O PÃO NOSSO DE CADA DIA

foto ac espilotro

Todo dono de padaria era português, chamava-se Manuel, mesmo que não fosse Manuel, e andava sempre com um avental meio sujo de farinha, um casquete na cabeça e um lápis atrás da orelha. A padaria vendia pão e leite e geralmente quem entrava ali, desconhecia o plural.

– Um litro de leite e quatro pãozinho.

A padaria era simples e vendia dois tipos de pão, o de sal e o doce. Em Minas Gerais, lembro-me bem, as pessoas chegavam e pediam “eu quero um pão de sal”! Pão de sal era um pão enorme, meio quilo, que seu Manoel embrulhava num papel cinza, que era chamado de papel de pão.

No fim da vida, meu avô ficou meio pão duro e costumava cortar o papel de pão em quadradinhos pra fazer de papel higiênico, porque achava o Tico-Tico caro demais.

O pão doce era um luxo, não era o pão nosso de cada dia, acho que na minha casa só tinha pão doce em ocasiões especiais, quando vinha uma visita, uma tia mais cerimoniosa. Ele era delicioso, o pão doce. Vinha com açúcar cristal por cima e aquele miolo molinho. Tão gostoso, que o Carlos Sandroni fez uma canção pra ele e Adriana Calcanhoto gravou.

Não adianta mentir pra mim mesma

Ficar me enganando, tentando dizer

Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce

Porque por mais que eu queira esconder

A verdade é que eu adorava pão doce

Não podia passar sem pão doce

Bastava ver padaria, que logo eu ia, que logo eu ia

Comprar

No Natal, as padarias vendiam também o pão pra rabanada. Ele era diferente, cheio de furinhos e só servia para rabanada. Pelo menos era o que dizia a minha mãe, cercada de cinco filhos, todos querendo tirar uma lasquinha daquele pão especial que só era vendido no mês de dezembro.

Quando abro os olhos hoje, fico encantado com as padarias, que os paulistas aqui chamam de padoca. Vendem de tudo. Além do pão, vendem frios, queijos, manteiga, refrigerantes, coxinhas, empadinhas, macarons, refrigerantes, sucos, geleias, vinhos e até Moët & Chandon.

A gente para uns minutinhos na padaria e fica só observando os clientes apontando pra vitrine e a mocinha explicando.

– Esse é de azeitona

– Esse é de laranja

– Esse é de castanha.

– De frutas secas

– De linguiça

– De azeite

– De presunto com catupiry

– De aveia, de milho, de centeio, integral, sem glúten, sírio, italiano, australiano, linhaça, batata, ciabata, preto… é pão que não acaba mais.

Na padaria do seu Manuel, quem trabalhava era o seu Manuel, a mulher do seu Manuel e o filho de seu Manuel. Hoje, são dezenas de mocinhos e mocinhas uniformizadas, especialistas em pães, queijos, frios e geleias. Tem uma aqui perto de casa que contratou um sommelier que te ensina como harmonizar o vinho com os queijos e os pães.

Queijo? Foi bom ter falado em queijo. Se no meu tempo de criança só tinha o queijo Minas e o queijo prato, hoje são dezenas e dezenas.

Camembert, Brie, Gorgonzola, Mozzarella, de búfala, Gruyère, Edam, Gouda, Feta, Provolone, Roquefort, Cottage, Mascarpone, Ricota, Meia Cura… mas essa é uma outra história que conto depois.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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UM DIA QUALQUER

Folheando o livro 1001 dias que abalaram o mundo, me veio à cabeça os dias que não abalaram o mundo, dias quaisquer que costumamos dizer que passaram em branco.

Em 1992, a redação da revista semanal de informação francesa Le Nouvel Observateur, que todos chamam carinhosamente de Nouvel L’Obs, começou a pensar nos trinta anos que a revista faria em 1994. Dois anos antes, numa reunião de pauta, mais precisamente em junho de 1992, foi convocada uma reunião para pensar número especial de aniversário.

No meio da reunião, alguém teve uma ideia brilhante.

A ideia era a seguinte: pedir a escritores de todas as partes do mundo para fazer o relato de um dia qualquer escolhido pela redação. Imediatamente, aqueles especialistas em derrubar pautas colocaram inúmeras pedras no caminho.

Como escolher os escritores?

Como entrar em contato com todos eles?

Vocês acham que eles vão responder?

Como vão nos enviar os textos?

Numa época sem internet, o único meio de enviar o pedido a eles era através de carta ou telegrama, mas por telegrama seria difícil, em poucas palavras, explicar o objetivo. Apesar dos pessimistas, a ideia foi adiante. Uma equipe formada pela direção da revista começou a fazer a lista dos escritores, enquanto outros buscavam os contatos. A carta para eles foi padrão. Resumindo: Escreva como você viu o dia 29 de abril de 1994.

Cartas foram disparadas para a América do Norte, para a América do Sul, América Central, Europa, Ásia, Oceania e Oriente Médio.

O entusiasmo na redação da Nouvel L’Obs era grande quando pensaram que os escritores, naquele momento, estavam começando a receber o pedido.

Thanassis Valtinos, na Grécia, Ryôtarô Shiba, no Japão, Lu Wenfu, na China, Putu Wijaya, na Indonésia, Gamal Al Ghitany, no Egito, Pierre Mertens, na Bélgica, Amoz Oz, em Israel, Ernesto Sábato, na Argentina, Václav Ravel, na República Checa, Daniel Boulanger, na França, Salman Rushdie, na Inglaterra, Kitia Touré, da Costa do Marfim, Osvaldo Soriano, na Argentina e tantos outros.

Para o Brasil, seguiram três cartas. Uma para o escritor baiano Jorge Amado, uma pra o mineiro Autran Dourado e uma terceira para o gaúcho Moacyr Scliar.

Passaram-se alguns dias, meses, mais de ano. Quando o dia 29 de abril de 1994 chegou, a redação da Nouvel L’Obs não cabia em si. Era hoje, uma sexta-feira, o dia escolhido para os escritores colocarem no papel os seus relatos.

Será que vai dar certo?

Será que estão lembrando?

O que vão escrever?

O dia passou sereno, nada aconteceu que abalasse o mundo naquele 29 de abril de 1994. Agora restava esperar os envelopes chegar.

E chegaram. Muitos logo no início de maio, alguns em envelopes pardos, outros em envelopes com as cores das bandeiras dos países e selos maravilhosos. Na data prevista, lá estavam os 240 envelopes, três deles eram verdes e amarelos.

Foi uma leitura atenta e minuciosa. Os primeiros relatos eram bem pessoais.

“Nesse dia, eu sai da cama às sete horas da manhã, onde dormi em Sidney com o amor da minha vida”, começou o seu relato o escritor australiano Frank Moorhouse.

“Abri a cortina e o sol iluminou o meu leito”, escreveu na primeira linha o japonês Junuchi Saga.

“Oito horas da manhã. Aqui é o Irã. Estou no meu pequeno apartamento em Teerã”, contou o escritor iraniano Ramin Jahan Begloo.

‘Meu dia começou às quatro horas da madrugada e só terminou por volta de onze da noite, como de costume, aqui em Brazzaville. Estou nesse Congo podre, nessa África podre, mas me pergunto se não é o mundo inteiro que está podre”, desabafou o congolês Labou Tansi.

“Acordei em Madri e o telefone não me dá sossego”, foram as primeiras palavras do colombiano Gabriel García Márquez.

“Como todos os dias, acordei disputando o jornal com Helena. Ela só toma o café da manhã lendo as notícias. Um dia, ela me disse: Quando eu morrer, não coloque flores no meu túmulo. Coloque jornais”, foi o que disse o uruguaio Eduardo Galeano, ao iniciar o seu depoimento.

“Um dia comum em que não aconteceu nada de extraordinário”. O norte-americano Norman Mailer foi super sincero.

Jorge Amado começou assim: “As emoções do 29 de abril de 1994 começaram no dia anterior, quando visitamos o Axé Opo Afonjá, um dos terreiros de candomblé mais importantes do Brasil”.

Autran Dourado não dormiu à noite: “Acordei várias vezes durante a madrugada, ansioso porque teria de escrever o que aconteceu hoje”.

Os primeiros relatos foram bem pessoais, mas muitos escritores procuraram fugir do narcisismo nostálgico e escreveram contos extraordinários, alguns com um pé no realismo fantástico.

Com aquela montanha de cartas guardadas a sete chaves, os editores começaram a colocar ordem, separando cada depoimento por região do Planeta Terra. A edição demorou um mês para ficar pronta e o resultado foi um número especial de 282 páginas: 240 Escritores contam como foi um dia no mundo.

Nessa tarde ensolarada de maio, me veio na cabeça, a ideia de pedir a alguns escritores brasileiros para contar como foi o primeiro de janeiro de 2023. Isso, se sobrevivermos até lá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AQUELE OUTRO MUNDO

Era um garoto que, como eu, amava passear pela cidade com os pais. Com o pai, a diversão era ir de bonde e parar na avenida principal, no ponto final, que todos chamavam de Abrigo do Bonde. Sair andando pelas sombras das árvores frondosas, chegar ao Café Pérola, onde ele tomava um cafezinho ralo com muito açúcar, numa xícara de porcelana com pires de alumínio. Enquanto o menino se lambuzava com um sorvex Kibon.

Com a mãe, era saborear uma banana split na lanchonete das Lojas Americanas, dar uma passadinha no Mundo Colegial para comprar uma sunga Big – aquela do macaco – que o capitão do time de futebol da rua exigia. Voltavam pra casa de táxi, dirigido por um chofer de camisa branca, paletó azul-marinho e boné.

O menino foi crescendo e, apaixonado por discos, livros e revistas, já ia sozinho ao centro da cidade, de lotação, que também parava na avenida principal de uma cidade que fazia jus ao nome e se chamava Belo Horizonte. Todos os caminhos levavam à avenida principal e era ali, perto da agência central do Correio – que ainda não era no plural – onde ficavam as Lojas Gomes, a melhor e mais sortida loja de discos da cidade.

Foi na vitrine das Lojas Gomes que o menino viu pela primeira vez a capa do disco do Chico, aquele com duas fotos, uma Chico sério, outra Chico sorrindo. Viu também o disco Domingo, do Caetano e da Gal, o Louvação, do Gil, e o Travessia, do Milton.

O menino passava horas dentro daquela loja vasculhando vinil por vinil. Ainda não havia reggae, rap ou funk por ali. Ele se distraia com os discos de música popular brasileira, dava uma passada na sala de música clássica, onde se ouvia baixinho o concerto de Brandemburgo, de Johann Sebastian Bach, até chegar bem no fundo onde ficava os discos de jazz. Pedia ao vendedor para colocar Louis Armstrong, apaixonado que era por ele.

O menino ficava ali fingindo que estava escolhendo um disco da Mahalia Jackson, do Dizzy Gillespie, do Charles Mingus ou do Thelonious Monk, só pra ficar ouvindo Armstrong cantando High Society.

O menino saia da Lojas Gomes nas nuvens, às vezes sem comprar nada porque o dinheiro era curto e seguia seu caminho, parando de banca em banca.

Enquanto as pessoas liam as primeiras páginas dos jornais dependuradas com pregadores de roupa, o menino observava as novidades. Se encantava com aquelas mulheres lindas na capa da Manchete, com uma abelha pousada numa flor na capa da Enciclopédia Bloch, com Ronnie Von na capa da Intervalo e Maria Thereza Goulart maravilhosa na capa da O Cruzeiro, enquanto Dina Sfat ficava escondida por um plástico opaco na capa da Fairplay. Sonhava em ter todos aqueles fascículos dos Gênios da Pintura, da Ciência Ilustrada, da Bíblia mais Bela do Mundo e da Medicina e Saúde. Queria conhecer tudo.

Por fim, a livraria. Foi numa bem antiga do centro da cidade que o menino descobriu as obras completas de Monteiro Lobato, que comprou O meu pé de Laranja Lima, que folheou Ulisses, de James Joyce, que se encantou com o Flicts, de Ziraldo, e descobriu o plano de voo de Saint Éxupery.

O menino foi crescendo, começou a ganhar dinheiro trabalhando num laboratório de defesa vegetal e, com o pouco dinheiro que ganhava, só comprava livros, discos e revistas porque não pagava aluguel, não ia ao supermercado, não tinha carnês para pagar.

A casa do menino foi ficando cheia e quase transbordando de tanto disco, de tanto livro, de tantas revistas. Mas ele não se desfazia de nada, daqueles livros de marxismo que comprou aos dezoito anos, dos Irmãos Karamazov, de Dostoievski que nunca leu, do Agonia e Êxtase, do Irving Stone, Eram os Deuses Astronautas, do Erich Von Däniken, O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, de nada.

Ele também não conseguiu se desfazer das revistas Realidade, Senhor, Rolling Stone, Escrita, José, Ficção, Inéditos, Circus, A Pomba, do Verbo Encantado, nem mesmo das revistinhas do Mickey, do Pato Donald, do Zé Carioca, do Bolinha, da Luluzinha, do Manda Chuva, dos Jetsons e dos Flintstones.

O menino ficou velho e hoje não tem onde cair morto. Vive rodeado dessas lembranças que cobrem doze paredes de sua casa, que exalam um leve cheiro de mofo e um som de Peter, Paul and Mary.

De uns tempos pra cá, caiu a ficha do velho. Tudo isso ao seu redor é apenas o princípio do prazer, porque prazer mesmo ele tem ultimamente, quando está sentado em seu computador baixando os discos Mal dos Trópicos, do Tiago Pethit, Matriz, da Pitty, Viver, do Marcelo Falcão, Transpyra, do Felipe Cordeiro, Desastre Solar, da Laura Lavieri e Bluesman, do Baco Exu do Blues.

Mas, o velho não passa um dia sequer sem levantar a bunda da cadeira e ir até a vitrola pra ouvir, ainda em vinil, um velho disco do baiano João Gilberto chamado Chega de Saudade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O MUNDO DA CRIANÇA

Filho pequeno não é fácil. Quando o meu primeiro nasceu, eu jurava que nunca deixaria o pobrezinho levar um tombo, bater a cabeça na quina da mesa, escorregar no box do banheiro, brigar na escola, chorar. Bobagem, Julião já passou dos quarenta anos e guarda até hoje algumas cicatrizes pelo corpo, de tantos tombos que tomou, esperto que era. Correndo de meia pela casa, foi o mais grave. Nove pontos na testa. Mas virou um homem inteiro, ético, bacana.

Riponga em Paris, não deixava ele ver televisão – o ópio do povo – tomar Coca-Cola – produto do imperialismo – ou comer qualquer coisa industrializada que tivesse acidulante, corante, emulsificante ou coisa parecida. A carne, a gente substituía pela soja, o chocolate por uma mistura de cereais e o refrigerante pelo suco de pamplemouse, espremido com as mãos e sem açúcar. Fui assim uma espécie de Bela Gil do século passado.

Veio a segunda, a Sara, e a história começou a mudar. Ela chorava, batia a cabeça na quina da mesa, escorregava pela casa andando de meia, adorava escalar o vão da porta, tomava chuva e vento encanado. E eu não achava assim tão grave, ficava menos aflito. Aprendi que criança precisa chorar, cair, tomar chuva, se defender.

Maria Clara, a terceira, foi mais tranquilo ainda. Eu já tinha passado dos 40 anos e via a vida com outros olhos. Ela cortou o dedo numa lata de leite Ninho, deu pontos, tomou antitetânico e a vida continuou. Mas repito, filho pequeno não é fácil. Nunca me esqueço dos banhos quase frios no meio da madrugada pra baixar a febre, as compressas e as idas ao Pronto-Socorro do Samaritano com a menininha fazendo corpo mole de verdade.

Marília, a quarta, seguiu a mesma linha. Febre, dedinho cortado brincando com a bicicleta de cabeça pra baixo e uma história engraçada pra contar. Ela, pequenininha, seis meses, precisava de uma foto pro passaporte. E lá fomos nós numa maquina de tirar fotos 5X7. Enquanto a mãe colocava as moedas e apertava o botão, eu segurava a menina, tentando focá-la na tela. Quando a foto saiu naquele buraquinho de vento, lá estava ela de corpo inteiro numa foto 5X7, que a Polícia Federal não aceitou, claro.

Mas eu vim aqui pra falar de comida. Hoje, a moda é deixar a criança comer do jeito que ela quiser. Os pais modernos abandonaram definitivamente a papinha, o amassadinho, a colherzinha, aquele papo furado de abre o bocão ou olha o aviãozinho.

O negócio agora é entregar pro bebê a comida em sua forma mais natural possível. Beterraba, batata, cenoura, abobrinha, mandioquinha, para que ela sinta a consistência, a textura e o sabor de cada alimento. Tenho visto bebê brigando com uma manga inteira, sem dentes tentando morder uma maçã e outros lutando para chupar uma laranja cortada ao meio. É divertido, principalmente pra quem já tem quatro filhos criados.

Lembro-me bem que aquele ritual de cozinhar os legumes, cozinhar o ovo e separar a gema e depois passar tudo no liquidificador. Era um trabalhão danado. Depois, ainda tinha de acrescentar uma manteiguinha, esperar esfriar um pouco, sentar o bebê na cadeirinha e começar aquela novela diária de fazê-lo comer.

Que eu me lembre, Sara era a mais rebeldezinha dos quatro, às vezes cuspia a comida na primeira aterrisagem do aviãozinho e achava graça. Cansamos, então ela acabou sendo pioneira em provar os alimentos separados. Lembro-me bem que ela se apaixonou pelo limão, que chupava como se fosse um pirulito e sem fazer careta.

Quarenta anos atrás, em pleno 1979, a gente resolveu deixar que ela comesse sozinha. E foi assim. Hoje, ela cuida muito bem do meu neto Raul, é uma dedicada professora de História e que, pequeninha, comia até mesmo um chuchu cozido com gostinho de tênis Conga e sem fazer cara feia. A foto acima não me deixa mentir.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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foto Alberto Villas

 

ANDAR COM FÉ

 

Cheguei a Paris pela primeira vez, muito cansado depois de horas e horas de viagem de trem, num vagão desconfortável que me trouxe de Lisboa. Minha amiga estava eufórica me esperando na estação, ansiosa por notícias do Brasil, numa era sem e-mail, sem WhatsApp, sem nada. Mal sabia ela que, na matula, eu trazia um pedaço de goiabada cascão, uma latinha de guaraná e algumas paçoquinhas Amor, já meio estropiadas.

Sãozinha morava no coração do Quartier Latin, num quarto quatro por quatro, cômodo que seria minha moradia na cidade nos próximos invernos, nem Deus sabia quantos. Joguei a bagagem num canto, descemos para tomar uma minestrone no Boulevard Saint Michel e fomos fazer um rolê pela cidade, mesmo eu sentindo os pés inchados, mais de trinta horas sentado numa poltrona de trem.

Descemos o Boul’Mich, entramos nas ruelas do Quartier Latin e, de repente, surge majestosa e iluminada, a Catedral de Notre-Dame. Arrepio foi pouco para ilustrar minha emoção. Fomos caminhando, passamos na porta da livraria Shakespeare and Company, ainda aberta. Fiquei maravilhado com as pilhas de National Geographic antigas na porta e, na vitrine, a última edição da New York Review of Books.Chegamos bem perto da Notre-Dame que, tarde da noite, já tinha a porta fechada. Fiquei ali sentado num cone de cimento, maravilhado observando cada detalhe daquela obra prima da humanidade. E fomos embora.

A Notre-Dame virou para mim, a partir daquele dia, o porto seguro, o pitstop para qualquer andança pela cidade. Logo Sãozinha contou que todo domingo, dezoito horas em ponto, havia um concerto gratuito na catedral. Mozart, Chopin, Dvorák, Sibelius, cada domingo um ecoava suas músicas pelas paredes pesadas que me protegiam.

Toda semana, ia bem cedo para conseguir um assento e ouvir os concertos. Era o momento em que fechava os olhos e viajava até o Brasil, saudade à flor da pele. Pensava em tudo, do índio guarani ao guaraná. Pensava nos meus país, nos sobrinhos que iam nascendo, no mar do Espírito Santo, no disco Qualquer Coisa do Caetano, no quibe delicioso que minha sogra Dora fazia toda quinta-feira, no torresmo do Mercado Central, na mandioca frita, no pé de caju, no suco de cajá, no sol dourado, nas coisas do meu país.

Durante meus anos de Paris, voltava ali na Notre-Dame sempre e, cada vez que ia, acendia uma vela para minha mãe, católica fervorosa, amante de uma claridade iluminando suas novenas. Andava por toda a catedral, arrastando o tamanco sueco para não incomodar os fiéis, naquele chão gasto pelos séculos dos séculos.

Os jardins que circundam a catedral, uma outra paixão. Nas tardes de primavera, sentado num banco, ficava admirando os mil tons de verde das folhagens, como se estivesse longe dali, curtindo um jardim japonês em Kyoto. Via os brotinhos despontando nas árvores ainda secas do inverno e observava, ali ao lado, o Sena correndo como se fosse um rio que estava passando na minha vida. Caudaloso, esverdeado, com bateaux-mouches cheios de japoneses indo pra lá e pra cá.

Nunca fui a Paris e deixei de ir a Notre-Dame. Nunca. E toda vez que vou, continuo acendendo uma vela pra minha mãe, já morta, mesmo sabendo que nas suas novenas já não existem mais claridade.

Numa dessas idas, a minha filha com dezoito anos de idade e um olhar de lince, flagrou no chão da catedral, as luzes coloridas que vinham dos vitrais e clicou.

A revelação ficou linda e a fotografia acabou sendo publicada na revista do jornal Le Monde, em maio de 2008, ilustrando um texto cujo título era Marcher avec la foi, em bom português, andar com fé.

Hoje, a minha Notre-Dame praticamente não há mais. Mas tenho certeza que um dia verei a catedral ressurgir das cinzas, e lá estarei para acender uma vela para minha mãe e ouvir, num dia de domingo, mais uma vez, a Valsa Triste, de Jean Sibelius.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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foto Maria Clara Villas

 

ROSA DOS VENTOS

“E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima”

Chico Buarque

Eram sete horas da manhã quando cheguei em casa, um bagaço. Moído, com os ossos doendo, os olhos ardendo, as pernas bambas.

Depois de uma noite inteira de trabalho braçal, só consegui entrar em casa e, sem acender as luzes, apalpar as estantes de livros, localizar o tatame no chão e esticar o corpo.

A cabeça doía e aquele barulho infernal da furadeira não desaparecia. Quando o dia começou a clarear em Paris, abri os olhos e enxerguei na parede um único pôster antigo que ali havia, cor de laranja, uma casa feita de garrafa de Coca-Cola, anunciando uma exposição sobre arquitetura marginal nos Estados Unidos. Cobri a cabeça com um travesseiro fuleiro, disposto a acordar por volta de meio-dia porque, seis da tarde, a luta continuava.

Foi nesse intervalo que acordei assustado, na certeza de que Maria Bethânia estava ali na sala da minha casa, onde dormia. Cheguei a ouvir sua voz, ver sua saia rodada cheia de miçangas e uma camiseta apertando os seios miúdos, desbotada pela água sanitária. Fiquei de pé e olhei para os lados. Os vidros da janela suavam, anunciando a diferença de temperatura de inverno lá fora, e o quentinho de um aquecedor a gás aqui dentro.

Saí percorrendo os outros três cômodos da casa, meio atordoado, um pouco decepcionado por não encontrar Bethânia, mesmo na certeza de ela estar por ali.

Morava em Paris já fazia muitos anos, mas insistia em ouvir num velho disco de vinil cheio de chiados aquele show ao vivo que vi no Teatro da Praia, no Rio, pouco antes de partir. O disco veio na minha bagagem de mão, temeroso de empenar dentro da mala. A Rosa dos Ventos que trouxe, foi presente de uma amiga.

As noticias eram as seguintes:

Vaticano elege João Paulo I, um papa moderado.

 Nasce em Londres o primeiro bebê de proveta.

 João Baptista Figueiredo é escolhido como novo presidente da República.

 Brigadas Vermelhas garantem que Aldo Moro está vivo.

 Itália católica legaliza o aborto.

 Corpo de Charles Chaplin some do túmulo.

 Fim do AI-5 inicia abertura no Brasil.

O meu trabalho, de meia-noite às seis horas da manhã, era ajudar na instalação de guard-rails na autoestrada A4, não muito longe de Paris. Meia-noite em ponto, cones fechavam parte da autoestrada para que pudéssemos começar a colocar estacas, perfurar o ferro e encaixar o aço.

Trabalhava numa equipe com um agrônomo boliviano, um engenheiro colombiano, um estudante peruano e um professor de educação física brasileiro. Todos com carteira de estudante, mas impedidos de trabalhar. Clandestinos! No final de cada madrugada de trabalho, o mestre de obras entregava um envelope para cada um, com duas notas de 200 francos e uma de 100.

As madrugadas eram longas e frias. Lembro-me bem que, de tempos em tempos, colocávamos nossas mãos, protegidas por luvas de couro, em cima do gerador para aquecê-las. O café vinha de hora em hora, puro, servido em copinhos de plástico duro e resistente.

Naquele 1978, não costumava anotar meus sonhos, como faço há mais de dois mil dias por recomendação médica. Mas fazia anotações quase que diárias do que rolava naquele meu exílio.

É assim que às vezes descubro coisas não sei se banais, como o sonho com Maria Bethânia e o trabalho de instalar guard-rails na autoestrada A4, perdidos no tempo.

Sabia que, um dia, essas anotações poderiam ser úteis na minha vida, matéria-prima para escrever crônicas, de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr. O velho disco de vinil já não existe mais, perdeu-se com o tempo e o casamento que ficou pra trás. Foi transformado em CD que agora adormece numa das estantes. Ouço sem chiados no Spotify e ainda me emociono com a voz de Maria Bethânia e os versos de Batatinha:

Se não acerto chorar

Mesmo assim eu vou passando

Vou sofrendo e vou sonhando

Até quando despertar

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRESIDENTE MALUQUINHO

O que não tem governo nem nunca terá. O que não tem vergonha nem nunca terá.  O que não tem juízo… (Chico Buarque)

Já tivemos sim, um outro presidente assim. Eu tinha onze anos quando ele tomou posse e, se forçar um pouco a memória, vou me lembrar dele andando de bonde na Rua da Bahia, em Belo Horizonte, fazendo campanha. Suado e meio maltrapilho, subia no bonde e colocava um boné de condutor, consertava o cabelo que não tinha conserto, ajeitava os óculos de aro grosso e se misturava ao povo, fazendo discursos com um sotaque cem por cento paulistano.

A musiquinha da campanha tomou conta do Brasil e nunca saiu da minha cabeça:

Varre, varre, varre, varre vassourinha!

Varre, varre a bandalheira!

Que o povo já tá cansado

De sofrer dessa maneira

A vassoura era a sua logomarca e ele costumava tirar fotos empunhando uma de piaçava, sua arma contra a corrupção que já havia por aqui, naquele 1961.

Foi nesse ritmo de varrer a bandalheira e nessa euforia popular e populista que, um dia, o homem acabou elegendo-se presidente da República. Vestiu um terno melhorzinho pra posse e foi pra Brasília, que ele odiava.

Antes do Carnaval chegar, o novo presidente começou a agir. O primeiro ato foi, em nome da família e dos bons costumes, proibir o uso do biquíni. Numa época em que já tinha gente de olho no monoquíni, ele voltou aos tempos dos maiôs Catalina.

O segundo ato foi mandar pintar todos os carros oficiais de preto e escrever na porta: Serviço publico federal/Uso exclusivo em serviço. Junto com essa medida, pensou em uniformizar os funcionários públicos. Todos teriam de usar um slack caqui para ir trabalhar. Da mulher do café até a chefe do almoxarifado. Do porteiro ao poderoso chefão. O uniforme foi logo apelidado de pijânio e nem deu tempo da moda pegar.

Depois que conseguiram tirar essa ideia da cabeça do presidente, ele começou a implicar com os galos de briga. Numa canetada, proibiu as rinhas no país, para tristeza geral dos criadores de galos índio. Brigas oficiais, nunca mais. Elas passaram pra clandestinidade, bem como todos os outros bichos do jogo.

O presidente era exótico dos pés à cabeça. Passou a usar slacks ao invés de terno pra dar bom exemplo. Só vestiu terno no dia em que colocou a faixa da Ordem do Cruzeiro do Sul no peito do companheiro Che Guevara, o que provocou a ira do Tio Sam, como eram chamados os americanos naquela metade do século passado.

Numa era sem Twitter, do lápis e da caneta tinteiro, o presidente governava através de bilhetinhos. Andava com um bloquinho num dos bolsos do slack e a toda hora mandava e desmandava, despachando os bilhetinhos.

O presidente durou pouco no poder. Sete meses e o governo foi embora, prematuro. Num desses bilhetinhos, deixou uma mensagem pra nação garantindo que foram forças terríveis, forças ocultas que estavam tramando contra ele e que o levou a renúncia. O presidente pegou o boné e foi embora.

Bat Masterson era uma figura lendária do Velho Oeste americano e fazia muito sucesso na televisão em 1961. Sua musiquinha também grudou no ouvido de todos:

No velho Oeste ele nasceu,

E entre bravos se criou

Seu nome lenda se tornou,

Bat Masterson, Bat Masterson

Rapidinho, a canção virou uma paródia que se espalhou pelo nosso faroeste caboclo:

No Mato Grosso ele nasceu

E em São Paulo se criou

Foi pra Brasília e governou

Mas não aguentou, renunciou

Foram sete meses de bizarrice, trapalhadas, chacotas, piadas e incertezas. Agora, quase seis décadas depois, o que todo mundo pergunta nos botecos é: quanto tempo o Bolsonaro vai durar?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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TEMPOS MODERNOS

Não sei se saberia criar quatro filhos nos dias de hoje

Não vou dizer aqui que, numa hora dessas, as crianças de hoje deveriam estar na rua jogando pelada com bola de meia, apostando corrida com carrinho de rolimã ou jogando bolinha de gude no lote vazio.

Não vou dizer que deveriam estar criando pombos, subindo no muro pra roubar goiaba do vizinho ou jogando batalha naval.

O meu pai ficou perplexo quando viu que os dois filhos não queriam mais colecionar carrinhos da Mathbox, armar o forte apache ou brincar de xerife e bandido. Queriam passar a manhã vendo Os Jetsons, Os Flintstones, o Manda-Chuvae o Zé Colmeia na televisão.

OS JETSONS (FOTO: REPRODUÇÃO)

Minhas três irmãs também abandonaram as panelinhas, a boneca Amiguinha e deixaram de pular corda.

O CLÁSSICO MATHBOX

O meu pai, que já não via graças nos carrinhos da Mathbox porque os dele menino, era ele quem fazia com caixinhas de fósforo e tampinhas de garrafa, ficou ainda mais assustado de nos ver hipnotizados diante da telinha vendo aqueles desenhos animados e o Circo do Carequinha.

Quando o meu primeiro filho nasceu, bem longe daqui, havia uma preocupação muito grande com a televisão, considerada por nós, radicais, o ópio do povo, uma máquina de fazer doido.

Voltamos pro Brasil com dois filhos pequenininhos e encontramos aquele Brasil que os militares diziam ser um país que vai pra frente. Sim, ia pra frente da televisão. Tínhamos pavor que eles viciassem em Xuxa e em Angélica e, com isso, a televisão só entrou na nossa casa quando o mais velho tinha sete anos.

Éramos radicais na comida e na diversão. Não comiam açúcar, não tomavam Coca-Cola, não mordiam Cheetos, só ouviam Os Saltimbancos, a Arca de Noé, a Casa de Brinquedos e o Advinha o que é. Na televisão, só assistiam a Ra-Ti-Bum e Glub Glub. Os dois cresceram e foram felizes para sempre.

Depois veio a segunda safra de filhos e a história era outra. A onda eram As Chiquititas, um desenho muito louco chamado A Vaca e o Frango e os filmes da Disney, O Rei Leão, Pocahontas, Procurando Nemo, Toy Story e A Bela e a Fera. Saíram ilesas de Xuxa e Eliana já não cantava mais “meus dedinhos, meus dedinhos, como estão, como estão”. As duas também foram felizes para sempre.

Hoje não temos mais crianças em casa, mas temos netos, afilhados, crianças pra todos os lados nos fins de semana. Sim, são cem vezes mais espertas do que fomos, apesar de não saber jogar finca, fazer guerra de mamona, jogar queimada ou brincar de passa-passa-gavião.

Eu não sei como faria se meus filhos hoje tivessem na faixa dos cinco, oito, dez anos. Como conseguiria deixá-los um pouquinho longe do smartphone ou do iPad? Estabeleceria horário? Esconderia esse apaixonante objeto do desejo? Proibiria de vez? Não sei.

A minha aflição de avô é diferente da de pai, eu sei. Sei que o meu neto Raul, por exemplo, adora comer ervinhas no canteiro, ficar horas no balanço da pracinha, ouvir a história do João e o Pé de Feijão, achar a lua no céu antes de todo mundo e ajudar a varrer a casa em dias de faxina.

Outro dia, de férias aqui em casa, cansados de tanta atividade, de tanto brincar com o tobogã maluco, avô coruja e neto querido, deitaram aqui no chão da minha sala pra assistir, abraçadinhos, eu e ele, a tal da Galinha Pintadinha. Pensando bem, acho que saberia sim criar filhos hoje. Não vou mentir pra vocês. Adorei a Galinha Pintadinha.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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foto Raul: Alberto Villas

ILHA DO NORTE

Quando o dia amanhece cinza como hoje, chuvoso, meio frio, o excesso de passado toma conta de mim. Então, lembro-me de Londres, a primeira vez que pisei ali na esperança de escrever um livro e, quem sabe, nunca mais voltar ao meu país tropical, com quem andava rompido.Tinha vinte e poucos anos, a minha calça Lee era desbotada pela água sanitária, a camiseta do Grateful Dead era preta, e os tamancos eram suecos. Os cabelos eram rebeldes, presos com um elástico para tapear a polícia inglesa, severa com os forasteiros que ali chegavam. Na mochila, havia apenas três cadernos Avante!, duas canetas Bic de cor roxa, sonhos guardados e uma boa dose de ilusão.
Gostei dali à primeira vista. No primeiro dia, ao chegar na Estação de Waterloo, sai andando pelas ruas molhadas brilhantes, encantado com as árvores uniformes, a limpeza das calçadas, o silêncio, os prédios revestidos de tijolinhos bonina com portas maravilhosas, vermelhas, verdes, azuis, amarelas e vinho. Cada uma mais linda que a outra.
Procurando no parque o albergue que me abrigaria nos primeiros dias, passei por esquilos comendo nozes, cavalheiros de fina estampa, galgos elegantes com um olhar blasé, nem aí para os pombos. Até chegar ao meu destino, passei por gansos, marrecos de Pequim, gaivotas, pardais e muitos melros beliscando o gramado.
Me instalei num pequeno quarto, o único para um hóspede só. Havia uma cama de solteiro e duas toalhas imaculadamente brancas em cima dela. Uma cadeira acolchoada, um guia da cidade, uma escrivaninha, uma chaleira elétrica em cima dela, dois ou três pacotinhos de chá Twinings de menta e nada mais.
Uma janela pequena dava para o gramado do parque e estava constantemente escorrendo água pelo vidro, suando, uma alquimia entre o quente ali dentro e o frio lá fora.
Lá fora, era Londres. Sonhava um dia em chegar ali e ir ficando. Gostava daquele ar sombrio, cinza, frio, triste, estrangeiro, europeu, que via de tempos em tempos nas páginas da revista Manchete. Meu inglês ruim seria corrigido em pouco tempo ao assistir a BBC todos os dias, ao ler o sisudo The Times e as revistas que gostava: Bird Magazine, Willd Life, New Statesman, Melody Maker, New Musical Express, Radio Times e Time Out.
Durei três dias naquele albergue, com dificuldade para aprender o inglês britânico e sem saber como a chaleira elétrica funcionava. Três dias era o tempo permitido para cada hóspede e nem insisti em ficar mais. Saí com a mochila nas costas rumo a Earls Court, onde me disseram que havia pequenos hotéis, baratos e limpos.
Cheguei em um simpático, depois de muito caminhar, de almoçar um arroz com curry e peru desfiado num pequeno restaurante indiano, onde a tristeza no olhar dos donos me comoveu, olhar que acabei me acostumando com o passar dos dias.
Dias que passei num hotel de chão irregular, janela travada pela tinta com que foi pintada, cama de casal, um quadro mostrando um cavalo em bico de pena e o nome dele: Filho da Puta, assim mesmo em bom português. Todas as noites, quando chegava no quarto do hotel, conversava com o Filho da Puta.
Contava a ele as lojas de discos que havia descoberto, os novos parques que havia percorrido, os cassinos onde arriscava algumas velhas moedas em troca de uma pequena fortuna que nunca veio. E as horas que passava na WHSmith decifrando os títulos dos livros, e folheando a Bird Magazine, sentado numa poltrona de couro marrom.
Tudo isso em busca de imaginação para um livro de contos curtos que chamaria O colecionador de passarinhos, uma ideia que vinha costurando desde que ouvi Blackbird pela primeira vez, no álbum branco dos Beatles, quando revi Ospássaros, de Alfred Hitchcock e li O corvo, de Edgar Allan Poe.
Não durou muito Londres na minha vida. Foi apenas um sonho de algumas noites de inverno, coisa de quem tem vinte e poucos anos e uma bagagem cheia de sonhos e ilusão. No dia da despedida fui até a feira de Portobello e comi um fish & chips embrulhado num papel de pão acompanhado de uma Guinness, sentado no meio-fio, não poderia ser de outra maneira.
São apenas algumas as lembranças dos poucos dias que passei ali. A fotografia da faixa para pedestres de Abbey Road, os primeiros discos de reggae que escutei nos guetos jamaicanos, os caramelos que roubei na Harrods, os cadernos Avante! na mochila, o prazer de andar no segundo andar dos ônibus vermelhos sem saber pra onde ir, a noite que passei dentro de uma cabine de telefone, com pouco dinheiro no bolso, comendo papinha da Nestlé.
Hoje, amanheceu assim aqui em São Paulo. O tempo cinza lá fora, a chuva fina caindo e o céu pesado nos protegendo, me fez lembrar da primeira vez que cheguei a Londres sonhando ficar para sempre e do livro O colecionador de passarinhos, que nunca escrevi.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

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O VIZINHO DO OITAVO

Tenho uma amiga muito divertida, muito animada, que gosta de conversar com todo mundo, puxa papo todo dia com o porteiro do prédio, com a diarista, com quem está dentro do elevador, na fila do banco, na feira escolhendo tomates durinhos, na porta do banheiro do shopping ou na fila da Claro.

Minha amiga gosta de ser amiga de todo mundo, ninguém escapa do seu papo, nem que seja pra comentar o calor, o frio, se vai chover ou não vai chover. Tudo que acontece ao seu redor é assunto, até mesmo aquele pernilongo de barriguinha cheia pousado no teto.

– Como tem pernilongo por aqui, né?

Quando minha amiga se mudou para um grande condomínio, foi um problema. Era gente demais pra fazer amizade. Conseguiu muitas, na piscina, no salão de festas e, principalmente, nas reuniões de condôminos.

Ficava às vezes assustada de ver tanta gente reunida, gente que morava em cima dela, embaixo, ao lado, em frente e, mesmo depois de alguns anos morando ali, nunca tinha visto.

Conheceu donas de casa, advogados, professoras, engenheiros, comerciantes, contadores, tinha de tudo naquele grande condomínio. Famílias com um filho, dois, três. Gente solteira, gente com trinta anos que ainda morava com os pais, artistas, jornalistas, gays dentro do armário e fora.

Toda vez que minha amiga estacionava o carro na garagem, ficava imaginando quem seria dono daquele Onyx laranja, daquele fusquinha azul-calcinha, daquela camionete Toro novinha e daquele Mini Cooper preto e branco.

Era difícil para ela decifrar quem era quem naquele condomínio quase cidade. Com alguns, ela fez uma amizade mais sólida, gente que ela conheceu no dia da inauguração da churrasqueira. Entre um coraçãozinho de galinha e uma costelinha, ela ficou sabendo que a moradora do sétimo também estudara no Colégio de Aplicação, que o morador do quinto era o dono do Mini Cooper preto e branco e que o senhor grisalho do décimo era o pai de uma famosa apresentadora de TV.

Mas tinha um morador que ainda intrigava a minha amiga, aquele que sempre parava no oitavo andar. Às vezes, entrava no elevador, cumprimentava todo simpático, comentava que estava um dia bom pra piscina, que era o dia do rodízio dele e que com os assaltos no bairro, estavam precisando colocar câmeras de vigilância no muro do prédio.

No dia seguinte, ao cruzar na portaria, ele sequer olhava pra ela, fingia que não conhecia e se ela dizia bom dia, ele muitas vezes nem respondia.

– Só pode ser um cara bipolar, ela pensou.

Na semana passada, abriu a porta do elevador e o morador fez questão de ajudá-la a colocar pra dentro todas as sacolas de cânhamo que comprara no Whole Foods Market de Picadilly Circus, em Londres. Ele foi gentil e até elogiou as sacolas, tão resistentes e bonitas.

Mas, no dia seguinte, subiu no elevador, desceu, como sempre, no oitavo andar, sem sequer olhar pro seu rosto.

Minha amiga chegou em casa, abriu a porta e foi logo dizendo pra filha:

– Que cara louco esse do oitavo. Tem dias que me cumprimenta, que conversa, tem dias que finge que nem me conhece. Agora, nunca mais cumprimentar. Vá se danar!

Foi quando a filha olhou pra ela e disse:

– Mãe, você não percebeu que eles são dois, que são gêmeos?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TOMBO

Pequena história de um acidente dentro de casa

Eram duas e meia da madrugada quando Julião, com nove anos de idade, despencou da cama beliche, estatelando no chão. O barulho foi um barulho surdo, seco, nós não imaginávamos que seria um tombo do beliche, no máximo suas revistas Recreio que ele costumava ler antes de dormir.Do tombo, vou contar mais tarde.

Julião era um menino muito curioso, sempre foi. Pequenininho ainda, era apaixonado por três coisas, além das revistas Recreio: Bandeiras, moedas e capitais. Todo final de ano, quando eu chegava em casa com o Almanaque Abril, ele debruçava sobre aquele calhamaço pra conferir as bandeiras de novos países que surgiam na África, as mudanças de moedas e a população das capitais.

Sim, antes do tombo, ele andou se interessando também pela população das capitais. Vinha encantado dizer que morávamos numa cidade que tinha uma população quatro vezes maior que a de Copenhague, a capital da Dinamarca.

Assinávamos a Folha e o Estadão e ele, logo cedo, ia direto nos cadernos de Economia pra ficar comparando o marco com o dólar, o franco com o peso, o iene com o dracma, numa época em que ainda não havia o euro. Vivia me pedindo laudas do Estadão, onde eu trabalhava, pra fazer gráficos e planilhas, reais e imaginárias. Gostava de fazer projeções.

As bandeiras, outra paixão, ele desenhava com esmero. Copiava direitinho do Atlas Melhoramentos, da enciclopédia Geografia Ilustrada que tínhamos em casa e também do Almanaque Abril, que trazia, em cores, cada uma delas.

Julião sempre foi uma figuraça. Nessa época, ainda sem Internet, eu jurava de pés juntos que ele seria economista, ia fazer FGV e ter uma profissão nada a ver com a nossa. Errei feio. Julião fez a Escola Guignard e hoje mexe com informática, com teatro, com arte e adora entrar numa briga política no Facebook. Nesse último quesito, não sei quem ele puxou. Risos.

Ele aprendia essas coisas olhando também um mapa-mundi que tínhamos em casa, enorme, brinde da revista Geo. Costumava ficar medindo a distância entre um país e outro com uma régua de 30 centímetros. O mundo para ele não tinha curvas.

O mapa do Brasil, Julião olhava com desconfiança porque ele não nascera em nenhum daqueles Estados. Não era paulista (apesar de ser um pouco), não era mineiro (apesar de ser muito), não era carioca, nem gaúcho. Na carteira de identidade dele estava escrito: Nacionalidade – Paris, França.

Agora vamos ao tombo. Quando vimos o Julião estatelado no chão, a primeira coisa que pensei foi: Será que bateu a cabeça em algum lugar? Será que está consciente de tudo? Levantamos o menino, meio sonolento, desorientado e a saída que encontrei foi fazer perguntas:

– Qual é o seu nome?

– Julião.

– Sobrenome?

– Villas.

Não me contentei e prossegui:

– Qual é a capital do Japão?

E ele respondeu, meio irritado:

– Tóquio!

– E da Tchecoslováquia?

– Praga!

– Como é a bandeira do Líbano?

Vermelha, branca e tem uma árvore no meio!

– E a moeda da Suíça, qual é?

– Franco Suíço.

Não tive dúvidas, carreguei ele no colo e devolvi pra parte de cima do beliche. Julião dormiu feito uma pedra o resto da noite.

No dia seguinte, liguei pro médico só pra narrar o acontecimento da madrugada e, além de rir, ele advertiu:

– Você não deveria ter colocado ele na cama imediatamente. Deveria ter ficado uma meia hora conversando, para que ele despertasse completamente.

Pensei com os meus botões: Conversar sobre o quê, aquela hora da madrugada? Sobre o dirrã marroquino, a moeda do Marrocos? A bandeira verde, amarela e azul do Gabão ou sobre Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim? Vai que ele não respondesse…

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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SONHOS

Pequena história de um amigo que continua no lado esquerdo do meu peito

Um dia, meu médico disse que dificilmente eu teria problemas de memória na velhice. Não somente pelo jornal diário da família que escrevo e cultivo, desde 6 de novembro de 1977, mas também porque trabalho com a cabeça dia e noite. Fiquei feliz.

Meu pequeno museu do jornalismo não é informatizado e funciona à base da lembrança. Outro dia, um amigo meu perguntou se eu tinha uma reportagem sobre racismo, publicada na revista francesa Actuel e eu me lembrei perfeitamente, era assunto de capa. Fui procurar na minha revistaria e, depois de muito vasculhar, achei. Era uma revista com mais de quarenta anos.

Esse mesmo médico me sugeriu anotar meus sonhos diariamente, já que gosto de escrever, às vezes misturando a realidade com a ficção. Topei e hoje já tenho 1843 sonhos registrados e catalogados. Desde aquele janeiro de 2014, nunca mais deixei de sonhar um dia sequer. E registrar.

Sonho constantemente com passarinhos. São eles que mais aparecem nos meus sonhos. Curiós, periquitos australianos, canarinhos belgas, coleirinhas. Freud tentou me explicar com o livro A Interpretação dos Sonhos, mas não conseguiu. Li muito sobre o assunto, mas nunca cheguei a uma conclusão. O Guia dos Sonhos, Sonho e Arte, O Livro dos Sonhos, O Livro dos Sonhos e da Sorte, li tudo isso por curiosidade.

Diz a lenda que sonhar com dentes caindo significa que alguém da família vai morrer. Já sonhei muito, fiquei preocupado, mas fomos em frente. Diz a lenda que sonhar com fezes significa muito dinheiro. Nunca sonhei.

Minha mãe sonhava com coisas incríveis. Um dia, o meu pai foi Banco do Brasil receber o seu ordenado, voltou para a repartição e o dinheiro sumiu. Naquela época, as pessoas iam ao banco e levavam pra casa o salário inteiro. Um mês depois, minha mãe sonhou com um funcionário do Serviço de Meteorologia, que havia sido assassinado num hotel no centro de Belo Horizonte e ele disse a ela que o envelope com o dinheiro estava caído dentro do sofá de couro que ficava na sala do meu pai. Ela ligou pra ele na certeza de que o dinheiro estava lá. Viraram o sofá de cabeça pra baixo e o envelope caiu no chão com o ordenado do meu pai.

Lembro-me bem quando minha irmã mais velha era só preocupação, medo de tomar bomba em Francês no Colégio Sion. Minha mãe sonhou com o mesmo funcionário assassinado, o Osvaldo Menezes, dizendo para ela estudar o ponto de número 9. Era uma prova oral em que o aluno tirava de dentro de um saquinho de pano, um número com um assunto e tinha de dissertar sobre ele. Não deu outra. A minha irmã enfiou a mão no saquinho de pano e tirou o ponto número 9. Ela quase desmaiou na hora, mas recuperou-se porque sabia tudo de cor. Tirou 10 com louvor e foi aprovada.

Além dos passarinhos, sonho muito com peixes voando, aviões caindo, elevadores abertos de prédios em construção, paredes para serem escaladas e esquilos andando pelos gramados de Londres, Sonho muito com pessoas.

A pessoa que mais sonhei desde o dia em que comecei a anotar os meus sonhos é a minha amiga Sandra Annenberg. Treze vezes. Não sei se Freud explica. Talvez a vontade que temos de voltar a trabalhar juntos novamente, explique. Nos sonhos, temos sempre muitos projetos, como se sonho fosse vida real.

Não sei se é porque editei no inicio dos anos 2000, o livro A Fantástica Volta ao Mundo, de Zeca Camargo, ele está em segundo lugar nos meus sonhos, mas distante da Sandra. Seis vezes. Hoje resolvi contar aqui essa história, porque o meu amigo Geneton Moraes Neto, morto em 2016, empatou com Zeca Camargo essa noite.

Há várias semanas venho sonhando com ele e hoje foi um sonho, digamos, de verdade. Geneton tocou a campainha da minha casa e quando atendi, disse a ele:

– Eu sabia que você não tinha morrido!

Geneton vestia uma calça Lee, uma camisa cor de rosa e um tênis Conga sem cadarço. Nos abraçamos fortemente e ele estava vivo, senti isso. Estava ali para retomarmos o nosso projeto.

Nosso projeto, quando o seu coração parou de bater, estava andando. Queríamos fazer o Museu do Jornalismo, juntando meu acervo ao dele. Estávamos entusiasmados quando ele se sentiu mal numa ilha de edição e foi levado ao hospital, onde passou alguns meses e acabou nos deixando.

Como penso muito nesse projeto, talvez venha sonhando muito com ele, Geneton, amigo do peito. Não sei que fim levaram suas revistas, seus recortes de jornal, suas cadernetas de anotações, suas fitas K-7, seus vídeos em Super-8. Falha minha. Deveria ter procurado a Beth, sua mulher, mas não procurei.

Como toda vez que ia ao Rio, jantava com ele no Restaurante À Mineira, em Botafogo, onde comíamos aquele angu mole e planejávamos o Museu do Jornalismo, ir à Cidade Maravilhosa virou um sonho. O Rio de Janeiro está em terceiro lugar. Quatro vezes.

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A PEDRA FUNDAMENTAL

A casa da Rua Rio Verde ficou pronta em julho de 1950. Não houve festa de inauguração, nem mesmo chope na laje, quando a laje secou. Foi construída passo a passo, devagarinho, cada tijolo comprado, anotado numa caderneta Deve/Haver.

O velho era assim. Anotava não somente o tijolo que comprava, mas a cal, as pedras, o cimento, as telhas, as portas, as janelas, os tacos, os canos, os fios. Orgulhava-se do feito, mostrando aos cinco filhos aquela velha caderneta, nem me lembro mais em que moeda.

A casa ficou pronta um mês antes do meu nascimento. Meu umbigo ainda não havia caído, quando minha mãe deixou a Maternidade dos Comerciários e foi pra essa casa nova, cheirando a tinta e taco novo.

Era uma casa à moda antiga, não tinha armários embutidos, por exemplo, uma novidade que surgiu anos depois. Tinha copa com uma pia para lavarmos as mãos antes das refeições, tinha despensa onde meus pais guardavam pacotes e mais pacotes de papel higiênico Tico-Tico, muito arroz, muito feijão, muito fubá e engradados de água mineral São Lourenço, vício do velho.

E tinha um quintal, onde durante toda a nossa juventude, criamos porquinhos-da-índia, periquitos australianos, pombos, galinhas, coelhos e até mesmo um velho cágado, que metia muito medo na minha irmã mais nova.

A casa foi reformada várias vezes. Ganhou armários embutidos, uma garagem, uma lavanderia, móveis pés palito, tapetes com ondas estampadas inspiradas na bossa-nova, uma parreira e cimento no galinheiro, pra nosso desgosto. Gostávamos daquele chão de terra, onde as galinhas ciscavam caçando minhocas e os coelhos faziam buracos, seus ninhos.

Quando foi construída, ficava longe de tudo, no fim do mundo. Tínhamos que descer no ponto final do bonde e subir uns dez quarteirões a pé até chegar na Rua Rio Verde. O bairro foi crescendo e, com o passar dos anos, a casa acabou ficando no coração do bairro do Carmo, praticamente na Savassi, a Ipanema dos belo-horizontinos.

Lembro-me bem quando o meu pai recebeu uma proposta milionária do jornal O Globo, que queria transformar a nossa casa em sede do jornal carioca nas Minas Gerais. Lembro-me que eram dois milhões, não me lembro mais se de cruzeiros ou cruzados.

O velho resistiu bravamente, dizendo que não vendia a casa por dinheiro algum e não vendeu mesmo. Dizia que o seu caixão seria velado na sala principal, o que não aconteceu, porque o mundo mudou e o corpo foi para o Parque da Colina. Ninguém mais velava seus mortos na sala principal da casa.

O tempo foi passando, o bairro do Carmo crescendo, se desfigurando. Casas dos anos cinquenta, sessenta e setenta, aquelas com alpendre e jardins cheios de roseiras, foram dando lugar a cabelereiros, brigaderias, mini-mercados, botecos, sorveterias e lojinhas de operadoras de celular.

A casa da Rua Rio Verde foi se transformando num oásis que não suportava mais a modernidade, lembrando aquela velha canção do Caetano que fala da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Até que foi vendida, depois de muito pensar, porque a paixão que tínhamos por ela era muito grande.

Poucos dias depois da venda, lembramos de uma outra canção, aquela do Adoniran Barbosa, quando veio os home com as ferramentas e o dono mandou derrubá.

Mas como filho de peixe, peixinho é, meu filho Julião correu até lá e conseguiu recuperar cinco pedaços de pedras da casa, uma para cada filho do querido Doutor Bouçada.

Um prédio de apartamentos subiu num piscar de olhos e a fachada ganhou uma placa: Residencial Villas.

A pedra chegou às minhas mãos na semana passada e hoje ela repousa na estante do meu escritório, ao lado de três pedaços do muro de Berlim que, um dia, com as ferramenta na mão, arranquei e trouxe pro Brasil de recordação.

Depois de citar Caetano e Adoniran, lembro-me agora do poeta Drummond com o seu poema que diz: No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.

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O PERU

Quando eu era criança, no tempo do Mandiopã, não existia peru morto pra comprar, só vivo. Ainda mais peru congelado e com apito. Nem pensar. O meu pai comprava no mercado, que era onde se vendia peru vivo, levava o bicho pra casa, matava, temperava e assava quando chegava o Natal.

Um desses natais, entrou pra história porque o meu pai foi pro Mercado Central de Belo Horizonte com três amigos de copo, funcionários do Serviço de Meteorologia: Jesus, Mateus e Aurino.

Depois de uma dúzia de Brahmas, eles lembraram de comprar o peru, porque o objetivo inicial era esse. Escolheram o maior de todos e nem quiseram que o vendedor amarrasse as pernas do bicho com um barbante. Saíram com ele debaixo do braço, todo nervoso, se debatendo.

Debateu tanto que acabou escapulindo dos braços de Mateus e aprontando a maior confusão no mercado. O peru estava doidaço, subiu na banca de laranja, jogou frutas pra todos os lados, desceu, saiu correndo e os bebuns atrás dele. Entrou no açougue, passou pelas picanhas, pela alcatra e pelo acém e foi-se embora mercado afora. E a meninada correndo atrás, assobiando, porque quando a gente assobia, o peru glugluta.

Só mesmo um policial fez o bicho parar. Enfiou o danado dentro de um saco de linhagem, depois de dar uma bronca nos quatro meteorologistas que, seguramente, seriam reprovados no teste do bafômetro.

O peru é motivo de chacota. É concorrente do pinto, quando o menino chega aos sete anos, mais ou menos. Quem nunca ouviu uma mãe dando uma dura no filho?

– Tira a mão do peru, menino!

Nos tempos de TV Globo, todo ano era a mesma piada quando chegava o final do ano. A emissora dava um peru e dois panetones de presente pros funcionários. Só se ouvia nos corredores:

– Você já pegou o peru do Doutor Roberto?

Quem morre na véspera é peru! Essa frase, piada bem velha, era muito falada quando eu era criança, ainda no tempo do Cremogema.

Vinicius de Moraes viu poesia no peru e colocou o bicho dentro da Arca de Noé.

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

O peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-tico riu-se tanto

Que morreu de congestão

O peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão

Mulher muito enfeitada, oxigenada, com brincos enormes, colares, pulseiras, salto sete e meio e uma capinha do celular de oncinha, é chamada de perua. Não sei porque, a perua ave, na verdade, é bem mais simples que o peru macho, aquele que se exibe orgulhoso o seu rabo em forma de leque.

Não deve ser fácil pro peru, quando chega dezembro, ser chamado de peru de Natal. Isso significa que vai estar bem assado, recheado com farofa e, quem sabe, de uva passa, numa mesa cheia de família e ao som do Jingle Bell.

Procurei no Google e fiquei sabendo que o peru tem o nome científico de Meleagris, que pesa de 5 a 10 quilos, que a perua bota uma média de 12 ovos pra chocar, e se ele for malandro, consegue viver – ou melhor, sobreviver – a dez natais.

Quase todo peru é cinza, os únicos brancos que vi foi quando fui a Giverny, no interior da França, na casa do pintor Claude Monet. Lá tinha peru branco, iguais aos que ele pintou um dia.

Mas a grande confusão com o peru é geográfica. Existem mil versões para nosso país vizinho se chamar Peru. Uns dizem que o nome vem de uma tribo panamenha chamada Biru e que foi se transformando até chegar a Peru. Outros dizem é o nome de um rio que tem por lá, o Viru. E tem gente que garante que Peru na língua quíchua significa natureza. Quer dizer, nada a ver com a nossa ave.

E o mais curioso de tudo é a Turquia, em inglês Turkey, que traduzindo, é Peru. Quer dizer, temos um Peru aqui do lado e outro do outro lado do mundo, a Turkey, que também é Peru, mas não tem nada a ver com a ave. Deu pra entender? Boa ceia a todos!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O TUCANO

Quando eu era criança, o nosso vizinho do lado tinha um tucano de verdade. Ele vivia solto no quintal, pulando de galho em galho das árvores frutíferas. A laranjeira, a mangueira, a goiabeira e uma ameixeira. De vez em quando, ele ia pro telhado e ficava espiando, do nosso lado, as galinhas procurando minhocas, os pombos catando palha pra fazer seus ninhos, os coelhos fazendo buracos na terra vermelha.

Toda ave tem um nome de família complicado, difícil de falar. A família do tucano á a Ramphastidae, mas poucas pessoas sabem, só mesmo os biólogos mais estudiosos. O que todo mundo sabe é que o tucano é bem brasileiro, tem um bico enorme que parece forte, mas é frágil, e muitas vezes caem em contradição.

Os tucanos vivem nas florestas da América Central, mas, principalmente nas florestas da América do Sul. São vistos também em Brasília, duas ou três vezes por semana, aqueles com uma plumagem cinza ou preta. No Brasil, existem em maior quantidade no Estado de São Paulo, desde que ocuparam o território, no dia primeiro de janeiro de 1995.

Eles se alimentam de frutas, são chegados nas menores, tipo pitanga, jabuticaba, seriguela, essas frutinhas. São conhecidos também por roubar ovos nos ninhos de outras aves, mas nunca são punidos por isso.

Os tucanos não são machistas, ajudam a fêmea a construir seus ninhos, a chocar os ovos e ajudam também a mamãe tucana a alimentar os filhotes. Voam meio desconjuntados e só alcançam voo pleno quando estão em helicópteros nos céus de Minas Gerais.

Tucanos adoram uma árvore grande e frondosa, passam o dia por lá, mas gostam também de um muro, principalmente no planalto central do país, onde, no cerrado, as árvores não são tão frondosas assim.

Em mil novecentos e sessenta e pouco, o tucano virou pop star na televisão brasileira, ao topar ser garoto propaganda da Varig, a maior companhia aérea nacional na época. A cada anúncio novo que aparecia na telinha, minha mãe me chamava: “Corre, vem ver o tucano da Varig!”

Eu corria pra frente da televisão e me lembro bem do tucano carioca passeando pelas praias de Copacabana, o tucano mineiro sobrevoando o Mineirão, o tucano cearense navegando numa jangada e o tucano gaúcho tomando chimarrão.

O meu pai, toda vez que via o tucano do nosso vizinho do lado, em cima do muro, ele dizia que tucano é bom de bico. Ele tinha razão. Nunca aquele tucano foi preso por roubar as ameixas e as goiabas no nosso quintal. Sempre viveu leve e solto.

Os tucanos medem aproximadamente 60 centímetros e pesam por volta de 620 gramas. Claro que tem algumas espécies que são maiores, chegam a 1 metro e 90 e pesam, às vezes, mais de 90 quilos.

Existem várias espécies de tucanos. O tucanuçu, o tucano-grande-de-papo-branco, o tucano-de-bico preto, o tucano-de-bico-verde, entre outros.

Recentemente descobriram três novas espécies: O tucano-da-mala, tucano-cocae e o tucano-propinae. Esses são os mais espertos da espécie e dificilmente são pegos, dificilmente irão um dia pro cativeiro.

Não é comum ver tucanos voando nas metrópoles.  Nas grandes cidades, costumam passar dias e dias em cima do muro. Essa espécie urbana é o tucano-amarelo-e-azul. Em São Paulo, costumam ser vistos no Parque Buenos Aires, no bairro de Higienópolis. Costumam sair de lá apenas em dias de eleição.

São tucanos que geralmente vivem numa boa, passeando por aqui na sua garoa. Mas desde o dia 28 de outubro, eles desapareceram da mídia, quase do mapa. Pelo que estou percebendo, estão correndo sério risco de extinção. Quem viver verá.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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O PRINCÍPIO DO PRAZER

A nova mãe anunciou, na véspera, que eles viriam. Acordamos no feriado com o coração na mão, batendo mais forte, numa ansiedade que não dava pra medir nem mesmo com uma trena daquelas de mestre de obras.

Meio dia e pouco, o interfone tocou, eram eles, a nova mãe, a nova avó e os dois, um menino e uma menina, já crescidos. Chegaram tímidos, olhando para todos os cantos da casa, o chão, o teto, as janelas, as cores diferentes das paredes, as estantes, os livros, os dvds, os discos. Observando cada detalhe, cada minúcia.

À primeira vista, parece que gostaram. A menina fez a primeira observação: Parece casa de boneca! Ela, cinco anos mais velha que ele, parecia servir de âncora, mas ele, esperto, parecia protegê-la da vergonha de chegar pela primeira vez numa casa onde não conheciam ninguém.

A menina ficou sentada no sofá da sala, ainda tímida, e ele veio até o meu escritório e se encantou com a coleção de carrinhos da Norev. Pegou um a um com todo cuidado, porque avisei-lhe que eram frágeis. A portinha abre? ele quis saber. Disse que alguns abriam, outros não. Quais que abrem? Os caminhões.

Então fomos até a revistaria para mostrar onde estavam os caminhões que abriam a portinha e levantavam a caçamba. Mais encantamento. Gostou da miniatura do dálmata em cima das revistas Quatro Cinco Um e fez mais uma pergunta: Você tem coleção de cachorros também?

Passamos pela lavanderia e chegamos à cozinha, onde ele viu uma gamela de frutas. Olhou, pegou um kiwi e perguntou que fruta era aquela? Expliquei que era kiwi e fomos até o computador para eu explicar porque a fruta se chama kiwi. Abri o Google em Kiwi Ave e ele ficou espantado de ver como aquele bichinho que vive na Nova Zelândia era tão parecido com a fruta.

Eu não quero comer isso não! Creio que o menino desconfiou que kiwi era uma mistura de fruta com animal, uma espécie de boimate que a revista Veja inventou faz anos. Voltamos à cozinha, peguei a faca e parti o kiwi no meio. Ele ficou admirado. Peguei uma colherzinha e expliquei como comia. Ele aprendeu rapidinho e raspou o kiwi. Perguntou se podia comer a casca, disse que não, que era áspera, mas mesmo assim quis experimentar. Experimentou.

A irmã já tinha saído do sofá, estava no quarto perguntando o que eram aqueles bichos de papelão na parede. Explicamos que compramos as peças num país muito longe daqui e montamos. Ela achou lindo.

Estávamos emocionados com aquelas duas crianças descobrindo a nossa casa, observando e comentando tudo. Mostrei a ele meus brinquedos antigos, de lata. O disco voador de 1960 e o Pato Donald equilibrista de 1956, presente da minha madrinha. Viu o elefantinho da Shell, a gotinha da Esso, o cavalinho de pau, o ônibus amarelo e azul do Magical Mystery Tour e o elefante de lata enferrujada que compramos um dia na Fundação Saramago.

O menino olhou, olhou e foi muito sincero: Tio, seus brinquedos são muito sem graça. Pode me chamar de Villas, eu disse, mas ele insistia que eu era o tio. Percebi que ele achou os brinquedos sem graça porque eram parados, estáticos, imóveis. Queria algo que mexesse, que interagisse, que brilhasse, que piscasse.  Mudou de ideia quando viu os jogadores de ping pong dos anos 1950 que, basta dar corda, eles começam a jogar, a bolinha pra lá e pra cá. Seus olhinhos brilharam e ele quis dar mais corda e ficar ali brincando

A irmã já tinha voltado pra sala e estava em outros papos, altos papos, contando o dia em que ela fugiu do posto de saúde com medo de tomar vacina e que gostava das cores preto, cinza, branco e roxo. Odeio rosa, disse ela.

O irmão continuava explorando a casa. Voltou para a cozinha e disse que estava com sede. Perguntei se queria um suco de caju, ele não conhecia caju. Abri a geladeira, mostrei a ele três cajus lindos que compramos no sacolão da Lapa. Quis experimentar. Comeu um pedacinho, achou meio estranho o gosto, mas expliquei que bom mesmo era o suco. Cortei em pedaços e coloquei dentro do liquidificador. Pus água, liguei na tomada e ele comentou: Tio, esse bagulho faz muito barulho! Adorei ele usar a palavra bagulho, que eu não ouvia há anos. Suco pronto, ele tomou e adorou. A irmã também quis.

O menino mostrou a ela o kiwi e pediu outro. A irmã quis experimentar e ele se arvorou em explicar a ela como se comia e mostrou com sabedoria. Ela também gostou, não achou azedo porque compramos sempre aqueles kiwis Sun Gold, amarelos, mais doces.

Será que eles não querem jogar lince? perguntou a minha mulher. Buscamos o jogo e os dois sentaram-se no chão. A menina, mais velha, claro, foi achando as figurinhas antes dele, mas ele também muito esperto e competitivo, não deixava a desejar. Comentamos que ela era muito boa no jogo e ela disse: Bem que o oftalmologista disse que eu tenho vista boa.

Gostei da palavra oftalmologista porque, menina dessa idade, diria oculista ou médico, não é mesmo? Hora do almoço. O cardápio era arroz branco, tambaqui ao forno, pirão, farofa com farinha de Belém do Pará e molho vinagrete. A menina, acho eu, gostou mais do que o menino. Quis experimentar tudo e repetiu. Ele comeu pouco. Tinha comido muito pão com queijo e ervas, que achou estranho no início, mas amou. Além do kiwi e do suco de caju.

Mostrei pra eles a hortinha que temos na varanda, a máquina de escrever que foi do meu pai, ele tentou datilografar, mas achou as teclas muito duras. Mostrei os cadernos que faço para os meus quatro filhos, desde o dia em que o primeiro nasceu, em 1977. Ela ficou admirada e comentou: É uma espécie de diário, né? Sim, é uma espécie de diário que, a partir de hoje, ganhou dois novos personagens muito queridos.

A noite chegou e eles foram embora, de mãos dadas com a nova mãe e a nova avó. Fomos na varanda dar tchau pra eles. A menina voltou dois passos, olhou pra cima e disse: Gostei muito da casa de vocês! O menino foi saltitando, acredito eu, que ainda meio desconfiado se kiwi era fruta ou bicho.

 

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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PARE 2018 QUE EU QUERO DESCER

Passado o Natal, vinha aquela euforia com a chegada do ano novo, uma semana depois. Era quando o meu pai chegava em casa carregando uma enorme folhinha da KLM com aquelas imagens maravilhosas de moinhos de vento, holandesas de tranças e tamancos e campos de tulipas.

Antes mesmo de acabar o ano, ele dependurava na parede, com a ajuda de um martelo e um prego, aquela folhinha maravilhosa. Ficávamos em volta dela, passando os meses, cada um querendo saber em que dia da semana cairia o seu aniversário.

Meu pai trazia da repartição uma agenda Pombo para cada filho e imediatamente pegamos uma caneta e preenchíamos o nome, o endereço, telefone e o tipo sanguíneo.

Minha mãe fazia uma faxina na casa, abrindo gavetas, picando e jogando papéis fora, guardados durante o ano inteiro, inutilmente. Passava Silvo nas pratarias e óleo de peroba nos móveis coloniais, à espera de um ano novo e feliz.

Fazíamos uma montanha de promessas. Passar de ano sem segunda época, tomar pouca Coca-Cola, ler um livro por semana, anotar e cumprir todos os afazeres na agenda Pombo, não perder as missas de domingo, não brigar com os irmãos, ver menos televisão e guardar dez por cento da mesada todo mês.

Não havia promessa de fazer dieta naquela época em que não havia academia, se cozinhava com banha, comia-se torresmo, passava manteiga no miolo do pão, o café era com açúcar e não havia leite desnatado, nem semidesnatado. A promessa da minha mãe era uma só, saúde para todos. E o meu pai completava, rindo: E muito dinheiro no bolso!

O fim do ano ia chegando e nossa euforia era grande. Lavávamos o pombal com Creolina para que, no primeiro dia de janeiro, estivesse limpinho e cheiroso. Tirávamos o mato da horta, os pulgões das folhas de couve e fazíamos uma armação de arame para que o pé de chuchu pudesse se acomodar no muro, sem incomodar o vizinho.

A última semana do ano parecia que não existia. Ninguém mais conseguia direito, ninguém estudava mais porque as férias já tinham começado, não tínhamos paciência nem pra sentar e ver o Zé Colmeia na televisão. Era só preparação pro ano novo que estava despontado. Todos os anos, nessa semana, o meu pai vinha com uma velha piada e minha mãe sempre caia. Ele chegava da Meteorologia, abria a porta e dizia:

– Sabe quem está nas últimas?

– Quem? Quem? perguntava minha mãe, arregalando os olhos.

– O ano velho! dizia ele, enquanto todos caiam na gargalhada, dizendo:

– Mas mãe, você caiu de novo?

No fim da manhã do dia 31, sabíamos que já era ano novo na Austrália, mas naquela época não havia o Jornal Hoje pra anunciar na escalada: Já é ano novo em Sidney! Só víamos os fogos explodindo por lá, no dia seguinte, numa radiofoto toda riscada, no jornal O Globo.

Os papeis picados caindo das janelas na avenida Paulista, na Avenida Brasil e na Avenida Afonso Pena, na minha Belo Horizonte, eram uma atração à parte. Não tinha ano que o meu pai não comentasse “eu tenho dó dos garis, amanhã cedo, que vão começar o ano varrendo rua”.

Não havia ceia na passagem do ano, na minha casa. Comíamos uma comida dessas de domingo, por volta das dez horas da noite porque, onze e pouco, íamos todos pra Sociedade Mineira de Engenheiros pro Réveillon.

Meia noite em ponto, a banda dava o grito de carnaval e nós pulávamos até nos acabar, ao som de olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é. Ao som do joga a chave, meu amor, não chateia por favor, ao som de Bandeira branca, amor, eu peço paz e índio quer apito, se não der pau vai comer!

Chegávamos em casa estropiados, abríamos a geladeira pra ver se tinha sobrado um pouco da maionese, um pedacinho frio de lombo e umas uvas geladas. Ainda dava tempo de ver na televisão o videoteipe da queima de fogos em Copacabana, a cascata caindo do Hotel Meridien, as velas acesas na areia e as palmas pra Iemanjá, indo e vindo nas onda do mar.

Mas esse ano, não vai ser igual aquele que passou. Estamos aqui em casa todos assustados e com temor de que dois mil e dezenove, queria ou não queira, vai chegar. Dois mil e dezoito ainda não está nas últimas, mas já está desenganado.

Ouvi dizer que, a partir do dia primeiro de janeiro, vão começar a matar gays, lésbicas e simpatizantes. Vão agredir quem estiver com camisa vermelha e colocar na clandestinidade o MST e o MTST. Vão prender o Boulos, o Stédile e metralhar a petezada.

Estão dizendo que vão perseguir os professores, vão acabar com os livros de História e colocar na fogueira todos os do Paulo Freire. Vão fechar a TV Brasil, vender a Petrobras, cercar os índios, prender cem mil, fechar jornais e disseram até que vão declarar guerra à Venezuela.

Só me resta colocar na vitrola aquele velho disco do meu pai que ele fazia questão de ouvir, todo dia 31 de dezembro:

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que tudo se realize

No ano que vai nascer!

Muito dinheiro no bolso

Saúde pra dar e vender!

Para os solteiros, sorte no amor

Nenhuma esperança perdida

Para os casados, nenhuma briga

Paz e sossego na vida

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Captal]

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Day After

No dia seguinte do golpe militar de 1964, viajamos numa Rural Willys, o meu pai, minha mãe e meus quatro irmãos, de Brasília para Belo Horizonte.

No dia seguinte em que passei no exame de Admissão no Colégio Marista, minha mãe comprou, na Guanabana, uma calça comprida pra mim.

No dia seguinte ao Ato Institucional número 5, escondi no sótão da minha casa, todos os livros de Karl Marx e Friedrich Engels.

No dia seguinte em que descobri o meu primeiro amor, dei a ela de presente o álbum branco dos Beatles.

No dia seguinte em que comprei o primeiro número da revista Realidade, pensei em ser jornalista.

No dia seguinte da morte de Ernesto Che Guevara, eu vi num jornal boliviano a tal fotografia dele morto com os olhos abertos.

No dia seguinte em que vi Tom Zé cantando São São Paulo no Festival da Record, pensei em morar e trabalhar na maior cidade da América do Sul.

No dia seguinte em que levei bomba em Francês no Colégio de Aplicação, prometi, um dia, falar a língua de Roland Barthes, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

No dia seguinte em que fui confundido com o guerrilheiro Alemão na Praça da Savassi, tomei a decisão de ir-me embora do Brasil e só voltar depois que a ditadura acabasse.

No dia seguinte em que pesquei piabas no Rio das Velhas pela primeira vez, fritei cada uma e comi com angu.

No dia seguinte em que um vizinho envenenou nossos pombos, eu joguei um tijolo na vidraça da casa dele.

No dia seguinte em que passei no vestibular para Jornalismo na UFMG, joguei todas as minhas apostilas de Física, Química e Biologia, na lagoa da Pampulha.

No dia seguinte em que acabei de ler Cem Anos de Solidão, eu me apaixonei por Gabriel Garcia Márquez.

No dia seguinte em que deixei o Brasil, acordei numa pensão barata, num Portugal de Salazar.

No dia seguinte em que cheguei na Gare d’Austerlitz, em Paris, vi neve pela primeira vez.

No dia seguinte em que nasceu o meu primeiro filho, na clínica do Doutor Frédérick Leboyer, voltei pra casa e tomei uma latinha de Kronnebourg.

No dia seguinte em que ouvi Jelly Roll Morton ao piano interpretando Black Bottom Stomp, quis ouvir de novo.

No dia seguinte em que nasceu a minha primeira filha, fiquei encantado como ela era loirinha e do cabelo espetado.

No dia seguinte em que voltei para o Brasil, tomei uma garrafa de guaraná, ainda no aeroporto do Galeão.

No dia seguinte em que cheguei a Cuba, dei de presente a um jovem que insistiu muito, uma camiseta com a estampa da Madonna.

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‘Em Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas’ (Reprodução)

No dia seguinte à eleição de Fernando Collor de Mello, pensei: Foi a TV Globo que elegeu esse canalha!

No dia seguinte em que o meu primeiro casamento acabou, acordei de madrugada para cobrir os meus filhos e eles não estavam lá.

No dia seguinte em que a Paulinha se mudou pra minha casa, eu preparei um frango assado com batatas e farofa pra ela e pros meus dois filhos do primeiro casamento.

No dia seguinte em que coloquei o primeiro Jornal Nacional no ar, acordei e fui para a TV Globo para colocar o segundo Jornal Nacional no ar.

No dia seguinte em que minha terceira filha nasceu, o meu filho mais velho disse: Pai, finalmente você tem uma filha brasileira!

No dia seguinte em que meu pai morreu, eu coloquei uma fotografia 3X4 dele num porta retrato, em cima da minha escrivaninha.

No dia seguinte em que vi o filme A Vida é Bela, pensei com os meus botões: Será mesmo que a vida é bela?

No dia seguinte em que minha mãe morreu, peguei uma fotografia 3×4 dela, coloquei num porta retrato ao lado do meu pai.

No dia seguinte em que o meu América foi campeão mineiro, ganhei um coelho de plástico de presente.

No dia seguinte em que minha quarta filha nasceu, lembrei-me de uma cigana que leu a minha mão, em Paris, e disse que eu teria quatro filhos.

No dia seguinte em que Lula ganhou a primeira eleição para presidente da República, comprei as quatro revistas semanais de informação e mandei encadernar.

No dia seguinte em que a minha primeira neta nasceu, me senti um velhinho com 47 anos.

No dia seguinte em que cheguei a São Miguel dos Milagres, em Alagoas, acordei na certeza de que a vida é mesmo bela.

No dia seguinte em que Dilma foi eleita, prometi passar um ano sem tomar cerveja e cumpri.

No dia seguinte em que cheguei a Bogotá, vi pela primeira vez a obra de Botero em que Pablo Escobar aparece cravejado de balas em cima de um telhado.

No dia seguinte em que cheguei a Tóquio, descobri uma loja só de discos brasileiros e lembrei-me do Caetano: A bossa-nova é foda!

No dia seguinte em que deram um golpe em Dilma Rousseff, abri a janela da sala do meu apartamento e gritei: Golpistas filhos da puta!

No dia seguinte em que nasceu o meu segundo neto, eu ouvi Raul Seixas cantando Eu nasci há dez mil anos atrás.

No dia seguinte em que entrevistei o ex-presidente Lula, ouvi a gravação e senti um nó no peito.

No dia seguinte que vi um menino, morador de rua, admirando a vitrine de uma loja de brinquedos na Vila Madalena, eu tive certeza de votar 13.

No dia seguinte às eleições de 28 de outubro de 2018, perdi o sono, acordei no meio da madrugada e escrevi esta crônica pra CartaCapital.

 

[Crônica semanal publicada no site da revista Carta Capital]

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BOM DIA, BRASIL

O dia em que voltei a pisar em terras brasileiras, depois de sete invernos, fazia 40 graus naquela terça-feira de carnaval. Não me esqueço do primeiro guaraná, ainda no aeroporto, depois de tantos anos bebendo Orangina. Conheci dezesseis sobrinhos no mesmo dia. Todos loirinhos, era incapaz de saber quem era quem.

Os sustos foram muitos. No porão da casa dos meus pais, me equilibrei entre livros e revistas espalhados pelo chão, empoeirados, guardados ali a sete chaves por minha mãe. Descobri que a coleção daRolling Stone estava intacta, apenas um número completamente amarelado, segundo ela, xixi da Pink, nossa pequinês que um dia entrou ali sem ninguém ver.

Susto com os motoristas que avançavam seus automóveis em cima dos pedestres, assim que o sinal abria. Susto com as pessoas que não cumprimentavam a cobradora no ônibus, o porteiro do prédio, a vendedora da mercearia. Chegavam e diziam simplesmente: Seis pãozinho!

As alegrias foram muitas também. Ouvir Cajuína pela primeira vez e trazer da banca uma revista novinha em folha, diferente daquelas que chegavam estropiadas na Rue de la Roquette, depois de semanas e semanas nos navios. Alegria de morder uma carambola, de tirar com a colherzinha o miolo da fruta do conde, de espocar na boca uma jabuticaba, coisa que não fazia há quase uma década.

Os primeiros dias foram uma mistura de princípio do prazer com cair a ficha, até me acostumar. Acordava ouvindo o barulho da água saindo da mangueira, da vizinha lavando o quintal e falando português. Estranhava isso. Entrava no armazém, cumprimentava a todos dando bom dia, como se estivesse dando bonjour e quase ninguém respondia.

Ainda na casa dos meus pais, gostava de acordar de manhã e pegar, em cima do capacho, O Globo e o Estado de Minas. Os jornais tinham cheiro, eram em preto e branco e manchavam as mãos. Gostava de ouvir os passarinhos nas árvores do jardim e ver os canarinhos belgas nas gaiolas, saltitando, comendo sementes de jiló e cantando sem parar.

Foram poucos dias em Belo Horizonte, até que peguei um ônibus com destino a São Paulo, precisava trabalhar, dar leite aos dois pequenos francesinhos que trouxe de lá.

No meio do caminho, outros prazeres. O reencontro com o pão de queijo, com o Guarapan e com a paçoquinha Amor nos botecos que o ônibus fazia suas paradas. Ouvia coisas que havia me esquecido, como o motorista estacionar, abrir a portinha e dizer: Quinze minutos!

Tudo era novidade, de novo, para mim. Procurava pela Mirinda Morango e já não havia mais. Como já não havia mais o iogurte Itambé em vidrinho, o Supra Sumo em pacotinhos de alumínio, o drops Dulcora de cevada, nem o suco Yuki em latinha. Mas a bala Chita ainda tinha, mastiguei umas, quase chegando em São Paulo.

Voltei de longe nas asas da abertura, na esperança de que a democracia estava em obras. Encontrei muitas ruínas, prédios abandonados que precisavam de dinamites para serem destruídos e construídos novamente. E foi assim.

Veio a abertura, o Osmar Santos no palanque, ali também Leonel Brizola, Luiz Inácio, Ulysses Guimarães, Mario Covas, Fernando Henrique, toda essa turma. A camiseta com a frase hoje eu não estou bom, a estrelinha de alumínio no peito e uma canção que dizia assim: Passa o tempo e tanta gente a trabalhar/De repente essa clareza pra votar/Quem sempre foi sincero e confia/Sem medo de ser feliz/Quero ver você chegar.

Passei muito calor e alguns vexames, no princípio. Perguntei, um dia, onde andava o estilista Dener e me responderam que havia morrido há anos. Perguntei pelo Dudu da Loteca e me disseram que a Loteca não era mais a Loteca que era.

Fui ficando velho. Vi Collor vencer Lula depois de um debate editado pela TV Globo, vi o Plano Real eleger Fernando Henrique, vi o povo sem medo de ser feliz eleger e reeleger Lula, vi Dilma subir e cair, vi o golpe. Mas 2018 ia chegar, íamos nos livrar de um vampiro e voltar a ser feliz. E o que vejo pela frente, na televisão, é tempo instável, sujeito a rajadas e chuvas no cair da tarde de domingo.

Quase cinco décadas depois, tenho vontade de recomeçar. Ouvir Cajuína num velho disco de vinil, afinal, existirmos a que será que se destina? Mas troco o disco. Vou lá na letra L da minha coleção em ordem alfabética e tiro um disco de Luiz Melodia, que começa com uma canção de Papa Kid que diz assim: Ao som da maraca, do tambor, do bambu, eu vou para Ilha de Cuba, eu vou pra Ilha de Cuba.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

ACORDA, AMOR

Sentia um temor permanente no corpo, na atmosfera. Antes de sair de casa, olhava pela janela, para um lado e para o outro, com a sensação de ver um Chevrolet Veraneio estacionado, um milico à paisana na rua, uma rua pacata, ainda com calçamento de pedras retangulares à espera de asfalto, do progresso.

Caminhava até o ponto do ônibus Carmo-Sion, levando a tiracolo uma bolsa de couro cheirando cabrito, comprada no Mercado Modelo de Salvador. Dentro dela, evitava colocar qualquer objeto suspeito. Nenhum livro que tinha na minha pequena biblioteca em quatro móbiles da Mobília Contemporânea. Evitava levar o que estava lendo, O Abajur Lilás, de Plinio Marcos e o que estava relendo, O Vermelho e o Negro, de Stendhal.

Minha mãe tinha os seus temores, mas os guardava em silêncio nas suas preces, já o meu pai era mais rigoroso. Um dia me chamou no seu escritório, trancou a porta, e falou olho no olho. Mandou que eu tirasse imediatamente o calendário da UNE debaixo do vidro que protegia a minha escrivaninha e rasgá-lo em pedacinhos. Tirar, eu tirei, picar não. Escondi. Ele me alertava diariamente, dizendo que todo cuidado era pouco.

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Aconselhava não dar opinião política na escola, não falar alto o que eu pensava. Ele sabia que pessoas estavam sendo presas, torturadas, sumindo pra nunca mais. Mas nunca falou disso abertamente comigo.  Ele se incomodava até mesmo com a minha juba de leão, minha calça boca de sino, minha camiseta manchada de água sanitária e os meus tamancos suecos que não tirava dos pés.

O meu irmão mais velho era diferente de mim, mais pé no chão. Trabalhava e estudava, e já tinha guardado dinheiro suficiente para comprar um fusca branco zero, coitado, que se esfacelou depois de atropelar um cavalo branco na BR-3, quase perda total. Ele era considerado um crânio, colecionava medalhas de ouro que ganhava no Colégio Marista, eram tantas que o meu pai mandou emoldurá-las com um fundo de veludo azul marinho. Eu nunca ganhei uma medalha sequer no Colégio Marista, nem de ouro, nem de prata, nem de bronze.

Às vezes, me perguntava se eu não seria a ovelha negra da família. Levei bomba em francês, repeti o ano e levei bomba de novo em francês. Eu participava do movimento estudantil, não perdia uma reunião do DCE, frequentava as reuniões secretas dos frades capuchinos, recortava e guardava numa pasta, todas as notícias que saiam sobre sequestros, manifestações. sobre José Dirceu, Vladimir Palmeira, Luis Travassos, Jean Marc Fréderic Charles von der Weid e Daniel Cohn Bendit. Numa outra, guardava os recortes sobre a RAF alemã, as Brigadas Vermelhas italianas, os Tupamaros, os Montoneros, o Sendero Luminoso e os primeiros passos dos Sandinistas.

Tudo muito escondido. A minha revolta aumentou no dia em que um tiro atingiu o peito do estudante paraense de dezesseis anos, o Edson Luis de Lima Souto, na porta do restaurante Calabouço, na Cidade Maravilhosa. Comprei a Fatos e Fotos com os estudantes, na capa, carregando o seu caixão pelas ruas do Rio de Janeiro e escondi no sótão da minha casa. Nossa casa era uma casa santa, minha mãe fazia suas novenas, acendia suas velas e rezava por nós, cinco filhos, todas as noites.

Eu tinha muito temor, temor de colocar na parede do meu quarto uma tela em óleo de Ho Chi Min, presente de uma amiga, de colocar na vitrola o compacto simples do Geraldo Vandré cantando Pra não dizer que falei de flores e de tirar de debaixo da cama aquele caixote com os livros marxistas de Apolo Heringer Lisboa. Eu tinha temor de conversar com Aretusa pelo telefone, numa época que grampo não significava escuta telefônica.

Os poucos exemplares do jornal A Voz Operária, os poucos números da Revista Civilização Brasileira, os poucos números da revista Aparte, eu guardava numa gaveta fechada a sete chaves, juntamente com a coleção da Fairplay. Eu fazia das tripas coração para não deixar o temor se espalhar e tomar conta dos cômodos daquela casa grande em que vivíamos. Falava de futebol com o meu pai, flamenguista roxo, e comprava os fascículos de Bom Apetite para agradar a minha mãe. Cuidava do pombal com o meu irmão, dos passarinhos e dos porquinhos-da-índia.

Ouvia atento e guardava para o resto da vida, as histórias do Colégio Sion que minha irmã contava quando chegava em casa. No hall de entrada, havia um mural reproduzindo a vida como as freiras queriam que fosse. Era um cartaz feito com cartolina, algodão imitando nuvens no alto e, embaixo, um colorido azul imitando um lago.

As freiras colocavam nas alturas, fotografias três por quatro das meninas mais aplicadas, aquelas que tiravam dez com louvor. No lago, quase afogando, as fotografias das meninas que corriam risco de levar bomba e repetir de ano. Um dia, fui lá ver se era verdade e era. E sai de lá gostando mais das fotografias das meninas afundando no lago, do que as meninas cdf nas nuvens. A minha guerrilha era silenciosa e particular. Imprimia um jornalzinho no mimeógrafo da escola e saia de lá cheirando a álcool. Era um jornalzinho cultural, com críticas de livros, de filmes e discos e cheio de entrelinhas. Tinha contos porque, nós mineiros, éramos todos contistas.

Lia as cartas que o Caetano mandava de Londres, via Intelsat, para o Pasquim, e tinha vontade de ir embora, pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu tinha temor de ser preso, de enfrentar o pau de arara, de sumir de repente.

Foi longe, a mais de 10 mil quilômetros do meu país, que ouvi pela primeira vez Chico cantando Acorda, amor/Eu tive um pesadelo agora/Sonhei que tinha gente lá fora/Batendo no portão, que aflição/Era a dura, numa muito escura viatura/Minha nossa santa criatura. Ontem à noite, ouvi novamente essa música no YouTube e o meu temor voltou. Mas fui dormir com a certeza de que, apesar de você, amanhã será outro dia.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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ilustração Alberto Villas