MEU BRASIL BRASILEIRO

O que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. E a corrupção continua solta por aí

1 –

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo que Brasil ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os lares, de leste a oeste, de norte a sul, como se fosse a galinha azul. Durante meses, assistimos a curtos depoimentos de brasileiros, vindos de lugares que nem imaginávamos existir.

Pintópolis, MG

Carrasco Bonito, TO

Anta Gorda, RS

Passa e Fica, RN

Em meio a um bombardeio diário de noticias e fake news, em todos os telejornais, havia informações de uma conexão entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”.

Em oitenta por cento das respostas, ouvíamos brasileiros, em movieselfies gravados por eles mesmos, com os celulares na horizontal, pedindo o fim da corrupção. Era comum também lamentos de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, dos cadeirantes, enfim, do seu povo.Agora, quase um ano depois, o que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. A corrupção continua solta por aí, escondida debaixo do tapete ou, quem sabe, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, sem um pedaço de esparadrapo e sem médicos, já que os cubanos se recusaram a fazer parte de um governo com um pé no fascismo, deixando milhares e milhares de brasileiros nas mãos de Bolsonaro, ao Deus dará.

O lixo está nas ruas e não há nenhum projeto de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo nas filas, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando.

Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos mesmos brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E aí, está satisfeito?”


2 –

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada.

Fechada por quê?, perguntou uma senhora. Manifestação! Greve!, respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Com o nosso dinheiro! Eles não têm o que fazer?

Todos tinham suas opiniões formadas, mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve, nem queria saber. Um último arriscou dizer: “Por que não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angélica a pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava normalmente. Os resmungos continuaram por algum tempo.

Naquela noite, todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava.

O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso aí. Não sei se entenderiam. Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia.


3 –

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.

Argumentam que, quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ONGs de esquerdalhas.

Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as flores do jardim da nossa casa para dar lugar a um prédio de 18 andares. Quando a chuva vem, a água que regava as roseiras vai pra enxurrada que enche a cidade e vão parar nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade.

Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos carros e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada.

Mosquitos, pets, plásticos, copos, tábuas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.

O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra, viveu muitos séculos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

7 MESES E 3 HISTÓRIAS

A besta humana

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios Apesar de Você.

A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tchauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia.

A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedista.

A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

A CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação.

O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento.

Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol.

O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama o WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

O porta-voz

O porta-voz tem carta de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos.

Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar.

Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava.

Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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