SEM RESPOSTA

Desde meados dos anos 1980, quando a Legião Urbana colocou nas paradas de sucesso uma música chamada “Que país é este?”, nós, brasileiros, vivemos fazendo a pergunta. E nunca encontrando a resposta. EsTa semana, a questão voltou à tona quando o ministro do Turismo do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antônio, acordou cedo e foi até o aeroporto do Galeão para bater palmas para os primeiros turistas americanos que chegavam a esse país que ninguém sabe qual é, sem a necessidade de visto. Fico imaginando que os turistas devam estar rindo até agora, lembrando a cena de um babaca de terno, batendo palmas no aeroporto, quando o sol nem tinha raiado ainda.

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A VELHINHA DE TAUBATÉ

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê “Eu Vou”. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda um selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando ele diz na televisão que não entende nada disso ai, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu também não sei o que é deficit público. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai melhorar e que a revista Veja virou comunista.

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[ilustração LFVeríssimo]

O CULPADO

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, é o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes da realidade. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória. Não era bem aquilo que lhe informaram, que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, todo feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser  feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu num buraco fundo, ribanceira abaixo, difícil de sair. Hoje ele vive numa especie de inferno, em silêncio. Se alimenta de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: Que cagada!

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QUERIDO DIÁRIO

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, em baixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão! Chame o Ladrão! Cálice, e pára em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

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NOS TEMPOS DO DULCORA

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje

Quando eu era menino, no tempo do Gumex, do Simca Chambord, da Mirinda Morango e da coleção de flâmulas, o meu pai sempre dizia:

– No meu tempo, quando não tinha televisão…

Eu era criança, mas vivia intensamente a era da televisão, uma novidade. Era fã do Vigilante Rodoviário, da Rua do Ri Ri Ri, do Agarre o que puder, da novela Se o mar contasse.

E ficava imaginando como tinha sido a infância do meu pai sem o Pica-Pau, o Zé Colmeia. o Manda-Chuva, os Flintstones e os Jetsons.

Mas hoje, pensando nessas coisas, eu me lembro que o meu pai só se lembrava de não ter televisão, quando ele ainda usava calças curtas, escrevia a lápis e tomava Cremogema toda manhã.

Cansei de ouvir ele rezando essa ladainha e evitei, durante toda a vida, dizer:

– No meu tempo, quando não havia celular…

Quem tem uns quinze anos de idade hoje, imagina que quando eu era pequeno já existia tudo que existe hoje.

– Como assim, não tinha micro-ondas?, perguntou uma menina aqui em casa, outro dia.

Aí, sentei aqui no computador e comecei a enumerar, a fazer uma lista de algumas coisas que não existiam no meu tempo de criança.

Além do micro-ondas e do caixa eletrônico, não tinha cartão de crédito e a gente pagava tudo com dinheiro vivo ou cheque.

O automóvel não tinha cinto de segurança, vidro elétrico e, para abrir ou fechar, era na base da manivela.

Não tinha pedágio, a gente viajava sem ter de parar naquelas cabines e ficar sabendo que a cobradora chama-se Soraia.

No meu tempo, para acordar, tínhamos um despertador em cima do criado-mudo. Para calcular usávamos a calculadora, para se orientar, a bússola, para apontar o lápis, usava-se gilete, para saber o telefone de alguém consultávamos o catálogo telefônico.

No meu tempo, tempo do Q-Suco e do Q-Refresco, não tinha kiwi. A gente comia banana, mamão, laranja, jabuticaba e goiaba no pé, essas frutas comuns. Uva e pêssego, só no Natal.

Quando eu era criança, no tempo do drops Dulcora, da zebrinha do Fantástico e do Renault Gordini, não tinha TV a cabo, os canais eram do 2 ao 13 e todo mundo sabia que a TV Itacolomi era canal 4 e a TV Record, canal 7.

No tempo em que o símbolo da TV Tupi, canal 6, era um indiozinho, a gente vivia sem aplicativo, sem WhatsApp, sem Instagram, sem Netflix, sem CD, sem Spotify, vivia sem Uber, sem mensagem de voz, sem senha, sem código de barra, , sem iFood, sem e-book, sem e-mail, sem Ipad, sem Gmail, sem UOL, sem www, sem mala com rodinha e sem estresse.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

RABO PRESO

Está no ar no Congresso, na Câmara dos Deputados, na Praça dos Três Poderes, nas salas dos chefões das grandes empresas comerciais de comunicação, está por todo lado em Brasília, Rio e São Paulo, um clima de terror e medo. Quem conversou pelo telefone com o ministro da Justiça, Sergio Moro, de 2015 pra cá, não tem dormido direito, tentando relembrar alguma conversa, algum assunto picante, algum acerto. É uma aflição que o goleiro sente na hora do pênalti, daquele estudante que abandonou a vida, passou um ano estudando e agora espera o resultado do vestibular. O poder em Brasília está pegando fogo, fervendo. O mesmo acontece nas redações no Rio e em São Paulo. Quem está com o rabo preso, não está tentando se desvencilhar, está esperando apenas a hora da bomba estourar.

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