O MUNDO DA CRIANÇA

Pequenininha, seis meses e pouco, tinha ido na escolinha dois dias somente, quando a Caminhar fechou. No primeiro dia, estranhou, chorou na porta quando a tia a pegou nos braços. Entrou chorando, batendo pernas e braços, partindo o coração da mãe. Quando a buscou no final da tarde, ela dormia profundamente. Bochechas vermelhas, suava. No segundo dia, olhou assustada quando enxergou o portão vermelho da escola, mas foi nos braços da tia. Esboçou choro, mas ficou apenas na ameaça. Nos dois dias que frequentou a escolha conheceu o Benjamim, o João Pedro, o Cícero, o Lucas. Conheceu também a Maria Eduarda, a Clarice e a Sofia. Não houve terceiro dia. Ela já está com um ano e meio, já anda, já come uma banana inteira, já esboça palavras, dessas comuns, mamão, papai, auaí. Tudo que vê, aponta com o indicador e fala ó! Brinca a manhã inteira, depois do almoço, cai no sono e vai até quatro, quatro e pouco. A mãe aproveita pra trabalhar, o pai também. Quatro e pouco acorda mal humorada, procurando a chupeta e não quer nada que um dos dois oferece. Nessa hora, não quer nem saber da Galinha Pintadinha de pelúcia, tampouco do tico-tico que ganhou no Natal. Ela não sai de casa e olha assustada quando os pais colocam máscara. Faz cara de choro, mas na verdade eles só colocam máscara para ir na portaria buscar encomendas que chegam, várias por dia. Ela nunca mais viu uma criança ao vivo e em cores. Nem deve lembrar do Benjamim, do João Pedro, do Cícero, do Lucas, da Maria Eduarda, da Clarice e da Sofia. Seu mundo é uma mãe, um pai, um tico-tico, um porquinho de borracha que quando aperta faz coing coing, além da Galinha Pintadinha de pelúcia.

UMA ZONA

Logo ele, tão organizado. A pandemia transformou sua casa numa zona federal. As cápsulas estão transbordando na máquina de Nespresso, xícaras e pires foram quebrando e agora no café da manhã é tudo desencontrado. Preguiça de passar o leite para um vidro, vai no plástico mesmo. O sofá tem um pé quebrado, a luz do banheiro, uma queimada, a rede na varanda com pelos de cachorro e o alecrim morto há uma semana. O calendário marca 22 de fevereiro e nós já estamos no dia 28. Os passarinhos do relógio piam roucos porque a pilha está fraca desde aquele abril despedaçado. Os livros lidos nunca foram para os seus devidos lugares na estante: a biografia da Nara Leão, a do Samuel Wagner, as obras completas de Cacaso, A salvação pela pintura, Amoras do Emicida, Maria das Pazes e outros contos do Gabriel García Márquez, além do Torto Arado. Os cds, apenas alguns fora da ordem alfabética. Um do Altman Brothers, um do Bob Dylan, todos do Luiz Melodia, todos da Tereza Cristina. Os vidros na cozinha estão assim: Arroz no vidro escrito feijão, Lentilha no vidro escrito Milharina, Farinha de Trigo no vidro escrito Açúcar mascavo e Trigo para quibe num vidro não escrito nada. A pá de plástico que de tanto usada já não recolhe mais os ciscos, continua atrás da porta. Uma garrafa de cerveja Martina estourada no congelador, uma garrafa de cachaça de jambu vazia no bar, uma embalagem de xampú sem nada e sem tampa no box do banheiro, doze pacotinhos de chá Twinings Fresh vencidos na caixinha de chá, roupas pra costurar empilhadas num dos armários, um adesivo Fora Temer desbotado e um adesivo Fora Bolsonaro, novinho, ao lado. No ar, a promessa de colocar tudo em ordem, assim que a pandemia passar.

O ESTRANGEIRO

Eu não sou daqui, minha gente, e sei disso. Sou do ouro, sou Minas Gerais. Cheguei na maior cidade da América do Sul num dia primeiro de abril e nada entendi. O ônibus estacionou numa das rodoviárias mais feias do mundo, toda forrada de vitrôs coloridos. Batia muito sol e refletia no chão, onde depositei minha mochila, pouca roupa, vim pra passar poucos dias e fiquei. Já se foram quarentena e um anos e eu ainda confundo Heitor Penteado com Teodoro Sampaio. Quando alguém me fala sabe ali na altura da ponte do Piqueri, eu não sei. Como não sei onde fica o MBoi Mirim e não faço a menor ideia onde está a Jacu pêssego. Não dirijo, mas já tive um daqueles guias enormes de ruas da cidade. Ficava assustado quando encontrava o nome da rua e via que estava localizada na página 450, no quadradinho B5. Gosto de mapas, mas sempre acho que eles estão do lado errado. Higienópolis, onde morei muitos anos, conheço bem. Como a Lapa também. Mas conheço pouco São Paulo. Conheço mais Belo Horizonte, onde passei 22 anos, Paris onde passei uma década, Brasília onde morei dois anos. Aqui já são 41. Amo São Paulo. Apesar de todos os defeitos, te carrego no meu peito. Ainda bem que Waze é um nome feio mas é o melhor meio de se chegar.

Músicas citadas: Irene (Caetano Veloso), Pra Lennon e McCartney (Milton Nascimento), São São Paulo (Tom Zé), Pela Internet (Gilberto Gil)

NOS TEMPOS DA AULA PRESENCIAL

Ainda me lembro muito bem do primeiro dia de aula no Colégio Dom Silvério, hoje Marista. Sai de casa usando calça caqui, camisa branca com o distintivo do colégio bordado no bolso, sapatos Vulcabrás preto novinho em folha, meias brancas de algodão. Levava a tiracolo uma merendeira de couro, lá dentro dois pãezinhos de batata, uma banana caturra eu uma garrafinha térmica de café com leite. Na mão direita, uma pasta, também de couro, com cadernos encapados com papel kraft, todos com etiquetas com bordas vermelhas. O livro Laulau, Lili e o Lobo, lápis Johann Faber número dois, borracha e apontador. Tinha eu sete anos e meio de idade e era a primeira vez que pisava numa escola. Não sabia ler, não sabia escrever porque ninguém naquela época sabia ler e escrever quando entrava no primeiro ano primário. Sabia escrever apenas o A do meu nome, como todos aqueles que frequentaram o Jardim de Infância, onde as crianças davam os primeiros passos. Eram poucos os que tinham a experiência do Jardim, só aqueles que as mães trabalhavam fora e era uma minoria da minoria. Todos envergonhados entraram naquela sala enorme onde estava escrito na porta: Primeiro Ano B. As carteiras eram de madeira maciça e, me lembro bem, tinham um buraco pra colocar o tinteiro que ninguém usava mais. A tampa levantava para que pudéssemos guardar o material escolar. O quadro era negro, o giz branco e a mesa da professora ficava num trabalhado para que ela enxergasse todos, até mesmo a turma do fundo. A minha professora chamava-se Maria Augusta Toscano. Dona Maria Augusta Toscano! Eu sentei bem perto da porta, uma porta imensa, parecia ter mais de dois metros de altura e, antes de começar a primeira aula, Dona Maria Augusta disse: vou fechar a porta porque senão daqui a pouco vamos ter picolé de Alberto. Fiquei tão feliz dela já saber o meu nome que nunca mais esqueci o seu: Dona Maria Augusta Toscano. 

EU QUERIA SER UM DRONE

A gente dizia que queria ser uma mosca para estar ali presente naquela reunião de família discutindo herança, ou uma mosca para estar ali naquela reunião da firma discutindo promoções. Olho pela janela do meu apartamento e vejo apenas um tiquinho da cidade, um pedaço ínfimo, uma rua, um hospital do outro lado, ambulâncias chegando numa quantidade bem maior do que sempre foi. Vejo umas seis árvores balançando as folhas pela força do vento, dois táxis brancos parados no ponto, pessoas que passam de tempos em tempos, uns usando máscaras, outros não, uns passeando com o cachorro, outros falando ao celular. Nada de excepcional. Queria ter uma visão mais ampla da cidade, ruas mais movimentadas, avenidas, bulevares, becos, ruas sem saída, queria ver tudo. As idosas varrendo calçadas às seis e meia da manhã, por exemplo. Do lado direito, vejo um imenso prédio que construíram no lugar de uma antiga escola técnica com mensalidade bem barata. É um prédio estranho. Ninguém abria a boca quando alguém gritava fora Temer, nem abre abre a boca agora quando alguém grita fora Bolsonaro. Me parecem todos reacionários. Duas bandeiras do Brasil estão dependuradas na grade que protege a varanda gourmet. Tenho a impressão que todos são palmeirenses, porque em dia de jogo do verdão o movimento é maior nessas varandas que deixam escapar umas lufadas de fumaça, tipo habemus jogo. Queria ter uma visão maior da cidade, sobrevoar as praças, os parques, as vilas, as favelas, ver de perto as laterais dos edifícios, agora coloridas pra ninguém dizer mais dizer que São Paulo é cinza, é feia, é suja, é desumana.

PERGUNTANDO

Abro os olhos e antes de pular da cama me pergunto: será que hoje vai dar pra ir até a Praça John Lennon ver como está o abacateiro que lá plantei? Não sei. Esfrego o rosto, abraço o travesseiro e continuo perguntando: será que lá fora faz sol ou o céu está cinza chumbo? Laerte já deixou o hospital? Quantos mortos o Alan Severiano vai anunciar no Jornal Nacional, hoje à noite na hora do jantar? Minhas máscaras estão todas lavadas, dependuradas, secas? Ainda resta um pouquinho de Lysoform spray no tubo? Tenho sabão de coco para lavar todas as frutas e legumes que vão chegar do supermercado? Astra Zenica, Coronavac, Jansen, Sputinik, qual será a minha vacina? Minha filha vai voltar a dar aula no Equipe segunda-feira que vem? Vamos ter impeachment ou não vamos? Quando vou voltar a Paris, entrar numa livraria e comprar o livro novo de Erri De Luca? Voltarei a Barcelona para passar uma tarde na Altaïr viajando pelo mundo? Tomarei um dia novamente um suco de romã nas ruelas de Istambul? Será que um dia vou ver de novo o Rio de Janeiro e as pessoas que lá deixei? O IMS vai abrir que dia? Quando vou pegar o Vila Iório para dar uma volta por São Paulo? Um dia voltarei ao St. Marche para comprar uma latinha de Natu? Que dia minha filha vai trazer a Jacobin número 2 pra mim? Quando os telejornais vão parar de mostrar aquelas imagens de vidrinhos de vacina aflitos nas esteiras? Que dia não veremos mais aquelas imagens desfocadas de UTI? Pergunto tudo isso e ainda não sai da cama, ainda não enfiei os pés nas Havaianas. 

PREVISÃO DO TEMPO

O pai dele era o poderoso chefão do Serviço de Meteorologia. Aparecia na TV Itacolomi a cada mudança de tempo e era zombado pela zebrinha do Fantástico quando a sua repartição errava feio dizendo que faria sol e dava chuva. No mercado da cidade era conhecido como manda-chuva por todos os barraqueiros. Era fanático pelo tempo. Bastava perguntar alguma coisa para ele, que saia falando, fazendo uma palestra, dando uma aula sobre cumulus, cirrus, stratus, lenticular,todas essas nuvens. Ele mesmo, o filho, sabia pouco de meteorologia. Não sabia sequer se gostava de chuva ou sol, de inverno ou verão, de ventania ou calmaria. Quando enxergava a frente fria chegando, lembrava do pai na televisão mostrando num mapa de cartolina de onde ela vinha, geralmente do sul. Andava com um guarda-chuva desses de cinco cruzeiros na mochila, caso o temporal o pegasse no meio do caminho. Pensando bem, era mais fã do inverno, daquele friozinho da noite, quando a mãe dele, mulher do meteorologista fazia uma sopa de macarrão com pedaços de musculo e a família comia com pão e manteiga Itambé. Ele gostava de escrever pequenos contos de noite, com as pernas enroladas num cobertor vermelho ouvindo no rádio um programa que só tocava músicas de Roberto Carlos. Queria que Teresa o aquecesse no inverno e que tudo mais fosse pro inferno.

A ARTE DE PROCRASTINAR

Achei que era só eu, mas quando li uma reportagem no jornal italiano La Repubblica sobre a arte da procrastinação, percebi que é no mundo inteiro que as pessoas deixam pra fazer amanhã o que podem fazer hoje. Muitas pessoas andam perguntando quantas horas tem o meu dia. Digo que ele nunca passa de 24 horas. Sim, durmo pouco, muito pouco, cinco horas no máximo. Faço muita coisa nesse tempo que fico acordado. Cedinho, edito o Sol, um jornal que passa a lupa na imprensa nacional e adora achar uma revista bacana, um título legal, uma boa reportagem em outra língua. Preparo a mesa do café da manhã da família, rego minhas plantas na varanda, cuido da horta, passeio duas vezes com o Canela, dando a volta em três quarteirões, escrevo uma crônica para a Carta Capital. Edito o diário ilustrado da família, coloco e tiro roupas da máquina de lavar roupas, coloco e tiro vasilhas da máquina de lavar vasilhas, leio jornais, revistas e livros todos os dias deitado na rede da varanda do meu apartamento sentindo o cheiro das ervas, pesquiso e escrevo o meu novo livro, O dia em que você nasceu. Vejo o Jornal Hoje, o Jornal Nacional, o Saia Justa, fico ligado o dia todo intercalando GloboNews com CNN Brasil e vejo ao mesmo tempo o Papo de Segunda e o Roda Viva. Nunca perco o Prime Time do Marcio Gomes. Quando tem futebol, deixo no mute e, de tempos em tempos, vejo o resultado. Mando zaps pros meus irmãos e filhos que moram longe daqui, respondo e-mails, espano o escritório, além de lavar as mãos e as máscaras umas vinte vezes ao dia. Pode parecer e é uma loucura essa correria. Mas loucura maior é quando tiro um Nespresso e coloco as pernas pro ar comendo um tequinho de chocolate depois do almoço, e acho que estou procrastinando. Por isso vou tirar cinco dias de férias semana que vem porque ninguém é de ferro. Nem mesmo a Margareth Thatcher era.

UMA PANDEMIA DE PALAVRAS E EXPRESSÕES

Acordou apenas um pouco tonto, mas bastou esfregar as mãos no rosto para se sentir melhor. Tomou o café da manhã e foi direto pra rede na varanda do seu apartamento ler as últimas páginas do livro De cu pra lua, as memórias de Nelsinho Motta. A mulher achou o marido um pouco pálido, mas ele se sentia bem. Foi com ele na farmácia fazer o teste rápido. Deu positivo. Surgiu assim a palavra assintomático.

Se recolheu, olhou pela janela e não viu ninguém na sua rua. Apenas um entregador do iFood esperava na calçada, teclando no seu smartphone. Um silêncio incomum naquele bairro popular e sempre apinhado de gente. Nem ônibus passava. Lockdown, pensou.

Ligou a televisão na GloboNews que informava sobre o novo vírus a cada minuto, quase vinte e quatro horas por dia. Um pouco assustado, ficou ali assistindo. Preparou a primeira dose de Anitta e tomou, sugestão da sogra. Uma mulher dizia aflita para a repórter na porta de um hospital que sua mãe de 88 anos estava sentindo falta de ar e não estava encontrando vaga em nenhum lugar. Era grupo de risco.

Duas mulheres chegaram de Uber, de branco, desceram rapidamente do automóvel preto, tiraram o álcool gel da bolsa e esfregaram nas mãos e braços. Entraram rapidamente, passaram o crachá na roleta e sumiram pelo corredor infinito. Eram da linha de frente.

O gramado do campo de futebol foi deixando de ser verde, ganhando um tablado de madeira e em seguida, placas brancas que viravam paredes. Veio o teto, a iluminação, os caminhões com os equipamentos pararam em frente ao hospital de campanha.

O homem chegou em casa e, antes de colocar os pés no capacho, deixou os sapatos no hall. Foi direto pro banheiro, onde tirou a máscara, jogou num tupperware, arrancou tudo do corpo, das meias cinzas ao cordão de ouro. Entrou debaixo do chuveiro e esfregou fortemente o corpo com água e sabão. Saiu, enxugou, tomou outro banho de álcool 70. Para abrir a porta, pegou lenços de papel e passou com lysoform. Obedeceu ao protocolo.

Da janela da área de serviço dava pra enxergar um pedacinho do centro da cidade, onde pessoas viviam em barracas de plástico azul, algumas do lado de dentro, outras do lado de fora. Eram muitas as pessoas vulneráveis.

A mulher, vinte anos mais nova que o marido, chegou dizendo que haviam fechado novamente tudo em Paris. Funcionando mesmo, só as farmácias e supermercados. Para sair na rua, era preciso um documento de autorização. Ouviu isso no jornal da CBN. Paris não era mais uma festa, mas sim uma cidade fantasma. A segunda onda havia chegado.

As frutas e os legumes que ela trouxe do sacolão, ele jogou tudo dentro do tanque, abriu a torneira e colou duas colheres de água sanitária. Esperou vinte minutos e começou a lavar, peça por peça. Bananas, laranjas, limões, mangas, morgotes, pepinos, tomates, cenouras, rabanetes. Ficou feliz em ver tudo higienizado.

Numa manhã de domingo, ele pegou um velho caderninho de anotações e escreveu: Coronavírus, Covid-19, Coronavac, Universidade de Oxford, Astrazenica, China, curva ascendente, média móvel, sintomas, número de mortos, número de casos, pessoas infectadas, respirador, cloroquina, live, home office, fase 1, Anvisa, Pfizer, colapso do sistema de saúde, alta complexidade, distanciamento social, flexibilização, aglomeração.

Colocou a caderneta na gaveta do criado e, antes de deitar, pensou com os seus botões: um dia ainda escrevo uma crônica sobre esse tal de novo normal.

NO MEIO DO CAMINHO DO LIVRO TEM UMA PEDRA

Plantar uma árvore, já plantei. Plantei mais de uma, três. A primeira foi ainda jovem, um flamboyant na Rua Rio Verde que, com o tempo, uma semente virou uma árvore de verdade. Morreu vítima do progresso.

A segunda plantei num vaso apertado na varanda do apartamento que alugávamos na Avenida Higienópolis. Uma nespereira, que foi crescendo, atingiu mais de dois metros de altura, atingiu o teto e chegou a dar alguns cachos de nêsperas nanicas, nada vistosas, que ainda verde murcharam. Até hoje está lá, vejo quando passo, de tempos em tempos.

A terceira árvore plantei recentemente. Um abacateiro, também na varanda do apartamento onde moramos na Lapa. O caroço brotou dentro de um vaso preto vietnamita e, a cada dia, ele crescia alguns centímetros. Quando atingiu metro e meio, foi transplantado para a Praça Senador Leite, no Alto da Lapa.

Filhos, tive quatro. Julião e Sara do primeiro casamento, Maria Clara e Marilia do segundo. Adultos, acompanham o dia a dia da minha saga de ter filhos, plantar árvores e escrever livros.

Livros, escrevi nove, um pela Contexto, dois pela e-galáxia e seis pela Editora Globo. O décimo é que está sendo o X do problema. Os nove livros publicados foram escritos num fôlego só, apesar da dificuldade de pesquisa, de revirar baús, reler mais de duzentos cadernos de anotações. Mas acabaram saindo com uma certa facilidade.

O que acontece com o décimo livro chamado O ano em que você nasceu, não sei. São cinquenta capítulos, de 1.950 ao ano 2.000. Depois de fazer uma longa e minuciosa pesquisa, sento e escrevo uma crônica sobre os 365 dias de cada ano.

Quem nasceu, quem morreu, quem era o presidente da República, qual era a moeda que usávamos, como era a moda, que filmes estavam em cartaz, que automóveis circulavam nas ruas, que revistas estavam dependuradas nas bancas, quais os livros mais vendidos, as peças de teatro em cartaz, as músicas que tocavam nas rádios, quem ganhou o Nobel da Paz, as manchetes dos jornais e muito mais.

O livro andava bem até que o Jornal Nacional anunciou que a Organização Mundial de Saúde havia decretado pandemia ao vírus que começou silencioso lá em Wuhan e foi se espalhando pelo mundo.

Quando chegou aqui, bateu na minha porta, não atendi, me recolhi, fechando janelas e basculantes. Encolhido, pensei com os meus botões: sem ter de sair cedo para a firma, sem passar o dia fora, agora esse livro sai rapidinho. Foi aí que ele estancou. Não me pergunte o porquê. Não via a hora de chegar em 1.968, o ano que não terminou, mas empaquei em 1.958.

Escrevo pouco enquanto as horas passam por cima da minha cabeça.

Roberto Drummond, o autor de A Morte de DJ em Paris, passou dez anos escrevendo Sangue de Coca-Cola. Na verdade, durante os quatro, cinco, seis primeiros anos, ele tinha apenas o título, que é muito bom, mas nenhuma linha escrita. Era uma ideia na cabeça e uma caneta na mão, num tempo em que escrevíamos livros à mão.

Tenho dois amigos que estão, há anos, escrevendo duas biografias, uma sobre o ex-presidente Lula, outra sobre o Drummond, não o Roberto, o Carlos. Nem pergunto mais a eles como andam as obras, quando saem. Vai que perguntam sobre O ano em que você nasceu e eu vou ficar com uma cara de tacho, como diria minha mãe.

Depois deste, já tenho um outro na cabeça, a biografia do Edson Luís de Lima Souto, o garoto de 16 anos morto na porta do restaurante Calabouço, no Rio, assassinado pela polícia da ditadura militar.

Na verdade, já tenho também um terceiro rascunhado – Iara – um livro infantil que será ilustrado por uma outra Iara que deve estar lá esperando o texto por zap. Vou falar baixinho, vai que ela escuta.

Bem, deixa eu voltar para O ano em que você nasceu… Não tenho tempo a perder.

 

QUANDO OS AMIGOS COMEÇAM A MORRER

A primeira pessoa que vi morta foi Osvaldo. Ele foi assassinado misteriosamente num pequeno hotel no centro de Belo Horizonte. Misteriosamente porque não levaram nada dele. Alguns cruzeiros na carteira, um lenço de pano xadrez e um relógio Mido continuavam nos bolsos e no pulso quando encontraram seu corpo caído no corredor.

Osvaldo morto nunca saiu da minha cabeça. Na noite antes do crime, ele me prometeu levar, na manhã seguinte, um casal de pombos japoneses que compraria no Mercado Central. Contei a ele que havia visto aquele casal de pombos brancos numa banca do mercado, mas não tinha dinheiro para comprar. Foi então que ele me prometeu e eu acordei esperando os pombos que nunca chegaram.

Não gosto da morte, como disse um dia Veríssimo: sou contra!

Morreu meu avô, minha avó, morreram meus pais, um sobrinho, uma sobrinha, meu sogro, um cunhado, uma cunhada, as pessoas foram morrendo espaçadamente e a cada morte, uma dor.

Morreram todas as minhas tias, todos os meus tios, alguns primos mais velhos, vizinhos, parentes de longe, alguns nem conhecia.

Aí começaram a morrer os amigos. O primeiro foi o José Carlos Assunção Cecílio, o JCA, como chamávamos. Não tive coragem de ver o seu corpo, atingido por uma bala perdida.

Não vou enumerar todos aqui porque a altura dos acontecimentos, já são tantos que eu até me embaraço. Ontem foi a Déa.

Déa Januzzi, conheço desde 1971, quando coloquei os pés na Faculdade de Filosofia. Não existe turma como aquela de 74 da UFMG. Apesar de ter fugido do país e não ter me formado com eles, sempre fui tratado como um paxá por todos. Sempre que pude participei das festas que fazem todos os dezembros, desde 1974.

Déa fazia parte dessa turma e morreu sem que eu imaginasse Déa morta um dia, tamanho era seu vigor, sua alegria, seu entusiasmo pela vida. Dona da coluna Coração de Mãe no jornal Estado de Minas, o dela não tinha tamanho.

Morria de inveja do nome que deu a seu blog – Novos Velhos – causa que também defendeu de peito aberto. Nos últimos tempos, conversávamos por telefone, combinávamos matérias e a última que fez para mim foi uma reportagem sobre desejos que não envelhecem.

O seu texto era refinado: Não é mais fast-food. Nem self service. O sexo depois dos 60 anos exige requinte, mesa posta e, se preciso, velas para iluminar o crepúsculo que tinge o céu de vermelho avisa que a noite está chegando, escreveu ela na abertura.

Apesar dos nossos papos serem esparsos e quase sempre via iPhone, vou sentir saudade. Nós fazíamos parte dos novos velhos e agora estou aqui triste, quieto no meu canto, mudo, olhando para esse telefone, também mudo.

O QUE SEI SOBRE O VELHO DO ANDAR DE CIMA

Me disseram que o velho que mora no andar de cima passou quatro meses trancado dentro de casa, sequer chegou na janela pra ver o jardim do prédio, com medo do vento que vinha do hospital que fica bem em frente do apartamento dele.

Me disseram também que não podemos mais chamar uma pessoa de velho, agora é idoso, velho é pejorativo e feio.

O que fazer então com o clássico O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway? O que fazer com a canção gravada no vinil de Caetano Veloso, O Homem Velho?

Quanto ao véio da Havan, dane-se.

Me disseram que somente em meados de julho o velho que mora no andar de cima chegou na janela do quarto dele e se espantou como o chorão havia crescido e estava tão verde.

Durante quatro meses, o velho não pediu Ifood, mas pedia sim supermercado e farmácia pelo telefone. O porteiro já sabia que era para o velho, nem ligava pelo interfone avisando que a encomenda havia chegado. Subia com ela e colocava tudo na porta do apartamento 31 e tocava a campainha.

Uma meia hora depois, álcool e Lysoform nas mãos, ele abria bem devagarinho a porta e borrifava os pacotes. Deixava ali uma hora até colocar tudo pra dentro, usando máscara e luvas.

Lavava as frutas e legumes, passava um pano com álcool em cada saquinho de mantimento, em cada lata, em cada vidro. Ainda esperava mais uma hora para levar tudo para a despensa e guardar bem organizadinho.

O velho do andar de cima passou quatro meses fazendo palavras cruzadas, vendo o noticiário na TV, cochilando depois do almoço, colocando fotografias antigas em ordem e lavando máscaras, luvas, pijamas e cuecas.

Tudo limpinho, ele armava a tábua de passar roupa na área de serviço e passava peça por peça com o ferro bem quente para espantar de vez o vírus.

O velho do andar de cima comeu muito ovo frito, ovo cozido e ovo mexido durante a pandemia. De noite, só uma salada, uma tapioca ou um mingau de aveia Quaker. Ele nunca comprou outra marca.

Me disseram que o velho do andar de cima só colocou os pés fora de casa quando o número de mortos por dia chegou a 346. Ele anotava todos os dias num pedaço de papel quantas pessoas tinham morrido e colocava debaixo de um ímã, na porta da geladeira. Chegou a contar até 12.455, depois desistiu.

A primeira vez que saiu foi para dar uma volta no quarteirão, mudando sempre de calçada quando via alguém se aproximando. Isso, seis e pouco da manhã, quando ele tinha certeza que não iria cruzar com praticamente nenhuma alma viva.

Descia os três lances de escada, empurrava as portas que tinha de ultrapassar com o cotovelo, pedia ao porteiro para colocar o polegar na engenhoca para o portão abrir, fazendo a mesma coisa quando voltava pra casa, suado, cansado.

Me contaram que o velho do andar de cima guarda revistas do tempo da guerra e que ele voltou a ler, com a ajuda de uma lupa, aquelas notícias ruins e apavorantes de 1945.|

Ontem fez uma semana que eu não vejo o velho do andar de cima. Resolvi ligar para o porteiro e perguntar por ele. Me disse que viajou para Minas Gerais, foi pra o interior de carro com o genro. Resolveu viver ao lado da filha, do genro e dos três netos.

Como Maiakovski, quer viver o que lhe resta ali em Urucânia.

 

 

DEUS É GRANDE!

Ele se sentia pequenininho perto dela, em todos os momentos do dia. Desde que acordava e, de pé, via na penumbra seu corpo enorme tomando conta de oitenta por cento da cama. Corria o dia inteiro assim, ele minúsculo, ela gigante. Nos atos, nos fatos, nas sacadas pra resolver grandes e pequenos problemas. Ele escrevia poemas enquanto ela olhava pela janela e sabia que a chuva vinha. Fechava as janelas, ele se recolhia. De tempos em tempos iam ver o mar. Ele virava um grão de areia e ela, zambetando pra lá e pra cá, uma maria farinha.

[Alberto Villas, com ilustração de Isabella Mazzanti] 

JANELAS ABERTAS

Fala-se muito, discute-se muito, inventam, mentem, burlam as leis, chutam, mas não conseguem eliminar o diabo do coronavírus do planeta Terra. Aos poucos, o mundo vai mostrando que as pessoas não estão preparadas para parar a vida e esperar a vacina. Vão aos shoppings, vão às barbearias, às academias, aos pancadões. As pessoas estão mais para jogguing do que para yoga. Pobre planeta Terra que já perdeu 1.150.241 pessoas desde que o corona mostrou sua cara aos infectologistas. Cinquenta anos depois, parece que os brasileiros levaram a serio aquele grito do Tom Zé em seu primeiro disco: Não se morre mais, cambada! 

[ilustração Ronald Kurniawan]

A IMPORTÂNCIA DE, DE REPENTE, PARAR PARA PENSAR

Desde o início da pandemia, meados de fevereiro, por aí, aproveito alguns minutos do dia para pensar. Paro tudo. Às vezes penso deitado na rede na pequena varanda do meu apartamento, às vezes penso aqui mesmo no meu escritório, na cama, debaixo do chuveiro, não importa onde.

Quando digo parar pra pensar, é não fazer nada mesmo, ficar olhando, observando as coisas em volta. A parede cor de rosa, o céu, o fio de sol que entra pela janela, retomar as lembranças, passar a limpo.

Lembranças de um velho apartamento na Rue de la Roquette, uma rua comprida que saía da Bastilha e ia até o cemitério de Père-Lachaise, onde estão enterrados o Serge Gainsbourg, a Edith Piaf, Chopin, Jim Morrison e tantos outros.

Era ali naqueles quarenta metros quadrados de um apartamento alugado por 350 francos mensais que cultivava meu exílio, escrevia cartas freneticamente, recortava todos os dias as notícias importantes do Le Monde, empilhava os exemplares da Nouvel Observateur, ia lendo uma a uma as revistas Planeta que chegavam do Brasil, presente de um primo jogador, depois técnico de basquete.

Foi ali que ouvi pela primeira vez os discos Joia e Qualquer Coisa, que conheci a voz de Belchior falando do antigo compositor baiano, foi ali que treinei meu inglês ruim com Walter Franco: Nothing/To see/ Nothing/To do/Nothing/Today/About me/I’m not/ Happy now/I’m not sad/ I’m just/ Happy now/Looking/ To the empty space.

Grana curta, tinha poucos vinis guardados numa caixa de vinho de cor laranja. Ouvia George Harisson cantando Dark Horse e Jean Michel Jarre viajando em Oxygène, que aprendi a gostar graças a um artista brasileiro, hoje um velho bolsonarista.

Ali, lia e relia Fazenda Modelo do Chico e as aventuras de Werner Herzog caminhando sobre o gelo, de Paris a Berlim, para encontrar uma amiga doente terminal. Traduzia do italiano teoremas e poemas de Pier Paolo Pasolini, os versos guerrilheiros de Dom Pedro Casaldaliga, a obra de Julian Beck e Judith Malina, que conheci num Festival de Inverno de Ouro Preto que, em Paris, que morria de saudade.

São muitas as lembranças. A carne moída com milho verde e o arroz parbolizado nos saquinhos do Uncle Bens que fazíamos toda semana, cozinheiros de primeira viagem

Os amigos eram poucos e bons. Um que colecionava parafina da embalagem do queijo BabyBel para fazer vela, outro que caiu no Sena de madrugada e conseguiu sair do outro lado sem perder os tamancos suecos.

Tomávamos vinho de clochard comendo torradas com camembert Président. Sonhávamos com o fim da ditadura lendo as cartilhas coloridas da Maspéro, enquanto escrevia para jornais e revistas alternativas. Esperava ansiosamente o carteiro que passava todos os dias religiosamente às sete horas da manhã vestido de azul marinho e me dizia: Rien pour vous, Monsieur Villas! Comia barras de chocolate de Ovomaltine sem a menor preocupação de aumentar o peso que era em torno de cinquenta e poucos quilos. Tinha uma mobilete amarela guardada na cozinha, que nunca montei.

Era ali no décimo primeiro quarteirão de Paris que muitas vezes, enrolando minha juba de leão, ouvi Cely Campelo pra não cair.

 

LIVRE PENSAR

Desde o início da pandemia, meados de fevereiro, por aí, aproveito alguns minutos do dia para pensar. Às vezes penso deitado na rede na pequena varanda do meu apartamento, às vezes penso aqui mesmo no meu escritório, na cama, não importa onde. Quando digo parar pra pensar, é não fazer nada, ficar olhando as coisas, a parede cor de rosa, o céu, retomar as lembranças, como agora, lembranças de um velho apartamento na Rue de la Roquette, uma rua comprida que saía da Bastilha e ia até o cemitério de Père-Lachaise, onde estão enterrados Serge Gainsbourg, Edith Piaf, Chopin e Jim Morrison. Era ali naqueles quarenta metros quadrados que cultivava meu exílio, escrevia cartas freneticamente, recortava todos os dias as notícias importantes do Le Monde, empilhava os exemplares da Nouvel Observateur, ia lendo uma a uma as revistas Planeta que chegavam do Brasil, presente de um primo jogador, depois técnico de basquete. Grana curta, tinha poucos vinis guardados numa caixa de vinho de cor laranja. Ouvia Belchior sem parar, bem como Joia e Qualquer Coisa. Ouvia Dark Horse, de George Harisson e Oxygène, de Jean Michel Jarre, que aprendi a gostar graças a um artista plástico, hoje um velho bolsonarista. Lia e relia Fazenda Modelo do Chico e as aventuras de Werner Herzog caminhando sobre o gelo, de Paris a Berlim para encontrar uma amiga doente. São muitas as lembranças, a carne moída com milho verde e o arroz de saquinho que fazíamos toda semana, cozinheiros de primeira viagem. Os amigos eram poucos e bons. Um que colecionava parafina da embalagem do queijo Baby Bel para fazer vela, outro que caiu no Sena de madrugada e conseguiu sair do outro lado sem perder os tamancos suecos. Tomávamos vinho de clochard comendo torradas com camembert Président. Sonhávamos com o fim da ditadura lendo cartilhas da Maspéro. Escrevia para os jornais e revistas alternativas, esperava o carteiro todos os dias às sete da manhã em ponto, comia barras de chocolate de Ovomaltine sem a menor preocupação de aumentar o peso que era em torno de cinquenta quilos. Tinha uma MobileMe amarela guardada na cozinha, que nunca subi. Lia teoremas e poemas de Pasolini e também ouvia Cely Campelo pra não cair.   

[ilustração Gabriella Giandelli]

ETERNAS ONDAS DE UM MAR DE MINEIRO

Sem mar na minha terra, sentia muita falta dele. No fundo, queria saber o que havia, se mergulhasse vinte mil léguas submarinas, os corais, os peixes coloridos, os pequenos monstros que não nadavam, andavam. Aquelas lagostas enormes, camarões pitu, arraias.

Ouvia as canções de Caymmi em discos de 78 rotações que o meu pai colocava na vitrola, enquanto bebia uma Brahma Chopp e preparava a macarronada do domingo. Imaginava que era doce morrer no mar, e o mar quando quebrava na praia, era bonito, sim era bonito. 

Uma vez por ano víamos o mar, mar de Copacabana, nas férias de verão. O meu pai nem bem tinha chegado na Cidade Maravilhosa e já ia contando aquela piada de mineiro, a cada janeiro: “Encher esse mundão de água não foi nada, o difícil foi sargá isso tudo”. 

Menino ainda, devorei O Velho e o Mar no quase escuro de uma lâmpada de 40 velas de um abajur em cima do criado mudo. 

Na era dos festivais, torcia por Elis cantando Edu na finalíssima: eh, tem jangada no mar, eh eh eh… hoje tem arrastão, todo mundo pescar, chega de sombra, João

Numa dessas férias, levei pra minha aldeia uma garrafinha de Grapette cheia de água do mar. Ela ficava em cima da minha escrivaninha, mas com o tempo foi ficando turva, muito esquisita. Fedia, cheirava mal. Joguei no lixo com vasilhame e tudo. 

O meu prazer era ver e sentir a água viva do mar de Copa. Daquele mar sem fim, que a gente não via o horizonte e que meu pai repetia: “Lá longe é a África!”

Amadureci ouvindo Tim Maia: Ah! se o mundo inteiro me pudesse ouvir. Tenho muito pra contar, dizer que aprendi. E na vida a gente tem que entender que um nasce prá sofrer, enquanto o outro ri. Mas quem sofre sempre tem que procurar, pelo menos vir achar, razão para viver. Ver na vida algum motivo pra sonhar, ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.

Um dia, no exílio, caiu nas minhas mãos o vinil Aprender a nadar, de Jards Macalé: Só mesmo vendo como é que dói trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói. Eh Cantareira! Vou aprender a nadar, não quero me afogar.

Outro dia, atravessei o mar a remo e a vela, fiz guerra e em terra, montei a cavalo, e em pelo de sela, cruzei as florestas, montanhas e serras, só pra te ver, Gabriela!

Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas que vieram como gotas de silêncio tão furioso, derrubando homens entre outros animais,
devastando a sede desses matagais. 

Numa noite de verão, Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios. Quem com ela se encontrar, diga lá no alto mar, que é preciso voltar já pra cuidar dos nossos filhos.

 

Músicas citadas: É doce morrer no mar (Dorival Caymmi), Arrastão (Edu e Vinícius), Azul da cor do mar (Tim Maia), Mambo da Cantareira (Jards Macalé), Gabriela (Chico Maranhão), Eternas ondas (Zé Ramalho) e Madalena (Chico Buarque)

 

APRENDER A NADAR

Sem mar na minha terra, sentia muita falta dele. Queria saber o que havia se mergulhasse vinte mil léguas submarinas, os corais, os peixes coloridos, os pequenos monstros que não nadavam, andavam. Aquelas lagostas enormes, camarões pitu. Ouvia as canções de Caymmi em discos de 78 rotações que o meu pai colocava na vitrola, enquanto fazia a macarronada do domingo. Imaginava que era doce morrer no mar, e o mar quando quebrava na praia, era bonito, sim era bonito. Uma vez por ano víamos o mar, mar de Copacabana, nas férias de verão. O meu pai nem bem tinha chegado já contava aquela piada de mineiro, a cada janeiro: “Encher isso d’água não foi nada, o difícil foi sargá isso tudo”. Menino ainda, devorei O Velho e o Mar no quase escuro de uma lâmpada de 40 velas de um abajur em cima do criado mudo. Na era dos festivais, torcia por Edu na finalíssima: eh, tem jangada no mar, eh eh eh… hoje tem arrastão, todo mundo pescar, chega de sombra, João. Numa dessa férias, levei pra minha aldeia uma garrafinha de Grapette cheia de água do mar. Ela ficava em cima da minha escrivaninha, mas com o tempo foi ficando turva, muito esquisita. Fedia, cheirava mal. Joguei no lixo com vasilhame e tudo. O meu prazer era ver e sentir a água viva do mar de Copa. Daquele mar sem fim, que a gente não via o horizonte que, meu pai repetia, lá longe é a África. Então entrei num curso para aprender a nadar e poder atravessar sete mares só pra  ver aquela morena de Angola que levava o chocalho na canela, só pra te ver Gabriela. 

QUERO IR PARA PARIS, PARIS NÃO HÁ MAIS

Fico aqui pensando com os meus botões se um dia vou voltar a pegar um avião com destino à felicidade. Chamo de felicidade, Paris, a cidade que conheço na palma da mão, onde morei por quase uma década em tempos sombrios por aqui.

A Paris que eu sonho voltar um dia e não sei se vou realizar, também está triste, com poucas pessoas circulando de máscaras pelas ruas, os cafés fechados, inclusive o Café de Flore onde, uma vez por ano, ia tomar um chocolate quente e comer um croissant au beurre

Eu era apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem amigos importantes e vindo de Belo Horizonte. Os minutos que passava ali sentado uma vez por ano me bastavam. Ficava imaginando Jean-Paul Sartre chegando com Simone de Beauvoir. O que eu teria para dizer a eles com o meu francês ruim?

Foi em Paris que aprendi a cozinhar, a descascar batatas, fatiar cebolas, temperar pepinos, amassar alho, selar berinjelas. Foi em Paris que aprendi a comer pamplemouse com colherzinha, a gostar de carne de carneiro temperada com harrissa, a molhar as tiras de pepino no molho de iogurte grego.

Paris para mim é e não é um passeio à beira do Sena nessa época de outono, uma lambida no sorvete de manga do Bertillon a caminho da Notre Dame, hoje apenas cinzas. Paris para mim é escrever poemas ao lado de um copo de Perrier com uma rodela de limão siciliano num bar qualquer do Marais.

Mas é também o boeuf bourguignon mal feito do restaurante Mabillon, onde nós universitários comíamos de segunda a sexta. É também a recordação de uma gelatina endurecendo no peitoril da janela por falta de uma geladeira, um tatame no chão por falta de uma cama da Habitat e de roupas comuns dependuradas no vão da janela por falta de um armário. 

Se um dia essa pandemia se for, vou ouvir uma voz dizendo que dentro de poucos minutos pousaremos no Aeroporto Internacional Charles De Gaulle. Vou apertar os cintos, calçar o tênis, colocar a cadeira na posição vertical e ficar olhando na telinha o avião sobrevoando e circulando a cidade amada.

O avião vai pousar, vou descer, percorrer correndo enormes corredores até chegar na porta principal e pegar o ônibus 131 até Denfert Rocherreau

Quero parar numa banca pra ver a capa do último número do Charlie Hebdo, sacudir e tomar uma Orangina, comer um pain au chocolate, passar a tarde observando os livros dos buquinistas expostos na murada do Sena. Descer as escadas rolantes dos Halles, entrar na Fnac para observar mil e um livros novos e, ao lado, comprar um incenso une après-midi sous um figuier, porque Paris me viciou em figos, em livros, em Orangina, em pamplemouse, em poesia e em incenso, desde aqueles anos hippies. 

 

NUNCA TE VI MAIS GORDO

Onde eles estão que não os vejo? Dizem que dentro do ônibus, do elevador, supermercado, no hospital, no ar, no avião. Ando na rua paranóico olhando para um e para outro. Quem está com ele? Moças bonitas cheirando a botão de laranjeira, trabalhadores da prefeitura mexendo cimento para fazer calçadas, diaristas apressadas digitando a senha para abrir o portão do prédio, o rapazinho levantando a porta de ferro da ótica, o motorista do carro que freia para eu passar, todos com máscaras. Não sei se estão felizes, rindo ou chorando. Com máscara somos todos iguais. Não os vejo indo embora no ralo da pia quando esfrego as mãos com sabão de coco líquido, não os vejo na sola do meu Nike, não os vejo na minha camisa florida, não os vejo na mesa de um bar onde as pessoas tomam Itaipava. Onde eles estão que não os vejo? Na casca da laranja, escondido nas folhas do repolho, grudado no vidro da janela da sala, no celular acendendo anunciando mensagens, no telefone fixo frio e abandonado no canto do escritório, no envelope convocando para uma reunião virtual do condomínio. Ele aparece redondo cheio de antenas de todas cores no Google. Já trabalhei em laboratório e sei como é o prazer de ver ali quem a gente não vê no dia-a-dia. Prazer macabro porque ele é bonito como uma obra de Beatriz Milhazes, apenas um pouco mais colorido. Que medo.