O SÁBADO

Eu sei que hoje é sábado e amanhã é domingo. Sorry, poetinha, a vida pode até vir em ondas, como o mar. Mas não as vejo há meses, muitos, quase cinco. Sinto saudade do sal, dos pés descalços na areia, frutverão, marias farinhas correndo de mim. Os sábados não andam assim mais tão diferentes dos domingos, das segundas, dos feriados, dos dias santos. Ainda não sei se haverá sol neste teu sábado com o céu ainda escuro, o silêncio reinando nas avenidas. Não sei se haverá casamento hoje, provavelmente não. Se haverá divórcio ou violamento, provavelmente sim. Não sei se um homem rico vai se matar, uma mulher vai apanhar e calar. Vai, vai apanhar e calar, pra nossa dor. O seu poema está aqui iluminado na tela do meu computador. É o que temos para hoje. Atual, cortante: Há uma mulher que vira homem sim, há um piquenique de políticos sim, há uma profunda discordância sim. Há um ariano e uma mulata? Mulata não há mais, poetinha. Sim, há um frenesi de dar banana porque hoje é sábado. Há a sensação angustiante porque hoje é sábado. Você acertou em cheio, na mosca: há um espírito de porco solto por ai.