A DAYSE DO ALMOXARIFADO

Eram seis. A turma subiu animada no ônibus Vila Anastácio, quase em frente ao Oba Hortifruti, na Avenida Angélica. Em princípio, achei que eram estudantes sextando, voltando pra casa depois de uma semana de faculdade. Mas não.

Pelo papo alegre, logo percebi que a idade, entre 24 e 27 anos, não batia muito com a idade de estudantes. Fiquei logo sabendo o nome de cada um: Maria Eduarda, a Duda, Gisela, a Gi, a Vitória, o Mateus, o Fabio e o Du, provavelmente Eduardo.

A primeira frase que ouvi foi: “Então segunda a gente pergunta pra Dayse do Almoxarifado”. Achei que a palavra almoxarifado tinha sumido do mapa da juventude, sendo substituída por estoque. Mas não.

Eles conversavam sem parar e as palavras se misturavam em línguas como que de fogo. Eles estavam felizes e comentavam o dia que estava acabando:

– Meu, e aquela cliente da Duda que chegou com a tela toda detonada querendo trocar, de graça!

E o véio que o Fabio atendeu teimando que estava na garantia, mas não tinha nem a nota fiscal. E aí, Fabio?

– Sei lá, cara!

 Comecei a desconfiar que trabalhavam em alguma loja de conserto de celulares, computadores, coisa assim. Tipo estagiários, provavelmente.

Tudo virava assunto para aquela turma que se equilibrava de pé no ônibus Vila Anastácio, com as mochilas no chão, apesar de uns quatro lugares vazios.

Uma picape preta com o som estridente parou bem ao lado do ônibus esperando o sinal abrir e mereceu um comentário da Gi.

– Essa música é da hora!

Gi começou a se balançar, simulando uma dança qualquer. Ninguém deu muita bola e o assunto voltou ao trabalho.

– Aquele com capa rosa? É maior caro, meu!

– Mas é o que mais vende.

– Já vendi três, disse Mateus.

Inquietos, eles se balançavam pisando bem na junção da sanfona do ônibus, achando graça quando um quase caia, rindo de tudo.

– De repente, a gente podia rangar lá em casa. Tem bacon na geladeira e um pacote de macarrão, disse Fabio.

– Tem molho?

– Não. A gente passa no Dia e compra.

– E queijo ralado?

– Ah, cara, aí tá querendo demais.

Quando entramos na Rua Guaicurus, houve um grande zunzunzun.

– Vamos descer onde?

– Antes da Estação Ciência, depois ele só para pra lá do Mercado.

– Ele não para na Estação Ciência?

– O Vila Anastácio, não.

No segundo ponto da Guaicurus, um vendedor entrou pela porta do fundo, depois de acenar pro motorista, que deu o ok. Ele trazia nas mãos dois pacotes de Mentos de frutas. Se escorou na catraca e fez um pequeno discurso:

– Boa noite a todos! Estou sem trabalho há dois anos e vendo essas balas pra sobreviver. Quem puder me ajudar com dois reais, leva uma caixinha. Deus abençoe a todos.

Os três primeiros passageiros abordados não quiseram comprar, um virou a cara e dois fizeram sinal negativo com o dedo. Foi caminhando entre os passageiros até que chegou na sanfona do ônibus onde estava a turma. Eles começaram a catar as moedas nos bolsos e nas mochilas. Era preciso inteirar dois reais aqui, dois ali. Todos queriam Mentos.

Três compraram, o que deixou o vendedor feliz e mais falante: Muito obrigado! Deus lhe pague! Obrigado! Obrigado! Valeu!

– Vocês são estudantes? Perguntou o vendedor.

– A gente trabalha na Claro! Saiu quase em coro.

Quase chegando, fiquei sabendo onde a Gi, a Duda, o Mateus, o Fabio, o Du e a Vitória trabalhavam. Desci um ponto antes deles, que seguiram Guaicurus afora.

Fui caminhando pra casa pensando que essa viagem daria uma crônica, e me perguntando:

O que será que eles vão perguntar pra Dayse do Almoxarifado, na segunda-feira, quando chegarem na Claro?

 

REMÉDIOS

Eu ainda usava calças curtas, nem passava brilhantina, e ficava impressionado com a quantidade de remédios que os meus pais tomavam, todos os dias.

Logo de manhã, ele enfileirava uns quatro comprimidos, um ao lado do outro, cada um de uma cor, no pratinho onde comia mamão com açúcar.

Ele dava uma golada no Ovomaltine e engolia dois de uma só vez. Descascava o mamão, arrumava os cubos no pratinho, distante dos comprimidos que ainda faltava ingerir.

Comia uns dois pedaços e vinha a segunda dose de comprimidos, dessa vez com água e limão, recomendação médica.

A minha mãe era mais desorganizada do que o meu pai, mas tinha uma caixinha de prata onde guardava seus comprimidos que também tomava todos os dias.

Eu espiava aquela cena e ficava pensando, desde pequenininho, que meus pais eram doentes. Por isso, tomavam tantos remédios.

Era remédio pra controlar a pressão.

Remédio pra baixar o colesterol.

Remédio para dores musculares.

Remédio pra fortalecer a memória.

Remédio pra gripe

Remédio pros ossos.

Remédio pra diabetes, que o meu pai tinha, mas o mamão com açúcar de manhã, ele não abria mão. Bem como a goiabada cascão com queijo canastra, depois do almoço.

Eles guardavam esse arsenal dentro da primeira gaveta da cômoda, gaveta que filho nenhum podia mexer.

Além desses comprimidos, meu pai não tirava do bolso o Mistol com efedrina, que pingava no nariz de tempos em tempos, até ser proibido pelo Ministério da Saúde, para desespero dele, viciado.

Minha mãe era o Melhoral. Ela engolia um comprimido de Melhoral pra qualquer mal que sentia. Levava a sério o slogan Melhoral, é melhor e não faz mal.

Os remédios das crianças eram poucos, alguns nem eram chamados de remédio. Emulsão Scotch, óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura e Anti-Cárie Xavier.

Na nossa caixinha de remédios, minha mãe guardava também o Enteroviofórmio pra dor de barriga, o basilicão que esquentava e pingava nos meus furúnculos, a cera do Doutor Lustosa pra dor de dente, o mercúrio cromo pros esfolados, o colírio Moura Brasil, a pomada Minancora, o tubo de Anaseptil e um vidro de Maracugina, que minha mãe dava na colher quando estávamos da pá virada.

Os remédios dos meus pais faziam parte da nossa vida. Quando entrávamos no Jeep Willys pra viajar, a primeira coisa que um perguntava pro outro era:

– Tá trazendo os remédios?

Quando íamos na casa dos meus avós, eu percebia que eles também tomavam muitos comprimidos. O meu avô tinha um calendário colado na parede da cozinha com o nome dos remédios e os horários para serem tomados. Ele ia tomando e fazendo um X ao lado.

Minha avó era muito esquecida e ouvia, todo dia, aquela ladainha: Zizinha! O remédio! Se dependesse dela, a Bayer e a Pfizer tinham falido. Ela odiava remédio.

Só agora percebi que os meus pais não estavam doentes, estavam sim, velhos. Como eu agora, em volta das minhas caixinhas de Puran 25 mg, Reconter 15 mg, Plenance 10%, Ezentrol 10%, Plaquinol 15mg, sem contar o Verutex, o Advil, o Dorflex e os homeopáticos.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AMNÉSIA

“O Waze é um nome feio/Mas é o melhor meio/De se chegar.” Gilberto Gil

A minha mãe sabia o número do telefone de todo mundo. De suas irmãs, de uma tia torta, dos meus avós, dos vizinhos, o telefone da repartição do meu pai, do Colégio Marista, do Colégio Sion, do Armazém Colombo, da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, do cara que consertava a máquina de lavar roupas Bendix.

– Qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4767

– Qual é o telefone da Dona Celuta costureira?

– 2-6791

– E do meu avô?

– 2-3398

Está certo que os números eram somente cinco, mas ela respondia na lata, como se estive com um catálogo telefônico nas mãos.

Ninguém dizia que minha mãe tinha uma memória de elefante, mas tinha. Sabia o número de seu Alceu taxista, de seu Valdivino alfaiate, de dona Olímpia que fazia balas delícia, do doutor Aldo, nosso médico, do Depósito de Águas São Lourenço e de Dona Elvira, que fazia salgadinhos para as festas. Era só perguntar que ela dizia.

Hoje, se tirar o celular das mãos das pessoas, ninguém mais sabe o telefone de ninguém. Já fui vítima de roubo de iPhone e fiquei num mato sem cachorro. Não sabia o número do telefone da minha casa, da minha mulher, de nenhum dos quatro filhos.

Lembrei da minha mãe que sabia o telefone da Rádio Patrulha, do Corpo de Bombeiros e da Ambulância, que chamávamos de Assistência. Minha mãe era incrível.

Hoje, deixamos a memória de lado. Não é preciso saber mais número algum, nem mesmo a tabuada. Outro dia eu dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos e a caixa do supermercado teimou que tinha de voltar dezesseis e setecentos. E eu achando quer dezessete e setecentos.

Até dois mais dois, as pessoas colocam na calculadora do celular pra saber se são quatro ou cinco.

Com o endereço é a mesma coisa. Você sabe onde mora o seu maior amigo, sua maior amiga, seu colega de trabalho? Saber você pode até saber, mas qual é o nome da rua, o número da casa, do apartamento? E o CEP?

De repente, já perceberam? Os taxistas tiveram, todos eles, um surto de amnésia. Peguei um táxi na porta do Sírio-Libanês e pedi pra ir até a Paulista, que é praticamente na esquina. O motorista não sabia o caminho. Perguntou o número e já abriu o Waze. Quando chegou na Paulista, eu pedi pra seguir até a Doutor Arnaldo, e ele titubeou, como se fosse um meme do John Travolta: É pra lá ou pra cá?

Como ninguém mais escreve carta ou manda convite de papel, pra que saber o endereço das pessoas? Nem mesmo o e-mail a gente precisa guardar. É só começar a escrever o nome na tela que ele se forma rapidinho.

Andando pela Rua Aurélia, na Lapa, perto do Pão de Açúcar, eu achei um papel cor de rosa jogado no chão. Achei que era uma listinha de supermercado, que adoro ver, peguei. Não era, era uma espécie de Waze pré-histórico, que dizia o seguinte:

Pega o ônibus Terminal Grajaú.

Pega o trem sentido Osasco.

Descer: Estação Santo Amaro.

Pega o metrô Linha 5 Lilás.

Descer Estação Chácara Klabin.

Pega o metrô linha 2 Verde sentido Vila Madalena.

Descer: Vila Madalena.

Pega ônibus Hospital das Clínicas.

4 paradas.

Descer: Rua Aurélia

Se eu encontrei o papelzinho cor de rosa jogado numa calçada da Rua Aurélia, é um bom sinal, certeza de que a pessoa chegou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU BRASIL BRASILEIRO

O que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. E a corrupção continua solta por aí

1 –

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo que Brasil ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os lares, de leste a oeste, de norte a sul, como se fosse a galinha azul. Durante meses, assistimos a curtos depoimentos de brasileiros, vindos de lugares que nem imaginávamos existir.

Pintópolis, MG

Carrasco Bonito, TO

Anta Gorda, RS

Passa e Fica, RN

Em meio a um bombardeio diário de noticias e fake news, em todos os telejornais, havia informações de uma conexão entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”.

Em oitenta por cento das respostas, ouvíamos brasileiros, em movieselfies gravados por eles mesmos, com os celulares na horizontal, pedindo o fim da corrupção. Era comum também lamentos de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, dos cadeirantes, enfim, do seu povo.Agora, quase um ano depois, o que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. A corrupção continua solta por aí, escondida debaixo do tapete ou, quem sabe, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, sem um pedaço de esparadrapo e sem médicos, já que os cubanos se recusaram a fazer parte de um governo com um pé no fascismo, deixando milhares e milhares de brasileiros nas mãos de Bolsonaro, ao Deus dará.

O lixo está nas ruas e não há nenhum projeto de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo nas filas, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando.

Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos mesmos brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E aí, está satisfeito?”


2 –

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada.

Fechada por quê?, perguntou uma senhora. Manifestação! Greve!, respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Com o nosso dinheiro! Eles não têm o que fazer?

Todos tinham suas opiniões formadas, mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve, nem queria saber. Um último arriscou dizer: “Por que não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angélica a pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava normalmente. Os resmungos continuaram por algum tempo.

Naquela noite, todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava.

O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso aí. Não sei se entenderiam. Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia.


3 –

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.

Argumentam que, quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ONGs de esquerdalhas.

Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as flores do jardim da nossa casa para dar lugar a um prédio de 18 andares. Quando a chuva vem, a água que regava as roseiras vai pra enxurrada que enche a cidade e vão parar nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade.

Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos carros e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada.

Mosquitos, pets, plásticos, copos, tábuas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.

O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra, viveu muitos séculos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CARTA ABERTA AO CRONISTA ANTONIO PRATA

Quisera eu esquecer o B, esquecer de vez, pra nunca mais. Quisera eu acordar de manhã, pisar na Folha sobre o capacho, ignorar O Globo na caixa de cartas, sequer piscar pro Estadão. Ir direto pra rede que tem na varanda da minha casa, pegar a Visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ler as últimas doze páginas que ainda me restam.

Quisera eu ignorar as frases imbecis do B, observar o crescimento das couves, do alecrim, da sálvia e do tomilho limão que plantei na hortinha que temos aqui. Esperar o beija-flor que chega voando toda manhã, já sugando a água com açúcar que pinga do bebedouro, me olhando desconfiado, partiu!

Quisera eu não ver mais nem a fotografia asquerosa do B, escolher um entre os muitos discos organizados em caixotes da Tok Stok no chão do meu escritório. Pegar o Domingo, passar uma flanela no vinil e ouvir Caetano cantando que menina é aquela que entrou na roda agora, ela tem um remelexo que valha-me Deus Nossa Senhora.

Quisera eu nem mais pensar no B, deixar os dias passarem devagar numa operação tartaruga, com tempo para ir até a cozinha e preparar um café de cápsula, adoçar só com um pouquinho de açúcar, contrariando os conselhos que o doutor Drauzio Varella me dava quando eu trabalhava no show da vida.

Quisera eu não ouvir mais ninguém falar do B, ter tempo de escolher o próximo livro, Os anos felizes, o diário de Emilio Renzi e confessar minha paixão por Ricardo Piglia. Ter tempo de pegar o iPhone e ligar pra Travessa do IMS pra saber se o número de agosto da Quatro Cinco Um já chegou.

Quisera eu ao menos uma vez, não ligar a televisão no Jornal Nacional às oito e meia em ponto, passar batido sem notícias do B, mudar de canal, ver o Decora, o Perto do Fogo, ver aquela receita de chuchu ao forno da Rita Lobo, no GNT.

Quisera eu nunca mais ouvir a voz do B, ter tempo e tranquilidade para dobrar bem dobradas minhas camisetas, tirar as bolinhas das blusas de lã e enrolar minhas meias coloridas arrumando-as numa cestinha de ferro que comprei faz tempo na Etna.

Quisera eu esquecer de vez o B, preparar o meu almoço, uma moqueca de cação comprado no Mercado da Lapa, jogar o leite de coco, picar a cebola, o tomate e o pimentão. Esparramar por cima o coentro, porque eu gosto mesmo é de comer com coentro, eu gosto mesmo é de estar por dentro.

Quisera eu deletar os B do Twitter pra não ter mais notícias do zero um, do zero dois, do zero três, quiçá do zero à esquerda. Pegar a bola de couro e descer até a quadra pra jogar um bolão com o João Trindade, craque do Colégio Ofélia Fonseca.

Quisera eu ignorar o B, percorrer correndo corredores em silêncio, perder as paredes aparentes do edifício, penetrar no labirinto, um labirinto de labirintos dentro do apartamento.

Quisera eu não pronunciar mais o nome do B, pegar o primeiro avião com destino a felicidade, pousar em Maceió, seguir até São Miguel dos Milagres, comer uma tapioca, provar da água salgada do mar morno e perguntar de quem é esse jegue?

Quisera eu, Antonio Prata, poder ler os originais da biografia do Drummond que, sei, está sendo escrita, chutar a pedra no caminho, já que a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E para aquele que é sem nome, que zomba dos outros, aquele que faz versos, que ama, protesta, perguntar: E agora, José?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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7 MESES E 3 HISTÓRIAS

A besta humana

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios Apesar de Você.

A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tchauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia.

A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedista.

A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

A CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação.

O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento.

Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol.

O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama o WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

O porta-voz

O porta-voz tem carta de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos.

Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar.

Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava.

Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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FAKE NEWS

Acabo de ler no Libération que tossir sem parar, quando você sente pontadas no coração, não evita ataque cardíaco. Sim, de repente, no primeiro sintoma – ou não – de um enfarte, os franceses começaram a tossir sem parar. A reportagem do Libération, no entanto, alerta que se trata de uma fake news.

Esqueça! Quando sentir aquela primeira pontadinha no peito, não adianta nada sair tossindo por aí.

Nos últimos tempos, não está nada fácil ler jornais e revistas e separar o que é verdade do que é mentira. A gente desconfia de tudo, inclusive da capa da Veja com essa história dos terroristas brazucas de um grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre.

Nas redes sociais, a gente fica com um pé atrás até mesmo com fotos. É só bater os olhos numa que vem logo aquela dúvida: não seria montagem?

Hoje fiquei sabendo:

É falso que abrir perfume com o ar-condicionado ligado provoca incêndio dentro do carro.

É falso que vídeo mostra deputado que chamou Moro de ladrão colocando dinheiro na cueca.

É falso que Padre Marcelo foi empurrado após atacar mulheres.

É falso que haja mais de 400 casos de doença causada pelo consumo de tucunaré no Brasil.

Fake news sempre existiram, mas não com esse nome, aqui no Brasil. Quem será que espalhou, um dia, que manga com leite faz mal? E olha que não tinha rede social pra gente compartilhar e multiplicar por vinte mil essa história.

De boca em boca, silenciosamente, alguém colocou na cabeça do brasileiro que manga com leite faz mal. Faz mal, não. Mata! Ninguém nesse pedação de terra tinha coragem de arrancar a fruta do pé e misturar com o leitinho da vaca que pastava sossegada no campo. A não ser um amigo meu que, rebeldezinho que era, aos seis anos de idade fez um coquetel de leite com manga, deixando todos na casa desesperados.

De meia em meia hora, o menino dizia: “Já passou uma hora eu ainda não morri, já passou uma hora e meia e eu não morri, já passaram duas horas e eu ainda não morri”. E a família, enlouquecida, esperando ele bater as botinhas a qualquer momento.

Esse meu amigo nunca morreu e já passou dos setenta.

Mas não era só de manga com leite que viviam as fake news do passado. Minha mãe, por exemplo, colocou na cabeça dos cinco filhos que sair do banho e pisar fora do tapete, no chão frio, entortava a boca. Quando ela via um de nós correndo do banheiro pro quarto, depois do banho, descalço, gritava:

– Você vai ficar que nem seu Moacir!

Seu Moacir era um homem esbelto, dois metros de altura, que trabalhava no Serviço de Meteorologia com o meu pai. E tinha boca torta. Ele era muito engraçado, mas nunca tivemos coragem de perguntar por que tinha a boca torta. Minha mãe jurava que era porque pisou no chão frio ao sair do banho, na sua casa lá no bairro da Ressaca.

E quando a gente brincava de ficar vesgo? Adorávamos juntar os dois olhos, quando a mãe da gente aparecia e dizia:

– Não faz isso porque, se bater um vento, você fica caolho pro resto da vida!

Tudo fake news!

E não eram poucas. Eu acreditava que as pessoas têm aquelas manchas roxas no rosto porque a mãe tomou vinho durante a gravidez. Fake news!

Quantos dentes de leite eu não coloquei debaixo do travesseiro, quantos dentes de leite eu não joguei no telhado, esperando a fadinha trazer uma grana boa pra mim?

Quantas noites de Natal eu não fiquei segurando os olhos com os dedos pra eles não fecharem, esperando Papai Noel chegar?

Tudo fake news!

Algumas fake news acabam caindo por terra, desmoralizadas. Mas outras não, elas sobrevivem anos e anos. Ontem, por exemplo, ouvi de um motorista de Uber, que jurou de pés juntos, que o filho do Lula é dono da Friboi.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

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EU NÃO FUI

Vivíamos uma confusão urbana, suburbana e rural naquele verão de 1969, quando começaram a chegar as primeiras fotografias, radiofotos rajadas mostrando kombis floridas, impalas conversíveis, camionetes estropiadas e gente a pé.

Com seus jeans desbotados, camisetas puídas, all stars maltrapilhos, jujus, balangandãs coloridos pelo corpo e sonhos na cabeça, o destino era uma fazenda perto de White Lake, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Ali, vacas leiteiras ruminavam fenos em 600 acres e debaixo de muito sol. A meteorologia prometia chuva naquele fim de semana, naqueles três dias de paz e música.

Um único anúncio no New York Times fez com as pessoas corressem às lojas de discos e comprassem, por um punhado de dólares, o direito de passar ali trinta e seis horas ouvindo Joe Cocker cantando With a Little Help From MyFriends, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Grateful Dead, The Who, Creedence Clearwater Revival, Santana, Crosby, Stills, Nash & Young.

O estado de calamidade pública foi decretado quando mais de 500 mil pessoas já estavam ali reunidas, envoltas em cobertores e muita lama, banhos de rios, algumas nuas, como se fosse uma grande balbúrdia

Com os cabelos desgrenhados, os corpos e as mentes brilhantes, os hippies já tinham se espalhado pelo mundo, falando como quê de língua de fogo para que todos entendessem como é viver como os passarinhos, livres, leves e soltos.

Eu já usava minhas calças vermelhas, meu casaco de general cheio de anéis. Já sonhava em ir descendo por todas as ruas, tomar aquele velho navio, eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus.

Eu não gostava do Alice Cooper e perguntava onde estava o meu rock and roll. Perdidamente apaixonado, ainda ouvia Márcio Greyck cantando Minha Menina.

E veio a chuva e vieram os relâmpagos, os trovões, quase tufões, e veio a lama, era a lama, era a lama. Depois chegaram as fotografias em branco e preto na Rolling Stone e coloridas na Life. E eu gastei o pouco dinheiro que tinha comprando essas revistas que guardo até hoje.

Um dia, voei para Amsterdã e, na Praça Dan, vi os últimos hippies curtindo os seus baratos ao som de Give Peace a Chance e All is Need is Love. Um dia cheguei a Copenhague e fui passar o dia fotografando Christiania, onde ainda havia um restinho de sonho, aquele que nunca acabou.

Hoje, eu sei que o futuro esperado que eu não dei, sei que é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais. Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NO MUNDO DA LUA

Mil novecentos e sessenta e oito parecia um ano que não ia terminar, mas num piscar de olhos, já estávamos em julho de 1969. Já tínhamos chorado a morte de Cacilda Becker, nos espantado com o desaparecimento de Judy Garland aos 47 anos e nos revoltado com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

London! London!

Havia uma emoção e uma tristeza no ar. Estávamos há seis meses remoendo o Ato Institucional número 5, tempo de prisões, de censura e tortura, amigos sumindo pra nunca mais. Estávamos tristes.

A emoção ficava por conta de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins se preparando para pisar na Lua pela primeira vez, naquele julho de 1969.

Cely Campelo já tinha tomado banho de lua, ficado branca como a neve.

Ângela Maria cantava Lua, oh lua, querem te passar pra trás. Lua, oh lua, querem te roubar a paz. Lua que no céu flutua, lua que nos dá luar.

Olhando a lua através de uma luneta, eu vi Jorginho passeando de lambreta. Fazia curvas, na contramão, e na garupa quem ia era o dragão. A lua tinha virado marchinha de carnaval.

Eu me lembro direitinho, que alguns meses antes do 19 de julho, a revista Veja, dirigida por Mino Carta, começou a publicar fascículos da Conquista da Lua. Toda semana, eu lia com atenção, ia colecionando e a contagem regressiva para o último fascículo ia coincidir com o homem chegando lá.

Eu me lembro vagamente de ver as primeiras imagens na televisão, em preto e branco e muitos chuviscos, de Louis Armstrong pulando no solo da Lua e fincando a bandeira americana por lá.

Não se falava em fake news, mas a maioria dos meus tios e minhas tias não acreditavam naquilo que estavam vendo com os próprios olhos.

– Isso é cenário, disse tio Carlinhos!

– Isso não é possível, isso não é coisa de Deus, disse um de nossos vizinhos.

Dois dias depois, a revista Veja chegou às bancas com uma radiofoto dos americanos na lua: Chegaram! Estava escrito na capa.

A revista Manchete saiu com um número especial e, encartado, um mapa de mais de metro, da lua já loteada. Um espertalhão pegou o mapa e saiu vendendo terrenos na lua, dando a escritura e tudo mais. E teve muita gente que comprou. O negócio só acabou quando ele foi preso.

Hoje, cinquenta anos depois, Gilberto Gil garante: Do luar não há mais nada a dizer, a não ser, que a gente precisa ver o luar.

Caetano talvez seja o que mais cantou a lua.

Lua de São Jorge, lua deslumbrante, azul verdejante, calda de pavão.

Lua, lua, lua, lua, por um momento meu canto contigo compactua, e mesmo o vento canta-te, compacto no tempo, estanca, banca, branca, branca.

Cinquenta anos depois, ainda maravilhado com aquela imagem em branco e preto, recorro-me aos versos de Gregório de Matos:

Eu já vivo tão cansado

De viver aqui na Terra

Minha mãe eu vou pra lua

Eu mais a minha mulher

Vamos fazer um ranchinho

Tudo feito de sapé

Minha mãe eu vou pra lua

E seja o que Deus quiser

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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VERDE E AMARELO

Tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança

Já tive uma verdadeira paixão pelo verde e pelo amarelo, juntos. Foi durante aqueles longos invernos que passei fora do país, numa época em que as notícias só chegavam dentro de um envelope verde e amarelo, escrito Via Aérea/Par Avion.

Descendo a escada do prédio onde morava, antes mesmo de colocar os pés no térreo, já via os envelopes verde-amarelo vazando pelo escaninho com o meu nome. Era sinal de que ali havia noticias frescas do Brasil.

Hoje, ninguém mais escreve cartas. E nenhuma papelaria vende mais envelope verde-amarelo. Mas sempre que vejo um, seja no fundo de um velho baú ou numa pasta perdida no tempo, eu me emociono.

Viajo no tempo e fico imaginando que ali dentro daquele envelope tem recortes do Jornal do Brasil, do jornal Opinião, poemas meus que saíam no Suplemento Literário do Minas Gerais, foto de um sobrinho que nasceu, outros que foram passar as férias em Camboriú.

Me lembro bem quando a música Camisa Amarela, de Ary Barroso, tocava no radinho de pilha dependurado no registro de água que ficava acima do tanque, enquanto Antônia batia a roupa.

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela
A Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia

Já torci muito pela seleção canarinho, mesmo naqueles anos em que não deveria estar torcendo. Gostava de ver em campo Amarildo, Didi caprichando na folha seca, Mané Garrincha sambando e Gilmar indo buscar a pelota na última gaveta. Torcia por Pelé dando socos no ar, Tostão correndo para abraçá-lo, Rivelino eufórico correndo em campo e Gerson pulando de alegria.

O tempo passou, o mundo mudou, a festa acabou. E agora? Agora eu tenho uma verdadeira ojeriza só de ver, mesmo que de longe, alguém com uma camisa amarela. Pra mim, é sinônimo de extrema-direita, de gente reacionária, de ‘somos todos Moro’, de ‘vai pra Cuba’, de ‘intervenção militar já’.

Não posso ver uma que me lembro do Frota, do Kim, do Roger, do Lobão, do Feliciano, da Joyce, dessa gente.

Hoje, tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança para quem quiser, quando eu não estiver mais aqui.

Pra terminar essa crônica, lembrei de uma velha expressão que ninguém usa mais, mas que nos dias de hoje, cai como uma luva: a gente se f**** de verde e amarelo!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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RUMO AO PARAÍSO

Eram oito horas da manhã, em ponto, quando a mensagem chegou pelo celular de uma ilustre passageira, sentada ao lado de um pintor. Deveria ser pintor porque usava um macacão todo respingado de tinta e tinha uma lata de Coralit entre as pernas.

Ela tirou o celular de uma bolsa vermelha com fivelas douradas e ouviu em viva-voz, na tonalidade máxima:

– Tô ligando pra avisar que a dona de hoje não é igual a de ontem. Essa de hoje é um pé no saco!

Clique. Ela desligou e enfiou o celular de volta pra bolsa. Ninguém riu, ninguém tossiu, todos fizeram cara de pastel. Os que cochilavam continuaram cochilando, os que jogavam paciência continuaram jogando paciência, os que olhavam pra fora, continuaram olhando.

Um boy, sentado ao lado do trocador, perguntou:

– Mano, onde você comprou esse seu tênis?

– Em Pirituba.

– Maneiro, nunca tinha visto dessa cor, cinzão!

Era um All Star novinho, cinza chumbo.

De pé, espio no celular da mocinha sentada, a mensagem que acabou de chegar:

– Cadê você?

Ela respondeu rapidinho:

– No ônibus!

Uma senhora entra meio aflita e pergunta para o motorista:

– Passa perto do metrô Marechal? O motorista fez que sim com a cabeça, ela pediu para avisá-la quando chegar, pegou o telefone e ligou:

-Mãe, estou no ônibus, indo pro metrô Marechal. Vou passar na farmácia e vou praí.

Não, mãe. Aqui não tem Drogajato. Aqui em São Paulo só tem Drogasil.

Ela desligou o celular e comentou baixinho com o motorista:

– É um remédio pra dor muscular.

O ônibus segue, uma moça incomodada com o sol cobre o rosto com uma bolsa preta de pano do I Simpósio de Ecologia e Conservação do Semiárido. Uma outra abre uma mochila da Fjällraven, tira um batom rosa e retoca os lábios. Um senhor cochila, quase deixando cair um imenso envelope do Laboratório Lavoisier, exame de imagem certamente.

O ônibus passa em alta velocidade, onde moradores de rua ainda estão enrolados em seus cobertores, ao lado de seus cachorros, debaixo do viaduto que os protege.

Ouço um papo entre duas senhoras, perto da porta.

– Tem dois dias que não dou mais comida pra ele. Agora é só ração. Acredita que ficou com raiva de mim? Nem olha na minha cara.

Fico observando o olhar de cada um que passa pela roleta. Alguns cumprimentam o trocador, outros fazem um sinal com a cabeça, outros passam batido. Mas todos observam quanto ainda resta de saldo no cartão que a tela ao lado anuncia. O olhar de espanto maior são os daqueles cujos saldos estão no fim. E o mês, ainda não.

Perto do parque da água branca, uma moça faz sinal pro motorista, parado no ponto. Ele espera ela chegar, abre novamente a porta e ela entra, meio esbaforida.

– Dá pra esperar um minutinho só, até minha filha entrar na escola? Ela olha aflita e respira aliviada:

– Pronto! Entrou!

Ela havia deixado a filha na porta da escola, mas não queria perder o ônibus. Sentou-se no primeiro banco, ao lado de uma outra passageira e comentou, pra ela e pro motorista:

– Mãe é foda!

Sobe gente, desce gente. Todos com os seus celulares nas mãos, ligados. Uns passam rapidamente pelo Instagram, outros leem mensagens de Bom dia, o Senhor esteja convosco, alguns cintilantes, emoldurados por rosas cor de rosa.

Ao meu lado uma senhora vê, uma, duas, três vezes, um vídeo em search, tipo GIF, tutorial ensinando a fazer um hambúrguer com alface tomate, pepino, maionese, carne moída e duas fatias de bacon.

De repente, o ônibus estanca num engarrafamento e a moça grudada na porta pergunta:

– Aqui é o Paraíso?

Vários passageiros respondem, ao mesmo tempo, que sim.

Ela fala alto:

– Motorista, pode abrir a porta pra mim? Eu vou descer.

O motorista da uma olhada pra trás e abre a porta. A moça desce rapidamente e segue pela calçada, rumo ao Paraíso.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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O PONTO VERMELHO E OUTRAS ESTÓRIAS

O culpado

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. E se cortou. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes a realidade de uma ficha. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória, aquela vitória que não veio. Não era bem aquilo que lhe informaram, aquilo que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos 45 minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio, sem a necessidade de VAR. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, aquele que todos julgavam ser o Todo Feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu numa ribanceira, num buraco fundo, difícil de sair. Hoje, ele vive numa espécie de inferno particular, em silêncio, como um autêntico mineiro. Se alimenta todos os dias de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: que cagada!

O ponto vermelho

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, embaixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão!, Cálice, e dá stop em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

A velhinha de Taubaté

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê Eu Vou. Ela foi em todas. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda uma selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando diz na televisão que não entende nada disso aí, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu, por exemplo, também não sei o que é déficit público”. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Não sabe, não tem a menor noção do que é The Intercept Brasil. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai ser justa e que a revista Veja virou comunista.

O manifestante

Já segurou todo tipo de placa. Fora Dilma e leve o PT junto. Vai pra Cuba. Vai pra Venezuela. Somos milhões de Cunha. Somos todos Moro. Intervenção Militar já! É aquele cara que vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Postou no Face aqueles famosos Eu Vou! e trocou suas fotos no avatar várias vezes. Já foi Aécio, já foi Cunha, já foi Moro, já foi Bozo. O segurador de placas tinha a revista Veja como Bíblia, vivia citando trechos de artigos fake e postando capas de Lula desmanchando, derretendo. Era assinante e agora está esperando apenas a assinatura acabar. Costuma nem tirar mais a revista do plástico e quando o porteiro do seu prédio diz que a sua Vejachegou, ele responde ‘depois eu pego’. O segurador de placas gastou muita caneta Pilot e muitas folhas de cartolina para escrever seus protestos. Suas fotos em manifestações ao lado de Frota, de Joice e de Kim foram compartilhadas entre amigos, o que o deixou feliz da vida. O carregador de placas está esperando uma nova palavra de ordem, vinda quiçá da Globo, seja qual for. Esperando, esperando, esperando, como se fosse um Pedro Pedreiro dos novos tempos.

Os desvalidos

O nome da cidade não importa. Pode ser Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, Sombrio, em Santa Catarina, Combinado, em Tocantins, Ressaquinha, em Minas Gerais ou Nova Iorque, no Maranhão. Triste é ver o posto de saúde sem um cubano de jaleco branco, sentado na sua surrada escrivaninha de madeira, conversando com os seus pacientes, o povo do lugar. Agora resta apenas uma mesa vazia, alguns frascos de vacinas vencidas num canto, um rolo de gaze quase no fim, um vidro de álcool misturado com água, um cheiro de acetona no ar. Onde havia conversa, há silêncio, onde havia vida, há risco. Um médico contou que ganhou uma galinha viva como recompensa por ser sido salvo de uma picada de escorpião, na porta do Bar e Lanches do Pereira. Outro ganhou seis ovos caipiras e um terceiro, um bode pronto pro abate. Depois que os cubanos foram embora, o posto de saúde existe apenas no nome. Alguns desavisados ainda chegam aqui para ser consultados e voltam pra casa sem perder a esperança de ver, um dia, a estrela voltar a brilhar no céu.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NOS TEMPOS DO DULCORA

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje

Quando eu era menino, no tempo do Gumex, do Simca Chambord, da Mirinda Morango e da coleção de flâmulas, o meu pai sempre dizia:

– No meu tempo, quando não tinha televisão…

Eu era criança, mas vivia intensamente a era da televisão, uma novidade. Era fã do Vigilante Rodoviário, da Rua do Ri Ri Ri, do Agarre o que puder, da novela Se o mar contasse.

E ficava imaginando como tinha sido a infância do meu pai sem o Pica-Pau, o Zé Colmeia. o Manda-Chuva, os Flintstones e os Jetsons.

Mas hoje, pensando nessas coisas, eu me lembro que o meu pai só se lembrava de não ter televisão, quando ele ainda usava calças curtas, escrevia a lápis e tomava Cremogema toda manhã.

Cansei de ouvir ele rezando essa ladainha e evitei, durante toda a vida, dizer:

– No meu tempo, quando não havia celular…

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje.

– Como assim, não tinha micro-ondas?, perguntou uma menina aqui em casa, outro dia.

Aí, sentei aqui no computador e comecei a enumerar, a fazer uma lista de algumas coisas que não existiam no meu tempo de criança.

Além do micro-ondas e do caixa eletrônico, não tinha cartão de crédito e a gente pagava tudo com dinheiro vivo ou cheque.

O automóvel não tinha cinto de segurança, vidro elétrico e, para abrir ou fechar, era na base da manivela.

Não tinha pedágio, a gente viajava sem ter de parar naquelas cabines e ficar sabendo que a cobradora chama-se Soraia.

No meu tempo, para acordar, tínhamos um despertador em cima do criado-mudo. Para calcular usávamos a calculadora, para se orientar, a bússola, para apontar o lápis, usava-se gilete, para saber o telefone de alguém consultávamos o catálogo telefônico.

No meu tempo, tempo do Q-Suco e do Q-Refresco, não tinha kiwi. A gente comia banana, mamão, laranja, jabuticaba e goiaba no pé, essas frutas comuns. Uva e pêssego, só no Natal.

Quando eu era criança, no tempo do drops Dulcora, da zebrinha do Fantástico e do Renault Gordini, não tinha TV a cabo, os canais eram do 2 ao 13 e todo mundo sabia que a TV Itacolomi era canal 4 e a TV Record, canal 7.

No tempo em que o símbolo da TV Tupi, canal 6, era um indiozinho, a gente vivia sem aplicativo, sem WhatsApp, sem Instagram, sem Netflix, sem CD, sem Spotify, vivia sem Uber, sem mensagem de voz, sem senha, sem código de barra, , sem iFood, sem e-book, sem e-mail, sem Ipad, sem Gmail, sem UOL, sem www, sem mala com rodinha e sem estresse.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SINGULAR E PLURAL

O meu nome completo é Alberto Villas Bouçada Junior. Passei a ser Alberto Villas desde 1972, quando assinei a minha primeira matéria no jornal Estado de Minas, uma reportagem sobre 24 horas no Edifício JK, uma espécie de Copan de Belo Horizonte. Jornalista tinha de ter nome curto e eu segui a norma.

Mesmo assim, de tempos em tempos, o meu pai, que era Alberto Villas Bouçada, passou a receber elogios pelas matérias publicadas no Estado de Minas. Muitos se perguntavam como poderia um meteorologista estar escrevendo matéria sobre a Rua Guaicurus, zona do baixo meretrício de BH.

Passei a adolescência ouvindo a pergunta “o pai ou o filho?” quando alguém da minha casa atendia o telefone, numa época em que adolescente era viciado em telefone fixo. Foi assim que virei Alberto Villas e o meu pai, o Doutor Bouçada.

Nome, cada um carrega o seu, mas alguns exigem explicação. Desde pequenininho, sempre que alguém vai escrever o meu nome, preciso acrescentar o tal do “Villas com dois éles”.

Com o nome começando com a letra A, sempre fui o primeiro da chamada, a não ser naquele segundo ginasial no Caseb, em Brasília, que o Abel ocupou o meu posto. A vantagem era nos dias de arguição oral, quando o professor ia chamando aleatoriamente. Nunca pensava no número 1. Mas quando o exame era por ordem alfabética, estava ferrado.

Quando vou fazer exame de sangue, a mocinha de branco sempre chega na ponta do corredor e, com aquela ficha nas mãos, me chama:

– Alberto Villas-Boas!

E lá vou eu, Villas Boas, mesmo sabendo que não sou Villas-Boas. No corredor, a caminho da sala de coleta de sangue, elas brincam… “Ah, é Bouçada, pensei que era Villas-Boas!”. Já me acostumei com a cena.

Nesses tempos em que rico chama Joaquim, Pedro, João, José e pobre leva o nome de Daiane, Merilyn, Edivaine e Uélinton, a coisa ficou mais complicada. Com essa quantidade de émes, éles, ípsilones, dáblius, é sempre bom soletrar o nome, letra por letra. Outro dia presenciei uma mulher perguntando como se escrevia José, para um simples José. Sei lá, vai ver que a grafia era Josepph.

Todo ano, quando sai a lista dos aprovados no vestibular da Fuvest, eu me divirto com os nomes. Primeiro, vou ver se tem algum Alberto, nome raro hoje em dia. Quando tem dois, é muito. O que mais me chama a atenção são os nomes da moda. Esse ano, eram duas páginas inteiras só de Bernardo.

Não faz muito tempo, passei por um grande susto. Postei uma crítica a TV Globo no Facebook, por ela não ter noticiado que o Ministério Público Federal autorizou o verdadeiro dono do sítio de Atibaia, o empresário Fernando Bittar, a vender aquele polêmico pedaço de terra.

Dois minutos depois, veio o primeiro comentário, me chamando de traidor, canalha, filho da puta, bandido, além de afirmar que eu era um dos responsáveis pelo golpe de 2016. “Você é pior do que a Veja e a Globo, juntas”, esbravejou minha amiga oculta do Face. Fiquei assustado, decepcionado, branco feito uma cera. O desaforo vinha ainda com um complemento: “Você que espalhava fake news sobre o PT, agora vem defender o Lula? Safado!”

Foram dois minutos de perplexidade, tempo necessário para chegar um inbox: “Desculpe, Alberto Villas, eu confundi o senhor com o comentarista Marco Antônio Villa, que foi demitido recentemente da Jovem Pan.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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COMO VAI MINHA ALDEIA?

Há um ano, chegávamos de mala e cuia na aldeia de Vryses, no Peloponeso, dispostos a passar uma temporada. Conhecia o Peloponeso dos livros de Geografia, do Atlas Mundial Melhoramentos e das arguições que os Irmãos Maristas nos submetiam nos finais de mês.

Agora estava ali, em pleno Peloponeso, pisando nele, sentindo o calor do sol grego, o cheiro de frutas, alfazema e lavanda.

Subimos de carro, bem devagarinho, durante quinze minutos, uma montanha cheia de curvas até chegarmos a casinha onde moraríamos.

Fomos recebidos com champanhe e flores. Uma salada de tomates maduros, azeitonas pretas e queijo feta, tudo regado ao melhor azeite do mundo. Flores secas espalhadas pelos cômodos, muitas frutas na fruteira, iogurte natural e ovos caipira no balaio.

Aquilo era a mais perfeita tradução da Grécia, sem tirar nem por.

Na primeira manhã, saímos para conhecer a aldeia e alguns moradores. Colhemos flores amarelas e nos deparamos com árvores frutíferas carregadas de damascos, limões sicilianos, maçãs, peras, uvas, figos quase maduros e as primeira cerejas.

O dia terminou com um por do sol vermelho e deslumbrante, lá embaixo mergulhando no mar Egeu.

Vryses tem pouco mais de setenta habitantes, todos gregos, quase todos idosos e que falam uma única língua, aquela que costumamos brincar.

– Você acha que estou falando grego?

Aos poucos, fomos conhecendo seus moradores. Tia Margaritae, no auge dos seus 90 anos, de olho em toda a aldeia, na vida que cada um leva. Dimitre, o professor de física que passa bom tempo do dia em seu escritório transbordando de livros de filosofia, um olho em Kant, outro no computador com as imagens de oito câmeras espalhadas por seu latifúndio. Nunca entrou um ladrão ali. Mas na tela dá pra ver formigas levando folhas para dentro do formigueiro.

Vick, mulher do professor, que nos serviu um café grego autêntico, acompanhado de biscoitinhos que ela mesmo amassa a massa e coloca no forno.

Tio Fux, que não me lembro o nome, mas que ganhou esse apelido devido a aparência com o juiz do STF, com aquele topete suntuoso e um charme de Zé Bonitinho. Conhecemos tio Fux montado numa motocicleta Jawa empoeirada, com cara dos anos 1960.

Conhecemos os donos do Café do Moinho com sua horta orgânica, seus petiscos deslumbrantes e um chá dos deuses.

Conhecemos Heleni, a dona do restaurante onde os velhos amigos passam a tarde tomando café gelado e contando as novidades de Vryses. Ela nos serviu tzazik e um cabrito que estava desfiando no prato, com temperos locais, de comer de joelhos.

Conhecemos pessoas que não ficamos sabendo o nome, pessoas que nos ofereciam pepinos, cebolas e verduras no meio do caminho, enquanto caminhávamos para conhecer a plantação de oliveiras.

Em um mês em Vryses, peguei várias vezes na enxada para tirar o mato que cresce sem parar na redondeza da casa, pintei a calçada com cal branco, em desenhos à moda grega, colhi figos agora maduros e derretendo das mãos, escrevi algumas páginas do meu novo livro, roubei internet do vizinho e fiz uma salada de celeri, como os franceses.

Colhi limões pra temperar a salada, damascos com uma cestinha de pescar, fotografei o que via de bonito e pequei tomando uma Fanta Goiaba, mesmo sabendo do teor de açúcar. Andei quilômetros a pé, tomei banho no Mar Egeu, comi muito souvlaki, muito gyros, tomei muita cerveja Mythos, muita cerveja Alfa e sonhei muito.

Um dia voltei pra São Paulo e hoje estou aqui em meio a automóveis, engarrafamentos, fumaça e motocicletas. Mas o sonho ainda não acabou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PÃO NOSSO DE CADA DIA

foto ac espilotro

Todo dono de padaria era português, chamava-se Manuel, mesmo que não fosse Manuel, e andava sempre com um avental meio sujo de farinha, um casquete na cabeça e um lápis atrás da orelha. A padaria vendia pão e leite e geralmente quem entrava ali, desconhecia o plural.

– Um litro de leite e quatro pãozinho.

A padaria era simples e vendia dois tipos de pão, o de sal e o doce. Em Minas Gerais, lembro-me bem, as pessoas chegavam e pediam “eu quero um pão de sal”! Pão de sal era um pão enorme, meio quilo, que seu Manoel embrulhava num papel cinza, que era chamado de papel de pão.

No fim da vida, meu avô ficou meio pão duro e costumava cortar o papel de pão em quadradinhos pra fazer de papel higiênico, porque achava o Tico-Tico caro demais.

O pão doce era um luxo, não era o pão nosso de cada dia, acho que na minha casa só tinha pão doce em ocasiões especiais, quando vinha uma visita, uma tia mais cerimoniosa. Ele era delicioso, o pão doce. Vinha com açúcar cristal por cima e aquele miolo molinho. Tão gostoso, que o Carlos Sandroni fez uma canção pra ele e Adriana Calcanhoto gravou.

Não adianta mentir pra mim mesma

Ficar me enganando, tentando dizer

Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce

Porque por mais que eu queira esconder

A verdade é que eu adorava pão doce

Não podia passar sem pão doce

Bastava ver padaria, que logo eu ia, que logo eu ia

Comprar

No Natal, as padarias vendiam também o pão pra rabanada. Ele era diferente, cheio de furinhos e só servia para rabanada. Pelo menos era o que dizia a minha mãe, cercada de cinco filhos, todos querendo tirar uma lasquinha daquele pão especial que só era vendido no mês de dezembro.

Quando abro os olhos hoje, fico encantado com as padarias, que os paulistas aqui chamam de padoca. Vendem de tudo. Além do pão, vendem frios, queijos, manteiga, refrigerantes, coxinhas, empadinhas, macarons, refrigerantes, sucos, geleias, vinhos e até Moët & Chandon.

A gente para uns minutinhos na padaria e fica só observando os clientes apontando pra vitrine e a mocinha explicando.

– Esse é de azeitona

– Esse é de laranja

– Esse é de castanha.

– De frutas secas

– De linguiça

– De azeite

– De presunto com catupiry

– De aveia, de milho, de centeio, integral, sem glúten, sírio, italiano, australiano, linhaça, batata, ciabata, preto… é pão que não acaba mais.

Na padaria do seu Manuel, quem trabalhava era o seu Manuel, a mulher do seu Manuel e o filho de seu Manuel. Hoje, são dezenas de mocinhos e mocinhas uniformizadas, especialistas em pães, queijos, frios e geleias. Tem uma aqui perto de casa que contratou um sommelier que te ensina como harmonizar o vinho com os queijos e os pães.

Queijo? Foi bom ter falado em queijo. Se no meu tempo de criança só tinha o queijo Minas e o queijo prato, hoje são dezenas e dezenas.

Camembert, Brie, Gorgonzola, Mozzarella, de búfala, Gruyère, Edam, Gouda, Feta, Provolone, Roquefort, Cottage, Mascarpone, Ricota, Meia Cura… mas essa é uma outra história que conto depois.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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UM DIA QUALQUER

Folheando o livro 1001 dias que abalaram o mundo, me veio à cabeça os dias que não abalaram o mundo, dias quaisquer que costumamos dizer que passaram em branco.

Em 1992, a redação da revista semanal de informação francesa Le Nouvel Observateur, que todos chamam carinhosamente de Nouvel L’Obs, começou a pensar nos trinta anos que a revista faria em 1994. Dois anos antes, numa reunião de pauta, mais precisamente em junho de 1992, foi convocada uma reunião para pensar número especial de aniversário.

No meio da reunião, alguém teve uma ideia brilhante.

A ideia era a seguinte: pedir a escritores de todas as partes do mundo para fazer o relato de um dia qualquer escolhido pela redação. Imediatamente, aqueles especialistas em derrubar pautas colocaram inúmeras pedras no caminho.

Como escolher os escritores?

Como entrar em contato com todos eles?

Vocês acham que eles vão responder?

Como vão nos enviar os textos?

Numa época sem internet, o único meio de enviar o pedido a eles era através de carta ou telegrama, mas por telegrama seria difícil, em poucas palavras, explicar o objetivo. Apesar dos pessimistas, a ideia foi adiante. Uma equipe formada pela direção da revista começou a fazer a lista dos escritores, enquanto outros buscavam os contatos. A carta para eles foi padrão. Resumindo: Escreva como você viu o dia 29 de abril de 1994.

Cartas foram disparadas para a América do Norte, para a América do Sul, América Central, Europa, Ásia, Oceania e Oriente Médio.

O entusiasmo na redação da Nouvel L’Obs era grande quando pensaram que os escritores, naquele momento, estavam começando a receber o pedido.

Thanassis Valtinos, na Grécia, Ryôtarô Shiba, no Japão, Lu Wenfu, na China, Putu Wijaya, na Indonésia, Gamal Al Ghitany, no Egito, Pierre Mertens, na Bélgica, Amoz Oz, em Israel, Ernesto Sábato, na Argentina, Václav Ravel, na República Checa, Daniel Boulanger, na França, Salman Rushdie, na Inglaterra, Kitia Touré, da Costa do Marfim, Osvaldo Soriano, na Argentina e tantos outros.

Para o Brasil, seguiram três cartas. Uma para o escritor baiano Jorge Amado, uma pra o mineiro Autran Dourado e uma terceira para o gaúcho Moacyr Scliar.

Passaram-se alguns dias, meses, mais de ano. Quando o dia 29 de abril de 1994 chegou, a redação da Nouvel L’Obs não cabia em si. Era hoje, uma sexta-feira, o dia escolhido para os escritores colocarem no papel os seus relatos.

Será que vai dar certo?

Será que estão lembrando?

O que vão escrever?

O dia passou sereno, nada aconteceu que abalasse o mundo naquele 29 de abril de 1994. Agora restava esperar os envelopes chegar.

E chegaram. Muitos logo no início de maio, alguns em envelopes pardos, outros em envelopes com as cores das bandeiras dos países e selos maravilhosos. Na data prevista, lá estavam os 240 envelopes, três deles eram verdes e amarelos.

Foi uma leitura atenta e minuciosa. Os primeiros relatos eram bem pessoais.

“Nesse dia, eu sai da cama às sete horas da manhã, onde dormi em Sidney com o amor da minha vida”, começou o seu relato o escritor australiano Frank Moorhouse.

“Abri a cortina e o sol iluminou o meu leito”, escreveu na primeira linha o japonês Junuchi Saga.

“Oito horas da manhã. Aqui é o Irã. Estou no meu pequeno apartamento em Teerã”, contou o escritor iraniano Ramin Jahan Begloo.

‘Meu dia começou às quatro horas da madrugada e só terminou por volta de onze da noite, como de costume, aqui em Brazzaville. Estou nesse Congo podre, nessa África podre, mas me pergunto se não é o mundo inteiro que está podre”, desabafou o congolês Labou Tansi.

“Acordei em Madri e o telefone não me dá sossego”, foram as primeiras palavras do colombiano Gabriel García Márquez.

“Como todos os dias, acordei disputando o jornal com Helena. Ela só toma o café da manhã lendo as notícias. Um dia, ela me disse: Quando eu morrer, não coloque flores no meu túmulo. Coloque jornais”, foi o que disse o uruguaio Eduardo Galeano, ao iniciar o seu depoimento.

“Um dia comum em que não aconteceu nada de extraordinário”. O norte-americano Norman Mailer foi super sincero.

Jorge Amado começou assim: “As emoções do 29 de abril de 1994 começaram no dia anterior, quando visitamos o Axé Opo Afonjá, um dos terreiros de candomblé mais importantes do Brasil”.

Autran Dourado não dormiu à noite: “Acordei várias vezes durante a madrugada, ansioso porque teria de escrever o que aconteceu hoje”.

Os primeiros relatos foram bem pessoais, mas muitos escritores procuraram fugir do narcisismo nostálgico e escreveram contos extraordinários, alguns com um pé no realismo fantástico.

Com aquela montanha de cartas guardadas a sete chaves, os editores começaram a colocar ordem, separando cada depoimento por região do Planeta Terra. A edição demorou um mês para ficar pronta e o resultado foi um número especial de 282 páginas: 240 Escritores contam como foi um dia no mundo.

Nessa tarde ensolarada de maio, me veio na cabeça, a ideia de pedir a alguns escritores brasileiros para contar como foi o primeiro de janeiro de 2023. Isso, se sobrevivermos até lá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AQUELE OUTRO MUNDO

Era um garoto que, como eu, amava passear pela cidade com os pais. Com o pai, a diversão era ir de bonde e parar na avenida principal, no ponto final, que todos chamavam de Abrigo do Bonde. Sair andando pelas sombras das árvores frondosas, chegar ao Café Pérola, onde ele tomava um cafezinho ralo com muito açúcar, numa xícara de porcelana com pires de alumínio. Enquanto o menino se lambuzava com um sorvex Kibon.

Com a mãe, era saborear uma banana split na lanchonete das Lojas Americanas, dar uma passadinha no Mundo Colegial para comprar uma sunga Big – aquela do macaco – que o capitão do time de futebol da rua exigia. Voltavam pra casa de táxi, dirigido por um chofer de camisa branca, paletó azul-marinho e boné.

O menino foi crescendo e, apaixonado por discos, livros e revistas, já ia sozinho ao centro da cidade, de lotação, que também parava na avenida principal de uma cidade que fazia jus ao nome e se chamava Belo Horizonte. Todos os caminhos levavam à avenida principal e era ali, perto da agência central do Correio – que ainda não era no plural – onde ficavam as Lojas Gomes, a melhor e mais sortida loja de discos da cidade.

Foi na vitrine das Lojas Gomes que o menino viu pela primeira vez a capa do disco do Chico, aquele com duas fotos, uma Chico sério, outra Chico sorrindo. Viu também o disco Domingo, do Caetano e da Gal, o Louvação, do Gil, e o Travessia, do Milton.

O menino passava horas dentro daquela loja vasculhando vinil por vinil. Ainda não havia reggae, rap ou funk por ali. Ele se distraia com os discos de música popular brasileira, dava uma passada na sala de música clássica, onde se ouvia baixinho o concerto de Brandemburgo, de Johann Sebastian Bach, até chegar bem no fundo onde ficava os discos de jazz. Pedia ao vendedor para colocar Louis Armstrong, apaixonado que era por ele.

O menino ficava ali fingindo que estava escolhendo um disco da Mahalia Jackson, do Dizzy Gillespie, do Charles Mingus ou do Thelonious Monk, só pra ficar ouvindo Armstrong cantando High Society.

O menino saia da Lojas Gomes nas nuvens, às vezes sem comprar nada porque o dinheiro era curto e seguia seu caminho, parando de banca em banca.

Enquanto as pessoas liam as primeiras páginas dos jornais dependuradas com pregadores de roupa, o menino observava as novidades. Se encantava com aquelas mulheres lindas na capa da Manchete, com uma abelha pousada numa flor na capa da Enciclopédia Bloch, com Ronnie Von na capa da Intervalo e Maria Thereza Goulart maravilhosa na capa da O Cruzeiro, enquanto Dina Sfat ficava escondida por um plástico opaco na capa da Fairplay. Sonhava em ter todos aqueles fascículos dos Gênios da Pintura, da Ciência Ilustrada, da Bíblia mais Bela do Mundo e da Medicina e Saúde. Queria conhecer tudo.

Por fim, a livraria. Foi numa bem antiga do centro da cidade que o menino descobriu as obras completas de Monteiro Lobato, que comprou O meu pé de Laranja Lima, que folheou Ulisses, de James Joyce, que se encantou com o Flicts, de Ziraldo, e descobriu o plano de voo de Saint Éxupery.

O menino foi crescendo, começou a ganhar dinheiro trabalhando num laboratório de defesa vegetal e, com o pouco dinheiro que ganhava, só comprava livros, discos e revistas porque não pagava aluguel, não ia ao supermercado, não tinha carnês para pagar.

A casa do menino foi ficando cheia e quase transbordando de tanto disco, de tanto livro, de tantas revistas. Mas ele não se desfazia de nada, daqueles livros de marxismo que comprou aos dezoito anos, dos Irmãos Karamazov, de Dostoievski que nunca leu, do Agonia e Êxtase, do Irving Stone, Eram os Deuses Astronautas, do Erich Von Däniken, O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, de nada.

Ele também não conseguiu se desfazer das revistas Realidade, Senhor, Rolling Stone, Escrita, José, Ficção, Inéditos, Circus, A Pomba, do Verbo Encantado, nem mesmo das revistinhas do Mickey, do Pato Donald, do Zé Carioca, do Bolinha, da Luluzinha, do Manda Chuva, dos Jetsons e dos Flintstones.

O menino ficou velho e hoje não tem onde cair morto. Vive rodeado dessas lembranças que cobrem doze paredes de sua casa, que exalam um leve cheiro de mofo e um som de Peter, Paul and Mary.

De uns tempos pra cá, caiu a ficha do velho. Tudo isso ao seu redor é apenas o princípio do prazer, porque prazer mesmo ele tem ultimamente, quando está sentado em seu computador baixando os discos Mal dos Trópicos, do Tiago Pethit, Matriz, da Pitty, Viver, do Marcelo Falcão, Transpyra, do Felipe Cordeiro, Desastre Solar, da Laura Lavieri e Bluesman, do Baco Exu do Blues.

Mas, o velho não passa um dia sequer sem levantar a bunda da cadeira e ir até a vitrola pra ouvir, ainda em vinil, um velho disco do baiano João Gilberto chamado Chega de Saudade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O MUNDO DA CRIANÇA

Filho pequeno não é fácil. Quando o meu primeiro nasceu, eu jurava que nunca deixaria o pobrezinho levar um tombo, bater a cabeça na quina da mesa, escorregar no box do banheiro, brigar na escola, chorar. Bobagem, Julião já passou dos quarenta anos e guarda até hoje algumas cicatrizes pelo corpo, de tantos tombos que tomou, esperto que era. Correndo de meia pela casa, foi o mais grave. Nove pontos na testa. Mas virou um homem inteiro, ético, bacana.

Riponga em Paris, não deixava ele ver televisão – o ópio do povo – tomar Coca-Cola – produto do imperialismo – ou comer qualquer coisa industrializada que tivesse acidulante, corante, emulsificante ou coisa parecida. A carne, a gente substituía pela soja, o chocolate por uma mistura de cereais e o refrigerante pelo suco de pamplemouse, espremido com as mãos e sem açúcar. Fui assim uma espécie de Bela Gil do século passado.

Veio a segunda, a Sara, e a história começou a mudar. Ela chorava, batia a cabeça na quina da mesa, escorregava pela casa andando de meia, adorava escalar o vão da porta, tomava chuva e vento encanado. E eu não achava assim tão grave, ficava menos aflito. Aprendi que criança precisa chorar, cair, tomar chuva, se defender.

Maria Clara, a terceira, foi mais tranquilo ainda. Eu já tinha passado dos 40 anos e via a vida com outros olhos. Ela cortou o dedo numa lata de leite Ninho, deu pontos, tomou antitetânico e a vida continuou. Mas repito, filho pequeno não é fácil. Nunca me esqueço dos banhos quase frios no meio da madrugada pra baixar a febre, as compressas e as idas ao Pronto-Socorro do Samaritano com a menininha fazendo corpo mole de verdade.

Marília, a quarta, seguiu a mesma linha. Febre, dedinho cortado brincando com a bicicleta de cabeça pra baixo e uma história engraçada pra contar. Ela, pequenininha, seis meses, precisava de uma foto pro passaporte. E lá fomos nós numa maquina de tirar fotos 5X7. Enquanto a mãe colocava as moedas e apertava o botão, eu segurava a menina, tentando focá-la na tela. Quando a foto saiu naquele buraquinho de vento, lá estava ela de corpo inteiro numa foto 5X7, que a Polícia Federal não aceitou, claro.

Mas eu vim aqui pra falar de comida. Hoje, a moda é deixar a criança comer do jeito que ela quiser. Os pais modernos abandonaram definitivamente a papinha, o amassadinho, a colherzinha, aquele papo furado de abre o bocão ou olha o aviãozinho.

O negócio agora é entregar pro bebê a comida em sua forma mais natural possível. Beterraba, batata, cenoura, abobrinha, mandioquinha, para que ela sinta a consistência, a textura e o sabor de cada alimento. Tenho visto bebê brigando com uma manga inteira, sem dentes tentando morder uma maçã e outros lutando para chupar uma laranja cortada ao meio. É divertido, principalmente pra quem já tem quatro filhos criados.

Lembro-me bem que aquele ritual de cozinhar os legumes, cozinhar o ovo e separar a gema e depois passar tudo no liquidificador. Era um trabalhão danado. Depois, ainda tinha de acrescentar uma manteiguinha, esperar esfriar um pouco, sentar o bebê na cadeirinha e começar aquela novela diária de fazê-lo comer.

Que eu me lembre, Sara era a mais rebeldezinha dos quatro, às vezes cuspia a comida na primeira aterrisagem do aviãozinho e achava graça. Cansamos, então ela acabou sendo pioneira em provar os alimentos separados. Lembro-me bem que ela se apaixonou pelo limão, que chupava como se fosse um pirulito e sem fazer careta.

Quarenta anos atrás, em pleno 1979, a gente resolveu deixar que ela comesse sozinha. E foi assim. Hoje, ela cuida muito bem do meu neto Raul, é uma dedicada professora de História e que, pequeninha, comia até mesmo um chuchu cozido com gostinho de tênis Conga e sem fazer cara feia. A foto acima não me deixa mentir.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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foto Alberto Villas

 

ERA DOMINGO

O dia vermelho no calendário era o dia de se deliciar com aqueles jornalões

 

Num dia desses eu me lembrei de um cartum do Millôr Fernandes em que ele abre a porta da sua casa e quando vê o Estadão de domingo jogado em cima do capacho, exclama:

– Meu Deus, o que aconteceu ontem em São Paulo?

Era assim, os jornais de domingo pesavam uns cinco quilos e tinham quase trezentas páginas e não sei quantos cadernos, suplementos e revistas, sem contar aqueles cadernos que eram só publicidade. Era leitura pra semana inteira.

O barato, às vezes, era comprar os jornalões no final da tarde do sábado, saindo do forno, ainda quentes, manchando nossas mãos de tinta.

Mas ler mesmo, era no domingo à tarde. A gente deitava na rede, levava aquele calhamaço junto e começava a colocar os cadernos em ordem, jogando no chão uns dois quilos de classificados. Eram uns cinco minutos que durava essa operação.

Esses classificados no chão, deixávamos pra espiar depois, mais tarde, com calma. Dávamos uma olhada, mesmo que não estivéssemos procurando um apartamento pra alugar, uma casa pra comprar, um carro velho pra trocar. Mesmo que não estivéssemos atrás de um emprego de almoxarife, de escrevente datilógrafo ou estenodatilógrafo.

Procurando com calma, a gente encontrava de tudo naqueles páginas: uma máquina de costura Singer, uma máquina de escrever IBM de bolinha, uma geladeira Kelvinator vermelha ou uma televisão Colorado RQ.

Mesmo sendo um jornalão conservador, uma gostosa, 18 aninhos, iniciante, se oferecia por ali.

Tinha o primeiro caderno, o de Política Nacional, Internacional, o caderno de Economia, o caderno de Esportes, o caderno de Variedades, o caderno de Cidades, o suplemento Feminino, o suplemento Agrícola, o de Turismo, o de Literatura, o de Cultura, a Folhinha, o Globinho, o Estadinho, o Gurilândia.

A Folha tinha a revista São Paulo, já teve a Folha D, já teve o Mais!, o Folhateen, o Folha Viva, o Folhetim, o Ciência, o Sinapse, o Agrícola, a Folhinha, o Equilíbrio e até o resumo traduzido do The New York Times.

A gente ficava ali na rede até o dia escurecer, lendo quase tudo. Líamos até mesmo aqueles artigos traduzidos que forravam os classificados do Estadão, os textões de Raymond Aron e aquele caderno Cultura que perguntava na capa: Por que ler Tocqueville hoje?

Os jornais eram mesmo enormes, pesados, e quando a gente saia da rede pra ir até a geladeira pegar uma Coca já meio choca, vinha aquela dor de consciência: Meu Deus, faltou tanta coisa pra ler.

Ler os jornais de domingo era um prazer que não tinha preço. No final do dia, era aquela preguiça, aquela jornalada esparramada pelo chão, algumas páginas dobradas, amassadas, pisadas e até recortadas.

Era pauta que não acabava mais. Os repórteres saiam às ruas durante a semana, muitas vezes sem um assunto definido. Nos becos, nos mercados, nos ônibus, descobriam histórias extraordinárias que eram bancadas pelo editor-chefe que ia bolando, durante a semana, a edição de domingo.

Oito horas, vinha o show da vida, aquela mulher linda e colorida saindo da água, o humor de Chico Anísio, as reportagens assustadoras do Hélio Costa, os clipes do Raul Seixas, a zebrinha anunciando o resultado da Loteria Esportiva, o Mister M e os gols do Fantástico.

E depois, vinha aquele bode. Aquela música anunciando que o domingo estava acabando e a gente ali comendo um resto de macarronada esquentada com a Coca já totalmente choca, a certeza que o dia seguinte era segunda-feira.

O único consolo era saber que, na segunda, tinha o caderno de Esportes, com as tabelas atualizadas de todos os campeonatos estaduais e internacionais, aquelas fotos maravilhosas que lembravam o Canal 100, aquela radiofoto da bandeirada final da fórmula 1, as barbadas do turfe e a última página com a seção Penalty, de Otelo. Adorava recortar o Diploma de Sofredor e entregar pro chefe na firma, logo cedo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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