E EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Não estou aqui para defender Bruno Covas, o prefeito de São Paulo. Estou aqui apenas para fazer algumas observações sobre o programa Roda Viva apresentado pela TV Cultura na noite de segunda-feira, dia 27. Bruno Covas passou recentemente pela sétima sessão de quimioterapia, no combate que faz a um câncer e lá estava ele, no centro da roda viva, respondendo a cada pergunta de uma bancada composta exclusivamente por jornalistas. Preocupados com a repercussão nas redes sociais, eles tentavam fazer perguntas quentes ou embaraçosas, deixando claro que precisavam de uma manchete pra estampar no seu jornal e nenhuma crítica nas redes sociais. Quem vai ser o seu vice nas eleições de outubro? Estavam todos eles sedentos por uma resposta. Essa seria a manchete dos sonhos. Mas o problema maior não está ai. O programa Roda Viva monta, toda semana, uma bancada, quase sempre de jornalistas da chamada grande imprensa: Folha, Estadão, O Globo, Valor, Veja e Época. Na noite de segunda-feira, se o prefeito Bruno Covas invertesse o jogo e perguntasse a cada um dos entrevistadores, a quanto tempo não andam de ônibus, as respostas seriam constrangedoras. Eu, pessoalmente, conheço jornalistas que não entram num ônibus há mais de três décadas. Dai o desconhecimento. Sei perfeitamente que São Paulo tem mais de mil problemas de transporte urbano, mas eu pergunto: Será que os jornalistas sabem que uma boa parte da frota de São Paulo tem ar condicionado? Tem carregador para celular? Tem rampa para pessoas com dificuldade de locomoção? Que você pode carregar o seu bilhete único dentro do próprio ônibus? Que ele tem um dispositivo que impede andar com as portas abertas? Que o Jornal do Ônibus, colado no vidro, informa que estão sendo construídos inúmeros corredores de ônibus na cidade? E que, em breve, vai ser possível pagar a passagem com cartão de débito? Garanto que nenhum dos jornalistas ali presentes sabiam disso. Eles só andam de automóvel. O Roda Viva peca ai. Quem deveria estar na bancada na noite de segunda-feira? Dou algumas dicas: um representante de moradores de bairro, um urbanista, um paisagista, um representante dos sem-teto, um motorista de ônibus, um gari, um estudante, um idoso, um representante de uma entidade que faz coleta seletiva de lixo, isso para citar alguns exemplos. Os jornalistas que estavam ali, com certeza, passam o dia na redação conversando ao telefone com suas fontes. Não colocam os pés na rua. Pelo menos foi o que pareceu. Repito: uma cidade como São Paulo, com seus milhões e milhões de moradores, tem milhões de problemas. Não é de hoje que o crescimento desordenado e caótico impera por aqui. A verdade é que Bruno Covas foi muito convincente em suas respostas. Não foi muito difícil. Além de insistir em quem será o seu vice, uma jornalista voltou ao assunto calçadas da cidade. Disse que não vê uma calçada sendo consertada. Para mostrar a ela, fotografei hoje cedo, terça-feira, dia 28, as calçadas que estão sendo arrumadas aqui na Lapa, onde moro. Começaram os trabalhos no sábado e a obra está a todo vapor. A Praça Cornélia, também aqui na Lapa, foi totalmente reformada, inclusive ganhando aparelhos de ginástica para a terceira idade. Resumo da ópera: Faltou no Roda Viva, gente que anda nas ruas da cidade. E sobrou jornalistas que vivem apenas nas redações.

As calçadas sendo consertadas na Rua Faustolo, na Lapa

A placa mostra que a obra é da prefeitura

[foto Bruno Covas/Reprodução TV Cultura]

[fotos obras/Alberto Villas]

ERRATA

Diferentemente do que foi publicado neste blog na semana passada, no texto “Direto de Chinatown!”, sobre o coronavírus, a repórter Carolina Cimenti, da GloboNews, disse que estava em Chinatown, bairro de Nova York, e fazendo o quê ali. 

[foto Reprodução TV Globo]

MULHER DE MALANDRO

Um relatório da Federação Nacional dos Jornalistas(FENAJ) divulgado recentemente, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro, em um ano e um mês de mandato, já desmoralizou, xingou, humilhou e chacoteou os jornalistas mais de cem vezes. Tudo isso, praticamente num só lugar: no gradil que cerca o Palácio da Alvorada, onde eles se apertam toda manhã, ao lado de fiéis seguidores do presidente de ultra-direita. Os jornalistas estão fazendo o papel daquela velha história, hoje quase proibida, da mulher de malandro. Que apanha, apanha, apanha do marido mas não o larga. Quando Bolsonaro disse que jornalista é uma raça em extinção, que jornalista mente, quando respondeu a um dizendo “é a sua mãe”, a outro que “você tem uma cara terrivelmente de gay”, era para os jornalistas ali presentes terem dado um basta e voltado para as redações, deixado aquele gradil para sempre. Mas não. Eles insistem. Mesmo com o presidente fazendo chacota dizendo que não ia mais dar entrevistas a eles ali, os funcionários da imprensa voltaram no dia seguinte, como carneirinhos. Todos sabem que aquela participação matinal do presidente ali é uma jogada de marketing. A bobagem que ele fala logo cedo repercute durante todo o dia. Se eles não aparecessem mais ali na porta do Alvorada, em protesto, aquele pitstop do presidente não duraria mais que uma semana. Mas ai, pobres jornalistas que cobrem o presidente, ficariam sem pauta. Vale lembrar aquele protestos dos repórteres fotográficos, no início do anos 1980, quando colocaram as suas máquinas no chão e não fotografaram o presidente João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, em protesto contra as agressões do presidente. O combinado é que apenas um registrasse a foto para a história. Parece que os jornalistas tinham mais peito na ditadura do que agora, nessa coisa que ninguém explica o que é. 

[fotos Internet]

DIRETO DE CHINATOWN!

É comum na Rede Globo, repórter cobrir eleições na Venezuela, de Buenos Aires, uma guerra no Oriente Médio, de Nova York ou uma visita do papa a Beirute, de Roma. Mas na tarde desta quinta-feira (23), vimos algo de inusitado na GloboNews, a emissora a cabo dos Marinho: a cobertura da tragédia do coronavírus, que começou na China, diretamente de Chinatown, o bairro chinês de Nova York! Não, a repórter da GloboNews não estava ai para contar histórias de chineses do bairro, talvez assustados com o vírus do outro lado do planeta, que já matou 17 pessoas e deixou centenas infectadas. Chinatown, na tarde de quinta-feira na GloboNews era apenas um cenário, com luminosos escritos em chinês ao fundo, com certeza para que o telespectador acreditasse que a repórter já estava em Wuhan, a cidade chinesa mais atingida pelo coronavírus. 

[foto Reprodução GloboNews]

A QUEDA

Alguma coisa acontece nas manhãs da TV Globo. A grade que existente já há alguns anos simplesmente não está funcionando. Todo dia, os dois programas encravados entre telejornais – Mais Você, com Ana Maria Braga e Encontro com Fátima Bernardes – caem no Ibope, que só vai se recuperar os índices quando saem do ar. São dois programas caros, com uma equipe grande, mas que parecem ter esgotado a fórmula. Ana Maria, o mais longevo, faz o que pode. Cria quadros de competições, leva famosos da Globo, faz doces e salgadinhos, mas o Ibope patina. Fátima e toda sua simpatia também não está conseguindo recuperar o Ibope pedido no programa anterior, que só vai respirar um pouco mais aliviada quando entra o telejornal local. Encravado entre uma e outra havia o Bem Estar, às vezes exagerado mas pontual, tinha foco, era bem feito. O programa foi transformado em um quadro do Encontro e nada mudou no quesito Ibope.  Se alguém achava que a encrenca nas manhãs da Globo era o Bem Estar, se enganou. Essa curva matinal na audiência é um quebra-cabeça que, com certeza, a Globo deve estar preocupada e pensando em dar um jeito. Teriam as fórmulas se esgotado? Neste horário, ainda não há muito sangue e fofoca do outro lado. Não dá pra culpar a concorrência popularesca. Talvez os tempos tenham mudado mesmo. Com a vida apertada, quem ainda tem tempo de passar as manhãs na frente da televisão?

Toda vez que vemos essa curva no Ibope da emissora mais sintonizada do país, eles costumam reagir. Mas não está fácil. Talvez uma boa dose de criatividade esteja faltando no Projac. Tiraram o Video Show do início da tarde acreditando que o problema estava ali. Colocaram um tal de Se Segura, que está tendo grandes dificuldades de segurar o Ibope. Alguma coisa vai acontecer nas manhãs da Globo. Fique ligado. Ou não. 

[foto Reprodução TV Globo]

 

TOPA TUDO POR DINHEIRO

O merchandising existe não é de hoje. Talvez Nero, quando tacou fogo em Roma, estivesse com uma caixinha de fósforos Pinheiro nas mãos. A gente não pode confirmar porque não tinha câmera na época. Aquela maça que a Eva ofereceu ao Adão, talvez fosse uma Maçã da Mônica, quem sabe? Quando você vai ao cinema, quantas vezes você já não viu uma garrafa de Coca-Cola em cima da mesa, posicionada estrategicamente? Já vimos ator lendo a revista Elle, como já vimos a lua oval da Esso quando um galã para num posto de gasolina para abastecer o seu carro. Isso chama-se merchandising. Nas novelas da Globo sempre foi assim. Tanto é que no final, ao subir os créditos, podemos ver escrito o nome da Renault, do Boticário, do Itaú. Mas, de uns tempos para cá, o anúncio deixou de ser sutil e escancarou, mostrou sua cara dentro da novela. É como você estar assistindo a um filme no cinema e, de repente, o ator aparece tomando uma Skol e, além de elogiar a cerveja, entra um anúncio dentro do filme. No episódio de ontem de Amor de Mãe, o ator saiu da novela e como em Rosa Púrpura do Cairo, entrou dentro da propaganda da Tim que, na cara de pau, deram um jeito de encaixar no script. Um afronta ao telespectador. Televisão vive de propaganda, mas as propagandas deveriam estar apenas nos breaks comerciais e não dentro de uma obra de arte. Nesses tempos bicudos, sabemos que a televisão está topando tudo por dinheiro, até mesmo uma propaganda dentro de uma novela ou de um humorístico chamado Zorra. Não se espante se você sintonizar no Jornal Nacional dia desses e encontrar o Bonner com uma latinha laranja de Fanta em cima da bancada.

[foto de uma cena da novela Amor de Mãe/TV Globo]

QUE VAZAMENTOS?

Os brasileiros que acompanham o noticiário apenas pelo Jornal Nacional (sim, eles existem), devem estar perplexos se perguntando: “Mas que diabo de vazamentos são esses?”. O mais importante e mais sintonizado dos telejornais brasileiros, só fala em Intercept Brasil, quando o assunto é polícia. Já foram divulgados mais de oitenta vazamentos – conversas atravessadas entre procuradores e juízes da Lava Jato – e o Jornal Nacional costuma passar batido. Aqueles brasileiros sintonizados nas redes sociais, na Folha, na Veja, no El País, no Buzzfeld, no programa do jornalista Reinaldo Azevedo, no Pública, nos blogs independentes, esses sim, estão sabendo tudo sobre o conteúdo dos vazamentos. Ontem, quando o Ministério Público decidiu começar uma perseguição a Glenn Greenwald, o jornalista foi parar na escalada do telejornal. Mas quando ele divulgou a fala do então juiz Sergio Moro afirmando “In Fux we trust”, por exemplo, o JN passou em branco. Ao falar de Intercept, citando apenas que “divulgou conversas”, é o mesmo que falar, falar, falar de um jogo de futebol e não dar o resultado final. É uma espécie de Piu Piu sem Frajola, Claudinho sem Bochecha, Romeu sem Julieta. Mais confuso ainda deve ter ficado o telespectador quando, no final da reportagem, vieram enxurradas de protestos de entidades contra a decisão de denunciar Greenwald. “Como assim?” devem ter perguntado a seus botões, o telespectador-JN. “Como assim protestar contra o denunciamento desse ‘bandido’ chamado Glenn Greenwald? Vocês não acabaram de dizer que ele cometeu um ato criminoso?”  

[foto Reprodução TV Globo]

SÓ 10% É ENGRAÇADO

A TV Globo estreou na noite desta terça-feira (21), o seu novo programa humorístico chamado Fora de Hora. A fórmula não é nova. Na Europa, é muito comum esse tipo de humor que transforma a notícia em piada. Aqui no Brasil, essa fórmula já foi explorada pelo Casal Telejornal, no programa TV Pirata, nos anos 1980, um quadro razoavelmente engraçado. Mais recentemente surgiu o GregNews no HBO Brasil, um “telejornal” apresentado por Gregório Duvivier, mais de 90% engraçado e sobretudo, inteligente. Fora de Hora são notícias e mais notícias, umas atrás das outras, tudo muito rapidinho e com pouquíssima graça. Estavam bem atuais, falando até de Roberto Alvim e seu discurso nazista. Mas faltou graça. Difícil dar uma risadinha, mesmo que amarela, com aquele desfile de piadas bobas. Noventa por cento do tempo, ficamos meio constrangidos, procurando a graça, achando que ela viria. E o programa acabou, ainda bem que rapidinho. A sátira aos repórteres foi o que valeu, os atores representaram bem os jornalistas e seus cacoetes. Teve graça quando o apresentador chamou a repórter no helicóptero e perguntou: “Como está o trânsito por ai?” E ela respondeu simplesmente: “Uma bosta!” Isso mesmo, uma bosta! O Fora de Hora é tão engraçado quanto o Jornal Nacional.

[foto Reprodução TV Globo]

RODAS VIVAS

Na noite de segunda-feira (20), o programa Roda Viva, da TV Cultura, estreou sua nova âncora, a jornalista Vera Magalhães, entrevistando o ministro sabonete da Justiça Sergio Moro. Sabonete porque passou todo o tempo do programa escorregando daqui e dali. O Roda Viva tinha tudo para ser um programa chapa branca, composto por uma bancada da grande imprensa e um representando da ultra-direita, o jornalista que tem nome de colírio: Felipe Moura Brasil. A esperança estava em Malu Gaspar, repórter da revista Piauí. Mas, uma semana anos da estreia, surgiu um fato novo que bombou nas redes sociais. Inconformada com o fato de não ter sido convidada para a festa, a turma do site The Intercept Brasil (que vazou as conversas de Moro, deixando clara sua parcialidade na Lava Jato) resolveu colocar, via Youtube, sua participação no programa, comentando as falas do ministro e as perguntas dos jornalistas. Isso foi o sinal de alerta para toda a bancada que se preparava para entrevistar o ministro sabonete. Ficou claro ao ver o programa ontem, que nenhum deles estava ali disposto a passar por jornalista chapa branca. Moura Brasil não conta, faz um jornalismo que não merece ser comentado. Com isso, perguntaram sobre quase tudo: o perdão a Onyx que usou caixa 2, o silêncio em torno dos ministros acusados de corrupção, os ataques do presidente aos jornalistas, o discurso nazista do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvin, o convite à namoradinha do Brasil para assumir a pasta, os vazamentos da Intercept, Marielle, laranjas, essas trapalhadas todas do governo de direita de Jair Bolsonaro, no poder desde janeiro do ano passado. Moro fingiu responder tudo, argumentando que nenhum desses assuntos era escândalo. Pelo contrário, tudo resolvido ou resolvendo. Quando os entrevistadores colocavam o dedo na ferida, ele saia com frases do tipo “não estou aqui para falar em nome do presidente” ou “eu não sou comentarista político”. Do outro lado, quem estava sintonizado ao mesmo tempo no Youtube, no programa do Intercept, via uma espécie de Roda Viva em Debate, mesmo que um pouco confuso, podia quase participar os comentários, os mesmos que fizemos em casa. Eles iam pontuando o que os jornalistas deixavam de perguntar, ou replicar, e o que Moro deixou de responder. Enquanto na tela da TV Cultura, víamos passar tarjas sempre elogiosas a Moro, coisas do tipo “Moro é nosso herói”, “Moro 2022”, “Nosso futuro presidente”, do outro lado, no Youtube, uma saraivada de comentários do tipo “Fora marreco de Maringá”, “Moro ladrão”, “Moro bandido”, lutando contra os robôs que insistiam em chamar os jornalistas do Intercept de esquerdistas, comunistas e observações como “vocês se fuderam”. Enfim, o Roda Viva de ontem não foi o que imaginávamos, mas também não foi o que esperávamos. Assim que Vera Magalhães deu o seu boa noite, o pessoal do Intercept fez algumas perguntas que os jornalistas não fizeram, não quiseram fazer ou se esqueceram. Coisas do tipo: “por que o senhor não quis melindrar o ex-presidente FHC?” ou “o que o senhor quis dizer com a frase in Fui we trust?” Pena que Moro, nessa hora, já fora do ar, Moro devia estar nos bastidores da TV Cultura recebendo os cumprimentos dos jornalistas. 

Rodas Vivas: um apresentado pela TV Cultura, outro pelo Youtube.

[fotos Reprodução TV Cultura/Reprodução Youtube]

SOMOS TODOS CAMILA

Mesmo quem não gosta de novela, vale a pena prestar atenção em Jessica Ellen, a professora Camila de Amor de Mãe. Gostaria muito de saber como os noveleiros fanáticos estão enxergando a professora de esquerda, militante a favor da minoria. Camila chegou na escola pública de Amor de Mãe para causar. Politizou seus alunos e partiu pra luta. Ela vai passando ideias e ideais políticos a seus alunos de uma forma aberta e democrática. Para impedir que a escola seja demolida e que eles sejam transferidos para outras escolas, organizou uma ocupação que, na vida real, corria sério risco de dar errado. Mas, em Amor de Mãe, a política de esquerda prevaleceu. A princípio, os pais dos alunos e a mãe de Camila (Regina Casé, como Lurdes) foram contra, temendo a violência da polícia que é colocada de forma explícita na novela. Aos poucos, Camila vai conquistando corações e mentes. Com uma ordem de desocupação nas mãos, a polícia invade a escola, ameaça com violência e acaba recuando. Ao mesmo tempo, o entorno vai ficando do lado de Jessica e de seus alunos. Mantimentos, produtos de higiene, cobertores, colchões são levados para dentro do prédio, onde as aulas continuam, mesmo que improvisadas. De que lado estarão os noveleiros, acostumados a ver nos telejornais a polícia agindo e acabando com as ocupações na vida real, muitos deles considerando os ocupantes como baderneiros e desocupados? Como os noveleiros estão vendo a vitória da professora e seus alunos? Pode ser que nos próximos capítulos a escola venha abaixo, mas por enquanto dá gosto ver uma minoria vitoriosa. Acusam a autora da novela de ter idealizado o script mostrando uma escola de apenas uma professora, uma diretora e um professor de ecologia, militante. Perguntam onde estão as outras professoras, os outros professores da escola. Eu também pergunto. Queremos ver muitas Jessicas em Amor de Mãe. 

[foto Reprodução TV Globo]

Jessica em ação. Repare o que está escrito na lousa

PALHAÇADA

Repórteres inusitados, às vezes engraçados, às vezes exagerados, diferentes, inusitados, já tivemos. Nos anos 1980, Marcelo Tass fazia sucesso na pele de Ernesto Varella, um repórter capaz de acompanhar as eleições, perceber uma marca de batom no rosto de Paulo Maluf, virar pra ele e dizer: “Acho que alguma boca de urna beijou o senhor!” Indo não tão longe assim no tempo, tivemos os repórteres do extinto CQC que, inclusive, chegaram a receber tabefes dos entrevistados. Lucas Strabko, conhecido como Cartolouco, foi parar no Globo Esporte depois de algumas polêmicas no SportTV. A função dele ali é colocar um pouco de graça nas reportagens. De bermuda, cabelo oxigenado, rabo de cavalo, muita gritaria e um entusiasmo exagerado,  Lucas entra no ar sempre pra tentar animar a festa. Com uma lupa muito potente, às vezes conseguimos enxergar um pingo de graça propriamente dita, de humor. É capaz de entrar de surpresa num vestiário e mostrar a bunda de um jogador claro que, na Globo, devidamente desfocada. Berra, dança, torce e acha tudo muito engraçado, certamente bem mais do que os telespectadores. Com uma lupa na mão, na verdade, a gente sente uma certa preguiça. 

[foto Reprodução TV Globo]

RISONEWS

Ontem, o assunto aqui foi o tsunami de anônimos que corre o risco de tomar conta de novos programas em 2020, surfando na onda do Que história é essa, Porchat? do GNT. Lembramos que anônimos na TV já fizeram sucesso nos quadros Me Leva Brasil, de Mauricio Kubrusly, e Retrato Falado, de Denise Fraga, no início do século. Uma nova onda pode também tomar conta de sua telinha neste ano que inicia, a onda dos telejornais que misturam notícia com humor. E, mais uma vez, lembramos que num passado mais ou menos remoto, o formato foi um grande sucesso na TV Pirata, com o Casal Telejornal, uma sátira ao extinto casal 20 da televisão brasileira, William Bonner e Fátima Bernardes. Depois do sucesso do Greg News, exibido no HBO (atualmente de férias), vem ai o Fora de Hora, onde Paulo Vieira e Renata Gaspar vão apresentar um telejornal com a pretensão de ser engraçado. O programa, previsto para estrear no dia 21, vai tentar colocar humor nas notícias. Se forem notícias tiradas do nosso dia a dia, está fácil. Tudo que acontece no atual governo é engraçado, se não fosse trágico.

[foto Reprodução TV Globo]

QUE HISTÓRIA É ESSA?

Na primeira década depois do ano 2000, uma novidade chegou ao ar na televisão brasileira. Dois quadros no Fantástico foram lançados e viraram sucesso, ano após ano. Coincidentemente, ambos tinha como atração o brasileiro anônimo. Numa era de celebridades, numa época em que a revista Caras pesava quase um quilo e vendia como pãozinho quente, a atriz Denise Fraga estreou o seu Retrato Falado e o repórter Mauricio Kubrusly estreou o Me Leva Brasil. No Retrato Falado, Denise recontava histórias vividas e enviadas ainda por cartas manuscritas ao Fantástico, por pessoas absolutamente desconhecidas, comuns, espalhadas pela Brasil inteiro. Havia uma produção, uma checagem, uma encenação impecável e o que ia pro ar era teatro, era televisão, era quase reportagem, era humor, eram histórias brasileiras exemplares. A mesclagem de realidade (o personagem narrando a história) e Denise Fraga encenado, foi um sucesso que durou quase uma década no show da vida. No Me Leva Brasil, Kubrusly saia por esse país sem tamanho, recolhendo histórias reais e deixava que elas fossem contadas pelo próprio personagem. O repórter, durante mais de uma década andou por todos os estados brasileiros, muitos várias vezes. Foi inúmeras vezes aos estados nordestinos e a Minas Gerais, celeiro de personagens e histórias maravilhosas. Foi numa dessas viagens que encontrou o homem mais sovina do Planeta, aquele que comprava uma caixa de fósforos e dividia os palitos em dois para render o dobro, 90 palitos. Mas, de repente, foram as celebridades que tomaram conta da televisão. Na era do talk-show, lá estavam atores, cantores, economistas, quase só gente famosa. Lembro-me bem que quando surgia um anônimo no Programa do Jô, o sucesso era garantido e sempre ouvíamos aquele ohhhh… ao terminar a entrevista, com todos querendo mais. No final do ano passado, sentimos um certo cansaço de gente famosa e os anônimos começaram a voltar à telinha. Via Que história é essa, Porchat?, exibido pelo GNT, percebíamos que as histórias contadas por anônimos eram sempre as melhores. Porchat teve a ideia de mesclar celebridades e anônimos para dar um charme ao programa. Convida três celebridades pra narrar histórias vividas por eles, depois vai pra platéia ouvir as histórias dos anônimos. Agora, nesse início de 2020, anuncia-se que vem aí o novo programa da Angélica. Ela que durante muitos anos entrevistou apenas estrelas nas tardes de sábado, agora vai dar voz aos anônimos. Que bom. Será que voltou novamente a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor?

[foto Divulgação]   

BLÁ BLÁ BLÁ

De repente, a GloboNews transformou praticamente todos os seus repórteres em comentaristas. Tem funcionado assim: O fato existe, seja ele um desabamento no Rio, uma enchente em Minas ou um decreto em Brasília. A apresentadora chama o repórter Fulano de Tal, “que tem mais informações”. O repórter entra, sempre no local do fato e começa a narrar o que aconteceu, ali, de pé, sem dar um passo. Quando ainda não tem as imagens, ele fala durante longos minutos, meio contando o que aconteceu, meio comentando o que aconteceu. Reportagem mesmo, zero. Assistindo o canal durante uma tarde inteira, observa-se que as notícias são as mesmas, entra jornal, sai jornal. Só as apresentadoras é que vão mudando. O repórter-comentarista vai se abastecendo de informações e, como um repórter de rádio, vai contando as novidades. “A prefeitura disse”, “o governo estadual argumentou”, “o Palácio do Planalto divulgou…” e por ai vai. A apresentadora quer sempre saber um pouco mais e faz novas perguntas, previamente combinadas, que são respondidas pelo repórter-comentarista, com uma resposta na ponta da língua. O que mais se ouve na GloboNews é um tal de “tudo pode acontecer”. O dólar vai subir? “Tudo pode acontecer”. “Pode haver novos deslizamentos de terra?” “Tudo pode acontecer”. No final da tarde, uma conclusão: A GloboNews tem uma enorme equipe de “papais-sabem-tudo”. Comentam todos os assuntos possíveis e imagináveis: a realeza inglesa, um ataque de um míssil, um temporal, um assassinato, um acidente, um decreto, tudo chega ao telespectador em forma de comentário, ao invés de reportagem. E a âncora, geralmente fecha  com um “que tristeza, não é mesmo?” Sim, uma tristeza esse jornalismo blá blá blá.

[foto Reprodução GloboNews]

BOLA FORA

Todos sabemos que nessa entresafra sem jogos, não deve ser fácil colocar no ar, todos os dias, um telejornal de esportes. O pessoal do Globo Esporte, exibido diariamente pela TV Globo na hora do almoço, se esforça. Inventa pautas, cria sérias, faz das tripas coração para preencher os minutos reservados a atração. Até vestir jogador de Papai Noel já vestiram. Na edição desta segunda-feira (6), o pessoal da pauta do GE foi além e colocou no ar uma das matérias mais patéticas da história do GE. Inventaram uma série chamada “Caios na Cozinha”, que reúne o comentarista Caio Ribeiro e o jornalista Caio Maciel. Depois de anunciar a série, o que vimos foram dois perdidos numa cozinha, vestidos com aventais do programa e que estavam ali para preparar o “bolo do São Paulo Futebol Clube”. Quem teve a ideia da pauta, não escreveu o script e os dois, perdidos na selva, inventaram qualquer coisa, sem sequer uma pitada de graça. Tinham como ingredientes, leite, farinha e ovos. Num texto completamente sem nexo, iam colocando numa vasilha os ingredientes e tentando mostrar que estavam fazendo um “bolo do São Paulo para 2020”. Em pouquíssimos minutos, a gororoba ficou pronta, um líquido que foi despejado numa forma e que foi direto pro forno. Pronto, assim que fecharam a porta do forno, a matéria simplesmente acabou. Voltou para o apresentador que disse: “É, não sei se esse bolo vai dar certo”. Anunciaram que pra hoje, terça, que terão uma nova receita, para um outro time. Pobres “chefs”. A pergunta que fica no ar: Será que alguém achou aquilo que foi exibido ontem engraçado, divertido, diferente, ou sei lá o quê?

[foto Reprodução TV Globo]

QUE BICHO SOMOS NÓS?

Muito antes de vencer as eleições presidenciais de 2018, o capitão Jair Bolsonaro já havia deixado bem claro o ódio que tem de jornalistas, na verdade, de qualquer coisa escrita. Quem não se lembra dele com um celular nas mãos no jardim do seu condomínio na Barra, gritando para os seus fanáticos seguidores na Avenida Paulista que queria “um Brasil sem Folha de S.Paulo?” Nesse um ano e pouquinho de governo, o capitão só pisou em jornalistas e em seus produtos. Numa madrugada, já foi pra frente das câmeras do outro lado do mundo para, irado, dizer inúmeras vezes que os jornalistas da Globo eram canalhas. “Canalhas!”, gritava ele com gosto. Globo e Folha são os seus alvos preferidos e os dois, respondem – quando respondem – pisando em ovos, educadamente, ao invés de entrar com um processo. Bolsonaro é caso de Justiça, ou melhor, de polícia. Ontem, mais uma vez, voltou ao ataque, ao dizer que “jornalista é uma espécie em extinção e quem deveria cuidar deles é o Ibama”. Simplificando: chamou os jornalistas de animais e a edição da Folha desta terça-feira (7) informa apenas que ele nos chamou de animais. Assim, bonitinho. O capitão que prefere gravuras em livros ao invés de palavras, parece estar com a corda toda. Sabe que tem nas mãos uma polpuda verba de publicidade e que os jornais precisam dela. Age como o dono da bola. “Se vocês não se comportarem, não tem jogo”. Está na hora de virar esse jogo, não acham?

[foto Reprodução Internet]

PEGOU MAL

O fotógrafo luso-espanhol brasileiro Antonio Guerreiro, morreu aos 72 anos no finalzinho do ano que terminou. O Jornal Hoje, da Rede Globo, noticiou sua morte, deu até mesmo um grande destaque para um dos maiores fotógrafos de artistas que o país já teve. No entanto, inexplicavelmente, mostrou no ar duas fotos de Guerreiro ao lado de pessoas que simplesmente tiveram o rosto desfocado. Explica-se: No mundo em que vivemos, expor o rosto de uma pessoa sem autorização pode dar processo e caro. Lógico que foi por isso que o JH escondeu (duas vezes) quem estava ao lado de Guerreiro nas fotos. 

Costuma-se esconder o rosto de alguém em uma foto por dois motivos. Primeiro, a pessoa não pode ser exposta sem autorização, como disse anteriormente. E, segundo, para dar destaque a pessoa noticiada, em questão, o fotógrafo Antonio Guerreiro. Principalmente por se tratar de um fotógrafo, o JH poderia ter optado por dar a foto dele sozinho, como fez no final da matéria. Fotos boas de Antonio Guerreiro é o que não falta. 

Apenas um pequeno detalhe para finalizar: Antonio (no caso do luso-espanhol brasileiro) não tem acento.

[fotos Reprodução TV Globo]

OITO OU OITENTA

A cultura é tratada nos produtos Globo como se fosse oito ou oitenta. Quem bateu os olhos na edição desta terça-feira (17) do jornal O Globo deve ter se surpreendido com o espaço dado pelo jornal carioca à recuperação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, depois da sua destruição por um incêndio, em 2015. Além da chamada na primeira página, a reinauguração do museu, programada para junho do ano que vem, ganhou a capa do Segundo Caderno. Ao ler, você descobre que tem a participação da Fundação Roberto Marinho na jogada. Até aí, tudo bem. Sabemos que a organização tem papel fundamental em recuperações de monumentos históricos pelo país afora. O que chamamos aqui é o tratamento dado à cultura em nosso país pelas organizações Globo.. Seguramente, a reinauguração em junho de 2020 vai ganhar uma cobertura exaustiva dos produtos Globo. Teremos notícias no jornal local, em todos os telejornais da casa, além dos programas da Annamaria Braga, da Fátima Bernardes, do Pedro Bial, do Serginho Groismann. Na Globo, a Cultura funciona assim: Oitenta para eventos da casa, oito para o resto. Quando não é zero para os outros. No jargão jornalístico, chamamos isso de “matéria rec”, traduzindo, “matéria recomendada, obrigatória, da casa”. Não deveria ser assim. Eventos importantes em nosso país, muitas vezes passam em branco nos telejornais, jornais e programas da casa. Simplesmente porque não são matérias “rec”.

[foto Reprodução]

TRÊS TRISTES PITACOS

O primeiro é ler com perplexidade que na pesquisa realizada pelo site de notícias UOL para escolher o “Melhor de 2019” está, entre os quatro concorrentes, o programa “Silvio Santos e o concurso Miss Infantil, que foi ao ar no inacreditável SBT. Deveria estar concorrendo ao prêmio “Pior de 2019”.

Matéria sobre as calçadas de São Paulo exibida pela GloboNews mostrou tudo. Menos aquela palhaçada do então prefeito da cidade, João Doria que, no segundo dia de mandato, vestiu-se de pedreiro, pegou uma pá de cimento e consertou 1 metro quadrado de calçada, prometendo consertar todas até o final do mandato. Ficou apenas dois anos para se candidatar a governador e não se falou mais nisso. A TV anda sem memória.

A cada dia vamos assistindo a TV Globo se desmilinguido . A lista de demitidos já é enorme e vai continuar aumentando. Ontem foi a vez de Lair Rennó, na emissora há vinte anos e, desde 2012, parceiro de Fátima Bernardes no seu Encontro. Se a desculpa de outros demitidos da lista é a idade, como explicar a demissão de Rennó? Todos sabem que o problema não é a idade, é o salário. A fila de pessoas dispostas a trabalhar por um salário mínimo na Globo é grande. E anda.

TRAGÉDIA NACIONAL

É triste, mas é verdade. Todo editor-chefe de telejornal sabe que basta mandar um repórter pra rua que ele sempre traz matéria. É só mandar a equipe para registrar buracos nas estradas, aumento de preços e o caos nos postos de saúde. Nesta terça-feira (10), foi diferente. O repórter do Jornal Nacional foi escalado para um factual, a greve dos servidores públicos da saúde no Rio de Janeiro, que simplesmente pararam de receber seus salários no final de cada mês. Mais do que justo abrir o maior telejornal do país com um assunto tão quente, tão dramático. Há décadas, a televisão mostra a tragédia da nossa saúde. As imagens, geralmente feitas às escondidas, mostram doentes espalhados por macas nos corredores, gente reclamando que não tem médico, que não tem esparadrapo, não tem comprimido. Doente grave dizendo que a próxima consulta foi marcada pro ano que vem, uma tristeza só. O que perguntamos aqui hoje é o que todos perguntam quase todos os dias  nos telejornais: Até quando? Enquanto o governo desconfia que a terra não é redonda, nós desconfiamos que o Brasil não tem mesmo remédio. 

[foto Reprodução TV Globo]