ABISMO

Existe um abismo entre o jornalismo crítico e o jornalismo pasteurizado. Sigo atentamente o jornalismo brasileiro e o gringo, como dizem atualmente. Não vim aqui para criticar o brasileiro e elogiar o gringo, apenas para chamar a atenção para um fato. O jornalismo brasileiro, preocupado com a informação pasteurizada, informa e pronto. Depois, para fingir-se imparcial, diz em uma nota, a defesa dos citados. Se um citado disser que a terra é plana, virá apenas a informação: ” O advogado do fulano de tal afirmou que a terra é plana”. Não há contestação. Já falei disso aqui. Hoje, cito o exemplo de um noticiário de ontem, que estava em todos os jornais e telejornais, daqui e de fora. O presidente Macron, da França, disse que a catedral de Notre-Dame será recuperada em cinco anos. Nos jornais brasileiros, a notícia foi essa. Ninguém ouviu arquitetos e restauradores sobre o assunto. Ora, muitas vezes uma obra de arte de Leonardo Da Vinci leva uma década para ser restaurada. A reforma do Big Ben, em Londres (que não pegou fogo) vai durar, pelo menos, quatro anos. Como reconstruir uma Notre-Dame em cinco? Para ilustrar esse comentário, recorro-me a manchete de primeira página do jornal francês desta quarta-feira: “Cinco anos para reconstruir a Notre-Dame: Macron acredita em milagre”. É isso. [AV]

EI, SUPREMO…

Todos nós lembramos muito bem, claro que alguns se fazem de surdos, o quanto os ex-presidentes Lula e Dilma foram xingados, difamados, estilhaçados por pessoas que hoje são as responsáveis pelo desgoverno de ultra-direita que está aí acabando com o país. Havia pixulecos enormes nas manifestações, havia gritos de guerra nos estádios da Copa – “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” -, havia a mesma Dilma em adesivos mostrando a presidenta de pernas abertas junto a tampa do tanque de gasolina dos carros, havia capas da revista Veja dizendo que a guerrilha colombiana financiava a campanha de Lula, que dólares estavam vindo de Cuba para o PT, havia todo tipo de mentira espalhada por ai e o STF ficava caladinho caladinho, como se fosse tudo muito normal, tudo muito dentro da lei, tudo natural. Bastou um passageiro ao lado de um desses ministros do STF dizer durante um voo que “o Supremo é uma vergonha”, para começar a confusão, como se fosse uma briga entre corintianos e palmeirenses. Todos eles se sentiram ofendidos e agora estamos em plena guerra, já detectando sinais claros de censura. Temos um preso político no país e, em momento algum, o STF considerou isso uma vergonha, uma injustiça. Pelo contrário.  Sabíamos que um dia essa guerra ia chegar. “Com o Supremo, com tudo”. [AV]

CENSURADO!

Era assim naqueles anos 1970. Um jornal colocava tarja preta nas partes de um texto mutilado pela censura do regime militar, outros, publicavam receitas de bolo que nunca davam certo. Uma revista espalhava diabinhos e a arvorezinha, símbolo da editora, por suas páginas censuradas. Outros simplesmente calavam-se. Ontem, a assombração da censura voltou a espalhar o medo por essa nau sem rumo chamada Brasil, quem sabe Brazil. Quando a revista Veja espalhou fake news pelo país afora, dizendo, por exemplo que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – as Farc – estavam financiando o Partido dos Trabalhadores, ou que Cuba de Fidel estava enviando dólares para o mesmo PT, em garrafas de uísque, juiz nenhum se preocupou em mandar recolher a revista. Ela circulou livremente com a mentira, espalhando o absurdo para os eleitores menos avisados que, alguns anos depois, acabaram elegendo esse desgoverno que está ai e com fortes sintomas de regime militar. Se a revista Crusoé mentiu, abra um processo contra ela. Ganhe na Justiça o direito de resposta. Se ela mentiu, será desmoralizada por suas próprias palavras. Mas não, o juiz Alexandre de Moraes mandou, de uma canetada só, a Crusoé e o site Antagonista retirar do ar a reportagem que o seu colega de trabalho, Dias Toffoli, aparece numa planilha da Odebretch (segundo a revista) com o codinome “amigo do amigo do meu pai”. Com palavras sempre bordadas usadas pelos juizes, tudo fica parecendo normal nas penas de Moraes. Mas a palavra correta é censura. [AV]

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