NOTÍCIA BOA NÃO INTERESSA

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Quando o meu pai colocava o boné na cabeça e os óculos Ray-Ban no nariz, era sinal de que iria viajar. Pegar aquelas estradas horrendas do interior de Minas, que só tinham buraco e lama na época de chuva, buraco e pó na época de seca.

Minha mãe acendia uma vela no altar que tinha no quarto dela, que só era apagada quando ele dava notícia de que chegara ao destino, geralmente uma cidadezinha pra lá do fim do mundo.

– Mande notícias! Dizia ela, quando ele metia o pé no acelerador daquele velhoLand-Rover 58.

O meu pai argumentava que não precisava – ou era impossível – mandar notícias, primeiro porque não tinha telefone e, segundo, porque notícia ruim chegava rápido. Era um velho ditado que todos usavam muito, esse tal de notícia ruim chega rápido.

Hoje a coisa mudou um pouco. Noticia ruim chega, além de rápido, a todo momento. Basta abrir o jornal, clicar em qualquer site de notícia ou ligar a televisão num telejornal.

Jornalista hoje virou caçador de notícia ruim, porta-voz da tragédia. Seja tragédia aérea, grega, econômica, política, vale tudo. Se levarmos a sério todas essas manchetes que pipocam a cada momento, chegamos à conclusão de que o Brasil respira com ajuda de aparelhos e não passa desse final de semana.

Quando eu ainda trabalhava em redação – lembro-me bem – criticava-se muito aquelas matérias que chamávamos de matérias ONG, tipo o país que dá certo, gente que faz, coisas que funcionam. Criança tocando violino na favela, ensaiando balé na periferia, velhinho animado fazendo hidroginástica.

E o furo? Hoje só é considerado furo, um escândalo bem cabeludo. Escandalozinho não vale.

Basta dar uma olhada nas manchetes para perceber que o objetivo agora é deixar bem claro pro leitor que o Brasil vai de mal a pior.

Essa semana começou assim, bem cedo, com uma manchete do UOL:

Roubos e furtos caem no primeiro semestre, mas assaltos a bancos crescem em SP

Virou uma obsessão. Mesmo com uma notícia boa, é preciso encontrar um viés negativo pra virar manchete, um mas, por exemplo. Coisas do tipo:

“O tempo vai melhorar hoje mas vai chover no final de semana”

“O preço do tomate cai mas o xuxu tem alta”

“Ranking da educação melhora mas ainda estamos atrás da Argentina”

mas está sempre lá nas manchetes e se você observar bem, tudo piorou foi nos últimos 12 anos. Não sei porque (risos).

Dólar tem a maior alta nos últimos 12 anos.

Preço do automóvel é o mais elevado nos últimos 12 anos.

Poder de compra diminui e já é o menor em 12 anos.

Preço do aluguel tem o maior reajuste desde 2003.

Além de caçador de noticia ruim, jornalista virou detetive.

Basta ter um ministro novo na praça que uma legião de caçadores de noticias ruins entra em ação.

Precisamos descobrir alguma falcatrua desse novo ministro! De assédio sexual a uma ultrapassagem pelo acostamento. De um desvio de verba a uma empregada doméstica que ele não registrou. Alguma coisa contra ele precisa ser encontrada, pra termos uma manchete no dia seguinte.

Noticia boa não interessa.

Vivemos uma época em que é preciso valorizar a falência, bombar os números negativos, ver o lado ruim das coisas. Parece que os mancheteiros de plantão soltam fogos quando a inflação sobe, fazem tintin quando o PIB cai, comemoram até um arroto de delator.

Tudo isso me faz lembrar uma velha manchete do Planeta Diário que, pelo menos, era engraçada:

Médici morre mas passa bem!

[Crônica da semana publicada no site da revista CARTA CAPITAL]

http://www.cartacapital.com.br

[foto ALBERTO VILLAS]

Sabe quem morreu?

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Quando passou dos setenta, o meu pai começou com uma mania. Acordava todo dia cedo, ia até o alpendre e pegava em cima do capacho o jornal Estado de Minas. Entrava e, na copa, sentava-se numa confortável cadeira colonial, colocava o jornal em cima da mesa, arrumava os cadernos e ia direto saber quem morreu.

Numa Belo Horizonte meio provinciana ainda, era raro o dia em que ele não encontrava nas páginas daquele jornal, um morto mais ou menos conhecido. Se não era amigo, conhecia pelo menos de nome.

– Deve ser parente de Chaim, porque o sobrenome é Mitre!, dizia ele.

Meu pai, apesar de morrer de medo da morte, sempre brincava com ela. Adorava contar piada de morto e quando morria uma pessoa que não conhecia, costumava dizer:

– Morreu, morreu! Antes ele do que eu!

Ainda não cheguei aos setenta, mas acho que herdei do meu pai essas manias de colocar os cadernos em ordem e ir direto na seção de obituário do jornal. Só que ao invés do Estado de Minas, é a Folha de S.Paulo.

Tenho, como ele, uma cadernetinha com os aniversários de todos os parentes, amigos e amigas. De uns tempos pra cá, anoto também o dia da morte quando, infelizmente, isso acontece.

Confesso que, até os sessenta anos, ao sentar na cabeceira da mesa, ia direto ao “Erramos”, aquela coluninha que fica ali embaixo, na página 3. Mas agora, estou preferindo ir direto aos mortos. Não que São Paulo seja uma cidade pequena ou provinciana como aquela Beagá dos anos 60. É muito raro eu conhecer um morto da Folha, mas eu me divirto muito com os títulos, com todo respeito a eles, os mortos.

Conheço muita gente que trabalha na Folha mas não faço a menor ideia quem faz esses títulos. Não sei se você já se atentou pra isso. Mas foi lendo no caderno Cotidiano que fiquei sabendo que, nos últimos dias, morreu um crítico de cinema que amava o Vitória, um homem que amava Iêda, a aviação e o agreste potiguar, um armênio que fez do Brasil o seu lar e um fotógrafo do Pantanal que conheceu João Paulo II.

Quem faz o título do principal morto do dia, pesca uma, duas ou três informações do texto e escreve simplesmente:

Um vaqueiro empreendedor

Uma mulher independente

Agrônomo amante da literatura

Narrou a saga ferroviária no país

Iluminou o Cristo Redentor

Ortopedista renomado, viajou pelo mundo

Sim, todos esses morreram porque, mais cedo ou mais tarde, todo mundo morre mesmo. Só nos últimos dias, o editor  registrou a morte do médico erudito da avenida Angélica, de um meticuloso cozinheiro libanês, de um homem que dedicou-se ao ensino em Bauru e outro que dividia a cama com os livros. Sem contar aquele que era reverenciado pelos músicos.

Fico imaginando o dia em que o responsável pela seção de obituário da Folha morrer. Quem será que vai fazer o título? Que título?

Jornalista, trabalhava na Folha e fazia títulos

Sim, talvez.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br

[foto: Alberto Villas]

Saiba onde os famosos vão passar o carnaval

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[Crônica da semana publicada no site da revista “Carta Capital”]

http://www.cartacapital.com.br

Não é de hoje que escrevo crônicas. A primeira que foi publicada, me lembro bem, foi no jornal Versus, lá do início dos anos 1970. Era uma crônica sobre os muros grafitados de Barcelona, cidade que acabara de conhecer e estava maravilhado, de joelhos. Depois vieram muitas outras. Nos anos 1980, foi no Caderno 2 do Estadão que publicava minhas crônicas toda quarta-feira. Nos anos 1990, passei a publicar no site do programa Fantástico da Rede Globo. Quer dizer, tem décadas que toda semana tenho de ter uma ideia na cabeça com um teclado na mão.

O retorno sempre foi grande. Todo dia pipocam e-mails de leitores na minha caixa postal. Já conheço os fãs de carteirinha, aqueles que me acompanham desde que o mundo acabou. Tem os navegantes de primeira viagem que me descobriram aqui, tem os ranzinzas e tem os bem críticos. Nas últimas 109 semanas, toda sexta-feira, estou aqui ocupando esse cantinho no site da Carta Capital, o que me orgulha muito.

Já falei de tudo por aqui. Da sapa que não podia colocar os pés na água ao urso panda que há décadas está para acabar. Falei do meu tio João, da minha tia Lili, de Paris, de Budapeste, de Berlim. Já falei da minha mania de bisbilhotar conversas dos outros, da minha coleção de revistas Intervalo, das cartas de Caio F, da minha dificuldade – míope que sou – de enxergar o que é xampu e o que é condicionador no box do banheiro.

Já falei do taxista que acredita que o saldo dele é o que está escrito no extrato “disponível para saque”, do meu América Mineiro, das manias de gente velha que começo a ter, das minhas poesias juvenis, dos chinelos de Zélia Gattai e do sonho do guardador de carros Bigode de encontrar um dia a sua amada Sueli. Já falei do medo que tinha de tomar leite e comer manga, da nódoa que manchava o uniforme escolar e já falei também das coisas que sumiram do mapa. A fralda de pano, a ficha do telefone, o Crush, o Vigilante Rodoviário na TV, o mimeografo a álcool, o catálogo telefônico, o drops Dulcora, o elefantinho da Shell e a gotinha da Esso.

De vez em quando recebo um e-mail raivoso de gente que quer que eu escreva sobre política e economia. Não é o meu barato, apesar de estar sempre girando a metralhadora no Facebook contra ultradireitistas, reacionários, homofóbicos, essa gente que vive mandando você adotar um bandido, mudar-se pra Cuba ou lembrando, até hoje, dos tais dólares na cueca. Essa semana mesmo recebi um e-mail do Oscar de Oliveira, lá de Curitiba. Ele diz, raivoso: “Na semana em que uma cubana se rebelou-se contra o fracassado programa Mais Médicos, você vem falar de diarista?” E completou: “Por que você não fala do Zé Dirceu na cadeia ao invés de ficar falando de dieta para engordar da revista O Cruzeiro dos anos 50?”

Teve um que disse que sou um privilegiado por comer geleia no café da manhã, “num país onde milhões passam fome”. Outro ficou horrorizado porque eu não acredito em Duendes e um terceiro me acusou de explorar a faxineira Edna, obrigando-a a trabalhar 13 horas por dia. Pois é, achei deselegante colocar na crônica que pagava hora-extra a ela, numa época em que as empregadas não tinham férias, décimo-terceiro, INSS e nunca sonhavam em viajar de avião.

Fico aqui matutando com os meus botões. Será que deveria estar falando dos Black Blocs, dos rolezinhos nos shoppings, do Feliciano, do “mensalão”, do Produto Interno Bruto, da mídia Ninja, do beijo gay na televisão, da inflação, das manifestações nas ruas, do Mais Médicos, da morte do cinegrafista da Band ou da reacionária apresentadora do SBT?

Hoje resolvi fazer um teste. Desliguei o computador e pensei. Vou ligar novamente e quando abrir na página do UOL, vou fechar os olhos e colocar o dedo indicador na tela. O assunto que ele estiver apontando vai ser o meu assunto da semana aqui neste espaço.

Desliguei o computador, liguei novamente, esperei alguns segundos e quando vi a luminosidade vindo, fechei os olhos e coloquei o dedo em cima. Quando abri os olhos, o meu dedo estava apontando para a  manchete:

“Saiba onde os famosos vão passar o carnaval”