QUINZE

Viver com medo hoje, imaginando o futuro que não vem. Não vai ser um plantão do Jornal Nacional, com aqueles microfones voando, que vai anunciar o fim do isolamento. Todos às ruas! Não vai ser o plantão do JN que vai fazer barulho na minha rua, o portão da garagem subir e descer. Os cafés servir café, os restaurantes a quilo oferecer aquelas saladas maravilhosas, a Zara voltar a vender roupa de frio, o porteiro ligar dizendo que chegou encomenda, minhas filhas baterem na porta, meu filho  ligar dizendo que está chegando de BH. As bicicletas voltarem a circular Parque Villa-Lobos, a Livraria da Travessa exibir na vitrine o livro-reportagem sobre João de Deus da Todavia, o primeiro a dizer a verdade. O sol está difícil de mostrar a sua cara. A Patricia Mesquita disse que muitos passarinhos deixaram de cantar no seu jardim, por aqui não. As maritacas, aproveitando a calmaria, tomaram conta da árvore que dá pra minha varanda. O beija-flor sim, esse não tenho visto nas manhãs, enquanto leio os jornais. Á água no bebedouro que trocava dia sim, dia não, agora dura a semana inteira. Que dia a terra vai voltar a girar como sempre girou? Os jornais mostram pessoas nas ruas caminhando nas calçadas de Ipanema, como se caminhar é preciso, viver não é preciso. Pessoas dentro de casa diminuem as mortes, todos sabem, mas tem gente que não entende isso e não abre mão de ir pra rua, zambetar. O dia vai ser de muito trabalho, de exercícios de pilates aqui dentro porque lá fora, meu mundo caiu. Saudade de Marisa Monte: beija eu, beija eu, beija eu! 

[arte Magritte]