A PEDRA FUNDAMENTAL

A casa da Rua Rio Verde ficou pronta em julho de 1950. Não houve festa de inauguração, nem mesmo chope na laje, quando a laje secou. Foi construída passo a passo, devagarinho, cada tijolo comprado, anotado numa caderneta Deve/Haver.

O velho era assim. Anotava não somente o tijolo que comprava, mas a cal, as pedras, o cimento, as telhas, as portas, as janelas, os tacos, os canos, os fios. Orgulhava-se do feito, mostrando aos cinco filhos aquela velha caderneta, nem me lembro mais em que moeda.

A casa ficou pronta um mês antes do meu nascimento. Meu umbigo ainda não havia caído, quando minha mãe deixou a Maternidade dos Comerciários e foi pra essa casa nova, cheirando a tinta e taco novo.

Era uma casa à moda antiga, não tinha armários embutidos, por exemplo, uma novidade que surgiu anos depois. Tinha copa com uma pia para lavarmos as mãos antes das refeições, tinha despensa onde meus pais guardavam pacotes e mais pacotes de papel higiênico Tico-Tico, muito arroz, muito feijão, muito fubá e engradados de água mineral São Lourenço, vício do velho.

E tinha um quintal, onde durante toda a nossa juventude, criamos porquinhos-da-índia, periquitos australianos, pombos, galinhas, coelhos e até mesmo um velho cágado, que metia muito medo na minha irmã mais nova.

A casa foi reformada várias vezes. Ganhou armários embutidos, uma garagem, uma lavanderia, móveis pés palito, tapetes com ondas estampadas inspiradas na bossa-nova, uma parreira e cimento no galinheiro, pra nosso desgosto. Gostávamos daquele chão de terra, onde as galinhas ciscavam caçando minhocas e os coelhos faziam buracos, seus ninhos.

Quando foi construída, ficava longe de tudo, no fim do mundo. Tínhamos que descer no ponto final do bonde e subir uns dez quarteirões a pé até chegar na Rua Rio Verde. O bairro foi crescendo e, com o passar dos anos, a casa acabou ficando no coração do bairro do Carmo, praticamente na Savassi, a Ipanema dos belo-horizontinos.

Lembro-me bem quando o meu pai recebeu uma proposta milionária do jornal O Globo, que queria transformar a nossa casa em sede do jornal carioca nas Minas Gerais. Lembro-me que eram dois milhões, não me lembro mais se de cruzeiros ou cruzados.

O velho resistiu bravamente, dizendo que não vendia a casa por dinheiro algum e não vendeu mesmo. Dizia que o seu caixão seria velado na sala principal, o que não aconteceu, porque o mundo mudou e o corpo foi para o Parque da Colina. Ninguém mais velava seus mortos na sala principal da casa.

O tempo foi passando, o bairro do Carmo crescendo, se desfigurando. Casas dos anos cinquenta, sessenta e setenta, aquelas com alpendre e jardins cheios de roseiras, foram dando lugar a cabelereiros, brigaderias, mini-mercados, botecos, sorveterias e lojinhas de operadoras de celular.

A casa da Rua Rio Verde foi se transformando num oásis que não suportava mais a modernidade, lembrando aquela velha canção do Caetano que fala da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Até que foi vendida, depois de muito pensar, porque a paixão que tínhamos por ela era muito grande.

Poucos dias depois da venda, lembramos de uma outra canção, aquela do Adoniran Barbosa, quando veio os home com as ferramentas e o dono mandou derrubá.

Mas como filho de peixe, peixinho é, meu filho Julião correu até lá e conseguiu recuperar cinco pedaços de pedras da casa, uma para cada filho do querido Doutor Bouçada.

Um prédio de apartamentos subiu num piscar de olhos e a fachada ganhou uma placa: Residencial Villas.

A pedra chegou às minhas mãos na semana passada e hoje ela repousa na estante do meu escritório, ao lado de três pedaços do muro de Berlim que, um dia, com as ferramenta na mão, arranquei e trouxe pro Brasil de recordação.

Depois de citar Caetano e Adoniran, lembro-me agora do poeta Drummond com o seu poema que diz: No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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