UMA PANDEMIA DE PALAVRAS E EXPRESSÕES

Acordou apenas um pouco tonto, mas bastou esfregar as mãos no rosto para se sentir melhor. Tomou o café da manhã e foi direto pra rede na varanda do seu apartamento ler as últimas páginas do livro De cu pra lua, as memórias de Nelsinho Motta. A mulher achou o marido um pouco pálido, mas ele se sentia bem. Foi com ele na farmácia fazer o teste rápido. Deu positivo. Surgiu assim a palavra assintomático.

Se recolheu, olhou pela janela e não viu ninguém na sua rua. Apenas um entregador do iFood esperava na calçada, teclando no seu smartphone. Um silêncio incomum naquele bairro popular e sempre apinhado de gente. Nem ônibus passava. Lockdown, pensou.

Ligou a televisão na GloboNews que informava sobre o novo vírus a cada minuto, quase vinte e quatro horas por dia. Um pouco assustado, ficou ali assistindo. Preparou a primeira dose de Anitta e tomou, sugestão da sogra. Uma mulher dizia aflita para a repórter na porta de um hospital que sua mãe de 88 anos estava sentindo falta de ar e não estava encontrando vaga em nenhum lugar. Era grupo de risco.

Duas mulheres chegaram de Uber, de branco, desceram rapidamente do automóvel preto, tiraram o álcool gel da bolsa e esfregaram nas mãos e braços. Entraram rapidamente, passaram o crachá na roleta e sumiram pelo corredor infinito. Eram da linha de frente.

O gramado do campo de futebol foi deixando de ser verde, ganhando um tablado de madeira e em seguida, placas brancas que viravam paredes. Veio o teto, a iluminação, os caminhões com os equipamentos pararam em frente ao hospital de campanha.

O homem chegou em casa e, antes de colocar os pés no capacho, deixou os sapatos no hall. Foi direto pro banheiro, onde tirou a máscara, jogou num tupperware, arrancou tudo do corpo, das meias cinzas ao cordão de ouro. Entrou debaixo do chuveiro e esfregou fortemente o corpo com água e sabão. Saiu, enxugou, tomou outro banho de álcool 70. Para abrir a porta, pegou lenços de papel e passou com lysoform. Obedeceu ao protocolo.

Da janela da área de serviço dava pra enxergar um pedacinho do centro da cidade, onde pessoas viviam em barracas de plástico azul, algumas do lado de dentro, outras do lado de fora. Eram muitas as pessoas vulneráveis.

A mulher, vinte anos mais nova que o marido, chegou dizendo que haviam fechado novamente tudo em Paris. Funcionando mesmo, só as farmácias e supermercados. Para sair na rua, era preciso um documento de autorização. Ouviu isso no jornal da CBN. Paris não era mais uma festa, mas sim uma cidade fantasma. A segunda onda havia chegado.

As frutas e os legumes que ela trouxe do sacolão, ele jogou tudo dentro do tanque, abriu a torneira e colou duas colheres de água sanitária. Esperou vinte minutos e começou a lavar, peça por peça. Bananas, laranjas, limões, mangas, morgotes, pepinos, tomates, cenouras, rabanetes. Ficou feliz em ver tudo higienizado.

Numa manhã de domingo, ele pegou um velho caderninho de anotações e escreveu: Coronavírus, Covid-19, Coronavac, Universidade de Oxford, Astrazenica, China, curva ascendente, média móvel, sintomas, número de mortos, número de casos, pessoas infectadas, respirador, cloroquina, live, home office, fase 1, Anvisa, Pfizer, colapso do sistema de saúde, alta complexidade, distanciamento social, flexibilização, aglomeração.

Colocou a caderneta na gaveta do criado e, antes de deitar, pensou com os seus botões: um dia ainda escrevo uma crônica sobre esse tal de novo normal.

O BARULHO, O CHEIRO E AS LUZES DA CERIMÔNIA DO ADEUS

Eu tinha muito medo da morte. Perder meu pai, minha mãe, ficar sozinho no mundo. A primeira pessoa que vi morta foi o meu avô, em 1968, na sala da casa dele. O cheiro de flor e vela nunca saíram de dentro do meu nariz. Acho que eram crisântemos que cobriam o corpo dele. Não gosto de crisântemos até hoje.

O meu pai também tinha medo da morte, mas brincava com ela. Trinta anos antes de nos deixar, comprou um túmulo no Parque da Colina. Escolheu bem o lote, debaixo de uma frondosa árvore, creio que uma mangueira, bem perto da cantina.

– Se não for perto do bar, meus amigos nunca irão me visitar, dizia ele.

Sabia de cor o dia da morte de todos os amigos, amigas, parentes de perto e de longe, vizinhos, de todos os funcionários do Serviço de Meteorologia.

Não gosto de ver pessoas mortas, no caixão. Vi meu pai, minha mãe, o meu sobrinho Marcelo, o Geneton Moraes Neto e a última foi Dona Georgia, uma grega, amiga do coração. Ela parecia viva e para mim continua assim.

Não quero mais ver mortos.

Muitos amigos já se foram e o que guardo deles é a lembrança da vida, das piadas que contavam, dos títulos geniais que faziam, das edições primorosas, das conversas de copo e de cruz.

Eu tinha muito medo também de ambulância, da sirene vermelha rodando, da velocidade com que ela passava desviando dos automóveis, quase capotando. Aquela camionete branca me dava pavor, me lembrava sofrimento e morte. Ficava imaginando o que se passava ali dentro daquelas quatro paredes de lata ou ferro, sei lá.

Nunca entrei numa, nem por curiosidade. Mas sei lá dentro tem uma maca, balão de oxigênio, todos os apetrechos de primeiros socorros. Imagino que cheira a álcool, acetona talvez. Eu sempre achei que quando uma ambulância passa piscando, fazendo barulho, tem alguém à morte lá dentro.

Só me vem à cabeça um ataque cardíaco, enfermeiros fazendo massagem no coração, respiração boca a boca e a aflição do trânsito de São Paulo que não anda.

Ambulância faz sempre o caminho entre a vida e a morte. Pode até não chegar ao seu destino final, como pode.

Hoje, moro em frente ao Hospital Sorocabana, na Lapa. Improvisaram trinta e seis leitos de UTI exclusivos para enfrentar o coronavírus. Daqui de cima, fico observando o movimento delas lá embaixo, que vão chegando, uma atrás da outra. Hoje não é mais ataque cardíaco, agora é um vírus.

Ontem tinham quatro estacionadas na porta, com os motores ligados. Fiquei imaginando que esperavam leito para seus pacientes.

Vejo daqui de cima pessoas que passam na calçada em frente ao hospital com a máscara no queixo ou no bolso, indiferentes ao vermelho refletindo nas folhas das árvores. De noite, no Jornal Nacional, fico sabendo das 876 mortes do dia.

É quando o medo da infância volta.

 

QUANDO UM CACHORRO VEM TRAZER UM RESPIRO NA PANDEMIA

Venho dessas famílias que a gente diz: na minha casa sempre teve cachorro. Sim, sempre teve cachorro. Foram quatro: Jolie, Tupi, Pink e Fly. Cachorros soltos dentro de casa e no terreiro, daqueles que se engasgavam comendo osso de frango no domingo depois do almoço.

Gostamos de cachorro desde o Rin-Tin-Tin, a Lassie e o Lobo.

Ainda não havia petshop, ração, brinquedinho, caminha, xampu, nada disso. Bebiam água numa lata de goiabada da Cica e iam uma vez por ano ao posto da Prefeitura pra vacinar contra a raiva. E só.

Depois de muito lutar para não ter um cachorro, na quarentena adotamos o Canela. Vira-lata, foi abandonado num Posto Ipiranga no meio da estrada. Tive logo a ideia de dar o nome a ele de Guedes. Ouvi um sonoro não de todos aqui. Seria muita humilhação para ele.

Chegou Bob e ganhou um novo nome, Millôr, que durou umas duas horas. Ficamos lembrando de nomes de cachorros e quando ele ouviu Canela, abanou o rabo e veio todo serelepe. Virou Canela imediatamente e sempre atendeu por esse nome. Acreditamos que ele era Canela desde pequenininho.

O Canela é o vira-lata mais nobre do pedaço. Senta esguio esperando eu colocar o tênis, pegar o saquinho plástico, a máscara, a coleira pra passear.

Chegou aqui sem saber o que é elevador. A porta abria e ele ficava olhando, não entrava. Agora só falta apertar o botão S1 quando saímos pra descer.

Aprendeu a não fazer xixi na garagem, sabe esperar a hora do passeio e – acredite – pede colo depois de nos acompanhar no café da manhã. Fica observando a mesa, sem sequer enfiar o focinho onde não foi chamado. A gente aqui em casa vive dizendo que se fosse fêmea chamaria Gilda, porque não existe cachorro como Canela.

Metódico, dá nove horas vai para o cômodo onde funciona o home office da Paulinha e fica esperando a hora do trabalho dela. Divide as atenções durante o dia. No final da tarde vem pro meu escritório e deita na caminha esperando a hora do petisco.

Paramos de dar ração e agora fizemos a comida dele. Descobrimos que o açougue do supermercado tem uma carne que leva o nome de retalho. É um mix de carne, pedacinhos que sobram daqui e dali na hora do corte. Do acém ao filé mignon, do patinho ao colchão duro. A comida é simples e fácil de fazer. Sem gordura, sem sal e ele ama. Abandonou a ração de vez, não suporta o cheiro. Será que criamos um monstro?

O Canela alegrou nossa vida nessa pandemia. Tem horas que ele parece o Brian da Family Guy. Dá impressão de que vai sentar na mesa conosco e discutir filosofia. Canela não morde, late só na rua e adora brincar com os outros cachorros. Se deu bem com a Shakira e a Cher, das nossas filhas. Acho que ele percebeu que estava escrevendo sobre ele nessa manhã de quinta-feira. Só acordou agora e veio abanando o rabo, feliz da vida.