A FOTO DO SÁBADO

Num lugar distante e longínquo, numa praia considerada uma das mais bonitas do mundo, a Navagio, no mar Jônico, na Grécia, encontrei um par de tênis estropiado, jogado num canto, junto à muralha que cerca a areia. Fiquei impressionado com o seu estado e com as cores pastel que talvez a maresia tenha provocado naquela lona. Nessas horas sempre penso: De quem seria esses tênis abandonado naquele pedaço maravilhoso da natureza? Ninguém ousa tirá-lo daqui porque certamente tem uma história por trás dele. Mesmo que uma historinha banal.

[foto Alberto Villas]

A AREIA DO SAARA

Estou fora do Brasil há três meses. Nesses noventa dias, andei por muitos lugares, cada um mais fascinante que o outro. Atravessei oceanos, vales e montanhas em busca do belo, cada dia mais belo. Molhei os pés no Mar Egeu, colhi figos no Peloponeso, flores na Toscana, catei pedras quadradas no Mar Jônico. Não tem foto, filme ou palestra que ilustre o que os meus olhos viram até aqui.

Se alguém me perguntar o que mais me surpreendeu, o que mais me deixou perplexo nesse trimestre sabático, não vou pensar duas vezes e responder na lata: A areia do Saara.

Explico. Acordamos cedo em Florença e o sol já estava forte. Tomamos o nosso café da manhã, café gostoso preparado na Bialetti e saímos pra caminhar pelas ruas da cidade, uma das mais lindas da Itália.

Nossa surpresa veio quando chegamos na primeira esquina do bairro de San Niccolò, onde estávamos morando, e vimos os carros enfileirados, estacionados rente aos muros da cidade, todos eles cobertos por uma estranha poeira amarelada.

Num primeiro instante, achei que tinha chovido pouco na madrugada e os carros sujos ganharam aqueles respingos que viram uma coisa medonha na lataria. Mas não, não havia chovido e todos os carros estavam com aquela poeira amarelada. Não só os carros, mas também as bicicletas, as lambretas e as motocicletas.

Foi a Paulinha que sacou que aquilo poderia ser a areia do Saara que o vento trouxe na calada da noite. Paramos, pensamos, lembramos  imediatamente e começamos a cantar a canção Reconvexo, de Caetano Veloso, que começa assim:  Eu sou o vento que lança a areia do deserto do Saara/Sobre os automóveis de Roma. Roma não estava tão longe de nós e certamente aquilo era sim a tal areia dos versos do compositor baiano.

Andamos, andamos e vimos que todos os automóveis da cidade estavam assim, pulverizados pelo fenômeno.

Quando chegamos em casa, à noite, fomos buscar mais informações no Google. A última notícia dizia que a paisagem em regiões montanhosas do Leste europeu havia sido modificada devido a uma tempestade de areia do deserto do Saara, no Norte da África. Aquele pó havia atingido a Ucrânia, a Rússia, a Bulgária e a Romênia.

Continuamos pesquisando e ficamos sabendo que cientistas da Nasa apresentaram um estudo que detalha como a areia do deserto do Saara viaja pelo Oceano Atlântico e chega até mesmo a fertilizar a floresta Amazônica. Ela contém fósforo, um dos principais ingredientes para o crescimento das plantas.

O estudo da Nasa feito pelo Goddard Space Flight Center, chegou à conclusão que mais de 27 milhôes de toneladas de areia viaja do Saara até a Amazônia, todos os anos. Ficamos deslumbrados.

A certeza absoluta veio quando Frederico, um italiano boa praça, veio inspecionar o apartamento que alugamos e apontou para a janela de vidro da sala, localizada no teto, e disse: Está um pouco suja hoje por causa da areia que vem do Saara.

Conectamos no Youtube a canção Reconvexo e ela virou nossa trilha sonora há três meses. Sei o valor dos versos de Caetano, mas, para nós, foi maravilhoso pensar que ele achou poesia no vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma.

Pensando bem, não era para se espantar, Caetano já encontrou poesia até mesmo no papel de seda azul que envolve a maça, não é mesmo?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

A ILHA

Se há uma resposta que nunca errei numa prova de Geografia foi aquela O que é uma ilha? Sabia na ponta da língua que era um pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Hoje, acordamos cedo, viajamos duas horas por terra e chegamos a cidade de Killini, onde pegamos o navio Andreas Kalvos e, uma hora depois, chegamos ilha de Zakynthos, na Grécia. Vamos passar a noite num pedaço de terra cercado de água por todos os lados. As primeiras imagens que captei de Zakyntos foram essas.

Uma loja de chapéus

Uma casa

Um goleiro à espera do chute numa pracinha

Pombos no telhado

Um quiosque de guloseimas

Um automóvel estacionado

Um anúncio de frozen iogurte grego

E uma escada que te leva ao mar

[fotos Alberto Villas]

NA PRAIA

O mar da Grécia é de um azul infinito, um dos mais bonitos do mundo. Acho até que bate o de Cuba. As praias são diferentes das nossas, muitas pedras, pouca ou quase nada de areia. Os espaços são menores e existem praias quase que particulares, que só cabe um. O que mais chama a atenção de um brasileiro, são os gregos tomando café gelado. Uma mania nacional, quase todos tomam. Não existem vendedores ambulantes oferecendo protetor solar, cangas, toalhas, bijuterias, biquínis, queijo assado, limonada gelada ou biscoito Globo. Mas os bares da orla oferecem cerveja estupidamente gelada – Mytos ou Alfa – sanduiches e batatas fritas. Colhi alguns flagrantes esses dias e deixo aqui pra vocês.

Crianças brincando na praia do Mar Jônico

“Eu vi um menino correndo/Eu vi o tempo brincando/Ao redor no caminho daquele menino…”

Minha vida de cachorro

No meio do caminho tinha muitas pedras, tinha muitas pedras no meio do caminho

O velho e o mar

A praia do eu sozinha

O menino grego desconfiado, olhando pra mim, que fazia um bolinho de areia para ele

Tudo azul

[fotos Alberto Villas]

A JANELA

Tenho ainda um sonho, um sonho antigo de realizar um documentário mostrando como é a vista da janela onde algumas pessoas moram, em vários cantos do mundo. A ideia é mostrar a vista que cada um tem, assim que abre a janela de sua casa. De Nova York a Brumadinho, de Bombai a Coromandel, de Paris a Carneiros, de Tóquio a Palmas. Sei que o projeto custa caro mas ainda não desisti. Hoje, lembrei-me dessa pauta que me persegue ao abrir a nossa janela aqui em Vryses, na região do Peloponeso, na Grécia, onde estamos morando. É uma aldeia de 78 moradores e nossa vista é essa.

[foto Alberto Villas]

TÁ NA MESA!

Por onde andamos, gostamos de experimentar a comida local. Lembro-me perfeitamente a primeira vez que chegamos em Praga, o comunismo estava indo embora e ninguém por ali falava inglês. Lembro-me perfeitamente de três coisas: A inauguração do primeiro McDonalds, onde vendiam mini-repolhos crus, as flores para o líder estudantil Jan Palach na praça principal da cidade e de um restaurante que fomos comer. O cardápio era em tcheco e as pessoas ali falavam apenas o tcheco. A saída foi apontar um prato de preço médio e pedir a Deus para não vir, por exemplo, uma taça de sorvete, já que o frio era bem abaixo de zero. Demos sorte. Veio um prato de carne com batatas cozidas, com um molho vermelho de páprica doce, inesquecível. Não era um goulasch, a feijoada dos tchecos mas era um prato delicioso. Vivendo aqui na Grécia há quase um mês, já sabemos de cor a preferência nacional, o que eles gostam de comer muito e sempre. Entramos no ritmo deles e esses têm sido nossos pratos do dia quando saímos pra comer fora. As cinco fotos foram feitas nas mesas dos restaurantes onde comemos. Veja.

O suvlaki, com carne de porco, tomate, salada e pão grego

O tomate recheado com arroz e mil especiarias

O gyros, com carne de carneiro, batata frita, salada, cebola roxa e tzazik, feito com coalhada e pepino

A musaka, com batata, berinjela e carne moída

A famosa salada grega, com queijo feta

[fotos Alberto Villas]

HISTORINHA DE DOMINGO

Andando pelas ruas de Atenas, vi colado no muro um cartaz já meio estropiado, mas onde era possível ler Komünist Önder e Ibrahim Kaypakkaya. Fiquei curioso. Aquilo não era grego, o que seria? Qual o significado da palavra Önder e quem era Ibrahim Kaypakkaya. Só o Google pra me salvar. Vim a saber que Kaypakkaya foi um político e revolucionário turco, fundador do Partido Comunista em seu país. Liderava a guerrilha Tikko, quando foi preso em 1973, e morto na prisão no mesmo ano. A curiosidade acabou, em parte. Continuo me perguntando porque aquele cartaz estaria ali colado naquele muro de Atenas, na Grécia, em junho de 2018? E quem teria escrito – em inglês – a palavra cego, bem abaixo do cartaz rasgado?

[foto Alberto Villas]

HISTORINHA DE SÁBADO

Dia desses fomos tomar um café na casa do curioso professor de física Dimitre Panopoulos, um dos 78 moradores da aldeia de Vryses, na região do Peloponeso, onde estamos morando. Sua mulher, Vick, nos serviu um café divino e não ficou apenas no café. Serviu também um doce de laranja, laranja que colheu do pé no seu extenso quintal e um doce de viceno, uma frutinha prima da cereja, também colhida no pé. Foi lá que conhecemos o Adonis, um albanês que mora e trabalha na Grécia há mais de uma década. Adonis é o braço direito do professor Dimitre, já aposentado, uma espécie de faz-tudo. Adonis nos contou um pouco da sua vida e quando perguntamos se tinha filhos, disse que tinha uma menina, de quatro anos. Qual é o nome dela? Adonis disse: Delícia! E continuou: “O nome é uma homenagem a uma personagem de uma novela brasileira”. Imagine só, a menininha que nasceu na Albânia leva consigo o nome de uma personagem representada por Tatá Werneck na novela Amor à Vida, que foi ao ar na TV Globo, em 2013. Delícia, né?

Adonis, pai da Delícia

[foto Alberto Villas]

ATENAS À VISTA!

A primeira vez que vim a Atenas, cheguei exausto depois de atravessar toda a Itália de pé dentro de um trem com uma mochila nas costas, mais dezesseis horas de navio e um bocado de tempo dentro de um ônibus sacolejante, que levava também algumas galinhas vivas enroladas em jornal, apenas com a cabeça de fora.

Era início dos anos 1970 e eles caminhavam lado a lado com o meu sonho de correr mundo, correr perigo. A ideia de ir de Paris até Beirute – por terra – fazia parte desse sonho maluco beleza. E foi assim que acabei chegando a Atenas naquele verão, rumo a Istambul. Depois, ainda tínhamos muito chão pela frente, muita poeira pra comer até a capital do Líbano.

Não havia booking.com e eu cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Carregava apenas uma velha mochila de lona nas costas e, dentro dela, poucas coisas. Alguns francos franceses, roupa leve de verão, um mapa da Texaco para me orientar e três exemplares da revista Planeta, ainda não lidos.

Um sobre Fidel Castro, um sobre Bob Dylan e outro sobre Krishnamurthy. Vestia uma camiseta desbotada pela água sanitária, uma velha calça Lee e calçava uma sandália com sola de pneu bem pesadona.

Isso é o que me lembro, quase cinquenta anos depois, porque anotei num velho caderno Clairefontaine quadriculado que guardo até hoje.

Lembro-me que encontrei uma cidade árida e meio bagunçada como o meu Brasil. Morando em Paris há algum tempo e já acostumado com aquele charme dos cafés no Boulevard Saint Germain, amei quando cheguei aqui e encontrei botequins como os meus bons e velhos botequins de Belo Horizonte. Aqueles com mesinhas cobertas com toalhas xadrez, flores de plástico num vasinho azul-calcinha e um conjunto para sal, pimenta do reino, vinagre e azeite.

Lembro-me pouco daquela Atenas. Da aula de arqueologia a céu aberto, dos luminosos que não entendia uma palavra sequer e das melancias. Era época de melancias e elas estavam por todos os lados, enormes, vermelhas e muito saborosas. Comi muita melancia a preço de banana.

Nunca me esqueci de uma grande praça, tomada de barracas coloridas de todos os cantos e nações. Foi ali que me instalei, na falta de um hotel barato – todos lotados – para dormir. Quem era eu pra bater na porta de um Holiday Inn com aquela mochila maltrapilha nas costas e pouco dinheiro no bolso?

Consegui um surrado sleep bag emprestado e ali, debaixo de uma árvore, me instalei por dois dias, estudando o caminho para o Oriente Médio até chegar a Beirute, meu destino final.
Além de melancias, comi muito sanduíche de carne de carneiro, muito pepino, muito tomate e muita azeitona. Tomava suco de romã, que só vim a saber que era romã algum tempo depois.

Andei por avenidas, ruas e ruelas de Atenas, deslumbrado com aquelas casas simples com alpendre e cadeiras de ferro pintadas de branco, coisa que não via desde que havia saído do Brasil. Ruas de pedra, um chorão ao lado de um pinheiro, ao lado de um eucalipto, ao lado de um cactus e a Acrópole lá longe. Fiquei apaixonado por aquela bagunça que não existia em Paris, onde estudava e lavava pratos.

Quando cheguei a Atenas pela primeira vez, ainda não havia para mim a canção que Chico Buarque fez para as mulheres daqui que, “quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam suas melenas. Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram”.

Lembro-me das mulheres de Atenas vestidas de preto puxando seus filhos pelo braço, sempre com um ar severo de que não estavam ali pra brincadeira.

Voltei alguns anos depois, mas a história foi outra porque o mundo já era outro. A minha emoção é saber que acabo de chegar a Atenas para passar novamente dois dias. Mesmo não tendo mais nas costas uma mochila de lona rústica comprada no Mercado Modelo de Salvador, as três revistas Planeta, o sleep bag, aquela sandália de sola de pneu pesadona, nem a velha calça Lee e a camiseta desbotada pela água sanitária.

Sei que não vou dormir na praça ao relento esta noite, mas quando fechar os olhos, gostaria que aquele sonho antigo de continuar correndo mundo, correndo perigo, durasse uma eternidade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

[foto Alberto Villas]

TORRE DE PAPEL

Quando fiz o curso de Jornalismo no Institut Français de Presse, em Paris, no início dos anos 1970, tinha matérias como Imprensa do Oriente Médio, Imprensa dos Países do Leste, Imprensa Europeia e imprensa de outros cantos do país. Me entusiasmei com aquilo e fui gostando cada vez mais dos jornais e revistas do mundo inteiro. Virou motivo de estudo, virou paixão. Por onde vou, paro durante horas nas bancas e nos pontos de venda de jornais. Mesmo não entendendo nada de algumas línguas, como é o caso do grego atualmente, onde estou convivendo com essas dezenas de jornais diários em que consigo traduzir as fotos e os títulos dos jornais que estudei quando jovem cabeludo. Fico observando a invasão de edições locais de revistas que viraram a Coca-Cola das bancas. A National Geographic, a Marie Claire, a Playboy, a Rolling Stone, a Wired, as publicações Disney, essas revistas já vi dependuradas nas mais diversas línguas. Ontem fiquei parado diante de uma banca em Atenas observando aquela fileira de jornais dependurados com títulos que mais pareciam erros de digitação, vi o Kim cumprimentando o Trump na primeira página do H KAOHMEPINH e até comprei um exemplar do Mick grego pra ver se dá pra entender essa língua danada.

[fotos Alberto Villas]

AH, OS TURISTAS…

Tem gente que não gosta, acha que eles incomodam, mesmo sem perceber que também são turistas, que fazem parte dessa massa. Eu gosto. Cansado, às vezes eu me sento só pra observar turistas que passam. Tem de todo jeito, de todo tamanho, de toda cor, de todo peso, vestindo roupas diferentes e falando línguas que muitas vezes não fazemos idéia de onde é. De repente, estamos numa Torre de Babel. Turistas adoram monumentos. Não existe a possibilidade de chegar à Torre Eiffel, ao Big Ben, ao Coliseu, à Mesquita Azul, ao Taj Marhal, à Torre de Pisa, e não encontrar uma multidão de turistas. Ontem foi a vez da Acrópole, em Atenas. A gente se esforça, faz o que pode, muitas vezes até deita no chão para tirar-los das fotografias. Eu faço isso, mas também gosto de fotogarafá-los. Eles fazem parte do show. Veja só!

Turista fotografando

Turista conquistando a bandeira

Turista se exibindo

Turista no topo

Turista aproveitando o wi-fi do museu

Turista que gosta de aventura

Turista cansada

Turista em lua de mel

Turista ouvindo a guia turística

 

Turista que se esforça pra pegar o melhor lance

E o turista que passa na frente e atrapalha a foto

[fotos Alberto Villas]

 

VERDE QUE TE QUERO VERDE

Uma reportagem de página inteira publicada recentemente no jornal La Repubblica, mostrava que, com esses tempos modernos das grandes cidades, todo mundo quer um pouco de natureza dentro de casa. O meio encontrado de suprir aquela vida de outrora, onde as crianças conviviam diariamente com pés de árvores frutíferas, hortas e bichos que iam do tatu-bola ao cachorro, foi cultivar numa pequena área, um vasinho de planta, uma hortinha com hortelã, alecrim, tomilho, salvia, essas coisas. O “meu verde” afasta um pouco o estresse do trânsito, do trabalho, da pressão nossa de cada dia. Não existe nada mais prazeroso que ver as flores de um  tomateiro se transformar em tomatinhos cereja ou um pequeno cactus florir. A reportagem do jornal italiano falava apenas da “mania” de plantas que tomou conta de praticamente todas as metrópoles do mundo. Andando pelo interior da Itália durante dois meses e agora pelo interior da Grécia, a gente percebe que cultivar plantas em casa por aqui sempre foi um hábito e não simplesmente moda. Por onde a gente vai, a gente vê sempre um vasinho na janela. Por menor que seja o espaço, lá está uma florzinha revelando a mais perfeita tradução da primavera ou um verde dando o seu ar da graça Não é à toa que as cidades daqui são tão lindas e fotografadas todos os dias.

Uma janela na cidade de Kardamyli, na região de Messinia, no interior da Grécia.

[foto Alberto Villas]

ÁLBUM DE RETRATOS

O meu pai vivia com uma máquina de retrato dependurada no pescoço. Não que ele fosse um fotógrafo profissional, nada disso. Gostava de registrar flagrantes da família, das nossas viagens ao interior de Minas Gerais. Era uma época das máquinas pesadas, dos filmes rolo de 12 chapas, ainda em preto e branco. Essas fotografias estão hoje guardadas num velho baú como se fosse um tesouro. E são. Acho que herdei dele essa vontade de fotografar. Sou amador, velho leitor da revista francesa Camera, a que mais gosto. Fotografo sempre, ainda mais agora que ando com um iPhone no bolso. E não só quando viajo. Quando estou em São Paulo, vivo clicando, principalmente da janela do ônibus, de onde a gente vê uma cidade que motorista nenhum de automóvel consegue ver, tamanha tensão. São quase três meses fora do Brasil e, mesmo morando numa aldeia de 78 habitantes, ainda tenho muito que fotografar. Às vezes saio caminhando aqui por perto sem saber se terei o que registrar. Dou cinco passos e tiro o iPhone do bolso. Começo a achar até que é vício. À noite, sempre descarto dezenas de fotos repetidas ou sem valor, na minha opinião. Ficam aquelas que mais gosto apenas para não engarrafar meu computador. Tem dias que fico satisfeito apenas com uma. Foi o caso dessa que publico abaixo. Gosto de fotos assim. Estava tomando o café da manhã tipicamente grego num antigo moinho d’água aqui perto, onde um tecido amarelo dependurado entre árvores, nos protegia do sol forte do verão grego e nos salvava de ser atingidos por figos maduros que caiam a todo momento, bem em cima da nossa mesa. Quando o sol refletiu no tecido amarelo, achei que poderia dar uma boa foto, em contraste com o verde da mata, dessas que a revista Camera gosta de publicar. Fiquei orgulhoso do trabalho e deixo aqui para vocês apreciarem.

[foto Alberto Villas]

HISTORINHA DE DOMINGO

Quando eu me mudei pra Paris, no início dos anos 1970, fiquei espantado ao entrar nas boulageries e ficar sabendo que o nosso famoso pão francês, aquele pequenininho, não existe na França. No país da baguete, do pain aux raisin, do croissant au beurre e do chausson aux pommes, não adianta entrar numa padaria e pedir un petit pain français. Quando surgiu o iogurte grego no Brasil, não faz muito tempo, eu logo perguntei aos meus botões: Será que existe iogurte grego na Grécia? Claro que eu sabia que existia. Basta provar no Brasil um tzazik – uma comida grega deliciosa – pra saber que o iogurte grego existe. O dia em que resolvi experimentar o tal iogurte grego aqui em Vryses, acabei comendo de joelhos. É uma das coisas mais gostosas do mundo e o mais curioso é que apenas lembra vagamente os que são vendidos no Brasil. A consistência, o sabor, a embalagem, tudo é diferente. Com a explosão das vendas ai, o iogurte grego made in Brazil começou a inventar moda. Hoje temos até de frutas tipicamente brasileiras. O que experimentei aqui foi um iogurte grego comprado num supermercado. Fico imaginando como deve ser aquele feito artesanalmente pelos moradores de Vryses. Ainda vou experimentar e depois conto pra vocês.

[foto Alberto Villas]

COLHENDO FRUTOS

Menino, em Belo Horizonte, costuma ver frutos no pé. Na minha casa tinha uma parreira, duas laranjeiras e uma ameixeira. No vizinho, bananeiras. Cresci vendo o desaparecimento das quitandas e o nascimento dos sacolões, dos supermercados, dos hipermercados. Com o tempo, as frutas foram desaparecendo dos pés nas grandes cidades, nas metrópoles por onde vivi. Mas ainda sou capaz de reconhecer um pé de jabuticaba, uma goiabeira, uma jaqueira. Tantos anos depois, vim passar uma temporada aqui em Vryses, uma aldeia nas montanhas do Peloponeso, na Grécia. E foi aqui que reencontrei os pés de frutas. Dei uma volta por perto da nossa casa  e aqui estão as frutas que vi. No pé.

Damasco

Maçã

Uva

Cereja

Nozes

Pera

Pêssego

Figo

Romã

[fotos Alberto Villas]

ARRUMANDO A MALA

Quando vou arrumar minha mala para viajar, toda vez é a mesma história. Um mês antes, começo a consultar, no smartphone, a temperatura do meu destino. É sempre assim: um dia chove, no outro dia bate sol. Às vezes o termômetro está marcando vinte graus, no dia seguinte, cinco. Aí começa a minha dúvida sobre o que colocar dentro da mala.

Dessa vez foi diferente. Estava sabendo que viria passar uma boa temporada por aqui e que não eram aquelas férias costumeiras de, no máximo, quinze dias. Comecei a consultar o termômetro no inverno e no dia de partir, já era uma primavera caminhando a passos largos pro verão. Mas, mesmo assim, em se tratando de Europa, sempre fico com um pé atrás. Vai que esfria!

Além das roupas de frio e de calor, fui enchendo a mala de coisas, de livros e mais livros porque sabia que parte da temporada seria na Grécia, onde ainda não sei dar bom dia. E olha que não pensei em trazer livros finos. O primeiro que escolhi foi o magistral Leonardo da Vinci – já que a primeira temporada seria em Florença -, de Walter Isaacson, com suas 634 páginas e quase um quilo.

Mas isso não era nada. Enfiei na mala roupas de calor, bem leves, e aquelas roupas de frio, bem pesadonas. A mala, de repente, foi virando um container. Aí veio aquela preocupação, sabendo que viajaria muito de trem e com a obrigação de carregar a bagagem até entrar no vagão. Mas, nessas horas, a gente pensa leve: Tem rodinhas, tudo bem!

Além do meu guarda roupa, trouxe muito material de pesquisa, e também pequenos objetos que não me deixam nunca. Sabendo que iria voar numa velocidade de quase mil quilômetros por hora em cima de oceanos, mares, rios, lagos, montanhas, vulcões e tudo mais que o Planeta Terra nos oferece, trouxe um olho turco e uma imagem de Nhá Chica, minha protetora. Mas, pensando bem, essas duas coisas não pesam quase nada.

Como se já não tivesse com muito peso e volume, a primeira coisa que comprei em Florença foi o livro 1968, de Oriana Fallaci, com suas 466 páginas. Vou comprando e sempre acho que tem um canto na mala que, apertando, cabe.

Espero que aprenda com essa viagem, porque quando fui organizar a bagagem para me transferir da Itália para a Grécia, foi que caiu a ficha. Fui colocando tudo em cima de uma cama king-size e quando vi, tinha na minha frente praticamente um Everest.

Comecei cuidadosamente a colocar tudo dentro da mala e a pensar com os meus botões:

Por que cargas d’água trouxe, além das blusas de frio, dezenove camisetas (inclusive uma com um Fora Temer), cinco calças compridas, nove bermudas, uma dúzia de cuecas, quatro shorts, três bonés e seis pares de meia? Das seis meias, usei apenas uma e as outras cinco estão ainda com aquele cheirinho de amaciante Fofo, lá do Brasil.

Trouxe duas blusas de frio e ainda bem que foram só duas. A Paulinha me pegou em flagrante colocando cinco dentro da mala e perguntou se estava ficando louco em levar cinco blusas pro verão grego. Três voltaram pro armário e hoje agradeço de coração a sua bronca.

Mas, verdade seja dita. Trouxe coisas muito úteis dentro da nécessaire. Um punhado de remédios que só compramos com receita médica, escova de dente, tesourinha de cortar unha, Band-Aid e cotonetes por exemplo. Tudo levinho.

Por que não deixei pra comprar xampu, condicionador, protetor solar e desodorante aqui? Vem sempre aquela dor de consciência: Pra que comprar um desodorante que custa 10 euros lá, se eu tenho o meu Dove novinho, comprado no Záfira? Agora, vexame foi trazer quatro sabonetes Phebo, que acreditava ainda ter cheiro. Três deixei em Florença, sem uso e sem cheiro.

O que mais me espantou quando coloquei tudo em cima da cama e vi o tamanho da mala onde tinha de enfiar tudo, foram algumas coisas inúteis.

Deus meu! Por que trouxe a minha carteira de idoso pra andar de graça nos ônibus de São Paulo? Pra que trouxe a minha carteirinha plastificada da Nota Fiscal Paulista? Pra que trouxe 70 reais em dinheiro vivo? E tem mais: Trouxe muita coisa que tenho certeza que não vou nem pegar porque tenho muita coisa pra ver e fotografar, um livro pra escrever, dois livros pra revisar, uma coleção pra coordenar, uma biografia para organizar.

O arrependimento vem quando vejo aquele calhamaço com 564 páginas contanto a história do Jornal do Brasil, que parece ser muito bom, mas sei que não vou ter tempo de ler nem a orelha. Tenho aqui comigo pesando quase três quilos, diversas revistas Geo, Magazine Littéraire, L’Histoire, Philosophie, Sens & Santé, sem contar as Linus que comprei num sebo em Bolonha.

Estou aqui me perguntando porque trouxe cinco canetas Pilot, um lápis, uma régua, três relógios de pulso e um tubo de cola Prit. Estou pensando seriamente em deixar meia bagagem por aqui, só pra poder levar pro Brasil as garrafinhas de San Pelegrino e as garrafinhas de Fanta grega que vão só aumentar a minha coleção.

Jurei não comprar nada por aqui e até que estou me contendo. O único peso de verdade é um livro que arrematei na Fnac Les Halles: Uma coleção completa e encadernada do jornal L’Enragé, de 1968. Doido, né?

Mas o que mais está me dando dor de cabeça são as tais dezenove camisetas e as nove bermudas porque, antes de deixar Florença, a Paulinha passou em frente a uma H&M e disse:

– Vamos lá comprar umas roupas pra você. As camisetas e as bermudas que você trouxe estão muito surradas.

Agora são vinte e cinco camisetas, doze bermudas e seis shorts.  Ainda bem que ela não pensou em comprar umas meias pra mim, porque só tinha pretas e ela odeia meia preta.

Por que trazer uma pilha de camisetas?
Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital
cartacapital.com.cbr
[foto Alberto Villas]

PYLOS

Só de noite, quando voltamos pra casa, fui ver na Wikipédia, um pouco da história da cidade que visitamos hoje. Descemos a montanha e saímos andando de carro por estradas lindas e, depois de muitos erros, chegamos a Pylos, uma cidadezinha que deve ter mais mais de 2.104 habitantes porque o último censo, de 2001, registrou esse número. Pylos está situada na região de Messénia, no Sudoeste da periferia do Peloponeso. Foi uma importante cidade durante o período micênico, e subseqüentemente, na Grécia Clássica, onde foi uma aliada de Esparta na Guerra do Peloponeso. No século XII foi ocupada pela República de Veneza. Palavras da Wikipédia. A cidade é toda clara, meio branca, meio beje, meio amarelada, cercada por um mar azul maravilhoso. Tem tudo que uma cidade à beira mar tem. Um porto com barcos ancorados, um cheiro de maresia, uma orla com bares charmosos que vendem Aperol Spritz, cerveja Mythos, Fanta sem gás, café gelado – uma mania nacional – e muitos drinks. Um deles anunciava na lousa,  a nossa famosa caipirinha. Tem pracinha com coreto, bancos de madeira com encosto, árvores frondosas, bicicletas que passam, velhinhas que cochicham, uma banca de jornal que vende o Le Monde, o La Repubblica – pra minha alegria – e até mesmo o Süddeutsche Zeitung, segundo minha filha, o melhor jornal da Alemanha. Ficamos de voltar porque adoramos Pylos, um típico amor à primeira vista. A visita foi curta, tínhamos que voltar pra comer as batatas fritas com um ovo por cima, prato que nossa vizinha da frente, Tia Margaritae, prometeu fazer assim que chegássemos. Os flagrantes de hoje foram esses:

Lembramos do rock rural de Zé Rodrix porque vimos cabras pastando solenes no jardim

Vimos árvores frondosas, misteriosamente mostrando parte dela com a aparência de morta

No meio do caminho, a vontade de parar, admirar e fotografar

Pylos, os casarões perto do porto

Na hora de voltar, uma mocinha nos dá informação: Pra que lado fica Kyparessia?

Kyparessia à vista! Agora é só subir a montanha pra chegar a Vryses, nossa aldeia.

[fotos Alberto Villas]

QUERIDO DIÁRIO

Hoje, no final da tarde, depois de uma manhã resolvendo problemas com a informática em Kyparessia, e um banho de mar pra refrescar o calor de 34 graus,  resolvemos caminhar por nossa rua aqui na aldeia de Vrises. Esperamos primeiro o sol baixar, acabamos de pintar a calçada de casa à moda grega, e ai sim saímos para uma pequena volta. Com o celular na mão, a gente sempre registra uma coisa ou outra.

A primeira fotografia foi da janela de uma casa abandonada e meio misteriosa. Que história teria por detrás dessa casa?

Quase todas as casas aqui têm esse objeto de metal em forma de pássaro preto em cima das chaminés. Ele gira vararosamente, distribuindo a fumaça que sai das lareiras quando é inverno rigoroso.

Na calçada, encontramos uma pereira carregada de frutas. As peras ainda estão verdes.

Lá longe, vinha caminhando uma mãe com o seu filho. Quando passou por nós, perguntamos o seu nome e ficamos sabendo que ele se chama Aristoneme.

Do alto, enxergamos as suntuosas montanhas do Peloponeso.

Passamos pela plantação de oliveiras dos Vlahou, os donos da casa onde estamos morando.

Voltamos pra casa, que agora está com as calçadas pintadas à moda grega. A vizinhança veio ver e achou que ficou muito lindo.

[fotos Alberto Villas]

BELEZA INTERIOR

Conhecer a cidade de Kyparessia, na região do Peloponeso, distante sete quilômetros da nossa aldeia, foi uma surpresa e uma grande emoção. Encontrar uma cidade do interior com todos os seus personagens, com toda uma vida vivida aqui. O cabeleireiro, o dentista, o médico, a loja de armarinho, a farmácia, a banca de jornal, a escola e sua algazarra de crianças, a loja que vende de tudo – de parafuso a pneu – a moça na janela, como se estivesse ali pra ver a banda passar. O calor aqui é intenso, mais de 33 graus, o sol forte e o mar sempre azul. Sim, aqui tem praia com barraquinhas de palha e garçons que oferecem capuccino gelado, uma especialidade e uma mania grega. Tem mocinhas checando o smartphone e mães de olho nos filhos que entram no mar. Kyparessia é um paraíso longe do Brasil mais de 12 mil quilômetros e de todos os seus problemas, que acompanhamos pela Internet. Dá vontade da gente parar o relógio, parar o tempo. Mas antes, soltar o Lula. Quem não se emociona ao ver um armazém que ainda tem os grãos em grandes sacos na entrada? Tem arroz, tem um feijão estranho, essas coisas básicas pra gente viver.

[foto Alberto Villas]

COMO VAI MINHA ALDEIA?

Assim que cheguei na aldeia de Vryses, na Grécia, onde vamos passar uma temporada, duas coisas me vieram à cabeça. Uma velha canção do mineiro Tavinho Moura chamada Como vai minha aldeia, que diz assim: “Como vai minha cidade/Oi, minha velha aldeia/Canto de velha sereia/No meu tempo/Isso era meu tesouro/Um portão/Todo feito de ouro/Uma igreja/E a casa cheia/Cheia/No vazio/Desse meu Brasil”. A segunda coisa que me veio à cabeça foi a disciplina História, nos meus dias de Caseb, em Brasília. Isso porque estamos na região do Peloponeso. Eu sabia que um dia essas aulas seriam úteis pra mim. Ficava ali decorando o que eram as Capitanias Hereditárias, a Guerra dos Emboabas, o Caminho das Índias, a guerra do Peloponeso. Cá estou eu. Deixei a São Paulo de 25 milhões de habitantes, passamos uma temporada em Florença de pouco mais de 300 mil e chegamos a Vrises, com 78 habitantes, sim, 78, contando o Prefeito que já veio nos ver no final da tarde de ontem. A casa é uma casa muito acolhedora, com vista pras montanha, onde, ontem, experimentamos o primeiro por do sol deslumbrante. Foi aqui que nasceu uma das nossas grandes amigas, Olga Vlahou, que veio do Brasil nos recepcionar e passar a primeira semana conosco, nos ensinando as frases básicas do grego e coisas do tipo “precisamos de gás”. Já demos uma volta pela redondeza e muitas coisas nos chamou a atenção, uma delas, foi a quantidade de árvores frutíferas em todas as casas: Uvas, pêssegos, abricots, peras, ameixas, limões sicilianos, uma fartura. Estamos no alto da montanha e das janelas da sala enxergamos toda a natureza em volta. De noite, ouvimos, ao longe, alguns lobos uivando. Ainda não perguntei pra Olga mas acredito que seja lobos. Ouvimos muitos passarinhos ao amanhecer. Acordamos com o canto deles.Não ouvi nenhum sabiá, acho que aqui não há. Daqui a pouco vamos descer pra tomar o primeiro café da manhã em Kyparessia, a cidadezinha mais próxima. No primeiro dia, o café será fora, depois aqui nessa casa tão aconchegante. Chegamos não faz muitas horas em Vrises mas já deu pra registrar as primeiras imagens.

Vimos pêssegos no pé na casa do vizinho.

Da janela da sala, nossa visão é esta.

Vimos flores estranhas, nunca antes vistas.

Vimos a igrejinha e fomos ao cemitério visitar o túmulo do Senhor Vlahou, pai de Olga.

Da porta de entrada da nossa casa, vimos a primavera lá fora, que já chegou.

Comemos o melhor tzazik do mundo, feito pela Helene, na Taberna Panorama.

 

Vimos este por so sol.

Sim, chegamos aqui.

[fotos Alberto Villas]