VI E GOSTEI

A abertura do programa Papo de Segunda, exibido pelo GNT, ao vivo, às dez e meia da noite de 13 de julho, foi pura emoção. Fábio Porchat, Francisco Bosco, Emicida e João Vicente, trouxeram para os telespectadores a presença luxuosa do Padre Julio Lancelotti, que há mais de três décadas luta ao lado dos moradores de rua de São Paulo. Os primeiros vinte minutos do programa foram diferentes, emocionantes, tensos. O padre Julio contou a sua batalha, deixando os quatro participantes do programa engasgados. E milhares de telespectadores também. Francisco Bosco resumiu bem: foi o momento mais importante da história do programa. Quem não viu, vale a pena ver e quem viu, vale a pena ver de novo. 

[foto Reprodução/GNT]

ONDE FICA YAOUNDÉ?

Toda manhã, depois de folhear os jornais nacionais, eu me pergunto: que notícias me dão da África? Quase nenhuma, nenhuma. Vejo fotografias de pessoas circulando usando máscaras em Londres, em Amsterdam, em Nova York, em Roma, mas nunca vejo ninguém caminhando pelas ruas de Kwanza, de Guitega, Yaoundé, Bamako ou Nouakchott. A pandemia se espalhou, fomos informados do número de mortos na China, no Japão, na Tailândia, no Laos, na Austrália, entre os índios, os quilombolas, os esquimós, os aborígenes. Mas quase nenhuma notícia dos africanos. O que chega aqui são apenas hard news, de tempos em tempos. Um general que tomou uma rádio aqui e deu um golpe ali, uma guerra lá e outra acolá. Ouvimos Chico César cantando Mamma África e Chico Buarque cantando a morena de Angola que leva o chocalho na canela, sem nunca saber se é ela que mexe o chocalho ou o chocalho que mexe com ela, aquela camarada do MPLA. Acordei querendo saber como vai o povo de Freetown, de Lomé, de Kampala, de Lusaka, de Harare. Cartas para a redação, please. 

PARDON!

Durante mais de um ano, a Globo, televisão, rádio, jornal e tudo mais, realizou um verdadeiro massacre do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um pequeno sítio em Atibaia e um apartamento de classe médio no Guarujá, foram transformados em cenários de uma grande novela das oito e meia. Tanto o sítio quanto o apartamento, que nunca nunca foram provados pertencerem ao ex-presidente, transformaram em dezenas, centenas de matérias nas mídias de Roberto Marinho (foto). No Jornal Nacional, bastava citar o nome Lula para aparecer, no fundo da tela, enormes tubos jorrando notas de cem reais. Desconfiados que o sítiozinho teria sido reformado por uma empreiteira, em benefício de Lula, o JN ouviu até mesmo a dona de uma lojinha de material de construção nas redondezas, que se lembrava vagamente de Dona Mariza por ali comprando meia dúzia de tijolos. Usaram helicóptero, drones para provar que a mulher do presidente tinha ali uma pequena horta e se tinha uma horta, era a dona do pedaço. Com o apartamento no Guarujá, outro massacre, uma novela sem fim. Cinco anos depois, na edição de domingo (12), na página 3, o articulista Ascânio Seleme, Globo de carteirinha, escreveu um artigo intitulado “É hora de perdoar o PT”. Eu me pergunto se não é hora da organização Globo pedir perdão a Lula pelo crime que fez a ele. Se você se interessar, leia o artigo abaixo.

BEAUCOUPS OF BLUES

Não me lembro se chorei, acho que não, era feio homem chorar. Mas o fim dos Beatles me derrubou. Eu não queria acreditar que o sonho havia acabado. Mas logo vieram os primeiros discos solos, que me colocaram de pé novamente. John Lennon cantando Imagine naquele longplay em que ele parece não ser o único sonhador em meio à nuvens. Veio aquele disco do Paul, o das cerejas em conserva espalhadas em cima da mesa, que abria com The Lovely Linda. E o álbum triplo de George Harrison dentro daquela misteriosa caixa? Eram os Beatles separados, mas Beatles forever. E o quarto a lançar o seu disco solo foi Ringo, o patinho feio. Olhar tristonho, vago, cigarro na mão, Ringo parecia um pouco desolado na capa de Beaucoups of Blues. Foi um susto quando comecei a ouvir Ringo Starr, eu não tinha vinte anos de idade e praticamente nenhum conhecimento de blues. Jamais ouvira falar de Jimmy Witherspoon, Menphis Slim, Etta James, Lind Boy Fuller ou Champion Jack Dupree. Quem era aquele cara cantando Woman of the Night, Waiting, Nashville Jam e Silent Homecoming? Cinquenta nos depois, confesso que ouvi o disco apenas uma vez e dei  de presente para um amigo, da mesma forma que dezenas de pessoas se desfizeram do Araça Azul, do Caetano, em setenta e três. Eu queria rock and roll e Ringo veio com romance. Fiquei com essa história na cabeça o domingo inteiro, depois de ler a entrevista com o  Ringo Starr, 80 anos, feita pela querida Ana Maria Bahiana para a Ilustríssima. Ele lembrou a ela que sempre foi um apaixonado por blues. Como eu me arrependo de ter desfeito daquele vinil, mas guardo aqui o CD e agora voltei a ouvir no Spotify. No meu confinamento, que remédio bom é o tal do Beaucoup of Blues. 

GÊNIOS DA PINTURA

Eu não tinha NCr$2.50 por semana para comprar os fascículos dos Gênios da Pintura naquele ano de 1967. Ganhava NCr$10.00 por mês de mesada do meu pai e já gastava NCr$2.00 para comprar os quatro fascículos de Conhecer. Não tinha como passar o mês sem nada, perder todas as matinês do Cine Pathé, não ir ao cinema para ver as meninas. Então eu namorava, na banca do Seu Benito, toda segunda-feira, um novo fascículo dos Gênios da Pintura. O primeiro foi Van Gogh, seu autorretrato na capa me encheu de emoção e curiosidade. Procurava saber na Barsa tudo sobre ele, mas aquele fascículo maravilhoso da Editora Abril eu não tinha como comprar. Depois vieram outros: Leonardo da Vinci, Rembrandt, Renoir, Goya, Portinari, Matisse e tantos outros. Seu Benito deixava que eu folheasse com cuidado cada fascículo, sem pagar. Os que mais gostavam eram os impressionistas, Edouard Manet, Claude Monet, Edgard Degas, Alfred Sisley e tantos outros. Foi folheando esses fascículos na Praça da Savassi que conheci Murillo, Hals, Watteau, Hollbein, Uccello. Essa noite sonhei que estava no museu D’Orsay. As viagens dos meus sonhos ou os sonhos das minhas viagens estão fazendo muito bem pra minha cabeça confinada. Um dia depois de sonhar que estava na cidadezinha de Kyparessia, no Peloponeso, cuidando de cabras, no dia seguinte eu apareço no salão principal do Museu D’Orsay, à beira do Sena. Muitos anos depois, matei meu desejo quando entrei no Sebo do Messias e vi lá à venda, a coleção completa, os 96 fascículos dos Gênios da Pintura, em ótimo estado. O colecionador deve ter morrido e os filhos passaram aquilo adiante. Paguei em três vezes no cartão. Se não posso pegar o primeiro avião com destino a Paris, baixei (no sentido de colocar uma escadinha e ir descendo um a um) toda a coleção para passar o domingo vendo: Cèzanne, Mirò, Seurat, Klimt, Kandinsky, Toulouse-Lautrec, todos eles.

[ilustração Andy Wahrol] 

[ilustração Andy Wahrol]

ASAS DO DESEJO

Pardal existe por tudo quanto é canto do mundo, quase todos iguais. Só no Japão que não são iguais aos daqui, aos de Djibuti, aos de Cariri. Ganharam uma leve plumagem amarela, talvez resultado de um cruzamento com canarinho belga. Mas não cantam também, vivem nas ruas de Tóquio, de Kioto, como qualquer outro. Quando cheguei a Paris para enfrentar aqueles longos invernos, assim que vi um pardal na Rue Souflot, logo perguntei como era o nome dele por ali e alguém me explicou que era Piaf, como Edith que conhecia pouco, mas aos poucos fui me apaixonando. Ela pegou o nome do passarinho por viver cantando pelas ruas do Quartier Latin. Mas piaf não canta, guardei isso para sempre e nunca entendi direito. Talvez Edith quisesse apenas a liberdade deles e não o canto. Nunca vi um ninho de pardal, mas sei como vivem, o que comem, por onde andam. Sei distinguir o macho de uma fêmea. O macho tem manchas marrons escuras nas asas e uma espécie de babador preto no peito. São maiores que as fêmeas, que têm uma plumagem marrom clara e uniforme. Gosto dos pardais e sempre que posso dou migalhas de pão para eles, sua comida preferida. Há cento e onze dias não vejo um. Da janela, procuro e vejo apenas maritacas, sabiás que são muitos e beija-flor que se aproximam da varanda para beber água fresca que troco todo dia no bebedor colorido. Nesses tempos de coronavírus, ando tentando desconstruir a frase genial de Mario Quintana. Eles passarinho, eu passarei.