DOMINGO NO PARQUE

Um homem solitário ficou ali parado durante muito tempo, contemplando o verde da natureza do Parque Municipal. Também o céu infinitamente azul e nuvens que mais pareciam algodão. Ao lado do Teatro Francisco Nunes, ele apreciava tudo: O lago manso, as pequenas ondas que vinham quando um barco à remo ia. Ou quando um casal de patos mergulhava a cabeça n’água, em busca de resíduos para comer. As pessoas que passavam, nós por exemplo. Mas o homem que estava ali solitário praticamente não mudava de posição, só os olhos mexiam pra lá e pra cá. Quem é ele? Por que estaria ali no parque? Descansando de um final de semana de trabalho duro, respirando um pouco de ar puro? Teria ele mulher, seria viúvo? Teria filhos, genros, noras. netos? Não teria sido convidado pro churrasco do domingo? Não sei. Sei que ficou ali debaixo de uma árvore centenária que lhe dava sombra e um pouco de conforto. Vai ver que não é nada disso que imaginei. Estava ali apenas esperando o seu amor para um encontro marcado, título de uma velha crônica do seu conterrâneo.

[foto Alberto Villas]

 

HORIZONTES

Eu me lembro quando Belo Horizonte cabia quase toda dentro do contorno que dá nome a avenida. Pouca coisa saia fora dali, as primeiras ruas tortas, as primeiras favelas, a periferia. Hoje, a cidade se perdeu. Cresceu pra todos os lados mas continua Belo Horizonte, uma cidade maior e mais viva. Protesta em seus muros, escreve suas poesias nas paredes, expõe sua arte onde der, principalmente nas laterais dos edifícios. É uma cidade viva e confusa como todas as outras, com motocicletas do Uber Eats circulando por todos os cantos, entregando comida aos funcionários que não tem mais tempo, como o meu pai tinha, de ir em casa  almoçar o seu arroz, seu feijão tropeiro, sua couve, seu franguinho com quiabo, sua marmelada de sobremesa. Continuo andando por aqui, buscando na memória os lugares que não existem mais. As Estâncias Califórnia, a Guanabara, a Bemoreira, o Cine Pathé, o indiozinho da TV Itacolomi, Cafunga comentando os gols na rádio, a coxinha da Torre Eiffel e a Padaria Savassi. Continuo circulando por aqui e vendo coisas que gosto. A cada esquina eu me espanto e, mineiramente, digo: Nu!!!

Visto assim da Praça da Estação

O vendedor de algodão-doce

A presença de Niemeyer

Que tal um selfie?

[fotos Alberto Villas]

UM PASSEIO PELA MINHA BH

Uma volta pela cidade para matar a saudade

O Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, cartão postal que não poderia passar em branco

A intervenção urbana, presente nas esquinas do clube

Os grafitis que se espalham pelos muros

As peças de chita, a cara de Minas

Os irresistíveis queijos no Mercado Central

Mil tipos de pimenta, outra marca registrada

As livrarias de rua, o charme que ainda resiste. Aqui, a Dom Quixote

A coleção BH, a cidade de cada um, para quem quiser conhecer o coração da cidade. O volume 13, Carmo, foi escrito por este cronista

[fotos Alberto Villas]

MINHA TERRA

Voltar a terra onde nasci e vivi meus primeiros 22 anos. Devia vir mais aqui, mas venho pouco. Oito horas de estrada nos separam há muitos anos. Tenho noticias quase todos os dias no grupo dos irmãos, mas notícias frescas só quando venho aqui. Depois de muita estrada e as montanhas em volta, cheguei aqui. De noite, já escuro. Vi pouco da cidade, suas luzes, seus pequenos engarrafamentos, seus táxis brancos com a inscrição na porta: BH Cidade Surpreendente. Hoje vou sair, rever meus cantos, o bairro do Carmo, a Savassi, a Praça da Liberdade, o CCBB, o Palácio das Artes, o Mercado Central. São coisas que mexem com o meu coração, minha memória, tão cantada nas crônicas semanais que escrevo pra Carta Capital. O que vou ver hoje? Amanhã eu conto.

OUTROS PAPOS

Um operário finaliza o topo da réplica da Torre Eiffel que está sendo construída na cidade de Nova Delhi, na Índia.

[foto AFP]

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A capa, sempre deslumbrante, da New Yorker da semana.

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Memória. Califórnia, 1960

[foto Historyinpix]

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Leitura recomendada:

https://www.pagina12.com.ar/168283-mas-que-tabla-de-salvacion-chaleco-de-plomo

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Uma leitura indispensável.

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A melhor definição para a polêmica do Brexit está na capa do jornal português Público desta terça-feira.

 

PESQUISA

O Brasil é um país curioso. Todos sabem, por exemplo, que a maioria da população seria incapaz de dizer o nome do deputado estadual que ela votou nas últimas eleições, mas para responder pesquisas sobre os problemas do Brasil, a mesma população parece afiada. Ou, pelo menos, é o que pensa o DataFolha. Depois de perguntar ao povo se Lula deveria ser preso ou não, mesmo sabendo que ninguém conhece o processo, ele obteve um resultado e manchetou. A população brasileira parece afiada para responder qualquer pergunta: Demarcação de terras indígenas, aborto, maioridade, dívida externa, déficit público, armamento, tudo. Só falta o DataFolha perguntar o que o povo achou da Bolsa de Nova York ter caído 1,2%. Cada brasileiro já está com a resposta na ponta da língua. É só perguntar.

[AV]