O OLHO DA RUA

No dia em que completei exatos quatro meses confinado dentro de casa, sai de automóvel para ver a cidade, uma volta rápida por ruas ainda esburacadas, sinais piscando desorientados. Senti tontura, apesar de São Paulo não ser aquela coisa engarrafada, poluída, tão suja. Me pareceu meio fantasma, não por respeito ao confinamento, mas porque era domingo e domingo, pensando bem, a cidade é mesmo assim. Apostava no meu susto, no meu espanto, diante de tamanha confusão. Mas praticamente nenhuma. O comércio estava quase todo fechado, bares e restaurantes abertos, quase vazios, sem graça. Vi máscaras de todos os tipos e cores, muitas pessoas sem elas como se nada estivesse acontecendo no mundo, Placas improvisadas de aluga-se e passa-se o ponto dependuradas em portas de aço. Minha cidade parece que parou, que o sangue de sal de frutas não ferve mais no copo d’água. Voltei para minha casa como um pássaro que volta para o seu ninho. Estou preferindo aqui.

[ilustração/Obra de Edward Hopper]