ILHA DO NORTE

Quando o dia amanhece cinza como hoje, chuvoso, meio frio, o excesso de passado toma conta de mim. Então, lembro-me de Londres, a primeira vez que pisei ali na esperança de escrever um livro e, quem sabe, nunca mais voltar ao meu país tropical, com quem andava rompido.Tinha vinte e poucos anos, a minha calça Lee era desbotada pela água sanitária, a camiseta do Grateful Dead era preta, e os tamancos eram suecos. Os cabelos eram rebeldes, presos com um elástico para tapear a polícia inglesa, severa com os forasteiros que ali chegavam. Na mochila, havia apenas três cadernos Avante!, duas canetas Bic de cor roxa, sonhos guardados e uma boa dose de ilusão.
Gostei dali à primeira vista. No primeiro dia, ao chegar na Estação de Waterloo, sai andando pelas ruas molhadas brilhantes, encantado com as árvores uniformes, a limpeza das calçadas, o silêncio, os prédios revestidos de tijolinhos bonina com portas maravilhosas, vermelhas, verdes, azuis, amarelas e vinho. Cada uma mais linda que a outra.
Procurando no parque o albergue que me abrigaria nos primeiros dias, passei por esquilos comendo nozes, cavalheiros de fina estampa, galgos elegantes com um olhar blasé, nem aí para os pombos. Até chegar ao meu destino, passei por gansos, marrecos de Pequim, gaivotas, pardais e muitos melros beliscando o gramado.
Me instalei num pequeno quarto, o único para um hóspede só. Havia uma cama de solteiro e duas toalhas imaculadamente brancas em cima dela. Uma cadeira acolchoada, um guia da cidade, uma escrivaninha, uma chaleira elétrica em cima dela, dois ou três pacotinhos de chá Twinings de menta e nada mais.
Uma janela pequena dava para o gramado do parque e estava constantemente escorrendo água pelo vidro, suando, uma alquimia entre o quente ali dentro e o frio lá fora.
Lá fora, era Londres. Sonhava um dia em chegar ali e ir ficando. Gostava daquele ar sombrio, cinza, frio, triste, estrangeiro, europeu, que via de tempos em tempos nas páginas da revista Manchete. Meu inglês ruim seria corrigido em pouco tempo ao assistir a BBC todos os dias, ao ler o sisudo The Times e as revistas que gostava: Bird Magazine, Willd Life, New Statesman, Melody Maker, New Musical Express, Radio Times e Time Out.
Durei três dias naquele albergue, com dificuldade para aprender o inglês britânico e sem saber como a chaleira elétrica funcionava. Três dias era o tempo permitido para cada hóspede e nem insisti em ficar mais. Saí com a mochila nas costas rumo a Earls Court, onde me disseram que havia pequenos hotéis, baratos e limpos.
Cheguei em um simpático, depois de muito caminhar, de almoçar um arroz com curry e peru desfiado num pequeno restaurante indiano, onde a tristeza no olhar dos donos me comoveu, olhar que acabei me acostumando com o passar dos dias.
Dias que passei num hotel de chão irregular, janela travada pela tinta com que foi pintada, cama de casal, um quadro mostrando um cavalo em bico de pena e o nome dele: Filho da Puta, assim mesmo em bom português. Todas as noites, quando chegava no quarto do hotel, conversava com o Filho da Puta.
Contava a ele as lojas de discos que havia descoberto, os novos parques que havia percorrido, os cassinos onde arriscava algumas velhas moedas em troca de uma pequena fortuna que nunca veio. E as horas que passava na WHSmith decifrando os títulos dos livros, e folheando a Bird Magazine, sentado numa poltrona de couro marrom.
Tudo isso em busca de imaginação para um livro de contos curtos que chamaria O colecionador de passarinhos, uma ideia que vinha costurando desde que ouvi Blackbird pela primeira vez, no álbum branco dos Beatles, quando revi Ospássaros, de Alfred Hitchcock e li O corvo, de Edgar Allan Poe.
Não durou muito Londres na minha vida. Foi apenas um sonho de algumas noites de inverno, coisa de quem tem vinte e poucos anos e uma bagagem cheia de sonhos e ilusão. No dia da despedida fui até a feira de Portobello e comi um fish & chips embrulhado num papel de pão acompanhado de uma Guinness, sentado no meio-fio, não poderia ser de outra maneira.
São apenas algumas as lembranças dos poucos dias que passei ali. A fotografia da faixa para pedestres de Abbey Road, os primeiros discos de reggae que escutei nos guetos jamaicanos, os caramelos que roubei na Harrods, os cadernos Avante! na mochila, o prazer de andar no segundo andar dos ônibus vermelhos sem saber pra onde ir, a noite que passei dentro de uma cabine de telefone, com pouco dinheiro no bolso, comendo papinha da Nestlé.
Hoje, amanheceu assim aqui em São Paulo. O tempo cinza lá fora, a chuva fina caindo e o céu pesado nos protegendo, me fez lembrar da primeira vez que cheguei a Londres sonhando ficar para sempre e do livro O colecionador de passarinhos, que nunca escrevi.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

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O VIZINHO DO OITAVO

Tenho uma amiga muito divertida, muito animada, que gosta de conversar com todo mundo, puxa papo todo dia com o porteiro do prédio, com a diarista, com quem está dentro do elevador, na fila do banco, na feira escolhendo tomates durinhos, na porta do banheiro do shopping ou na fila da Claro.

Minha amiga gosta de ser amiga de todo mundo, ninguém escapa do seu papo, nem que seja pra comentar o calor, o frio, se vai chover ou não vai chover. Tudo que acontece ao seu redor é assunto, até mesmo aquele pernilongo de barriguinha cheia pousado no teto.

– Como tem pernilongo por aqui, né?

Quando minha amiga se mudou para um grande condomínio, foi um problema. Era gente demais pra fazer amizade. Conseguiu muitas, na piscina, no salão de festas e, principalmente, nas reuniões de condôminos.

Ficava às vezes assustada de ver tanta gente reunida, gente que morava em cima dela, embaixo, ao lado, em frente e, mesmo depois de alguns anos morando ali, nunca tinha visto.

Conheceu donas de casa, advogados, professoras, engenheiros, comerciantes, contadores, tinha de tudo naquele grande condomínio. Famílias com um filho, dois, três. Gente solteira, gente com trinta anos que ainda morava com os pais, artistas, jornalistas, gays dentro do armário e fora.

Toda vez que minha amiga estacionava o carro na garagem, ficava imaginando quem seria dono daquele Onyx laranja, daquele fusquinha azul-calcinha, daquela camionete Toro novinha e daquele Mini Cooper preto e branco.

Era difícil para ela decifrar quem era quem naquele condomínio quase cidade. Com alguns, ela fez uma amizade mais sólida, gente que ela conheceu no dia da inauguração da churrasqueira. Entre um coraçãozinho de galinha e uma costelinha, ela ficou sabendo que a moradora do sétimo também estudara no Colégio de Aplicação, que o morador do quinto era o dono do Mini Cooper preto e branco e que o senhor grisalho do décimo era o pai de uma famosa apresentadora de TV.

Mas tinha um morador que ainda intrigava a minha amiga, aquele que sempre parava no oitavo andar. Às vezes, entrava no elevador, cumprimentava todo simpático, comentava que estava um dia bom pra piscina, que era o dia do rodízio dele e que com os assaltos no bairro, estavam precisando colocar câmeras de vigilância no muro do prédio.

No dia seguinte, ao cruzar na portaria, ele sequer olhava pra ela, fingia que não conhecia e se ela dizia bom dia, ele muitas vezes nem respondia.

– Só pode ser um cara bipolar, ela pensou.

Na semana passada, abriu a porta do elevador e o morador fez questão de ajudá-la a colocar pra dentro todas as sacolas de cânhamo que comprara no Whole Foods Market de Picadilly Circus, em Londres. Ele foi gentil e até elogiou as sacolas, tão resistentes e bonitas.

Mas, no dia seguinte, subiu no elevador, desceu, como sempre, no oitavo andar, sem sequer olhar pro seu rosto.

Minha amiga chegou em casa, abriu a porta e foi logo dizendo pra filha:

– Que cara louco esse do oitavo. Tem dias que me cumprimenta, que conversa, tem dias que finge que nem me conhece. Agora, nunca mais cumprimentar. Vá se danar!

Foi quando a filha olhou pra ela e disse:

– Mãe, você não percebeu que eles são dois, que são gêmeos?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TOMBO

Pequena história de um acidente dentro de casa

Eram duas e meia da madrugada quando Julião, com nove anos de idade, despencou da cama beliche, estatelando no chão. O barulho foi um barulho surdo, seco, nós não imaginávamos que seria um tombo do beliche, no máximo suas revistas Recreio que ele costumava ler antes de dormir.Do tombo, vou contar mais tarde.

Julião era um menino muito curioso, sempre foi. Pequenininho ainda, era apaixonado por três coisas, além das revistas Recreio: Bandeiras, moedas e capitais. Todo final de ano, quando eu chegava em casa com o Almanaque Abril, ele debruçava sobre aquele calhamaço pra conferir as bandeiras de novos países que surgiam na África, as mudanças de moedas e a população das capitais.

Sim, antes do tombo, ele andou se interessando também pela população das capitais. Vinha encantado dizer que morávamos numa cidade que tinha uma população quatro vezes maior que a de Copenhague, a capital da Dinamarca.

Assinávamos a Folha e o Estadão e ele, logo cedo, ia direto nos cadernos de Economia pra ficar comparando o marco com o dólar, o franco com o peso, o iene com o dracma, numa época em que ainda não havia o euro. Vivia me pedindo laudas do Estadão, onde eu trabalhava, pra fazer gráficos e planilhas, reais e imaginárias. Gostava de fazer projeções.

As bandeiras, outra paixão, ele desenhava com esmero. Copiava direitinho do Atlas Melhoramentos, da enciclopédia Geografia Ilustrada que tínhamos em casa e também do Almanaque Abril, que trazia, em cores, cada uma delas.

Julião sempre foi uma figuraça. Nessa época, ainda sem Internet, eu jurava de pés juntos que ele seria economista, ia fazer FGV e ter uma profissão nada a ver com a nossa. Errei feio. Julião fez a Escola Guignard e hoje mexe com informática, com teatro, com arte e adora entrar numa briga política no Facebook. Nesse último quesito, não sei quem ele puxou. Risos.

Ele aprendia essas coisas olhando também um mapa-mundi que tínhamos em casa, enorme, brinde da revista Geo. Costumava ficar medindo a distância entre um país e outro com uma régua de 30 centímetros. O mundo para ele não tinha curvas.

O mapa do Brasil, Julião olhava com desconfiança porque ele não nascera em nenhum daqueles Estados. Não era paulista (apesar de ser um pouco), não era mineiro (apesar de ser muito), não era carioca, nem gaúcho. Na carteira de identidade dele estava escrito: Nacionalidade – Paris, França.

Agora vamos ao tombo. Quando vimos o Julião estatelado no chão, a primeira coisa que pensei foi: Será que bateu a cabeça em algum lugar? Será que está consciente de tudo? Levantamos o menino, meio sonolento, desorientado e a saída que encontrei foi fazer perguntas:

– Qual é o seu nome?

– Julião.

– Sobrenome?

– Villas.

Não me contentei e prossegui:

– Qual é a capital do Japão?

E ele respondeu, meio irritado:

– Tóquio!

– E da Tchecoslováquia?

– Praga!

– Como é a bandeira do Líbano?

Vermelha, branca e tem uma árvore no meio!

– E a moeda da Suíça, qual é?

– Franco Suíço.

Não tive dúvidas, carreguei ele no colo e devolvi pra parte de cima do beliche. Julião dormiu feito uma pedra o resto da noite.

No dia seguinte, liguei pro médico só pra narrar o acontecimento da madrugada e, além de rir, ele advertiu:

– Você não deveria ter colocado ele na cama imediatamente. Deveria ter ficado uma meia hora conversando, para que ele despertasse completamente.

Pensei com os meus botões: Conversar sobre o quê, aquela hora da madrugada? Sobre o dirrã marroquino, a moeda do Marrocos? A bandeira verde, amarela e azul do Gabão ou sobre Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim? Vai que ele não respondesse…

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SONHOS

Pequena história de um amigo que continua no lado esquerdo do meu peito

Um dia, meu médico disse que dificilmente eu teria problemas de memória na velhice. Não somente pelo jornal diário da família que escrevo e cultivo, desde 6 de novembro de 1977, mas também porque trabalho com a cabeça dia e noite. Fiquei feliz.

Meu pequeno museu do jornalismo não é informatizado e funciona à base da lembrança. Outro dia, um amigo meu perguntou se eu tinha uma reportagem sobre racismo, publicada na revista francesa Actuel e eu me lembrei perfeitamente, era assunto de capa. Fui procurar na minha revistaria e, depois de muito vasculhar, achei. Era uma revista com mais de quarenta anos.

Esse mesmo médico me sugeriu anotar meus sonhos diariamente, já que gosto de escrever, às vezes misturando a realidade com a ficção. Topei e hoje já tenho 1843 sonhos registrados e catalogados. Desde aquele janeiro de 2014, nunca mais deixei de sonhar um dia sequer. E registrar.

Sonho constantemente com passarinhos. São eles que mais aparecem nos meus sonhos. Curiós, periquitos australianos, canarinhos belgas, coleirinhas. Freud tentou me explicar com o livro A Interpretação dos Sonhos, mas não conseguiu. Li muito sobre o assunto, mas nunca cheguei a uma conclusão. O Guia dos Sonhos, Sonho e Arte, O Livro dos Sonhos, O Livro dos Sonhos e da Sorte, li tudo isso por curiosidade.

Diz a lenda que sonhar com dentes caindo significa que alguém da família vai morrer. Já sonhei muito, fiquei preocupado, mas fomos em frente. Diz a lenda que sonhar com fezes significa muito dinheiro. Nunca sonhei.

Minha mãe sonhava com coisas incríveis. Um dia, o meu pai foi Banco do Brasil receber o seu ordenado, voltou para a repartição e o dinheiro sumiu. Naquela época, as pessoas iam ao banco e levavam pra casa o salário inteiro. Um mês depois, minha mãe sonhou com um funcionário do Serviço de Meteorologia, que havia sido assassinado num hotel no centro de Belo Horizonte e ele disse a ela que o envelope com o dinheiro estava caído dentro do sofá de couro que ficava na sala do meu pai. Ela ligou pra ele na certeza de que o dinheiro estava lá. Viraram o sofá de cabeça pra baixo e o envelope caiu no chão com o ordenado do meu pai.

Lembro-me bem quando minha irmã mais velha era só preocupação, medo de tomar bomba em Francês no Colégio Sion. Minha mãe sonhou com o mesmo funcionário assassinado, o Osvaldo Menezes, dizendo para ela estudar o ponto de número 9. Era uma prova oral em que o aluno tirava de dentro de um saquinho de pano, um número com um assunto e tinha de dissertar sobre ele. Não deu outra. A minha irmã enfiou a mão no saquinho de pano e tirou o ponto número 9. Ela quase desmaiou na hora, mas recuperou-se porque sabia tudo de cor. Tirou 10 com louvor e foi aprovada.

Além dos passarinhos, sonho muito com peixes voando, aviões caindo, elevadores abertos de prédios em construção, paredes para serem escaladas e esquilos andando pelos gramados de Londres, Sonho muito com pessoas.

A pessoa que mais sonhei desde o dia em que comecei a anotar os meus sonhos é a minha amiga Sandra Annenberg. Treze vezes. Não sei se Freud explica. Talvez a vontade que temos de voltar a trabalhar juntos novamente, explique. Nos sonhos, temos sempre muitos projetos, como se sonho fosse vida real.

Não sei se é porque editei no inicio dos anos 2000, o livro A Fantástica Volta ao Mundo, de Zeca Camargo, ele está em segundo lugar nos meus sonhos, mas distante da Sandra. Seis vezes. Hoje resolvi contar aqui essa história, porque o meu amigo Geneton Moraes Neto, morto em 2016, empatou com Zeca Camargo essa noite.

Há várias semanas venho sonhando com ele e hoje foi um sonho, digamos, de verdade. Geneton tocou a campainha da minha casa e quando atendi, disse a ele:

– Eu sabia que você não tinha morrido!

Geneton vestia uma calça Lee, uma camisa cor de rosa e um tênis Conga sem cadarço. Nos abraçamos fortemente e ele estava vivo, senti isso. Estava ali para retomarmos o nosso projeto.

Nosso projeto, quando o seu coração parou de bater, estava andando. Queríamos fazer o Museu do Jornalismo, juntando meu acervo ao dele. Estávamos entusiasmados quando ele se sentiu mal numa ilha de edição e foi levado ao hospital, onde passou alguns meses e acabou nos deixando.

Como penso muito nesse projeto, talvez venha sonhando muito com ele, Geneton, amigo do peito. Não sei que fim levaram suas revistas, seus recortes de jornal, suas cadernetas de anotações, suas fitas K-7, seus vídeos em Super-8. Falha minha. Deveria ter procurado a Beth, sua mulher, mas não procurei.

Como toda vez que ia ao Rio, jantava com ele no Restaurante À Mineira, em Botafogo, onde comíamos aquele angu mole e planejávamos o Museu do Jornalismo, ir à Cidade Maravilhosa virou um sonho. O Rio de Janeiro está em terceiro lugar. Quatro vezes.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A PEDRA FUNDAMENTAL

A casa da Rua Rio Verde ficou pronta em julho de 1950. Não houve festa de inauguração, nem mesmo chope na laje, quando a laje secou. Foi construída passo a passo, devagarinho, cada tijolo comprado, anotado numa caderneta Deve/Haver.

O velho era assim. Anotava não somente o tijolo que comprava, mas a cal, as pedras, o cimento, as telhas, as portas, as janelas, os tacos, os canos, os fios. Orgulhava-se do feito, mostrando aos cinco filhos aquela velha caderneta, nem me lembro mais em que moeda.

A casa ficou pronta um mês antes do meu nascimento. Meu umbigo ainda não havia caído, quando minha mãe deixou a Maternidade dos Comerciários e foi pra essa casa nova, cheirando a tinta e taco novo.

Era uma casa à moda antiga, não tinha armários embutidos, por exemplo, uma novidade que surgiu anos depois. Tinha copa com uma pia para lavarmos as mãos antes das refeições, tinha despensa onde meus pais guardavam pacotes e mais pacotes de papel higiênico Tico-Tico, muito arroz, muito feijão, muito fubá e engradados de água mineral São Lourenço, vício do velho.

E tinha um quintal, onde durante toda a nossa juventude, criamos porquinhos-da-índia, periquitos australianos, pombos, galinhas, coelhos e até mesmo um velho cágado, que metia muito medo na minha irmã mais nova.

A casa foi reformada várias vezes. Ganhou armários embutidos, uma garagem, uma lavanderia, móveis pés palito, tapetes com ondas estampadas inspiradas na bossa-nova, uma parreira e cimento no galinheiro, pra nosso desgosto. Gostávamos daquele chão de terra, onde as galinhas ciscavam caçando minhocas e os coelhos faziam buracos, seus ninhos.

Quando foi construída, ficava longe de tudo, no fim do mundo. Tínhamos que descer no ponto final do bonde e subir uns dez quarteirões a pé até chegar na Rua Rio Verde. O bairro foi crescendo e, com o passar dos anos, a casa acabou ficando no coração do bairro do Carmo, praticamente na Savassi, a Ipanema dos belo-horizontinos.

Lembro-me bem quando o meu pai recebeu uma proposta milionária do jornal O Globo, que queria transformar a nossa casa em sede do jornal carioca nas Minas Gerais. Lembro-me que eram dois milhões, não me lembro mais se de cruzeiros ou cruzados.

O velho resistiu bravamente, dizendo que não vendia a casa por dinheiro algum e não vendeu mesmo. Dizia que o seu caixão seria velado na sala principal, o que não aconteceu, porque o mundo mudou e o corpo foi para o Parque da Colina. Ninguém mais velava seus mortos na sala principal da casa.

O tempo foi passando, o bairro do Carmo crescendo, se desfigurando. Casas dos anos cinquenta, sessenta e setenta, aquelas com alpendre e jardins cheios de roseiras, foram dando lugar a cabelereiros, brigaderias, mini-mercados, botecos, sorveterias e lojinhas de operadoras de celular.

A casa da Rua Rio Verde foi se transformando num oásis que não suportava mais a modernidade, lembrando aquela velha canção do Caetano que fala da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Até que foi vendida, depois de muito pensar, porque a paixão que tínhamos por ela era muito grande.

Poucos dias depois da venda, lembramos de uma outra canção, aquela do Adoniran Barbosa, quando veio os home com as ferramentas e o dono mandou derrubá.

Mas como filho de peixe, peixinho é, meu filho Julião correu até lá e conseguiu recuperar cinco pedaços de pedras da casa, uma para cada filho do querido Doutor Bouçada.

Um prédio de apartamentos subiu num piscar de olhos e a fachada ganhou uma placa: Residencial Villas.

A pedra chegou às minhas mãos na semana passada e hoje ela repousa na estante do meu escritório, ao lado de três pedaços do muro de Berlim que, um dia, com as ferramenta na mão, arranquei e trouxe pro Brasil de recordação.

Depois de citar Caetano e Adoniran, lembro-me agora do poeta Drummond com o seu poema que diz: No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PERU

Quando eu era criança, no tempo do Mandiopã, não existia peru morto pra comprar, só vivo. Ainda mais peru congelado e com apito. Nem pensar. O meu pai comprava no mercado, que era onde se vendia peru vivo, levava o bicho pra casa, matava, temperava e assava quando chegava o Natal.

Um desses natais, entrou pra história porque o meu pai foi pro Mercado Central de Belo Horizonte com três amigos de copo, funcionários do Serviço de Meteorologia: Jesus, Mateus e Aurino.

Depois de uma dúzia de Brahmas, eles lembraram de comprar o peru, porque o objetivo inicial era esse. Escolheram o maior de todos e nem quiseram que o vendedor amarrasse as pernas do bicho com um barbante. Saíram com ele debaixo do braço, todo nervoso, se debatendo.

Debateu tanto que acabou escapulindo dos braços de Mateus e aprontando a maior confusão no mercado. O peru estava doidaço, subiu na banca de laranja, jogou frutas pra todos os lados, desceu, saiu correndo e os bebuns atrás dele. Entrou no açougue, passou pelas picanhas, pela alcatra e pelo acém e foi-se embora mercado afora. E a meninada correndo atrás, assobiando, porque quando a gente assobia, o peru glugluta.

Só mesmo um policial fez o bicho parar. Enfiou o danado dentro de um saco de linhagem, depois de dar uma bronca nos quatro meteorologistas que, seguramente, seriam reprovados no teste do bafômetro.

O peru é motivo de chacota. É concorrente do pinto, quando o menino chega aos sete anos, mais ou menos. Quem nunca ouviu uma mãe dando uma dura no filho?

– Tira a mão do peru, menino!

Nos tempos de TV Globo, todo ano era a mesma piada quando chegava o final do ano. A emissora dava um peru e dois panetones de presente pros funcionários. Só se ouvia nos corredores:

– Você já pegou o peru do Doutor Roberto?

Quem morre na véspera é peru! Essa frase, piada bem velha, era muito falada quando eu era criança, ainda no tempo do Cremogema.

Vinicius de Moraes viu poesia no peru e colocou o bicho dentro da Arca de Noé.

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

O peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-tico riu-se tanto

Que morreu de congestão

O peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão

Mulher muito enfeitada, oxigenada, com brincos enormes, colares, pulseiras, salto sete e meio e uma capinha do celular de oncinha, é chamada de perua. Não sei porque, a perua ave, na verdade, é bem mais simples que o peru macho, aquele que se exibe orgulhoso o seu rabo em forma de leque.

Não deve ser fácil pro peru, quando chega dezembro, ser chamado de peru de Natal. Isso significa que vai estar bem assado, recheado com farofa e, quem sabe, de uva passa, numa mesa cheia de família e ao som do Jingle Bell.

Procurei no Google e fiquei sabendo que o peru tem o nome científico de Meleagris, que pesa de 5 a 10 quilos, que a perua bota uma média de 12 ovos pra chocar, e se ele for malandro, consegue viver – ou melhor, sobreviver – a dez natais.

Quase todo peru é cinza, os únicos brancos que vi foi quando fui a Giverny, no interior da França, na casa do pintor Claude Monet. Lá tinha peru branco, iguais aos que ele pintou um dia.

Mas a grande confusão com o peru é geográfica. Existem mil versões para nosso país vizinho se chamar Peru. Uns dizem que o nome vem de uma tribo panamenha chamada Biru e que foi se transformando até chegar a Peru. Outros dizem é o nome de um rio que tem por lá, o Viru. E tem gente que garante que Peru na língua quíchua significa natureza. Quer dizer, nada a ver com a nossa ave.

E o mais curioso de tudo é a Turquia, em inglês Turkey, que traduzindo, é Peru. Quer dizer, temos um Peru aqui do lado e outro do outro lado do mundo, a Turkey, que também é Peru, mas não tem nada a ver com a ave. Deu pra entender? Boa ceia a todos!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TUCANO

Quando eu era criança, o nosso vizinho do lado tinha um tucano de verdade. Ele vivia solto no quintal, pulando de galho em galho das árvores frutíferas. A laranjeira, a mangueira, a goiabeira e uma ameixeira. De vez em quando, ele ia pro telhado e ficava espiando, do nosso lado, as galinhas procurando minhocas, os pombos catando palha pra fazer seus ninhos, os coelhos fazendo buracos na terra vermelha.

Toda ave tem um nome de família complicado, difícil de falar. A família do tucano á a Ramphastidae, mas poucas pessoas sabem, só mesmo os biólogos mais estudiosos. O que todo mundo sabe é que o tucano é bem brasileiro, tem um bico enorme que parece forte, mas é frágil, e muitas vezes caem em contradição.

Os tucanos vivem nas florestas da América Central, mas, principalmente nas florestas da América do Sul. São vistos também em Brasília, duas ou três vezes por semana, aqueles com uma plumagem cinza ou preta. No Brasil, existem em maior quantidade no Estado de São Paulo, desde que ocuparam o território, no dia primeiro de janeiro de 1995.

Eles se alimentam de frutas, são chegados nas menores, tipo pitanga, jabuticaba, seriguela, essas frutinhas. São conhecidos também por roubar ovos nos ninhos de outras aves, mas nunca são punidos por isso.

Os tucanos não são machistas, ajudam a fêmea a construir seus ninhos, a chocar os ovos e ajudam também a mamãe tucana a alimentar os filhotes. Voam meio desconjuntados e só alcançam voo pleno quando estão em helicópteros nos céus de Minas Gerais.

Tucanos adoram uma árvore grande e frondosa, passam o dia por lá, mas gostam também de um muro, principalmente no planalto central do país, onde, no cerrado, as árvores não são tão frondosas assim.

Em mil novecentos e sessenta e pouco, o tucano virou pop star na televisão brasileira, ao topar ser garoto propaganda da Varig, a maior companhia aérea nacional na época. A cada anúncio novo que aparecia na telinha, minha mãe me chamava: “Corre, vem ver o tucano da Varig!”

Eu corria pra frente da televisão e me lembro bem do tucano carioca passeando pelas praias de Copacabana, o tucano mineiro sobrevoando o Mineirão, o tucano cearense navegando numa jangada e o tucano gaúcho tomando chimarrão.

O meu pai, toda vez que via o tucano do nosso vizinho do lado, em cima do muro, ele dizia que tucano é bom de bico. Ele tinha razão. Nunca aquele tucano foi preso por roubar as ameixas e as goiabas no nosso quintal. Sempre viveu leve e solto.

Os tucanos medem aproximadamente 60 centímetros e pesam por volta de 620 gramas. Claro que tem algumas espécies que são maiores, chegam a 1 metro e 90 e pesam, às vezes, mais de 90 quilos.

Existem várias espécies de tucanos. O tucanuçu, o tucano-grande-de-papo-branco, o tucano-de-bico preto, o tucano-de-bico-verde, entre outros.

Recentemente descobriram três novas espécies: O tucano-da-mala, tucano-cocae e o tucano-propinae. Esses são os mais espertos da espécie e dificilmente são pegos, dificilmente irão um dia pro cativeiro.

Não é comum ver tucanos voando nas metrópoles.  Nas grandes cidades, costumam passar dias e dias em cima do muro. Essa espécie urbana é o tucano-amarelo-e-azul. Em São Paulo, costumam ser vistos no Parque Buenos Aires, no bairro de Higienópolis. Costumam sair de lá apenas em dias de eleição.

São tucanos que geralmente vivem numa boa, passeando por aqui na sua garoa. Mas desde o dia 28 de outubro, eles desapareceram da mídia, quase do mapa. Pelo que estou percebendo, estão correndo sério risco de extinção. Quem viver verá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRIMEIRO JORNAL

No inicio dos anos 70, nosso sonho não tinha acabado, apesar daquela declaração de John Lennon, no final dos 60. Nosso, isto é, calouros de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais.

O sonho, já nos primeiros dias de aula, era fazer um jornalzinho, poder espalhar nossas ideias, nossa opinião, nossa voz. Sermos donos do nosso nariz. Em abril, fizemos a primeira reunião e quando foi maio, o jornalzinho já estava circulando de mão em mão nos corredores da Faculdade de Filosofia.

Demos a ele o nome de Flã. Flã, segundo o Dicionário de Comunicação do Pasquim, era um cartão especial, semelhante a um papelão grosso, composto por folhas de papel de seda e de papel mata-borrão intercaladas, próprio para moldar matrizes de estereotipia. Coisa do século passado.

Era um jornalzinho pobre, magro, mimeografado em folha A4, e cheirava a álcool. Ele falava de música, de cinema, literatura, teatro, esportes, televisão, tinha uma grande matéria de capa, o editorial e um conto.

No primeiro número falamos de Transa, de Caetano Veloso, do Clube da Esquina, de Milton e Lô Borges, de Atom Heart Mother, do Pink Floyd, do Killer, de Alice Cooper e do Passado, Presente e Futuro, de Sá, Rodrix e Guarabira.

Charles Magno escreveu sobre a coqueluche do momento, Jane Fonda, enquanto um artigo assinado por Miriam Crysthus, começava assim: “Qualquer um que tenha irmão, primo, parentes nessa faixa de idade (14-18 anos) já deve ter notado que o jovem definitivamente não lê”.

Dinorah do Carmo, minha parceira na direção do jornal e apaixonada pelo palco, escrevia na página quatro sobre duas estreias no teatro: Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol, e As Visitas, de José de Souza.

 

“Falar sobre televisão é o negócio mais chato do mundo e fazer televisão é o negócio mais bacana do mundo”. Assim começava a crítica de Marco Pieroni sobre os telejornais da Globo: JH, JN e JI, o Jornal Internacional.

Eu comentava a chegada às bancas da Revista de Fotografia, do Grilo e do Jornalivro, da editora Arte & Comunicação, aquela que fez uma pequena revolução na imprensa brasileira naquele início dos anos 70.

Dinorah do Carmo assinava também a matéria de capa sobre os cinquenta anos da Semana de 22 e o saudoso Benjamin Abaliac, anunciava a falência do futebol mineiro, numa matéria de página inteira.

E pra terminar, o conto Ana, assinado por Lucia Helena, dizia nas primeiras linhas: “Ana Maria andava sozinha, olhando pro mar. Tarde no Rio, céu já vermelho, mostrando que o amanhã seria dia de praia cheia”.

O número 1 do Flã esgotou em poucas horas. Fizemos uma segunda tiragem, que saiu meio desbotada porque o papel do mimeógrafo já não aguentava mais a impressão.

Queríamos, para o segundo número, a participação de toda a galera do Jornalismo da UFMG. Colamos uns anúncios nas paredes da faculdade, pedindo sugestões de pauta e a colaboração de todos.

Colocamos uma caixa para coletar as sugestões ao lado do elevador e, dois dias depois, fomos lá colher os frutos, sonhando com um segundo número robusto, plural e com muito conteúdo.

Abri a caixinha que estava fechada com cadeado e a surpresa foi encontrar lá dentro, vinte e dois contos. E só. Minas Gerais tem o maior número de contistas por metro quadrado, era uma frase que circulava pelo Brasil afora. E era verdade.

Corremos pra fechar o segundo número a toque de caixa e, lembro-me bem, espinafrei, no editorial, o fato de termos recebido apenas contos. Aqui é uma Faculdade de Jornalismo e não de Letras, esbravejei. Foi aí que tive uma briga com Luiz Fernando Emediato, que defendia que jornalista poderia ser também contista. Ele citava o caso do premiado jornalista Roberto Drummond, autor de A Morte de D.J em Paris e Sangue de Coca-Cola.

Resumo da ópera: Quase cinquenta anos depois, Emediato é um dos grandes amigos que tenho e que guardo no lado esquerdo do peito.

Ele saiu de Minas Gerais, tomou o rumo do jornalismo, ganhou prêmios trabalhando como repórter especial no Estadão durante muitos anos. Depois tomou o rumo da literatura, publicou vários livros e hoje é dono de uma editora. Como escritor, ganhou o Concurso de Contos do Estado do Paraná, um prêmio cobiçado, como é hoje o Jabuti. Ganhou também o Concurso de Contos Eróticos da revista Status, prestigiadíssimo na época.

Durante décadas, trabalhamos juntos em vários projetos, editando livros da falecida Editora EMW e até mesmo em Cuiabá, numa temporada de 40 graus à sombra, estivemos lado a lado numa redação.

Um dia, fui embora do Brasil, virei correspondente da imprensa alternativa, voltei ao meu país, encontrei o Emediato no corredor do Estadão e comecei a trabalhar lá no dia seguinte. Foi com o Emediato que criamos, juntos, o Caderno 2 do jornal, reservando um espaço diário para a crônica, numa época em que a crônica não estava com essa bola toda.

Voltei a trombar com ele no SBT, onde colocávamos no ar um divertido e criativo telejornal, aquele que deu na escalada: Margareth Tatcher morre, porque ninguém é de ferro!   

 Fechando o resumo da ópera. As nossas vidas misturaram-se entre boas doses de Jornalismo e Literatura, pitadas de realidade e ficção, entre o furo e o conto, e política à gosto, jogando por água abaixo aquele editorial no número 2 do Flã, um jornalzinho que durou apenas dois números.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRINCÍPIO DO PRAZER

A nova mãe anunciou, na véspera, que eles viriam. Acordamos no feriado com o coração na mão, batendo mais forte, numa ansiedade que não dava pra medir nem mesmo com uma trena daquelas de mestre de obras.

Meio dia e pouco, o interfone tocou, eram eles, a nova mãe, a nova avó e os dois, um menino e uma menina, já crescidos. Chegaram tímidos, olhando para todos os cantos da casa, o chão, o teto, as janelas, as cores diferentes das paredes, as estantes, os livros, os dvds, os discos. Observando cada detalhe, cada minúcia.

À primeira vista, parece que gostaram. A menina fez a primeira observação: Parece casa de boneca! Ela, cinco anos mais velha que ele, parecia servir de âncora, mas ele, esperto, parecia protegê-la da vergonha de chegar pela primeira vez numa casa onde não conheciam ninguém.

A menina ficou sentada no sofá da sala, ainda tímida, e ele veio até o meu escritório e se encantou com a coleção de carrinhos da Norev. Pegou um a um com todo cuidado, porque avisei-lhe que eram frágeis. A portinha abre? ele quis saber. Disse que alguns abriam, outros não. Quais que abrem? Os caminhões.

Então fomos até a revistaria para mostrar onde estavam os caminhões que abriam a portinha e levantavam a caçamba. Mais encantamento. Gostou da miniatura do dálmata em cima das revistas Quatro Cinco Um e fez mais uma pergunta: Você tem coleção de cachorros também?

Passamos pela lavanderia e chegamos à cozinha, onde ele viu uma gamela de frutas. Olhou, pegou um kiwi e perguntou que fruta era aquela? Expliquei que era kiwi e fomos até o computador para eu explicar porque a fruta se chama kiwi. Abri o Google em Kiwi Ave e ele ficou espantado de ver como aquele bichinho que vive na Nova Zelândia era tão parecido com a fruta.

Eu não quero comer isso não! Creio que o menino desconfiou que kiwi era uma mistura de fruta com animal, uma espécie de boimate que a revista Veja inventou faz anos. Voltamos à cozinha, peguei a faca e parti o kiwi no meio. Ele ficou admirado. Peguei uma colherzinha e expliquei como comia. Ele aprendeu rapidinho e raspou o kiwi. Perguntou se podia comer a casca, disse que não, que era áspera, mas mesmo assim quis experimentar. Experimentou.

A irmã já tinha saído do sofá, estava no quarto perguntando o que eram aqueles bichos de papelão na parede. Explicamos que compramos as peças num país muito longe daqui e montamos. Ela achou lindo.

Estávamos emocionados com aquelas duas crianças descobrindo a nossa casa, observando e comentando tudo. Mostrei a ele meus brinquedos antigos, de lata. O disco voador de 1960 e o Pato Donald equilibrista de 1956, presente da minha madrinha. Viu o elefantinho da Shell, a gotinha da Esso, o cavalinho de pau, o ônibus amarelo e azul do Magical Mystery Tour e o elefante de lata enferrujada que compramos um dia na Fundação Saramago.

O menino olhou, olhou e foi muito sincero: Tio, seus brinquedos são muito sem graça. Pode me chamar de Villas, eu disse, mas ele insistia que eu era o tio. Percebi que ele achou os brinquedos sem graça porque eram parados, estáticos, imóveis. Queria algo que mexesse, que interagisse, que brilhasse, que piscasse.  Mudou de ideia quando viu os jogadores de ping pong dos anos 1950 que, basta dar corda, eles começam a jogar, a bolinha pra lá e pra cá. Seus olhinhos brilharam e ele quis dar mais corda e ficar ali brincando

A irmã já tinha voltado pra sala e estava em outros papos, altos papos, contando o dia em que ela fugiu do posto de saúde com medo de tomar vacina e que gostava das cores preto, cinza, branco e roxo. Odeio rosa, disse ela.

O irmão continuava explorando a casa. Voltou para a cozinha e disse que estava com sede. Perguntei se queria um suco de caju, ele não conhecia caju. Abri a geladeira, mostrei a ele três cajus lindos que compramos no sacolão da Lapa. Quis experimentar. Comeu um pedacinho, achou meio estranho o gosto, mas expliquei que bom mesmo era o suco. Cortei em pedaços e coloquei dentro do liquidificador. Pus água, liguei na tomada e ele comentou: Tio, esse bagulho faz muito barulho! Adorei ele usar a palavra bagulho, que eu não ouvia há anos. Suco pronto, ele tomou e adorou. A irmã também quis.

O menino mostrou a ela o kiwi e pediu outro. A irmã quis experimentar e ele se arvorou em explicar a ela como se comia e mostrou com sabedoria. Ela também gostou, não achou azedo porque compramos sempre aqueles kiwis Sun Gold, amarelos, mais doces.

Será que eles não querem jogar lince? perguntou a minha mulher. Buscamos o jogo e os dois sentaram-se no chão. A menina, mais velha, claro, foi achando as figurinhas antes dele, mas ele também muito esperto e competitivo, não deixava a desejar. Comentamos que ela era muito boa no jogo e ela disse: Bem que o oftalmologista disse que eu tenho vista boa.

Gostei da palavra oftalmologista porque, menina dessa idade, diria oculista ou médico, não é mesmo? Hora do almoço. O cardápio era arroz branco, tambaqui ao forno, pirão, farofa com farinha de Belém do Pará e molho vinagrete. A menina, acho eu, gostou mais do que o menino. Quis experimentar tudo e repetiu. Ele comeu pouco. Tinha comido muito pão com queijo e ervas, que achou estranho no início, mas amou. Além do kiwi e do suco de caju.

Mostrei pra eles a hortinha que temos na varanda, a máquina de escrever que foi do meu pai, ele tentou datilografar, mas achou as teclas muito duras. Mostrei os cadernos que faço para os meus quatro filhos, desde o dia em que o primeiro nasceu, em 1977. Ela ficou admirada e comentou: É uma espécie de diário, né? Sim, é uma espécie de diário que, a partir de hoje, ganhou dois novos personagens muito queridos.

A noite chegou e eles foram embora, de mãos dadas com a nova mãe e a nova avó. Fomos na varanda dar tchau pra eles. A menina voltou dois passos, olhou pra cima e disse: Gostei muito da casa de vocês! O menino foi saltitando, acredito eu, que ainda meio desconfiado se kiwi era fruta ou bicho.

 

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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PARE 2018 QUE EU QUERO DESCER

Passado o Natal, vinha aquela euforia com a chegada do ano novo, uma semana depois. Era quando o meu pai chegava em casa carregando uma enorme folhinha da KLM com aquelas imagens maravilhosas de moinhos de vento, holandesas de tranças e tamancos e campos de tulipas.

Antes mesmo de acabar o ano, ele dependurava na parede, com a ajuda de um martelo e um prego, aquela folhinha maravilhosa. Ficávamos em volta dela, passando os meses, cada um querendo saber em que dia da semana cairia o seu aniversário.

Meu pai trazia da repartição uma agenda Pombo para cada filho e imediatamente pegamos uma caneta e preenchíamos o nome, o endereço, telefone e o tipo sanguíneo.

Minha mãe fazia uma faxina na casa, abrindo gavetas, picando e jogando papéis fora, guardados durante o ano inteiro, inutilmente. Passava Silvo nas pratarias e óleo de peroba nos móveis coloniais, à espera de um ano novo e feliz.

Fazíamos uma montanha de promessas. Passar de ano sem segunda época, tomar pouca Coca-Cola, ler um livro por semana, anotar e cumprir todos os afazeres na agenda Pombo, não perder as missas de domingo, não brigar com os irmãos, ver menos televisão e guardar dez por cento da mesada todo mês.

Não havia promessa de fazer dieta naquela época em que não havia academia, se cozinhava com banha, comia-se torresmo, passava manteiga no miolo do pão, o café era com açúcar e não havia leite desnatado, nem semidesnatado. A promessa da minha mãe era uma só, saúde para todos. E o meu pai completava, rindo: E muito dinheiro no bolso!

O fim do ano ia chegando e nossa euforia era grande. Lavávamos o pombal com Creolina para que, no primeiro dia de janeiro, estivesse limpinho e cheiroso. Tirávamos o mato da horta, os pulgões das folhas de couve e fazíamos uma armação de arame para que o pé de chuchu pudesse se acomodar no muro, sem incomodar o vizinho.

A última semana do ano parecia que não existia. Ninguém mais conseguia direito, ninguém estudava mais porque as férias já tinham começado, não tínhamos paciência nem pra sentar e ver o Zé Colmeia na televisão. Era só preparação pro ano novo que estava despontado. Todos os anos, nessa semana, o meu pai vinha com uma velha piada e minha mãe sempre caia. Ele chegava da Meteorologia, abria a porta e dizia:

– Sabe quem está nas últimas?

– Quem? Quem? perguntava minha mãe, arregalando os olhos.

– O ano velho! dizia ele, enquanto todos caiam na gargalhada, dizendo:

– Mas mãe, você caiu de novo?

No fim da manhã do dia 31, sabíamos que já era ano novo na Austrália, mas naquela época não havia o Jornal Hoje pra anunciar na escalada: Já é ano novo em Sidney! Só víamos os fogos explodindo por lá, no dia seguinte, numa radiofoto toda riscada, no jornal O Globo.

Os papeis picados caindo das janelas na avenida Paulista, na Avenida Brasil e na Avenida Afonso Pena, na minha Belo Horizonte, eram uma atração à parte. Não tinha ano que o meu pai não comentasse “eu tenho dó dos garis, amanhã cedo, que vão começar o ano varrendo rua”.

Não havia ceia na passagem do ano, na minha casa. Comíamos uma comida dessas de domingo, por volta das dez horas da noite porque, onze e pouco, íamos todos pra Sociedade Mineira de Engenheiros pro Réveillon.

Meia noite em ponto, a banda dava o grito de carnaval e nós pulávamos até nos acabar, ao som de olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é. Ao som do joga a chave, meu amor, não chateia por favor, ao som de Bandeira branca, amor, eu peço paz e índio quer apito, se não der pau vai comer!

Chegávamos em casa estropiados, abríamos a geladeira pra ver se tinha sobrado um pouco da maionese, um pedacinho frio de lombo e umas uvas geladas. Ainda dava tempo de ver na televisão o videoteipe da queima de fogos em Copacabana, a cascata caindo do Hotel Meridien, as velas acesas na areia e as palmas pra Iemanjá, indo e vindo nas onda do mar.

Mas esse ano, não vai ser igual aquele que passou. Estamos aqui em casa todos assustados e com temor de que dois mil e dezenove, queria ou não queira, vai chegar. Dois mil e dezoito ainda não está nas últimas, mas já está desenganado.

Ouvi dizer que, a partir do dia primeiro de janeiro, vão começar a matar gays, lésbicas e simpatizantes. Vão agredir quem estiver com camisa vermelha e colocar na clandestinidade o MST e o MTST. Vão prender o Boulos, o Stédile e metralhar a petezada.

Estão dizendo que vão perseguir os professores, vão acabar com os livros de História e colocar na fogueira todos os do Paulo Freire. Vão fechar a TV Brasil, vender a Petrobras, cercar os índios, prender cem mil, fechar jornais e disseram até que vão declarar guerra à Venezuela.

Só me resta colocar na vitrola aquele velho disco do meu pai que ele fazia questão de ouvir, todo dia 31 de dezembro:

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que tudo se realize

No ano que vai nascer!

Muito dinheiro no bolso

Saúde pra dar e vender!

Para os solteiros, sorte no amor

Nenhuma esperança perdida

Para os casados, nenhuma briga

Paz e sossego na vida

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Captal]

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Day After

No dia seguinte do golpe militar de 1964, viajamos numa Rural Willys, o meu pai, minha mãe e meus quatro irmãos, de Brasília para Belo Horizonte.

No dia seguinte em que passei no exame de Admissão no Colégio Marista, minha mãe comprou, na Guanabana, uma calça comprida pra mim.

No dia seguinte ao Ato Institucional número 5, escondi no sótão da minha casa, todos os livros de Karl Marx e Friedrich Engels.

No dia seguinte em que descobri o meu primeiro amor, dei a ela de presente o álbum branco dos Beatles.

No dia seguinte em que comprei o primeiro número da revista Realidade, pensei em ser jornalista.

No dia seguinte da morte de Ernesto Che Guevara, eu vi num jornal boliviano a tal fotografia dele morto com os olhos abertos.

No dia seguinte em que vi Tom Zé cantando São São Paulo no Festival da Record, pensei em morar e trabalhar na maior cidade da América do Sul.

No dia seguinte em que levei bomba em Francês no Colégio de Aplicação, prometi, um dia, falar a língua de Roland Barthes, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

No dia seguinte em que fui confundido com o guerrilheiro Alemão na Praça da Savassi, tomei a decisão de ir-me embora do Brasil e só voltar depois que a ditadura acabasse.

No dia seguinte em que pesquei piabas no Rio das Velhas pela primeira vez, fritei cada uma e comi com angu.

No dia seguinte em que um vizinho envenenou nossos pombos, eu joguei um tijolo na vidraça da casa dele.

No dia seguinte em que passei no vestibular para Jornalismo na UFMG, joguei todas as minhas apostilas de Física, Química e Biologia, na lagoa da Pampulha.

No dia seguinte em que acabei de ler Cem Anos de Solidão, eu me apaixonei por Gabriel Garcia Márquez.

No dia seguinte em que deixei o Brasil, acordei numa pensão barata, num Portugal de Salazar.

No dia seguinte em que cheguei na Gare d’Austerlitz, em Paris, vi neve pela primeira vez.

No dia seguinte em que nasceu o meu primeiro filho, na clínica do Doutor Frédérick Leboyer, voltei pra casa e tomei uma latinha de Kronnebourg.

No dia seguinte em que ouvi Jelly Roll Morton ao piano interpretando Black Bottom Stomp, quis ouvir de novo.

No dia seguinte em que nasceu a minha primeira filha, fiquei encantado como ela era loirinha e do cabelo espetado.

No dia seguinte em que voltei para o Brasil, tomei uma garrafa de guaraná, ainda no aeroporto do Galeão.

No dia seguinte em que cheguei a Cuba, dei de presente a um jovem que insistiu muito, uma camiseta com a estampa da Madonna.

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‘Em Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas’ (Reprodução)

No dia seguinte à eleição de Fernando Collor de Mello, pensei: Foi a TV Globo que elegeu esse canalha!

No dia seguinte em que o meu primeiro casamento acabou, acordei de madrugada para cobrir os meus filhos e eles não estavam lá.

No dia seguinte em que a Paulinha se mudou pra minha casa, eu preparei um frango assado com batatas e farofa pra ela e pros meus dois filhos do primeiro casamento.

No dia seguinte em que coloquei o primeiro Jornal Nacional no ar, acordei e fui para a TV Globo para colocar o segundo Jornal Nacional no ar.

No dia seguinte em que minha terceira filha nasceu, o meu filho mais velho disse: Pai, finalmente você tem uma filha brasileira!

No dia seguinte em que meu pai morreu, eu coloquei uma fotografia 3X4 dele num porta retrato, em cima da minha escrivaninha.

No dia seguinte em que vi o filme A Vida é Bela, pensei com os meus botões: Será mesmo que a vida é bela?

No dia seguinte em que minha mãe morreu, peguei uma fotografia 3×4 dela, coloquei num porta retrato ao lado do meu pai.

No dia seguinte em que o meu América foi campeão mineiro, ganhei um coelho de plástico de presente.

No dia seguinte em que minha quarta filha nasceu, lembrei-me de uma cigana que leu a minha mão, em Paris, e disse que eu teria quatro filhos.

No dia seguinte em que Lula ganhou a primeira eleição para presidente da República, comprei as quatro revistas semanais de informação e mandei encadernar.

No dia seguinte em que a minha primeira neta nasceu, me senti um velhinho com 47 anos.

No dia seguinte em que cheguei a São Miguel dos Milagres, em Alagoas, acordei na certeza de que a vida é mesmo bela.

No dia seguinte em que Dilma foi eleita, prometi passar um ano sem tomar cerveja e cumpri.

No dia seguinte em que cheguei a Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas em cima de um telhado.

No dia seguinte em que cheguei a Tóquio, descobri uma loja só de discos brasileiros e lembrei-me do Caetano: A bossa-nova é foda!

No dia seguinte em que deram um golpe em Dilma Rousseff, abri a janela da sala do meu apartamento e gritei: Golpistas filhos da puta!

No dia seguinte em que nasceu o meu segundo neto, eu ouvi Raul Seixas cantando Eu nasci há dez mil anos atrás.

No dia seguinte em que entrevistei o ex-presidente Lula, ouvi a gravação e senti um nó no peito.

No dia seguinte que vi um menino, morador de rua, admirando a vitrine de uma loja de brinquedos na Vila Madalena, eu tive certeza de votar 13.

No dia seguinte às eleições de 28 de outubro de 2018, perdi o sono, acordei no meio da madrugada e escrevi esta crônica pra CartaCapital.

 

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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BOM DIA, BRASIL

O dia em que voltei a pisar em terras brasileiras, depois de sete invernos, fazia 40 graus naquela terça-feira de carnaval. Não me esqueço do primeiro guaraná, ainda no aeroporto, depois de tantos anos bebendo Orangina. Conheci dezesseis sobrinhos no mesmo dia. Todos loirinhos, era incapaz de saber quem era quem.

Os sustos foram muitos. No porão da casa dos meus pais, me equilibrei entre livros e revistas espalhados pelo chão, empoeirados, guardados ali a sete chaves por minha mãe. Descobri que a coleção daRolling Stone estava intacta, apenas um número completamente amarelado, segundo ela, xixi da Pink, nossa pequinês que um dia entrou ali sem ninguém ver.

Susto com os motoristas que avançavam seus automóveis em cima dos pedestres, assim que o sinal abria. Susto com as pessoas que não cumprimentavam a cobradora no ônibus, o porteiro do prédio, a vendedora da mercearia. Chegavam e diziam simplesmente: Seis pãozinho!

As alegrias foram muitas também. Ouvir Cajuína pela primeira vez e trazer da banca uma revista novinha em folha, diferente daquelas que chegavam estropiadas na Rue de la Roquette, depois de semanas e semanas nos navios. Alegria de morder uma carambola, de tirar com a colherzinha o miolo da fruta do conde, de espocar na boca uma jabuticaba, coisa que não fazia há quase uma década.

Os primeiros dias foram uma mistura de princípio do prazer com cair a ficha, até me acostumar. Acordava ouvindo o barulho da água saindo da mangueira, da vizinha lavando o quintal e falando português. Estranhava isso. Entrava no armazém, cumprimentava a todos dando bom dia, como se estivesse dando bonjour e quase ninguém respondia.

Ainda na casa dos meus pais, gostava de acordar de manhã e pegar, em cima do capacho, O Globo e o Estado de Minas. Os jornais tinham cheiro, eram em preto e branco e manchavam as mãos. Gostava de ouvir os passarinhos nas árvores do jardim e ver os canarinhos belgas nas gaiolas, saltitando, comendo sementes de jiló e cantando sem parar.

Foram poucos dias em Belo Horizonte, até que peguei um ônibus com destino a São Paulo, precisava trabalhar, dar leite aos dois pequenos francesinhos que trouxe de lá.

No meio do caminho, outros prazeres. O reencontro com o pão de queijo, com o Guarapan e com a paçoquinha Amor nos botecos que o ônibus fazia suas paradas. Ouvia coisas que havia me esquecido, como o motorista estacionar, abrir a portinha e dizer: Quinze minutos!

Tudo era novidade, de novo, para mim. Procurava pela Mirinda Morango e já não havia mais. Como já não havia mais o iogurte Itambé em vidrinho, o Supra Sumo em pacotinhos de alumínio, o drops Dulcora de cevada, nem o suco Yuki em latinha. Mas a bala Chita ainda tinha, mastiguei umas, quase chegando em São Paulo.

Voltei de longe nas asas da abertura, na esperança de que a democracia estava em obras. Encontrei muitas ruínas, prédios abandonados que precisavam de dinamites para serem destruídos e construídos novamente. E foi assim.

Veio a abertura, o Osmar Santos no palanque, ali também Leonel Brizola, Luiz Inácio, Ulysses Guimarães, Mario Covas, Fernando Henrique, toda essa turma. A camiseta com a frase hoje eu não estou bom, a estrelinha de alumínio no peito e uma canção que dizia assim: Passa o tempo e tanta gente a trabalhar/De repente essa clareza pra votar/Quem sempre foi sincero e confia/Sem medo de ser feliz/Quero ver você chegar.

Passei muito calor e alguns vexames, no princípio. Perguntei, um dia, onde andava o estilista Dener e me responderam que havia morrido há anos. Perguntei pelo Dudu da Loteca e me disseram que a Loteca não era mais a Loteca que era.

Fui ficando velho. Vi Collor vencer Lula depois de um debate editado pela TV Globo, vi o Plano Real eleger Fernando Henrique, vi o povo sem medo de ser feliz eleger e reeleger Lula, vi Dilma subir e cair, vi o golpe. Mas 2018 ia chegar, íamos nos livrar de um vampiro e voltar a ser feliz. E o que vejo pela frente, na televisão, é tempo instável, sujeito a rajadas e chuvas no cair da tarde de domingo.

Quase cinco décadas depois, tenho vontade de recomeçar. Ouvir Cajuína num velho disco de vinil, afinal, existirmos a que será que se destina? Mas troco o disco. Vou lá na letra L da minha coleção em ordem alfabética e tiro um disco de Luiz Melodia, que começa com uma canção de Papa Kid que diz assim: Ao som da maraca, do tambor, do bambu, eu vou para Ilha de Cuba, eu vou pra Ilha de Cuba.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

ACORDA, AMOR

Sentia um temor permanente no corpo, na atmosfera. Antes de sair de casa, olhava pela janela, para um lado e para o outro, com a sensação de ver um Chevrolet Veraneio estacionado, um milico à paisana na rua, uma rua pacata, ainda com calçamento de pedras retangulares à espera de asfalto, do progresso.

Caminhava até o ponto do ônibus Carmo-Sion, levando a tiracolo uma bolsa de couro cheirando cabrito, comprada no Mercado Modelo de Salvador. Dentro dela, evitava colocar qualquer objeto suspeito. Nenhum livro que tinha na minha pequena biblioteca em quatro móbiles da Mobília Contemporânea. Evitava levar o que estava lendo, O Abajur Lilás, de Plinio Marcos e o que estava relendo, O Vermelho e o Negro, de Stendhal.

Minha mãe tinha os seus temores, mas os guardava em silêncio nas suas preces, já o meu pai era mais rigoroso. Um dia me chamou no seu escritório, trancou a porta, e falou olho no olho. Mandou que eu tirasse imediatamente o calendário da UNE debaixo do vidro que protegia a minha escrivaninha e rasgá-lo em pedacinhos. Tirar, eu tirei, picar não. Escondi. Ele me alertava diariamente, dizendo que todo cuidado era pouco.

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Aconselhava não dar opinião política na escola, não falar alto o que eu pensava. Ele sabia que pessoas estavam sendo presas, torturadas, sumindo pra nunca mais. Mas nunca falou disso abertamente comigo.  Ele se incomodava até mesmo com a minha juba de leão, minha calça boca de sino, minha camiseta manchada de água sanitária e os meus tamancos suecos que não tirava dos pés.

O meu irmão mais velho era diferente de mim, mais pé no chão. Trabalhava e estudava, e já tinha guardado dinheiro suficiente para comprar um fusca branco zero, coitado, que se esfacelou depois de atropelar um cavalo branco na BR-3, quase perda total. Ele era considerado um crânio, colecionava medalhas de ouro que ganhava no Colégio Marista, eram tantas que o meu pai mandou emoldurá-las com um fundo de veludo azul marinho. Eu nunca ganhei uma medalha sequer no Colégio Marista, nem de ouro, nem de prata, nem de bronze.

Às vezes, me perguntava se eu não seria a ovelha negra da família. Levei bomba em francês, repeti o ano e levei bomba de novo em francês. Eu participava do movimento estudantil, não perdia uma reunião do DCE, frequentava as reuniões secretas dos frades capuchinos, recortava e guardava numa pasta, todas as notícias que saiam sobre sequestros, manifestações. sobre José Dirceu, Vladimir Palmeira, Luis Travassos, Jean Marc Fréderic Charles von der Weid e Daniel Cohn Bendit. Numa outra, guardava os recortes sobre a RAF alemã, as Brigadas Vermelhas italianas, os Tupamaros, os Montoneros, o Sendero Luminoso e os primeiros passos dos Sandinistas.

Tudo muito escondido. A minha revolta aumentou no dia em que um tiro atingiu o peito do estudante paraense de dezesseis anos, o Edson Luis de Lima Souto, na porta do restaurante Calabouço, na Cidade Maravilhosa. Comprei a Fatos e Fotos com os estudantes, na capa, carregando o seu caixão pelas ruas do Rio de Janeiro e escondi no sótão da minha casa. Nossa casa era uma casa santa, minha mãe fazia suas novenas, acendia suas velas e rezava por nós, cinco filhos, todas as noites.

Eu tinha muito temor, temor de colocar na parede do meu quarto uma tela em óleo de Ho Chi Min, presente de uma amiga, de colocar na vitrola o compacto simples do Geraldo Vandré cantando Pra não dizer que falei de flores e de tirar de debaixo da cama aquele caixote com os livros marxistas de Apolo Heringer Lisboa. Eu tinha temor de conversar com Aretusa pelo telefone, numa época que grampo não significava escuta telefônica.

Os poucos exemplares do jornal A Voz Operária, os poucos números da Revista Civilização Brasileira, os poucos números da revista Aparte, eu guardava numa gaveta fechada a sete chaves, juntamente com a coleção da Fairplay. Eu fazia das tripas coração para não deixar o temor se espalhar e tomar conta dos cômodos daquela casa grande em que vivíamos. Falava de futebol com o meu pai, flamenguista roxo, e comprava os fascículos de Bom Apetite para agradar a minha mãe. Cuidava do pombal com o meu irmão, dos passarinhos e dos porquinhos-da-índia.

Ouvia atento e guardava para o resto da vida, as histórias do Colégio Sion que minha irmã contava quando chegava em casa. No hall de entrada, havia um mural reproduzindo a vida como as freiras queriam que fosse. Era um cartaz feito com cartolina, algodão imitando nuvens no alto e, embaixo, um colorido azul imitando um lago.

As freiras colocavam nas alturas, fotografias três por quatro das meninas mais aplicadas, aquelas que tiravam dez com louvor. No lago, quase afogando, as fotografias das meninas que corriam risco de levar bomba e repetir de ano. Um dia, fui lá ver se era verdade e era. E sai de lá gostando mais das fotografias das meninas afundando no lago, do que as meninas cdf nas nuvens. A minha guerrilha era silenciosa e particular. Imprimia um jornalzinho no mimeógrafo da escola e saia de lá cheirando a álcool. Era um jornalzinho cultural, com críticas de livros, de filmes e discos e cheio de entrelinhas. Tinha contos porque, nós mineiros, éramos todos contistas.

Lia as cartas que o Caetano mandava de Londres, via Intelsat, para o Pasquim, e tinha vontade de ir embora, pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu tinha temor de ser preso, de enfrentar o pau de arara, de sumir de repente.

Foi longe, a mais de 10 mil quilômetros do meu país, que ouvi pela primeira vez Chico cantando Acorda, amor/Eu tive um pesadelo agora/Sonhei que tinha gente lá fora/Batendo no portão, que aflição/Era a dura, numa muito escura viatura/Minha nossa santa criatura. Ontem à noite, ouvi novamente essa música no YouTube e o meu temor voltou. Mas fui dormir com a certeza de que, apesar de você, amanhã será outro dia.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ilustração Alberto Villas

É BRINDE!

Uma senhora de meia idade desceu esbaforida do seu Jeep Renegade preto, pegou o corredor do estacionamento, subiu uma pequena rampa, virou à direita e foi direto no balcão de atendimento ao cliente:

– Eu quero o tomatinho vermelho de pelúcia!

A resposta negativa da funcionária do supermercado, deixou a senhora de meia idade arrasada, os olhos caídos e um ar de desesperança.

– Como assim, acabou? É o único que falta para a coleção do meu neto Joaquim! Ele tem a banana, o brócolis, a pera e a laranja. Só falta o tomatinho!

Ela apertou nas mãos os códigos de barra de cartolina que dariam direito ao tomatinho vermelho de pelúcia, jogou dentro da bolsa e deu meia volta. Com certeza vai entrar no seu Jeep Renegade, acionar o Waze e procurar onde existe outro supermercado da rede, quem sabe lá ainda tenha um tomatinho vermelho dentro do armário de vidro de brindes?

Brasileiro é doido por brinde e não é de hoje. Menino ainda, meus olhos brilhavam quando o meu pai chegava em casa aos domingos com uma Coca-Cola Família. A felicidade era abrir a garrafa, pegar a tampinha e tirar a cortiça para ver se estava premiada.

O brinde era uma coleção de vinte e um personagens do Walt Disney, que demorávamos meses para conseguir completar. Com cinco tampinhas premiadas, trocávamos por um personagem, o Mickey, o Pateta, a Margarida, o Pato Donald, o Pluto, todos. Lembro-me que a menorzinha era a Sininho.

A Pepsi-Cola correu atrás e, nas Olimpíadas de 1964, lançou uma coleção de bonequinhos, cada um representando um esporte:  Esgrima, lançamento de dardo, natação, futebol, levantamento de peso, eram dez bonequinhos brancos que podíamos colorir com uma tinta especial, da cor que quiséssemos.

A onda dos brindes foi se espalhando. O Toddy dava soldadinhos, o chiclete Ping-Pong dava figurinhas, o Crush dava miniatura de engradado com garrafinhas de Crush, os Postos Shell davam o cafezinho do astronauta, quando ainda escrevíamos cafèzinho assim, com acento diferencial no e.

Era uma época em que colecionávamos selos, colecionávamos chaveiros, caixinhas de fósforo, moedas, carrinhos da Mathbox, colecionávamos até besouros e borboletas no isopor.

A moda era tão moda que o Guaraná Champagne Antártica – era assim que chamávamos – fez uma propaganda na televisão em que um mágico tirava um monte de trolhas da cartola e anunciava: Não troque o seu bom gosto por quinquilharias! O guaraná nunca deu brindes.

A moda do brinde voltou com tudo nesses tempos malucos que vivemos e os supermercados estão surfando na onda. Tem panelas de brinde, tem facas, tem tábuas de carne, tem travessas, tem sementes pra hortinha e tem os charmosos bonecos de pelúcia do Jamie Oliver. Pra mim, está faltando só a pera pra completar a coleção do meu neto Raul.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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JK 65

A febre eram os Beatles e quando eles pousaram pela primeira vez no aeroporto JFK, em Nova York, foi difícil para a polícia conter a euforia das garotas enlouquecidas, dispostas a fazer qualquer maluquice por John, Paul, George e Ringo. As rádios não paravam de tocar I want to hold your hand naquele início de mil novecentos e sessenta e quatro.

Por aqui, uma hemorragia no esôfago levava Ary Barroso, autor de canções que bem poderiam ser o nosso Hino Nacional. Foi ele que escreveu os versos que diziam assim: Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos.

No boxe, o bamba era Cassius Clay, que se tornou campeão mundial dos pesos pesados, deixando Sonny Liston caído no chão, sangrando, sangrando muito.

No dia 14 de março, o presidente João Goulart anunciou em um comício na Central do Brasil, as importantes reformas de base que o país tanto precisava. As ideias de Jango não caíram bem na caserna.

 

Uma semana depois, quinhentas mil pessoas saíram às ruas de São Paulo, exigindo a renúncia do presidente da República. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um pontapé para derrubar Jango, acusado de querer trazer o comunismo de Cuba para nossas bandas.

Morávamos em Brasília naquele 31 de março, quando o golpe foi dado. Talvez fomos os primeiros a ver, na calada da noite, a movimentação de tanques na Praça dos Três Poderes, retrato de que a coisa não ia nada bem.

O meu pai não era um homem de esquerda, era apenas apaixonado por Juscelino Kubitscheck, que ele chamava de Nonô. Por ele, o meu pai despencou de Belo Horizonte com cinco filhos, rumo ao planalto central do país, no início dos anos 1960, para instalar ali o Serviço de Meteorologia.

Éramos uma espécie de candangos, comendo poeira que o diabo espalhou naquele fim de mundo. Todos nós gostávamos de morar naquela cidade em obras, menos a minha mãe, que tinha os pés rachados pela secura daquela região.

Meninos ainda, estávamos empenhados na campanha de Juscelino Kubistchek, candidato a presidente novamente em 1965, o ano que não chegou. O meu pai trazia para casa adesivos plásticos que eram moda naquele tempo, todos anunciando que JK vinha aí.

Um abril despedaçado foi passando e, a cada dia, íamos percebendo que aqueles adesivos colados na Rural Willys vermelha e branca do meu pai, estavam perdendo a cor e o sentido. As eleições foram canceladas e uma tristeza enorme se abateu no meu pai.

Ele retirou os adesivos da Rural, talvez com medo da repressão que era maior a cada dia e por ter caído a ficha, o sonho havia acabado.

Ele guardava vários exemplares da revista Manchete com o Nonô na capa, sempre sorridente. Era uma pilha, porque a amizade do velho Bloch com Juscelino era coisa pra se guardar

Domingo, enquanto o meu pai preparava aquela tradicional macarronada na nossa casa, ele colocava na vitrola um disco de Juca Chaves, aquele que tinha uma música para o presidente do coração dele:

villas.pngJK, o presidente bossa nova (Reprodução)

Bossa nova

Mesmo é ser presidente

Dessa terra descoberta por Cabral

Para tanto basta ser tão simplesmente

Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha

De ser o presidente do Brasil

Voar da Velhacap pra Brasília,

Ver a alvorada e voar de volta ao Rio

Um dia, a poeira baixou e voltamos pra nossa Belo Horizonte, tristes e cabisbaixos. O meu pai nos contou que haviam caçado o mandato do presidente Juscelino e que ele nunca mais seria presidente do Brasil.

O meu pai, que era bom em matemática, fez as contas, e nos disse que quando ele pudesse novamente voltar à politica já não teria mais idade. Ou vida.

Com o tempo, o disco de Juca Chaves era só chiado e aquela vontade de ver o meu pai eleger Juscelino Kubitscheck presidente do Brasil novamente, ficou pra trás. Os adesivos, que ele guardava com todo carinho numa caixinha de relógio Omega, hoje, são apenas objetos de desejo de colecionadores à venda no Mercado Livre. E como dói.

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MEU TIPO INESQUECÍVEL

Conhecíamos, de nome, há muito tempo, a Tia Margarita, ainda com o “a” no final. Ela ganhou esse “ae”, na Itália, quando descíamos rumo a Grécia para conhecê-la pessoalmente.  Foi de repente que o apelido surgiu e pegou, para sempre, apenas para dar um ar de antigo, de latim a seu nome.

Sabíamos pouco dela, que morava no povoado de Vryses, no Peloponeso, que já passava dos noventa anos e que tinha uma espingarda atrás da porta principal da sua casa, pro que desse e viesse.

A única foto que conhecíamos de Tia Margaritae, era uma imagem em preto e branco, meia sem foco, ela com a espingarda em punho na varanda da sua casa, acredito eu que uma brincadeira das irmãs Vlahou, sobrinhas dela.

Cruzamos a Itália, chegamos a Brindisi, esperamos horas e horas o navio para, finalmente ganhar Patras e continuar a viagem de carro, rumo a Vryses, onde passaríamos uma temporada, numa casa quase em frente a da Tia Margaritae.

Chegamos cansados, aflitos e muito ansiosos para ver como era a vida no povoado e finalmente, conhecer a tal tia.

Pouco mais de um minuto depois de estacionar o carro debaixo de uma árvore, ela ouviu o ronco do motor e apareceu. Desceu as escadas da sua casa e veio andando devagarinho, amparando-se numa velha bengala, nos saudando.

Chegou até nós, abraçou um a um e, mais efusivamente, Olga, a sobrinha de sangue. Ela falava grego com todos, como se não houvesse outra língua no mundo, acreditando que todos entendiam perfeitamente a língua de Sófocles. Não fosse Olga, amiga do peito e nossa tradutora, estaríamos perdidos porque, para nós, o que Tia Margaritae falava parecia – e era – grego.

Não demorou muito, ainda estávamos desfazendo as malas e tentando entender o funcionamento da casa, ela surgiu novamente na nossa sala, com meia dúzia de figos nas mãos, oferecendo a cada um de nós e tentando explicar que eram frescos, safra 2018, retirados agorinha do pé no seu quintal.

Durante uma semana, Tia Margaritae frequentou a nossa casa como uma velha amiga. Nunca quis comer nada que oferecíamos porque estava no período de jejum e isso, para ela, era sagrado.

Depois dessa primeira semana, a sobrinha grega foi-se embora e nós três – eu, Paulinha e Annamaria – ficamos ali prontos para viver sozinhos num pequeno povoado de 74 moradores em que todos falavam o grego perfeitamente, mas só o grego.

Tia Margaritae virou nossa guardiã. Durante um mês, ela vigiou nossa casa quando estávamos fora, sempre preocupada com os ladrões, mesmo sabendo que o último larápio que passou por ali data de mil anos antes de Cristo. O medo dela era que alguém roubasse a torneira que ficava na varanda da casa.

Ela me ensinou a capinar, a colher limões sicilianos no pé, a podar a trepadeira, a varrer a calçada, a regar as plantas, a fechar portas e janelas e, principalmente, retirar a torneira do cano à noite para que nenhum aventureiro passasse a mão. Ela dava ordens como um bom sargento e só nos restava obedecer.

Tia Margaritae nos abasteceu quase que diariamente com uma verdura que ela fazia refogada no azeite e nos trazia em pratinhos de porcelana, uma verdura que nunca soubemos o que era. Só sabíamos que a tradução era verdura e era deliciosa, comida com pão.

Um dia ela preparou a sua especialidade, batatas fritas com dois ovos estalados em cima. Trouxe até a nossa casa e aquilo, para nós, foi o manjar dos deuses. Ela mesmo não experimentou sequer uma batatinha, respeitando o seu jejum. Tia Margaritae fritava tudo no azeite, acho mesmo que nunca soube da existência do óleo de soja, milho ou girassol.

Num domingo, ela nos levou para conhecer a Igreja Ortodoxa do povoado, uma construção deslumbrante. Ela ficou um bom tempo sentada na primeira fila, olhando curiosa a luz que entrava pelos vitrais, cada imagem, cada cantinho, apesar de conhecê-los de cor e salteado.

Um dia, ela nos convidou a ir até a sua casa. Foi então que colhemos cebolas na sua horta e aprendemos a arrancar figos maduros do pé, no seu quintal. Até alcachofra ela tinha plantada, quase em flor.

Tia Margaritae nos serviu um café à sua moda, forte e parecido com o café dos turcos, com um pouco de pó no fundo da xícara. Lembro-me que repeti a dose três vezes, de tão gostoso que estava.

Tia Margaritae contou histórias da sua infância, de uma aventura na Turquia quando os inimigos jogaram ribanceira abaixo, o ônibus de excursão em que ela estava.

Na parte de cima da casa, uns poucos móveis, uma cristaleira com louças empoeiradas porque, cansada de guerra, raramente ela subia aquelas escadas. Ao lado de um armário, havia uma imensa bandeira da Grécia enrolada, talvez usada no passado nas festas do povoado.

Durante um mês, nossa convivência foi diária e intensa. Os figos que ela nos trazia, quando não estávamos em casa, deixava no cantinho da janela, que logo percebíamos quando chegávamos.

No dia em que despedimos dela, vi que havia um brilho de lágrima em seus olhos e um ar de tristeza profunda. Ia me esquecendo de contar que, atrás da porta principal da casa de Tia Margaritae, não era lenda, havia mesmo uma espingarda, uma velha garrucha enferrujada, incapaz de matar uma mosca.

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QUARENTA E CINCO DIAS DE SOLIDÃO

Na primeira manhã em Beirute, acordei ao som de uma bolinha de ping-pong. Desci as escadas ainda meio sonolento e vi, antes de chegar ao térreo, dois soldados animados jogando, enquanto um terceiro enchia um embornal no bebedouro instalado ao lado da mesa.

A primeira refeição na American Comunity Scholl, onde me instalei para passar quarenta e cinco dias, foi suco de romã, pão preto com geleia de laranja amarga, um copo de coalhada, uma ameixa vermelha e uma xícara de Nescafé granulado, diferente do nosso, em pó.

Na mesinha de centro da sala de recepção, rodeada de confortáveis poltronas, o jornal L’Orient-Le Jour anunciava, na primeira página, os conflitos do dia de uma guerra sem fim. Também na mesinha, um catálogo telefônico magrinho como um fascículo com os telefones de todo o país. A curiosidade me levou até a letra H – de Haddad – do meu primeiro sogro, que fugiu da guerra para o Brasil, na juventude, e nunca mais voltou.

Do lado de fora, o jipe dos soldados estava estacionado em cima da calçada e, debaixo dele, um gato cinza morto cheirava mal. Prendi a respiração e vi, lá longe, o sol refletindo no mar azul, batendo nas pedras.

Não havia Internet, não havia Google, Smartphone, Instagram, WhatsApp, Waze, não havia o mundo digital e um telefonema custava os olhos da cara. Me senti meio no fim do mundo, isolado, longe de tudo e de todos, sem notícias das coisas do meu país abençoá por Dê e boni por naturê. Senti-me preparado para viver quarenta e cinco dias de solidão.

O primeiro dia foi de andanças, entrando e saindo por ruas, ruelas, becos, avenidas, ruinas. A cidade não era bonita à primeira vista, muitos buracos de balas nas paredes, sacos de areia nas esquinas, muita poeira, tanques a postos em lugares estratégicos, mas ao mesmo tempo, uma cidade fascinante, viva, sobrevivente.

De perto, vi que aquele mar rebelde era tão violento que descolava os musgos das pedras, jogando fiapos nas calçadas, onde algumas prostituas se ofereciam em vestidos curtíssimos e olhos borrados de preto.

O cheiro que vinha dos restaurantes espalhados pela cidade dava muita fome. Parei em um deles – Le Renard et les Raisins – com mesinhas espalhadas debaixo de uma imensa parreira carregada de uvas verdes, a sombra que precisava naquele verão árabe de 40 graus.

Havia quibe no menu, quibe assado numa pequena travessa, feito com muito hortelã e carne de carneiro. Aquele quibe, arroz branco com amêndoas e uma salada de pepino foi a minha refeição, acompanhada de um copo de cerveja Almaza, estupidamente gelada, e um pedaço de melancia de sobremesa.

A essa altura, meus cabelos longos já haviam virado um rabo de cavalo escondido dentro de um boné porque era impossível naquela Beirute conservadora dos anos 1970, um cabeludo andar sossegado pelas ruas da cidade. Fazia fotos de tudo que via de interessante pela frente. Cabras pastando em lotes vazios, homens de mãos dadas, idosos de bengala e kufiya na cabeça, vendedores de chá circulando pelo rush, homens rezando nas mesquitas e geladeiras dos bares cheias de Crush. Foram dezenas de fotografias que acabaram se perdendo quase todas com o tempo e com o rumo que a vida tomou.

(Reprodução)

Comprei de um ambulante que vendia revistas em cima de uma lona estendida na calçada, um exemplar da Luluzinha em árabe, que se chamava simplesmente Lulu.  Capa colorida, miolo em preto e branco, impressa num papel quase jornal. Paguei com duas moedas, sem dar uma palavra com o jornaleiro, que não falava francês.

Procurava os cedros e não achava. Em pouco tempo percebi que era o mesmo que procurar uma árvore de Pau-Brasil na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “Só no interior, numa pequena reserva” – me diziam – estavam os últimos cedros.  Mas ele continuava firme e forte estampado nas bandeiras tremulando espalhadas por todos os cantos da cidade.

No fim da tarde, já exausto, com calos nos pés e o meu tênis Bamba coberto de poeira, voltei para a American Comunity Scholl. Foi então que percebi que na porta de entrada havia uma reprodução do famoso Love, de Robert Indiana. Mais uma fotografia para o meu álbum.

No quarto, debaixo de uma luz forte de uma luminária em cima da escrivaninha, arrumei na minha carteira de couro, as notas sujas e amassadas de libras libanesas, tirei da máquina o filme Kodachrome de 36 poses que ainda estava ali dentro, folheei a Luluzinha falando árabe com o Bolinha e fiz minhas anotações. Só hoje, relendo essas anotações, vejo que escrevi: “No radinho de pilha em cima do criado-mudo, Maria Bethânia canta Esse Cara”, como se aquela canção estivesse ali dentro guardada para me saudar.

No final da noite, desembrulhei o pedaço de quibe que sobrou do almoço, coloquei num pratinho e peguei uma Pepsi-Cola na geladeira que ficava ao lado da porta com o Love. Fui dormir com o barulho ensurdecedor dos aviões de guerra que cruzavam o céu da cidade. Fui dormir tentando sintonizar alguma língua conhecida no radinho de pilha que pouco antes tocara Bethânia em bom português.

No meio da noite, acordei com o silêncio que se instalara. Fiquei ali deitado debaixo de um lençol de listras azuis e amarelas, pensando nos quarenta e quatro dias que ainda tinha pela frente e a missão de achar algum Haddad, algum parente do meu primeiro sogro.

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BEIRUTE À VISTA!

De tempos em tempos, eu me pergunto por que diabos resolvi, um dia, no verão de mil novecentos e setenta e cinco, aos vinte e cinco anos de idade, sair de Paris e ir parar em Beirute, por terra.

Não houve planejamento algum. Não comprei passagem, não reservei hotel, apenas coloquei um mapa-mundi no chão da sala da minha casa e fiz um traçado com caneta Stabilo Boss verde limão. Era um mapa mundi surrado, comprado ainda na Livraria Itatiaia, antes de deixar o Brasil.

Parti numa manhã de verão, com a cara e a coragem, levando apenas, nas costas, uma mochila de lona cheia de ilusão. Aos vinte e cinco anos de idade, tudo era divino, tudo era maravilhoso e eu não tinha tempo de temer a morte.

Durante muitos dias, andei de trem, de ônibus, de caminhão, de carona, de navio, e até de avião, num pequeno percurso antes de chegar a Beirute. Eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus, e seguia à risca a música de Jards Macalé e Waly Salomão.

Atravessei montanhas, lagos, rios, sete mares até chegar ao meu destino. Sai da França, desci a Itália, atravessei pra Grécia, passei pela Bulgária, cheguei perto da Albânia, alcancei a Turquia, depois a Síria e finalmente, Beirute.

As anotações que restaram são poucas, mas não me esqueço do longo percurso dentro de um vagão de trem, atravessando a Itália, de norte a sul, com aquela mochila nas costas, sem espaço para colocá-la no chão. Não me esqueço das horas e horas que passei no porto de Brindisi, esperando aquele velho navio, na esperança de reaver o passaporte que foi embora nas mãos de um policial.

Da Grécia, lembro-me de uma praça central, rodeada de árvores floridas que faziam sombra nos bancos de concreto, onde fiz da minha mochila, travesseiro.

Lembro-me das doze horas que passei para entrar na Bulgária e dos dois dias que passei comendo biscoito waffes, a única coisa que tinha para comer. Da Síria, não me esqueço da poeira e das primeiras placas enferrujadas escritas em árabe, aquele alfabeto que me deixou embriagado de paixão.

Nunca me esqueci de Alepo, quando Alepo ainda era uma cidade de pé, viva, onde as pessoas se divertiam nos cafés jogando dominó e bebendo arak, o néctar dos deuses.

A chegada a Beirute foi nas asas de uma velha aeronave da Turkish, cujo guardanapo, lembro-me bem, tinha a imagem de um porco e um X cruzando o seu corpo.

Já era noite e com aquele calor sufocante, só me restou pegar um taxi, um velho Impala 1960 e pedir ao motorista que me levasse até a Universidade Americana, onde passaria os próximos quarenta e cinco dias.

O alívio foi muito grande quando percebi que todas as pessoas no aeroporto de Beirute falavam francês e o motorista do táxi também. Depois de tantos dias driblando o italiano, tentando falar inglês com os búlgaros, fazendo mímica para os gregos e turcos, e sem entender uma palavra sequer na Síria, me senti em casa.

Na primeira esquina, o motorista perguntou de onde vinha e eu fui bem claro. De um país tropical, muito longe dali, onde uma ditadura militar tomou conta do espaço e me sufocou. Ele não quis saber mais nada, contou que o que conhecia de Brasil era a música de Jorge Ben. Cantarolou Mais que nada/Sai da minha frente que eu quero passar/O samba está animado/O que eu quero é sambar, e me contou que tinha todos os seus vinis.

Desviou o caminho e me levou até a sua casa, um pequeno apartamento onde vivia com a mãe. Era um ambiente sombrio, o chão coberto de tapetes persas, as paredes entupidas de fotografias de parentes mortos e uma antiga eletrola com espaço para guardar os discos de vinil, na parte de baixo.

Ali estavam os velhos e surrados discos de Jorge Ben, que ele conhecia tão bem. Ligou a geringonça e logo ouvi aquela voz inconfundível cantando Take It easy, my brother Charles/Take It easy meu irmão de cor…, a canção que ele também sabia de cor.

Tomamos suco de romã pra matar a sede e logo depois sua mãe me serviu arak numa pequena taça vermelha e dourada. Uma, duas, três. Foi difícil conseguir sair dali e pegar o meu rumo com destino a Universidade Americana. Mas cheguei.

Fui instalado num pequeno quarto moderno e colorido. A cama era amarela, o pequeno armário era azul, o criado mudo verde e a escrivaninha preta. A janela era pequena e ficava bem no alto. Tive de subir na cama para ver lá fora.

A escuridão era total e o silencio só era quebrado de tempos em tempos por um barulhinho bom, não sabia se de grilo, cigarra, sapo ou passarinho.

Só na manhã seguinte, com o sol na cara, voltei a observar o lado de fora de Beirute. Era um descampado, chão de terra batida, onde um grupo de jovens militares fazia exercícios. Nada muito interessante. Nenhum cedro, nada que me remetesse a Beirute.

Eu tinha os cabelos compridos, na cintura, e não pesava mais que cinquenta quilos. Quando pus os pés na calçada, um grupo se aproximou de mim e todos ficaram observado a minha figura dos pés a cabeça. O que fazia aquele ET em Beirute, se a manchete do L’Orient-Le Jour era guerra à vista?

Um pequeno bistrô, ao lado, exibia charutinhos de folha de uva na vitrine e um caixote de romãs maduros estava ali encostado na parede, do lado de fora. O cheiro dos temperos que vinha lá de dentro era muito forte, com certeza já fritavam linguiças merguez polvilhadas com harissa.

Com uma Pentax a tiracolo, dei o primeiro passo e vi Beirute. Fiz a primeira fotografia de uma das cidades mais fascinantes do mundo. Isso eu vou contar na semana que vem.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ONDE ANDARÁ BEATRIZ?

Nos anos em que vivi fora daqui, em Paris, fiz muitas amizades. De gente maluca que gostava de sonhar a físicos, matemáticos e músicos que estavam ali de passagem, com o objetivo único de estudar. Muitos continuam presentes virtualmente na minha vida, curtindo e compartilhando nas redes sociais, trocando mensagens sem contato físico, mas dentro do coração. Outros, com o passar do tempo, sumiram na poeira da estrada. Nunca mais tive notícias.

De tempos em tempos, minha memória parte para o espaço sideral, em busca de lembranças, apenas lembranças que ficaram perdidas por aí.

Azeitona, por exemplo, que chegou animado em estudar agronomia e nunca estudou. Cacá, quase um monge budista que dizia estar procurando emprego, mas morrendo de medo de encontrar. O arquiteto Zé Octávio, que abandonou a portaria do Hotel de la Grece, onde trabalhava, e se juntou aos manifestantes que passaram numa ruela do Quartier Latin protestando exatamente contra o governo de Michail Stasinopoulos.

Ceará, que um dia resolveu fazer farofa com ovo, bacon e serragem, acreditando que daria certo. O gaúcho Darci, que inventou seu próprio vocabulário chamando gasolina de essência, a lixeira de pubele e o Líbano de Libão, são alguns exemplos.

E tinha Beatriz.

Beatriz era uma mineira do interior que chegou para animar a festa. Lembro-me bem que tinha onze irmãos, todos com os nomes começados em Be. Adorávamos quando ela repetia, como um narrador de turfe, os nomes de todos eles: Era Beatriz, Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

Beatriz chegou e alugou um pequeno studio num quarteirão aconchegante de Paris. Ficava no sétimo andar de um prédio sem elevador, mas o problema maior é que não tinha banho, isto é, não tinha chuveiro nem banheira. Mas Beatriz deu o seu jeito.

Arranjou um emprego de faxineira e andava pra lá e pra cá com uma sacolinha do Prisunic, com o seu kit banho: Toalha, sabonete, xampu e uma calcinha. Onde chegava, não fazia cerimônia, pedia pra tomar banho. Lá em casa já estávamos acostumados. Quando ia se despedir, perguntávamos se não ia tomar banho. Ia, claro. Ela se deliciava com aquela água quentinha para amenizar o inverno rigoroso.

Beatriz contava histórias ótimas como aquela do pai dela, mineiro metódico, que todos os dias às seis horas da manhã em ponto, pegava o regador e saia para molhar a horta, além das flores e das folhagens que cultivava no quintal de sua casa, lá no interior de Minas. Mesmo quando estava caindo um toró, o pai de Beatriz pegava a galocha, o guarda-chuva e saia com o regador para molhar suas plantas.

Beatriz falava um francês muito particular. Gostava de ensinar para os franceses as delicias da culinária brasileira: Vous prenez le feijão preto, puis vous ajouter toutes les types de viande, carne seca, paio, costelinha, orelha, rabo… E continuava. Ah, il y a aussi de la farinha de mandioca pour faire de la farofa. Ajoutez la couve refogadinha e aussi des morceuax de laranja seleta e torresmo. Os franceses ficavam com os olhos arregalados tentando entender e a gente fazendo xixi de tanto rir.

Um dia ela chegou esbaforida na nossa casa, dizendo  que estava cagada de arara! Um francês perguntou o que ela havia dito e Beatriz começou a explicar: Vous conaissez le perroquet?

De repente, Beatriz chegou com uma novidade. Estava namorando um árabe, não me lembro se do Marrocos ou da Argélia. Mustafá estava apaixonadíssimo por ela, mas tinha um problema. Não se conformava em Beatriz trabalhar fora. E a relação funcionava assim: Ele chegava do trabalho por volta de sete da noite e se ela não estivesse em casa, começava a beber cerveja.

Quantas e quantas vezes ela passou na nossa casa, tomou um banho rápido e saiu voando, porque senão ia chegar tarde em casa e encontrar Mustafá esparramado no sofá, depois de beber uma dúzia de latinhas de Kronnebourg.

A última vez que vi Beatriz foi no seu bota-fora. Prepararmos uma galinha d’Angola com couve de Bruxelas pra ela, uma despedida à altura. Até uma cachacinha mineira apareceu naquele dia. Mais uma vez rimos muito, comemos muito, nos divertimos demais e desejamos a ela boa viagem e sorte na sua volta ao país tropical.

Beatriz pegou o primeiro avião com destino a felicidade e nunca mais tive noticias. Já cansei de procurar nas redes sociais e nada. Queria vê-la nem que fosse um tiquinho, como ela dizia. Pelo menos para ela recitar o nome dos onze irmãos: Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

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OS JOVENS NÃO PASSAM ROUPA

É muito vaga a minha lembrança do ferro a brasa. A única que me vem à memória, é lá da Fazenda do Sertão, interior de Minas, eu menino ainda, espiando da janela uma senhora idosa passando roupa com o tal ferro. Éramos proibidos de entrar ali porque saiamos tossindo muito e defumados.

Era uma senhora negra, franzina, um lenço branco na cabeça, que enfrentava com todo vigor uma pilha de roupas pra passar, que ela costumava deixar dentro de um enorme cesto de vime.

Na Fazenda do Sertão não havia eletricidade, vivíamos de lamparina e a solução para passar roupa, era aquele pesado ferro a brasa, uma verdadeira maria fumaça.

A senhora soprava e colocava brasa toda vez que sentia que a roupa não estava ficando lisinha e impecável. Eram uns lençóis brancos, umas fronhas bordadas e muita roupa encardida de crianças que viviam naquela poeira danada, barro quando chovia.

Muitos anos depois, vi alguns ferros a brasa no interior de Minas, decorando casas, com arranjos de flores dentro, ou segurando a porta para não fechar.

Quando chegou o ferro elétrico, o temor da minha mãe veio junto. Era uma época em que os aparelhos eletrodomésticos davam muito choque e minha mãe só encostava no ferro de passar com uma sandália de borracha nos pés.

A minha irmã mais velha logo ficou apaixonada pelo tal ferro elétrico, tão apaixonada que o meu pai deu a ela de presente de Natal, um ferrinho de passar roupa da Estrela. Era um ferrinho de verdade, com fio e tomada, que ligava e esquentava. Parecia que ninguém tinha medo do perigo.

A mamadeira era de vidro, andávamos em muros com cacos, fazíamos guerra de mamona, jogávamos bola na rua e andávamos armados com um revólver de espoleta na cintura, também da Estrela. A gente matava e nossos amigos morriam de mentira.

Voltando ao ferrinho da Estrela, um dia, minha irmã saiu do banho e foi passar a roupinha da boneca. Descalça e com os cabelos molhados, ela acabou levando um choque violento e ficou presa a ele, gritando por socorro. Foi depois disso que minha mãe escondeu o ferrinho no alto do armário, pra ninguém nunca mais pegar.

Estou contando essas histórias, mas a que eu quero mesmo contar é que percebi ultimamente, que essa juventude de hoje não passa mais roupa. Ninguém das amigas ou amigos das minhas filhas, nem mesmo elas, passam roupa. Acham que é inútil, uma bobagem, gastar tempo e energia passando roupa.

Eu não me acostumo com roupa amassada. Outro dia liguei pros meus irmãos e perguntei se eles ainda passavam roupa. Sim, todos continuam saindo sempre na estica. Alguns gostam de passar, outros não. Mas todos fazem questão de sair com a roupa passada.

Foi então que minha irmã lembrou de Maria Passadeira que, confesso, havia sumido da minha memória há décadas. Ela foi reativando à medida que minha irmã ia abrindo seu baú de memórias.

Ninguém sabia o sobrenome da Maria. Era Maria Passadeira e pronto. Uma vez por semana, ela ia na nossa casa pra passar roupa. Chegava, tomava um cafezinho ralo com um pedaço de pão com manteiga, encurtava a conversa e dizia: “O papo está ótimo, mas eu tenho um mundo de roupa pra passar”.

E tinha mesmo. Éramos cinco filhos e muita roupa, muitos lençóis, muito uniforme de futebol, muita camisa social do meu pai. Mas a Maria Passadeira nunca reclamava. No final do dia, ela ia de quarto em quarto e colocava, em cima da cama de cada um, a roupa impecavelmente passada.

Maria Passadeira não sabia cozinhar, não gostava de arrumar a casa, gostava só de passar roupa. E passava bem, inclusive engomando aquelas saias plissadas das minhas irmãs, uniforme do Colégio Sion.

Não sei se ainda existem passadeiras como Maria Passadeira, que vão na casa das pessoas exclusivamente para passar roupa. Talvez tenham desaparecido juntamente com as costureiras à domicilio, com o Simca Chambord, com a Mirinda Morango, com os maiôs Catalina e com as estampas do sabonete Eucalol. Enfim, tudo passa.

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