O MUNDO ACABANDO

Queimam as matas, não reciclam o lixo, jogam óleo no mar, matam os peixes, esfaqueiam as baleias, derrubam as árvores, entopem as cidades de automóveis, desperdiçam água, pegam sacolinhas de plástico no sacolão e vão em frente, com a certeza de que o mundo não vai acabar na mão deles.Argumentam que quando a coisa ficar feia, eles não vão estar aqui. Eles não se preocupam nem pouco com os bisnetos dos bisnetos porque ninguém vive quinhentos anos. Chamam os ecologistas de ecochatos e as ongs de esquerdalhas. Acontece que o mundo está acabando, o dia virando noite e, na calada da noite, a gente nem vê a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Eles arrancaram as roseiras dos jardins dos sobradinhos pra dar lugar aos estacionamentos do automóveis. Quando chove, a água que regava as roseiras vão pra enxurrada que enche a cidade e só param nos telejornais. Cada um por si, eles não cuidam da cidade. Jogam bitucas no chão, rasgam os mapas nos pontos de ônibus, pisam na grama, abrem as janelas dos automóveis e lançam uma garrafa vazia de Coca-Cola, sim eu vi. Era uma Hilux preta de todo tamanho. O Tietê continua fedendo, aquela impressão de água de esgoto parada. Mosquitos, pets, plásticos, copos, Fantas, tem de tudo boiando naquele rio que passou na nossa vida, que a gente não enxerga de longe, só de perto, a sujeira.. Voltou o sarampo, voltou a catapora, voltou a febre amarela, vejo voando o mosquito da dengue, vivemos na era da chycungunya.  O mundo acabando e eles estão se lixando. Ela nasceu Terra , viveu muitos anos terra e vai morrer ruína. Sobreviverá apenas uma canção: Que a força mãe dê coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas do nada através do qual carregas o nome da tua carne. [AV]

 

 

 

SATISFEITO?

No ano passado, em plena campanha eleitoral, disfarçado em pesquisa, a Rede Globo de Televisão começou a perguntar ao nosso povo, que Brasil que ele queria para o futuro. A pergunta invadiu todos os telejornais da emissora, sem distinção. Durante meses, assistimos curtos depoimentos de brasileiros em lugares que nem imaginávamos que existia. Em meio a um bombardeio diário, em todos os telejornais, havia a informação de uma conexão Partido dos Trabalhadores/Corrupção. Quando as reportagens acabavam, lá vinha a vinheta “O Brasil que eu quero”. Em mais ou menos 70% das respostas, ouvíamos brasileiros, gravados por eles mesmos em celulares na horizontal, segundo a escolinha do professor Bonner, pedindo o fim da corrupção. Era comum também ouvirmos queixas de brasileiros sonhando com uma educação de qualidade, um programa de saúde que atendesse a todos, um país que cuidasse do seu lixo, dos idosos, enfim, do seu povo. Quase oito meses depois,o que vimos é um país em frangalhos, mergulhado no caos. A corrupção continua solta ou escondida, escondida junto ao Queiroz, num imenso laranjal. Todos os programas de educação estão sendo desmontados, bolsas canceladas, verbas cortadas. Os postos de saúde continuam transbordando de pacientes impacientes, já que os cubanos foram embora, deixando milhares e milhares de brasileiros ao Deus dará. O lixo está nas ruas e não há nenhum plano de aproveitamento ou reciclagem que venha do governo. Os idosos continuam sofrendo, os moradores de rua quintuplicaram e o emprego, que eles também pediam constantemente em seus lamentos, só aumentando. Sugiro a Rede Globo de Televisão que lance uma nova campanha para ser gravada pelos próprios brasileiros, na horizontal, com a seguinte pergunta: “E ai, está satisfeito?” [AV]

POBRE BRASIL

Os brasileiros de um modo geral estão se acostumando com as milhares de pessoas que dormem, todas as noites, nas ruas. Uns dormem de qualquer jeito, embrulhados em cobertores vagabundos, em cima de uma caixa de papelão que varia, pode ser de uma televisão de inúmeras polegadas, pode ser de uma estante da Tok Stok ou de várias menores emendadas, de produtos da Sadia. Outros improvisam pequenas barracas de plástico, de papelão, de papel bolha. Vejo isso quando passo todas as manhãs por debaixo do viaduto Presidente João Goulart, ex-Costa e Silva, popularmente Minhocão. As pessoas olham pela janela do ônibus e não esboçam mais o menor sentimento. São muitos, dezenas e dezenas de moradores de rua. Há uns três anos atrás eram poucos, os chamados nóias. Hoje, percebe-se que não são mais os nóias, são muitas vezes famílias inteiras, até mesmo, em volta, com alguns pertences com um pouco de cor que trouxeram da última casa, depois do desemprego, do despejo. Os moradores de rua hoje são centenas, milhares, espalhados pelas capitais do país inteiro. Eles não merecem mais nenhuma matéria nos jornais, passaram a fazer parte da paisagem. E crescem a olhos vistos, dia após dias . E eu fico observando tudo, rumo ao Paraíso, um bairro que fica lá longe, depois de atravessar toda a Avenida Paulista. Bem cedinho, uns estão comendo um pedaço de pão, outros dobrando o que ainda devem chamar de roupa de cama. Vejo cachorros espreguiçando, os melhores e eternos amigos do homem. Nossos moradores de rua não são mais pauta, os pauteiros perderam  o interesse por eles. Ainda são pautas, os venezuelanos chegando lá no norte do país que, segundo a imprensa, estão fugindo da pobreza. [AV]