SIMPLES ASSIM

Era mais ou menos isso. Ele descia a pé a Rua Grão Mogol, virara à esquerda e chegava ao Bairro dos Funcionários. Era ali que estava instalado há décadas, o Armazém Colombo, de uma família de portugueses, claro. Chegava, cumprimentava o dono, ia até o balcão e pedia um quilo de arroz. Ok, um quilo de arroz. O dono ia até o saco que ficava na entrada do armazém e mergulhava nos grãos uma concha de alumínio, abria o saquinho de papel kraft e, com maestria, sem derrubar um grão sequer, enchia o saco. Levava até a balança Filizola vermelha instalada em cima do balcão, ao lado da caixa registradora National, a NCR. Quase acertava na mosca o quilo certinho. Às vezes colocava mais um pouquinho para completar, ora retirava um tiquinho esperando o ponteiro marcar um quilo exato. Dobrava as bordas de cima e dizia o preço. Ele retirava do bolso da calça algumas notas de cruzeiros, pagava, agradecia e ia embora, subindo a Grão Mogol. Hoje, chegamos no supermercado para comprar arroz e encontramos: arroz agulhinha, arroz parboilizado, arroz integral, arroz tailandês, arroz com jasmim, arroz negro, arroz arbóreo, arroz basmati, arroz cateto, arroz vermelho, arroz glutinoso e arroz em saquinho. Vem a dúvida, acaba escolhendo um tipo e vai até o caixa. O senhor é cliente Mais? Vai querer o CPF na nota? Esse arroz está com desconto. Já baixou o aplicativo do Pão de Açúcar? Lembra a senha? Quer sacolinha? Débito ou crédito? Socorro! Quero pagar em cruzeiros!