AS SEIS CANÇÕES DO CÁRCERE DE UM NARCISO EM FÉRIAS

Caetano Veloso cita seis músicas no seu depoimento a Renato Terra e Ricardo Calil, sobre sua prisão em 1969, duas semanas depois do Ato Institucional número 5. No documentário Narciso em Férias, que foi aplaudido em Veneza no dia 7 de setembro, ele canta três canções e, com dor no coração e uma certa angústia, silencia sobre as outras três.

Canta Irene, a única que fez atrás das grades, quando apertou a saudade da irmã, com então 14 anos de idade. Na gravação original, que abre o disco de capa branca e que leva apenas sua assinatura, Caetano erra no início e deixa o erro no vinil: esqueci. Eu vi que você não estava com cara de quem ia cantar. Eu estava esquecido, quando me lembrei já foi em cima da hora. Ah, meu Deus… ah! Na letra, uma única vontade, a de ir embora daquele lugar: eu quero ir minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

Canta Terra, a canção que fez, alguns anos depois, e que sua memória o remeteu ao quartel do Exército. Compôs a lembrança de Dedé que levou para ele ver a revista Manchete com as fotos da Terra vista do espaço. Na verdade, um hino ao Planeta Terra: quando eu estava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias, em que apareceres inteira, porém não estava nua e sim coberta de nuvens. É em Terra que ele reconstrói os versos de Paraíba, de Luiz Gonzaga, aquela Paraíba masculino mulher macho sim senhor! Mando um abraço pra ti pequenina como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba.

Canta Hey Jude, a canção que ouvia na prisão e que lhe dava a sensação de que dias melhores viriam: Ei, Jude, não fique mal, pegue uma canção triste e torne-a melhor. Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração, então você pode começar a melhorar as coisas e sempre que você sentir dor. Ei, Jude, vá com calma, não carregue o mundo nos seus ombros

Caetano não tocou Súplica, sucesso no vozeirão de Orlando Silva, a canção que um velho comunista, companheiro de prisão pedia que ele cantasse: Aço frio de um punhal/Foi o seu adeus para mim/Não crendo na verdade, implorei, pedi/As súplicas morreram num eco em vão/Sofrendo nas paredes frias de um apartamento.

Não cantou também Onde o céu azul é mais azul, uma aquarela brasileira na voz de Francisco Alves, a canção que Caetano tem medo, medo de chorar ao ouvi-la: Eu já encontrei um dia alguém/Que me perguntou assim, iá, iá/O seu Brasil o que é que tem/O seu Brasil onde é que está?/Onde o céu azul é mais azul/E uma cruz de estrelas mostra o sul/Aí, se encontra o meu país/O meu Brasil grande, e tão feliz.

E Caetano não cantou Assum Preto, de Luiz Gonzaga, recuperada pela fatal Gal Costa, outra música que lhe causava uma tristeza profunda;

Tudo em vorta é só beleza/Sol de abril e a mata em frô/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Tarvez por ignorança/Ou mardade das pió/Furaro os óio do Assum Preto/Pra ele assim, aí, cantá mió.

Sim, as histórias voltam junto com as canções.

 

 

 

A AREIA DO SAARA

Estou fora do Brasil há três meses. Nesses noventa dias, andei por muitos lugares, cada um mais fascinante que o outro. Atravessei oceanos, vales e montanhas em busca do belo, cada dia mais belo. Molhei os pés no Mar Egeu, colhi figos no Peloponeso, flores na Toscana, catei pedras quadradas no Mar Jônico. Não tem foto, filme ou palestra que ilustre o que os meus olhos viram até aqui.

Se alguém me perguntar o que mais me surpreendeu, o que mais me deixou perplexo nesse trimestre sabático, não vou pensar duas vezes e responder na lata: A areia do Saara.

Explico. Acordamos cedo em Florença e o sol já estava forte. Tomamos o nosso café da manhã, café gostoso preparado na Bialetti e saímos pra caminhar pelas ruas da cidade, uma das mais lindas da Itália.

Nossa surpresa veio quando chegamos na primeira esquina do bairro de San Niccolò, onde estávamos morando, e vimos os carros enfileirados, estacionados rente aos muros da cidade, todos eles cobertos por uma estranha poeira amarelada.

Num primeiro instante, achei que tinha chovido pouco na madrugada e os carros sujos ganharam aqueles respingos que viram uma coisa medonha na lataria. Mas não, não havia chovido e todos os carros estavam com aquela poeira amarelada. Não só os carros, mas também as bicicletas, as lambretas e as motocicletas.

Foi a Paulinha que sacou que aquilo poderia ser a areia do Saara que o vento trouxe na calada da noite. Paramos, pensamos, lembramos  imediatamente e começamos a cantar a canção Reconvexo, de Caetano Veloso, que começa assim:  Eu sou o vento que lança a areia do deserto do Saara/Sobre os automóveis de Roma. Roma não estava tão longe de nós e certamente aquilo era sim a tal areia dos versos do compositor baiano.

Andamos, andamos e vimos que todos os automóveis da cidade estavam assim, pulverizados pelo fenômeno.

Quando chegamos em casa, à noite, fomos buscar mais informações no Google. A última notícia dizia que a paisagem em regiões montanhosas do Leste europeu havia sido modificada devido a uma tempestade de areia do deserto do Saara, no Norte da África. Aquele pó havia atingido a Ucrânia, a Rússia, a Bulgária e a Romênia.

Continuamos pesquisando e ficamos sabendo que cientistas da Nasa apresentaram um estudo que detalha como a areia do deserto do Saara viaja pelo Oceano Atlântico e chega até mesmo a fertilizar a floresta Amazônica. Ela contém fósforo, um dos principais ingredientes para o crescimento das plantas.

O estudo da Nasa feito pelo Goddard Space Flight Center, chegou à conclusão que mais de 27 milhôes de toneladas de areia viaja do Saara até a Amazônia, todos os anos. Ficamos deslumbrados.

A certeza absoluta veio quando Frederico, um italiano boa praça, veio inspecionar o apartamento que alugamos e apontou para a janela de vidro da sala, localizada no teto, e disse: Está um pouco suja hoje por causa da areia que vem do Saara.

Conectamos no Youtube a canção Reconvexo e ela virou nossa trilha sonora há três meses. Sei o valor dos versos de Caetano, mas, para nós, foi maravilhoso pensar que ele achou poesia no vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma.

Pensando bem, não era para se espantar, Caetano já encontrou poesia até mesmo no papel de seda azul que envolve a maça, não é mesmo?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br