MINHA VIDA DE CACHORRO

Venho dessas famílias que a gente diz: na minha casa sempre teve cachorro. Sim, sempre teve cachorro. Foram quatro: Jolie, Tupi, Pink e Fly. Cachorros soltos dentro de casa e no terreiro, daqueles que se engasgavam comendo osso de frango no domingo depois do almoço. Ainda não havia petshop, ração, brinquedinho, caminha, xampu, nada disso. Bebiam água numa lata de goiabada da Cica. Iam uma vez aos posto da Prefeitura pra vacinar contra a raiva. E só. Depois de muito lutar para não ter um cachorro, na quarentena adotamos o Canela. Vira-lata, foi abandonado num Posto Ipiranga no meio da estrada. Tive logo a ideia de dar o nome a ele de Guedes. Ouvi um sonoro não de todos aqui. Seria muita humilhação para ele. Chegou Bob e ganhou um novo nome, Millôr, que durou umas duas horas. Ficamos lembrando de nomes de cachorros e quando ele ouviu Canela, abanou o rabo e veio todo serelepe. Virou Canela imediatamente e sempre atendeu por esse nome. Acreditamos que ele era Canela desde pequenininho. O Canela é o vira-lata mais nobre do pedaço. Senta esquio esperando eu colocar o tênis, pegar o saquinho plástico, a máscara, a coleira. Chegou aqui sem saber o que é elevador. A porta abria e ele ficava olhando, não entrava. Agora só falta apertar o botão S1 quando saímos pra passear. Aprendeu a não fazer xixi na garagem, sabe esperar a hora do passeio e – acredite – pede colo depois de nos acompanhar no café da manhã. Fica observando a mesa, sem sequer enfiar o focinho onde não foi chamado. A gente aqui em casa vive dizendo que se fosse fêmea chamaria Gilda, porque não existe cachorro como Canela. Metódico, dá nove horas vai para o cômodo onde funciona o home office da Paulinha e fica esperando a hora do tabalho dela. Divide as atenções durante o dia. No final da tarde vem pro meu escritório e deita na caminha esperando a hora do passeio. Paramos de dar ração e fizemos a comida dele. Descobrimos que o açougue do supermercado tem uma carne  que chama retalho. É um mix de carne, pedacinhos que sobram daqui e dali na hora do corte. Do acém ao filé mignon, do patinho ao colchão duro. A comida é simples e fácil de fazer. Sem gordura, sem sal e ele ama. Abandonou a ração de vez, não suporta o cheiro. Será que criamos um monstro? O Canela alegrou nossa vida nessa pandemia. Tem horas que ele parece o Brian da Family Guy. Dá impressão de que vai sentar na mesa conosco e discutir filosofia. Canela não morde, late só na rua e adora brincar com os outros cachorros. Se deu bem com a Shakira e a Cher, das nossas filhas. Acho que ele percebeu que estava escrevendo sobre ele. Só acordou agora e veio abanando o rabo, feliz da vida. 

[ilustração Rebeca Campbell]

UTI

 

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são constantes, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer constraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas. 

MULHER LENDO

Eu era menino ainda quando vi uma propaganda nas páginas da revista Realidade anunciando o lançamento da coleção Gênios da Pintura. Eu não tinha NCr$2.50 por semana para comprar aquele Van Gogh, o número 1, sequer para comprar os outros noventa e seis. Picasso, Kandinsky, Goya, Rembrandt, Monet… Namorava cada um nas bancas e quando Seu Benito estava lá, ele me deixava folhear, sem amassar, por favor! Foi assim que me apaixonei por esses pintores geniais. A cada museu que entrava e via uma obra ao vivo eu me lembrava dos Gênios da Pintura da Abril Cultural. Agradecia aos céus o privilégio de poder parar diante de uma obra o tempo que quisesse e ficar admirando. Nesse domingo de manhã me emocionei ao ver a postagem do meu amigo Apolo Heringer Lisboa, aquele com quem tenho uma grande história. A obra estava lá e apenas o nome: Mulher Lendo, Henri Matisse, 1908. Quando vejo uma obra pela primeira vez, a emoção não me segura. 

CÉREBRO ELETRÔNICO

É bobagem ficar imaginando o mundo hoje sem as modernidades que vieram com os anos. Computador, por exemplo. A não ser que eu me refugiasse na Fazenda do Sertão, que nem eletricidade tinha, para criar porcos, patos, marrecos, galinhas, cavalos. Plantar taioba, couve, escarola. Me desligar do mundo eu tenho me desligado por uns dez minutos por dia, ou mais. Às vezes, quando passo meia hora sem ter notícias das terra civilizada, quando volto tenho um milhão de mensagens, de novidades, de pedidos, de comentários, de piadas, de dicas, de boletos, de fatos, de fotos, de sustos. Aos 70 anos, não esperava ver o mundo assim, eu aqui dentro de casa de pijama até por volta das dez da manhã. Sou salvo pela música diariamente: eu vou-me embora, meu bem, vou-me embora. Eu aqui não me dou bem, ô viola! violá…

PROFISSÃO ESCRITOR

O melhor horário para escrever um livro é quando o céu ainda está escuro e o único barulho único é de um pássaro ávido por encasalar, que canta agoniado na árvore em frente a janela do meu escritório. Nessa hora da manhã, vivo entre e pássaros e páginas que ainda estão no computador, iluminando esse meu canto e o canto do pássaro. É quando a televisão ainda está desligada, o portão da garagem ainda não começou a fazer nhec, os ônibus não começaram a circular. É nessa hora que a pesquisa avança e os textos vão saindo. A pesquisa ainda é longa e esse metro e meio de livros empilhados na minha frente me assusta um pouco. Quero entrega a editora antes do final ano, parece que está longe, mas não. Daqui a pouco outubro, novembro e acabou. Por isso economizo palavras aqui para ganhar lá. Precisava dizer isso. 

ASAS DO DESEJO

 

Tenho uma verdadeira paixão por aves, de grande e pequeno porte. Menino, já fui criador de passarinhos e, com o passar dos anos, perdi a coragem de tê-los enjaulados. Fotografo aves desde pequenininho. Por onde eu vou tem sempre uma, parece que à minha espera. Tenho uma coleção de melros que circulam pelos parques de Londres, cada um mais bonito que o outro. Eclético, sou capaz de cantar Blackbird dos Beatles, misturando com Menino Passarinho do Luiz Vieira e Assum Preto, de Luiz Gonzaga. Sei de cor Coleção de Passarinhos na voz de Clementina de Jesus e Gaivota, de Gil, na voz de New Matogrosso. Esse casal de gaivotas foi fotografado em Barcelona e me encheu de curiosidade. O ninho deles fica no alto da torre, sem proteção contra a chuva. As gaivotas deviam ter certeza da temporada de seca. Os pássaros são muito inteligentes, eu sei. Os pombos possuem um sensor capaz de levá-lo de volta pra casa depois de uma simples revoada. Nós, foi preciso inventar o Waze que é um nome feio, mas é o melhor meio de se chegar.

[foto Alberto Villas]

OS DIÁRIOS ACUMULADOS NOS TEMPOS DE PANDEMIA

Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar o exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O nosso Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: “mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo?” Pronto, escrevi.

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje.

Todos em casa temos coração mole, a família inteira. Pai, mãe, filhos, netos, bisnetos. Não existe a palavra insensível por aqui. Não tem como ver alguém mexendo nos sacos pretos de lixo tarde da noite e ficar impassível, cara de paisagem. O coração mole parte em dois. Nas manchetes dos jornais, vejo a euforia com o crescimento do mercado imobiliário. Somos esquerdas demais pra não pensar nas vinte e cinco mil pessoas que moram nas ruas da maior e mais rica cidade da América do Sul. Não tem como ver famílias cujo teto é o viaduto Presidente João Goulart, a marquise da Marabá, o plástico tosco e rasgado daquela que um dia foi uma barraca de camping. O fogareiro na calçada esquentando água para um macarrão, uma flor de plástico em cima de um caixote de frutas selectas, um cão dormindo. Como um argonauta, meu coração não aguenta tanta tormenta. O Doutor Christian Barnard, um dia, trocou um pelo outro, mas era coração com aorta direita e aorta esquerda, aprendi no Marista. Outro dia, o meu irmão mais velho me chamou a atenção: já pensou que o coração da gente é uma máquina que está funcionando vinte e quatro horas por dia, há mais de setenta anos? Uma hora para, não tem jeito. Já cantaram o coração bobo, o coração vagabundo, o coração balão, o coração São João. E também o coração que, não sei porque, bate feliz quando te vê.

INFÂNCIA

Não tinha jeito, aquela maldita vareta preta sempre caia por baixo de todas as outras, verdes, amarelas, azuis e vermelhas. Eu tinha as mãos muito firmes, mas não era fácil chegar até a vareta preta, a mais valiosa. Eu tirava uma amarela com a delicadeza de um monte, uma vermelha com a perspicácia de tirar antes a verde, colada junto a ela. Todo Natal ganhávamos um jogo de Pega-Varetas novo que substituia aquele que passou o ano sendo jogado no chão da sala, já meio estropiado. A vida não era nada fácil: decorar Latim, estudar o significado em português da palavra francesa partout, saber a tabuada de cor, as capitais da Finlândia, da Suécia e da Islândia, entender o que eram as mitocôndrias, essas coisas todas. Desconfiávamos que não era a cegonha que trazia o bebê, mas não podíamos contestar. A gente fingia que Papai Noel existia, que o coelho da Páscoa botava ovo de chocolate, que Eva ofereceu uma maçã a Adão e que Noé colocou um casal de cada bicho na sua arca. Não condenávamos a Dona Chica que atirou o pau no gato e morríamos de medo do boi da cara preta que pegava menino que tinha medo de careta. 

OS COMPRIMIDOS

Menino ainda, fica impressionado com a quantidade de comprimidos que os meus pais engoliam todos os dias. Era na hora do jantar que eles vinham, cada um com a sua caixinha de remédios. O do meu pai era um tubo plástico com as indicações dos dias da semana, pra ele não se perder. A da minha mãe era uma potinho de prata com tampa de madrepérola. Eles abriam suas caixinhas e iam colocando os comprimidos em cima da mesa. Não eram muito velhos ainda, mas eu ficava pensando com os meus botões: porque gente velha toma tanto remédio? Não me lembro que comprimidos engoliam. Um, sei que era para pressão porque o meu pai lembrava minha mãe todos os dias: tomou o seu remédio pra pressão? Ela quase sempre tinha esquecido, mas tomava imediatamente. Hoje eu fico imaginando que deveriam ser remédios pro colesterol, pra ralear o sangue, pra tireóide, pra artrite. Hoje, aqui em casa é na hora do café da manhã que enfileiro meus remédios: Puran 25 mg, Reuquinol 400mg, Plenance 19 mg, Ezetimiba 10mg, Xarelto 20mg e Addera 1000. Pois é, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. 

COISAS DA VIDA, MINHA NEGA

Fiquei sabendo que tem gente escrevendo muito nessa pandemia, gente que nunca escreveu está escrevendo. Diários, poesias, contos, escrevendo o que vem na cabeça. Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar aquele exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: ‘mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo? Pronto, escrevi. 

A MATEMÁTICA

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje. 

O JOGO

Pimenta nunca poderia ter feito aquele gol aos 58 segundos do primeiro tempo. Pimenta era ruim de bola, não sabia driblar, chutava fora os pênaltis, mas naquele dia ele foi certeiro. O juiz apitou o início do jogo, Nenenzinho passou a bola pro Pimenta que soltou um Exocet dos pés e foi parar bem no anglo do meu gol. Sim, eu era o goleiro do time da Rua Rio Verde. Vestia uma camisa preta com o número 1 nas costas, calção e meias pretas, uma sunga Big por debaixo. Luvas e joelheiras, chuteiras da melhor qualidade. Estava devidamente paramentado para ser o campeão do Bairro do Carmo naquele 1960. O campo era de terra batida, as traves feitas de bambu, rede não havia. Se Barbosa sofreu em 1950, dez anos depois fui eu, totalmente desmoralizado aos 58 segundos do primeiro tempo. Não vi a bola passar e, caído no chão previa um dez a zero fácil fácil. A vida é assim. Em menos de um minuto, mudei o rumo da minha vida. Nunca mais peguei no gol, nunca mais vesti aquele uniforme preto, bonito, novinho. Desisti de ser goleiro e comecei a pensar em ser piloto de Fórmula 1. 

[ilustração Andrea Serio]

OS BOTÕES

Queria eu ter a simplicidade de um Leonilson, acordar cedo, passar a mão num pedaço de linho e bordar frases, desenhar corações que ficaram perdidos no meio do caminho, pregar botões, uns diferentes dos outros, fazer uma composição. Queria eu ter esse minimalismo, com a agulha e linha escrever devo, não devo ou quero, não quero. Desenhar flores, sapatos, mapas, malas, velas, estrelas, molas. Bordar uma cabra envolta em coroas e escrever a cabra expiatória bem mais magra observa o patético espetáculo da monarquia. Para isso, preciso abandonar todo o noticiário dos jornais, das revistas, da televisão, da web. Me recolher numa verdadeira quarentena e esperar o pesadelo passar. Onde você for eu irei com você, escreveu ele num dia não sei se de céu azul de sol, de céu cinza chumbo de chuva. O vírus era outro e não esse que mata mais de mil pessoas por dia. Mas levou Leonilson. Só me resta ficar aqui chorando com os seus botões.

 

OBRAS QUASE COMPLETAS

Plantar uma árvore, já plantei. Um chorão que semeei no quintal da Rua Rio Verde e que virou uma frondosa árvore. Plantei também uma ameixeira na varanda do apartamento na Avenida Higienópolis e que está lá até hoje, vejo quando passo. E plantei um abacateiro na varanda do meu apartamento aqui na Lapa. Já está com mais de um metro de comprimento e minha mulher quer que eu tire ele de lá porque, com algumas folhas amarelas, ela acha que ele, no vaso, não cresce mais que isso. Tento resistir, argumento que o abacateiro serás sempre meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar. Ter um filho, já tive, quatro! Todos adultos, crescidos, os meninos estão todos sãos. Dois nasceram em Paris, dois em São Paulo. Um menino, três meninas, todos parecidos, prontos para enfrentar a vida. Escrever um livro, já escrevi, nove! E estou escrevendo mais um. Minha obra ainda está incompleta. Trato do meu novo livro como tratava daquele chorão na Rio Verde: aguando todos os dias um pouquinho para não deixar a terra muito seca. Trato como tratava dos meus filhos, dando papinha, trocando fralda, colocando panos frios na testa nas madrugadas de febre, ensinando o que foram as capitanias hereditárias. Acabo de completar setenta anos, mas, como dizem que a vida começa aos quarenta, sinto-me feliz com os meus trinta anos, com minhas árvores, meus filhos, meus livros.  

THE BOOK IS ON THE TABLE

Há seis meses estou aqui matutando como arrumar todos esses livros na biblioteca. Já pensei em tudo. Tirar um por um, espanar, catalogar. Já pensei em separar por assuntos, por ordem alfabética do autor, ordem alfabética do título. Já pensei até em eliminar uns, doar, encadernar outros, os estropiados indispensáveis. Há seis meses penso nisso. Só penso, nunca coloquei a mão na massa. Andei bisbilhotando prateleiras que não via há muito tempo. Achei a primeira edição de Fazenda Modelo, do Chico, lá dos anos 1970. Achei o primeiro livro que li, Voo Noturno, vôo ainda com acento circunflexo, de Antoine de Saint-Exupéry, já quase desmanchando as páginas. Achei o Miséria da Filosofia, de Karl Marx, que tantas histórias guardam, motivo de crônicas e palestras Brasil afora. A coleção Encanto Radical, que começou com o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, está toda espalhada: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu, ao lado de Um Café para Sócrates, de Marc Sautet. O que Dentes ao Sol, de Ignácio de Loyola Brandão está fazendo agarradinho ao lado dos poemas de T.S. Eliot? Já pensei em pagar uma bibliotecária pra por ordem no galinheiro. Só pensei. De vez em quando fecho os olhos e passo a mão num livro aleatório, o primeiro que me vem à vista: Ontem à noite foi Soltando os Cachorros, de Adélia Prado. Comecei a ler: Quarenta anos é demais pra uma mulher. Prefiro quarenta e dois. O Papa tá passando pito nos jesuítas; plantei um pé de samambaia chorona que não vai pra frente de jeito nenhum. Galinho garnizé é galinho à toa, atrevimento empenado. E fui lendo, e fui lendo e pensei com os meus botões: pra quê biblioteca organizada?

CORES E NOMES

Nesses tempos sombrios, agora cheios de tons de cinza, quisera ser pintor. Ter uma palheta profissional, tubos de tinta de todas as cores, vidrinhos de ecoline, bastões de pastel, guache, uma caixa de lápis de cor daquelas de 198 cores, oito tons de amarelo, nove tons de verde, cinco tons de creme. Quisera eu estar enfurnado num ateliê esboçando corvos nos campos de girassóis, catedrais, anjos voadores, mulher de olhos fora do lugar, cabras e vacas. Passar o dia respirando aquele cheiro, criando combinações de cores como Mark Rothko, imaginando mulheres esguias como Paul Gaughin, pêssegos na fruteira como Paul Cèzane, queria ter a simplicidade de um Joan Mirò ou a fúria de um Jackson Pollock. Quando menino sabia desenhar rã, bambu, galo e rato. Fiquei nisso. Tentei, mas morri num quadro medonho que fiz e que chamei de Monkey’s Instalation. Ou, quem sabe, ser cantor, quem dera ser tenor, quem sabe ter a voz igual aos rouxinóis. 

[ilustração/Obra de Joan Mirò]

ENQUANTO ISSO, VAMOS ESPERANDO O NOVO NORMAL

Hoje eu não vou sair de casa não. Quero preguiça, ajeitar o altar dos meus santos, raspar a parafina acumulada, renovar a vela, riscar o fósforo. Perdemos Dom Pedro Casaldáliga, perdemos Aldir Blanc, Nirlando Beirão, Moraes Moreira, Enio Moricconi, Chica Xavier, Gilles Lapouge, Antônio Bivar, Rodrigo Rodrigues e outras cem mil pessoas neste 2020, o ano que devia terminar logo. Hoje me resta ir pro sofá, pra rede, pro colchão. Molhar as plantas, catar as coconilhas escondidinhas nos galhos, passar azeite nas folhas de ficus para que elas sobrevivam brilhantes, firmes e fortes. Hoje é domingo, vou ficar distante do noticiário, ao menos uma vez na semana. É domingo aqui e já quase segunda no Vietnã. Hoje é dia de escutar o Jardim Secreto de Claudio Santoro, os cantos afro de Matheus Aleluia, hoje é dia de ouvir Hamilton de Holanda e Mestrinho interpretando Drão e o Trem das Onze na sanfona e no violão. Drão, os meninos são todos são e eu não posso ficar nem mais um minuto sem você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Se eu perder esse trem que passa agora às onze horas, só amanhã de manhã.

Sexta, sábado, domingo? Que dia da semana eu vou criar coragem e sair às ruas? Trombar nas pessoas, sentar lado a lado no ônibus junto com uma diarista justificando seu atraso pra patroa, perguntar se ele passa na Paulista, responder que horas são, tossir, espirrar, abraçar, beijar. Eu tenho medo de viver o velho normal. Entrar no elevador já cheio e lembrar daquele velho anúncio do desodorante VanEss: sempre cabe mais um. Quando vou voltar ao Itaquerão com Clarice e ouvir ela gritando bem baixinho vai, timão! Que dia vou voltar ao fogão domingo cedo pra preparar aquele couscous marroquino pros amigos, que vão chegando e chegando e enchendo a sala da minha casa? Que dia vou pegar o primeiro avião com destino a felicidade? Que dia vou voltar a Vrises, aquele povoado no interior da Grécia onde morei, onde colhi abricôs e limões sicilianos no pé? Será que ainda terei tempo de voltar a fotografar as pessoas no metrô, como faz minha amiga Patrícia Mesquita? Sabe de uma coisa? Quero espiar as bancas de revista, comer um pastel de feira, quero comer um pedaço de abacaxi nos carrinhos de frutas de Higienópolis, quero caminhar até a Livraria Martins Fontes e comprar a nova Edição do livro Admirável Mundo Novo. 

Estão matando os meninos pretos da periferia do Brasil. Não, não são invisíveis, são de carne, osso, alma e sangue escorrendo na calçada. Matando a queima-roupa, sem perguntar o nome, o numero do CPF, o nome do pai, o nome da mãe, débito ou crédito. Basta estar na rua e carregar a cor preta na pele que é suspeito número um, de crime algum. Estão ferindo o coração de mães, como aquela que guardou o bolo de aniversário do Rogério na geladeira para não derreter, para comer mais tarde, depois do parabéns. Daqui a pouco, ela vai aparecer na televisão de novo, soluçando, pedindo justiça e nada mais. Como Pedro Pedreiro, que não vem, que não vem. A nota pé, a nota seca, vai informar que os policiais foram afastados do serviço de rua e que tudo vai ser apurado. Vai nada, a gente sabe. E amanhã vai ter outro Rogério morrendo de susto, de bala ou vício, caindo sangrando na calçada esburacada de um bairro que não está no mapa. E o governador vai aparecer ao vivo e em cores dizendo que esta não é a norma da policia, que repudia o ato, prometendo apuração e julgamento dos culpados, que vão responder pelos seus atos. Vão nada! O boi já está dormindo.

Fugir pra onde? Só se for pra Pasárgada, onde sou amigo do rei. Quem sabe fugir pra Maracangalha de liforme branco? Fugir como? A pé, de carro, de ônibus, de avião, bicicleta ou caminhão? Quem sabe eu vou pegar aquele velho navio? Pensei, pensei, peguei o mapa mundi, olhei, olhei. Eu não tenho para onde ir. Quem sabe eu vou pra lua, eu mais minha muié. Lá, construir um ranchinho todo feito de sapé. Faça sol ou faça chuva eu vou fugir, nem que seja na lógica do pensamento. Olho em volta e vejo tantos bens materiais, meus discos e meus livros. Olha, pensando bem, eu só deixo a minha São Paulo no último pau de arara.

SEGUE O SECO

Muito me impressiona o mandacaru desde Vidas Secas, desde os retirantes de Portinari. Aquele que quando flora lá na seca é o sinal que a chuva chega no sertão. Tenho um em casa há mais de dez anos. Deu flor apenas uma vez e nunca mais, nunca soube porque e sempre espero ao menos uma, tão bela, quando chega a primavera. Sei que o mandacaru não gosta de água, rego a cada quinze dias. Isso é que me impressiona, o viver sem água durante tanto tempo. Nesses dez anos e pouco, ele cresceu uns vinte centímetros. Pelas minhas contas, lá pelo ano 2030 vai chegar ao teto e ai não saberei o que fazer com ele. Ou comigo. Faça sol, faça chuva, ventania branda ou vento bravo, o mandacaru é sempre o mesmo. Não amarela, não balança, não murcha. É um forte. Desde o início da pandemia, da quarentena, do confinamento, ele é o mesmo. Não importa se tem flexibilização, jogo sem público, gente com máscara, jovens nos bares do Leblon, álcool gel nas mão, laranjas lavadas com água e sabão. Com o mandacaru não tem surpresa. Só isso.

BREGA & CHIQUE

De tempos em tempos, cinco meses depois, cai o brega no meu colo. Eu preciso te falar, te encontrar de qualquer jeito, pra sentar e conversar depois de andar de encontro ao vento. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, e na pele quero ter, o mesmo sol que te bronzeia. Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer, entre no meu carro na estrada de Santos e você vai me conhecer. Fuscão preto, você é feito de aço, fez o meu peito em pedaço, também aprendeu a matar. Hoje eu acordei com saudades de você, beijei aquela foto que você me ofertou, sentei naquele banco da pracinha só porque foi lá que começou o nosso amor. Em vez de você ficar pensando nele, em vez de você viver chorando por ele, pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não, não liga pra ele. Eu lavo e passo, sirvo a mesa e faxino, aprendo e te ensino, posso até dirigir, comprar um táxi só pra lhe servir. Deixo de ser coruja pra ser sua cotovia e só viver de dia pra você ser feliz. 

[ilustração/Obra de Georgia O’Keeffe]

[Músicas citadas: Um dia de domingo, As curvas da estrada de Santos, Fuscão Preto, A praça, Pense em mim, Mas I love you]

SENHORES PASSAGEIROS!


Fugir pra onde? Só se for pra Pasárgada, onde sou amigo do rei. Quem sabe pra Maracangalha? E se a Anália não quiser ir, eu vou só. Fugir como? A pé, de carro, de ônibus, de avião, bicicleta ou caminhão? Quem sabe eu vou pegar aquele velho navio? Pensei, pensei, peguei o mapa mundi, olhei, olhei. Eu não tenho para onde ir. Quem sabe eu vou pra lua, eu mais minha muié. Lá, construir um ranchinho todo feito de sapé. Faça sol ou faça chuva eu vou fugir, nem que seja na lógica do pensamento. Olho em volta e vejo tantos bens materiais, meus discos e meus livros. Olha, pensando bem, eu só deixo a minha São Paulo no último pau de arara.