NEXO

Fazer títulos é uma arte. Cativar o leitor para a leitura da matéria é a pedra fundamental para um bom título. Um exemplo. Vi, um dia, o título “Cuidado, tinta fresca!”. Comecei a ler a matéria e vi que tratava-se de falsificação de quadros de gênios dia pintura. Talvez tenha sido este um dos melhores que vi. Já fiz milhares de títulos por ai. O que nunca me esqueço foi um que lavrei na certeza de não passar pelo crivo do editor-chefe de Internacional do Estadão, onde eu cuidava da coluna Pelo Mundo, um apanhado de notinhas que não tínhamos onde enfiar. Chegou pelo telex a foto de três carabineiros encurralando uma onça num parque da capital italiana. Ela havia fugido de um circo e estava bem assustada, mostrando os dentes e as garras. O título que dei foi “Roma de Felino”. Passou! Saiu impresso no Estadão e eu o guardo como um troféu de início de carreira. Tudo isso para falar do título que saiu na edição de ontem no suplemento de turismo do jornal O Globo. A foto de uma performance de pinguins amarelos em fila na mas famosa ponte da capital Tcheca caiu nas mãos do editor e ele, para aproveitar a curiosa e inusitada foto, titulou: “Assim caminha Praga”. A princípio, achei que era delírio do tituleiro para não desperdiçar a foto, que é boa. Mas, ao ler a matéria, percebi que ela faz sentido, já que o assunto é a invasão da arte contemporânea numa das cidades mais tradicionais e glamurosas do mundo. Rendi-me ao título e guardei na minha coleção. Assim caminham as boas ideias…

TRÊS TRISTES PITACOS

O primeiro é ler com perplexidade que na pesquisa realizada pelo site de notícias UOL para escolher o “Melhor de 2019” está, entre os quatro concorrentes, o programa “Silvio Santos e o concurso Miss Infantil, que foi ao ar no inacreditável SBT. Deveria estar concorrendo ao prêmio “Pior de 2019”.

Matéria sobre as calçadas de São Paulo exibida pela GloboNews mostrou tudo. Menos aquela palhaçada do então prefeito da cidade, João Doria que, no segundo dia de mandato, vestiu-se de pedreiro, pegou uma pá de cimento e consertou 1 metro quadrado de calçada, prometendo consertar todas até o final do mandato. Ficou apenas dois anos para se candidatar a governador e não se falou mais nisso. A TV anda sem memória.

A cada dia vamos assistindo a TV Globo se desmilinguido . A lista de demitidos já é enorme e vai continuar aumentando. Ontem foi a vez de Lair Rennó, na emissora há vinte anos e, desde 2012, parceiro de Fátima Bernardes no seu Encontro. Se a desculpa de outros demitidos da lista é a idade, como explicar a demissão de Rennó? Todos sabem que o problema não é a idade, é o salário. A fila de pessoas dispostas a trabalhar por um salário mínimo na Globo é grande. E anda.

TRAGÉDIA NACIONAL

É triste, mas é verdade. Todo editor-chefe de telejornal sabe que basta mandar um repórter pra rua que ele sempre traz matéria. É só mandar a equipe para registrar buracos nas estradas, aumento de preços e o caos nos postos de saúde. Nesta terça-feira (10), foi diferente. O repórter do Jornal Nacional foi escalado para um factual, a greve dos servidores públicos da saúde no Rio de Janeiro, que simplesmente pararam de receber seus salários no final de cada mês. Mais do que justo abrir o maior telejornal do país com um assunto tão quente, tão dramático. Há décadas, a televisão mostra a tragédia da nossa saúde. As imagens, geralmente feitas às escondidas, mostram doentes espalhados por macas nos corredores, gente reclamando que não tem médico, que não tem esparadrapo, não tem comprimido. Doente grave dizendo que a próxima consulta foi marcada pro ano que vem, uma tristeza só. O que perguntamos aqui hoje é o que todos perguntam quase todos os dias  nos telejornais: Até quando? Enquanto o governo desconfia que a terra não é redonda, nós desconfiamos que o Brasil não tem mesmo remédio. 

[foto Reprodução TV Globo]

UMBIGO NEWS

De uns bons tempos pra cá, a impressão que fica é a de que, para o canal de assinatura GloboNews, o mais importante é o seu elenco. Mais importante do que a própria notícia. A cada break comercial, surge na tela um anúncio do seu próprio elenco. São jornalistas, comentaristas, profissionais dos bastidores que aparecem quase no seu íntimo. Em casa tomando o café da manhã, no carro a caminho da firma, se maquiando, apertando a gravata, escrevendo no computador, apurando no telefone, chegando na redação, no Congresso, tem pra todo gosto. O programa Estúdio I, apresentado de segunda à sexta no início da tarde por Maria Beltrão, é o palco principal do ego. Agora inventaram um tal de “Jornalista desde criancinha” onde, um de cada vez, é apresentado. Geralmente é a mãe deles, fofas, contando historinhas que geralmente acontecem com toda criança: “Parece que ele já queria ser jornalista desde os dois anos, pois sempre estava no centro das atenções”, “ela inventava uma língua própria e ficava se exibindo”, “sempre quis folhear livrinhos”. Ora, qualquer criança do mundo, quando pequenininha, faz dessas coisas. De repente, a mãe orgulhosa aparece ao lado do filho para revelar quem é o jornalista famoso (da GloboNews) que ela está falando. Fofíssimos, abraçados,  orgulhosos, aparentemente radiantes por trabalhar ali naquela repartição. Sem contar a intimidade: “Meninas, vejam só que história”… “meninas, é com vocês aí no estúdio…” E é um tal de Chris, Fê, Rê, Má, Su… Nos sites de notícias da Globo, é a mesma coisa. O nome dos repórteres e dos comentaristas, vira-e-mexe, estão no título, como se fosse tão importante quanto a própria notícia. Veja o exemplo acima. Praticamente todos os títulos e manchetes da manhã desta segunda-feira (9) informavam que a desigualdade travou o IDH do Brasil, que caiu para o número 79 no ranking da ONU. Mas para a GloboNews, a dona da manchete chama-se Miriam Leitão.

FOTOJORNALISMO

A revista mensal colombiana Arcadia escolheu as melhores fotos feitas por jornalistas profissionais durante as manifestações do mês passado, em várias cidades do país. Muitas vezes, uma foto diz mais do que mil palavras. Como um cartum, inúmeras vezes, vale mais dos que um editorial. Selecionamos aqui cinco fotos de Esteban Veja La-Rotta.

 

[Reprodução/Arcádia]

PUXANDO A BRASA PRA SARDINHA

Quando o Caderno 2 foi lançado, em abril de 1986, eu fazia parte de uma equipe inovadora e, principalmente muito inquieta. Em poucos meses, o suplemento era o mais lido do Estadão. Virou uma espécie de Pasquim encartado dentro de um jornal declaradamente conservador. Costumávamos dizer que o Caderno 2 era uma mistura de Planeta Diário e Gazeta Mercantil. Enfim, o suplemento de artes e espetáculos do Estadão era uma festa. Queríamos fazer um jornal informativo, divertido e bonito. Suas capas eram feitas com esmero a cada dia. Capas que entraram para a história. Assim que o jornalão mudou de direção, em 1987, o Caderno 2 mudou também. Encaretou, ficou igual a todos os outros. Basta comparar as duas capas expostas acima. Uma da década de 1980 e outra de 2019. O Estadão, como um todo, ficou feio. Precisa de uma reforma gráfica urgente, antes de acabe. 

BURRICE

Em 2013, a revista Veja chegou às bancas com uma pergunta na capa: “O PT deixou o Brasil mais burro?” A revista dizia que “o obscurantismo oficial condena o inglês, quer tirar a liberdade das universidades e mandar na cultura”. Vivíamos em plena era da inclusão social, da liberdade nas universidades, do acesso dos menos favorecidos às faculdades. Com isso, apenas confirmamos aquele velho ditado; “Veja mente”. Ai veio o golpe em 2016, veio Michel Temer presidente, ai chegamos ao fundo do poço com um governo de extrema-direita. E a revista IstoÉ, conhecida também por IstoEra ou QuantoÉ, afirmar em sua capa desta semana que estamos vivendo “a vez da ignorância”. Tanto Veja quanto Isto é foram duas inimigas ferozes do governo do Partido dos Trabalhadores. Hoje, vivem sem o PT no poder, mas vivem uma agonia.  

O MEDO

Você já deve ter percebido que a grande imprensa, principalmente a televisão, morre de medo de algumas palavras. Golpe, por exemplo. Alguns, juram de pés juntos que não houve um por aqui em 2016. Acreditam piamente que tudo foi feito dentro da lei. Nem golpe lá fora, no estrangeiro, essa imprensa falava. Medo da associação ao nosso golpe que derrubou uma presidenta eleita democraticamente. Os nossos telejornais, durante meses e meses falou em reforma da Previdência. Colocou no ar cem por cento de sonoras de especialistas a favor. Nunca ouviu o povo. Era só gente falando que se a reforma não passasse, o país quebrava. Quando vieram as manifestações lá fora, principalmente na Argentina e no Chile, a tal reforma da Previdência foi esquecida. Todos sabem que o povo, milhares de pessoas, foram às ruas pra protestar contra a reforma, exatamente a mesma que vai ser implantada por aqui. Mas os telejornais pisavam em ovos, procurando palavras que não faziam lembrar a nossa reforma. Os textos diziam que “foram às ruas para protestar contra o governo” (nunca diziam que tratava-se de um governo de direita como o nosso), “manifestantes tomaram a avenida” (sem dizer o motivo) ou “houve tumulto durante os protestos…” (e aí mostravam cenas de violência, como se os manifestantes fossem um bando de vândalos”. Agora a coisa mudou. A reforma do governo de ultra-direita do presidente Bolsonaro foi aprovada e então fala-se em “protestos contra a reforma da previdência”, explicitamente. Agora pode. Fala-se claramente, na televisão, nos jornais, nos sites de noticia. Protestos contra a reforma da Previdência lá fora pode. 

SIM, PROFISSÃO REPÓRTER

Taí um programa que faz jus ao nome. O Profissão Repórter, comandado por Caco Barcellos, que foi ao ar na noite desta quarta-feira, dia 4, veio para provar isso. Caco, com sua equipe, começou a trabalhar para fechar o programa, quando Paraisópolis ainda estava em estado de choque, logo após o massacre promovido pela Policia Militar do governador João Doria. Sem aquele acabamento pasteurizado na tentativa de ser glamuroso do Globo Repórter, com passagens e mais passagens dos repórteres, o jornalismo mostrado pelo Profissão Repórter mostrou-se quase bruto, quase cru. Sim, muita gente chorando, uma marca registrada da TV Globo. Alguém ainda se lembra do filme Cinema Falado, de Caetano Veloso, quando um filósofo diz: “Toda noite tem alguém chorando na tela da TV Globo?” Mas o silêncio dos repórteres na hora da dor dos parentes e amigos, cumpriu perfeitamente o seu papel. A equipe do Profissão Repórter mostrou vídeos conhecidos, mas foi muito além. Entrou nas casas das vítimas, mostrou como os bailes funks são organizados, andou pelas ruas e ruelas de Paraisópolis com as jovens líderes da comunidade, disse quem era quem daqueles nove jovens assassinados. Um programa e tanto, o melhor jornalístico da TV brasileira sem sombra de dúvida. Caco é um craque e seus repórteres estão aprendendo como se faz para o bem do futuro do Jornalismo. Patético, o governador de São Paulo apareceu no programa dando uma entrevista coletiva elogiando a polícia e dizendo que as ações contra os bailes funks vão continuar. Na cabeça dele, São Paulo já virou uma Oslo. Na nossa, trata-se de uma besta quadrada.

[foto Reprodução TV Globo]