A VIDA COMO ELA ERA

Com a chegada da pandemia, as grades de programação das televisões tiveram que dançar miudinho. Vamos falar da Globo. Alguns programas simplesmente desapareceram do ar, como o Se Joga (ainda bem) e obrigando-os a esticar o Jornal Hoje. As gravações de novelas foram interrompidas e reprises foram repaginadas para ir ao ar num tempo recorde. Programas como Altas Horas, do Serginho Groissman começaram a ser reprisados, causando uma certa estranheza ver tanta gente junta e animada, Faustão repaginou o the best e colocou no ar. O noticiário sobre a Covid-19 ocupou boa parte da programação. Como a pandemia não foi embora, Fátima Bernardes voltou sem público e com uma receita de Ana Maria Braga repaginada dentro do programa. Aos poucos, Bial também voltou sem o presencial e sem banda e sem platéia, mais frio. Mas com o passar do tempo, a Globo vai se aproximando do Canal Viva, aliás o canal pago mais visto, segundo os números do Cantar/Ibope divulgados ontem. As novelas Novo Mundo, Totalmente Demais e Fina Estampa estão sendo reprisadas e esse é o novo normal da Globo, que anda vendendo gato por lebre. A chamada para a “estréia” de Tapas e Beijos deixa parecer que vem aí uma nova grande atração no canal. Tudo déjà vu, sem tirar nem pôr.

PROJETOS

Eu era muito menino quando minha família se mudou pra Brasília, Brasilia não era nada, era apenas poeira vermelha e tratores amarelos fazendo terraplanagem e levantando mais poeira ainda. Assim que os monumentos começaram a ganhar as formas de Oscar Niemeyer é que surgiu uma vontade danada de ser arquiteto. Comecei a sonhar com uma cidade planejada, organizada, diferente daquela zona que estava virando minha Belo Horizonte no início dos anos 1960. A Avenida do Contorno que rodeava a BH planejada perdeu completamente o rumo e crescia como a raiz de uma árvore frondosa, pra todos os lados. Bairros surgiam da noite para o dia, junto com as vilas e favelas, numa mistura urbana e suburbana que minha cabeça não conseguia dar conta, colocar ordem. Então, do nada, surgiu Brasília, toda certinha.Terrenos enormes e planos para construir superquadras, muita grama, muita vegetação, os prédios virados um pra cá um pra lá, desconstruindo a invasão da intimidade. Eu tinha um caderno grande com folhas grossas e brancas, separadas por papel de seda. Ali desenhava largas avenidas, superquadras, coloria a grama de verde, plantava árvores, imaginava uma escola parque para cada quatro superquadras, um supermercado, uma igrejinha, o comércio. Abria túneis, passagens de pedestres, viadutos, tudo muito bem pensado. Essa ideia de ser arquiteto só saiu da minha cabeça quando voltamos pra Belo Horizonte e fomos morar na Rua da Bahia, no olho do furacão, centro do caos. Achei que ali tinha mais vida do que Brasília. Cada cidade tem sua vida. Cataguases, Ponte Nova, Formiga, Alfenas. Eu gosto de metrópoles, Tóquio, Mumbai, Nova York, Istambul e a São Paulo que adotei e que está lá fora.

[foto Tadao Ando]

MUDANDO DE ASSUNTO

Pense em Chico Regueira. É o repórter da Rede Globo, juntamente com Manoel Soares, que mais chega perto do povo, do pobre. É ele que expõe a miséria vivendo lado a lado com a pandemia, encostada na fome e na tragédia. Na noite de quinta-feira (11), Chico Regueira mostrou um pedacinho do Brasil, brasileiros e brasileiras vivendo com um punhadinho de real que cabe entre dois dedos de uma mão. Entrevistou um homem que vive de catar coisas nas ruas, que nunca recebeu auxílio emergencial porque não tem documentos básicos, RG e CPF. É ele aquele invisível que só descobriram agora. E, na verdade, ainda não descobriram. Mostrou outro que vive dentro de um carro que é pura ferrugem e ferro velho. Mostrou mulheres que comiam um pouquinho melhor com o dinheiro das balas que vendiam antes da pandemia. Tristeza ali não tinha fim. A reportagem acabou sem fade, sem nada. Voltou para a apresentadora Mariana Gross, que substitui Renata Vasconcellos no feriado, e ela anunciou a queda nas Bolsas de Frankfurt, de Londres e de Paris. Tem alguma coisa errada aí. Uma reportagem de Chico Regueira não pode sair da miséria, da preocupação de brasileiros que não sabem se terão jantar ou um café com pão no dia seguinte, para mostrar a preocupação do mercado financeiro internacional. 

[fotos Reprodução TV Globo]

O QUE VEM A SER ROBERTO JEFFERSON?

No final da tarde desta quarta-feira (27), ele foi visto na Rádio Jovem Pan xingando o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Morais, de todos os nomes, acompanhado dos apresentadores de faziam hum hum com a cabeça, concordando com ele. Venhamos e convenhamos que, na altura deste campeonato, defender o governo ultra-direitista de Jair Bolsonaro não deve ser fácil.

[foto Reprodução/Jovem Pan]

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Quem viu a bela capa da revista americana Sports Illustrated e bateu os olhos na edição de abril da revista Placar, vai logo lembrar de Antoine Lavoisier que, um dia, disse que nesse mundo nada se perde, tudo se aproveita. Ledo engano. A Placar, que vem se destacando por um texto enxuto e luxuoso, fez sua capa inspirada mesmo na SI e avisa a seus leitores a homenagem. A revista, que já passou por várias fases desde sua criação em 1970, ano do Tri, atualmente tem uma tiragem modesta, mas se você tiver a sorte de conseguir comprar um número vai se surpreender com o conteúdo. Leitura recomendada nesses tempos de confinamento.

[fotos Reprodução] 

HOME OFFICE, SWEET HOME OFFICE

Nesses tempos de home office, captamos na estante do jornalista e comentarista da CNN Brasil, Fernando Molica, o livro “Roteiros do Terceyro Mundo”, que reúne 270 cartas do saudoso cineasta Glauber Rocha, escritas para Caetano Veloso, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Ênio Silveira, entre outros. Editado pela Alhambra em parceria com a Embrafilme, no ano de 1985, tem organização de Orlando Senna.

[foto Reprodução CNN Brasil]