SAIA JUSTA

Véspera de carnaval, vamos falar hoje de moda, assunto que este blog não domina, apenas admira. Vocês já perceberam que chegou ao camarim da GloboNews um carregamento de saias justas, de comprimento de mais de um palmo abaixo do joelho, vários modelos, cores e estampas? O curioso é que todas as apresentadoras começam a usar, de repente, como se a moda tivesse caído do céu. Nada contra, o blog particularmente não gosta, mas isso é questão de gosto. Dizem que é moda. Talvez seja. Deixa pra lá.

[foto Reprodução]

MORTE AO VIVO

Não costumamos fazer comentários sobre os programas policialescos na TV por aqui porque não costumamos mexer em lixo. Mas hoje vamos falar de um dessas aberrações: Cidade Alerta, apresentado pela Record, e seu animador, Luiz Bacci, aquele que anunciou, ao vivo, para a mãe da jovem Marcela, 21 anos, o seu assassinato. “A senhora quer mesmo saber as novidades?” perguntou o idiota à mãe de Marcela que, totalmente desorientada, disse sim, com um fio de esperança de que fosse uma notícia boa. Não, o cretino disse que a jovem havia sido assassinada pelo namorado. Vamos cortar por aqui porque não é preciso dizer mais nada. É preciso dizer apenas que esses Baccis, esses Datenas da vida, servem apenas para brutalizar e embrutecer esse país que já tem uma besta quadrada como ministro da Educação. O único conselho que VillasNews dá é que você passe longe desses programas que infestam a televisão brasileira. Não dê nem uma paradinha de um minuto porque registra audiência. O objetivo é que eles cheguem ao traço no Ibope e deapareçam da nossa frente.

[foto Reprodução Record TV] 

EGONEWS

Não existe no mundo um canal de televisão que prestigia mais o seu elenco do que a GloboNews. A cada intervalo, seus apresentadores aparecem em closes que mais parecem atores e atrizes. Posados, com olhares penetrantes para o telespectadores. Chamadas são produzidas com cada um deles, às vezes desde o café da manhã em casa, depois a leitura dos jornais, o caminho pra firma e, enfim, a mão na massa, o trabalho. A emissora a cabo da Globo quer mostrar que quem trabalha ali, além de vestir a camisa, é gente como a gente. Criaram uma propaganda em que geralmente é a mãe do apresentador que aparece, sentada num sofá, dizendo que seu pimpolho é jornalista desde criancinha, que desde pequenininho, já pegava aquele papelão que vem no miolo do papel toalha e fazia de microfone. Aos poucos, o clima vai envolvendo o telespectador mais assíduo que se pergunta: “será a mãe de quem?”. Ai o repórter surge ao lado da mãe e ambos deixam alguns lágrimas escorrer, quase sempre. Fortes emoções, como diria o rei. Jornalista da GloboNews mostra que não foge à luta. Aparecem na tela ao vivo assim que o sol raia, no jornal do Burnier. Depois lá estão os mesmos nos telejornais que entram a seguir, de hora em hora, aparecem ao vivo no Estúdio I, voltam no Jornal das 16, das 18 e se bobear estarão no Jornal das Dez (da noite) ainda entusiasmados de estar trabalhando aquela hora da noite. Mas o mais curioso de tudo é que a GN que dar a eles um ar de âncora, de jornalismo que dá furo a todo momento. Na quarta-feira (12/02), por exemplo, uma machete que surgiu em todos os sites de notícias no meio da tarde, anunciando a fritura do chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, estava no início da noite como se fosse a sempre presente Andréia Sadi a dona da notícia. O nome do repórter agora vem sempre antes da notícia. Na GloboNews, literalmente, o repórter virou manchete. 

[foto Reprodução GloboNews]

SE JOGA FORA NO LIXO!

O programa Se Joga, apresentado de segunda a sexta logo depois do Jornal Hoje na TV Globo, é todo errado, desde pequenininho. Depois de ver o Vídeo Show ir despencando no Ibope, ano após ano, a emissora custou, mas acabou substituindo a atração que mostrava basicamente os bastidores do Projac, por um produto muito pior. Apresentado pela competente Fernanda Gentil, Fabiana Karla e Érico Brás, o Se Joga começa a ser chamado de “novo Vídeo Show”, só que pior. Aconteça o que acontecer no Brasil e no mundo, os três apresentadores surgem no intervalo comercial do JH para anunciar as atrações do dia, numa euforia, numa alegria, num entusiasmo contrastante com as notícias do coronavírus, das enchentes em Minas e em São Paulo, das balas perdidas, das cabeçadas do desgoverno. Para Fernanda, Fabiana e Érico não tem dia ruim. Clima de férias e festa, sempre! O Se Joga é um fiasco também de Ibope. Para se ter uma ideia, uma em cada três telespectadores que estavam assistindo o JH, caem fora assim que começa a subir os créditos do telejornal apresentado por Maju Coutinho. Ninguém quer nem ver a cara dos três. O programa já nasceu errado, torto, sem graça querendo ser engraçado. A Globo não é de dar o braço a torcer e não vai tirar do ar da noite pro dia, um programa que não deu certo. Sabemos que vai tentar salvar o barco que está afundando. Dani Calabresa, aquela que postou nas redes sociais que não vê a hora de Tiago Leifert dizer que ela está fora da casa, foi mais uma tentativa. Foram transformando o Vídeo Show até ele virar um Frankstein e sair do ar, depois de décadas. Vai acontecer o mesmo com o Se Joga. A diferença é que vão anunciar que encerrou a primeira temporada do Se Joga, e não acabou de vez. Escuta só! Mas corre o risco de demorar ainda um pouco porque, como disse, a Globo não é muito de reconhecer o erro, de dar o braço a torcer, de jogar suas idéias, mesmo que ruins, no lixo. 

[foto Reprodução]

VOZ ATIVA

Conheci o Doutor Drauzio Varella quando ele ainda não tinha a manha da televisão. Estreou no Fantástico no início dos anos 2000, como apresentador de uma série da BBC sobre o cérebro humano. Como o original inglês tinha um apresentador, tivemos a ideia de convidar um médico, o Doutor Drauzio para ser o nosso apresentador. Como já tínhamos visto sua performance num programa de entrevistas, achamos que seria a pessoa ideal. Ele chegou chegando. Sempre muito focado e disciplinado, queria aprender e aprendeu rápido. No switcher, logo nos primeiros programas, acompanhando a maquininha que registra o Ibope minuto a minuto, vi seu quadro entrar no ar e pular de 35 para 48 pontos, um fato que nos assustava e enchia de alegria. De apresentador de série da BBC, ele saltou rapidamente para suas próprias séries. Uma sobre fumantes, depois uma sobre grávidas, primeiros socorros e nunca mais parou. Drauzio começou a escrever livros e estreou na Companhia das Letras com um best-seller sobre sua experiência no Carandiru, que acabou virando filme de sucesso. De tempos em tempos encontro com ele. Seja no seu consultório, em lançamentos de livros, nas bienais. Na noite de segunda-feira, lá estava ele no centro da roda viva, no programa de entrevista mais antigo da televisão. O oncologista é uma estrela, com um pensamento sólido, concatenado, ideias sempre brilhantes, O Doutor Drauzio ali sentado, poderia ficar umas 12 horas contando suas experiências, seu conhecimento, explanando suas ideias sem cansar ninguém. O Roda Viva desta segunda-feira lavou a alma. E provou que a televisão pode ser uma atração que nos deixa com os olhos grudados na telinha e com um programa bom, com conteúdo. Queremos mais Drauzios no centro do Roda Viva e menos Moros, menos gente fingindo que não é candidato, menos sabonetes. 

[foto Reprodução TV Cultura]

SORRISO AMARELO

Esperei mais dois programas Fora de Hora para tentar encontrar a graça. E não encontrei. No terceiro, que foi ao ar no final da noite de terça-feira (4), o sorriso amarelo permaneceu durante todo o programa, curto, ainda bem. No máximo, dois esboços de graça. Quando entrou sátira de música e no quadro Notícias Tristes da semana, uma especie de saraivada de manchetes que lembram o site Sensacionalista. E olhe lá. Até Marcelo Adnet imitando o presidente da República pediu a graça. O presidente anda mais hilário, mais bizarro que o seu imitador. O programa constrange quem está esperando dar boas risadas pelas palhaçadas ou rir contido pela inteligência do humor. O telejornal que se propõe escrachar com as notícias reais de um país da piada pronta não tem graça. Talvez as notícias que estão nas páginas dos jornais de papel sejam mais engraçadas do que as apresentadas no humorístico. Fora de Hora passa rápido e é tão sem graça que a gente fica torcendo pra acabar logo pra acabar com o constrangimento. Não pegou, mas, na Globo, vai em frente. Tipo Se Joga.

(foto Reprodução TV Globo] 

PÉ COM BUNDA

Pedro Bial, 62 anos, trabalha na Rede Globo de Televisão desde 1981. Segundo o verbete livre da Wikipédia, Bial é apresentador de televisão, jornalista, escritor, cineasta e poeta. Na firma onde trabalha, já foi correspondente em Londres, já cobriu a Guerra do Golfo, já viu o muro de Berlim ruir, já fez reportagens para praticamente todos os telejornais da casa. Depois, ele apresentou o Fantástico durante quase uma década. Na juventude, na era do mimeógrafo,  foi poeta e participou de um grupo chamado Os Camaleões. Durante muitos anos, foi o apresentador do reality-show Big Brother Brasil, conhecido hoje como BBB, colocou no ar um programa chamado Na Moral e, finalmente ganhou o seu talk-show Conversa com Bial, sua atual atividade. Nesse intervalo dirigiu o filme O Filho do Holocausto, sobre Jorge Mautner. Um dia, nos bastidores do Fantástico, Bial comentou uma matéria sobre balé que estava sendo editada, com uma frase infeliz: “Balé é coisa de veado”. O áudio vazou e os milhões de telespectadores ouviram Bial dizer aquilo. Uns nem perceberam, outros ficaram chocados. O assunto correu de boca em boca e desapareceu no ar. Ainda não haviam redes sociais para multiplicar a gafe por milhões. Hoje, a história é diferente. Ao dar uma entrevista para a Rádio Gaúcha, Bial resolveu soltar os cachorros em cima do filme Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que está concorrendo ao Oscar de melhor documentário no próximo domingo. Disse que o documentário é horrível, que tem uma narração feita por uma gata miando e o que é mais sério: Democracia em Vertigem, feito com imagens originais para um documentário, na opinião de Bial, é um filme de ficção. “Um pé com bunda danado”, disse ele aos ouvintes da Gaúcha. Bastou a entrevista ir ao ar, as palavras de Bial já estavam se multiplicando pelas redes sociais feito coronavírus. Tentei furar a bolha e cacei todo tipo de comentário sobre a fala de Bial. E, por enquanto, só encontrei uma pessoa que pensa como ele, além de Jair Bolsonaro, o primeiro a dizer que Democracia em Vertigem é ficção: o extinto jornalista Augusto Nunes numa rádio de extrema-direita chamada Jovem Pan. Os tempos de redes sociais são muito diferentes dos tempos do mimeógrafo. 

[foto Internet/com intervenção do VillasNews]  

BUNDÕES

Em busca de publicidade para o programa de um apresentador de extrema-direita, o SBT apelou. Sem citar o nome de Danilo Gentili, a emissora de Silvio Santos usou a palavra bundão em uma propaganda, uma referência ao seu funcionário que apresenta um talo-show nos finais de noite. O que ainda não sabemos é se a propaganda é uma série. Bem que poderia ser. O próximo bundão, por exemplo, poderia ser o apresentador Ratinho, o lambe-botas do governo Bolsonaro. 

[foto Reprodução]

O SONHO ACABOU

Que sonho? O sonho de ter uma profissão, aquele sonho que desperta na juventude e a pessoa vai em frente. Estuda, fez vestibular, faz estágio, se forma e consegue um emprego. 

A Sandra faz brigadeiros, mas a profissão dela é advogada.

A Eunice faz bolos, mas a profissão dela é jornalista.

O Eduardo é motorista de Uber, mas a profissão dele é professor.

A Madalena faz cestas de café da manhã, mas a profissão dela é farmacêutica.

A televisão nos mostra todos os dias casos assim, como se fossem novos empreendedores, considerados empregados pelas pesquisas do IBGE.

Será que a farmacêutica Madalena descobriu, de repente sua nova profissão, a de fazer cestas de café da manhã?

E o Eduardo? Cansou de dar aulas e sacou que o que gosta mesmo de fazer na vida é viver engarrafado no trânsito de São Paulo?

Mudar de profissão não tem nada de anormal, é muito comum. Mas no Brasil de hoje, o que está acontecendo é que, depois de passar dois anos desempregada, uma jornalista passe a fazer bolos. Depois de cinco anos enviando currículos, a secretária bilingue passe a vender roupas do Paraguai. Fazer bolo é uma profissão, além de prazeiroso. Mas a jornalista, queria mesmo mudar de profissão? Ser comerciante é digno como qualquer profissão, mas será que a secretária bilingue está vendendo roupas do Paraguai porque ama fazer isso, mais do que ser secretária bilingue?

A televisão tenta esconder esse lado e rotulou a todos de novos empreendedores. E assim essas pessoas vão seguindo a vida. Fazendo casinhas de Pet, vendendo capinhas de celular, entregando quentinhas em domicílio, fazendo coxinhas para vender na firma onde trabalhava como auxiliar de almoxarife, fazendo um biquinho aqui, outro ali. 

São brasileiros que trabalham duro, às vezes sete dias por semana. Não têm férias, não tem plano de saúde, vale-refeição, vale-transporte, décimo-terceiro salário, horas-extras, crachá, não pagem INSS,  nada disso. Mas estão contribuindo para que os jornais estampem na manhã seguinte: “Desemprego cai em 2019”.

[foto Internet]  

 

 

LAVOISIER

A CNN Brasil vai mesmo entrar no ar no mês de março. Falta pouco e a expectativa é grande. Em vídeos curtos, a nova emissora solta nas redes sociais pílulas para entreter e emocionar os telespectadores, enquanto não começa a funcionar de verdade. Os funcionários da CNN Brasil parecem mais entusiasmados do que aqueles que trabalham na Globo e expressam isso no ar. Só faltam dizer “gente, eu estou na CNN Brasil e aqui parece melhor do que estar na Globo!” Alguns são apresentados à redação que os recebe com flores e aplausos de pé. Todos eles têm funcionado como garotos e garotas propagandas do novo canal. Tudo parece melhor: o local de trabalho, na Avenida Paulista, coração de São Paulo, os estúdios, os testes de voz, de camarim, os óculos que combinam com cada rosto, tudo parece ser mais que perfeito na CNN Brasil. Deixam a impressão de que tudo vai ser novo e interessante. Diferente de tudo que está aí. The best!!! Ontem, mostraram o logo de um de seus programas, o Live CNN Brasil. Numa pesquisa rápida, encontramos não vários logos parecidos, mas aquela chavezinha indicando conversa que não é novidade. Em quinze minutos de Google, encontramos mais de meia dúzia delas em outros logotipos, inclusive na concorrente. Aguardemos as novidades de verdade no programa Live CNN Brasil. 

[montagem VILLASNEWS]

BALAIO DE GATOS

Assistindo durante uma semana ao programa Estúdio i, apresentado de segunda a sexta na GloboNews, você chega à conclusão de que ficou sabendo um pouco sobre tudo, um nada sobre pouco ou um muito sobre nada. Apresentado pela animadíssima Maria Beltrão, Estúdio i, mistura jornalismo com entretenimento e com muitos pitacos de uma mesa que costuma variar diariamente. A bancada sabe tudo sobre tudo ou, pelo menos, dá pitaco sobre tudo. O assunto é jogado no ar e você passa metade da tarde ouvindo o que os comentaristas acham sobre as enchentes em Minas, o coronavírus se espalhando pelo mundo, o Brexit, os indicados ao Oscar ou, quem sabe, sobre a capivara que invadiu uma loja em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo. Todos opinam sobre tudo. O programa, não sei se revista, telejornal, mesa redonda de debates ou revista, às vezes é interrompido pelo voto de um juiz, pela coletiva do ministro da saúde ou uma votação na Câmara. Ou, quem sabe, por um factual, um incêndio, um assalto a ônibus no Rio. Corre o risco de uma sonolenta coletiva ocupar todo o tempo do programa, numa boa, sem problema. Dá uma certa aflição passar mais de duas horas, todo dia, ouvindo o que os integrantes da mesa acham sobre tudo e também o que os telespectadores, em forma de msg, pensam. A porção jornalismo geralmente entra no formato repórter-comentarista, que já foi falado aqui. O comentarista Valdo Cruz surge várias vezes no programa para comentar um pouco sobre tudo que se passa em Brasília. Muitas vezes o seu comentário é do tipo previsão: “tudo pode acontecer”. O lado pessoal de cada um que passa a tarde ali com o telespectador também é o forte do programa. Todo mundo tem um caso particular para contar ou, se não conta, a apresentadora pergunta: Você gosta de lasanha, Xexeo? E assim caminha o programa até que Beltrão anuncia que está chegando a hora de se despedir, como um lamento. O nome do programa? Talvez chame Estúdio i, i de impressionante!

[foto Reprodução GloboNews]

FALA, CASÃO!

A presença do ex-jogador Walter Casagrande, o Casão, no Globo Esporte, apresentado de segunda a sábado na hora dos almoço, na Globo, é sempre curiosa, aberta, séria e às vezes divertida. Casão, sempre de preto, muitas vezes de óculos escuros e tênis All Star é uma figura bem anti-Global. Cabeludo, meio despenteado, ele marca uma boa presença no programa. Simpática e pontual. Na edição do GE na terça-feira, dia 28, parece não ter chamado muito a atenção das pessoas, talvez pela dinâmica do programa. No intervalo comercial, o jornalista Marcio Gomes, que substitui Maju Coutinho – emprestada ao Fantástico – apareceu para adiantar o que seria apresentado no JH. Chamou pra mais uma criança atingida por bala perdida no Rio enquanto jogava uma pelada com o pai na comunidade, e chamou também a tragédia das chuvas em Minas Gerais, as mortes e as pessoas sem casa, levadas pelas águas. Casão ficou com aquilo na cabeça e logo depois da primeira matéria apresentada pelo GE, ele desabafou, dizendo que estava preocupado é com aquela criança atingida por mais uma bala perdida e as pessoas que morreram ou estão sem casa em Minas Gerias, “conforme o Jornal Hoje vai mostrar daqui a pouco”. O seu companheiro de palco, meio sem saber o que dizer, falou apenas uma palavra: “beleza”, não que achasse aquilo bonito, mas por ter sido pego de surpresa. Fica aqui esse registro. 

[foto Reprodução TV Globo]

E EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Não estou aqui para defender Bruno Covas, o prefeito de São Paulo. Estou aqui apenas para fazer algumas observações sobre o programa Roda Viva apresentado pela TV Cultura na noite de segunda-feira, dia 27. Bruno Covas passou recentemente pela sétima sessão de quimioterapia, no combate que faz a um câncer e lá estava ele, no centro da roda viva, respondendo a cada pergunta de uma bancada composta exclusivamente por jornalistas. Preocupados com a repercussão nas redes sociais, eles tentavam fazer perguntas quentes ou embaraçosas, deixando claro que precisavam de uma manchete pra estampar no seu jornal e nenhuma crítica nas redes sociais. Quem vai ser o seu vice nas eleições de outubro? Estavam todos eles sedentos por uma resposta. Essa seria a manchete dos sonhos. Mas o problema maior não está ai. O programa Roda Viva monta, toda semana, uma bancada, quase sempre de jornalistas da chamada grande imprensa: Folha, Estadão, O Globo, Valor, Veja e Época. Na noite de segunda-feira, se o prefeito Bruno Covas invertesse o jogo e perguntasse a cada um dos entrevistadores, há quanto tempo não andam de ônibus, as respostas seriam constrangedoras. Eu, pessoalmente, conheço jornalistas que não entram num ônibus há mais de três décadas. Dai o desconhecimento. Sei perfeitamente que São Paulo tem mais de mil problemas de transporte urbano, mas eu pergunto: Será que os jornalistas sabem que uma boa parte da frota de São Paulo tem ar condicionado? Tem carregador para celular? Tem rampa para pessoas com dificuldade de locomoção? Que você pode carregar o seu bilhete único dentro do próprio ônibus? Que ele tem um dispositivo que impede andar com as portas abertas? Que o Jornal do Ônibus, colado no vidro, informa que estão sendo construídos inúmeros corredores de ônibus na cidade? E que, em breve, vai ser possível pagar a passagem com cartão de débito? Garanto que nenhum dos jornalistas ali presentes sabia disso. Eles só andam de automóvel. O Roda Viva peca ai. Quem deveria estar na bancada na noite de segunda-feira? Dou algumas dicas: um representante de moradores de bairro, um urbanista, um paisagista, um representante dos sem-teto, um motorista de ônibus, um gari, um estudante, um idoso, um representante de uma entidade que faz coleta seletiva de lixo, isso para citar alguns exemplos. Os jornalistas que estavam ali, com certeza, passam o dia na redação conversando ao telefone com suas fontes. Não colocam os pés na rua. Pelo menos foi o que pareceu. Repito: uma cidade como São Paulo, com seus milhões e milhões de moradores, tem milhões de problemas. Não é de hoje que o crescimento desordenado e caótico impera por aqui. A verdade é que Bruno Covas foi muito convincente em suas respostas. Não foi muito difícil. Além de insistir em quem será o seu vice, uma jornalista voltou ao assunto calçadas da cidade. Disse que não vê uma calçada sendo consertada. Para mostrar a ela, fotografei hoje cedo, terça-feira, dia 28, as calçadas que estão sendo arrumadas aqui na Lapa, onde moro. Começaram os trabalhos no sábado e a obra está a todo vapor. A Praça Cornélia, também aqui na Lapa, foi totalmente reformada, inclusive ganhando aparelhos de ginástica para a terceira idade. Resumo da ópera: Faltou no Roda Viva, gente que anda nas ruas da cidade. E sobraram jornalistas que vivem apenas nas redações.

As calçadas sendo consertadas na Rua Faustolo, na Lapa

A placa mostra que a obra é da prefeitura

[foto Bruno Covas/Reprodução TV Cultura]

[fotos obras/Alberto Villas]

ERRATA

Diferentemente do que foi publicado neste blog na semana passada, no texto “Direto de Chinatown!”, sobre o coronavírus, a repórter Carolina Cimenti, da GloboNews, disse que estava em Chinatown, bairro de Nova York, e fazendo o quê ali. 

[foto Reprodução TV Globo]

MULHER DE MALANDRO

Um relatório da Federação Nacional dos Jornalistas(FENAJ) divulgado recentemente, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro, em um ano e um mês de mandato, já desmoralizou, xingou, humilhou e chacoteou os jornalistas mais de cem vezes. Tudo isso, praticamente num só lugar: no gradil que cerca o Palácio da Alvorada, onde eles se apertam toda manhã, ao lado de fiéis seguidores do presidente de ultra-direita. Os jornalistas estão fazendo o papel daquela velha história, hoje quase proibida, da mulher de malandro. Que apanha, apanha, apanha do marido mas não o larga. Quando Bolsonaro disse que jornalista é uma raça em extinção, que jornalista mente, quando respondeu a um dizendo “é a sua mãe”, a outro que “você tem uma cara terrivelmente de gay”, era para os jornalistas ali presentes terem dado um basta e voltado para as redações, deixado aquele gradil para sempre. Mas não. Eles insistem. Mesmo com o presidente fazendo chacota dizendo que não ia mais dar entrevistas a eles ali, os funcionários da imprensa voltaram no dia seguinte, como carneirinhos. Todos sabem que aquela participação matinal do presidente ali é uma jogada de marketing. A bobagem que ele fala logo cedo repercute durante todo o dia. Se eles não aparecessem mais ali na porta do Alvorada, em protesto, aquele pitstop do presidente não duraria mais que uma semana. Mas ai, pobres jornalistas que cobrem o presidente, ficariam sem pauta. Vale lembrar aquele protestos dos repórteres fotográficos, no início do anos 1980, quando colocaram as suas máquinas no chão e não fotografaram o presidente João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, em protesto contra as agressões do presidente. O combinado é que apenas um registrasse a foto para a história. Parece que os jornalistas tinham mais peito na ditadura do que agora, nessa coisa que ninguém explica o que é. 

[fotos Internet]

DIRETO DE CHINATOWN!

É comum na Rede Globo, repórter cobrir eleições na Venezuela, de Buenos Aires, uma guerra no Oriente Médio, de Nova York ou uma visita do papa a Beirute, de Roma. Mas na tarde desta quinta-feira (23), vimos algo de inusitado na GloboNews, a emissora a cabo dos Marinho: a cobertura da tragédia do coronavírus, que começou na China, diretamente de Chinatown, o bairro chinês de Nova York! Não, a repórter da GloboNews não estava ai para contar histórias de chineses do bairro, talvez assustados com o vírus do outro lado do planeta, que já matou 17 pessoas e deixou centenas infectadas. Chinatown, na tarde de quinta-feira na GloboNews era apenas um cenário, com luminosos escritos em chinês ao fundo, com certeza para que o telespectador acreditasse que a repórter já estava em Wuhan, a cidade chinesa mais atingida pelo coronavírus. 

[foto Reprodução GloboNews]

A QUEDA

Alguma coisa acontece nas manhãs da TV Globo. A grade que existente já há alguns anos simplesmente não está funcionando. Todo dia, os dois programas encravados entre telejornais – Mais Você, com Ana Maria Braga e Encontro com Fátima Bernardes – caem no Ibope, que só vai se recuperar os índices quando saem do ar. São dois programas caros, com uma equipe grande, mas que parecem ter esgotado a fórmula. Ana Maria, o mais longevo, faz o que pode. Cria quadros de competições, leva famosos da Globo, faz doces e salgadinhos, mas o Ibope patina. Fátima e toda sua simpatia também não está conseguindo recuperar o Ibope pedido no programa anterior, que só vai respirar um pouco mais aliviada quando entra o telejornal local. Encravado entre uma e outra havia o Bem Estar, às vezes exagerado mas pontual, tinha foco, era bem feito. O programa foi transformado em um quadro do Encontro e nada mudou no quesito Ibope.  Se alguém achava que a encrenca nas manhãs da Globo era o Bem Estar, se enganou. Essa curva matinal na audiência é um quebra-cabeça que, com certeza, a Globo deve estar preocupada e pensando em dar um jeito. Teriam as fórmulas se esgotado? Neste horário, ainda não há muito sangue e fofoca do outro lado. Não dá pra culpar a concorrência popularesca. Talvez os tempos tenham mudado mesmo. Com a vida apertada, quem ainda tem tempo de passar as manhãs na frente da televisão?

Toda vez que vemos essa curva no Ibope da emissora mais sintonizada do país, eles costumam reagir. Mas não está fácil. Talvez uma boa dose de criatividade esteja faltando no Projac. Tiraram o Video Show do início da tarde acreditando que o problema estava ali. Colocaram um tal de Se Segura, que está tendo grandes dificuldades de segurar o Ibope. Alguma coisa vai acontecer nas manhãs da Globo. Fique ligado. Ou não. 

[foto Reprodução TV Globo]

 

TOPA TUDO POR DINHEIRO

O merchandising existe não é de hoje. Talvez Nero, quando tacou fogo em Roma, estivesse com uma caixinha de fósforos Pinheiro nas mãos. A gente não pode confirmar porque não tinha câmera na época. Aquela maça que a Eva ofereceu ao Adão, talvez fosse uma Maçã da Mônica, quem sabe? Quando você vai ao cinema, quantas vezes você já não viu uma garrafa de Coca-Cola em cima da mesa, posicionada estrategicamente? Já vimos ator lendo a revista Elle, como já vimos a lua oval da Esso quando um galã para num posto de gasolina para abastecer o seu carro. Isso chama-se merchandising. Nas novelas da Globo sempre foi assim. Tanto é que no final, ao subir os créditos, podemos ver escrito o nome da Renault, do Boticário, do Itaú. Mas, de uns tempos para cá, o anúncio deixou de ser sutil e escancarou, mostrou sua cara dentro da novela. É como você estar assistindo a um filme no cinema e, de repente, o ator aparece tomando uma Skol e, além de elogiar a cerveja, entra um anúncio dentro do filme. No episódio de ontem de Amor de Mãe, o ator saiu da novela e como em Rosa Púrpura do Cairo, entrou dentro da propaganda da Tim que, na cara de pau, deram um jeito de encaixar no script. Um afronta ao telespectador. Televisão vive de propaganda, mas as propagandas deveriam estar apenas nos breaks comerciais e não dentro de uma obra de arte. Nesses tempos bicudos, sabemos que a televisão está topando tudo por dinheiro, até mesmo uma propaganda dentro de uma novela ou de um humorístico chamado Zorra. Não se espante se você sintonizar no Jornal Nacional dia desses e encontrar o Bonner com uma latinha laranja de Fanta em cima da bancada.

[foto de uma cena da novela Amor de Mãe/TV Globo]

QUE VAZAMENTOS?

Os brasileiros que acompanham o noticiário apenas pelo Jornal Nacional (sim, eles existem), devem estar perplexos se perguntando: “Mas que diabo de vazamentos são esses?”. O mais importante e mais sintonizado dos telejornais brasileiros, só fala em Intercept Brasil, quando o assunto é polícia. Já foram divulgados mais de oitenta vazamentos – conversas atravessadas entre procuradores e juízes da Lava Jato – e o Jornal Nacional costuma passar batido. Aqueles brasileiros sintonizados nas redes sociais, na Folha, na Veja, no El País, no Buzzfeld, no programa do jornalista Reinaldo Azevedo, no Pública, nos blogs independentes, esses sim, estão sabendo tudo sobre o conteúdo dos vazamentos. Ontem, quando o Ministério Público decidiu começar uma perseguição a Glenn Greenwald, o jornalista foi parar na escalada do telejornal. Mas quando ele divulgou a fala do então juiz Sergio Moro afirmando “In Fux we trust”, por exemplo, o JN passou em branco. Ao falar de Intercept, citando apenas que “divulgou conversas”, é o mesmo que falar, falar, falar de um jogo de futebol e não dar o resultado final. É uma espécie de Piu Piu sem Frajola, Claudinho sem Bochecha, Romeu sem Julieta. Mais confuso ainda deve ter ficado o telespectador quando, no final da reportagem, vieram enxurradas de protestos de entidades contra a decisão de denunciar Greenwald. “Como assim?” devem ter perguntado a seus botões, o telespectador-JN. “Como assim protestar contra o denunciamento desse ‘bandido’ chamado Glenn Greenwald? Vocês não acabaram de dizer que ele cometeu um ato criminoso?”  

[foto Reprodução TV Globo]