NÃO CHORE MAIS

Quando o inverno apertava, os ossos começavam a doer ao abrir, todas as manhãs, a janela da sala, encravada pela ferrugem e por uma tinta óleo de anos. Havia um silêncio no ar e o silêncio ocupava os poucos cômodos daquele apartamento alugado num bairro comunista de Paris, abrigo de exilados. 79, Rue de la Roquette.

O fog, a chuva fina lá fora, o brilho da água no asfalto novo refletia no vidro das janelas e no nosso chão, como se fosse um cinemascope. Eu passava a mão como se fosse a rosa púrpura do Cairo e não sentia nada, nenhum calor naquela luminosidade.

Era melhor mesmo ficar em silêncio por alguns minutos. As cartas não chegavam mais, nenhuma foto, nenhuma revista, nenhum recorte de jornal na caixa de correio instalada na parede mofada na entrada de onde residia.

Líamos jornais clandestinos vindos do Sul, o manual de guerrilha de Carlos Marighela, os fascículos da Editora Maspéro e a Nouvel L’Obs para aluviar.  Vínhamos andando pelo Boulevard Saint Germain, descíamos o Saint Michel, passávamos pela barraca de drágeas colorias, balas perdidas em potes de plástico, e chegávamos na Livraria Joie de Lire.

Um ar meio maoísta tomava conta do lugar e eu descia cuidadosamente os degraus da escada estreita até chegar ao subterrâneo onde estava o Opinião, onde estavam, em uma mesa redonda, todos os jornais uruguaios, argentinos, chilenos e peruanos.

Sabia que a distância era tão sofrida, o mundo tão separado, jamás se hubiera encontrado, sin aportar nuevas vidas. E quem garantia que a história era uma carroça abandonada numa beira de estrada, ou numa estação inglória?

Em casa, lia Dalton Trevisan para aprender a escrever curto e grosso. Queria, para os meus contos, nomes de obras primas dos gênios da pintura espalhadas pelos museus do mundo que começava a conhecer.

Rapariga com brinco de pérola, O cavaleiro risonho, O baile no Moulin de La Galette, A noite estrelada, Menino em um colete vermelho, Natureza morta, O beijo e O grito.

Queria ter nascido holandês para entregar esses manuscritos no Ministério da Cultura em Amsterdam e receber por eles um punhado de florins que daria para comprar pão preto, geleia de laranja amarga, um triângulo da Vache qui ri e um vidrinho de Nescafé.

Queria descrever cenas dos meus companheiros colhendo morangos nas cercanias de Estocolmo, colhendo tâmaras no interior da Síria ou colhendo uvas na região de Bordeaux. Eram amigos que trabalhavam na cozinha, nas estradas, campos e construções.

A dor nas costas era intensa de tanto separar as uvas verdes das maduras, o joio do trigo, encontrar a agulha no palheiro. Queria ser Esopo pra escrever e Marc Chagall para ilustrar as uvas verdes nas alturas, maldita raposa.

Queria colher o trigo, amassar o pão, colocar na vitrola O evangelho segundo Cristiano, mesmo sabendo que o vinil estava arranhado de tanto uso, o chiado forte, Geraldo Vandré.

Me alegrava o pessoal do Nordeste gravando discos na CBS e os urbanos de São Paulo gravando na Continental. Walter Franco cantando nothing, to do nothing, today, about me, I’m happy no, I’m not sad, I just happy now, looking to the empty space.

Eu olhava pro espaço sideral na esperança de ver Laika passeando no céu de cosmonautas que nos protegia. Aqui não era Londres, mas mesmo assim havia no canto o silêncio do meu violão, nem eu mesmo sei porque.

Procurava nas páginas amareladas do Pasquim, notícias sobre aquele exilio recém anistiado de Caetano Veloso e Gilberto Gil e encontrava apenas nostalgia, tudo tão triste, uma saudade danada do mar da Bahia e fragmentos do Demiurgo numa câmera Super-8.

Lembrava da minha coleção do jornal Rolling Stone encadernada e tentava recordar se havia alguma noticia ali do Festival da Ilha de Wright, notícias de Janis, de Jimi e principalmente de Joe. Pedia apenas um help, uma pequena ajuda dos meus amigos, amigos que a essa hora estavam ali sentados no aterro sob o sol, presos ou sumindo pra nunca mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ORGANIZANDO O MOVIMENTO

Andando pela Rue des Écoles, em meados dos anos 1970, parei perplexo diante da vitrine de uma livraria que não conhecia. Vi ali exposto o livro Cemitério de Elefantes, de Dalton Trevisan, de contos curtos e instigantes, que também não conhecia.

O que estaria fazendo aquele livro do vampiro de Curitiba, em português, numa livraria no coração do Quartier Latin? Fui saber quando dei dois passos atrás e li: Librairie Portugaise e Brésilienne.

Longe do meu país há um tempo, entrei maravilhado descobrindo, aqui e ali, livros em português e discos de vinil de MPB. No primeiro dia que entrei ali, levei pra casa, além do Cemitério de Elefantes, o disco Romaria, de Renato Teixeira, que já tinha lido a respeito nos recortes de jornais que meu irmão enviava pelo correio.

Virei freguês. No segundo dia que entrei naquela livraria vi, de pé ao lado do caixa, um senhor elegante que me pareceu familiar, jeito de mineiro como eu. Vim a saber que era o José Maria Rabelo, jornalista, exilado, fundador do jornal Binômio, que circulava na minha Belo Horizonte, quando eu era ainda menino de calças curtas.

O Binômio foi um jornal que virou Minas Gerais de cabeça pra baixo, uma espécie de Pasquim das montanhas. Nunca me esqueci daquela manchete do dia em que o presidente Juscelino Kubitschek voou num jatinho pra Araxá levando o empresário Francisco Rolla. No dia seguinte, lá estava estampada na primeira página do Binômio:

JK vai a Araxá e leva Rolla!

Criei coragem e me apresentei. Zé Maria Rabelo, como todos o conheciam, ficou interessado no Movimento, jornal que eu trabalhava como correspondente na época. Ele era leitor. Contei a ele do nosso plano de vender o jornal para exilados em Paris, que eram mais de dez mil.

– Vamos vender aqui! Disse ele, sem pestanejar.

Aquilo bateu como um vento forte de animo para nós, cansados de guerra, resistindo bravamente. A ditadura militar já começava a dar sinais de que, mais cedo ou mais tarde, bateria as botas.

Todos os dias, eu acordava às quatro horas da madrugada porque, cinco em ponto, eu já deveria estar no restaurante Les Hauts de Belleville, onde servia o café da manhã para os trabalhadores.

Nove horas, com tudo em ordem, fechava as portas e ia pra casa descansar.

Depois daquele encontro com Zé Maria Rabelo, virou rotina. Toda segunda-feira depois do expediente, eu pegava o ônibus na Gare Denfert-Rochereau com destino ao aeroporto de Orly. Na alfândega, me apresentava e recebia um pacote com cem exemplares do jornal Movimento, embrulhados em papel kraft e amarrados com um forte barbante.

Colocava dentro de um carrinho de feira e voltava no mesmo ônibus que me deixava novamente na Gare Denfert-Rochereau. De lá, pegava o metrô e ia até a estação Saint-Michel, que ficava perto da livraria do Zé Maria.

Ele sempre me recebia de braços abertos e, feliz, mostrava a prateleira onde ficava o Movimento, quase vazia. Seus olhos brilhavam ao ver aquele pacote de jornais frescos. Fazia as contas de quantos tinha vendido na semana e me pagava em dinheiro, francos franceses vivos, dinheiro que dava pra comprar o leite e o croissant das crianças.

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Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância 

Ficamos amigos, nunca íntimos, mas amigos. Foi na livraria do Zé Maria Rabelo que um dia, fuçando os vinis, vi, ao meu lado, uma tímida Nara Leão. Mas essa é outra história.Um dia, eu e Zé Maria Rabelo voamos de volta pro Brasil nas asas da abertura, cada um pro seu canto. De vez em quando, tenho notícias dele pelo Facebook.

Essa semana fiquei sabendo que estava comemorando 90 anos de vida, com direito a palestra sobre os caminhos do exílio, no evento Sempre um Papo, do incansável Afonso Borges, um sucesso em BH.

Pedi ao Fernando, filho do Zé Maria Rabelo, uma foto recente dele para ilustrar essa crônica e o retrato chegou em poucos minutos pelo messenger, bem caprichado.

Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância que me recebia toda segunda-feira na Librairie Portugaise et Brésilenne. O Zé Maria Rabelo é um desses tipos inesquecíveis, mineiro boa praça, que continua firme e forte, organizando o movimento.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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