse: Acorda, amor! [AV]

[foto Alberto Villas]

 

 

ELE

Ele é um ser menor, um quadradinho amarelo num oceano verde. Ele não consegue crescer, se orientar, seguir. Ele patina na lama e está condenado a patinar. Não consegue raciocinar, estudar, concluir. Ele só sabe atirar. Um ser pequeno, quase ninguém, que chegou lá. Ele vive a ruminar e seu sonho foi e é  atirar, antes de calcular. Ele não é ninguém, um sem importância, um trapalhão. Quisera ser um Zacarias, um Mussum, um Didi, um Dedé. Ele não passa de um mané, um zé ninguém, um qualquer. Eu avisei! [AV]

NADA A DECLARAR

O outrora herói do Brasil está completamente mudo. O circo pegando fogo, o cabaré em chamas e ele caladinho. Nunca tem nada a declarar. O outrora todo poderoso está sendo fritado, fervido em banho maria, abandonado dentro de um barco furado. Depois que sua mulher postou aquela foto cafona da mesa esperando o ministro da justiça para tomar uma sopa quente numa noite fria, em que víamos a colher enrolada num porta-guardanapos, ele nunca mais abriu a boca. Vai aos poucos transformando-se num ministro à milanesa, desmontado por um louco de plantão. Sergio Moro deve estar perdendo o sono ou, no mínimo, dormindo em maus lençóis.

PÓLVORA

Muita gente acha burrice querer ver o circo pegar fogo, torcer contra. Torcer contra, você está torcendo contra  você. O Brasil indo pro buraco, você vai junto. Esse é o argumento. Parece lógico. Só parece. Eu brasileiro, confesso: Torço contra porque nunca vou torcer a favor de um chefe de governo que elogia e homenageia torturadores. Não vou torcer a favor de quem odeia negros, gays, trans, militantes, feministas, movimentos sociais, movimentos sem terra, cultura & civilização. Ele que se dane. Imagine se o Brasil dá certo nas mãos de quem tem um pé no fascismo, no racismo e tudo de ruim que termina com ismo. Desde 2016, quando as pessoas vestiram uma camisa amarela, inflaram um pato gigante, ajudaram a dar um golpe e me mandaram pra Venezuela, o Brasil apertou os passos para mergulhar no abismo. Não vai ser eu quem vai acudir esse país agora. O país que eu quero é exatamente o contrário do país de Jair Bolsonaro. [AV]