DEZ

A frase do biólogo Atila Iamarino não saiu da minha cabeça desde aquela noite de segunda-feira. Será mesmo que a próxima viagem está tão longe assim? Queria ainda conhecer a índia e o Vietnã, pelo menos. Não tenho pensado em mandar os casacos pro 5-à-Sec, juntar um dinheiro pra trocar por euros, entrar no site do Airbnb, nada disso. Concentro-me no vírus, em lavar as mãos com água e sabão durante 20 segundos, enxugar com uma toalha de papel e aproveitar o mesmo papel para apagar a luz do banheiro. Pelo jornal e pela televisão acompanho o drama de quem mora nas ruas ou em poucos metros quadrados, cinco ou seis pessoas juntas dormindo no mesmo cômodo. Fico aqui matutando como ajudar essa gente. Sou do grupo de risco e não posso sair de casa. Fico aqui entre algumas paredes, uma cor de rosa. Esse sofrimento persiste dentro de mim. A cada dia que passa ouço menos barulho lá fora. Nem os passarinhos do jardim do meu prédio tenho ouvido. De tempos em tempos passa um carro e eu me pergunto onde estará indo. Tenho visto na televisão distribuição de álcool em gel, cestas básicas e escutado a voz do morro nas reportagens de Chico Regueira. Me pergunto quando sairei daqui. Para o diário da família, fotografo fragmentos da minha casa, um enfeite aqui, um disco que estou ouvindo, um livro que estou lendo. O Home office tem funcionado, mas sinto saudade das frases da Marília Moraes ao cair da tarde. Sinto falta de passar na Livraria da Vila, de tomar um café na Cristallo, das frases que ouço dentro do ônibus Vila Anastácio. Onde será que está aquelas pessoas que via despertar todas as manhãs debaixo do Viaduto Presidente João Goulart? A viagem à India que eu me prometi fica pro São João, que não vai ser mais em junho, nem agosto, nem setembro. Nada mais atual que o primeiro verso de Drummond: E agora, José?

AO VIVO

Aconteceu sábado passado, diante o programa É de casa, na TV Globo. O repórter reuniu uma pequena turma de motoboys, entregadores de comida e outras coisas mais. Um papo ótimo. Eles explicaram como tem sido esses dias de coronavírus, nada fáceis. Quando o repórter ia se despedindo, um deles chamado Paulo, pediu a palavra: “Eu queria acrescentar uma coisa”. Educado, o repórter deu a palavra ao motoboy, que soltou os cachorros. Disse que o trabalho deles é muito pesado, é muita pressão, ganham pouco, qualquer coisinha que acontece são advertidos, cassados e terminou: “Eu tenho consciência de que o que eu faço é trabalho escravo!” Enfim, TV ao vivo é outra coisa.

[foto Reprodução TV Globo]

LAR, DOCE LAR

Hoje temos a segunda leva de repórteres em home office e seus livros nas estantes. Captamos “Gênesis” na prateleira do comentarista Ricardo Amorim, o livro “História da Feiura” na casa da Cecília Malan, em Londres, “Asad – The Struggle for the Middle East” na casa de Guga Chacra, em Nova York e “Radical Chic” chez Leilane Neubarth. 

[fotos Reprodução GloboNews]

BYE BYE PAPEL

O jornal político e satírico francês Le Canard Enchaîné, fundado em 1915, nunca teve sua edição online. No entanto, desde a semana passada, Le Canard (é uma expressão que os franceses usam para um jornal tipo pasquim) deixou temporariamente sua edição em papel e adotou a online. O coronavírus está mudando o mundo. 

GABRIELA, CRAVO E CANELA

A primeira sacudida na redação da CNN Brasil, em 15 dias de vida, foi a revolta da comentarista e advogada Gabriela Prioli, atração do quatro #grandedebate, todas as manhãs. Ela pediu demissão, situação confusa porque horas depois, a CNN tentou reverter a situação e informou que ela “pediu para sair do programa”. Ainda não se sabe se ela fica ou vai embora da emissora. Se ficar, não vai ser mais no debate. Gabriela brilhou e chamou atenção desde o primeiro momento, quando estreou jantando (esse foi o termo usado por todos nas redes sociais) o bolsonarista Caio Coppola, que se afastou do programa alegando problemas de saúde. O direitista Tomé Abduch substituiu Coppola e também foi jantado por ela. No meio do debate, o apresentador Reinaldo Gottino, meio atônito com o “bate-boca”, tentava colocar panos quentes e, assim que Gabriela pediu demissão, veio a público se desculpar com ela, pedindo perdão pela falta de educação para com ela, em alguns momentos. “Eu digo a vocês, de forma reiterada, para se posicionarem, serem firmes e não cederem diante de comportamentos que vocês considerem inadequados. Se agora, quando a vida demanda isso de mim, eu agisse de outra forma, estaria sendo hipócrita”, postou Gabriela nas redes sociais. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.  

 

 

HOME OFFICE

Nesses tempos em que jornalistas e comentaristas trabalham em casa, o meu divertimento é observar que livros têm em casa. A maioria tem como cenário suas bibliotecas, o que é ótimo. Vamos começar com a biblioteca da jornalista de economia e política, Miriam Leitão, onde captamos o livro O Lulismo no Poder, de Merval Pereira. Na estante da jornalista Andréia Sadi,  o livro Antologia da Maldade, de Gustavo Franco e Fabio Gambiagi. Na biblioteca de Demétrio Magnoli, O Livro de Manuel, de Julio Cortázar. E por fim, na casa do jornalista Marcelo Courrege, The Complete Novels, de Fiódor Dostoiévski. 

 

OITO

Sobraram ainda alguns limões sicilianos da nossa compra de mercado feita há dez dias atrás. Na despensa, ainda havia um pacote de arroz arbóreo e foi dele que surgiu na nossa mesa um risoto de limão siciliano digno de um dia de domingo. Colocamos a mesa e almoçamos. Bebi a última garrafinha de Estrella Galícia. Os próximos dias, enquanto o supermercado não entrega nossa compra, tudo vai ser muito mais simples. Mais simples que um omelete, porque ovo, o último foi num bolo. A manchete da Folha nos inquieta, as pessoas passando fome nas favelas. Vou acrescentar na compra do supermercado, mais arroz e feijão. Temos de encontrar uma maneira de colocar dentro da janelinha do Senac Moda, onde as pessoas deixam roupas que não vão usar mais e onde, toda semana, deixo lá as revistas lidas que não guardo. Na televisão vejo imagens do lunático percorrendo as cidades satélites de Brasília, fazendo selfies com crianças, imitando Hitler. Tal e qual. De noite, um certo alívio quando lemos que o Twitter retirou do ar, mesmo que tarde demais, as postagens do idiota em pessoa. As ruas estão vazias por aqui, mas nem tanto. Deveriam estar mais, completamente às moscas. Nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro as cidade vazias. Milão, Nova York, Paris, Berlim, Lisboa, Roma, Madri. Alguns jornais daqui mostram um idiota na Ceilândia cercado de pessoas que o seguem com se ele fosse o flautista de Hamelim. Hoje é dia de home office. A ideia é começar a fazer exercícios dentro de casa. Uma filha faz pilates na sala da casa dela e manda a foto. A outra, quando ligamos, estava ofegante, fazendo exercícios com Jane Fonda. A terceira, deu sorte de morar numa casa e é no quintal que encontra sua liberdade com meu netinho. O quarto, mora num sítio e está se guardando também. Todos nós. Que vida há la fora? Sem futebol, o Globo Esporte sumiu, o Esporte Espetacular sumiu, o Lance sumiu. Na França, pela primeira vez, o jornal Le Canard Enchaîné deixou de circular, virou online sem nunca ter sido antes. Em Portugal, a Time Out Lisboa virou Time In Lisboa. Os guias da metrópole onde moro sumiram do mapa, bem como os suplementos de turismo. Tem alguma coisa no ar e não é mais aquele avião de carreira. Assim caminha a humanidade.

[foto Reprodução/Matisse – detalhe]

SETE

Eu preciso te falar,
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar,
Depois andar de encontro ao vento.
Eu preciso respirar
o mesmo ar que te rodeia,
E na pele quero ter
o mesmo sol que te bronzeia,
Eu preciso te tocar
e outra vez te ver sorrindo,
e voltar num sonho lindo
Já não da mais pra viver
um sentimento sem sentido,
Eu preciso descobrir
a emoção de estar contigo,
Ver o sol amanhecer,
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo.

[Como um dia de domingo/Michael Sullivan-Paulo Massadas • trecho]

SEIS

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. 
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas 
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra 
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra 
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. 
Na verdade, o homem não era necessário 
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. 
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias 
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa 
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos 
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. 
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes 
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia 
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo 
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia, 
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias 
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio 
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula. 
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos 
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas 
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade 
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo 
E para não ficar com as vastas mãos abanando 
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança 
Possivelmente, isto é, muito provavelmente 
Porque era sábado.

[Dia da Criação/Vinicius de Morais – Parte III]

foto Fan Ho