QUE É QUE TEM NESSA CABEÇA, IRMÃO?

 

Outono de mil novecentos e setenta e cinco. O frio entrava na minha pele, deixava roxa as pontas dos meus dedos, vermelho o meu nariz. O dia não tinha ainda amanhecido e eu apressava os passos nas pedrinhas do Jardin duLuxembourg, rumo à Faculdade de Filosofia. As árvores uniformes balançavam ao ritmo do Bolshoi, derrubando as últimas folhas secas, tecendo um tapete no chão, onde as pombas encolhidas se protegiam. Eu passava fazendo barulho com os meus tamancos suecos, enquanto os esquilos não estavam nem aí.

Walter Franco tinha acabado de chegar nas minhas mãos como um revolver, sem acento. Assim em letras minúsculas, caixa baixa como dizem hoje em dia, embalado entre duas pranchas de isopor, embrulhado num papel kraft transbordando de selos de jacarés do Pantanal, ariranhas, embaúbas e buritis.

Saigon rendera aos comunistas, Jacqueline Onassis, ex-Kennedy, tinha ficado sem seu Aristóteles, havíamos perdido o cronista Arnold Tonybee, o cantor Paul Robeson e o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, terra da garoa que eu nem conhecia ainda. Ficamos livres de Francisco Franco, enquanto os libaneses davam adeus às armas.

O céu de novembro já era permanentemente cinza, quase chumbo, e as fotografias que fazia quase que diariamente dos gramados campos de lá, já não eram tão verdes, tão lindos como os da canção do exílio. A revelação mostrava uma Paris quase sem cor. O pacote que retirara no correio antes de partir ao estudo de Heidegger só foi aberto no intervalo, depois de uma aula de duas horas do professor Pierre Albert sobre a imprensa dos países da cortina de ferro.

Retirei um copo de chocolate quente e sentei num banco de madeira bem em frente à máquina. O chocolate estava pelando, coloquei o copo em cima da madeira sem verniz e rasguei o papel kraft. O disco chegou intacto e o primeiro impacto foi ver Walter Franco, visto assim de frente, de John Lennon na capa, como estivesse atravessando uma nossa Abbey Road. Revólver ou revolver? Decifra-me.

Tantos anos longe, lembrava-me apenas vagamente de um Walter Franco em imagens em preto e branco na tela de uma televisão GE que pegava mal. Ele sentado no chão declamando Cabeça no Festival Internacional da Canção. Sua voz doce abafada por um festival de vaias que vinham de todos os cantos. Bem zen, ele parecia se lixar.

“Que que tem nessa cabeça, irmão, saiba que ela pode explodir.”

Voltei pra casa feliz da vida, eu que já tinha Smetak, Alfaiate, Wanderley e agora Franco. Antes mesmo de esquentar na frigideira o arroz com carne moída e milho, coloquei o vinil na vitrola e ouvi cada canção.

Feito gente, Eternamente, Mamãe d’Água, Partir do Alto, 1 Pensamento, Toque Frágil, Nothing, Arte e Manha, Apesar de tudo é muito Leve, Cachorro Babucho, Bumbo do Mundo, Pirâmides e Cena Maravilhosa.

Guardei pra mim versos e trocadilhos, depois de escutar seis vezes as composições. Descobri que o sorriso do cachorro está no rabo, que amei como pude, o éter na mente, Iara, eu te amo muito mais agora é tarde eu vou dormir e nada mais.

“Nothing

To see

Nothing

To do

Nothing

Today

About me

I’m not

Happy now

I’m not

Sad

I’m just

Nothing

Now

Looking

To the empty

Space.”

Até o meu inglês ruim era capaz de decifrar. Walter Franco foi a minha trilha sonora durante todos aqueles anos longe daqui. Ninava meus filhos, lavava pratos, cuidava de crianças, construía estradas, distribuía panfletos, caminhava pelas ruas, ruelas e pelas tabelas com seus mantras dentro da minha cabeça, pra não explodir.

“Qual é a sua menina do olho

Meia-lua na esquina do outro

Meia-lua na esquina do ouro

É sua menina do olho

Onde é uma bruxa e um bruxo

Late um cachorro babucho

Late um cachorro babucho

Onde é uma bruxa e um bruxo.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TEREMOS SAUDADE DE QUÊ?

Pode parecer, mas não sou tão nostálgico assim, aquele que vive remexendo o passado, procurando relíquias no fundo do baú, encontrando bilhetinhos de amor cujo perfume sumiu com o tempo. Sinto saudade, de vez em quando apenas.

Saudade dos Beatles em cima do telhado cantando Let It Be, saudade do Cine Pathé, da Mesbla, saudade do disco voador da Estrela, saudade do pirulito de chocolate da Kibon, saudade dos soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy.

Sinto saudade do cachorrão do Ted’s, sinto saudade do milk-shake do Xodó, sinto saudade da Livraria Van Damme, da coxinha da Torre Eiffel, da Padaria Savassi, do suco Yuki, dos fascículos da História da Música Popular Brasileira dependurados numa banca de jornal na Rua da Bahia. Sinto saudade de Belo Horizonte.

De vez em quando sinto saudade do lança-perfume, da caneta Parker 51, da tinta Super Kink Azul Real Lavável, do travel cheque, do sabonete Gessy e da colônia Pinho Campos do Jordão.

Sinto saudade do Frevo número 2: O Recife tá longe/A saudade é tão grande/Eu até me embaraço/Parece que eu vejo/O Haroldo Matias no passo/Valfrido e Cebola, Colasso/Recife tá perto de mim/Saudade que eu tenho/São maracatus retardados/Que voltam pra casa cansados/Com seus estandartes pro ar.

Sinto saudades mais recentes também. Sinto saudade da Fotóptica, da Videolocadora 2001, do envelope verde e amarelo, de rebobinar fita K-7 com caneta Bic, dos cards do chocolate Surpresa e do Orkut.

Dizem que a palavra saudade só existe em português. Saudade daqui, de Portugal, de Cabo Verde e Macao. Uma saudade danada, eu sinto da rapadura da Fazenda do Sertão, da língua com ervilhas frescas da Vó Romilda, da couve-flor empanada da minha mãe, do bife à caçarola do meu pai, do Mandiopã, do Tenente Rip Masters, do sargento O’Hara, do cabo Rusty, do Rin-Tin-Tin e do Guarapan.

Teremos saudade de que no futuro? Do WhatsApp, do Instagram, do Facebook, do Twitter, dos emojis, do kkk, do rsrsrs, do blz, do coraçãozinho vermelho ou roxo, da mãozinha indicando joia ou batendo palminha?

Será que um dia sentiremos saudade do Tiago Leifert apresentando o The Voice Brasil, do Luciano Huck consertando uma lata-velha, do Se Joga, de todo mundo falando legado, do Wesley Safadão cantando Na cama que eu paguei?

Será que a palavra saudade vai existir no futuro? Será que vamos ouvir tem dias que eu morro de saudade da bolinha colorida rodando no meu computador ou tem dias que eu morro de saudade daquela vozinha do telemarketing? Será que alguém vai sentir saudade do Galvão Bueno, da Joice Hasselmann, do véio da Havan ou do Faustão?

Não! A saudade é apenas uma dor pungente, a saudade é uma coisa que mata a gente, morena.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O QUE VOCÊ LEVA NAS MÃOS E OUTRAS HISTÓRIAS

1.
Olhando assim pela janela do carro, do ônibus, do apartamento, andando pela calçada quase sempre esburacada, sentado na mesa de um bar tomando uma cerveja, percebia que cada pessoa que passava, levava alguma coisa nas mãos.

Homens levavam pacotes, pastas, saquinhos, embrulhos grandes e pequenos. Mulheres basicamente bolsas de couro ou imitando couro e sacolas de papel ou plástico. O que esses homens e essas mulheres levam tanto, pra lá e pra cá? Não via uma viva alma nas ruas com as mãos abanando.

Daí surgiu uma ideia de pauta para o telejornal que fazíamos todo final da noite. Na reunião diária, a mais democrática da história do jornalismo, todos participavam: editores, redatores, produtores, contínuos, o cara do café, a secretária, a faxineira e quem mais aparecesse. Todos davam sugestões, pitacos e o telejornal acabava ficando pronto.

 Apresentado por Lillian Witte Fibe, o Jornal do SBT muitas vezes batia o da Globo. No início, não foi fácil. Lillian vinha da Vênus Platinada, mais precisamente do Planeta Economia e gostava de falar de debêntures, do índice Nasdaq, da Selic, da inflação, do overnight, da cotação do dólar e do ouro. Lillian não distinguia o funk do rap, nem o rap do rock. Não sabia quem era o Alceu Valença de Coração Bobo ou Geraldo Azevedo de Dia Branco, tampouco o Zé Ramalho de Vida de Gado.

A pauta foi fechada e a repórter foi pra rua perguntar o que as pessoas estavam levando nas mãos, dentro da bolsa, da pasta, do embrulho, do saquinho de plástico. O resultado foi isso aqui, ô ô, um pedacinho do Brasil.

Encontramos gente levando muda de jabuticabeira da casa da mãe, documentos para reconhecer firma, resultados de exames médicos, um jeans pra dar bainha, umas comprinhas de supermercado, um macaco Murphy pro filho e, finalmente um homem magro que fez questão de rasgar o pacote aos poucos e ir mostrando para a câmara o que tinha lá dentro: uma gaiola dourada para colocar o seu curió.

2.
O forte do nosso telejornal era o comportamento. O sucesso da matéria mostrando o que as pessoas estavam levando nas mãos foi tão grande que tivemos uma outra ideia de pauta. Num mundo ainda sem Spotify, a onda era o walkman. As pessoas começaram a usar fone de ouvido e nós fomos procurar saber o que elas estavam ouvindo no meio da rua.

Microfone do SBT na mão, a pergunta do repórter era curta e grossa: O que você está ouvindo? Passado o susto, ninguém recusou em responder: curso de inglês, Fagner cantando Borbulhas de Amor, Gabriel, o Pensador cantando o rap Tô Feliz, matei o presidente, Fernanda Abreu, Rio 40 graus e os Engenheiros do Havaí, Muros e grades.

Estou ouvindo November Rain, com Guns N’Roses, Make It Happen, com Mariah Carey, Remember the time, com Michael Jackson. Estou escutando as Lições de Sabedoria, de um mestre da seita Seicho-no-Ie.

A matéria foi pro ar e, de novo, outro sucesso de público e crítica. O editor ilustrou cada música com trechos de videoclipes. Era assim que chamávamos, na era da MTV. Lilian Witte Fibe voltava com cara de assustada depois da exibição dessas matérias e comentava: Só mesmo o Jornal do SBT!

3.
Para onde você está indo? Essa foi a nossa terceira e última reportagem da série. O objetivo era espalhar três repórteres pelos cantos da maior cidade da América do Sul e perguntar para cada um: Para onde você está indo?

Para onde será que estava indo essa multidão às oito e pouco da manhã? Consertar um vazamento na Casa Verde. Pro trabalho. Pro supermercado. Pra escola. Fazer uma entrevista de trabalho. Pra padaria tomar café. Pra farmácia comprar absorvente. Pra uma obra no Itaim, onde estou pintando um apartamento.

Aquela imagem acelerada da multidão correndo pelo Viaduto do Chá, com uma música de Tom Zé ao fundo, impressionava. São oito milhões de habitantes/De todo canto e Nação/Que se agridem cortesmente/Correndo a todo vapor/E amando com todo ódio/Se odeiam com todo amor.

O último entrevistado foi um motorista musculoso da linha Cohab Adventista, que fechou a série respondendo: Estou indo pro ponto final.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DESCONFIO QUE ESTOU FICANDO MEIO VELHO

Por trabalhar com uma equipe muito jovem, que não viveu o mundo que vivi, fico achando que ninguém se lembra de nada.

– Sabe o amigo da Onça?

– Lembra do Renault Gordini?

– E do Vigilante Rodoviário?

Até os Beatles, eu pergunto se meus colegas de trabalho conhecem. Beirando os setenta anos, começo a desconfiar de que estou ficando velho, que preciso explicar para as pessoas que Arthur da Costa e Silva foi um ditador feroz, que John Phillips era casado com Holly Michelle Guillian, do The Mamas & the Papas, Didi foi o inventor da folha-seca e que o Toddy não era instantâneo.

Mania de velho.

Quando nasci, o escritor checo Franz Kafka já tinha morrido havia vinte e quatro anos e nem por isso eu não sei quem foi o autor de O Processo, O Castelo, O Desaparecido e A Metamorfose. “Estou velho, mas gosto de viajar”, já dizia Arnaldo Dias Baptista, aos vinte e sete anos de idade.

Que mania é essa de achar que o passado é só meu, do Humberto Werneck, do Fernando Morais, do Ricardo Kotscho e do Nirlando Beirão? Claro que a juventude sabe quem foi John, quem foi Paul, George e Ringo e cantarolou Yesterdayum dia. Como nós sabemos quem foi Ataulfo Alves, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo e cantarolamos Com que roupa? um dia.

Perdi a noção do tempo.

Outro dia perguntei para minha filha se ela chegou a ir em algum show do Cazuza. Assustada, ela respondeu:

– Pai, quando eu nasci o Cazuza já tinha morrido.

O tempo passa, o tempo voa e a Poupança Bamerindus acabou.

A ditadura militar, pra mim, é como se tivesse acontecido ontem. Quem não se lembra dos estudantes levando cacetada da polícia na Avenida Afonso Pena? Fugindo dos jatos d’água e gritando “yankees, go home e morte aos gorilas ?

Maio de 68 parece que foi ontem, tipo Maio 18, mesmo tendo passado mais de cinquenta anos.

– Isso a gente colava com goma arábica!

– Goma o quê?, espantou-se o jovem que trabalha na minha frente.

Aí começo a explicar não somente o que é goma arábica, mas o que é chiclete Ping-pong, Mirinda morango, simca chambord, as moças do sabonete Araxá e as estampas do Eucalol.

Ser velho é ainda preencher um cheque, fazer sinal pro táxi parar na rua, digitar com dois dedos no celular, discutir com o Waze, mandar um WhatsApp pra filha dizendo: “Filha, você esqueceu o seu celular em casa”.

Será que alguém ainda lembra do sabonete Vale Quanto Pesa, da vitrola três em um, do tigre da Esso, dos maiôs Catalina, da fotonovela, das alpargatas Sete Vidas?

Será que alguém sentiu o suingue de Henri Salvador, já seguiu a novela de Dona Canô, já riu a risada de Andy Warhol ou amou a elegância sutil de Bobô?

E o pinguim em cima da geladeira, a zebrinha no Fantástico, o Bombril na antena da TV e a plaquinha “não corra papai”no painel da Rural Willys? Será que alguém sabe o que eu estou falando?

Minha mulher nunca viu o Garrincha jogando, o Mohamed Ali lutando, o Fittipaldi correndo, a Maria Esther Bueno sacando, o Sergio Cardoso atuando e o Altemar Dutra cantando.

Piso em ovos quando vou contar um caso lá de Minas Gerais. Faço um esforço danado, mas de vez em quando solto uma rádio patrulha, uma abreugrafia, um slide, um creme rinse. E quando eu digo que achei o filme um abacaxi, todos assustam.

– Abacaxi? Como assim?
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QUER ME ABORRECER, É TOCAR NESSE ASSUNTO

Nos anos dourados do Jornal da Tarde, muitas histórias surgiram. Histórias que entraram para o folclore do jornalismo. Algumas reais, outras inventadas, aumentadas, editadas. Eu invejo meus amigos – e são muitos – que viveram, na redação, a melhor fase de suas vidas.

O JT era criativo, divertido, animado, inteligente. Pelo menos imagino eu, pelas histórias que me contam e são muitas. Morro de inveja de não ter vivido ali do lado esquerdo daquele corredor, mesmo me divertindo muito do lado direito, no Caderno 2, alguns anos depois.

A última do Jornal da Tarde, soube na semana passada, contada por um dos integrantes daquela redação de bambas.

Ele me contou que um repórter começou a trabalhar no jornal, um mês de experiência. Não decolou, não pegou o espírito da coisa. No trigésimo dia, seu chefe o chamou em sua sala e fez aquele comunicado que ninguém gosta de fazer: “Olha, sinto muito, mas você não se encaixou no nosso espírito, no nosso modus vivendi e, sendo assim, você não vai ser contratado. Amanhã, não precisa mais vir”.

O repórter iniciante baixou a cabeça, saiu da sala e terminou a matéria que estrava escrevendo, faltando apenas o último parágrafo. Tek tek tek… bateu nas pretinhas as últimas palavras, gritou desce! E foi-se embora, sem esvaziar as gavetas.

No dia seguinte, por volta de meio-dia, hora que começava a dar expediente, o demitido chegou, tomou um cafezinho no corredor, entrou na redação, sentou-se no lugar que sempre costumava trabalhar e começou a datilografar um texto. Sete da noite, gritou desce e foi-se embora.

No segundo dia, a mesma coisa. A redação olhava meio desconfiada, meio assustada, aquele demitido trabalhando. Ninguém tinha coragem de dizer ai pra ele.

Até que no terceiro dia, incomodado com sua presença na redação, sabendo que o RH já tinha sido avisado e que ele já não estava mais recebendo o seu salário, o chefe, pisando em ovos, resolveu ir falar com ele.

– Olha, sabe aquela conversa que tivemos no início da semana, na minha sala?

O demitido olhou para o chefe, ou ex-chefe, e disse:

– Quer me aborrecer, é tocar nesse assunto!

A frase entrou para a história e assim que chegou aos meus ouvidos, pensei:

1- Quer me aborrecer, é atender o telefone e ouvir: Olá! Aqui é o Moacir Franco!

2- Quer me aborrecer, é lembrar que amanhã cedo tenho dentista.

3- Quer me aborrecer, é chegar na sala de cinema e o filme já começou.

4- Quer me aborrecer, é ligar o computador e aquela bolinha colorida ficar rodando eternamente.

5- Quer me aborrecer, é chegar no ponto do ônibus e ver que ele acabou de passar.

6- Quer me aborrecer, é preparar uma caipirinha, abrir a geladeira e ver que o gelo acabou.

7- Quer me aborrecer, é a água esfriar no meio do banho.

8- Quer me aborrecer, é bater um prego na parede e sentir que é concreto.

9- Quer me aborrecer, é o cara da Net pedir pra desligar tudo na tomada.

10- Quer me aborrecer, é a luz acabar bem na hora da disputa do pênalti,

11- Quer me aborrecer, é derrubar café na camisa, segundos antes de sair pro trabalho.

12- Quer me aborrecer, é ver o celular cair no chão e espatifar a tela.

13- Quer me aborrecer, é abrir o congelador seco por um Haägen-Dasz e ver que é caldo de risoto congelado.

14- Quer me aborrecer, é acabar a tinta da impressora no meio da impressão.

15- Quer me aborrecer, é escrever uma crônica e não saber que fim dar a ela.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU ENCONTRO COM OS ÍNDIOS DA TRIBO WAIÄPI

Quando o avião da Varig abriu as portas no Aeroporto Alberto Alcolumbre, em Macapá, foi como se tivesse aberto a porta do forno da minha cozinha. Veio aquele calor lá do Norte, de baixo pra cima, contagiante.

Depois de descer os degraus, a camiseta já mostrava pontos de suor aqui e ali. O céu limpo não anunciava uma nuvem sequer. Todo azul, um azul bem de lá.

Uma van da Fundação Konrad Adenauer Stiftung estava me esperando debaixo de uma árvore lindíssima, jeito de baobá. Em poucos minutos já estava no hotel, uma construção de madeira rústica, com vista pro Rio Amazonas, quase mar.

Curioso pensar que aquele mundo de água é do mesmo rio que passava na minha vida, durante a temporada que morei em Manaus, trabalhando pro Canal 25.

Konrad Adenauer Stiftung foi o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, de uma então Alemanha Ocidental, e que hoje da nome a uma fundação, a que me trouxe até aqui.

No dia seguinte, na mesma van, pegamos uma estrada de terra, cheia de paus, pedras e pó e fomos seguindo. Mais um trecho de trem, a viagem que parecia não ter fim até que, finalmente, chegarmos à aldeia dos índios Waiäpi.

A tribo costuma passar os invernos nas aldeias da Funai, onde há posto de saúde, enfermarias, escolas e a casa dos missionários. No verão, vivem seus dias de índio na floresta, temporada de caça e pesca.

Com olhares profundos, curiosos e visivelmente assustados, os índios pareciam nos esperar. Não abriam a boca, apenas observavam cada passo que dávamos naquela poeira amarelada.

Era início de verão e as terras abundantes acolhiam pés de macaxeira, cana, cará, inhame, pupunha e bananas com fartura. Experimentei a cana doce e a banana da terra defumada.

Ali naquela aldeia havia pouco menos de cinquenta índios. O primeiro contato que tiveram com a civilização foi em 1973. O português deles ainda é ruim, mas entendo, alguns segundos depois que falam.

Um índio aponta para a plantação e me explica que só de macaxeira, eles plantam doze variedades.

– Se a praga chega e ataca uma espécie, temos ainda outras onze.

Sábios.

– O peixe aqui é farto. Já na brasa, diz outro.

Vejo crianças correndo atrás de um bicho com jeitão de tatu, não sei se é tatu, e penso na canção de Rita Lee.

Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio/Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo/Ser um bicho preguiça e espantar turista/E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol.

O sol arde minhas costas e a essa altura, fim de tarde, já estou sem camisa e com um risco de urucum no rosto vermelho.

Os Waiäpi são vermelhos.

Passei o dia ali, ouvindo histórias e contando as minhas. Antes do anoitecer, teve macaxeira, inhame, peixe e dança.

Tem dias na vida que a gente não esquece nunca. O meu encontro com os Waiäpi faz anos e eu ainda me lembro perfeitamente da van indo embora e eu olhando pra trás, cantarolando, esperando voltar um dia.

Baila comigo, como se baila na tribo/Baila comigo, lá no meu esconderijo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CRÔNICA DE BOLSO

A primeira carteira de dinheiro que ganhei foi aos 16 anos, presente de aniversário da minha madrinha, Tia Celinha, a tia rica. Era uma carteira de couro marrom, com divisórias em cetim e lugar para colocar, além de dinheiro, a carteira de identidade e duas fotos 3×4.

A carteira que ganhei foi comprada numa loja na Rue du Faubourg Saint-Honoré, rua chique de Paris, onde minha tia passava as primaveras porque odiava o frio europeu e o calor do verão carioca. Gente fina, minha madrinha, era outra coisa.

Fiquei orgulhoso com aquele presente que veio embalado numa caixinha forrada com papel de seda, cheirando a incenso fino, tarde de outono debaixo de uma figueira, que só tem na Nature & Découverte, no Les Halles.

A primeira coisa que fiz foi ir ao Armazém do Chaim trocar minha mesada por um monte de notas de 10 cruzeiros, aquela do Getúlio. Queria minha carteira cheia de dinheiro, como a do meu pai.

A segunda coisa foi preencher aqueles dois espaços para fotos. Em um, coloquei a minha 3×4 que fiz no Zatz e, no outro, enfiei a foto de Teresa, minha primeira namorada, um 3×4 que ela me enviou numa carta de amor.

Vou explicar a carteira do meu pai. Era a carteira mais gorda que existia, nunca vi igual. Num tempo em que não havia cartão de crédito, cartão de débito, cartões de plástico, meu pai gostava era de dinheiro vivo.

Todo dia primeiro, ele ia ao Banco do Brasil e trazia pra casa o seu ordenado. Parte dele entregava para minha mãe, que ia colocando tudo separadinho dentro dos envelopes que ele escrevia com normógrafo e tinta nanquim: Luz, Gás, Telefônica, Mercado, Passadeira, Padaria, Médico, Colégio Marista, Colégio Sion e Imprevistos.

Uma parte do ordenado recheava sua carteira, que trazia também a carteira de identidade, a de motorista, uma foto da esposa, minha mãe, e dos cinco filhos, meus irmãos. Além de uma nota de 1 dólar dobradinha, pra dar sorte, um santinho de Santo Expedito, uma novena de Nhá Chica e um bilhete da Federal.

A carteira de Carlos Drummond de Andrade, mineiro, era parecida com a do meu pai, de couro, gorda, recheada. Nela, ele guardava um bilhete escrito à mão que dizia assim:

Recomendações de mamãe:

  1. Não guardar ódio de ninguém
  2. Compadecer sempre dos pobres
  3. Calar sobre os defeitos dos outros

Era um tempo em que o biólogo Paulo Vanzolini cantava “Praça Clóvis” no auto-falante da praça da Igreja de Santa Rita, em Cataguases:

Na Praça Clóvis/Minha carteira foi batida/Tinha 25 cruzeiros e seu retrato/25 francamente achei barato/Pra me livrar daquele atraso de vida/25 francamente foi de graça. 

No dia seguinte ao meu aniversário de 16 anos, fiquei planejando como organizar minha carteira. Além dos 3×4 meu, o de Teresa e das notas de dez cruzeiros, arrumei ali a carteira de identidade, a carteirinha do Clube Albert Scharlé, e uma nota de 1 dólar, dobradinha, como a do meu pai.

Sinto que as carteiras gordas, recheadas, cheias de dinheiro, estão sumindo do mapa. Meus amigos não andam mais com dinheiro vivo no bolso porque têm medo de morrer num assalto.

Hoje, as carteiras são fininhas e têm basicamente plástico: a carteira de motorista, o RG, o cartão Visa, o Mastercard, o do Bradesco, o cartão do aposentado, o cartão do idoso, o do INSS, o cartão do Prevent Senior, o de cliente preferencial do Ibis e o cartão de milhas da Gol, porque viajar no tempo é preciso.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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A DAYSE DO ALMOXARIFADO

Eram seis. A turma subiu animada no ônibus Vila Anastácio, quase em frente ao Oba Hortifruti, na Avenida Angélica. Em princípio, achei que eram estudantes sextando, voltando pra casa depois de uma semana de faculdade. Mas não.

Pelo papo alegre, logo percebi que a idade, entre 24 e 27 anos, não batia muito com a idade de estudantes. Fiquei logo sabendo o nome de cada um: Maria Eduarda, a Duda, Gisela, a Gi, a Vitória, o Mateus, o Fabio e o Du, provavelmente Eduardo.

A primeira frase que ouvi foi: “Então segunda a gente pergunta pra Dayse do Almoxarifado”. Achei que a palavra almoxarifado tinha sumido do mapa da juventude, sendo substituída por estoque. Mas não.

Eles conversavam sem parar e as palavras se misturavam em línguas como que de fogo. Eles estavam felizes e comentavam o dia que estava acabando:

– Meu, e aquela cliente da Duda que chegou com a tela toda detonada querendo trocar, de graça!

E o véio que o Fabio atendeu teimando que estava na garantia, mas não tinha nem a nota fiscal. E aí, Fabio?

– Sei lá, cara!

 Comecei a desconfiar que trabalhavam em alguma loja de conserto de celulares, computadores, coisa assim. Tipo estagiários, provavelmente.

Tudo virava assunto para aquela turma que se equilibrava de pé no ônibus Vila Anastácio, com as mochilas no chão, apesar de uns quatro lugares vazios.

Uma picape preta com o som estridente parou bem ao lado do ônibus esperando o sinal abrir e mereceu um comentário da Gi.

– Essa música é da hora!

Gi começou a se balançar, simulando uma dança qualquer. Ninguém deu muita bola e o assunto voltou ao trabalho.

– Aquele com capa rosa? É maior caro, meu!

– Mas é o que mais vende.

– Já vendi três, disse Mateus.

Inquietos, eles se balançavam pisando bem na junção da sanfona do ônibus, achando graça quando um quase caia, rindo de tudo.

– De repente, a gente podia rangar lá em casa. Tem bacon na geladeira e um pacote de macarrão, disse Fabio.

– Tem molho?

– Não. A gente passa no Dia e compra.

– E queijo ralado?

– Ah, cara, aí tá querendo demais.

Quando entramos na Rua Guaicurus, houve um grande zunzunzun.

– Vamos descer onde?

– Antes da Estação Ciência, depois ele só para pra lá do Mercado.

– Ele não para na Estação Ciência?

– O Vila Anastácio, não.

No segundo ponto da Guaicurus, um vendedor entrou pela porta do fundo, depois de acenar pro motorista, que deu o ok. Ele trazia nas mãos dois pacotes de Mentos de frutas. Se escorou na catraca e fez um pequeno discurso:

– Boa noite a todos! Estou sem trabalho há dois anos e vendo essas balas pra sobreviver. Quem puder me ajudar com dois reais, leva uma caixinha. Deus abençoe a todos.

Os três primeiros passageiros abordados não quiseram comprar, um virou a cara e dois fizeram sinal negativo com o dedo. Foi caminhando entre os passageiros até que chegou na sanfona do ônibus onde estava a turma. Eles começaram a catar as moedas nos bolsos e nas mochilas. Era preciso inteirar dois reais aqui, dois ali. Todos queriam Mentos.

Três compraram, o que deixou o vendedor feliz e mais falante: Muito obrigado! Deus lhe pague! Obrigado! Obrigado! Valeu!

– Vocês são estudantes? Perguntou o vendedor.

– A gente trabalha na Claro! Saiu quase em coro.

Quase chegando, fiquei sabendo onde a Gi, a Duda, o Mateus, o Fabio, o Du e a Vitória trabalhavam. Desci um ponto antes deles, que seguiram Guaicurus afora.

Fui caminhando pra casa pensando que essa viagem daria uma crônica, e me perguntando:

O que será que eles vão perguntar pra Dayse do Almoxarifado, na segunda-feira, quando chegarem na Claro?

 

AMNÉSIA

“O Waze é um nome feio/Mas é o melhor meio/De se chegar.” Gilberto Gil

A minha mãe sabia o número do telefone de todo mundo. De suas irmãs, de uma tia torta, dos meus avós, dos vizinhos, o telefone da repartição do meu pai, do Colégio Marista, do Colégio Sion, do Armazém Colombo, da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, do cara que consertava a máquina de lavar roupas Bendix.

– Qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4767

– Qual é o telefone da Dona Celuta costureira?

– 2-6791

– E do meu avô?

– 2-3398

Está certo que os números eram somente cinco, mas ela respondia na lata, como se estive com um catálogo telefônico nas mãos.

Ninguém dizia que minha mãe tinha uma memória de elefante, mas tinha. Sabia o número de seu Alceu taxista, de seu Valdivino alfaiate, de dona Olímpia que fazia balas delícia, do doutor Aldo, nosso médico, do Depósito de Águas São Lourenço e de Dona Elvira, que fazia salgadinhos para as festas. Era só perguntar que ela dizia.

Hoje, se tirar o celular das mãos das pessoas, ninguém mais sabe o telefone de ninguém. Já fui vítima de roubo de iPhone e fiquei num mato sem cachorro. Não sabia o número do telefone da minha casa, da minha mulher, de nenhum dos quatro filhos.

Lembrei da minha mãe que sabia o telefone da Rádio Patrulha, do Corpo de Bombeiros e da Ambulância, que chamávamos de Assistência. Minha mãe era incrível.

Hoje, deixamos a memória de lado. Não é preciso saber mais número algum, nem mesmo a tabuada. Outro dia eu dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos e a caixa do supermercado teimou que tinha de voltar dezesseis e setecentos. E eu achando quer dezessete e setecentos.

Até dois mais dois, as pessoas colocam na calculadora do celular pra saber se são quatro ou cinco.

Com o endereço é a mesma coisa. Você sabe onde mora o seu maior amigo, sua maior amiga, seu colega de trabalho? Saber você pode até saber, mas qual é o nome da rua, o número da casa, do apartamento? E o CEP?

De repente, já perceberam? Os taxistas tiveram, todos eles, um surto de amnésia. Peguei um táxi na porta do Sírio-Libanês e pedi pra ir até a Paulista, que é praticamente na esquina. O motorista não sabia o caminho. Perguntou o número e já abriu o Waze. Quando chegou na Paulista, eu pedi pra seguir até a Doutor Arnaldo, e ele titubeou, como se fosse um meme do John Travolta: É pra lá ou pra cá?

Como ninguém mais escreve carta ou manda convite de papel, pra que saber o endereço das pessoas? Nem mesmo o e-mail a gente precisa guardar. É só começar a escrever o nome na tela que ele se forma rapidinho.

Andando pela Rua Aurélia, na Lapa, perto do Pão de Açúcar, eu achei um papel cor de rosa jogado no chão. Achei que era uma listinha de supermercado, que adoro ver, peguei. Não era, era uma espécie de Waze pré-histórico, que dizia o seguinte:

Pega o ônibus Terminal Grajaú.

Pega o trem sentido Osasco.

Descer: Estação Santo Amaro.

Pega o metrô Linha 5 Lilás.

Descer Estação Chácara Klabin.

Pega o metrô linha 2 Verde sentido Vila Madalena.

Descer: Vila Madalena.

Pega ônibus Hospital das Clínicas.

4 paradas.

Descer: Rua Aurélia

Se eu encontrei o papelzinho cor de rosa jogado numa calçada da Rua Aurélia, é um bom sinal, certeza de que a pessoa chegou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MEU BRASIL BRASILEIRO

O que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. E a corrupção continua solta por aí

1 –

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo que Brasil ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os lares, de leste a oeste, de norte a sul, como se fosse a galinha azul. Durante meses, assistimos a curtos depoimentos de brasileiros, vindos de lugares que nem imaginávamos existir.

Pintópolis, MG

Carrasco Bonito, TO

Anta Gorda, RS

Passa e Fica, RN

Em meio a um bombardeio diário de noticias e fake news, em todos os telejornais, havia informações de uma conexão entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”.

Em oitenta por cento das respostas, ouvíamos brasileiros, em movieselfies gravados por eles mesmos, com os celulares na horizontal, pedindo o fim da corrupção. Era comum também lamentos de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, dos cadeirantes, enfim, do seu povo.Agora, quase um ano depois, o que vemos é um país em frangalhos, mergulhado no caos e na escuridão da fumaça. A corrupção continua solta por aí, escondida debaixo do tapete ou, quem sabe, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, sem um pedaço de esparadrapo e sem médicos, já que os cubanos se recusaram a fazer parte de um governo com um pé no fascismo, deixando milhares e milhares de brasileiros nas mãos de Bolsonaro, ao Deus dará.

O lixo está nas ruas e não há nenhum projeto de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo nas filas, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando.

Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos mesmos brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E aí, está satisfeito?”


2 –

Estava no ponto do ônibus, voltando pra casa depois de um dia de trabalho, no coração de Higienópolis, quando topei com o time inteiro do Revoltados Futebol Clube. Umas trinta pessoas estavam ali resmungando que havia uma hora que não passava um mísero ônibus. Foi quando alguém chegou com a informação de que a Avenida Paulista estava fechada.

Fechada por quê?, perguntou uma senhora. Manifestação! Greve!, respondeu outro. Pra quê? A rebelião começou ali mesmo. Cada um tinha seu argumento: Vagabundos! Ao invés de estudar, ficam fazendo baderna! A gente é que paga! Eles só querem bagunça! Com o nosso dinheiro! Eles não têm o que fazer?

Todos tinham suas opiniões formadas, mas ninguém perguntou o motivo da greve. Ninguém sabia da greve, nem queria saber. Um último arriscou dizer: “Por que não fazem greve domingo? Todos começaram a se mexer, alguns pegaram o celular pra encontrar alternativas, outros desceram a Avenida Angélica a pé até o metrô Marechal, onde tudo funcionava normalmente. Os resmungos continuaram por algum tempo.

Naquela noite, todos devem ter chegado em casa revoltados com os estudantes, mas não procuraram saber o motivo da greve. Confesso que tive vontade de fazer um pequeno discurso ali, em praça pública. Senti que era necessário e urgente informar aquela gente ali no ponto do ônibus, num bairro mais ou menos parecido com aquele em que Caetano, um dia, estacionou o carro. Vontade de explicar pra cada um o que se passava.

O governo quer privatizar as universidades públicas, entendem? Querem transformar em universidade particulares, com um boleto pra pagar no final de cada mês. Os estudantes estavam ali fazendo uma manifestação pra evitar tudo isso aí. Não sei se entenderiam. Fiquei temeroso de ser massacrado, violentado, quem sabe morto. Eu seria apenas mais um corpo estendido no chão. Se me mandassem pra Cuba, até que não seria uma má ideia.


3 –

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.

Argumentam que, quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ONGs de esquerdalhas.

Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as flores do jardim da nossa casa para dar lugar a um prédio de 18 andares. Quando a chuva vem, a água que regava as roseiras vai pra enxurrada que enche a cidade e vão parar nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade.

Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos carros e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada.

Mosquitos, pets, plásticos, copos, tábuas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.

O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra, viveu muitos séculos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CARTA ABERTA AO CRONISTA ANTONIO PRATA

Quisera eu esquecer o B, esquecer de vez, pra nunca mais. Quisera eu acordar de manhã, pisar na Folha sobre o capacho, ignorar O Globo na caixa de cartas, sequer piscar pro Estadão. Ir direto pra rede que tem na varanda da minha casa, pegar a Visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ler as últimas doze páginas que ainda me restam.

Quisera eu ignorar as frases imbecis do B, observar o crescimento das couves, do alecrim, da sálvia e do tomilho limão que plantei na hortinha que temos aqui. Esperar o beija-flor que chega voando toda manhã, já sugando a água com açúcar que pinga do bebedouro, me olhando desconfiado, partiu!

Quisera eu não ver mais nem a fotografia asquerosa do B, escolher um entre os muitos discos organizados em caixotes da Tok Stok no chão do meu escritório. Pegar o Domingo, passar uma flanela no vinil e ouvir Caetano cantando que menina é aquela que entrou na roda agora, ela tem um remelexo que valha-me Deus Nossa Senhora.

Quisera eu nem mais pensar no B, deixar os dias passarem devagar numa operação tartaruga, com tempo para ir até a cozinha e preparar um café de cápsula, adoçar só com um pouquinho de açúcar, contrariando os conselhos que o doutor Drauzio Varella me dava quando eu trabalhava no show da vida.

Quisera eu não ouvir mais ninguém falar do B, ter tempo de escolher o próximo livro, Os anos felizes, o diário de Emilio Renzi e confessar minha paixão por Ricardo Piglia. Ter tempo de pegar o iPhone e ligar pra Travessa do IMS pra saber se o número de agosto da Quatro Cinco Um já chegou.

Quisera eu ao menos uma vez, não ligar a televisão no Jornal Nacional às oito e meia em ponto, passar batido sem notícias do B, mudar de canal, ver o Decora, o Perto do Fogo, ver aquela receita de chuchu ao forno da Rita Lobo, no GNT.

Quisera eu nunca mais ouvir a voz do B, ter tempo e tranquilidade para dobrar bem dobradas minhas camisetas, tirar as bolinhas das blusas de lã e enrolar minhas meias coloridas arrumando-as numa cestinha de ferro que comprei faz tempo na Etna.

Quisera eu esquecer de vez o B, preparar o meu almoço, uma moqueca de cação comprado no Mercado da Lapa, jogar o leite de coco, picar a cebola, o tomate e o pimentão. Esparramar por cima o coentro, porque eu gosto mesmo é de comer com coentro, eu gosto mesmo é de estar por dentro.

Quisera eu deletar os B do Twitter pra não ter mais notícias do zero um, do zero dois, do zero três, quiçá do zero à esquerda. Pegar a bola de couro e descer até a quadra pra jogar um bolão com o João Trindade, craque do Colégio Ofélia Fonseca.

Quisera eu ignorar o B, percorrer correndo corredores em silêncio, perder as paredes aparentes do edifício, penetrar no labirinto, um labirinto de labirintos dentro do apartamento.

Quisera eu não pronunciar mais o nome do B, pegar o primeiro avião com destino a felicidade, pousar em Maceió, seguir até São Miguel dos Milagres, comer uma tapioca, provar da água salgada do mar morno e perguntar de quem é esse jegue?

Quisera eu, Antonio Prata, poder ler os originais da biografia do Drummond que, sei, está sendo escrita, chutar a pedra no caminho, já que a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E para aquele que é sem nome, que zomba dos outros, aquele que faz versos, que ama, protesta, perguntar: E agora, José?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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7 MESES E 3 HISTÓRIAS

A besta humana

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios Apesar de Você.

A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tchauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia.

A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedista.

A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

A CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação.

O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento.

Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol.

O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama o WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

O porta-voz

O porta-voz tem carta de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos.

Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar.

Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava.

Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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FAKE NEWS

Acabo de ler no Libération que tossir sem parar, quando você sente pontadas no coração, não evita ataque cardíaco. Sim, de repente, no primeiro sintoma – ou não – de um enfarte, os franceses começaram a tossir sem parar. A reportagem do Libération, no entanto, alerta que se trata de uma fake news.

Esqueça! Quando sentir aquela primeira pontadinha no peito, não adianta nada sair tossindo por aí.

Nos últimos tempos, não está nada fácil ler jornais e revistas e separar o que é verdade do que é mentira. A gente desconfia de tudo, inclusive da capa da Veja com essa história dos terroristas brazucas de um grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre.

Nas redes sociais, a gente fica com um pé atrás até mesmo com fotos. É só bater os olhos numa que vem logo aquela dúvida: não seria montagem?

Hoje fiquei sabendo:

É falso que abrir perfume com o ar-condicionado ligado provoca incêndio dentro do carro.

É falso que vídeo mostra deputado que chamou Moro de ladrão colocando dinheiro na cueca.

É falso que Padre Marcelo foi empurrado após atacar mulheres.

É falso que haja mais de 400 casos de doença causada pelo consumo de tucunaré no Brasil.

Fake news sempre existiram, mas não com esse nome, aqui no Brasil. Quem será que espalhou, um dia, que manga com leite faz mal? E olha que não tinha rede social pra gente compartilhar e multiplicar por vinte mil essa história.

De boca em boca, silenciosamente, alguém colocou na cabeça do brasileiro que manga com leite faz mal. Faz mal, não. Mata! Ninguém nesse pedação de terra tinha coragem de arrancar a fruta do pé e misturar com o leitinho da vaca que pastava sossegada no campo. A não ser um amigo meu que, rebeldezinho que era, aos seis anos de idade fez um coquetel de leite com manga, deixando todos na casa desesperados.

De meia em meia hora, o menino dizia: “Já passou uma hora eu ainda não morri, já passou uma hora e meia e eu não morri, já passaram duas horas e eu ainda não morri”. E a família, enlouquecida, esperando ele bater as botinhas a qualquer momento.

Esse meu amigo nunca morreu e já passou dos setenta.

Mas não era só de manga com leite que viviam as fake news do passado. Minha mãe, por exemplo, colocou na cabeça dos cinco filhos que sair do banho e pisar fora do tapete, no chão frio, entortava a boca. Quando ela via um de nós correndo do banheiro pro quarto, depois do banho, descalço, gritava:

– Você vai ficar que nem seu Moacir!

Seu Moacir era um homem esbelto, dois metros de altura, que trabalhava no Serviço de Meteorologia com o meu pai. E tinha boca torta. Ele era muito engraçado, mas nunca tivemos coragem de perguntar por que tinha a boca torta. Minha mãe jurava que era porque pisou no chão frio ao sair do banho, na sua casa lá no bairro da Ressaca.

E quando a gente brincava de ficar vesgo? Adorávamos juntar os dois olhos, quando a mãe da gente aparecia e dizia:

– Não faz isso porque, se bater um vento, você fica caolho pro resto da vida!

Tudo fake news!

E não eram poucas. Eu acreditava que as pessoas têm aquelas manchas roxas no rosto porque a mãe tomou vinho durante a gravidez. Fake news!

Quantos dentes de leite eu não coloquei debaixo do travesseiro, quantos dentes de leite eu não joguei no telhado, esperando a fadinha trazer uma grana boa pra mim?

Quantas noites de Natal eu não fiquei segurando os olhos com os dedos pra eles não fecharem, esperando Papai Noel chegar?

Tudo fake news!

Algumas fake news acabam caindo por terra, desmoralizadas. Mas outras não, elas sobrevivem anos e anos. Ontem, por exemplo, ouvi de um motorista de Uber, que jurou de pés juntos, que o filho do Lula é dono da Friboi.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

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EU NÃO FUI

Vivíamos uma confusão urbana, suburbana e rural naquele verão de 1969, quando começaram a chegar as primeiras fotografias, radiofotos rajadas mostrando kombis floridas, impalas conversíveis, camionetes estropiadas e gente a pé.

Com seus jeans desbotados, camisetas puídas, all stars maltrapilhos, jujus, balangandãs coloridos pelo corpo e sonhos na cabeça, o destino era uma fazenda perto de White Lake, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Ali, vacas leiteiras ruminavam fenos em 600 acres e debaixo de muito sol. A meteorologia prometia chuva naquele fim de semana, naqueles três dias de paz e música.

Um único anúncio no New York Times fez com as pessoas corressem às lojas de discos e comprassem, por um punhado de dólares, o direito de passar ali trinta e seis horas ouvindo Joe Cocker cantando With a Little Help From MyFriends, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Grateful Dead, The Who, Creedence Clearwater Revival, Santana, Crosby, Stills, Nash & Young.

O estado de calamidade pública foi decretado quando mais de 500 mil pessoas já estavam ali reunidas, envoltas em cobertores e muita lama, banhos de rios, algumas nuas, como se fosse uma grande balbúrdia

Com os cabelos desgrenhados, os corpos e as mentes brilhantes, os hippies já tinham se espalhado pelo mundo, falando como quê de língua de fogo para que todos entendessem como é viver como os passarinhos, livres, leves e soltos.

Eu já usava minhas calças vermelhas, meu casaco de general cheio de anéis. Já sonhava em ir descendo por todas as ruas, tomar aquele velho navio, eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus.

Eu não gostava do Alice Cooper e perguntava onde estava o meu rock and roll. Perdidamente apaixonado, ainda ouvia Márcio Greyck cantando Minha Menina.

E veio a chuva e vieram os relâmpagos, os trovões, quase tufões, e veio a lama, era a lama, era a lama. Depois chegaram as fotografias em branco e preto na Rolling Stone e coloridas na Life. E eu gastei o pouco dinheiro que tinha comprando essas revistas que guardo até hoje.

Um dia, voei para Amsterdã e, na Praça Dan, vi os últimos hippies curtindo os seus baratos ao som de Give Peace a Chance e All is Need is Love. Um dia cheguei a Copenhague e fui passar o dia fotografando Christiania, onde ainda havia um restinho de sonho, aquele que nunca acabou.

Hoje, eu sei que o futuro esperado que eu não dei, sei que é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais. Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NO MUNDO DA LUA

Mil novecentos e sessenta e oito parecia um ano que não ia terminar, mas num piscar de olhos, já estávamos em julho de 1969. Já tínhamos chorado a morte de Cacilda Becker, nos espantado com o desaparecimento de Judy Garland aos 47 anos e nos revoltado com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

London! London!

Havia uma emoção e uma tristeza no ar. Estávamos há seis meses remoendo o Ato Institucional número 5, tempo de prisões, de censura e tortura, amigos sumindo pra nunca mais. Estávamos tristes.

A emoção ficava por conta de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins se preparando para pisar na Lua pela primeira vez, naquele julho de 1969.

Cely Campelo já tinha tomado banho de lua, ficado branca como a neve.

Ângela Maria cantava Lua, oh lua, querem te passar pra trás. Lua, oh lua, querem te roubar a paz. Lua que no céu flutua, lua que nos dá luar.

Olhando a lua através de uma luneta, eu vi Jorginho passeando de lambreta. Fazia curvas, na contramão, e na garupa quem ia era o dragão. A lua tinha virado marchinha de carnaval.

Eu me lembro direitinho, que alguns meses antes do 19 de julho, a revista Veja, dirigida por Mino Carta, começou a publicar fascículos da Conquista da Lua. Toda semana, eu lia com atenção, ia colecionando e a contagem regressiva para o último fascículo ia coincidir com o homem chegando lá.

Eu me lembro vagamente de ver as primeiras imagens na televisão, em preto e branco e muitos chuviscos, de Louis Armstrong pulando no solo da Lua e fincando a bandeira americana por lá.

Não se falava em fake news, mas a maioria dos meus tios e minhas tias não acreditavam naquilo que estavam vendo com os próprios olhos.

– Isso é cenário, disse tio Carlinhos!

– Isso não é possível, isso não é coisa de Deus, disse um de nossos vizinhos.

Dois dias depois, a revista Veja chegou às bancas com uma radiofoto dos americanos na lua: Chegaram! Estava escrito na capa.

A revista Manchete saiu com um número especial e, encartado, um mapa de mais de metro, da lua já loteada. Um espertalhão pegou o mapa e saiu vendendo terrenos na lua, dando a escritura e tudo mais. E teve muita gente que comprou. O negócio só acabou quando ele foi preso.

Hoje, cinquenta anos depois, Gilberto Gil garante: Do luar não há mais nada a dizer, a não ser, que a gente precisa ver o luar.

Caetano talvez seja o que mais cantou a lua.

Lua de São Jorge, lua deslumbrante, azul verdejante, calda de pavão.

Lua, lua, lua, lua, por um momento meu canto contigo compactua, e mesmo o vento canta-te, compacto no tempo, estanca, banca, branca, branca.

Cinquenta anos depois, ainda maravilhado com aquela imagem em branco e preto, recorro-me aos versos de Gregório de Matos:

Eu já vivo tão cansado

De viver aqui na Terra

Minha mãe eu vou pra lua

Eu mais a minha mulher

Vamos fazer um ranchinho

Tudo feito de sapé

Minha mãe eu vou pra lua

E seja o que Deus quiser

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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VERDE E AMARELO

Tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança

Já tive uma verdadeira paixão pelo verde e pelo amarelo, juntos. Foi durante aqueles longos invernos que passei fora do país, numa época em que as notícias só chegavam dentro de um envelope verde e amarelo, escrito Via Aérea/Par Avion.

Descendo a escada do prédio onde morava, antes mesmo de colocar os pés no térreo, já via os envelopes verde-amarelo vazando pelo escaninho com o meu nome. Era sinal de que ali havia noticias frescas do Brasil.

Hoje, ninguém mais escreve cartas. E nenhuma papelaria vende mais envelope verde-amarelo. Mas sempre que vejo um, seja no fundo de um velho baú ou numa pasta perdida no tempo, eu me emociono.

Viajo no tempo e fico imaginando que ali dentro daquele envelope tem recortes do Jornal do Brasil, do jornal Opinião, poemas meus que saíam no Suplemento Literário do Minas Gerais, foto de um sobrinho que nasceu, outros que foram passar as férias em Camboriú.

Me lembro bem quando a música Camisa Amarela, de Ary Barroso, tocava no radinho de pilha dependurado no registro de água que ficava acima do tanque, enquanto Antônia batia a roupa.

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela
A Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia

Já torci muito pela seleção canarinho, mesmo naqueles anos em que não deveria estar torcendo. Gostava de ver em campo Amarildo, Didi caprichando na folha seca, Mané Garrincha sambando e Gilmar indo buscar a pelota na última gaveta. Torcia por Pelé dando socos no ar, Tostão correndo para abraçá-lo, Rivelino eufórico correndo em campo e Gerson pulando de alegria.

O tempo passou, o mundo mudou, a festa acabou. E agora? Agora eu tenho uma verdadeira ojeriza só de ver, mesmo que de longe, alguém com uma camisa amarela. Pra mim, é sinônimo de extrema-direita, de gente reacionária, de ‘somos todos Moro’, de ‘vai pra Cuba’, de ‘intervenção militar já’.

Não posso ver uma que me lembro do Frota, do Kim, do Roger, do Lobão, do Feliciano, da Joyce, dessa gente.

Hoje, tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança para quem quiser, quando eu não estiver mais aqui.

Pra terminar essa crônica, lembrei de uma velha expressão que ninguém usa mais, mas que nos dias de hoje, cai como uma luva: a gente se f**** de verde e amarelo!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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RUMO AO PARAÍSO

Eram oito horas da manhã, em ponto, quando a mensagem chegou pelo celular de uma ilustre passageira, sentada ao lado de um pintor. Deveria ser pintor porque usava um macacão todo respingado de tinta e tinha uma lata de Coralit entre as pernas.

Ela tirou o celular de uma bolsa vermelha com fivelas douradas e ouviu em viva-voz, na tonalidade máxima:

– Tô ligando pra avisar que a dona de hoje não é igual a de ontem. Essa de hoje é um pé no saco!

Clique. Ela desligou e enfiou o celular de volta pra bolsa. Ninguém riu, ninguém tossiu, todos fizeram cara de pastel. Os que cochilavam continuaram cochilando, os que jogavam paciência continuaram jogando paciência, os que olhavam pra fora, continuaram olhando.

Um boy, sentado ao lado do trocador, perguntou:

– Mano, onde você comprou esse seu tênis?

– Em Pirituba.

– Maneiro, nunca tinha visto dessa cor, cinzão!

Era um All Star novinho, cinza chumbo.

De pé, espio no celular da mocinha sentada, a mensagem que acabou de chegar:

– Cadê você?

Ela respondeu rapidinho:

– No ônibus!

Uma senhora entra meio aflita e pergunta para o motorista:

– Passa perto do metrô Marechal? O motorista fez que sim com a cabeça, ela pediu para avisá-la quando chegar, pegou o telefone e ligou:

-Mãe, estou no ônibus, indo pro metrô Marechal. Vou passar na farmácia e vou praí.

Não, mãe. Aqui não tem Drogajato. Aqui em São Paulo só tem Drogasil.

Ela desligou o celular e comentou baixinho com o motorista:

– É um remédio pra dor muscular.

O ônibus segue, uma moça incomodada com o sol cobre o rosto com uma bolsa preta de pano do I Simpósio de Ecologia e Conservação do Semiárido. Uma outra abre uma mochila da Fjällraven, tira um batom rosa e retoca os lábios. Um senhor cochila, quase deixando cair um imenso envelope do Laboratório Lavoisier, exame de imagem certamente.

O ônibus passa em alta velocidade, onde moradores de rua ainda estão enrolados em seus cobertores, ao lado de seus cachorros, debaixo do viaduto que os protege.

Ouço um papo entre duas senhoras, perto da porta.

– Tem dois dias que não dou mais comida pra ele. Agora é só ração. Acredita que ficou com raiva de mim? Nem olha na minha cara.

Fico observando o olhar de cada um que passa pela roleta. Alguns cumprimentam o trocador, outros fazem um sinal com a cabeça, outros passam batido. Mas todos observam quanto ainda resta de saldo no cartão que a tela ao lado anuncia. O olhar de espanto maior são os daqueles cujos saldos estão no fim. E o mês, ainda não.

Perto do parque da água branca, uma moça faz sinal pro motorista, parado no ponto. Ele espera ela chegar, abre novamente a porta e ela entra, meio esbaforida.

– Dá pra esperar um minutinho só, até minha filha entrar na escola? Ela olha aflita e respira aliviada:

– Pronto! Entrou!

Ela havia deixado a filha na porta da escola, mas não queria perder o ônibus. Sentou-se no primeiro banco, ao lado de uma outra passageira e comentou, pra ela e pro motorista:

– Mãe é foda!

Sobe gente, desce gente. Todos com os seus celulares nas mãos, ligados. Uns passam rapidamente pelo Instagram, outros leem mensagens de Bom dia, o Senhor esteja convosco, alguns cintilantes, emoldurados por rosas cor de rosa.

Ao meu lado uma senhora vê, uma, duas, três vezes, um vídeo em search, tipo GIF, tutorial ensinando a fazer um hambúrguer com alface tomate, pepino, maionese, carne moída e duas fatias de bacon.

De repente, o ônibus estanca num engarrafamento e a moça grudada na porta pergunta:

– Aqui é o Paraíso?

Vários passageiros respondem, ao mesmo tempo, que sim.

Ela fala alto:

– Motorista, pode abrir a porta pra mim? Eu vou descer.

O motorista da uma olhada pra trás e abre a porta. A moça desce rapidamente e segue pela calçada, rumo ao Paraíso.

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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O PONTO VERMELHO E OUTRAS ESTÓRIAS

O culpado

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. E se cortou. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes a realidade de uma ficha. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória, aquela vitória que não veio. Não era bem aquilo que lhe informaram, aquilo que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos 45 minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio, sem a necessidade de VAR. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, aquele que todos julgavam ser o Todo Feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu numa ribanceira, num buraco fundo, difícil de sair. Hoje, ele vive numa espécie de inferno particular, em silêncio, como um autêntico mineiro. Se alimenta todos os dias de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: que cagada!

O ponto vermelho

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, embaixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão!, Cálice, e dá stop em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

A velhinha de Taubaté

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê Eu Vou. Ela foi em todas. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda uma selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando diz na televisão que não entende nada disso aí, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu, por exemplo, também não sei o que é déficit público”. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Não sabe, não tem a menor noção do que é The Intercept Brasil. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai ser justa e que a revista Veja virou comunista.

O manifestante

Já segurou todo tipo de placa. Fora Dilma e leve o PT junto. Vai pra Cuba. Vai pra Venezuela. Somos milhões de Cunha. Somos todos Moro. Intervenção Militar já! É aquele cara que vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Postou no Face aqueles famosos Eu Vou! e trocou suas fotos no avatar várias vezes. Já foi Aécio, já foi Cunha, já foi Moro, já foi Bozo. O segurador de placas tinha a revista Veja como Bíblia, vivia citando trechos de artigos fake e postando capas de Lula desmanchando, derretendo. Era assinante e agora está esperando apenas a assinatura acabar. Costuma nem tirar mais a revista do plástico e quando o porteiro do seu prédio diz que a sua Vejachegou, ele responde ‘depois eu pego’. O segurador de placas gastou muita caneta Pilot e muitas folhas de cartolina para escrever seus protestos. Suas fotos em manifestações ao lado de Frota, de Joice e de Kim foram compartilhadas entre amigos, o que o deixou feliz da vida. O carregador de placas está esperando uma nova palavra de ordem, vinda quiçá da Globo, seja qual for. Esperando, esperando, esperando, como se fosse um Pedro Pedreiro dos novos tempos.

Os desvalidos

O nome da cidade não importa. Pode ser Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, Sombrio, em Santa Catarina, Combinado, em Tocantins, Ressaquinha, em Minas Gerais ou Nova Iorque, no Maranhão. Triste é ver o posto de saúde sem um cubano de jaleco branco, sentado na sua surrada escrivaninha de madeira, conversando com os seus pacientes, o povo do lugar. Agora resta apenas uma mesa vazia, alguns frascos de vacinas vencidas num canto, um rolo de gaze quase no fim, um vidro de álcool misturado com água, um cheiro de acetona no ar. Onde havia conversa, há silêncio, onde havia vida, há risco. Um médico contou que ganhou uma galinha viva como recompensa por ser sido salvo de uma picada de escorpião, na porta do Bar e Lanches do Pereira. Outro ganhou seis ovos caipiras e um terceiro, um bode pronto pro abate. Depois que os cubanos foram embora, o posto de saúde existe apenas no nome. Alguns desavisados ainda chegam aqui para ser consultados e voltam pra casa sem perder a esperança de ver, um dia, a estrela voltar a brilhar no céu.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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NOS TEMPOS DO DULCORA

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje

Quando eu era menino, no tempo do Gumex, do Simca Chambord, da Mirinda Morango e da coleção de flâmulas, o meu pai sempre dizia:

– No meu tempo, quando não tinha televisão…

Eu era criança, mas vivia intensamente a era da televisão, uma novidade. Era fã do Vigilante Rodoviário, da Rua do Ri Ri Ri, do Agarre o que puder, da novela Se o mar contasse.

E ficava imaginando como tinha sido a infância do meu pai sem o Pica-Pau, o Zé Colmeia. o Manda-Chuva, os Flintstones e os Jetsons.

Mas hoje, pensando nessas coisas, eu me lembro que o meu pai só se lembrava de não ter televisão, quando ele ainda usava calças curtas, escrevia a lápis e tomava Cremogema toda manhã.

Cansei de ouvir ele rezando essa ladainha e evitei, durante toda a vida, dizer:

– No meu tempo, quando não havia celular…

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje.

– Como assim, não tinha micro-ondas?, perguntou uma menina aqui em casa, outro dia.

Aí, sentei aqui no computador e comecei a enumerar, a fazer uma lista de algumas coisas que não existiam no meu tempo de criança.

Além do micro-ondas e do caixa eletrônico, não tinha cartão de crédito e a gente pagava tudo com dinheiro vivo ou cheque.

O automóvel não tinha cinto de segurança, vidro elétrico e, para abrir ou fechar, era na base da manivela.

Não tinha pedágio, a gente viajava sem ter de parar naquelas cabines e ficar sabendo que a cobradora chama-se Soraia.

No meu tempo, para acordar, tínhamos um despertador em cima do criado-mudo. Para calcular usávamos a calculadora, para se orientar, a bússola, para apontar o lápis, usava-se gilete, para saber o telefone de alguém consultávamos o catálogo telefônico.

No meu tempo, tempo do Q-Suco e do Q-Refresco, não tinha kiwi. A gente comia banana, mamão, laranja, jabuticaba e goiaba no pé, essas frutas comuns. Uva e pêssego, só no Natal.

Quando eu era criança, no tempo do drops Dulcora, da zebrinha do Fantástico e do Renault Gordini, não tinha TV a cabo, os canais eram do 2 ao 13 e todo mundo sabia que a TV Itacolomi era canal 4 e a TV Record, canal 7.

No tempo em que o símbolo da TV Tupi, canal 6, era um indiozinho, a gente vivia sem aplicativo, sem WhatsApp, sem Instagram, sem Netflix, sem CD, sem Spotify, vivia sem Uber, sem mensagem de voz, sem senha, sem código de barra, , sem iFood, sem e-book, sem e-mail, sem Ipad, sem Gmail, sem UOL, sem www, sem mala com rodinha e sem estresse.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SINGULAR E PLURAL

O meu nome completo é Alberto Villas Bouçada Junior. Passei a ser Alberto Villas desde 1972, quando assinei a minha primeira matéria no jornal Estado de Minas, uma reportagem sobre 24 horas no Edifício JK, uma espécie de Copan de Belo Horizonte. Jornalista tinha de ter nome curto e eu segui a norma.

Mesmo assim, de tempos em tempos, o meu pai, que era Alberto Villas Bouçada, passou a receber elogios pelas matérias publicadas no Estado de Minas. Muitos se perguntavam como poderia um meteorologista estar escrevendo matéria sobre a Rua Guaicurus, zona do baixo meretrício de BH.

Passei a adolescência ouvindo a pergunta “o pai ou o filho?” quando alguém da minha casa atendia o telefone, numa época em que adolescente era viciado em telefone fixo. Foi assim que virei Alberto Villas e o meu pai, o Doutor Bouçada.

Nome, cada um carrega o seu, mas alguns exigem explicação. Desde pequenininho, sempre que alguém vai escrever o meu nome, preciso acrescentar o tal do “Villas com dois éles”.

Com o nome começando com a letra A, sempre fui o primeiro da chamada, a não ser naquele segundo ginasial no Caseb, em Brasília, que o Abel ocupou o meu posto. A vantagem era nos dias de arguição oral, quando o professor ia chamando aleatoriamente. Nunca pensava no número 1. Mas quando o exame era por ordem alfabética, estava ferrado.

Quando vou fazer exame de sangue, a mocinha de branco sempre chega na ponta do corredor e, com aquela ficha nas mãos, me chama:

– Alberto Villas-Boas!

E lá vou eu, Villas Boas, mesmo sabendo que não sou Villas-Boas. No corredor, a caminho da sala de coleta de sangue, elas brincam… “Ah, é Bouçada, pensei que era Villas-Boas!”. Já me acostumei com a cena.

Nesses tempos em que rico chama Joaquim, Pedro, João, José e pobre leva o nome de Daiane, Merilyn, Edivaine e Uélinton, a coisa ficou mais complicada. Com essa quantidade de émes, éles, ípsilones, dáblius, é sempre bom soletrar o nome, letra por letra. Outro dia presenciei uma mulher perguntando como se escrevia José, para um simples José. Sei lá, vai ver que a grafia era Josepph.

Todo ano, quando sai a lista dos aprovados no vestibular da Fuvest, eu me divirto com os nomes. Primeiro, vou ver se tem algum Alberto, nome raro hoje em dia. Quando tem dois, é muito. O que mais me chama a atenção são os nomes da moda. Esse ano, eram duas páginas inteiras só de Bernardo.

Não faz muito tempo, passei por um grande susto. Postei uma crítica a TV Globo no Facebook, por ela não ter noticiado que o Ministério Público Federal autorizou o verdadeiro dono do sítio de Atibaia, o empresário Fernando Bittar, a vender aquele polêmico pedaço de terra.

Dois minutos depois, veio o primeiro comentário, me chamando de traidor, canalha, filho da puta, bandido, além de afirmar que eu era um dos responsáveis pelo golpe de 2016. “Você é pior do que a Veja e a Globo, juntas”, esbravejou minha amiga oculta do Face. Fiquei assustado, decepcionado, branco feito uma cera. O desaforo vinha ainda com um complemento: “Você que espalhava fake news sobre o PT, agora vem defender o Lula? Safado!”

Foram dois minutos de perplexidade, tempo necessário para chegar um inbox: “Desculpe, Alberto Villas, eu confundi o senhor com o comentarista Marco Antônio Villa, que foi demitido recentemente da Jovem Pan.”

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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