EU NÃO FUI

Vivíamos uma confusão urbana, suburbana e rural naquele verão de 1969, quando começaram a chegar as primeiras fotografias, radiofotos rajadas mostrando kombis floridas, impalas conversíveis, camionetes estropiadas e gente a pé.

Com seus jeans desbotados, camisetas puídas, all stars maltrapilhos, jujus, balangandãs coloridos pelo corpo e sonhos na cabeça, o destino era uma fazenda perto de White Lake, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Ali, vacas leiteiras ruminavam fenos em 600 acres e debaixo de muito sol. A meteorologia prometia chuva naquele fim de semana, naqueles três dias de paz e música.

Um único anúncio no New York Times fez com as pessoas corressem às lojas de discos e comprassem, por um punhado de dólares, o direito de passar ali trinta e seis horas ouvindo Joe Cocker cantando With a Little Help From MyFriends, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Grateful Dead, The Who, Creedence Clearwater Revival, Santana, Crosby, Stills, Nash & Young.

O estado de calamidade pública foi decretado quando mais de 500 mil pessoas já estavam ali reunidas, envoltas em cobertores e muita lama, banhos de rios, algumas nuas, como se fosse uma grande balbúrdia

Com os cabelos desgrenhados, os corpos e as mentes brilhantes, os hippies já tinham se espalhado pelo mundo, falando como quê de língua de fogo para que todos entendessem como é viver como os passarinhos, livres, leves e soltos.

Eu já usava minhas calças vermelhas, meu casaco de general cheio de anéis. Já sonhava em ir descendo por todas as ruas, tomar aquele velho navio, eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus.

Eu não gostava do Alice Cooper e perguntava onde estava o meu rock and roll. Perdidamente apaixonado, ainda ouvia Márcio Greyck cantando Minha Menina.

E veio a chuva e vieram os relâmpagos, os trovões, quase tufões, e veio a lama, era a lama, era a lama. Depois chegaram as fotografias em branco e preto na Rolling Stone e coloridas na Life. E eu gastei o pouco dinheiro que tinha comprando essas revistas que guardo até hoje.

Um dia, voei para Amsterdã e, na Praça Dan, vi os últimos hippies curtindo os seus baratos ao som de Give Peace a Chance e All is Need is Love. Um dia cheguei a Copenhague e fui passar o dia fotografando Christiania, onde ainda havia um restinho de sonho, aquele que nunca acabou.

Hoje, eu sei que o futuro esperado que eu não dei, sei que é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais. Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

UM PUNHADO DE BALAS

19 horas e vinte minutos. Rua Martinico Prado, Higienópolis, São Paulo. Ontem, saia do trabalho em passos apertados, enfrentando o vento frio que vinha em sentido contrário. Poucas pessoas na rua, apenas  seguranças de restaurantes italianos, um morador de rua já se ajeitando na esquina de Sabará, onde mora, e carros passando. De repente, vem vindo ladeira abaixo, uma mocinha que não aparentava trinta anos, a Katia. Ela foi se aproximando de mim e falou:

– Boa noite!

– Desculpe, eu tenho vergonha, estou há quatro meses desempregada e agora estou fazendo esses saquinhos de doces pra vender na rua.

Ela abriu uma sacola bonita de pano e tirou lá de dentro um saquinho com algumas balas, dois pirulitos e um pacotinho de drágeas de eucalipto.

– É uma questão de sobrevivência, estou vendendo a 5 reais. Você pode me ajudar?

Perguntei a ela:

– Você tem uma profissão?

– Sim, sou publicitária e fui demitida por causa da crise.

Eu disse que ela jornalista e ela completou: “Cara, o que aconteceu com nossa profissão?”

Sorte que eu tinha o dinheiro no bolso e dei a ela.

Ela abriu um sorriso enorme, agradeceu muito e seguiu o seu caminho.

Enfiei o pacotinho na mochila e continuei caminhando. Não sei se emocionado, se triste, se profundamente triste ou alegre. O que ela vai comprar com aqueles 5 reais?

Mais uma vez, pensei, que país de merda esse em que vivemos.

AV

 

 

SILÊNCIO

Temos um presidente da República despreparado, destemperado, grosso. Que vive falando asneiras, fazendo bobagens em atos, pisando na bola a todo momento. Ao seu redor, uma manada de bichos selvagens não identificados. O presidente fala errado, fala como uma criança de cinco anos que acabou de aprender a ler: O menino… foi passear… com a sua avô. A mãe chama a atenção: Avô? e o menino conserta: Avó! O Brasil vai afundando a cada dia. Passa a reforma trabalhista, passa a reforma da Previdência. Os heróis nas fotografias dos jornais são pessoas da laia de uma Joice, de um Frota, de um Olimpio, de um Kim, quem dera tivéssemos apenas um palhaço ali, o Tiririca. E o Brasil assiste tudo em silêncio. O bombardeio faz barulho de espoleta apenas nas redes sociais. Os telejornais tratam tudo como se fosse normal, pessoas normais governando, mandando e desmandando. Lendo os jornais gringos ficamos sabendo que a aposentadoria está acabando, os empregos estão acabando, a Amazônia está secando, os direitos das pessoas escorregando pelos dedos. Não vou perguntar, mais uma vez, que país é este? Mas, que silêncio é esse?

AV

ANOREXIA

Banca de jornal vendia só revista e jornal. Aos montes. Tinha O Globo, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Última Hora, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Notícias Populares, Diário Carioca, Jornal dos Sports, Diário de Notícias, Diário de Minas, Jornal da Tarde, Diário da Tarde, Zero Hora, Jornal do Commércio. Havia os undergrounds, o Rolling Stone, Movimento, Em Tempo, Opinião, Coojornal, Versus, Pasquim, Mulherio, Nós Mulheres, Lampião, De Fato. Havia revistas, a Enciclopédia Bloch, Realidade, O Cruzeiro, Manchete, Visão, Senhor, FairPlay, Playboy, Mickey, Tio Patinhas, Luluzinha, Bolinha, Os Jetsons, Flintstones, Manda-Chuva, Manequim, Desfile, Amiga, Careta, Placar, Set, Bizz, Ciência e Vida, Planeta, História. Havia undergrounds, A Pomba, O Saco, José, Inéditos, Circo, Silêncio, Escrita, Ficção. Havia fascículos, Gênios da Pintura, História da Música Popular Brasileira, Ciência Ilustrada, Mãos de Ouro, Bom Apetite, Taba, Vida a Dois, A Bíblia Mais Bela do Mundo, Medicina e Saúde, Povos & Países, Georama, Tecnirama, Segunda Guerra Mundial, Grandes Compositores da Música Clássica, As Grandes Óperas, Conhecer, Menu, Arte nos Séculos. Hoje banca de jornal tem chip da Claro, Vivo, Tim, Oi. Hoje tem Coca-Cola.

[AV]

SAUDADE DO BRASIL

Sete dias após a morte de João Gilberto, chegou o final de semana, empilhei todos os seus discos e fui ouvindo, um a um. São preciosidades que não tem preço. Não tem um melhor que o outro. Me fixei principalmente em dois, ambos com capas brancas. Um que começa com Águas de Março e outro que começa com Aquarela do Brasil, um disco chamado Brasil. Um país que praticamente não existe mais, apesar de estar tudo ai, o coqueiro que dá coco, o mulato inzoneiro. Um fruto maduro sequer, apesar de ouvir na televisão que o agro é pop, o agro é tudo, e que tá na Globo. Essa entressafra não tem sol, não tem chuva, arado arando, não tem tardinha que cai, nem barquinho que vai. Somos uma espécie de Síria, contando os mortos de cada dia, com túneis e mais túneis sem luz no fim. Ouvir João Gilberto durante dois dias foi bom. Mas foi sofrido. Sei que a bossa nova é foda, mas passou, precisamos tirar nossa nacionalidade portuguesa, passaporte na mão, descobrir novamente esse país, terra em transe, terra arrasada, terra nostra. Alguns discos são de vinil, outros compact, um no Spotify. O som é puro em todos eles porque João era meticuloso. Hoje, as coisas andam de qualquer jeito. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, João? Eu, você, girando na vitrola sem parar e o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar, tentamos inventar,tentamos inventar, tentamos. (AV) Agora ouça: