BURRICE

Em 2013, a revista Veja chegou às bancas com uma pergunta na capa: “O PT deixou o Brasil mais burro?” A revista dizia que “o obscurantismo oficial condena o inglês, quer tirar a liberdade das universidades e mandar na cultura”. Vivíamos em plena era da inclusão social, da liberdade nas universidades, do acesso dos menos favorecidos às faculdades. Com isso, apenas confirmamos aquele velho ditado; “Veja mente”. Ai veio o golpe em 2016, veio Michel Temer presidente, ai chegamos ao fundo do poço com um governo de extrema-direita. E a revista IstoÉ, conhecida também por IstoEra ou QuantoÉ, afirmar em sua capa desta semana que estamos vivendo “a vez da ignorância”. Tanto Veja quanto Isto é foram duas inimigas ferozes do governo do Partido dos Trabalhadores. Hoje, vivem sem o PT no poder, mas vivem uma agonia.  

A MORTE ANUNCIADA

Mais uma. A revista mensal de cultura Galileu, publicada pela Editora Globo, anunciou o seu fim. Nascida em 1981 com Globo Ciência, mostrando na capa os insetos robôs, que só agora começam a entrar em ação em grandes tragédias como desabamentos, a revista durante todos esses anos contou capítulos importantes da ciência, da tecnologia, do comportamento. Em 1998, a Globo Ciência mudou de nome, passando a se chamar Galileu. Ampliou o seu horizonte e o número de leitores, dando mais ênfase ao comportamento e aos tempos modernos. Tornou-se a concorrente número 1 da revista Superinteressante, publicada pela Editora Abril, líder do segmento e um grande sucesso editorial. Durante todos esses anos, a Galileu passou por vários projetos gráficos e editoriais, sempre cumprindo muito bem o seu papel. Esta semana, foi anunciada a sua morte, como a de tantas outras revistas nos últimos tempos. A partir de dezembro, as bancas ficam ainda mais tristes, mais vazias e mais pobres de cultura. O lugar onde ficava exposta a Galileu, certamente será preenchido por um caixa de chicletes, um bichinho de pelúcia, um enfeite qualquer ou cartões pré-pagos da Tim, da Claro, da Oi ou da Vivo. Uma pena. 

[foto Reprodução]

É ENGANAÇÃO SÓ

Outrora, o jornal Folha de S.Paulo já teve uma bela revista de fim de semana. Não que dê para comparar com a The New York Times Magazine, a El País Semanal, a Il Venerdì (do jornal italiano La Repubblica) ou a M (do jornal francês Le Monde). Isso para citar apenas algumas. Mas a São Paulo se esforçava para ser uma revista de serviço, com a cara da maior cidade da América do Sul. 

Desde que o Departamento Comercial, que funcionava nos grandes jornais, em outro andar, passou a funcionar aparentemente com mesas ao lado dos jornalistas, a coisa mudou. A São Paulo, da Folha, por exemplo, começou a publicar números temáticos, descaradamente vinculados ao Departamento Comercial. Especial Páscoa, Especial Natal, Especial Dia da Mães, Especial Dia dos Pais, Especial Dia das Crianças, Especial Reformas, Especial Bares e Restaurantes, Especial Casa foram alguns números publicados em sua fase terminal. 

Esses números, quando saiam, fugiam completamente do projeto original de revista de fim de semana da cidade. Eram praticamente preenchidos por publicidades afins, colhidas pelo Departamento Comercial. Até que a revista foi minguando e saindo à francesa, sem dar satisfação ao leitor. Tipo “não vamos dar explicações a eles, quem sabe os leitores nem sintam o seu desaparecimento?”

E assim foi. Não somente a São Paulo, mas também a Serafina, mensal, foi sumindo, sumindo e sumiu.

Mas eis que de repente, o leitor neste domingo (24), foi brindado com uma São Paulo, teoricamente “a revista da Folha”. Sim, está escrito na capa. “É luxo só” é a manchete   de uma revista/catálogo totalmente desfigurada, nada a ver com uma revista de serviço da cidade. E chegou assim, como disse acima, de repente, e vai sumir da mesma maneira. É o tal “Especial Fim de Ano”, que nem número tem.

Uma pena. Com esses números periódicos e irregulares, a Folha de S.Paulo não está cativando ou ganhando leitores. Apenas dinheiro, porque, jornalisticamente, a revista não vale praticamente nada. Só nos resta agora esperar o número “Especial Férias”. Com certeza, ele vem ai. 

 

FEIURA PURA

Caminhando para os cem anos, a revista semanal norte-americana The New Yorker é um colírio para os olhos e fósforo para o cérebro. Suas capas celas, revezando os maiores ilustradores do mundo, são uma marca registrada. Puro bom gosto, inteligência pura. A cada semana, uma surpresa. Fundada em 1925, foi rara a capa da New Yorker que deixava dúvidas quanto ao bom gosto. Mas essa semana, por incrível que pareça, a charmosa New Yorker chegou às bancas com uma capa feia, talvez a mais feia de sua longa história. A edição especial Food errou a mão, saiu completamente do padrão New Yorker. Será que todos acharam a capa da New Yorker, o desenho de Wayne Thiebaud, medonho?

UMA PAUTA

A pauta é fundamental para qualquer revista, qualquer jornal, qualquer telejornal. A produção de uma pauta é a alma de qualquer meio de comunicação. Nos últimos tempos – muitos mesmo – o Brasil anda carente de pauta, com o noticiário engolido diariamente pelo factual. A notícia sempre engole a boa pauta, isso é fato. 

Pautas por aqui são aquelas que todos nós conhecemos bem, através dos anos: O aumento de número de vagas temporárias nessa época do ano (sempre com um personagem que começou como temporário e acabou sendo contratado), o trânsito nas estradas na época de feriado, o panetone que está chegando, as flores mais caras no Finados, o bacalhau com o preço salgado na Sexta-Feira Santa, aqueles que deixam para comprar o presente na última hora, o brinquedo caro, “mas fazer o quê, né?”, as promessas pro ano novo, o primeiro bebê no ano. Poderia fazer uma lista de mil pautas aqui. Fiquemos só nessas. 

A França ganhou uma nova revista semanal de informação há algumas semanas, a La Croix Hebdo, ligada ao jornal católico La Croix. Em seu sétimo número, que chegou às bancas na sexta-feira passada, uma boa ideia de pauta na capa. Como aqui na América Latina, o embate entre policiais e manifestantes nas ruas de Paris é constante e violento. La Croix passou vários dias junto a policiais, seguindo seus passos, para produzir uma matéria mostrando como é a vida daquele que reprime o povo nas ruas. Uma pauta jamais vista aqui.