AS SEIS CANÇÕES DO CÁRCERE DE UM NARCISO EM FÉRIAS

Caetano Veloso cita seis músicas no seu depoimento a Renato Terra e Ricardo Calil, sobre sua prisão em 1969, duas semanas depois do Ato Institucional número 5. No documentário Narciso em Férias, que foi aplaudido em Veneza no dia 7 de setembro, ele canta três canções e, com dor no coração e uma certa angústia, silencia sobre as outras três.

Canta Irene, a única que fez atrás das grades, quando apertou a saudade da irmã, com então 14 anos de idade. Na gravação original, que abre o disco de capa branca e que leva apenas sua assinatura, Caetano erra no início e deixa o erro no vinil: esqueci. Eu vi que você não estava com cara de quem ia cantar. Eu estava esquecido, quando me lembrei já foi em cima da hora. Ah, meu Deus… ah! Na letra, uma única vontade, a de ir embora daquele lugar: eu quero ir minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

Canta Terra, a canção que fez, alguns anos depois, e que sua memória o remeteu ao quartel do Exército. Compôs a lembrança de Dedé que levou para ele ver a revista Manchete com as fotos da Terra vista do espaço. Na verdade, um hino ao Planeta Terra: quando eu estava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias, em que apareceres inteira, porém não estava nua e sim coberta de nuvens. É em Terra que ele reconstrói os versos de Paraíba, de Luiz Gonzaga, aquela Paraíba masculino mulher macho sim senhor! Mando um abraço pra ti pequenina como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba.

Canta Hey Jude, a canção que ouvia na prisão e que lhe dava a sensação de que dias melhores viriam: Ei, Jude, não fique mal, pegue uma canção triste e torne-a melhor. Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração, então você pode começar a melhorar as coisas e sempre que você sentir dor. Ei, Jude, vá com calma, não carregue o mundo nos seus ombros

Caetano não tocou Súplica, sucesso no vozeirão de Orlando Silva, a canção que um velho comunista, companheiro de prisão pedia que ele cantasse: Aço frio de um punhal/Foi o seu adeus para mim/Não crendo na verdade, implorei, pedi/As súplicas morreram num eco em vão/Sofrendo nas paredes frias de um apartamento.

Não cantou também Onde o céu azul é mais azul, uma aquarela brasileira na voz de Francisco Alves, a canção que Caetano tem medo, medo de chorar ao ouvi-la: Eu já encontrei um dia alguém/Que me perguntou assim, iá, iá/O seu Brasil o que é que tem/O seu Brasil onde é que está?/Onde o céu azul é mais azul/E uma cruz de estrelas mostra o sul/Aí, se encontra o meu país/O meu Brasil grande, e tão feliz.

E Caetano não cantou Assum Preto, de Luiz Gonzaga, recuperada pela fatal Gal Costa, outra música que lhe causava uma tristeza profunda;

Tudo em vorta é só beleza/Sol de abril e a mata em frô/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Tarvez por ignorança/Ou mardade das pió/Furaro os óio do Assum Preto/Pra ele assim, aí, cantá mió.

Sim, as histórias voltam junto com as canções.

 

 

 

OS DIÁRIOS ACUMULADOS NOS TEMPOS DE PANDEMIA

Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar o exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O nosso Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: “mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo?” Pronto, escrevi.

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje.

Todos em casa temos coração mole, a família inteira. Pai, mãe, filhos, netos, bisnetos. Não existe a palavra insensível por aqui. Não tem como ver alguém mexendo nos sacos pretos de lixo tarde da noite e ficar impassível, cara de paisagem. O coração mole parte em dois. Nas manchetes dos jornais, vejo a euforia com o crescimento do mercado imobiliário. Somos esquerdas demais pra não pensar nas vinte e cinco mil pessoas que moram nas ruas da maior e mais rica cidade da América do Sul. Não tem como ver famílias cujo teto é o viaduto Presidente João Goulart, a marquise da Marabá, o plástico tosco e rasgado daquela que um dia foi uma barraca de camping. O fogareiro na calçada esquentando água para um macarrão, uma flor de plástico em cima de um caixote de frutas selectas, um cão dormindo. Como um argonauta, meu coração não aguenta tanta tormenta. O Doutor Christian Barnard, um dia, trocou um pelo outro, mas era coração com aorta direita e aorta esquerda, aprendi no Marista. Outro dia, o meu irmão mais velho me chamou a atenção: já pensou que o coração da gente é uma máquina que está funcionando vinte e quatro horas por dia, há mais de setenta anos? Uma hora para, não tem jeito. Já cantaram o coração bobo, o coração vagabundo, o coração balão, o coração São João. E também o coração que, não sei porque, bate feliz quando te vê.

UM BALAIO DE FRUTAS DAS QUATRO ESTAÇÕES

Ainda pequeno, eu tinha medo de maçã. Na sala de catecismo tinha um pôster na parede mostrando Eva oferecendo uma maçã ao Adão. Enquanto aprendia o Pai Nosso, a Ave Maria e a Salve Rainha, ficava com os olhos fixos naquela gravura, os dois seminus no meio do mato e uma serpente enrolada nos galhos. Tinha medo da maçã e da serpente. Depois passou. Passei a gostar das maçãs argentinas, vermelhas e cheirosas, embrulhadas num papel de seda azul, uma a uma, aquelas que um dia Caetano encontrou poesia ali. Muitos anos depois, convivia com elas diariamente. Seis horas da manhã eu estava no Mercado Central de Belo Horizonte para comprar uma, duas caixas. Elas eram embaladas bem apertadinhas e me impressionava a cor branca da madeira que vinha dos Pampas e aquele cheiro maravilhoso que se espalhava dentro da Rural Willys a caminho da Savassi, onde eu tinha um carrinho de frutas que funcionava 24 horas, no coração da Praça Diogo de Vasconcelos. Era início dos anos 1970 e foi assim que juntei dinheiro para ir-me embora do Brasil, fugir daqueles hipócritas disfarçados rondando ao redor. Vendia, além das maçãs, peras, bananas, mexericas, mangas, abacaxis, morangos e, na época do Natal, pêssegos, ameixas e uvas Niágara encaixotadas. Hoje, tantos anos depois, continuo convivendo com as maçãs. Lavando uma a uma com água e sabão e depois secando com um pano de prato as mãos úmidas de uma canção.

Fui juntando coisas, juntando, juntando e acabei criando um museu de mim mesmo. Hoje vivo rodeado de memórias e olha que só guardei as boas, nada de ruim. Tenho um gato de porcelana bordado com motivos turcos pechinchado no Grande Bazar de Istambul, como tenho um coelhinho de plástico do América Mineiro, presente do Chico Regueira. Tenho três garrafas de cerveja – Marx, Trotsky e Rosa – que acredito eu já saíram de circulação. Tenho brinquedos antigos, um disco voador de 1960, uma placa metálica na parede onde se lê: Hippies Use Side Door. Tenho um pôster do Yuri Gagarin, um rádio de 1940, um Buda comprado na Feira da Ladra em Lisboa, um azulejo pintado pelo Peticov, um altar do Universo em Desencanto com a imagem do Tim Maia, tenho coisas que nem eu mesmo acredito que tenho. Quem mais teria um elefante enferrujado que veio lá da Fundação José Saramago? Quem teria uma caixa com sete cds da Yoko Ono? Quem teria um cachorrinho verde de porcelana comprado num antiquário em Havana? Não faz muito tempo, passei uma temporada num vilarejo no interior da Grécia, onde no meu inventário constava apenas um laptop. Acordava, olhava pela janela e via o mar azul, lá embaixo. Um pé de limão siciliano no quintal e um outro de abricós carregado, na casa do vizinho. Eu não tinha bibelôs, nenhuma recordação. Além do laptop, agora estou lembrando, tinha também o livro 1968, da Ariana Fallaci, e um livrinho chamado 101 motivos para ser de esquerda, ambos em italiano. Estava vazio em Vryses e me sentia provisório ali. Hoje morro de saudade e queria viver provisório assim para o resto da vida. Vazio, mas tão bonito quanto uma obra de Carlo Benvenutto, onde se vê apenas uma cadeira, uma mesa com uma toalha de algodão e três ovos. Nada mais.

Geralmente é no domingo que lavo as frutas que chegaram do supermercado. Isso desde as águas de março, quando o vírus chegou por aqui. Nos primeiros dias deixava tudo dentro de uma bacia por uns vinte minutos, com água e algumas gotas de Hidrosteril. Depois que vi na televisão que era preciso esfregar uma a uma com água e sabão, compramos uma barra de sabão de coco e começamos a esfregar cada laranja, cada papaia, cada limão siciliano, cada manga espada, cada carambola. Esfrego pensando nas goiabas com bicho que engolia, nas jabuticabas que colhia e ia estalando na boca, uma a uma, uma bacia. Pensando no jambo cheiroso do vizinho que roubávamos, nas ameixas amarelas que, quando cresci, viraram nêspera. Nas pitangas e nas amoras que deixavam roxa a calçada da Rua Grão Mogol. Vou juntando as frutas ao lado da pia, formando numa pirâmide que me lembra vagamente as fruteiras de Paul Cezanne que certamente não lavava as frutas naquele 1900. Elas vão formando um colorido bonito predominantemente amarelo com tons de vermelho e laranja e com toque de verde da manga espada. Tão bonitas que outro dia fotografei, legendei moro num país tropical e postei no Face. Os morangos e os kiwis lavo rapidamente. Porosos não podem ficar de molho, vi também na televisão. Todo domingo é assim. Gasto parte do meu tempo lavando frutas, sentindo o cheiro do sabão de coco, mas principalmente das carambolas, as mais cheirosas.

FRAGMENTOS DE UM CONFINAMENTO SEM FIM

Há seis meses estou aqui matutando como arrumar todos esses livros na biblioteca. Já pensei em tudo. Tirar um por um, espanar, catalogar. Já pensei em separar por assunto, por ordem alfabética do autor, ordem alfabética do título. Já pensei até em eliminar alguns, doar, encadernar outros, os estropiados indispensáveis. Há seis meses penso nisso. Só penso, nunca coloquei a mão na massa. Andei bisbilhotando prateleiras que não via há muito tempo. Achei a primeira edição de Fazenda Modelo, do Chico, lá dos anos 1970. Achei o primeiro livro que li, Voo Noturno – vôo ainda com acento circunflexo – de Antoine de Saint-Exupéry, já quase desmanchando as páginas. Achei o Miséria da Filosofia, de Karl Marx, que tantas histórias guardam, motivo de crônicas e palestras Brasil afora. A coleção Encanto Radical, que começou com o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, está toda espalhada: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu, ao lado de Um Café para Sócrates, de Marc Sautet. O que Dentes ao Sol, de Ignácio de Loyola Brandão, está fazendo agarradinho ao lado dos poemas de T.S. Eliot? Já pensei em pagar uma bibliotecária pra por ordem no galinheiro. Só pensei. De vez em quando fecho os olhos e passo a mão num livro aleatório, o primeiro que me vem à vista: Ontem à noite foi Soltando os Cachorros, de Adélia Prado. Comecei a ler: Quarenta anos é demais pra uma mulher. Prefiro quarenta e dois. O Papa tá passando pito nos jesuítas; plantei um pé de samambaia chorona que não vai pra frente de jeito nenhum. Galinho garnizé é galinho à toa, atrevimento empenado. E fui lendo, e fui lendo e pensei com os meus botões: pra quê uma biblioteca organizada?

Ser jovem em 1968 foi uma das experiências mais fascinantes. Além de ser cabeludo, usar tamancos suecos, calça vermelha e casaco de general, tínhamos mil ideias na cabeça. Viver em comunidade, viver sem dinheiro, viver de amor. Viver como passarinho, andar meio desligado, não sentir os pés no chão. Líamos Erich von Daniken na certeza de que eram os deuses astronautas. Sonhávamos com Macondo ao mesmo tempo que com a guerrilha urbana, suburbana e rural. Um exemplar do Voz Operária nas mãos valia ouro, mais valia que qualquer outro jornal. Decifrávamos a guerrilha de Marighela em fascículos proibidos, guardados segredos dentro de uma caixa de papelão do extrato de tomate marca Peixe. Curtíamos o barato de ver Janis Joplin no palco e Jimi Hendrix incendiando uma guitarra. O som de Spanish Castle Magic ia e voltava enquanto o sonho era mesmo caminhar contra o vento, sem lenço, sem documento no sol de quase dezembro. Queríamos debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, plantar batatas e colher frutos. A gente não precisava de muito dinheiro, graças à Deus. Tínhamos na cabeça uma fantástica fábrica de ideias, objetivo dar uma facada certeira no capitalismo, olha o sangue, olha o sangue no chão! Mas não soubemos por ordem nisso tudo. Na parede do meu quarto, atrás da porta, escrevi em letras miúdas com uma caneta Pilot: O último capitalista que vamos dependurar será aquele que nos vendeu a corda. Entre parentes, rabisquei: Karl Marx.

Plantar uma árvore, já plantei. Um chorão que semeei no quintal da Rua Rio Verde e que virou uma frondosa árvore. Plantei também uma ameixeira na varanda do apartamento na Avenida Higienópolis e que está lá até hoje, vejo quando passo. E plantei um abacateiro na varanda do meu apartamento aqui na Lapa. Já está com mais de um metro de comprimento e minha mulher quer que eu tire ele de lá porque, com algumas folhas amarelas, ela acha que ele, no vaso, não cresce mais que isso. Tento resistir, argumentando que o abacateiro será sempre meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar. Ter um filho, já tive, quatro! Todos adultos, crescidos, os meninos estão todos sãos. Dois nasceram em Paris, dois em São Paulo. Um menino, três meninas, todos parecidos, prontos para enfrentar a vida.

Escrever um livro, já escrevi, nove! E estou escrevendo mais um. Minha obra ainda está incompleta. Trato do meu novo livro como tratava daquele chorão na Rio Verde: aguando todos os dias um pouquinho para não deixar a terra muito seca. Trato como tratava dos meus filhos, dando papinha, trocando fralda, colocando panos frios na testa nas madrugadas de febre, vendo o VHS de Óia a Onça cinquenta vezes e ensinando o que foram as Capitanias Hereditárias.

Acabo de completar setenta anos, mas, como dizem que a vida começa aos quarenta, sinto-me feliz com os meus trinta anos, com minhas árvores, meus filhos, meus livros.

 

ENQUANTO ISSO, VAMOS ESPERANDO O NOVO NORMAL

Hoje eu não vou sair de casa não. Quero preguiça, ajeitar o altar dos meus santos, raspar a parafina acumulada, renovar a vela, riscar o fósforo. Perdemos Dom Pedro Casaldáliga, perdemos Aldir Blanc, Nirlando Beirão, Moraes Moreira, Enio Moricconi, Chica Xavier, Gilles Lapouge, Antônio Bivar, Rodrigo Rodrigues e outras cem mil pessoas neste 2020, o ano que devia terminar logo. Hoje me resta ir pro sofá, pra rede, pro colchão. Molhar as plantas, catar as coconilhas escondidinhas nos galhos, passar azeite nas folhas de ficus para que elas sobrevivam brilhantes, firmes e fortes. Hoje é domingo, vou ficar distante do noticiário, ao menos uma vez na semana. É domingo aqui e já quase segunda no Vietnã. Hoje é dia de escutar o Jardim Secreto de Claudio Santoro, os cantos afro de Matheus Aleluia, hoje é dia de ouvir Hamilton de Holanda e Mestrinho interpretando Drão e o Trem das Onze na sanfona e no violão. Drão, os meninos são todos são e eu não posso ficar nem mais um minuto sem você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Se eu perder esse trem que passa agora às onze horas, só amanhã de manhã.

Sexta, sábado, domingo? Que dia da semana eu vou criar coragem e sair às ruas? Trombar nas pessoas, sentar lado a lado no ônibus junto com uma diarista justificando seu atraso pra patroa, perguntar se ele passa na Paulista, responder que horas são, tossir, espirrar, abraçar, beijar. Eu tenho medo de viver o velho normal. Entrar no elevador já cheio e lembrar daquele velho anúncio do desodorante VanEss: sempre cabe mais um. Quando vou voltar ao Itaquerão com Clarice e ouvir ela gritando bem baixinho vai, timão! Que dia vou voltar ao fogão domingo cedo pra preparar aquele couscous marroquino pros amigos, que vão chegando e chegando e enchendo a sala da minha casa? Que dia vou pegar o primeiro avião com destino a felicidade? Que dia vou voltar a Vrises, aquele povoado no interior da Grécia onde morei, onde colhi abricôs e limões sicilianos no pé? Será que ainda terei tempo de voltar a fotografar as pessoas no metrô, como faz minha amiga Patrícia Mesquita? Sabe de uma coisa? Quero espiar as bancas de revista, comer um pastel de feira, quero comer um pedaço de abacaxi nos carrinhos de frutas de Higienópolis, quero caminhar até a Livraria Martins Fontes e comprar a nova Edição do livro Admirável Mundo Novo. 

Estão matando os meninos pretos da periferia do Brasil. Não, não são invisíveis, são de carne, osso, alma e sangue escorrendo na calçada. Matando a queima-roupa, sem perguntar o nome, o numero do CPF, o nome do pai, o nome da mãe, débito ou crédito. Basta estar na rua e carregar a cor preta na pele que é suspeito número um, de crime algum. Estão ferindo o coração de mães, como aquela que guardou o bolo de aniversário do Rogério na geladeira para não derreter, para comer mais tarde, depois do parabéns. Daqui a pouco, ela vai aparecer na televisão de novo, soluçando, pedindo justiça e nada mais. Como Pedro Pedreiro, que não vem, que não vem. A nota pé, a nota seca, vai informar que os policiais foram afastados do serviço de rua e que tudo vai ser apurado. Vai nada, a gente sabe. E amanhã vai ter outro Rogério morrendo de susto, de bala ou vício, caindo sangrando na calçada esburacada de um bairro que não está no mapa. E o governador vai aparecer ao vivo e em cores dizendo que esta não é a norma da policia, que repudia o ato, prometendo apuração e julgamento dos culpados, que vão responder pelos seus atos. Vão nada! O boi já está dormindo.

Fugir pra onde? Só se for pra Pasárgada, onde sou amigo do rei. Quem sabe fugir pra Maracangalha de liforme branco? Fugir como? A pé, de carro, de ônibus, de avião, bicicleta ou caminhão? Quem sabe eu vou pegar aquele velho navio? Pensei, pensei, peguei o mapa mundi, olhei, olhei. Eu não tenho para onde ir. Quem sabe eu vou pra lua, eu mais minha muié. Lá, construir um ranchinho todo feito de sapé. Faça sol ou faça chuva eu vou fugir, nem que seja na lógica do pensamento. Olho em volta e vejo tantos bens materiais, meus discos e meus livros. Olha, pensando bem, eu só deixo a minha São Paulo no último pau de arara.

SIM, VIDAS NEGRAS IMPORTAM SIM

Julieta um dia casou-se com Manoel, dez anos mais velha que ele, de véu, grinalda e tudo. Manoel chegou com três filhas, Heloisa, Célia e Elizia, e passou a ser chamado de Manoel de Julieta. Os dois tiveram o Manoelzinho e a Conceição. Um dia Manoel trocou Julieta por uma mais novinha, mas nunca deixou de ser Manoel de Julieta. 

Havia Ângela Davis de punhos cerrados, os Panteras Negras nas ruas, Martin Luther King sonhando, Nelson Mandela na cadeia, John Lewis, Breonna Taylor, Cassius Clay, aliás Mohammed Ali, Al Hajj Malik Al-Shabazz, isto é, Malcon X. 

Julieta não sabia ler nem escrever. 

Ela passava a roupa da nossa casa, uma trouxa enorme que toda segunda-feira. Ninguém nesse mundo passava roupa tão bem como Julieta. Engomava as camisas, passava golas e colarinhos que dava dó de usar. O vinco das calças, nem se fala. Fazia questão de passar toalhas e panos de prato. Até os panos de chão, Julieta passava. 

Ela chamava ferro de passar de ferro elétrico porque havia o ferro à brasa, como o da casa dela. 

Era uma preta cem por cento que usava uma saia azul marinho batendo na canela, uma blusinha branca de pele de ovo rendada nas bordas da gola. Vinha sempre de sandália de couro carregando uma sacola da cânhamo. Era o uniforme que inventou pra si. Julieta ficava em casa até a última peça. 

Na sacola trazia mudas de taioba, folhas de hortelã e ramos de sálvia. 

Muitos sábados fomos passar a tarde na casa de Julieta, no bairro de Santa Mônica, onde ela morava. Era uma casa muito simples, caiada de verde claro, impecavelmente limpa. Julieta colocava paninhos de linho branco em cima dos móveis, protegendo os porta-retratos, um vasinho com flores de plástico, uma fruteira com bananas, laranjas e carambolas. Na parede, uma Santa Ceia e duas fotos ovais, uma dela, outra de Manoel.  

Ela usava tranças muito bem feitas e nós fomos acompanhando durante o passar dos anos, os seus cabelos embranquecendo.

Nas visitas a Julieta, ela nos servia um café muito saboroso, cheiroso, com broa de fubá, ora bolinhos de chuva, ora sequilhos que ela mesmo fazia. 

Lembro-me que Manoelzinho foi crescendo, crescendo e virou doutor numa época em que não havia rap, hip, nem hop. O rock ainda engatinhava com Bill Haley e seus cometas ao som de Rock Around the Clock. 

Agora estou procurando Conceição, a irmã de Manoelzinho.

Sim, vidas negras importam. 

[foto Guilherme Gandolfi]

FINALMENTE CHEGOU O DIA DA VACINA

Caiu numa segunda-feira, dia 29 de fevereiro de dois mil e vinte e pouco, bem no aniversário de noventa anos do Sergio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar. Minha aldeia acordou aliviada. Os mais velhos abriram as janelas, respiraram fundo deixando o vento tropical entrar com tudo. 

Máscaras aos milhões foram jogadas no lixo, no chão, dos janelões. Máscaras brancas, pretas, xadrez, do Fla, do Flu, do Hello Kit.  Soldados do Exército foram recolhendo uma a uma e jogando em caminhões verdes-olivas que saiam em comboio para os aterros sanitários.

Uma 1664 estupidamente gelada foi aberta no Café Saint Sévérin, no número 3 da Place Saint Michel, ao mesmo tempo que uma Devassa trasbordava espuma na esquina de Prudente com Vinícius de Moraes. 

O frescobol voltou, a galera ao Itaquera voltou, o grito de gol voltou. Não se ouviu mais na televisão os novos números de infectados, os novos números de mortos, se a curva subiu ou desceu. Não se falou mais em assintomáticos, em comorbidades, em covas coletivas, em respiradores, em óbitos. 

Abriram os teatros cheirando a mofo, os cinemas cheirando pipoca, as academias enferrujadas e as barbearias com ninhos de rato. Acenderam-se velas nas igrejas e catedrais, o sol iluminou os vitrais e promessas foram pagas. 

Os motoristas buzinaram, os ciclistas desviaram das poças, os pedestres chutaram latas. O galo cantou, o grilo grilou, cachorro latiu, o gato miou, o passarinho cantou, a cigarra zuniu, papagaio falou e a girafa? A girafa não fala.

Eles perderam a ceia de Natal, o panetone, aquele quentão de São João, perderam a Páscoa, coelhinhos e chocolates. Perderam o dia das mães, o dia dos pais, o dia dos mortos, o Grand Prix, perderam a São Silvestre perderam a parada LGBT+, perderam a graça.

Os velhinhos recitaram Drummond: E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?

E cantaram na chuva: Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia. Como vai proibir quando o galo insistir em cantar. Água nova brotando e a gente se amando sem parar. 

Os parques floriram, os sabiás cruzaram, os esquilos se multiplicaram, os chorões brotaram, a grama cresceu, os patos chocaram. 

As pessoas se beijaram nas ruas como se fosse esta noite a última vez. Dentro dos meus braços, os abraços foram milhões de abraços. Apertado assim, colado assim, calado assim, abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim.

Tudo isso, depois da picada.

[Obras citadas: O som dos bicos (Geraldo Amaral e Renato Richa), José (Carlos Drummond de Andrade), Besame Mucho (Consuelo Velásquez) e Chega de Saudade (Tom e Vinícius)]

[ilustração/Obra de Marc Chagall]

QUE É QUE TEM NESSA CABEÇA, IRMÃO?

 

Outono de mil novecentos e setenta e cinco. O frio entrava na minha pele, deixava roxa as pontas dos meus dedos, vermelho o meu nariz. O dia não tinha ainda amanhecido e eu apressava os passos nas pedrinhas do Jardin duLuxembourg, rumo à Faculdade de Filosofia. As árvores uniformes balançavam ao ritmo do Bolshoi, derrubando as últimas folhas secas, tecendo um tapete no chão, onde as pombas encolhidas se protegiam. Eu passava fazendo barulho com os meus tamancos suecos, enquanto os esquilos não estavam nem aí.

Walter Franco tinha acabado de chegar nas minhas mãos como um revolver, sem acento. Assim em letras minúsculas, caixa baixa como dizem hoje em dia, embalado entre duas pranchas de isopor, embrulhado num papel kraft transbordando de selos de jacarés do Pantanal, ariranhas, embaúbas e buritis.

Saigon rendera aos comunistas, Jacqueline Onassis, ex-Kennedy, tinha ficado sem seu Aristóteles, havíamos perdido o cronista Arnold Tonybee, o cantor Paul Robeson e o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, terra da garoa que eu nem conhecia ainda. Ficamos livres de Francisco Franco, enquanto os libaneses davam adeus às armas.

O céu de novembro já era permanentemente cinza, quase chumbo, e as fotografias que fazia quase que diariamente dos gramados campos de lá, já não eram tão verdes, tão lindos como os da canção do exílio. A revelação mostrava uma Paris quase sem cor. O pacote que retirara no correio antes de partir ao estudo de Heidegger só foi aberto no intervalo, depois de uma aula de duas horas do professor Pierre Albert sobre a imprensa dos países da cortina de ferro.

Retirei um copo de chocolate quente e sentei num banco de madeira bem em frente à máquina. O chocolate estava pelando, coloquei o copo em cima da madeira sem verniz e rasguei o papel kraft. O disco chegou intacto e o primeiro impacto foi ver Walter Franco, visto assim de frente, de John Lennon na capa, como estivesse atravessando uma nossa Abbey Road. Revólver ou revolver? Decifra-me.

Tantos anos longe, lembrava-me apenas vagamente de um Walter Franco em imagens em preto e branco na tela de uma televisão GE que pegava mal. Ele sentado no chão declamando Cabeça no Festival Internacional da Canção. Sua voz doce abafada por um festival de vaias que vinham de todos os cantos. Bem zen, ele parecia se lixar.

“Que que tem nessa cabeça, irmão, saiba que ela pode explodir.”

Voltei pra casa feliz da vida, eu que já tinha Smetak, Alfaiate, Wanderley e agora Franco. Antes mesmo de esquentar na frigideira o arroz com carne moída e milho, coloquei o vinil na vitrola e ouvi cada canção.

Feito gente, Eternamente, Mamãe d’Água, Partir do Alto, 1 Pensamento, Toque Frágil, Nothing, Arte e Manha, Apesar de tudo é muito Leve, Cachorro Babucho, Bumbo do Mundo, Pirâmides e Cena Maravilhosa.

Guardei pra mim versos e trocadilhos, depois de escutar seis vezes as composições. Descobri que o sorriso do cachorro está no rabo, que amei como pude, o éter na mente, Iara, eu te amo muito mais agora é tarde eu vou dormir e nada mais.

“Nothing

To see

Nothing

To do

Nothing

Today

About me

I’m not

Happy now

I’m not

Sad

I’m just

Nothing

Now

Looking

To the empty

Space.”

Até o meu inglês ruim era capaz de decifrar. Walter Franco foi a minha trilha sonora durante todos aqueles anos longe daqui. Ninava meus filhos, lavava pratos, cuidava de crianças, construía estradas, distribuía panfletos, caminhava pelas ruas, ruelas e pelas tabelas com seus mantras dentro da minha cabeça, pra não explodir.

“Qual é a sua menina do olho

Meia-lua na esquina do outro

Meia-lua na esquina do ouro

É sua menina do olho

Onde é uma bruxa e um bruxo

Late um cachorro babucho

Late um cachorro babucho

Onde é uma bruxa e um bruxo.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

TEREMOS SAUDADE DE QUÊ?

Pode parecer, mas não sou tão nostálgico assim, aquele que vive remexendo o passado, procurando relíquias no fundo do baú, encontrando bilhetinhos de amor cujo perfume sumiu com o tempo. Sinto saudade, de vez em quando apenas.

Saudade dos Beatles em cima do telhado cantando Let It Be, saudade do Cine Pathé, da Mesbla, saudade do disco voador da Estrela, saudade do pirulito de chocolate da Kibon, saudade dos soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy.

Sinto saudade do cachorrão do Ted’s, sinto saudade do milk-shake do Xodó, sinto saudade da Livraria Van Damme, da coxinha da Torre Eiffel, da Padaria Savassi, do suco Yuki, dos fascículos da História da Música Popular Brasileira dependurados numa banca de jornal na Rua da Bahia. Sinto saudade de Belo Horizonte.

De vez em quando sinto saudade do lança-perfume, da caneta Parker 51, da tinta Super Kink Azul Real Lavável, do travel cheque, do sabonete Gessy e da colônia Pinho Campos do Jordão.

Sinto saudade do Frevo número 2: O Recife tá longe/A saudade é tão grande/Eu até me embaraço/Parece que eu vejo/O Haroldo Matias no passo/Valfrido e Cebola, Colasso/Recife tá perto de mim/Saudade que eu tenho/São maracatus retardados/Que voltam pra casa cansados/Com seus estandartes pro ar.

Sinto saudades mais recentes também. Sinto saudade da Fotóptica, da Videolocadora 2001, do envelope verde e amarelo, de rebobinar fita K-7 com caneta Bic, dos cards do chocolate Surpresa e do Orkut.

Dizem que a palavra saudade só existe em português. Saudade daqui, de Portugal, de Cabo Verde e Macao. Uma saudade danada, eu sinto da rapadura da Fazenda do Sertão, da língua com ervilhas frescas da Vó Romilda, da couve-flor empanada da minha mãe, do bife à caçarola do meu pai, do Mandiopã, do Tenente Rip Masters, do sargento O’Hara, do cabo Rusty, do Rin-Tin-Tin e do Guarapan.

Teremos saudade de que no futuro? Do WhatsApp, do Instagram, do Facebook, do Twitter, dos emojis, do kkk, do rsrsrs, do blz, do coraçãozinho vermelho ou roxo, da mãozinha indicando joia ou batendo palminha?

Será que um dia sentiremos saudade do Tiago Leifert apresentando o The Voice Brasil, do Luciano Huck consertando uma lata-velha, do Se Joga, de todo mundo falando legado, do Wesley Safadão cantando Na cama que eu paguei?

Será que a palavra saudade vai existir no futuro? Será que vamos ouvir tem dias que eu morro de saudade da bolinha colorida rodando no meu computador ou tem dias que eu morro de saudade daquela vozinha do telemarketing? Será que alguém vai sentir saudade do Galvão Bueno, da Joice Hasselmann, do véio da Havan ou do Faustão?

Não! A saudade é apenas uma dor pungente, a saudade é uma coisa que mata a gente, morena.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O QUE VOCÊ LEVA NAS MÃOS E OUTRAS HISTÓRIAS

1.
Olhando assim pela janela do carro, do ônibus, do apartamento, andando pela calçada quase sempre esburacada, sentado na mesa de um bar tomando uma cerveja, percebia que cada pessoa que passava, levava alguma coisa nas mãos.

Homens levavam pacotes, pastas, saquinhos, embrulhos grandes e pequenos. Mulheres basicamente bolsas de couro ou imitando couro e sacolas de papel ou plástico. O que esses homens e essas mulheres levam tanto, pra lá e pra cá? Não via uma viva alma nas ruas com as mãos abanando.

Daí surgiu uma ideia de pauta para o telejornal que fazíamos todo final da noite. Na reunião diária, a mais democrática da história do jornalismo, todos participavam: editores, redatores, produtores, contínuos, o cara do café, a secretária, a faxineira e quem mais aparecesse. Todos davam sugestões, pitacos e o telejornal acabava ficando pronto.

 Apresentado por Lillian Witte Fibe, o Jornal do SBT muitas vezes batia o da Globo. No início, não foi fácil. Lillian vinha da Vênus Platinada, mais precisamente do Planeta Economia e gostava de falar de debêntures, do índice Nasdaq, da Selic, da inflação, do overnight, da cotação do dólar e do ouro. Lillian não distinguia o funk do rap, nem o rap do rock. Não sabia quem era o Alceu Valença de Coração Bobo ou Geraldo Azevedo de Dia Branco, tampouco o Zé Ramalho de Vida de Gado.

A pauta foi fechada e a repórter foi pra rua perguntar o que as pessoas estavam levando nas mãos, dentro da bolsa, da pasta, do embrulho, do saquinho de plástico. O resultado foi isso aqui, ô ô, um pedacinho do Brasil.

Encontramos gente levando muda de jabuticabeira da casa da mãe, documentos para reconhecer firma, resultados de exames médicos, um jeans pra dar bainha, umas comprinhas de supermercado, um macaco Murphy pro filho e, finalmente um homem magro que fez questão de rasgar o pacote aos poucos e ir mostrando para a câmara o que tinha lá dentro: uma gaiola dourada para colocar o seu curió.

2.
O forte do nosso telejornal era o comportamento. O sucesso da matéria mostrando o que as pessoas estavam levando nas mãos foi tão grande que tivemos uma outra ideia de pauta. Num mundo ainda sem Spotify, a onda era o walkman. As pessoas começaram a usar fone de ouvido e nós fomos procurar saber o que elas estavam ouvindo no meio da rua.

Microfone do SBT na mão, a pergunta do repórter era curta e grossa: O que você está ouvindo? Passado o susto, ninguém recusou em responder: curso de inglês, Fagner cantando Borbulhas de Amor, Gabriel, o Pensador cantando o rap Tô Feliz, matei o presidente, Fernanda Abreu, Rio 40 graus e os Engenheiros do Havaí, Muros e grades.

Estou ouvindo November Rain, com Guns N’Roses, Make It Happen, com Mariah Carey, Remember the time, com Michael Jackson. Estou escutando as Lições de Sabedoria, de um mestre da seita Seicho-no-Ie.

A matéria foi pro ar e, de novo, outro sucesso de público e crítica. O editor ilustrou cada música com trechos de videoclipes. Era assim que chamávamos, na era da MTV. Lilian Witte Fibe voltava com cara de assustada depois da exibição dessas matérias e comentava: Só mesmo o Jornal do SBT!

3.
Para onde você está indo? Essa foi a nossa terceira e última reportagem da série. O objetivo era espalhar três repórteres pelos cantos da maior cidade da América do Sul e perguntar para cada um: Para onde você está indo?

Para onde será que estava indo essa multidão às oito e pouco da manhã? Consertar um vazamento na Casa Verde. Pro trabalho. Pro supermercado. Pra escola. Fazer uma entrevista de trabalho. Pra padaria tomar café. Pra farmácia comprar absorvente. Pra uma obra no Itaim, onde estou pintando um apartamento.

Aquela imagem acelerada da multidão correndo pelo Viaduto do Chá, com uma música de Tom Zé ao fundo, impressionava. São oito milhões de habitantes/De todo canto e Nação/Que se agridem cortesmente/Correndo a todo vapor/E amando com todo ódio/Se odeiam com todo amor.

O último entrevistado foi um motorista musculoso da linha Cohab Adventista, que fechou a série respondendo: Estou indo pro ponto final.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DESCONFIO QUE ESTOU FICANDO MEIO VELHO

Por trabalhar com uma equipe muito jovem, que não viveu o mundo que vivi, fico achando que ninguém se lembra de nada.

– Sabe o amigo da Onça?

– Lembra do Renault Gordini?

– E do Vigilante Rodoviário?

Até os Beatles, eu pergunto se meus colegas de trabalho conhecem. Beirando os setenta anos, começo a desconfiar de que estou ficando velho, que preciso explicar para as pessoas que Arthur da Costa e Silva foi um ditador feroz, que John Phillips era casado com Holly Michelle Guillian, do The Mamas & the Papas, Didi foi o inventor da folha-seca e que o Toddy não era instantâneo.

Mania de velho.

Quando nasci, o escritor checo Franz Kafka já tinha morrido havia vinte e quatro anos e nem por isso eu não sei quem foi o autor de O Processo, O Castelo, O Desaparecido e A Metamorfose. “Estou velho, mas gosto de viajar”, já dizia Arnaldo Dias Baptista, aos vinte e sete anos de idade.

Que mania é essa de achar que o passado é só meu, do Humberto Werneck, do Fernando Morais, do Ricardo Kotscho e do Nirlando Beirão? Claro que a juventude sabe quem foi John, quem foi Paul, George e Ringo e cantarolou Yesterdayum dia. Como nós sabemos quem foi Ataulfo Alves, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo e cantarolamos Com que roupa? um dia.

Perdi a noção do tempo.

Outro dia perguntei para minha filha se ela chegou a ir em algum show do Cazuza. Assustada, ela respondeu:

– Pai, quando eu nasci o Cazuza já tinha morrido.

O tempo passa, o tempo voa e a Poupança Bamerindus acabou.

A ditadura militar, pra mim, é como se tivesse acontecido ontem. Quem não se lembra dos estudantes levando cacetada da polícia na Avenida Afonso Pena? Fugindo dos jatos d’água e gritando “yankees, go home e morte aos gorilas ?

Maio de 68 parece que foi ontem, tipo Maio 18, mesmo tendo passado mais de cinquenta anos.

– Isso a gente colava com goma arábica!

– Goma o quê?, espantou-se o jovem que trabalha na minha frente.

Aí começo a explicar não somente o que é goma arábica, mas o que é chiclete Ping-pong, Mirinda morango, simca chambord, as moças do sabonete Araxá e as estampas do Eucalol.

Ser velho é ainda preencher um cheque, fazer sinal pro táxi parar na rua, digitar com dois dedos no celular, discutir com o Waze, mandar um WhatsApp pra filha dizendo: “Filha, você esqueceu o seu celular em casa”.

Será que alguém ainda lembra do sabonete Vale Quanto Pesa, da vitrola três em um, do tigre da Esso, dos maiôs Catalina, da fotonovela, das alpargatas Sete Vidas?

Será que alguém sentiu o suingue de Henri Salvador, já seguiu a novela de Dona Canô, já riu a risada de Andy Warhol ou amou a elegância sutil de Bobô?

E o pinguim em cima da geladeira, a zebrinha no Fantástico, o Bombril na antena da TV e a plaquinha “não corra papai”no painel da Rural Willys? Será que alguém sabe o que eu estou falando?

Minha mulher nunca viu o Garrincha jogando, o Mohamed Ali lutando, o Fittipaldi correndo, a Maria Esther Bueno sacando, o Sergio Cardoso atuando e o Altemar Dutra cantando.

Piso em ovos quando vou contar um caso lá de Minas Gerais. Faço um esforço danado, mas de vez em quando solto uma rádio patrulha, uma abreugrafia, um slide, um creme rinse. E quando eu digo que achei o filme um abacaxi, todos assustam.

– Abacaxi? Como assim?
[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
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QUER ME ABORRECER, É TOCAR NESSE ASSUNTO

Nos anos dourados do Jornal da Tarde, muitas histórias surgiram. Histórias que entraram para o folclore do jornalismo. Algumas reais, outras inventadas, aumentadas, editadas. Eu invejo meus amigos – e são muitos – que viveram, na redação, a melhor fase de suas vidas.

O JT era criativo, divertido, animado, inteligente. Pelo menos imagino eu, pelas histórias que me contam e são muitas. Morro de inveja de não ter vivido ali do lado esquerdo daquele corredor, mesmo me divertindo muito do lado direito, no Caderno 2, alguns anos depois.

A última do Jornal da Tarde, soube na semana passada, contada por um dos integrantes daquela redação de bambas.

Ele me contou que um repórter começou a trabalhar no jornal, um mês de experiência. Não decolou, não pegou o espírito da coisa. No trigésimo dia, seu chefe o chamou em sua sala e fez aquele comunicado que ninguém gosta de fazer: “Olha, sinto muito, mas você não se encaixou no nosso espírito, no nosso modus vivendi e, sendo assim, você não vai ser contratado. Amanhã, não precisa mais vir”.

O repórter iniciante baixou a cabeça, saiu da sala e terminou a matéria que estrava escrevendo, faltando apenas o último parágrafo. Tek tek tek… bateu nas pretinhas as últimas palavras, gritou desce! E foi-se embora, sem esvaziar as gavetas.

No dia seguinte, por volta de meio-dia, hora que começava a dar expediente, o demitido chegou, tomou um cafezinho no corredor, entrou na redação, sentou-se no lugar que sempre costumava trabalhar e começou a datilografar um texto. Sete da noite, gritou desce e foi-se embora.

No segundo dia, a mesma coisa. A redação olhava meio desconfiada, meio assustada, aquele demitido trabalhando. Ninguém tinha coragem de dizer ai pra ele.

Até que no terceiro dia, incomodado com sua presença na redação, sabendo que o RH já tinha sido avisado e que ele já não estava mais recebendo o seu salário, o chefe, pisando em ovos, resolveu ir falar com ele.

– Olha, sabe aquela conversa que tivemos no início da semana, na minha sala?

O demitido olhou para o chefe, ou ex-chefe, e disse:

– Quer me aborrecer, é tocar nesse assunto!

A frase entrou para a história e assim que chegou aos meus ouvidos, pensei:

1- Quer me aborrecer, é atender o telefone e ouvir: Olá! Aqui é o Moacir Franco!

2- Quer me aborrecer, é lembrar que amanhã cedo tenho dentista.

3- Quer me aborrecer, é chegar na sala de cinema e o filme já começou.

4- Quer me aborrecer, é ligar o computador e aquela bolinha colorida ficar rodando eternamente.

5- Quer me aborrecer, é chegar no ponto do ônibus e ver que ele acabou de passar.

6- Quer me aborrecer, é preparar uma caipirinha, abrir a geladeira e ver que o gelo acabou.

7- Quer me aborrecer, é a água esfriar no meio do banho.

8- Quer me aborrecer, é bater um prego na parede e sentir que é concreto.

9- Quer me aborrecer, é o cara da Net pedir pra desligar tudo na tomada.

10- Quer me aborrecer, é a luz acabar bem na hora da disputa do pênalti,

11- Quer me aborrecer, é derrubar café na camisa, segundos antes de sair pro trabalho.

12- Quer me aborrecer, é ver o celular cair no chão e espatifar a tela.

13- Quer me aborrecer, é abrir o congelador seco por um Haägen-Dasz e ver que é caldo de risoto congelado.

14- Quer me aborrecer, é acabar a tinta da impressora no meio da impressão.

15- Quer me aborrecer, é escrever uma crônica e não saber que fim dar a ela.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU ENCONTRO COM OS ÍNDIOS DA TRIBO WAIÄPI

Quando o avião da Varig abriu as portas no Aeroporto Alberto Alcolumbre, em Macapá, foi como se tivesse aberto a porta do forno da minha cozinha. Veio aquele calor lá do Norte, de baixo pra cima, contagiante.

Depois de descer os degraus, a camiseta já mostrava pontos de suor aqui e ali. O céu limpo não anunciava uma nuvem sequer. Todo azul, um azul bem de lá.

Uma van da Fundação Konrad Adenauer Stiftung estava me esperando debaixo de uma árvore lindíssima, jeito de baobá. Em poucos minutos já estava no hotel, uma construção de madeira rústica, com vista pro Rio Amazonas, quase mar.

Curioso pensar que aquele mundo de água é do mesmo rio que passava na minha vida, durante a temporada que morei em Manaus, trabalhando pro Canal 25.

Konrad Adenauer Stiftung foi o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, de uma então Alemanha Ocidental, e que hoje da nome a uma fundação, a que me trouxe até aqui.

No dia seguinte, na mesma van, pegamos uma estrada de terra, cheia de paus, pedras e pó e fomos seguindo. Mais um trecho de trem, a viagem que parecia não ter fim até que, finalmente, chegarmos à aldeia dos índios Waiäpi.

A tribo costuma passar os invernos nas aldeias da Funai, onde há posto de saúde, enfermarias, escolas e a casa dos missionários. No verão, vivem seus dias de índio na floresta, temporada de caça e pesca.

Com olhares profundos, curiosos e visivelmente assustados, os índios pareciam nos esperar. Não abriam a boca, apenas observavam cada passo que dávamos naquela poeira amarelada.

Era início de verão e as terras abundantes acolhiam pés de macaxeira, cana, cará, inhame, pupunha e bananas com fartura. Experimentei a cana doce e a banana da terra defumada.

Ali naquela aldeia havia pouco menos de cinquenta índios. O primeiro contato que tiveram com a civilização foi em 1973. O português deles ainda é ruim, mas entendo, alguns segundos depois que falam.

Um índio aponta para a plantação e me explica que só de macaxeira, eles plantam doze variedades.

– Se a praga chega e ataca uma espécie, temos ainda outras onze.

Sábios.

– O peixe aqui é farto. Já na brasa, diz outro.

Vejo crianças correndo atrás de um bicho com jeitão de tatu, não sei se é tatu, e penso na canção de Rita Lee.

Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio/Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo/Ser um bicho preguiça e espantar turista/E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol.

O sol arde minhas costas e a essa altura, fim de tarde, já estou sem camisa e com um risco de urucum no rosto vermelho.

Os Waiäpi são vermelhos.

Passei o dia ali, ouvindo histórias e contando as minhas. Antes do anoitecer, teve macaxeira, inhame, peixe e dança.

Tem dias na vida que a gente não esquece nunca. O meu encontro com os Waiäpi faz anos e eu ainda me lembro perfeitamente da van indo embora e eu olhando pra trás, cantarolando, esperando voltar um dia.

Baila comigo, como se baila na tribo/Baila comigo, lá no meu esconderijo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CRÔNICA DE BOLSO

A primeira carteira de dinheiro que ganhei foi aos 16 anos, presente de aniversário da minha madrinha, Tia Celinha, a tia rica. Era uma carteira de couro marrom, com divisórias em cetim e lugar para colocar, além de dinheiro, a carteira de identidade e duas fotos 3×4.

A carteira que ganhei foi comprada numa loja na Rue du Faubourg Saint-Honoré, rua chique de Paris, onde minha tia passava as primaveras porque odiava o frio europeu e o calor do verão carioca. Gente fina, minha madrinha, era outra coisa.

Fiquei orgulhoso com aquele presente que veio embalado numa caixinha forrada com papel de seda, cheirando a incenso fino, tarde de outono debaixo de uma figueira, que só tem na Nature & Découverte, no Les Halles.

A primeira coisa que fiz foi ir ao Armazém do Chaim trocar minha mesada por um monte de notas de 10 cruzeiros, aquela do Getúlio. Queria minha carteira cheia de dinheiro, como a do meu pai.

A segunda coisa foi preencher aqueles dois espaços para fotos. Em um, coloquei a minha 3×4 que fiz no Zatz e, no outro, enfiei a foto de Teresa, minha primeira namorada, um 3×4 que ela me enviou numa carta de amor.

Vou explicar a carteira do meu pai. Era a carteira mais gorda que existia, nunca vi igual. Num tempo em que não havia cartão de crédito, cartão de débito, cartões de plástico, meu pai gostava era de dinheiro vivo.

Todo dia primeiro, ele ia ao Banco do Brasil e trazia pra casa o seu ordenado. Parte dele entregava para minha mãe, que ia colocando tudo separadinho dentro dos envelopes que ele escrevia com normógrafo e tinta nanquim: Luz, Gás, Telefônica, Mercado, Passadeira, Padaria, Médico, Colégio Marista, Colégio Sion e Imprevistos.

Uma parte do ordenado recheava sua carteira, que trazia também a carteira de identidade, a de motorista, uma foto da esposa, minha mãe, e dos cinco filhos, meus irmãos. Além de uma nota de 1 dólar dobradinha, pra dar sorte, um santinho de Santo Expedito, uma novena de Nhá Chica e um bilhete da Federal.

A carteira de Carlos Drummond de Andrade, mineiro, era parecida com a do meu pai, de couro, gorda, recheada. Nela, ele guardava um bilhete escrito à mão que dizia assim:

Recomendações de mamãe:

  1. Não guardar ódio de ninguém
  2. Compadecer sempre dos pobres
  3. Calar sobre os defeitos dos outros

Era um tempo em que o biólogo Paulo Vanzolini cantava “Praça Clóvis” no auto-falante da praça da Igreja de Santa Rita, em Cataguases:

Na Praça Clóvis/Minha carteira foi batida/Tinha 25 cruzeiros e seu retrato/25 francamente achei barato/Pra me livrar daquele atraso de vida/25 francamente foi de graça. 

No dia seguinte ao meu aniversário de 16 anos, fiquei planejando como organizar minha carteira. Além dos 3×4 meu, o de Teresa e das notas de dez cruzeiros, arrumei ali a carteira de identidade, a carteirinha do Clube Albert Scharlé, e uma nota de 1 dólar, dobradinha, como a do meu pai.

Sinto que as carteiras gordas, recheadas, cheias de dinheiro, estão sumindo do mapa. Meus amigos não andam mais com dinheiro vivo no bolso porque têm medo de morrer num assalto.

Hoje, as carteiras são fininhas e têm basicamente plástico: a carteira de motorista, o RG, o cartão Visa, o Mastercard, o do Bradesco, o cartão do aposentado, o cartão do idoso, o do INSS, o cartão do Prevent Senior, o de cliente preferencial do Ibis e o cartão de milhas da Gol, porque viajar no tempo é preciso.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A DAYSE DO ALMOXARIFADO

Eram seis. A turma subiu animada no ônibus Vila Anastácio, quase em frente ao Oba Hortifruti, na Avenida Angélica. Em princípio, achei que eram estudantes sextando, voltando pra casa depois de uma semana de faculdade. Mas não.

Pelo papo alegre, logo percebi que a idade, entre 24 e 27 anos, não batia muito com a idade de estudantes. Fiquei logo sabendo o nome de cada um: Maria Eduarda, a Duda, Gisela, a Gi, a Vitória, o Mateus, o Fabio e o Du, provavelmente Eduardo.

A primeira frase que ouvi foi: “Então segunda a gente pergunta pra Dayse do Almoxarifado”. Achei que a palavra almoxarifado tinha sumido do mapa da juventude, sendo substituída por estoque. Mas não.

Eles conversavam sem parar e as palavras se misturavam em línguas como que de fogo. Eles estavam felizes e comentavam o dia que estava acabando:

– Meu, e aquela cliente da Duda que chegou com a tela toda detonada querendo trocar, de graça!

E o véio que o Fabio atendeu teimando que estava na garantia, mas não tinha nem a nota fiscal. E aí, Fabio?

– Sei lá, cara!

 Comecei a desconfiar que trabalhavam em alguma loja de conserto de celulares, computadores, coisa assim. Tipo estagiários, provavelmente.

Tudo virava assunto para aquela turma que se equilibrava de pé no ônibus Vila Anastácio, com as mochilas no chão, apesar de uns quatro lugares vazios.

Uma picape preta com o som estridente parou bem ao lado do ônibus esperando o sinal abrir e mereceu um comentário da Gi.

– Essa música é da hora!

Gi começou a se balançar, simulando uma dança qualquer. Ninguém deu muita bola e o assunto voltou ao trabalho.

– Aquele com capa rosa? É maior caro, meu!

– Mas é o que mais vende.

– Já vendi três, disse Mateus.

Inquietos, eles se balançavam pisando bem na junção da sanfona do ônibus, achando graça quando um quase caia, rindo de tudo.

– De repente, a gente podia rangar lá em casa. Tem bacon na geladeira e um pacote de macarrão, disse Fabio.

– Tem molho?

– Não. A gente passa no Dia e compra.

– E queijo ralado?

– Ah, cara, aí tá querendo demais.

Quando entramos na Rua Guaicurus, houve um grande zunzunzun.

– Vamos descer onde?

– Antes da Estação Ciência, depois ele só para pra lá do Mercado.

– Ele não para na Estação Ciência?

– O Vila Anastácio, não.

No segundo ponto da Guaicurus, um vendedor entrou pela porta do fundo, depois de acenar pro motorista, que deu o ok. Ele trazia nas mãos dois pacotes de Mentos de frutas. Se escorou na catraca e fez um pequeno discurso:

– Boa noite a todos! Estou sem trabalho há dois anos e vendo essas balas pra sobreviver. Quem puder me ajudar com dois reais, leva uma caixinha. Deus abençoe a todos.

Os três primeiros passageiros abordados não quiseram comprar, um virou a cara e dois fizeram sinal negativo com o dedo. Foi caminhando entre os passageiros até que chegou na sanfona do ônibus onde estava a turma. Eles começaram a catar as moedas nos bolsos e nas mochilas. Era preciso inteirar dois reais aqui, dois ali. Todos queriam Mentos.

Três compraram, o que deixou o vendedor feliz e mais falante: Muito obrigado! Deus lhe pague! Obrigado! Obrigado! Valeu!

– Vocês são estudantes? Perguntou o vendedor.

– A gente trabalha na Claro! Saiu quase em coro.

Quase chegando, fiquei sabendo onde a Gi, a Duda, o Mateus, o Fabio, o Du e a Vitória trabalhavam. Desci um ponto antes deles, que seguiram Guaicurus afora.

Fui caminhando pra casa pensando que essa viagem daria uma crônica, e me perguntando:

O que será que eles vão perguntar pra Dayse do Almoxarifado, na segunda-feira, quando chegarem na Claro?

 

AMNÉSIA

“O Waze é um nome feio/Mas é o melhor meio/De se chegar.” Gilberto Gil

A minha mãe sabia o número do telefone de todo mundo. De suas irmãs, de uma tia torta, dos meus avós, dos vizinhos, o telefone da repartição do meu pai, do Colégio Marista, do Colégio Sion, do Armazém Colombo, da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, do cara que consertava a máquina de lavar roupas Bendix.

– Qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4767

– Qual é o telefone da Dona Celuta costureira?

– 2-6791

– E do meu avô?

– 2-3398

Está certo que os números eram somente cinco, mas ela respondia na lata, como se estive com um catálogo telefônico nas mãos.

Ninguém dizia que minha mãe tinha uma memória de elefante, mas tinha. Sabia o número de seu Alceu taxista, de seu Valdivino alfaiate, de dona Olímpia que fazia balas delícia, do doutor Aldo, nosso médico, do Depósito de Águas São Lourenço e de Dona Elvira, que fazia salgadinhos para as festas. Era só perguntar que ela dizia.

Hoje, se tirar o celular das mãos das pessoas, ninguém mais sabe o telefone de ninguém. Já fui vítima de roubo de iPhone e fiquei num mato sem cachorro. Não sabia o número do telefone da minha casa, da minha mulher, de nenhum dos quatro filhos.

Lembrei da minha mãe que sabia o telefone da Rádio Patrulha, do Corpo de Bombeiros e da Ambulância, que chamávamos de Assistência. Minha mãe era incrível.

Hoje, deixamos a memória de lado. Não é preciso saber mais número algum, nem mesmo a tabuada. Outro dia eu dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos e a caixa do supermercado teimou que tinha de voltar dezesseis e setecentos. E eu achando quer dezessete e setecentos.

Até dois mais dois, as pessoas colocam na calculadora do celular pra saber se são quatro ou cinco.

Com o endereço é a mesma coisa. Você sabe onde mora o seu maior amigo, sua maior amiga, seu colega de trabalho? Saber você pode até saber, mas qual é o nome da rua, o número da casa, do apartamento? E o CEP?

De repente, já perceberam? Os taxistas tiveram, todos eles, um surto de amnésia. Peguei um táxi na porta do Sírio-Libanês e pedi pra ir até a Paulista, que é praticamente na esquina. O motorista não sabia o caminho. Perguntou o número e já abriu o Waze. Quando chegou na Paulista, eu pedi pra seguir até a Doutor Arnaldo, e ele titubeou, como se fosse um meme do John Travolta: É pra lá ou pra cá?

Como ninguém mais escreve carta ou manda convite de papel, pra que saber o endereço das pessoas? Nem mesmo o e-mail a gente precisa guardar. É só começar a escrever o nome na tela que ele se forma rapidinho.

Andando pela Rua Aurélia, na Lapa, perto do Pão de Açúcar, eu achei um papel cor de rosa jogado no chão. Achei que era uma listinha de supermercado, que adoro ver, peguei. Não era, era uma espécie de Waze pré-histórico, que dizia o seguinte:

Pega o ônibus Terminal Grajaú.

Pega o trem sentido Osasco.

Descer: Estação Santo Amaro.

Pega o metrô Linha 5 Lilás.

Descer Estação Chácara Klabin.

Pega o metrô linha 2 Verde sentido Vila Madalena.

Descer: Vila Madalena.

Pega ônibus Hospital das Clínicas.

4 paradas.

Descer: Rua Aurélia

Se eu encontrei o papelzinho cor de rosa jogado numa calçada da Rua Aurélia, é um bom sinal, certeza de que a pessoa chegou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU BRASIL BRASILEIRO

O que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. E a corrupção continua solta por aí

1 –

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo que Brasil ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os lares, de leste a oeste, de norte a sul, como se fosse a galinha azul. Durante meses, assistimos a curtos depoimentos de brasileiros, vindos de lugares que nem imaginávamos existir.

Pintópolis, MG

Carrasco Bonito, TO

Anta Gorda, RS

Passa e Fica, RN

Em meio a um bombardeio diário de noticias e fake news, em todos os telejornais, havia informações de uma conexão entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”.

Em oitenta por cento das respostas, ouvíamos brasileiros, em movieselfies gravados por eles mesmos, com os celulares na horizontal, pedindo o fim da corrupção. Era comum também lamentos de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, dos cadeirantes, enfim, do seu povo.Agora, quase um ano depois, o que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. A corrupção continua solta por aí, escondida debaixo do tapete ou, quem sabe, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, sem um pedaço de esparadrapo e sem médicos, já que os cubanos se recusaram a fazer parte de um governo com um pé no fascismo, deixando milhares e milhares de brasileiros nas mãos de Bolsonaro, ao Deus dará.

O lixo está nas ruas e não há nenhum projeto de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo nas filas, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando.

Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos mesmos brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E aí, está satisfeito?”


2 –

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada.

Fechada por quê?, perguntou uma senhora. Manifestação! Greve!, respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Com o nosso dinheiro! Eles não têm o que fazer?

Todos tinham suas opiniões formadas, mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve, nem queria saber. Um último arriscou dizer: “Por que não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angélica a pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava normalmente. Os resmungos continuaram por algum tempo.

Naquela noite, todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava.

O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso aí. Não sei se entenderiam. Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia.


3 –

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.

Argumentam que, quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ONGs de esquerdalhas.

Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as flores do jardim da nossa casa para dar lugar a um prédio de 18 andares. Quando a chuva vem, a água que regava as roseiras vai pra enxurrada que enche a cidade e vão parar nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade.

Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos carros e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada.

Mosquitos, pets, plásticos, copos, tábuas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.

O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra, viveu muitos séculos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CARTA ABERTA AO CRONISTA ANTONIO PRATA

Quisera eu esquecer o B, esquecer de vez, pra nunca mais. Quisera eu acordar de manhã, pisar na Folha sobre o capacho, ignorar O Globo na caixa de cartas, sequer piscar pro Estadão. Ir direto pra rede que tem na varanda da minha casa, pegar a Visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ler as últimas doze páginas que ainda me restam.

Quisera eu ignorar as frases imbecis do B, observar o crescimento das couves, do alecrim, da sálvia e do tomilho limão que plantei na hortinha que temos aqui. Esperar o beija-flor que chega voando toda manhã, já sugando a água com açúcar que pinga do bebedouro, me olhando desconfiado, partiu!

Quisera eu não ver mais nem a fotografia asquerosa do B, escolher um entre os muitos discos organizados em caixotes da Tok Stok no chão do meu escritório. Pegar o Domingo, passar uma flanela no vinil e ouvir Caetano cantando que menina é aquela que entrou na roda agora, ela tem um remelexo que valha-me Deus Nossa Senhora.

Quisera eu nem mais pensar no B, deixar os dias passarem devagar numa operação tartaruga, com tempo para ir até a cozinha e preparar um café de cápsula, adoçar só com um pouquinho de açúcar, contrariando os conselhos que o doutor Drauzio Varella me dava quando eu trabalhava no show da vida.

Quisera eu não ouvir mais ninguém falar do B, ter tempo de escolher o próximo livro, Os anos felizes, o diário de Emilio Renzi e confessar minha paixão por Ricardo Piglia. Ter tempo de pegar o iPhone e ligar pra Travessa do IMS pra saber se o número de agosto da Quatro Cinco Um já chegou.

Quisera eu ao menos uma vez, não ligar a televisão no Jornal Nacional às oito e meia em ponto, passar batido sem notícias do B, mudar de canal, ver o Decora, o Perto do Fogo, ver aquela receita de chuchu ao forno da Rita Lobo, no GNT.

Quisera eu nunca mais ouvir a voz do B, ter tempo e tranquilidade para dobrar bem dobradas minhas camisetas, tirar as bolinhas das blusas de lã e enrolar minhas meias coloridas arrumando-as numa cestinha de ferro que comprei faz tempo na Etna.

Quisera eu esquecer de vez o B, preparar o meu almoço, uma moqueca de cação comprado no Mercado da Lapa, jogar o leite de coco, picar a cebola, o tomate e o pimentão. Esparramar por cima o coentro, porque eu gosto mesmo é de comer com coentro, eu gosto mesmo é de estar por dentro.

Quisera eu deletar os B do Twitter pra não ter mais notícias do zero um, do zero dois, do zero três, quiçá do zero à esquerda. Pegar a bola de couro e descer até a quadra pra jogar um bolão com o João Trindade, craque do Colégio Ofélia Fonseca.

Quisera eu ignorar o B, percorrer correndo corredores em silêncio, perder as paredes aparentes do edifício, penetrar no labirinto, um labirinto de labirintos dentro do apartamento.

Quisera eu não pronunciar mais o nome do B, pegar o primeiro avião com destino a felicidade, pousar em Maceió, seguir até São Miguel dos Milagres, comer uma tapioca, provar da água salgada do mar morno e perguntar de quem é esse jegue?

Quisera eu, Antonio Prata, poder ler os originais da biografia do Drummond que, sei, está sendo escrita, chutar a pedra no caminho, já que a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E para aquele que é sem nome, que zomba dos outros, aquele que faz versos, que ama, protesta, perguntar: E agora, José?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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7 MESES E 3 HISTÓRIAS

A besta humana

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios Apesar de Você.

A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tchauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia.

A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedista.

A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

A CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação.

O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento.

Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol.

O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama o WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

O porta-voz

O porta-voz tem carta de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos.

Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar.

Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava.

Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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FAKE NEWS

Acabo de ler no Libération que tossir sem parar, quando você sente pontadas no coração, não evita ataque cardíaco. Sim, de repente, no primeiro sintoma – ou não – de um enfarte, os franceses começaram a tossir sem parar. A reportagem do Libération, no entanto, alerta que se trata de uma fake news.

Esqueça! Quando sentir aquela primeira pontadinha no peito, não adianta nada sair tossindo por aí.

Nos últimos tempos, não está nada fácil ler jornais e revistas e separar o que é verdade do que é mentira. A gente desconfia de tudo, inclusive da capa da Veja com essa história dos terroristas brazucas de um grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre.

Nas redes sociais, a gente fica com um pé atrás até mesmo com fotos. É só bater os olhos numa que vem logo aquela dúvida: não seria montagem?

Hoje fiquei sabendo:

É falso que abrir perfume com o ar-condicionado ligado provoca incêndio dentro do carro.

É falso que vídeo mostra deputado que chamou Moro de ladrão colocando dinheiro na cueca.

É falso que Padre Marcelo foi empurrado após atacar mulheres.

É falso que haja mais de 400 casos de doença causada pelo consumo de tucunaré no Brasil.

Fake news sempre existiram, mas não com esse nome, aqui no Brasil. Quem será que espalhou, um dia, que manga com leite faz mal? E olha que não tinha rede social pra gente compartilhar e multiplicar por vinte mil essa história.

De boca em boca, silenciosamente, alguém colocou na cabeça do brasileiro que manga com leite faz mal. Faz mal, não. Mata! Ninguém nesse pedação de terra tinha coragem de arrancar a fruta do pé e misturar com o leitinho da vaca que pastava sossegada no campo. A não ser um amigo meu que, rebeldezinho que era, aos seis anos de idade fez um coquetel de leite com manga, deixando todos na casa desesperados.

De meia em meia hora, o menino dizia: “Já passou uma hora eu ainda não morri, já passou uma hora e meia e eu não morri, já passaram duas horas e eu ainda não morri”. E a família, enlouquecida, esperando ele bater as botinhas a qualquer momento.

Esse meu amigo nunca morreu e já passou dos setenta.

Mas não era só de manga com leite que viviam as fake news do passado. Minha mãe, por exemplo, colocou na cabeça dos cinco filhos que sair do banho e pisar fora do tapete, no chão frio, entortava a boca. Quando ela via um de nós correndo do banheiro pro quarto, depois do banho, descalço, gritava:

– Você vai ficar que nem seu Moacir!

Seu Moacir era um homem esbelto, dois metros de altura, que trabalhava no Serviço de Meteorologia com o meu pai. E tinha boca torta. Ele era muito engraçado, mas nunca tivemos coragem de perguntar por que tinha a boca torta. Minha mãe jurava que era porque pisou no chão frio ao sair do banho, na sua casa lá no bairro da Ressaca.

E quando a gente brincava de ficar vesgo? Adorávamos juntar os dois olhos, quando a mãe da gente aparecia e dizia:

– Não faz isso porque, se bater um vento, você fica caolho pro resto da vida!

Tudo fake news!

E não eram poucas. Eu acreditava que as pessoas têm aquelas manchas roxas no rosto porque a mãe tomou vinho durante a gravidez. Fake news!

Quantos dentes de leite eu não coloquei debaixo do travesseiro, quantos dentes de leite eu não joguei no telhado, esperando a fadinha trazer uma grana boa pra mim?

Quantas noites de Natal eu não fiquei segurando os olhos com os dedos pra eles não fecharem, esperando Papai Noel chegar?

Tudo fake news!

Algumas fake news acabam caindo por terra, desmoralizadas. Mas outras não, elas sobrevivem anos e anos. Ontem, por exemplo, ouvi de um motorista de Uber, que jurou de pés juntos, que o filho do Lula é dono da Friboi.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

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