AQUI E AGORA

 

O melhor lugar do mundo
É aqui e agora
O melhor lugar do mundo
É aqui e agora

Aqui onde indefinido
Agora que é quase quando
Quando ser leve ou pesado
Deixa de fazer sentido

Aqui de onde o olho mira
Agora que ouvido escuta
O tempo que a voz não fala
Mas que o coração tributa

[Aqui e Agora, Gilberto Gil]

“COISA DE PRETO”

Toda vez que Gilberto Passos Gil Moreira, ainda com um pé na administração de empresas, aparecia na tela daquela televisão valvulada e sem cor, no canto da sala de uma casa em Santo Amaro da Purificação, Dona Canô, uma baiana cem por cento, enxugava as mãos no avental e chamava:

– Caetano, vem correndo ver aquele preto que você gosta!

O jovem Caetano, ainda caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, parava encantado diante da tela e ficava admirando aquele preto de rosto redondo dedilhando o violão, cantando suas primeiras canções, ainda meio bossa nova: Serenata de Teleco-TecoMaria Tristeza, Vontade de Amar e Meu luar, minhas canções.

Era agosto de 1964, o golpe militar ainda estava fresco e o marechal Castelo Branco aquecendo a cadeira de ditador, quando Caetano conheceu o preto da televisão que ele gostava tanto.

Com a irmã Maria Bethânia, Tom Zé, Alcyvando Luz, Antônio Renato, Djalma Corrêa e Fernando Lona, todos doces bárbaros, montou um espetáculo para inaugurar o Teatro Vila Velha, em Salvador: Nós, por exemplo.

Gilberto Passos Gil Moreira virou simplesmente Gilberto Gil e nunca deixou de ser aquele preto que aparecia na televisão e encantava Caetano e a todos nós.

Foi ele que um dia cantou para o Brasil uma canção chamada Sarará Miolo:

Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo

Foi aquele mesmo preto que um dia, ao lado de Chico Buarque, cantou as mãos da limpeza:

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída
Imagina só
Vai sujar na saída
Imagina só
Que mentira danada
Na verdade a mão escrava/Passava a vida limpando
O que o branco sujava
Imagina só
O que o branco sujava
Imagina só
O que o negro penava/Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza
Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza

Foi aquele preto que, com sua guitarra em punho, definiu a raça humana:

A raça humana é uma semana do trabalho de Deus
A raça humana é a ferida acesa
Uma beleza, uma podridão
O fogo eterno e a morte
A morte e a ressurreição
A raça humana é o cristal de lágrimas da lavra da solidão
Da mina cujo o mapa trás na palma da mão
A raça humana risca, rabisca, pinta, a tinta à lápis, carvão ou giz

Foi aquele preto que um dia apareceu na tela da televisão lá em Santo Amaro da Purificação, agora em cores, para cantar a oração pela sua libertação da África do Sul.

Se o rei Zulu já não pode andar nu
Salve a batina do bispo Tutu
Ó, Deus do céu da África do Sul
Do céu azul da África do Sul
Tornai vermelho todo sangue azul
Já que vermelho tem sido todo sangue derramado
Todo corpo, todo irmão, chicoteado
Senhor da selva africana, irmã da selva americana
Nossa selva brasileira de Tupã

Foi aquele preto da televisão que, num dia de verão, fez Paris inteira cantar: Touche paz à mon pote, cuja letra, em bom português, diz que o Ser que fez Jean-Paul Sartre pensar é o mesmo que fez Yannick Noah jogar.

O HOSPÍCIO

Captura de Tela 2015-09-24 às 15.03.24

Era uma quarta-feira de manhã quando o delegado Elói Gonçalves de Azevedo chegou ao Hotel Ivoram, na Avenida Hercílio Luz, no centro de Florianópolis. Acompanhado de sua equipe, ele foi direto na recepção e se apresentou. Juntamente com o gerente, eles subiram até o apartamento 306 e bateram na porta. Em menos de um minuto Gilberto Gil abriu, com a sua calma e o seu equilíbrio de sempre.

O delegado Elói foi logo se apresentando. Estava ali para uma revista de rotina, em busca de tóxicos. Gil não se arvorou. Acabou de abrir a porta e convidou a todos para entrar. A revista começou. Gavetas, armários, malas, sacolas, tudo foi vistoriado. Um cigarro de maconha e um pacotinho que daria para enrolar um outro baseado foram encontrados dentro de uma carteira. Antes que alguém perguntasse alguma coisa, Gil se adiantou.

– É meu!

Esteja preso! O delegado Elói imediatamente decretou a prisão de Gilberto Gil, o compositor de “Aquele abraço”, “Procissão”, “Domingo no Parque” e “Back to Bahia”. Na delegacia, o boletim de ocorrência foi datilografado numa velha máquina Remington: “O músico foi preso em flagrante delito portando a erva maldita, que tanta infelicidade vem causando a milhares de lares brasileiros”. Gil Foi preso como um criminoso, um apologista in- consciente.

Com pequenos dreads na cabeça, o compositor de “Futurível” disse que não sabia que fumar maconha era crime e fez um discurso bem Gilberto Gil: “Nós somos pessoas dos dias de hoje, do século XX, nós somos os cavaleiros do após calipso”.

O quarto 307 do Hotel Ivoram, onde estava Caetano Veloso, também foi revistado, mas nada foi encontrado. Caetano, muito nervoso, achou que estava tendo um pesadelo e mergulhou na cama pedindo socorro. No quarto ao lado, uma Gal Costa e uma Maria Bethânia estavam assustadas com tudo aquilo e com os doces bárbaros que teriam de servir ao público naquela noite em Santa Catarina.

Assim que o depoimento de Gilberto Gil acabou de ser datilografado, uma decisão foi tomada. Ele seria encaminhado para uma clínica psiquiátrica para cura. E foi. Lá, ele permaneceu durante quinze dias. Foi na clínica que Gil compôs a canção “Sandra”, em homenagem a Sandra Gadelha, sua mulher na época, mãe de Pedro Gil, Preta Gil e Maria.

“Maria Aparecida, porque apareceu na vida/Maria Sebastiana, porque Deus fez tão bonita/Maria de Lourdes/Porque me pediu uma canção pra ela/Carmensita, porque ela sussurrou: Seja bem-vindo (no meu ouvido)/…/ Salete fez chafé, que é um chá de café que eu gosto/E naquela semana tomar chafé foi um vício/Andreia na estreia/No segundo dia, meus laços de fita/Cintia, porque embora choque, rosa é cor bonita/E Ana, porque parece uma cigana da ilha/Dulcina, porque/É santa, é uma santa e me beijou na boca/Azul, porque azul é cor, e cor é feminina/Eu sou tão inseguro porque o muro é muito alto/E pra dar o salto/Me amarro na torre no alto da montanha/Amarradão na torre dá pra ir no mundo inteiro/E onde quer que eu vá no mundo, vejo a minha torre/É só balançar/Que a corda me leva de volta pra ela: Oh, Sandra.”

A canção ficou pronta e foi parar na sexta faixa do disco “Refavela”aquela canção que diz “A refavela/Revela aquela/Que desce o morro e vem transar/O ambiente/Efervescente/De uma cidade a cintilar/A refavela/Revela o salto/Que o preto pobre tenta dar/Quando se arranca/Do seu barraco/ Prum bloco do BNH”.

Na clínica psiquiátrica, Gil compôs também uma outra canção chamada “A gaivota”, que ficou fora do disco, mas voou o Brasil afora na voz de Ney Matogrosso, um ex-seco e molhado. “Gaivota na ilha/Sem noção da milha/Ficou longe a terra/Gaivota menina/Gaivota querida/Voa numa boa/ Que o alento segura/Voa numa boa”.

Dez anos depois, eu e Sandra, não a Gadelha, a Annenberg, entramos devagarinho no camarim de Gilberto Gil com um envelope pardo na mão. Assistimos ao show dele no Palace, em São Paulo, segurando aquele envelope sem a certeza de que conseguiríamos falar com ele no final do espetáculo. Sim, o segurança nos pediu o crachá da Rede Globo. Fomos autorizados a entrar, caminhamos um corredor imenso até chegar onde Gil estava, sentado num sofá como um paxá.

Fomos recebidos com abraços e beijos de um Gil cansado de guerra. Não era para menos. Não sei porque estávamos, eu e Sandra Annenberg, acanhados. Explicamos a ele que dentro daquele envelope pardo havia uma fita VHS que gostaríamos muito que ele assistisse.

– Trata-se de quê?

Explicamos a ele que na reunião de pauta do Jornal Hoje, surgiu uma ideia. Dez anos depois, pedimos à equipe de Florianópolis para voltar ao hospício (Gil deu uma risadinha) onde ele ficara internado durante quinze dias para saber onde foram parar todas aquelas pessoas citadas na música “Sandra”.

– Curioso! Eu estava em casa quando alguém gritou: Venha, Gil, ver você na televisão! Era mesmo o Jornal Hoje, mas eu só peguei o finalzinho da reportagem, cheguei a ver todas elas sorrindo muito, com o meu disco na mão. Quero ver sim a reportagem inteira.

Fomos atrás de Maria Aparecida que apareceu na vida, Maria Sebastiana que Deus fez tão bonita, Carmensita, aquela que sussurrou bem vindo no seu ouvido, Salete que fez um chá de café, todas elas. Cintia, Ana e Dulcina. Algumas foram encontradas, outras não. Mas lá estavam elas na reportagem, relembrando os dias em que o compositor Gilberto Gil passou naquele hospício, acusado de criminoso e apologista inconsciente.

Gil tinha razão. A reportagem terminava com todas elas no jardim sorrindo com o disco na mão, o disco que tem uma outra canção que diz assim: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora/Aqui onde o olho mira/ Agora, que o ouvido escuta/O tempo que a voz não fala/Mas que o coração tributa”.

[crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br