AMÉLIE POULAIN

Gosto dos pequenos detalhes da vida, coisas miúdas que acontecem, às vezes sem muita importância mas que guardam uma história por detrás. Sofro de uma leve síndrome de Amélie Poulain. Gosto de ir a sebos e ler as dedicatórias dos livros que estão ali à venda. Qual o motivo de alguém se desfazer de um livro com dedicatória? E os bilhetes que às vezes encontro dentro deles? Um dia, encontrei um boleto sem pagar, de 1980. Será que foi pago um dia? Fico curioso quando acho, dentro de um carrinho de supermercado, uma lista de compras deixada ali. Gosto de saber o que as pessoas compram, o que estava faltando na casa daquela pessoa invisível. Outro dia, andando por Florença, vi na calçada a fotografia de uma moça morena, com os cabelos negros lisos, achei até que era minha amiga Ananda Apple. Mas, olhando bem, vi que não era. A moça tirou, numa máquina automática, pelo que tudo indica, uma fotografia para sua carteira de identidade. Duas, aliás. Usou uma e a outra ficou ali jogada na calçada. Não sei se caiu das suas mãos ou simplesmente jogou fora, quis se desfazer da outra, já que a gente sempre acha que não está bem na foto. Ficou o mistério.

[foto Alberto Villas]

A HORA DO CLICK

Gosto de fotografar, não é de hoje. Comecei a fotografar ainda jovem, cabeludo, os flagrantes da vida. Por exemplo, uma viagem na caçamba de um caminhão, de carona rumo ao carnaval de Salvador. Fotos ainda com filme Kodak em preto e branco que, infelizmente se perderam com o tempo. Hoje temos o blog, o face, fotos automáticas que não precisam passar cinco dias úteis numa loja de revelação. Minhas filhas e meu filho vivem dizendo que posto muito, sim posto muito. Gosto de mostrar pequenos detalhes importantes de todos nós. Até mesmo as curiosas beringelas de Bangladesh no Mercado Centrale de Firenze já mostrei pra vocês. Mas o que chega até a casa de cada um é, muitas vezes, um trabalho de observação e sorte. Tem mais de um mês e meio que estou em Florença tentando fotografar – e direito – os ônibus escolares da cidade, que passam com seus alunos em algazarra, dando tchao pra gente. E não consigo. São lindos, amarelos, antigos, que me fazem lembrar aqueles velhos ônibus americanos que às vezes ainda aparecem na Sessão da Tarde. Nunca peguei um parado para que pudesse me concentrar e fazer a foto que gosto de fazer. Quando vejo, ele já passou. Fico, então, devendo essa foto. Acho que até o fim de nossa estadia por aqui, eu consigo. Deixo hoje apenas um dos flagrantes que não consegui fazer. O ônibus passando e eu ali, meio perdido na calçada, decepcionado, em busca do click perfeito.

[foto Alberto Villas]

DONA LUIZA

Nunca soube muita coisa sobre a minha avó paterna. Sabia que era uma italiana bonita, dessas de parar o trânsito de Verona, onde nasceu. Nunca tinha visto uma foto dela e a imaginava branquinha, com os cabelos claros e ondulados e os olhos verdes como os dos netos. Minha avó só existia no meu imaginário de menino.

Um dia fui a Verona, já fazem alguns anos. Fui pra conhecer a cidade da minha vó, Dona Luiza. Não procurei muito, mas também não encontrei nenhum vestígio da família. Na verdade, vi uma loja de bricolagem, a Bouzada miudezas. Era domingo e a lojinha estava fechada. Bouçada era o sobrenome do meu avô José e eu fiquei encucado se ele não teria trocado o nome ao chegar no Brasil, no início do século passado, de Bouzada para Bouçada.

Sabia que minha avó tinha morrido muito jovem – meu pai era criança – de uma doença que não havia remédio em toda a medicina. Certamente um câncer, desses fulminantes

O meu pai lembrava todo ano, religiosamente, o dia em que ela nasceu e o dia em que ela morreu. Logo cedo, na hora do café, ele pegava sua caderneta de capa dura, preta, e dizia pra toda a família:

– Mamãe hoje estaria fazendo 122 anos!

No dia de sua morte, ele fazia questão, com um semblante triste, de anunciar para todos nós:

– Rezem pela sua avó Luiza! Hoje está fazendo 50 anos que ela nos deixou.

Fiz questão de curtir todos os cantos de Verona naquela primavera em que lá estive. Fomos na Arena, na Casa de Julieta, na Torre dei Lamberti, na Basílica de Santa Anastácia e na Ponte Pietra. Fomos também no Castelvecchio, na Piazza Erbe, na charmosa rua Mazzini, na Piazza dei Signori e, claro, no Duomo.

Parava, fotografava e ficava imaginando Dona Luiza andando por aquelas ruas, aquelas ruelas, com um vestido rodado, anágua engomada, corpete apertado, seios fartos e sorriso largo. Ela devia ser assim, muito vistosa e muito respeitada pelos moradores de Verona. Era a mulher do velho Bouçada, muitos anos mais velho que ela. Dona Luiza, e seus seis filhos.

Aquele passeio por Verona foi como um filme antigo, em preto e branco, onde os homens andam correndo, todos de chapéu e guarda-chuva nas mãos, e as mulheres atrás, com seus vestidos rodados e suas anáguas engomadas.

Olhava, olhava e imaginava minha avó entrando num mercadinho e comprando enormes alcachofras, tomates vermelhos e saborosos, pêssegos carnudos, uvas moscatel, figos vistosos e frutas secas, tâmaras principalmente. Deve ter sido herança dela o gosto do meu pai por essas guloseimas.

Estou morando a cento e poucos quilômetros da cidade onde minha avó nasceu e passou um tempo da sua vida. Fico imaginando se naquela época já havia, em Verona, esses sorvetes maravilhosos que têm por aqui em Florença. Sorvetes de pistache, de coco, de limão, de leite com caramelo.

Fico imaginando se já havia o melhor spresso do mundo, curto e tão saboroso. Fico imaginando se no seu tempo já havia a pizza quadrada, os canoles, o Aperol, a San Pelegrino de l’aranciata amara ou se ela fazia laranjada com as próprias mãos, com a fruta colhida do pé que havia na sua casa.

Foi ontem à noite que minha irmã mais velha, longe daqui onze mil quilômetros, mandou pelo WhatsApp, a única foto que existe de Dona Luiza. A foto foi tirada de um pingente de prata e está meio apagada pelo tempo, um tempo que não volta mais mas que tento recuperar numa simples crônica.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

VIZINHOS

Na minha infância, morei numa pacata rua do bairro do Carmo, em Belo Horizonte. A indústria automobilística engatinhava e os poucos carros – todos pretos – que passavam na Rio Verde, nos permitia até mesmo jogar bola, brincar de bolinha de gude, finca e bente altas, sem risco de atropelamento. Haviam apenas casas e família naquela rua e, até hoje, sei o nome e sobrenome de cada morador daqueles anos 1950, 1960. Nilo Otávio Lage Botelho, Luiz Martins, Rui Demétrio Amorim, Paulo Gouvêa e Asplênio Alvares da Silveira, por exemplo. Hoje, moro na pacata Via San Niccolò, em Florença. Quase tão pacata quanto aquela rua onde passei minha infância, em Minas Gerais. Conheço pouco meus vizinhos. Eles passam por mim nas enormes escadas desse antigo convento construído nos anos 1300 e hoje transformado num Palazzo (não é chique o nome?) e dizem buongiorno, sempre. Da janela, vejo uma jovem toda de branco fazendo selfies no jardim, um casal tomando uma taça de vino rosso numa mesinha branca de ferro. Da minha janela, um casal passa todo final de tarde na varanda conversando. Às vezes ele lê o seu e-book e ela, um livro de papel. Da janela, vejo um avô chegando com sua netinha e fazendo todos os desejos dela, inclusive jogar pra lá e pra cá um pesado ferro que tem em quase todas as portas dos edifícios em Florença. Ela faz um barulho danado e ele não se importa, se diverte. São os mesmo avós que moram hoje nessa cidade toscana e que moravam, nos anos 1950, 1960 na Rio Verde, e que permitiam a pelada no meio da rua, que nem tinha trave, eram dois tijolos, roubados de uma obra no bairro do Carmo, de uma vida em construção.

[fotos Alberto Villas]

IL MERCATO CENTRALE

Nasci numa cidade onde tem um dos mercados mais simpáticos do mundo, o Mercado Central de Belo Horizonte. Frequento, desde pequenininho, quando ia com o meu pai para comprar alpiste para os passarinhos, ração para galinha poedeira e pintinhos de um dia. Por isso, sou viciado em mercados. Por onde ando, onde chego, sempre vou atrás do mercado da cidade. Hoje, passamos a manhã no Mercado Centrale di Firenze. A fachada é magnífica e algumas coisas que vi lá dentro, cliquei para vocês.

Dá só uma espiadinha…

Cogumelos da Toscana

Tâmaras do Irã

Peixe fresco

Abobrinhas com flor

Beringelas de Bangladesh

Abacaxis da Costa do Marfim

Pimenta seca

E chuchus do Brasil, embrulhinhos um a um

[fotos Alberto Villas]

A FOICE E O MARTELO

Um dos grandes prazeres que tenho aqui em Florença, é caminhar pelas ruas e pelas ruelas da cidade e encontrar as livrarias. Grandes, pequenas, charmosas, muitas com o melhor café do mundo  ou comidinhas transadas deliciosas. Sou rato de livrarias e aqui, o prazer maior é entrar, sentir o cheiro, dar de cara com a simpatia dos donos e ir fuçando aqui e ali, descobrindo autores e folheando as novidades. Muitas delas são uma mistura de livrarias e sebos, com uma boa parte reservada aos livros usados, onde encontramos verdadeiras preciosidades. Essa semana, na seção de novidades, bati os olhos num livro, daqueles que a gente não resiste.

Em comemoração aos cem anos da Revolução Russa, festejados em outubro do ano passado, a Editora Centauria lançou La Storia del Comunismo, com pequenos perfis de comunistas históricos, alguns que não aparecem nos livros de História como comunistas de carteirinha, no sentido estrito da palavra. As ilustrações de Ivan Canu dão um charme especial ao livro que tem uma edição primorosa, marca registrada das editoras italianas. Reproduzo algumas abaixo.

Víctor Jara

Pier Paolo Pasolini

Yuri Gagarin

Pablo Neruda

Louis Aragon

Pablo Picasso

Patrice Lumumba

[fotos Reprodução]

 

 

GOL DE PLACA

Finalmente conhecemos o artista francês Clet Abraham, o jovem que faz intervenções nas placas de Florença, trazendo o ar da graça e da irreverência à cidade. Lá estava ele quietinho no seu canto em seu ateliê, no bairro de San Niccolò, coincidentemente o bairro onde moramos. O clique deste blogueiro com o artista foi feito pela jornalista Annamaria Marchesini, que também fez um texto superbacana mostrando quem é Clet Abraham. Confira em: https://medium.com/@anna.marchesini/sinais-de-arte-rebeldia-e-ironia-e3d93ef10376)

Depois, veja as fotos das placas que fiz, aqui em Florença.

[fotos das placas/Alberto Villas]

 

NAS RUAS DE AREZZO

Num sábado em Arezzo, uma hora e pouco de trem de Firenze, flagrei algumas pessoas na cidade.

Pessoas na estação, comprando bilhetes de trem.

Uma italianinha comendo lascas de pizza, nas primeiras horas da manhã.

Amigos comemorando um casamento num bar, como se fosse uma cena do cinema italiano dos anos 1960.

Uma senhora com a mão na massa, na porta de uma pizzaria.

Dois turistas, cansados de guerra, sentados numa escadaria.

Aposentados conversando numa pracinha da cidade.

Dois modernetes à caminho da Igreja, onde se realizava um casamento.

Um homem escolhe flores numa lojinha, entre as dezenas espalhadas pela cidade, nessa primavera de 2018.

[fotos Alberto Villas]

AS TORNEIRAS

Sou uma pessoa caminhando para os setenta anos, que se adaptou razoavelmente bem aos tempos modernos. Já não tomo mais Cremogema, já não chupo mais drops Dulcora, já não escovo mais os dentes com Kollynos, sequer uso o terno da Ducal.

Não coleciono flâmulas, não ando de Gordini, não assisto O Vigilante Rodoviário, nem fico mais procurando o botão de horizontal na TV Colorado RQ.

Aos poucos, fui trocando os meus vinis por cds, o meu telefone fixo por um celular Gradiente, instalei um fax em casa e adorava aqueles laserdisc.

Mas tudo ia mudando tão rapidamente que, de repente, quando vi, já tinha mais de vinte senhas, dez mil fotos no iPhone, trinta canais de TV no aparelho Sony e estava ouvindo Caetano no Spotify.

Quando percebi que o mundo não tinha mais volta, mergulhei de cabeça nos aplicativos, passei a comprar e-books pela Internet, abandonei a agenda de papel e passei a pedir táxi pelo 99.

Quando abri os olhos, já não ia mais ao armazém comprar fiado, nem mesmo na agência da Varig pra comprar uma passagem de avião. De repente, parei de imprimir os e-mails e passei a comprar entrada pro cinema no Ingresso Rápido.

Mas hoje estou aqui para fazer uma queixa formal aos fabricantes de torneiras modernas. Tem uns cinco anos que elas vêm me perseguindo. Já entro num banheiro público, meio em pânico porque sei que vou encontrar algo bizarro por ali, no lugar da torneira.

Naquele ambiente, localizo a pia e fico procurando a torneira, cada vez menos com cara de torneira. Não sei se sou apenas eu, mas se aperto, não funciona, se puxo não funciona, se torço, também não funciona. Aí espicho os olhos pro vizinho e ele já está sempre com a torneira aberta, colocando sabão líquido vindo de uma maquininha e que eu já tinha apertado, na tentativa de sair água.

O vizinho vira as costas e, como num toque de mágica, a água simplesmente para de sair. Imagino que alguma célula que tem por ali, não sei onde, faz a água parar assim que ele se distancia.

Tenho encontrado as torneiras mais esquisitas do mundo por ai. Redondas, que giram 360 graus, que vão pro lado, que possuem umas mangueiras, que se deslocam, mas, para mim, o problema maior é que elas não saem água.

Outro dia, na tentativa de pelo menos dar uma molhadinha na mão, corri para aproveitar a água do vizinho, que saiu apressado do banheiro do aeroporto. Foi só colocar a mão debaixo da torneira, ela parou de sair água.

Na semana passada, pela primeira vez entrei num banheiro público, onde todos estavam tranquilamente lavando suas mãos numa pia onde não se via a torneira. Era uma espécie de cachoeira que ia caindo água, mas foi só eu chegar perto, ela secou.

Mas o pior de tudo aconteceu essa semana, em Paris, onde estou passando uns dias. Alugamos um apartamento pelo Airbnb no 19ème arrondissement, mas quando fui tomar banho, que susto!

Ao invés de uma torneira, encontrei um tubo. Sim, um tubo que gira pra esquerda, pra direita, pra cima e pra baixo, como se fosse uma mola. Na minha primeira tentativa de virar aquela geringonça, uma tempestade saiu do chuveirinho, que estava voltado para o teto, provocando uma inundação naquele banheiro tão bonitinho.

Virei pro outro lado e um jato de água gelada veio na minha cara e quando virei pro outro, ela ferveu. Resumindo, passei uns bons quinze minutos ali tentando fazer sair água temperada do chuveiro e apenas tomar um banho. Foi um banho rapidinho – quente-frio-morno, molhado e seco – inesquecível.

Enxugando o corpo, eu ficava só perguntando pros botões do meu pijama, ali em cima de um banquinho branco. Por que cargas d’água, alguém foi inventar um monstrengo como esse? Fui dormir, torcendo pra sonhar com duas torneiras simples, uma com uma rosquinha de plástico vermelha, a da água quente, e outra com uma rosquinha de plástico azul, a da água fria. O mundo com essas duas torneiras era tão mais fácil.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

PASSANDO EM REVISTA

A maior surpresa ao voltar pra casa, em Florença, foi, ainda na banca de jornais da Stazione Centrale de Bolonha, à espera do trem, comprar a nova revista Linus. Digo nova porque ela mudou toda. Voltou a ser uma revista grande, com mais de 120 páginas, papel de primeira, lombada quadrada e, além das páginas em preto e branco, cor. Digo mudou porque a Linus é uma revista que existe há mais de cinquenta anos e foi, durante muitos anos, a minha Bíblia dos quadrinhos, de fumetti, como se diz por aqui. Quando morava em Paris e lavava pratos em Belleville, nos anos 1970, guardava moedas de francos para, no fim do mês, comprar a Linus numa banca que a vendia, no Boulevard Saint Michel, entrada do Quartier Latin. Guardei muitos números que foram embora com o tempo, junto com o meu primeiro casamento. Ontem trouxe para casa a nova Linus dentro da mochila, tomando todo cuidado para não amassar. Fiquei até altas horas, saboreando cada página, cada história em quadrinho, cada texto, que são muitos: O polêmico abecedário do escritor Michel Houellebecq, a ficção científica de Sergio Brancato e o mundo de Feininger, por exemplo. Isso, sem contar as histórias em quadrinhos de Art Spielgelman (que fez a capa), Gabrielle Bell, Vaugh Bodé e Tommi Misturi. Isso sem contar as críticas de livros, de discos e de séries na TV. E, claro, as primeiras histórias de Charles M. Schulz, em preto e branco, deliciosas nostalgias. Numa entrevista ao jornal La Repubblica, os novos editores da Linus, perguntado se os novos tempos não são digitais, disseram que não existe nada melhor que folhear uma revista de papel.

 

AS PALAVRAS E AS COISAS


Despedindo de Paris e andando pelos corredores do metrô, a gente encontra coisas assim. Alguém passou, viu um cartaz de cinema, abriu a bolsa, pegou uma caneta e deixou lá sua mensagem: “Tiens, Foucault au cinema! E ainda desenhou uns óculos como ele usava. Volto pra casa pensando: Quem teria visto a semelhança entre o ator de cinema e o filósofo francês, autor de obras da maior importância? Quem anda pelo metrô e conhece Foucault?

[foto Alberto Villas]

 

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Paris vive um maio de 2018 sereno, em comparação com aquele de cinquenta anos atrás. Sim, temos perturbações no metrô, nas linhas de ônibus, nas estações de ferro, nos aeroportos. Mas são greves naturais que fazem parte de uma democracia. No Quartier Latin, palco outrora de guerra, reina a paz. As ruas estão impecavelmente asfaltadas e, nas ruas de pedra, não há nenhuma fora do lugar. Mas, no ar da cidade, há um cheiro forte de História. Maio de 68 foi uma revolução que mudou os costumes, visíveis hoje em todos os cantos. As conquistas pela frente ainda são inúmeras, mas o que ficou, ficou. O clima de História está nas livrarias, nas bancas de jornais e nas exposições pela cidade. Nas livrarias, dezenas e dezenas de livros contam como foi aquele momento que vivemos e que está fazendo cinquenta anos. Livros e mais livros são expostos em prateleiras especiais, nas vitrines e dá gosto ver, na fila para pagar, as pessoas levando esse capítulo tão importante pra casa. Livros sobre o legado, sobre as mulheres de 68, os ícones, os cartazes, as fotografias, os estudantes, a época em que vivemos, uma época em que o homem nem tinha ido à lua ainda. Nas bancas de jornais, são raras as publicações que não saíram com números especiais sobre Maio de 68. Nos buquinistas à beira do Sena, ainda sobraram alguns números,  daquela época, das revistas Paris Match, L’Express, Le Nouvel Observateur e tantas outras, pela bagatela de 50 euros o exemplar, cerca de 240 reais. 1968, se todos fossem iguais a você, seria tão fácil viver…

Livraria Fnac, Forum des Halles

[foto Alberto Villas]

MAIO 2108

Cinquenta anos depois, subi o Boulevard Saint Michel para ver de perto, a minha Sorbonne. Aquela que, em 1968, num mês de maio, foi palco de uma das maiores revoluções de que se tem notícia. Chegando na esquina da praça, uma surpresa. A livraria Presses Universitaires, onde comprava os livrinhos da série Que Sais-je? virou uma loja de roupas. Eu já sabia disso, apenas constatei e tive uma surpresa novamente. Virei, olhei de frente para o prédio e vi, de costas, um homem sentado, como se fosse o pensador, de Rodin. De costas, a visão era essa. Era um dia bonito de domingo e a praça estava vazia de estudantes. Apenas algumas pessoas sentadas nas mesinhas dos cafés, na calçada, tomavam suas Kronnebourgs, suas Pelforts, ou simplesmente uma água Perrier borbulhante, com uma fatia de limão siciliano dentro, fazendo uma pequena revolução dentro do copo. Nas paredes, onde outrora as pichações diziam que era proibido proibir ou que a luta continuaria, nenhum escrito. Paredes limpas limpas. O homem continuava lá e eu me perguntava que reflexões estaria ele fazendo, sentado ali, virado de frente pra universidade que, cinquenta anos atrás, espalhou suas ideias socialistas e sacudiu o mundo. Fui caminhando lentamente, fotografei porque não poderia deixar de fotografar aquele homem de branco, o pensador dos tempos modernos, sentado ali. Caminhei, caminhei e finalmente pude vê-lo de frente e de perto. Ele estava, na verdade,  enviando uma mensagem pelo seu smartphone.

[foto Alberto Villas]

PARIS É UMA FESTA

Chego a Paris, cinquenta anos depois daquele Maio de 68 e, no primeiro dia, clico algumas coisas que vi pela cidade.

Uma mãe, na Place dês Voges, cultivando a amizade entre sua filha e uma menininha que estava na praça, com o pai.

Um homem à beira do Sena, curtindo o sol, bebendo uma água Perrier e ouvindo o som do Buena Vista Social Clube.

O grafite de uma mulher com um manteau preto na esquina da Rue du Marché des Blancs Manteaux, no Marais.

Mangas vindas do México, num supermercado no 19ème arrondissement.

A barraquinha de um buquinista à beira do Sena que pegou fogo e foi abandonada pelo dono.

Uma jovem lendo mensagens do smartphone, em frente ao Fórum des Halles.

Uma intervenção urbana num bueiro no 5ème arrondissement.

Quiabos congelados na geladeira de um supermercado onde entramos para comprar sabonete.

Um buquinista à beira do Sena lendo e tomando um chá com limão, enquanto espera seus clientes.

[fotos de Alberto Villas]

 

 

OS MORANGOS DA TOSCANA

De tempos em tempos eu ouço o Karnak cantando que o mundo é pequeno pra caramba/tem alemão, italiano e italiana/o mundo é filé milanesa/tem coreano, japonês e japonesa/o mundo é uma salada russa/tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia/o mundo é uma esfiha de carne/tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire.

Júlio Verne já deu a volta ao mundo em oitenta dias, Caetano disse que o mundo não é chato, Jostein Gaarder revelou o mundo de Sofia, Sérgio Augusto contou que este mundo é um pandeiro e, eu mesmo, já revelei que o mundo acabou. Sem contar Drummond, que cantou em versos um mundo, vasto mundo, se eu não me chamasse Raimundo.

Gosto da música do Karnak porque ela é verdadeira. O mundo é mesmo uma salada russa. Andando por aqui, vejo gente dos quatro cantos desse mundo, se é que ele tem canto.

Gente que come pizza andando na rua, gente que enfeita a bicicleta com flores, gente que corre pela cidade no escuro da madrugada, gente que coloca um tripé na ponte Américo Vespúcio para fotografar o por do sol na Ponte Vecchio.

Gente que usa chapéu, gente que anda de sombrinha no sol, gente que descansa depois de subir dúzias de degraus para chegar na Piazza Michelangelo, gente que toma sorvete mesmo chuva e oito graus.

Gente que fala francês, que fala russo, polonês, húngaro, alemão, japonês, espanhol, grego, holandês, chinês, árabe, hebraico e português.

Gente que usa tênis, tamanco, sapato de couro alemão, salto alto e sandálias havaianas.

Gente que bebe spritz, mojito, sol levante, cerveja Moretti, Fanta sabor sambuco, San Pelegrino de arancia e figo d’India, gente que toma o melhor espresso do mundo.

Gente que anda de motocicleta, de bicicleta, de Smart, de Fiat Panda, de patins, de patinete.

Tem gente de todo jeito nesse mundo. Gente que fuma, gente que não fuma, gente que come carne, gente que não come carne, gente que bebe, gente que não bebe, gente que olha pra gente e gente que não olha pra gente.

Esse mundo tem gente que lê La Repubblica, que lê Il Corriere della Sera, que lê Il Manifesto, que lë Il Foglio, que lê Il Corriere dello Sport, o 24 ore, gente que não lê nada.

Tem gente que almoça em casa, nos restaurantes, nas tratorias, no trabalho, nos parques, nos bistrôs e nos camelôs.

Tem gente que passa horas nas filas dos museus, nas filas das sorveterias, nas filas das liquidações. Tem gente que não entra nunca em fila.

Tem gente que joga bituca de cigarro no chão, outras não. Tem gente que agradece o motorista do ônibus, outras não. Tem gente que pergunta de onde você veio, outras não. Tem gente que sorri pra você, outras não.

Tem criança que chora, criança que grita, que brinca, que lambe o sorvete, que cai no chão, que sai correndo dos pais, que dá uma bocada no pão.

O mundo não é chato, é um pandeiro e acho que ainda não acabou. Quanto mais a gente viaja, mais a gente vê gente diferente. Africano usando roupas coloridas, alemão de sandália e meia, japonesas de chapéu, iranianas cobertas por burcas, indianos de turbante, americanos de camisas floridas, peruanos de poncho.

Tem gente loira, negra, amarela, branca, parda, marrom e vermelha.

Esta crônica vai terminar com um desfecho talvez meio inesperado. Contei todas essas histórias aí acima só pra revelar que aqui em Florença tem gente honesta que coloca, na caixinha, todos os morangos do mesmo tamanho, enormes, crocantes e saborosos. Você nunca vai comprar uma caixinha de morangos aqui na Toscana em que os grandes estão apenas por cima. Nós não deveríamos aceitar esse jeitinho verde e amarelo de colocar morangos enormes e vermelhos por cima e, por baixo, os verdes, os raquíticos e os feinhos

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
carta capital.com.br
[foto Alberto Villas]
 

NÃO TRAGO NOTÍCIAS

Na década de 1970, quando morava em Paris, as notícias chegavam dentro de envelopes verde e amarelos. Recortes de jornais, de revistas, pacotes de tabloides da imprensa alternativa. Não havia Internet, WhatsApp, Sky, fax, só havia as cartas e os telegramas, caríssimos. Os jornais franceses traziam, de tempos em tempos, notícias ruins ou de resistência à ditadura, geralmente censuradas no Brasil. A coleção de recortes que juntei com o tempo para defender minha tese sobre Os Anos de Censura no Brasil, comprovam isso. Censuravam a palavra vermelho do livro O Vermelho e o Negro, de Stendhal, como censuravam palavras como “ditadura”, “guerrilha” e “greve”. Tantos anos depois, estou passando uma temporada em Florença, outros tempos. Não sou mais estudante preparando tese e nem tesoura tenho aqui para recortar jornais. De manhã, dou uma lida na Folha de S.Paulo online, vejo o que de mais interessante tem nos sites de notícias, passo os olhos no Facebook, no Twitter, na Mídia Ninja, no Nexo, no 247, no Diário do Centro do Mundo, no Jornalistas Livres e, quando consigo conectar, ouço o Programa Contraponto, da Rádio Trianon. Com isso, o incêndio e o desabamento do prédio em São Paulo, parece que foi aqui na esquina onde eu moro, no bairro de San Nicolò. O que mais me impressiona nesses tempos de Florença é a falta de notícias do Brasil, um país que perdeu a importância e caiu no esquecimento. Nosso país perdeu completamente a importância e a graça, nem sei mais se ainda o chamam de “país do futuro”. Nas últimas semanas, vi apenas reportagem sobre Caetano Veloso e Geraldo Vandré, num jornal especial sobre os cinquenta anos de Maio de 68. E uma notícia, uma pequena nota no jornal La Repubblica, falando  da morte de Dona Ivone Lara, a “rainha do samba”, aquela que cantava magistralmente: “Sonho meu/Sonho meu/Vá buscar a quem mora longe/Sonho meu”.

“Acordes dissonantes pelos cinco mil alto falantes”

Caetano Veloso, em “Tropicália”

[foto Alberto Villas]

CIDADE LINDA

Cidade linda é aquela em que o povo está na rua, sem medo. Andando pra lá e pra cá, fazendo suas intervenções. Cidade linda não tem paredes limpas e pasteurizadas, tem o rastro de quem passou por ali e quis deixar sua mensagem, sua arte, seu protesto. De todos os tipos. Intervenções em placas, cartazes anunciando greves, concertos de música clássica ou cursos de yoga.  Cidade linda é cheia de adesivos enigmáticos colados em postes e nos cantinhos mais escondidos. Cidade linda tem cadeiras e mesinhas nas calçadas, pra quem sentar poder beber um spritz, um mojito, um sol levante, uma água San Pelegrino apreciando o movimento. Cidade linda tem obras atrapalhando o tráfego, tem poucos carros, pouca fumaça, nenhum engarrafamento de automóveis. Cidade linda tem barraquinhas vendendo de tudo, tem camelôs oferecendo pau de selfie ou discos voadores de neon. Cidade linda tem mercadinhos de frutas exibindo clementinas e mandarinas, exalando o odor do grape-fruit.  Cidade linda tem bicicletas circulando em harmonia, tem aviões cruzando e deixando o seu rasto no céu. Cidade bonita tem gente fotografando seus monumentos a todo momento. Cidade linda tem um rio com peixes, um rio que passa na vida de cada um. Cidade linda é Florença, por exemplo.

AS FOTOS DE HOJE

[Florença, com fotos de Alberto Villas]

FLOWER POWER

O jornal La Repubblica publicou recentemente uma matéria de página inteira, mostrando que nesses tempos modernos que vivemos, nesses templos de um Planeta Terra tão judiado, muitos cidadãos comuns, moradores de cidades pequenas ou grandes metrópoles, procuram, dentro de casa, construir uma pequena flora. Verdade. No nosso apartamento que ficou em São Paulo, aquela selva de pedra, cultivávamos uma pequena horta na varanda, onde colhíamos tomate, couve, pimentão, além de uma coleção de temperos como manjericão, hortelã, salsinha, alecrim, salvia, tomilho limão. Além da pequena horta, tínhamos um cactus talvez em homenagem a Frida Kalo, um coqueirinho talvez em homenagem a Bahia de Todos os Santos, muitos vasinhos com orquídeas que, tempos em tempos, abrem em várias cores. Em duas janelas, nossas jardineiras sempre foram verdejantes e, numa delas, uma ameixeira despontava robusta e bela. Mas não somos só nós que trouxemos o verde para dentro de casa, claro. A reportagem do La Repubblica mostra gente dos quatro cantos do mundo que cultiva vasinho dentro de casa, um hábito de encher os olhos da jornalista Annanda Apple, aquela que há muitos anos fala de verde na televisão. Andando pela Itália, percebemos claramente isso. Qualquer janelinha, por menor que seja, tem um vaso de flor ou uma pequena horta. Quando é quintal, lá está o limoeiro, a laranjeira, a ameixeira, geralmente carregados nessa época do ano. Da gosto ver. As cidades, mesmo às vezes sem grandes arvoredos devido a falta de espaço, são verdes graças a seus moradores. Que beleza!

AS FOTOS DE HOJE

[fotos Alberto Villas]