OBRAS QUASE COMPLETAS

Plantar uma árvore, já plantei. Um chorão que semeei no quintal da Rua Rio Verde e que virou uma frondosa árvore. Plantei também uma ameixeira na varanda do apartamento na Avenida Higienópolis e que está lá até hoje, vejo quando passo. E plantei um abacateiro na varanda do meu apartamento aqui na Lapa. Já está com mais de um metro de comprimento e minha mulher quer que eu tire ele de lá porque, com algumas folhas amarelas, ela acha que ele, no vaso, não cresce mais que isso. Tento resistir, argumento que o abacateiro serás sempre meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar. Ter um filho, já tive, quatro! Todos adultos, crescidos, os meninos estão todos sãos. Dois nasceram em Paris, dois em São Paulo. Um menino, três meninas, todos parecidos, prontos para enfrentar a vida. Escrever um livro, já escrevi, nove! E estou escrevendo mais um. Minha obra ainda está incompleta. Trato do meu novo livro como tratava daquele chorão na Rio Verde: aguando todos os dias um pouquinho para não deixar a terra muito seca. Trato como tratava dos meus filhos, dando papinha, trocando fralda, colocando panos frios na testa nas madrugadas de febre, ensinando o que foram as capitanias hereditárias. Acabo de completar setenta anos, mas, como dizem que a vida começa aos quarenta, sinto-me feliz com os meus trinta anos, com minhas árvores, meus filhos, meus livros.  

THE BOOK IS ON THE TABLE

Há seis meses estou aqui matutando como arrumar todos esses livros na biblioteca. Já pensei em tudo. Tirar um por um, espanar, catalogar. Já pensei em separar por assuntos, por ordem alfabética do autor, ordem alfabética do título. Já pensei até em eliminar uns, doar, encadernar outros, os estropiados indispensáveis. Há seis meses penso nisso. Só penso, nunca coloquei a mão na massa. Andei bisbilhotando prateleiras que não via há muito tempo. Achei a primeira edição de Fazenda Modelo, do Chico, lá dos anos 1970. Achei o primeiro livro que li, Voo Noturno, vôo ainda com acento circunflexo, de Antoine de Saint-Exupéry, já quase desmanchando as páginas. Achei o Miséria da Filosofia, de Karl Marx, que tantas histórias guardam, motivo de crônicas e palestras Brasil afora. A coleção Encanto Radical, que começou com o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, está toda espalhada: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu, ao lado de Um Café para Sócrates, de Marc Sautet. O que Dentes ao Sol, de Ignácio de Loyola Brandão está fazendo agarradinho ao lado dos poemas de T.S. Eliot? Já pensei em pagar uma bibliotecária pra por ordem no galinheiro. Só pensei. De vez em quando fecho os olhos e passo a mão num livro aleatório, o primeiro que me vem à vista: Ontem à noite foi Soltando os Cachorros, de Adélia Prado. Comecei a ler: Quarenta anos é demais pra uma mulher. Prefiro quarenta e dois. O Papa tá passando pito nos jesuítas; plantei um pé de samambaia chorona que não vai pra frente de jeito nenhum. Galinho garnizé é galinho à toa, atrevimento empenado. E fui lendo, e fui lendo e pensei com os meus botões: pra quê biblioteca organizada?

CORES E NOMES

Nesses tempos sombrios, agora cheios de tons de cinza, quisera ser pintor. Ter uma palheta profissional, tubos de tinta de todas as cores, vidrinhos de ecoline, bastões de pastel, guache, uma caixa de lápis de cor daquelas de 198 cores, oito tons de amarelo, nove tons de verde, cinco tons de creme. Quisera eu estar enfurnado num ateliê esboçando corvos nos campos de girassóis, catedrais, anjos voadores, mulher de olhos fora do lugar, cabras e vacas. Passar o dia respirando aquele cheiro, criando combinações de cores como Mark Rothko, imaginando mulheres esguias como Paul Gaughin, pêssegos na fruteira como Paul Cèzane, queria ter a simplicidade de um Joan Mirò ou a fúria de um Jackson Pollock. Quando menino sabia desenhar rã, bambu, galo e rato. Fiquei nisso. Tentei, mas morri num quadro medonho que fiz e que chamei de Monkey’s Instalation. Ou, quem sabe, ser cantor, quem dera ser tenor, quem sabe ter a voz igual aos rouxinóis. 

[ilustração/Obra de Joan Mirò]

ENQUANTO ISSO, VAMOS ESPERANDO O NOVO NORMAL

Hoje eu não vou sair de casa não. Quero preguiça, ajeitar o altar dos meus santos, raspar a parafina acumulada, renovar a vela, riscar o fósforo. Perdemos Dom Pedro Casaldáliga, perdemos Aldir Blanc, Nirlando Beirão, Moraes Moreira, Enio Moricconi, Chica Xavier, Gilles Lapouge, Antônio Bivar, Rodrigo Rodrigues e outras cem mil pessoas neste 2020, o ano que devia terminar logo. Hoje me resta ir pro sofá, pra rede, pro colchão. Molhar as plantas, catar as coconilhas escondidinhas nos galhos, passar azeite nas folhas de ficus para que elas sobrevivam brilhantes, firmes e fortes. Hoje é domingo, vou ficar distante do noticiário, ao menos uma vez na semana. É domingo aqui e já quase segunda no Vietnã. Hoje é dia de escutar o Jardim Secreto de Claudio Santoro, os cantos afro de Matheus Aleluia, hoje é dia de ouvir Hamilton de Holanda e Mestrinho interpretando Drão e o Trem das Onze na sanfona e no violão. Drão, os meninos são todos são e eu não posso ficar nem mais um minuto sem você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Se eu perder esse trem que passa agora às onze horas, só amanhã de manhã.

Sexta, sábado, domingo? Que dia da semana eu vou criar coragem e sair às ruas? Trombar nas pessoas, sentar lado a lado no ônibus junto com uma diarista justificando seu atraso pra patroa, perguntar se ele passa na Paulista, responder que horas são, tossir, espirrar, abraçar, beijar. Eu tenho medo de viver o velho normal. Entrar no elevador já cheio e lembrar daquele velho anúncio do desodorante VanEss: sempre cabe mais um. Quando vou voltar ao Itaquerão com Clarice e ouvir ela gritando bem baixinho vai, timão! Que dia vou voltar ao fogão domingo cedo pra preparar aquele couscous marroquino pros amigos, que vão chegando e chegando e enchendo a sala da minha casa? Que dia vou pegar o primeiro avião com destino a felicidade? Que dia vou voltar a Vrises, aquele povoado no interior da Grécia onde morei, onde colhi abricôs e limões sicilianos no pé? Será que ainda terei tempo de voltar a fotografar as pessoas no metrô, como faz minha amiga Patrícia Mesquita? Sabe de uma coisa? Quero espiar as bancas de revista, comer um pastel de feira, quero comer um pedaço de abacaxi nos carrinhos de frutas de Higienópolis, quero caminhar até a Livraria Martins Fontes e comprar a nova Edição do livro Admirável Mundo Novo. 

Estão matando os meninos pretos da periferia do Brasil. Não, não são invisíveis, são de carne, osso, alma e sangue escorrendo na calçada. Matando a queima-roupa, sem perguntar o nome, o numero do CPF, o nome do pai, o nome da mãe, débito ou crédito. Basta estar na rua e carregar a cor preta na pele que é suspeito número um, de crime algum. Estão ferindo o coração de mães, como aquela que guardou o bolo de aniversário do Rogério na geladeira para não derreter, para comer mais tarde, depois do parabéns. Daqui a pouco, ela vai aparecer na televisão de novo, soluçando, pedindo justiça e nada mais. Como Pedro Pedreiro, que não vem, que não vem. A nota pé, a nota seca, vai informar que os policiais foram afastados do serviço de rua e que tudo vai ser apurado. Vai nada, a gente sabe. E amanhã vai ter outro Rogério morrendo de susto, de bala ou vício, caindo sangrando na calçada esburacada de um bairro que não está no mapa. E o governador vai aparecer ao vivo e em cores dizendo que esta não é a norma da policia, que repudia o ato, prometendo apuração e julgamento dos culpados, que vão responder pelos seus atos. Vão nada! O boi já está dormindo.

Fugir pra onde? Só se for pra Pasárgada, onde sou amigo do rei. Quem sabe fugir pra Maracangalha de liforme branco? Fugir como? A pé, de carro, de ônibus, de avião, bicicleta ou caminhão? Quem sabe eu vou pegar aquele velho navio? Pensei, pensei, peguei o mapa mundi, olhei, olhei. Eu não tenho para onde ir. Quem sabe eu vou pra lua, eu mais minha muié. Lá, construir um ranchinho todo feito de sapé. Faça sol ou faça chuva eu vou fugir, nem que seja na lógica do pensamento. Olho em volta e vejo tantos bens materiais, meus discos e meus livros. Olha, pensando bem, eu só deixo a minha São Paulo no último pau de arara.

SEGUE O SECO

Muito me impressiona o mandacaru desde Vidas Secas, desde os retirantes de Portinari. Aquele que quando flora lá na seca é o sinal que a chuva chega no sertão. Tenho um em casa há mais de dez anos. Deu flor apenas uma vez e nunca mais, nunca soube porque e sempre espero ao menos uma, tão bela, quando chega a primavera. Sei que o mandacaru não gosta de água, rego a cada quinze dias. Isso é que me impressiona, o viver sem água durante tanto tempo. Nesses dez anos e pouco, ele cresceu uns vinte centímetros. Pelas minhas contas, lá pelo ano 2030 vai chegar ao teto e ai não saberei o que fazer com ele. Ou comigo. Faça sol, faça chuva, ventania branda ou vento bravo, o mandacaru é sempre o mesmo. Não amarela, não balança, não murcha. É um forte. Desde o início da pandemia, da quarentena, do confinamento, ele é o mesmo. Não importa se tem flexibilização, jogo sem público, gente com máscara, jovens nos bares do Leblon, álcool gel nas mão, laranjas lavadas com água e sabão. Com o mandacaru não tem surpresa. Só isso.

BREGA & CHIQUE

De tempos em tempos, cinco meses depois, cai o brega no meu colo. Eu preciso te falar, te encontrar de qualquer jeito, pra sentar e conversar depois de andar de encontro ao vento. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, e na pele quero ter, o mesmo sol que te bronzeia. Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer, entre no meu carro na estrada de Santos e você vai me conhecer. Fuscão preto, você é feito de aço, fez o meu peito em pedaço, também aprendeu a matar. Hoje eu acordei com saudades de você, beijei aquela foto que você me ofertou, sentei naquele banco da pracinha só porque foi lá que começou o nosso amor. Em vez de você ficar pensando nele, em vez de você viver chorando por ele, pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não, não liga pra ele. Eu lavo e passo, sirvo a mesa e faxino, aprendo e te ensino, posso até dirigir, comprar um táxi só pra lhe servir. Deixo de ser coruja pra ser sua cotovia e só viver de dia pra você ser feliz. 

[ilustração/Obra de Georgia O’Keeffe]

[Músicas citadas: Um dia de domingo, As curvas da estrada de Santos, Fuscão Preto, A praça, Pense em mim, Mas I love you]

SENHORES PASSAGEIROS!


Fugir pra onde? Só se for pra Pasárgada, onde sou amigo do rei. Quem sabe pra Maracangalha? E se a Anália não quiser ir, eu vou só. Fugir como? A pé, de carro, de ônibus, de avião, bicicleta ou caminhão? Quem sabe eu vou pegar aquele velho navio? Pensei, pensei, peguei o mapa mundi, olhei, olhei. Eu não tenho para onde ir. Quem sabe eu vou pra lua, eu mais minha muié. Lá, construir um ranchinho todo feito de sapé. Faça sol ou faça chuva eu vou fugir, nem que seja na lógica do pensamento. Olho em volta e vejo tantos bens materiais, meus discos e meus livros. Olha, pensando bem, eu só deixo a minha São Paulo no último pau de arara.

A GALERA

Sexta, sábado, domingo? Que dia da semana eu vou criar coragem e sair às ruas? Trombar nas pessoas, sentar lado a lado no ônibus, perguntar se ele passa na Paulista, responder que horas são, tossir, espirrar, abraçar, beijar. Eu tenho medo de viver o velho normal. Entrar no elevador já cheio e lembrar daquele velho anúncio do desodorante Van Ess: sempre cabe mais um. Quando vou voltar ao Itaquerão com Clarice e ouvir ela gritando bem baixinho vai, timão! Que dia vou voltar ao fogão domingo cedo pra prepar aquele couscous marroquino pros amigos, que vão chegando e chegando e enchendo a sala da minha casa? Que dia vou pegar o primeiro avião com destino a felicidade? Que dia vou voltar a Vrises, aquele povoado no interior da Grécia onde morei, onde colhi abricôs e limões sicilianos no pé? Será que vai dar tempo de voltar a fotografar as pessoas no metrô, como faz minha amiga Patrícia Mesquita? Sabe de uma coisa? Quero espiar as bancas de jornal, comer um pastel de feira, quero comer um pedaço de abacaxi nos carrinhos de frutas de Higienópolis, quero caminhar até a Livraria Martins Fontes e comprar a nova Edição do livro Admirável Mundo Novo. 

[ilustração/ Obra de Antonio Berni]

PRELÚDIO

Hoje eu não vou sair de casa não. Quero preguiça, ajeitar o altar, raspar a parafina  acumulada, renovar a vela, riscar o fósforo. Perdemos Dom Pedro Casaldáliga, perdemos Aldir Blanc, Nirlando Beirão, Moraes Moreira, Enio Moricconi, Chica Xavier, Gilles Lapouge, Antônio Bivar, Rodrigo Rodrigues e outras cem mil pessoas neste 2020, o ano que devia terminar logo. Hoje me resta ir pro sofá, pra rede, pro colchão. Molhar as plantas, catar as coconilhas escondidinhas nos galhos, passar azeite nas folhas de ficus para que elas sobrevivam brilhantes, firmes e fortes. Hoje é domingo, vou ficar distante do noticiário, ao menos uma vez na semana. É domingo aqui e já quase segunda no Vietnã. Hoje é dia de escutar o Jardim Secreto de Claudio Santoro, os cantos afro de Matheus Aleluia, hoje é dia de ouvir Hamilton de Holanda e Mestrinho interpretando Drão e o Trem das Onze na sanfona e no violão. Drão, os meninos são todos são e eu não posso ficar nem mais um minuto sem você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Se eu perder esse trem que passa agora às onze horas, só amanhã de manhã. 

CEM MIL

Será que somente eu estou trancafiado dentro de casa? Será que todos estão lavando mamões e passando paninho com álcool no saquinho do Tio João? Será que tem gente esperando as sementes de espinafre brotarem? Será que alguém vê a Julia Duailibi dar bom dia para todos às seis horas da manhã? Tem ser humano respirando o ar de São Paulo sem máscara? Quem poderia me dizer quais são os livros expostos na vitrine da Livraria da Travessa? Quem poderia me trazer uma coxinha da Cristallo? Quem poderia comprar uma muda de hortelã no Supermercado Madrid? Quem poderia pegar o livro do Helio de Almeida que está na portaria dele em meu nome? Será que vou virar bolor?

[ilustração/Obra de Oswaldo Goeldi]

OS PÁSSAROS

Hoje eu não vou sair de casa para enfrentar o coronavírus. Não quero encarar aqueles pássaros assustadores de Alfred Hitchcock. Melros enfurecido com a presença do ser humano, todos pretos, que vão e voltam e bicam e não se satisfazem. O vírus pode estar escondido numa árvore, num banco de ônibus, no teclado de um caixa eletrônico do Itaú Personalité, do Bradesco Prime, pode estar escondido na maçaneta do banheiro do Shopping Higienópolis, no corrimão da escada rolante da Galeria do Rock. Os melros a gente ainda enxergava, protegia a cabeça com as mãos quando eles vinham. O vírus só vi na televisão. Não há bala de revólver que o mata. Não há um pedaço de pau, uma pedra, um soco que o derrube. Fecho as janelas porque ele voa e pode entrar, lavo as mãos com água e sabão porque ele pode grudar. Coloco máscara porque ele pode sorrateiramente entrar pelos sete buracos da minha cabeça.   

ACABOU!

O mundo virou uma zona federal depois que um vírus surgiu no longínqua Wuhan e foi se espalhando pelo mundo afora, se alastrando pela Ásia, África, Américas e Oceania, chegando aos Yanomamis, chegando a Brasilândia, a Suazilândia. Abre, fecha, abre com restrições, libera, proíbe, fecha novamente. Alguns idosos ainda continuam confinados em casa, muitos não. Vejo um circulando pelas ruas de São Luiz do Maranhão, mão no bolso, sem máscara, cigarro no canto da boca. Da minha janela vejo que onde não havia gente, hoje há. Os ônibus passam com pessoas cochilando, cabeça encostada no vidro, nada de respeitar as normas de higienização. A máscara virou a vacina. A National Geographic dá na capa a Retrospectiva 2020, como se o ano tivesse acabado. Enquanto isso, Beirute vai para os ares. O haitiano estava certo: Acabou!

O VELHO NORMAL

Lavei muitas panelas, reguei muitas plantas, tomei muitos capuccinos, coloquei muitas roupas na máquina, passei muito aspirador, li muitos livros, li todas as revistas, organizei as fotografias, fotografei lá fora pela janela, vi o Papo de Segunda, vi o Pedro no Irã, o Emicida no Roda Viva,  ri com o Diário de um Confinado, torci pela Elisa na Totalmente Demais, passei Cif nos porta-retratos, fiz gelatina, amassei banana com aveia, lavei laranjas, lavei limões, tomates folhas de couve, passei um paninho com álcool nos ovos, escrevi crônicas pra Carta Capital, escrevi um novo capítulo do meu livro, assisti lives e mais lives, conversei com meus irmãos pelo Skype, com os meus filhos e netos pelo Zoom, vi o Marcio Gomes explicando o mapa da pandemia, ganhei um vira-lata chamado Canela, recebi centenas de parabéns virtuais, gravei mensagens de voz, fiz reuniões virtuais, lavei máscaras com Protex, cansei.  

FINALMENTE CHEGOU O DIA DA VACINA

Caiu numa segunda-feira, dia 29 de fevereiro de dois mil e vinte e pouco, bem no aniversário de noventa anos do Sergio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar. Minha aldeia acordou aliviada. Os mais velhos abriram as janelas, respiraram fundo deixando o vento tropical entrar com tudo. 

Máscaras aos milhões foram jogadas no lixo, no chão, dos janelões. Máscaras brancas, pretas, xadrez, do Fla, do Flu, do Hello Kit.  Soldados do Exército foram recolhendo uma a uma e jogando em caminhões verdes-olivas que saiam em comboio para os aterros sanitários.

Uma 1664 estupidamente gelada foi aberta no Café Saint Sévérin, no número 3 da Place Saint Michel, ao mesmo tempo que uma Devassa trasbordava espuma na esquina de Prudente com Vinícius de Moraes. 

O frescobol voltou, a galera ao Itaquera voltou, o grito de gol voltou. Não se ouviu mais na televisão os novos números de infectados, os novos números de mortos, se a curva subiu ou desceu. Não se falou mais em assintomáticos, em comorbidades, em covas coletivas, em respiradores, em óbitos. 

Abriram os teatros cheirando a mofo, os cinemas cheirando pipoca, as academias enferrujadas e as barbearias com ninhos de rato. Acenderam-se velas nas igrejas e catedrais, o sol iluminou os vitrais e promessas foram pagas. 

Os motoristas buzinaram, os ciclistas desviaram das poças, os pedestres chutaram latas. O galo cantou, o grilo grilou, cachorro latiu, o gato miou, o passarinho cantou, a cigarra zuniu, papagaio falou e a girafa? A girafa não fala.

Eles perderam a ceia de Natal, o panetone, aquele quentão de São João, perderam a Páscoa, coelhinhos e chocolates. Perderam o dia das mães, o dia dos pais, o dia dos mortos, o Grand Prix, perderam a São Silvestre perderam a parada LGBT+, perderam a graça.

Os velhinhos recitaram Drummond: E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?

E cantaram na chuva: Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia. Como vai proibir quando o galo insistir em cantar. Água nova brotando e a gente se amando sem parar. 

Os parques floriram, os sabiás cruzaram, os esquilos se multiplicaram, os chorões brotaram, a grama cresceu, os patos chocaram. 

As pessoas se beijaram nas ruas como se fosse esta noite a última vez. Dentro dos meus braços, os abraços foram milhões de abraços. Apertado assim, colado assim, calado assim, abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim.

Tudo isso, depois da picada.

[Obras citadas: O som dos bicos (Geraldo Amaral e Renato Richa), José (Carlos Drummond de Andrade), Besame Mucho (Consuelo Velásquez) e Chega de Saudade (Tom e Vinícius)]

[ilustração/Obra de Marc Chagall]

O DIA DO ESPANTALHO

Passei o dia ouvindo Sérgio Ricardo. Empilhei todos os seus discos e fui escutando um a um, como se tristeza não vivesse fim. Ainda não acabei, hoje continuo, até chegar ao Ponto de Partida. Quando fui caminhar, dar voltas em volta do meu prédio, ele já estava morto. Andando a passos apressados, fui lembrando das relíquias, todos os seus discos, um ainda em vinil, os dois fascículos da História da Música Popular Brasileira, seu livro Quem quebrou meu violão, seus filmes. Não saia da minha cabeça Alceu cantando A Noite do Espantalho. Nunca foi pop, nunca se entregou porque não era passarinho pra viver lá na prisão. Quase piso na frágil casquinha de ovo caída no chão do meu caminho, ainda suja de sangue, sinal de que nasceu mais um passarinho no jardim do meu prédio. Procurei, procurei mas não encontrei o ninho em meio a tantas árvores, galhos, folhas secas, verdes e flores. Pensar pode e eu pensei muito nesta manhã de sol, céu aberto e azul, nenhum sinal de chuva, água que tanto precisamos. O dia perdeu a graça. Eu queria pedir a vocês um pouco de lucidez para ouvir o que eu vou cantar. Silêncio. Vocês ganharam! Vocês ganharam! Viva Sérgio Ricardo!

O QUE É QUE VOCÊ TEM NESSA CABEÇA, IRMÃO?

Você que não acredita muito nesse tal de coronavírus. Você que se nega a usar máscara sabendo que nunca vão te multar nas paradas onde anda. Você que nunca comprou sequer um álcool gel daqueles bem pequenininhos. Você que na primeira hora pediu uma receita ao seu médico e comprou logo seis caixinhas de Reuquinol. Você que acha que a TV Globo é uma funerária. Você que usa máscara no queixo, dependurada na orelha ou no bolso. Você que não entende quando a televisão diz esses tempos que estamos vivendo ou quando tudo passar. Você que acha graça quando vê escrito nas redes sociais #fiqueemcasa. Você que levanta, anda, circula sem nada pra fazer na rua. Você que tosse, respira, gargalha em cima de qualquer um. Você que não lava as mãos. Você que não passa sabão nas laranjas, nem mesmo os limões. Você que vai pra porta do Palácio da Alvorada ou pros bares do Leblon. Você que não se interessa em saber quantas pessoas foram infectadas ou quantas pessoas morreram nas últimas 24 horas. Você que rasga multa. Você que tomou vermífugo pra evitar a doença. Você que se lixa para o vírus nas aldeias indígenas. Você que ainda acredita na gripezinha. Você que ainda grita mito! Você que votou no Bolsonaro. O que é que você tem nessa cabeça, irmão?

O TRABALHO

Eu estava brincando de cabana com o meu primeiro filho quando, de repente, olhei o relógio, sai da brincadeira, fui tomar banho e me aprontar. Era era pequeno ainda, ele já tinha ido na escola de manhã e feito os deveres da escola, logo depois do almoço. O meu trabalho só começava bem no final da tarde, se não me falha a memória, no oitavo andar da Avenida Engenheiro Caetano Álvares. Todos os dias, neste período da tarde, costumava brincar com os dois, nessa época eram dois, o Julião e a Sara. Nossas cabanas eram muito bacanas, de dar inveja. Ali dentro sonhávamos com os clássicos da literatura juvenil: Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, As Aventuras de Peter Pan, Simbá, o Marujo.Vivíamos com Alice no País das Maravilhas. Nossas cabanas tinham teto de cobertor xadrez e um puxadinho que saia do beliche e ocupava parte do quarto deles. Eram cabanas misteriosas e quando entrávamos, iluminávamos com duas lanternas grandes. Cada canto tinha um segredo, caixinhas de madeiras, segredos guardados a sete chaves. Todo dia, no auge da brincadeira, dava a hora de eu ir embora, mergulhar no noticiário da América Latina, do Oriente Médio, da América do Norte, da Oceania, até tarde da noite. Um dia, quando estávamos no auge da brincadeira, o meu filho olhou nos meus olhos com uma cara de tristeza e lamentou: “pai, por que você não vai trabalhar só no dia que tem notícia?” Hoje amanheci com essa pergunta do Julião na cabeça, dita lá no início dos anos 1980. 

 

O OLHO DA RUA

No dia em que completei exatos quatro meses confinado dentro de casa, sai de automóvel para ver a cidade, uma volta rápida por ruas ainda esburacadas, sinais piscando desorientados. Senti tontura, apesar de São Paulo não ser aquela coisa engarrafada, poluída, tão suja. Me pareceu meio fantasma, não por respeito ao confinamento, mas porque era domingo e domingo, pensando bem, a cidade é mesmo assim. Apostava no meu susto, no meu espanto, diante de tamanha confusão. Mas praticamente nenhuma. O comércio estava quase todo fechado, bares e restaurantes abertos, quase vazios, sem graça. Vi máscaras de todos os tipos e cores, muitas pessoas sem elas como se nada estivesse acontecendo no mundo, Placas improvisadas de aluga-se e passa-se o ponto dependuradas em portas de aço. Minha cidade parece que parou, que o sangue de sal de frutas não ferve mais no copo d’água. Voltei para minha casa como um pássaro que volta para o seu ninho. Estou preferindo aqui.

[ilustração/Obra de Edward Hopper]