O FUTURO ESPERADO QUE EU NÃO SEI

A aflição em saber como vai ser o novo amanhã, tira nossos pés do presente. Ninguém mais pensa em plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Isso é coisa do passado. Estamos apenas começando a viver o pico, o auge, mas queremos saber como será o depois. O depois vai ser igual ao que foi ontem. Lembra quando cantávamos esse ano não vai ser igual aquele que passou, você não brincou, eu também não brinquei? Lembra quando cantávamos na ditadura que apesar de você, amanhã vai ser outro dia? Quem não se recorda de Guilherme Arantes no piano? Amanhã será um lindo dia/Da mais louca alegria/Que se possa imaginar? Não podemos nos esquecer do mutante Arnaldo singin’ alone: eu quero ver o sol nascer/antes do do outro comercial.

 

 

HORÓSCOPO

Em maio não vi meu vizinho do lado, nem o de cima, nem o de baixo. Em maio não peguei o metrô rumo a estação Liberdade. Maio passei por aqui, numa espécie de prisão domiciliar. Que venha junho, que venha julho e agosto. O horóscopo de Joseph Polansky para junho diz que as portas do mundo podem se fechar, mas as espirituais estarão sempre abertas. Diz também que os melhores números serão o 5, 6, 14, 15, 24 e 30. Trinta, quando acabará junho e virá julho. Que julho, o feriado de 9 de julho por aqui já passou. Será que ainda estarei como Pedro Pedreiro? Esperando… esperando… esperando?

A HORA E A VEZ DA ESQUERDA

Este pequeno texto é apenas para chamar atenção para um fato. Vocês já perceberam que a esquerda agora aparece toda noite no Jornal Nacional? De repente é um deputado do PSOL, um ex-ministro do PT, um advogado progressista, todos ali na tela da Globo expondo os absurdos do presidente sem partido. Eles andavam sumidos, lembram? Nem mesmo o Álvaro Dias, presença quase que diária no principal telejornal do país, anda meio sumido. 

NÃO ME TOQUE!

É doce morrer no mar, A jangada voltou só, A lenda do Abaeté, Pescaria, Saudades de Itapuã. É bom acordar pensando nas canções praieiras de Dorival Caymmi, mesmo com a certeza de que o mar está longe e pra chegar até ele preciso subir ou descer. Aqui é assim. Vou mais longe e lembro-me de Edu. Será que hoje tem jangada no mar? Lembro-me de Gil, a dez mil quilômetros do sol, do luar que tanta falta lhe fazia junto do mar, mar da Bahia cujo verde vez em quando lhe fazia bem relembrar. Quando eu era menino, o mar era gigante, acho que bem maior do que é hoje. Construía castelos na areia, túneis e estradas, removia montanhas. Mar de Copacabana, para onde íamos todo verão, a família inteira. Tanto tempo sem ver, só no sonho ouço de longe o seu barulho, seu vai e seu vem, o fugir das águas-vivas, o perseguir uma maria-farinha, catar conchinhas, desviar de gravetos. Chegam até mim via Internet, as primeiras imagens do novo mar pós-pandemia. Pessoas cercadas por quadrados e a volta de uma velha expressão: não me toque! Sorry, Dorival! Não sei se ainda é doce morrer no mar. 

FLAGRA!

São Paulo, quinta-feira, 28 de maio de 2020, 6 horas da manhã. A apresentadora da GloboNews anuncia, ao vivo, que a partir de segunda-feira começa na maior cidade da América do Sul, o fim da flexibilização da quarentena. Quer dizer, as pessoas vão poder voltar a circular pela metrópole.

[foto Reprodução/GloboNews] 

O QUE VEM A SER ROBERTO JEFFERSON?

No final da tarde desta quarta-feira (27), ele foi visto na Rádio Jovem Pan xingando o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Morais, de todos os nomes, acompanhado dos apresentadores de faziam hum hum com a cabeça, concordando com ele. Venhamos e convenhamos que, na altura deste campeonato, defender o governo ultra-direitista de Jair Bolsonaro não deve ser fácil.

[foto Reprodução/Jovem Pan]

O LEITOR

Li recentemente que está difícil para quem vive em confinamento, se concentrar e ler um livro. A reportagem mostrava que o vírus que está no ar, não deixa o confinado deitar na rede, sentar no sofá, na cadeira, abrir um livro e ir absorvendo página por página. Menos de um minuto depois de ler as primeiras linhas, lembra que se esqueceu de tirar a carne do congelador, de acrescentar o sabão líquido na lista do supermercado, de limpar o pó gorduroso acumulado em cima da geladeira, de escolher uma foto para postar no #tbt da quinta-feira. Antes de começar a ler o livro, resolve ler, antes, a crônica do Antônio Prata de domingo na Folha que separou pra ler mais tarde, depois de lavar o box do banheiro. Quando ele deita na rede e vai se ajeitar, percebe que a hortinha está seca e precisa de água. Rega o hortelã, o tomilho limão, o alecrim e a salvia. Ai vem aquela vontade de tomar um cafezinho quente, quando lembra que precisa colocar na lista do supermercado, o açúcar mascavo que está no fim. Finalmente pega o livro Van Gogh, a vida, de Steven Naifeh e Gregory White Smith e começa a ler. Tem 1.096 páginas pela frente e não vai parar tão cedo. Nem mesmo para apagar a luz do banheiro que esqueceu acesa. 

O BRASIL NOS TEMPOS DO ÓDIO

Não vi, mas soube logo cedo lendo o texto do Mauricio Stycer, que o apresentador do Jornal Nacional esteve conversando com Pedro Bial nas primeiras horas da madrugada desta quarta-feira, 27. Soube da sua amargura ao ser ofendido nas ruas, da impossibilidade de ir e vir. Como leitor de leitor, registro aqui os primeiros comentários que surgiram logo abaixo do texto do crítico do UOL:

É só falar a verdade que o amor do público volta.

O cara dedica a vida a mentir e enganar, e espera o que?

Salvo engano, o seu entrevistador faz parte do eleitorado a que pertencem seus algozes.

Você está colhendo o que plantou.

Igualzinho o Lula: só fala a versão que lhe interessa.

A solução já está pronta. Pegue suas malas e vá embora, seu menino de recado de seus patrões loucos por dinheiro público.

Dê as notícias com imparcialidade.

Quem com ferro fere com ferro será ferido.

Bom, não assisti (nem pretendo), mas o Bial com todos os seus versos, poemas e pensamentos, não chegou a recitar: “Quem planta vento, colhe tempestade”

Lamento os ataques pessoais. Mas cabe dizer que o jornalismo da Globo sempre mostrou apenas um lado (vide reforma da Previdência) e semeou tudo isso que está aí.

Tadinho não poder pegar avisão. Fiquei com dó do menino!

Quem se prontificou a falar inverdades sobre pessoas honestas desde 2014 não pode reclamar de nada.

Acho que ele não conhece os problemas do trabalhador comum. Esses “probleminhas” dele eu tiraria de letra, o cara vive literalmente numa aldeia global.

Foi o ódio que a sua emissora plantou! Agora aguenta!

Tá experimentando do próprio veneno, né meu filho?

Quem ganha 750 mil tem que estar preparado para aguentar pressão! Sem mimimi.

Você e seus patrões pavimentaram tudo isso, apoiando o golpe e o lava batismo, criando esse ódio da esquerda. Vocês chocaram o ovo da serpente. Agora é tarde.

… e por aí vai! 

[foto Reprodução/TV Globo]

 

AO VIVO

Há dois meses meses não vejo um japonês ao vivo. Um negro, uma criança, uma diarista, a menina do Bradesco Prime com o colete Posso te ajudar?, a caixa da padaria Palácio dos Pães, um motorista de Uber, de ônibus, de van. Há dois meses não vejo um cachorro ao vivo e em cores. Não vejo os buracos nas calçadas, guimbas de cigarro, idosos varrendo os alpendres dos sobradinhos da Lapa, os garis recolhendo folhas do outono na Praça Marechal. Há dois meses não vejo um cobrador de ônibus cochilando, uma mocinha aflita gritando espera, motorista, que eu vou descer! Há dois meses não vejo as carambolas do sacolão da Lapa, o Severino na banca de jornal, o Sandro na portaria do meu prédio, os postits coloridos na vitrine da Lapapel, os croissants na Fabrique, os carrinhos de frutas nas esquinas de Higienópolis. Nunca mais vi um pombo ciscando farelo na porta do Bar e Lanches Souza, nunca mais vi um morador de rua recolhendo seus panos debaixo do viaduto Presidente João Goulart. Há dois meses não vejo uma escada rolante, uma revista Minha Novela dependurada na banca, um livro na livraria, uma Fanta Manga no Superville, uma camionete amarela da DHL, uma árvore caída depois do vendaval, um motorista falando ao celular, um farol quebrado, um engarrafamento, a maquininha de senha do laboratório de análises clínicas. Há mais de dois meses não vejo minhas filhas, meu filho, minha neta, meu neto, meus irmãos, meus sobrinhos, minhas amigas, meus amigos, meu afilhado, meu neto. Gente, onde está o meu país?