NO MEIO DO CAMINHO DO LIVRO TEM UMA PEDRA

Plantar uma árvore, já plantei. Plantei mais de uma, três. A primeira foi ainda jovem, um flamboyant na Rua Rio Verde que, com o tempo, uma semente virou uma árvore de verdade. Morreu vítima do progresso.

A segunda plantei num vaso apertado na varanda do apartamento que alugávamos na Avenida Higienópolis. Uma nespereira, que foi crescendo, atingiu mais de dois metros de altura, atingiu o teto e chegou a dar alguns cachos de nêsperas nanicas, nada vistosas, que ainda verde murcharam. Até hoje está lá, vejo quando passo, de tempos em tempos.

A terceira árvore plantei recentemente. Um abacateiro, também na varanda do apartamento onde moramos na Lapa. O caroço brotou dentro de um vaso preto vietnamita e, a cada dia, ele crescia alguns centímetros. Quando atingiu metro e meio, foi transplantado para a Praça Senador Leite, no Alto da Lapa.

Filhos, tive quatro. Julião e Sara do primeiro casamento, Maria Clara e Marilia do segundo. Adultos, acompanham o dia a dia da minha saga de ter filhos, plantar árvores e escrever livros.

Livros, escrevi nove, um pela Contexto, dois pela e-galáxia e seis pela Editora Globo. O décimo é que está sendo o X do problema. Os nove livros publicados foram escritos num fôlego só, apesar da dificuldade de pesquisa, de revirar baús, reler mais de duzentos cadernos de anotações. Mas acabaram saindo com uma certa facilidade.

O que acontece com o décimo livro chamado O ano em que você nasceu, não sei. São cinquenta capítulos, de 1.950 ao ano 2.000. Depois de fazer uma longa e minuciosa pesquisa, sento e escrevo uma crônica sobre os 365 dias de cada ano.

Quem nasceu, quem morreu, quem era o presidente da República, qual era a moeda que usávamos, como era a moda, que filmes estavam em cartaz, que automóveis circulavam nas ruas, que revistas estavam dependuradas nas bancas, quais os livros mais vendidos, as peças de teatro em cartaz, as músicas que tocavam nas rádios, quem ganhou o Nobel da Paz, as manchetes dos jornais e muito mais.

O livro andava bem até que o Jornal Nacional anunciou que a Organização Mundial de Saúde havia decretado pandemia ao vírus que começou silencioso lá em Wuhan e foi se espalhando pelo mundo.

Quando chegou aqui, bateu na minha porta, não atendi, me recolhi, fechando janelas e basculantes. Encolhido, pensei com os meus botões: sem ter de sair cedo para a firma, sem passar o dia fora, agora esse livro sai rapidinho. Foi aí que ele estancou. Não me pergunte o porquê. Não via a hora de chegar em 1.968, o ano que não terminou, mas empaquei em 1.958.

Escrevo pouco enquanto as horas passam por cima da minha cabeça.

Roberto Drummond, o autor de A Morte de DJ em Paris, passou dez anos escrevendo Sangue de Coca-Cola. Na verdade, durante os quatro, cinco, seis primeiros anos, ele tinha apenas o título, que é muito bom, mas nenhuma linha escrita. Era uma ideia na cabeça e uma caneta na mão, num tempo em que escrevíamos livros à mão.

Tenho dois amigos que estão, há anos, escrevendo duas biografias, uma sobre o ex-presidente Lula, outra sobre o Drummond, não o Roberto, o Carlos. Nem pergunto mais a eles como andam as obras, quando saem. Vai que perguntam sobre O ano em que você nasceu e eu vou ficar com uma cara de tacho, como diria minha mãe.

Depois deste, já tenho um outro na cabeça, a biografia do Edson Luís de Lima Souto, o garoto de 16 anos morto na porta do restaurante Calabouço, no Rio, assassinado pela polícia da ditadura militar.

Na verdade, já tenho também um terceiro rascunhado – Iara – um livro infantil que será ilustrado por uma outra Iara que deve estar lá esperando o texto por zap. Vou falar baixinho, vai que ela escuta.

Bem, deixa eu voltar para O ano em que você nasceu… Não tenho tempo a perder.

 

QUANDO OS AMIGOS COMEÇAM A MORRER

A primeira pessoa que vi morta foi Osvaldo. Ele foi assassinado misteriosamente num pequeno hotel no centro de Belo Horizonte. Misteriosamente porque não levaram nada dele. Alguns cruzeiros na carteira, um lenço de pano xadrez e um relógio Mido continuavam nos bolsos e no pulso quando encontraram seu corpo caído no corredor.

Osvaldo morto nunca saiu da minha cabeça. Na noite antes do crime, ele me prometeu levar, na manhã seguinte, um casal de pombos japoneses que compraria no Mercado Central. Contei a ele que havia visto aquele casal de pombos brancos numa banca do mercado, mas não tinha dinheiro para comprar. Foi então que ele me prometeu e eu acordei esperando os pombos que nunca chegaram.

Não gosto da morte, como disse um dia Veríssimo: sou contra!

Morreu meu avô, minha avó, morreram meus pais, um sobrinho, uma sobrinha, meu sogro, um cunhado, uma cunhada, as pessoas foram morrendo espaçadamente e a cada morte, uma dor.

Morreram todas as minhas tias, todos os meus tios, alguns primos mais velhos, vizinhos, parentes de longe, alguns nem conhecia.

Aí começaram a morrer os amigos. O primeiro foi o José Carlos Assunção Cecílio, o JCA, como chamávamos. Não tive coragem de ver o seu corpo, atingido por uma bala perdida.

Não vou enumerar todos aqui porque a altura dos acontecimentos, já são tantos que eu até me embaraço. Ontem foi a Déa.

Déa Januzzi, conheço desde 1971, quando coloquei os pés na Faculdade de Filosofia. Não existe turma como aquela de 74 da UFMG. Apesar de ter fugido do país e não ter me formado com eles, sempre fui tratado como um paxá por todos. Sempre que pude participei das festas que fazem todos os dezembros, desde 1974.

Déa fazia parte dessa turma e morreu sem que eu imaginasse Déa morta um dia, tamanho era seu vigor, sua alegria, seu entusiasmo pela vida. Dona da coluna Coração de Mãe no jornal Estado de Minas, o dela não tinha tamanho.

Morria de inveja do nome que deu a seu blog – Novos Velhos – causa que também defendeu de peito aberto. Nos últimos tempos, conversávamos por telefone, combinávamos matérias e a última que fez para mim foi uma reportagem sobre desejos que não envelhecem.

O seu texto era refinado: Não é mais fast-food. Nem self service. O sexo depois dos 60 anos exige requinte, mesa posta e, se preciso, velas para iluminar o crepúsculo que tinge o céu de vermelho avisa que a noite está chegando, escreveu ela na abertura.

Apesar dos nossos papos serem esparsos e quase sempre via iPhone, vou sentir saudade. Nós fazíamos parte dos novos velhos e agora estou aqui triste, quieto no meu canto, mudo, olhando para esse telefone, também mudo.

O QUE SEI SOBRE O VELHO DO ANDAR DE CIMA

Me disseram que o velho que mora no andar de cima passou quatro meses trancado dentro de casa, sequer chegou na janela pra ver o jardim do prédio, com medo do vento que vinha do hospital que fica bem em frente do apartamento dele.

Me disseram também que não podemos mais chamar uma pessoa de velho, agora é idoso, velho é pejorativo e feio.

O que fazer então com o clássico O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway? O que fazer com a canção gravada no vinil de Caetano Veloso, O Homem Velho?

Quanto ao véio da Havan, dane-se.

Me disseram que somente em meados de julho o velho que mora no andar de cima chegou na janela do quarto dele e se espantou como o chorão havia crescido e estava tão verde.

Durante quatro meses, o velho não pediu Ifood, mas pedia sim supermercado e farmácia pelo telefone. O porteiro já sabia que era para o velho, nem ligava pelo interfone avisando que a encomenda havia chegado. Subia com ela e colocava tudo na porta do apartamento 31 e tocava a campainha.

Uma meia hora depois, álcool e Lysoform nas mãos, ele abria bem devagarinho a porta e borrifava os pacotes. Deixava ali uma hora até colocar tudo pra dentro, usando máscara e luvas.

Lavava as frutas e legumes, passava um pano com álcool em cada saquinho de mantimento, em cada lata, em cada vidro. Ainda esperava mais uma hora para levar tudo para a despensa e guardar bem organizadinho.

O velho do andar de cima passou quatro meses fazendo palavras cruzadas, vendo o noticiário na TV, cochilando depois do almoço, colocando fotografias antigas em ordem e lavando máscaras, luvas, pijamas e cuecas.

Tudo limpinho, ele armava a tábua de passar roupa na área de serviço e passava peça por peça com o ferro bem quente para espantar de vez o vírus.

O velho do andar de cima comeu muito ovo frito, ovo cozido e ovo mexido durante a pandemia. De noite, só uma salada, uma tapioca ou um mingau de aveia Quaker. Ele nunca comprou outra marca.

Me disseram que o velho do andar de cima só colocou os pés fora de casa quando o número de mortos por dia chegou a 346. Ele anotava todos os dias num pedaço de papel quantas pessoas tinham morrido e colocava debaixo de um ímã, na porta da geladeira. Chegou a contar até 12.455, depois desistiu.

A primeira vez que saiu foi para dar uma volta no quarteirão, mudando sempre de calçada quando via alguém se aproximando. Isso, seis e pouco da manhã, quando ele tinha certeza que não iria cruzar com praticamente nenhuma alma viva.

Descia os três lances de escada, empurrava as portas que tinha de ultrapassar com o cotovelo, pedia ao porteiro para colocar o polegar na engenhoca para o portão abrir, fazendo a mesma coisa quando voltava pra casa, suado, cansado.

Me contaram que o velho do andar de cima guarda revistas do tempo da guerra e que ele voltou a ler, com a ajuda de uma lupa, aquelas notícias ruins e apavorantes de 1945.|

Ontem fez uma semana que eu não vejo o velho do andar de cima. Resolvi ligar para o porteiro e perguntar por ele. Me disse que viajou para Minas Gerais, foi pra o interior de carro com o genro. Resolveu viver ao lado da filha, do genro e dos três netos.

Como Maiakovski, quer viver o que lhe resta ali em Urucânia.

 

 

DEUS É GRANDE!

Ele se sentia pequenininho perto dela, em todos os momentos do dia. Desde que acordava e, de pé, via na penumbra seu corpo enorme tomando conta de oitenta por cento da cama. Corria o dia inteiro assim, ele minúsculo, ela gigante. Nos atos, nos fatos, nas sacadas pra resolver grandes e pequenos problemas. Ele escrevia poemas enquanto ela olhava pela janela e sabia que a chuva vinha. Fechava as janelas, ele se recolhia. De tempos em tempos iam ver o mar. Ele virava um grão de areia e ela, zambetando pra lá e pra cá, uma maria farinha.

[Alberto Villas, com ilustração de Isabella Mazzanti] 

JANELAS ABERTAS

Fala-se muito, discute-se muito, inventam, mentem, burlam as leis, chutam, mas não conseguem eliminar o diabo do coronavírus do planeta Terra. Aos poucos, o mundo vai mostrando que as pessoas não estão preparadas para parar a vida e esperar a vacina. Vão aos shoppings, vão às barbearias, às academias, aos pancadões. As pessoas estão mais para jogguing do que para yoga. Pobre planeta Terra que já perdeu 1.150.241 pessoas desde que o corona mostrou sua cara aos infectologistas. Cinquenta anos depois, parece que os brasileiros levaram a serio aquele grito do Tom Zé em seu primeiro disco: Não se morre mais, cambada! 

[ilustração Ronald Kurniawan]

A IMPORTÂNCIA DE, DE REPENTE, PARAR PARA PENSAR

Desde o início da pandemia, meados de fevereiro, por aí, aproveito alguns minutos do dia para pensar. Paro tudo. Às vezes penso deitado na rede na pequena varanda do meu apartamento, às vezes penso aqui mesmo no meu escritório, na cama, debaixo do chuveiro, não importa onde.

Quando digo parar pra pensar, é não fazer nada mesmo, ficar olhando, observando as coisas em volta. A parede cor de rosa, o céu, o fio de sol que entra pela janela, retomar as lembranças, passar a limpo.

Lembranças de um velho apartamento na Rue de la Roquette, uma rua comprida que saía da Bastilha e ia até o cemitério de Père-Lachaise, onde estão enterrados o Serge Gainsbourg, a Edith Piaf, Chopin, Jim Morrison e tantos outros.

Era ali naqueles quarenta metros quadrados de um apartamento alugado por 350 francos mensais que cultivava meu exílio, escrevia cartas freneticamente, recortava todos os dias as notícias importantes do Le Monde, empilhava os exemplares da Nouvel Observateur, ia lendo uma a uma as revistas Planeta que chegavam do Brasil, presente de um primo jogador, depois técnico de basquete.

Foi ali que ouvi pela primeira vez os discos Joia e Qualquer Coisa, que conheci a voz de Belchior falando do antigo compositor baiano, foi ali que treinei meu inglês ruim com Walter Franco: Nothing/To see/ Nothing/To do/Nothing/Today/About me/I’m not/ Happy now/I’m not sad/ I’m just/ Happy now/Looking/ To the empty space.

Grana curta, tinha poucos vinis guardados numa caixa de vinho de cor laranja. Ouvia George Harisson cantando Dark Horse e Jean Michel Jarre viajando em Oxygène, que aprendi a gostar graças a um artista brasileiro, hoje um velho bolsonarista.

Ali, lia e relia Fazenda Modelo do Chico e as aventuras de Werner Herzog caminhando sobre o gelo, de Paris a Berlim, para encontrar uma amiga doente terminal. Traduzia do italiano teoremas e poemas de Pier Paolo Pasolini, os versos guerrilheiros de Dom Pedro Casaldaliga, a obra de Julian Beck e Judith Malina, que conheci num Festival de Inverno de Ouro Preto que, em Paris, que morria de saudade.

São muitas as lembranças. A carne moída com milho verde e o arroz parbolizado nos saquinhos do Uncle Bens que fazíamos toda semana, cozinheiros de primeira viagem

Os amigos eram poucos e bons. Um que colecionava parafina da embalagem do queijo BabyBel para fazer vela, outro que caiu no Sena de madrugada e conseguiu sair do outro lado sem perder os tamancos suecos.

Tomávamos vinho de clochard comendo torradas com camembert Président. Sonhávamos com o fim da ditadura lendo as cartilhas coloridas da Maspéro, enquanto escrevia para jornais e revistas alternativas. Esperava ansiosamente o carteiro que passava todos os dias religiosamente às sete horas da manhã vestido de azul marinho e me dizia: Rien pour vous, Monsieur Villas! Comia barras de chocolate de Ovomaltine sem a menor preocupação de aumentar o peso que era em torno de cinquenta e poucos quilos. Tinha uma mobilete amarela guardada na cozinha, que nunca montei.

Era ali no décimo primeiro quarteirão de Paris que muitas vezes, enrolando minha juba de leão, ouvi Cely Campelo pra não cair.

 

LIVRE PENSAR

Desde o início da pandemia, meados de fevereiro, por aí, aproveito alguns minutos do dia para pensar. Às vezes penso deitado na rede na pequena varanda do meu apartamento, às vezes penso aqui mesmo no meu escritório, na cama, não importa onde. Quando digo parar pra pensar, é não fazer nada, ficar olhando as coisas, a parede cor de rosa, o céu, retomar as lembranças, como agora, lembranças de um velho apartamento na Rue de la Roquette, uma rua comprida que saía da Bastilha e ia até o cemitério de Père-Lachaise, onde estão enterrados Serge Gainsbourg, Edith Piaf, Chopin e Jim Morrison. Era ali naqueles quarenta metros quadrados que cultivava meu exílio, escrevia cartas freneticamente, recortava todos os dias as notícias importantes do Le Monde, empilhava os exemplares da Nouvel Observateur, ia lendo uma a uma as revistas Planeta que chegavam do Brasil, presente de um primo jogador, depois técnico de basquete. Grana curta, tinha poucos vinis guardados numa caixa de vinho de cor laranja. Ouvia Belchior sem parar, bem como Joia e Qualquer Coisa. Ouvia Dark Horse, de George Harisson e Oxygène, de Jean Michel Jarre, que aprendi a gostar graças a um artista plástico, hoje um velho bolsonarista. Lia e relia Fazenda Modelo do Chico e as aventuras de Werner Herzog caminhando sobre o gelo, de Paris a Berlim para encontrar uma amiga doente. São muitas as lembranças, a carne moída com milho verde e o arroz de saquinho que fazíamos toda semana, cozinheiros de primeira viagem. Os amigos eram poucos e bons. Um que colecionava parafina da embalagem do queijo Baby Bel para fazer vela, outro que caiu no Sena de madrugada e conseguiu sair do outro lado sem perder os tamancos suecos. Tomávamos vinho de clochard comendo torradas com camembert Président. Sonhávamos com o fim da ditadura lendo cartilhas da Maspéro. Escrevia para os jornais e revistas alternativas, esperava o carteiro todos os dias às sete da manhã em ponto, comia barras de chocolate de Ovomaltine sem a menor preocupação de aumentar o peso que era em torno de cinquenta quilos. Tinha uma MobileMe amarela guardada na cozinha, que nunca subi. Lia teoremas e poemas de Pasolini e também ouvia Cely Campelo pra não cair.   

[ilustração Gabriella Giandelli]

ETERNAS ONDAS DE UM MAR DE MINEIRO

Sem mar na minha terra, sentia muita falta dele. No fundo, queria saber o que havia, se mergulhasse vinte mil léguas submarinas, os corais, os peixes coloridos, os pequenos monstros que não nadavam, andavam. Aquelas lagostas enormes, camarões pitu, arraias.

Ouvia as canções de Caymmi em discos de 78 rotações que o meu pai colocava na vitrola, enquanto bebia uma Brahma Chopp e preparava a macarronada do domingo. Imaginava que era doce morrer no mar, e o mar quando quebrava na praia, era bonito, sim era bonito. 

Uma vez por ano víamos o mar, mar de Copacabana, nas férias de verão. O meu pai nem bem tinha chegado na Cidade Maravilhosa e já ia contando aquela piada de mineiro, a cada janeiro: “Encher esse mundão de água não foi nada, o difícil foi sargá isso tudo”. 

Menino ainda, devorei O Velho e o Mar no quase escuro de uma lâmpada de 40 velas de um abajur em cima do criado mudo. 

Na era dos festivais, torcia por Elis cantando Edu na finalíssima: eh, tem jangada no mar, eh eh eh… hoje tem arrastão, todo mundo pescar, chega de sombra, João

Numa dessas férias, levei pra minha aldeia uma garrafinha de Grapette cheia de água do mar. Ela ficava em cima da minha escrivaninha, mas com o tempo foi ficando turva, muito esquisita. Fedia, cheirava mal. Joguei no lixo com vasilhame e tudo. 

O meu prazer era ver e sentir a água viva do mar de Copa. Daquele mar sem fim, que a gente não via o horizonte e que meu pai repetia: “Lá longe é a África!”

Amadureci ouvindo Tim Maia: Ah! se o mundo inteiro me pudesse ouvir. Tenho muito pra contar, dizer que aprendi. E na vida a gente tem que entender que um nasce prá sofrer, enquanto o outro ri. Mas quem sofre sempre tem que procurar, pelo menos vir achar, razão para viver. Ver na vida algum motivo pra sonhar, ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.

Um dia, no exílio, caiu nas minhas mãos o vinil Aprender a nadar, de Jards Macalé: Só mesmo vendo como é que dói trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói. Eh Cantareira! Vou aprender a nadar, não quero me afogar.

Outro dia, atravessei o mar a remo e a vela, fiz guerra e em terra, montei a cavalo, e em pelo de sela, cruzei as florestas, montanhas e serras, só pra te ver, Gabriela!

Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas que vieram como gotas de silêncio tão furioso, derrubando homens entre outros animais,
devastando a sede desses matagais. 

Numa noite de verão, Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios. Quem com ela se encontrar, diga lá no alto mar, que é preciso voltar já pra cuidar dos nossos filhos.

 

Músicas citadas: É doce morrer no mar (Dorival Caymmi), Arrastão (Edu e Vinícius), Azul da cor do mar (Tim Maia), Mambo da Cantareira (Jards Macalé), Gabriela (Chico Maranhão), Eternas ondas (Zé Ramalho) e Madalena (Chico Buarque)

 

APRENDER A NADAR

Sem mar na minha terra, sentia muita falta dele. Queria saber o que havia se mergulhasse vinte mil léguas submarinas, os corais, os peixes coloridos, os pequenos monstros que não nadavam, andavam. Aquelas lagostas enormes, camarões pitu. Ouvia as canções de Caymmi em discos de 78 rotações que o meu pai colocava na vitrola, enquanto fazia a macarronada do domingo. Imaginava que era doce morrer no mar, e o mar quando quebrava na praia, era bonito, sim era bonito. Uma vez por ano víamos o mar, mar de Copacabana, nas férias de verão. O meu pai nem bem tinha chegado já contava aquela piada de mineiro, a cada janeiro: “Encher isso d’água não foi nada, o difícil foi sargá isso tudo”. Menino ainda, devorei O Velho e o Mar no quase escuro de uma lâmpada de 40 velas de um abajur em cima do criado mudo. Na era dos festivais, torcia por Edu na finalíssima: eh, tem jangada no mar, eh eh eh… hoje tem arrastão, todo mundo pescar, chega de sombra, João. Numa dessa férias, levei pra minha aldeia uma garrafinha de Grapette cheia de água do mar. Ela ficava em cima da minha escrivaninha, mas com o tempo foi ficando turva, muito esquisita. Fedia, cheirava mal. Joguei no lixo com vasilhame e tudo. O meu prazer era ver e sentir a água viva do mar de Copa. Daquele mar sem fim, que a gente não via o horizonte que, meu pai repetia, lá longe é a África. Então entrei num curso para aprender a nadar e poder atravessar sete mares só pra  ver aquela morena de Angola que levava o chocalho na canela, só pra te ver Gabriela. 

QUERO IR PARA PARIS, PARIS NÃO HÁ MAIS

Fico aqui pensando com os meus botões se um dia vou voltar a pegar um avião com destino à felicidade. Chamo de felicidade, Paris, a cidade que conheço na palma da mão, onde morei por quase uma década em tempos sombrios por aqui.

A Paris que eu sonho voltar um dia e não sei se vou realizar, também está triste, com poucas pessoas circulando de máscaras pelas ruas, os cafés fechados, inclusive o Café de Flore onde, uma vez por ano, ia tomar um chocolate quente e comer um croissant au beurre

Eu era apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem amigos importantes e vindo de Belo Horizonte. Os minutos que passava ali sentado uma vez por ano me bastavam. Ficava imaginando Jean-Paul Sartre chegando com Simone de Beauvoir. O que eu teria para dizer a eles com o meu francês ruim?

Foi em Paris que aprendi a cozinhar, a descascar batatas, fatiar cebolas, temperar pepinos, amassar alho, selar berinjelas. Foi em Paris que aprendi a comer pamplemouse com colherzinha, a gostar de carne de carneiro temperada com harrissa, a molhar as tiras de pepino no molho de iogurte grego.

Paris para mim é e não é um passeio à beira do Sena nessa época de outono, uma lambida no sorvete de manga do Bertillon a caminho da Notre Dame, hoje apenas cinzas. Paris para mim é escrever poemas ao lado de um copo de Perrier com uma rodela de limão siciliano num bar qualquer do Marais.

Mas é também o boeuf bourguignon mal feito do restaurante Mabillon, onde nós universitários comíamos de segunda a sexta. É também a recordação de uma gelatina endurecendo no peitoril da janela por falta de uma geladeira, um tatame no chão por falta de uma cama da Habitat e de roupas comuns dependuradas no vão da janela por falta de um armário. 

Se um dia essa pandemia se for, vou ouvir uma voz dizendo que dentro de poucos minutos pousaremos no Aeroporto Internacional Charles De Gaulle. Vou apertar os cintos, calçar o tênis, colocar a cadeira na posição vertical e ficar olhando na telinha o avião sobrevoando e circulando a cidade amada.

O avião vai pousar, vou descer, percorrer correndo enormes corredores até chegar na porta principal e pegar o ônibus 131 até Denfert Rocherreau

Quero parar numa banca pra ver a capa do último número do Charlie Hebdo, sacudir e tomar uma Orangina, comer um pain au chocolate, passar a tarde observando os livros dos buquinistas expostos na murada do Sena. Descer as escadas rolantes dos Halles, entrar na Fnac para observar mil e um livros novos e, ao lado, comprar um incenso une après-midi sous um figuier, porque Paris me viciou em figos, em livros, em Orangina, em pamplemouse, em poesia e em incenso, desde aqueles anos hippies. 

 

NUNCA TE VI MAIS GORDO

Onde eles estão que não os vejo? Dizem que dentro do ônibus, do elevador, supermercado, no hospital, no ar, no avião. Ando na rua paranóico olhando para um e para outro. Quem está com ele? Moças bonitas cheirando a botão de laranjeira, trabalhadores da prefeitura mexendo cimento para fazer calçadas, diaristas apressadas digitando a senha para abrir o portão do prédio, o rapazinho levantando a porta de ferro da ótica, o motorista do carro que freia para eu passar, todos com máscaras. Não sei se estão felizes, rindo ou chorando. Com máscara somos todos iguais. Não os vejo indo embora no ralo da pia quando esfrego as mãos com sabão de coco líquido, não os vejo na sola do meu Nike, não os vejo na minha camisa florida, não os vejo na mesa de um bar onde as pessoas tomam Itaipava. Onde eles estão que não os vejo? Na casca da laranja, escondido nas folhas do repolho, grudado no vidro da janela da sala, no celular acendendo anunciando mensagens, no telefone fixo frio e abandonado no canto do escritório, no envelope convocando para uma reunião virtual do condomínio. Ele aparece redondo cheio de antenas de todas cores no Google. Já trabalhei em laboratório e sei como é o prazer de ver ali quem a gente não vê no dia-a-dia. Prazer macabro porque ele é bonito como uma obra de Beatriz Milhazes, apenas um pouco mais colorido. Que medo.

O BARULHO, O CHEIRO E AS LUZES DA CERIMÔNIA DO ADEUS

Eu tinha muito medo da morte. Perder meu pai, minha mãe, ficar sozinho no mundo. A primeira pessoa que vi morta foi o meu avô, em 1968, na sala da casa dele. O cheiro de flor e vela nunca saíram de dentro do meu nariz. Acho que eram crisântemos que cobriam o corpo dele. Não gosto de crisântemos até hoje.

O meu pai também tinha medo da morte, mas brincava com ela. Trinta anos antes de nos deixar, comprou um túmulo no Parque da Colina. Escolheu bem o lote, debaixo de uma frondosa árvore, creio que uma mangueira, bem perto da cantina.

– Se não for perto do bar, meus amigos nunca irão me visitar, dizia ele.

Sabia de cor o dia da morte de todos os amigos, amigas, parentes de perto e de longe, vizinhos, de todos os funcionários do Serviço de Meteorologia.

Não gosto de ver pessoas mortas, no caixão. Vi meu pai, minha mãe, o meu sobrinho Marcelo, o Geneton Moraes Neto e a última foi Dona Georgia, uma grega, amiga do coração. Ela parecia viva e para mim continua assim.

Não quero mais ver mortos.

Muitos amigos já se foram e o que guardo deles é a lembrança da vida, das piadas que contavam, dos títulos geniais que faziam, das edições primorosas, das conversas de copo e de cruz.

Eu tinha muito medo também de ambulância, da sirene vermelha rodando, da velocidade com que ela passava desviando dos automóveis, quase capotando. Aquela camionete branca me dava pavor, me lembrava sofrimento e morte. Ficava imaginando o que se passava ali dentro daquelas quatro paredes de lata ou ferro, sei lá.

Nunca entrei numa, nem por curiosidade. Mas sei lá dentro tem uma maca, balão de oxigênio, todos os apetrechos de primeiros socorros. Imagino que cheira a álcool, acetona talvez. Eu sempre achei que quando uma ambulância passa piscando, fazendo barulho, tem alguém à morte lá dentro.

Só me vem à cabeça um ataque cardíaco, enfermeiros fazendo massagem no coração, respiração boca a boca e a aflição do trânsito de São Paulo que não anda.

Ambulância faz sempre o caminho entre a vida e a morte. Pode até não chegar ao seu destino final, como pode.

Hoje, moro em frente ao Hospital Sorocabana, na Lapa. Improvisaram trinta e seis leitos de UTI exclusivos para enfrentar o coronavírus. Daqui de cima, fico observando o movimento delas lá embaixo, que vão chegando, uma atrás da outra. Hoje não é mais ataque cardíaco, agora é um vírus.

Ontem tinham quatro estacionadas na porta, com os motores ligados. Fiquei imaginando que esperavam leito para seus pacientes.

Vejo daqui de cima pessoas que passam na calçada em frente ao hospital com a máscara no queixo ou no bolso, indiferentes ao vermelho refletindo nas folhas das árvores. De noite, no Jornal Nacional, fico sabendo das 876 mortes do dia.

É quando o medo da infância volta.

 

A SIRENE

Eu tinha muito medo de ambulância, da sirena, da velocidade com que ela passava se desviando dos carros, quase capotando. Aquela camionete me dava pavor porque eu ficava imaginando o que se passava ali dentro daquelas quatro paredes de lata ou ferro, sei lá. Nunca entrei numa, nem pra visitar, conhecer. Mas sei que tem uma maca, balão de oxigênio, todos os apetrechos de primeiros socorros. Sei que cheira a álcool. Eu sempre achei que quando uma ambulância passa piscando vermelho, fazendo barulho, tem alguém à morte lá dentro. Só me vem à cabeça um ataque cardíaco, enfermeiros fazendo massagem no coração, respiração boca a boca e a aflição do trânsito que não anda. A ambulância faz sempre o caminho entre a vida e a morte. Pode não chegar ao seu destino final, como pode. Hoje, moro em frente ao Hospital Sorocabana, na Lapa, em São Paulo. Improvisaram trinta e seis leitos de UTI exclusivos para enfrentar o coronavírus. Daqui de cima, fico observando o movimento das ambulâncias que vão chegando, uma atrás da outra. Não é mais ataque cardíaco, agora é um vírus. Ontem tinham quatro estacionadas na porta, com a luz vermelha piscando. Fiquei imaginando se esperavam leito. Talvez. Algumas pessoas passam na calçada com a máscara no queixo ou no bolso, indiferentes com o vermelho refletindo nas folhas das árvores. De noite, no Jornal Nacional, fico sabendo das 806 mortes do dias. Algumas, talvez aqui, pertinho de mim. 

QUANDO UM CACHORRO VEM TRAZER UM RESPIRO NA PANDEMIA

Venho dessas famílias que a gente diz: na minha casa sempre teve cachorro. Sim, sempre teve cachorro. Foram quatro: Jolie, Tupi, Pink e Fly. Cachorros soltos dentro de casa e no terreiro, daqueles que se engasgavam comendo osso de frango no domingo depois do almoço.

Gostamos de cachorro desde o Rin-Tin-Tin, a Lassie e o Lobo.

Ainda não havia petshop, ração, brinquedinho, caminha, xampu, nada disso. Bebiam água numa lata de goiabada da Cica e iam uma vez por ano ao posto da Prefeitura pra vacinar contra a raiva. E só.

Depois de muito lutar para não ter um cachorro, na quarentena adotamos o Canela. Vira-lata, foi abandonado num Posto Ipiranga no meio da estrada. Tive logo a ideia de dar o nome a ele de Guedes. Ouvi um sonoro não de todos aqui. Seria muita humilhação para ele.

Chegou Bob e ganhou um novo nome, Millôr, que durou umas duas horas. Ficamos lembrando de nomes de cachorros e quando ele ouviu Canela, abanou o rabo e veio todo serelepe. Virou Canela imediatamente e sempre atendeu por esse nome. Acreditamos que ele era Canela desde pequenininho.

O Canela é o vira-lata mais nobre do pedaço. Senta esguio esperando eu colocar o tênis, pegar o saquinho plástico, a máscara, a coleira pra passear.

Chegou aqui sem saber o que é elevador. A porta abria e ele ficava olhando, não entrava. Agora só falta apertar o botão S1 quando saímos pra descer.

Aprendeu a não fazer xixi na garagem, sabe esperar a hora do passeio e – acredite – pede colo depois de nos acompanhar no café da manhã. Fica observando a mesa, sem sequer enfiar o focinho onde não foi chamado. A gente aqui em casa vive dizendo que se fosse fêmea chamaria Gilda, porque não existe cachorro como Canela.

Metódico, dá nove horas vai para o cômodo onde funciona o home office da Paulinha e fica esperando a hora do trabalho dela. Divide as atenções durante o dia. No final da tarde vem pro meu escritório e deita na caminha esperando a hora do petisco.

Paramos de dar ração e agora fizemos a comida dele. Descobrimos que o açougue do supermercado tem uma carne que leva o nome de retalho. É um mix de carne, pedacinhos que sobram daqui e dali na hora do corte. Do acém ao filé mignon, do patinho ao colchão duro. A comida é simples e fácil de fazer. Sem gordura, sem sal e ele ama. Abandonou a ração de vez, não suporta o cheiro. Será que criamos um monstro?

O Canela alegrou nossa vida nessa pandemia. Tem horas que ele parece o Brian da Family Guy. Dá impressão de que vai sentar na mesa conosco e discutir filosofia. Canela não morde, late só na rua e adora brincar com os outros cachorros. Se deu bem com a Shakira e a Cher, das nossas filhas. Acho que ele percebeu que estava escrevendo sobre ele nessa manhã de quinta-feira. Só acordou agora e veio abanando o rabo, feliz da vida.

 

MINHA VIDA DE CACHORRO

Venho dessas famílias que a gente diz: na minha casa sempre teve cachorro. Sim, sempre teve cachorro. Foram quatro: Jolie, Tupi, Pink e Fly. Cachorros soltos dentro de casa e no terreiro, daqueles que se engasgavam comendo osso de frango no domingo depois do almoço. Ainda não havia petshop, ração, brinquedinho, caminha, xampu, nada disso. Bebiam água numa lata de goiabada da Cica. Iam uma vez aos posto da Prefeitura pra vacinar contra a raiva. E só. Depois de muito lutar para não ter um cachorro, na quarentena adotamos o Canela. Vira-lata, foi abandonado num Posto Ipiranga no meio da estrada. Tive logo a ideia de dar o nome a ele de Guedes. Ouvi um sonoro não de todos aqui. Seria muita humilhação para ele. Chegou Bob e ganhou um novo nome, Millôr, que durou umas duas horas. Ficamos lembrando de nomes de cachorros e quando ele ouviu Canela, abanou o rabo e veio todo serelepe. Virou Canela imediatamente e sempre atendeu por esse nome. Acreditamos que ele era Canela desde pequenininho. O Canela é o vira-lata mais nobre do pedaço. Senta esquio esperando eu colocar o tênis, pegar o saquinho plástico, a máscara, a coleira. Chegou aqui sem saber o que é elevador. A porta abria e ele ficava olhando, não entrava. Agora só falta apertar o botão S1 quando saímos pra passear. Aprendeu a não fazer xixi na garagem, sabe esperar a hora do passeio e – acredite – pede colo depois de nos acompanhar no café da manhã. Fica observando a mesa, sem sequer enfiar o focinho onde não foi chamado. A gente aqui em casa vive dizendo que se fosse fêmea chamaria Gilda, porque não existe cachorro como Canela. Metódico, dá nove horas vai para o cômodo onde funciona o home office da Paulinha e fica esperando a hora do tabalho dela. Divide as atenções durante o dia. No final da tarde vem pro meu escritório e deita na caminha esperando a hora do passeio. Paramos de dar ração e fizemos a comida dele. Descobrimos que o açougue do supermercado tem uma carne  que chama retalho. É um mix de carne, pedacinhos que sobram daqui e dali na hora do corte. Do acém ao filé mignon, do patinho ao colchão duro. A comida é simples e fácil de fazer. Sem gordura, sem sal e ele ama. Abandonou a ração de vez, não suporta o cheiro. Será que criamos um monstro? O Canela alegrou nossa vida nessa pandemia. Tem horas que ele parece o Brian da Family Guy. Dá impressão de que vai sentar na mesa conosco e discutir filosofia. Canela não morde, late só na rua e adora brincar com os outros cachorros. Se deu bem com a Shakira e a Cher, das nossas filhas. Acho que ele percebeu que estava escrevendo sobre ele. Só acordou agora e veio abanando o rabo, feliz da vida. 

[ilustração Rebeca Campbell]

TRÊS COISAS ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é baixo, mas intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão de que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são atentos, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer contraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar das pessoas ali. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando-se em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta e quatro mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Aqui fora, discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas.

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai dar em nada. Ali é o fim do mundo. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, tipo Fitzcarraldo.

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um unicamente de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia, Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países das maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão comprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda é, porque meu sonho é conhecer o Zaire, a Zâmbia, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa.

O LABIRINTO

Sonho com labirintos que não existem. Acordo pensando naqueles dos palácios de Viena e vejo-me aqui neste que existe na Lapa. Quartos, sala, cozinha, banheiro, revistarias, escritório, varanda. Poucas plantas, nada a ver com aqueles labirintos transbordando de glicínias que avançam e fecham qualquer saída. Não quero me perder por ai, sentir os pés no chão, andar ligado, mas ao mesmo tempo ser um mutante esperando a vacina no braço, na língua, onde for. Russa ou chinesa, não importa. Quero sair daqui, dar passos largos, sentir o cheiro de gasolina saindo do motor. Se não fosse a música permanentemente no ar, os livros em cima da mesa, as revistas, os jornais, se não fosse minha família, se não fosse o bife à milanesa que espalha seu cheirinho bom pela casa, já teria avançado sobre as glicínias, não tenho dúvidas. 

MAPAS

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um só de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países da maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão cumprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda, porque meu sonho é conhecer o Gabão, a Zâmbia, o Zaire, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa. 

SEM DESTINO

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai me levar a nada. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, ser Fitzcarraldo.

[ilustração Katharina Bitzl]

UTI

 

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são constantes, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer constraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas.