O ABDALLA É FOGO NA ROUPA

Na metade do século passado, os clientes eram bem fiéis. Tão fiéis que eu, menino na época, lembro-me até hoje das lojas onde os meus pais faziam suas compras. Do Mundo Colegial, onde compravam os uniformes do Colégio Marista e do Colégio Sion, da Bemoreira, onde compravam os móveis pra nossa casa.

Hoje, fico aqui pensando como é que, mais de meio século depois, lembro-me perfeitamente das lojas de Belo Horizonte, uma cidade que, segundo o cronista Humberto Werneck, “não acontece nada, mas a gente lembra de tudo”.

Minha mãe comprava sapatos pra ela e pras minhas irmãs, na Elmo. O meu pai, na Clark. Camisas, ele não abria mão, era só na Casas José Silva. Eu me lembro perfeitamente das Estâncias Califórnia, onde vendiam produtos importados da América do Norte e a gente atazanava meu pai pra comprar aquelas caixinhas vermelhas de uva passa, caríssimas na época.

O meu pai era um consumidor tão fiel que só mandava revelar fotos no Zatz, só comprava pão na Padaria Savassi, só enchia o tanque no Posto Fraternia, só comprava discos nas Lojas Gomes, frutas no Mercado Central e achocolatado, era só o Ovomaltine.

Belo Horizonte tinha a Guanabara, uma loja de departamentos no coração da Avenida Afonso Pena, tinha a Livraria Amadeu, a Gruta Metrópole, a Copiadora Brasileira, a lanchonete Ted’s, a Cantina do Ângelo e o Cine Pathé, onde assistíamos todas as chanchadas com Renata Fronzi, Anilza Leone, Grande Otelo, Zé Trindade, Costinha, Ronald Golias, Jô Soares e Otelo Zeloni.

Mas foi nos anos 1960 que um furacão varreu Belo Horizonte, com a chegada do Abdalla, uma loja de roupas a preço de banana, numa época que bananas eram vendidas a preço de banana. Ninguém sabia quem era o dono, se era turco, sírio ou libanês que, naquela época, eram todos iguais. A diferença era que turco era pobre, sírio, o que melhorou de vida, e libanês era o rico.

O Abdala chegou arrasando com a concorrência. De minuto em minuto entrava um anuncio na TV Itacolomi, canal 4, com uma musiquinha que em poucos dias virou hit na cidade: O Abdalla é fogo na roupa/Com ele ninguém pode/ Veja a fama que ele tem.

Sei que a cidade inteira correu pro Abdala pra comprar calças, camisas, meias, calcinhas, sutiãs, boleros, saias pregueadas, tudo. Em poucos dias, a cidade estava toda vestida pra missa, bem no estilo Abdalla.

Apesar de um sotaque libanês, uma roupa de sírio e um bigode de turco, Abdalla caiu no gosto de um Brasil popular, que gostava de uma camisa nos trinques, fosse ela de algodão, pele de ovo, opaca ou fustão.

Na porta das lojas Abdalla, havia uns stands com promoções arrasadoras. Eu passava de ônibus pela Avenida Afonso Pena e sempre via uma multidão  de mulheres afoitas revirando aquela montanha de  calcinhas de todas as cores, escolhendo uma que lhe servisse.

Os homens, ali mesmo na avenida, escolhiam e experimentavam suas camisas coloridas, algumas já faltando botão de tanto manuseio.

As lojas Abdalla sacudiram Belo Horizonte naqueles anos 1960, deixando a concorrência de calças nas mãos. O slogan é fogo na roupa é porque o Abdalla era mesmo fogo na roupa. Seus preços eram imbatíveis. Uma dúzia de meias custava o preço de uma passagem de ônibus, ida e volta.

Um dia, fui-me embora de Belo Horizonte e deixei pra trás a euforia da moda Abdalla na cidade onde nasci. Muitos anos depois, voltei e perguntei que fim levou o Abdalla. Me responderam que as Lojas Abdalla não haviam mais. Como não havia mais a Guanabara, a Bemoreira, as Estancias Califórnia, as Lojas Gomes, nem mesmo um monumento conhecido como pirulito, que ficava na Praça 7, havia mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MÚSICA, MAESTRO!

Um dos maiores tesouros do nosso país é a música popular brasileira. Não estou falando apenas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Chico Buarque. Estou falando de Tom, Vinicius, Baden, Edu, Wilson Batista, Noel Rosa, Pixinguinha, Jorge Benjor, Luiz Gonzaga, Monsueto, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Arnaldo Antunes, João Bosco, Ismael Silva, Paulinho da Viola, Rita Lee, Jackson do Pandeiro, Tom Zé, Walter Franco, Hermeto Paschoal e tantos outros. Quando pego o Le Monde de hoje e vejo uma reportagem de página inteira falando dos shows que nossos craques andam fazendo no verão europeu, morro de inveja. Morro de inveja quando ligo a TV e vejo as chamadas dos musicais prometidos pela Globo para o nosso tenebroso inverno. Porque será que só a segunda e a terceira divisão da nossa música aparece na tela da Globo? É grana? É falta de criatividade? É falta de conhecimento? Ou é mau gosto mesmo?

[foto Reprodução]

VAI PRA CUBA!

Já fui a Cuba duas vezes, o que acho pouco tamanha minha paixão pela ilha. A primeira, em meados dos anos 1980, como repórter do Estadão, pra cobrir o Festival de Música de Varadero. Fui no mesmo avião que Chico Buarque, rei de Havana na época. Passei quinze dias por lá e foi amor à primeira vista. Depois voltei em 2013 com a família – mulher e filhas – como turista. Foram duas viagens bem diferentes, ambas apaixonantes. Agora, acabo de fazer a terceira viagem, lendo Farofa Paradisíaca & outras histórias cubanas, da jornalista e escritora Débora Rubin. Ela partiu em junho do ano passado com o companheiro André Julião, também jornalista, e soube reunir historinhas saborosas e pequenas aventuras que recomendo a todos. Publicado pela Tüz e ilustrado por Rodrigo Terra, a Farofa de Débora é uma delícia para quem já conhece a ilha, agora de Miguel Díaz-Canel, e, para quem não conhece, vai dar aquela vontade louca de pegar o primeiro avião com destino a felicidade.

[foto Reprodução]

SEBOS & LIVRARIAS

Sou viciado em sebos e livrarias. Por onde vou, quero ser seu par. Não importa se estou chegando numa aldeia ou numa megalópole. Procuro sempre onde estão as livrarias da cidade, os sebos, muitas vezes escondidos por detrás de portinhas tortas, antigas, comidas por cupins. Seja em Tóquio, seja em Atenas. Não importa se os livros estão escritos em japonês ou grego. Fico horas observando as capas, tentando descobrir que livro era aquele de Gabriel Garcia Márquez, porque não havia nenhuma pista de ser O amor nos tempos do cólera. Na última ida a Paris, fiquei cinco horas, quase que uma tarde inteira, dentro da Fnac Fórum des Halles. E ainda não sai satisfeito porque não deu tempo de ver tudo. Na Itália, descobri La Feltrinelli, uma rede de livrarias espalhada por várias cidades. Não se trata de uma pequena livraria charmosa, pequena, aconchegante. Mas tem de tudo. Quantos livros de Pier Paolo Pasolini não deixei lá com a promessa de um dia voltar para resgatá-los? A Feltrinelli, que nos primeiros dias chamávamos de “Fantrinele”, virou um vício porque todo dia tinha uma novidade. Foi numa delas que achei, escondidinho, o livro 1968, de Oriana Fallaci, por exemplo. Em São Paulo, sou viciado na Livraria da Vila. Depois de mais de três meses sem ir lá, estou combinando de amanhã cedo ir. Num primeiro momento, estou pensando em deixar o cartão de crédito em casa.

  1. Porta interna da livraria La Feltrinelli, em Roma

2. O amor nos tempos do cólera, numa pequena livraria de Vryses, Grécia

[fotos Alberto Villas]

 

A VOLTA

Quando chega a hora de voltar ao país, é um drama pra todo brasileiro. Primeiro, pelas notícias que piscam nos sites e nas redes sociais. Em outros tempos, a gente voltava doido pra saber as novidades. Agora não, não tem nada que aconteceu nesses dias fora que não saibamos.

Segundo, porque a volta é longa e as encrencas são muitas.

Como enfiar na mala todas as bugigangas que compramos, mala que já saiu do Brasil estufada? Aí começa o descarte. Esse xampu pela metade, vai ficar. Essas Havaianas surradas também não vou levar de volta. Essa camiseta Fora Temer que está meio desbotada pelo sol, não vale quanto pesa pra enfiar na mala. Essa garrafa d’água tão linda que trouxemos do restaurante, também vai ficar. Não dá pra levar esse peso todo.

A solução então é comprar uma segunda mala, que é encontrada geralmente na lojinha de um chinês que fica aberta – desconfio –  que 24 horas por dia, esperando os turistas desesperados. Essas malas são meio vagabundas, pra usar apenas numa viagem e pronto.

Depois de um grande quebra-cabeça, vem a hora de fechar as malas. Elas são colocadas no chão, os extensores são acionados e, finalmente, a gente ouve aquele crack. Fecharam!

Quando vamos colocá-las de pé, vem outro pesadelo. Quantos quilos essas malas estão pesando? Meu Deus! É permitido apenas duas malas de 23 quilos e a impressão que temos é que, cada uma, pesa mais ou menos, uns cinquenta. Seja o que Deus quiser!

Hora de chamar o táxi. Jesus, tem de ser um táxi grande, tipo Van, pra caber tudo isso. Será que tem táxi grande nesse fim de mundo? O táxi chega, não é tão grande assim, mas o motorista, que não quer perder a viagem, dá o seu jeitinho de encaixar tudo ali dentro e acabou.

A caminho do aeroporto, além de dar o último adeus à cidade que não sabemos se voltaremos um dia, a preocupação é com o check-in naquelas máquinas que costumam responder secamente: Número de reserva desconhecido.

Tudo bem. O táxi estaciona, as malas são colocadas nos carrinhos, fizemos o check-in nas máquinas e enfrentamos a longa fila até chegarmos à atendente que, apesar do excesso de peso, acaba deixando passar tudo. Talvez pela cara de desespero e o excesso de simpatia dos passageiros que estão dando bom dia até pro luminoso da companhia, atrás da atendente.

Pronto. Agora é achar o portão 49B naquele aeroporto que parece ser maior que a cidade visitada. Mas, como agora a bagagem é pouca, o portão 49B vai acabar aparecendo, depois de muitos passos largos e muitos metros de esteira.

Será que essa bagagem de mão vai caber no porta-bagagens do avião? E se não couber? O avião já é apertado e vou ter de levar, debaixo dos pés, essa mochila que leva até um mico de pelúcia e um porquinho de borracha.

Ótimo, a mochila coube no porta-bagagens em cima das nossas cabeças. Agora só resta esperar que ninguém sente aqui ao lado, para que possamos dormir esticados o voo inteiro, a noite inteira. O que não acontece. O último passageiro a entrar no avião é o meu vizinho de cadeira.

A noite passa, a turbulência passa, a dúvida entre massa ou frango passa, e quando o comandante anuncia que começamos o procedimento de descida para o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, passa pela cabeça o último pesadelo, o pouco dinheiro que resta e a tentação do free shop que nos espera.

Temos uísque em casa? E Mozart? Será que o limoncello acabou? Acho que o Baileys está no fim. Quanto será que está o Beaujolais? O que vou fazer com esses 35 euros que sobraram? O cartão está estourado. Será que dá pra comprar um Grand Marnier e aqueles chocolatinhos da Lindt pro pessoal da firma? E aquele relógio que a sogra pediu pra ver o preço e eu não vou ter coragem de dizer que vi e que custa caro demais?

Antes do avião pousar, vem mais uma questão. Será que vou apertar o botão verde ou vermelho da alfândega? E se apertar o vermelho? Será que vão achar aquele camembert embrulhado em oito plásticos no fundo da mala? E os figos secos comprados na Grécia? E os três pacotes de polenta italiana?

Senhores passageiros, benvindos a São Paulo! Cuidado ao recuperar suas bagagens de mão porque elas podem ter se deslocado durante o voo. Não esqueçam de verificar se estão levando todos os seus pertences, inclusive o seu aparelho celular. A temperatura no momento é de 25 graus.

Ai vem a última dúvida: Será que a fila do táxi lá fora está gigantesca?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DANDO O TROCO

O Brasil é o único país do mundo que dá preço aos produtos, sabendo que não há troco. Como pode uma manga custar 4 reais e 97 centavos, se não existe 3 centavos de troco? Não existe mais moeda de 1 centavo em circulação, mas os preços continuam quebrados. Nós, brasileiros, já nos acostumamos a dar esses centavos aos comerciantes. Ninguém reclama e quem reclama os centavos, fica com fama de sovina. Os países europeus respeitam muito o troco. Poderíamos dar uma nota de 100 euros para pagar 1 euro, que davam o troco de 99 euros, sem reclamar. Era assim, agora mudou. A praga do troco chegou à Europa, pelo menos na Itália, na França e na Grécia, onde passamos esses últimos três meses. Aqui no Brasil é vício. Você pode dar uma nota de 10 reais para pagar 9.90 que, automaticamente, perguntam: Não tem 90 centavos? Ao invés de pegar 10 centavos e dar de troco. As moedas parece que estão desaparecendo também na Europa. A única diferença é que, ao invés de perguntar: Não tem 10 centavos?, eles perguntam: Poderia facilitar o troco, por favor? Mas uma coisa é certa: Lá, ninguém fica com 1 centavo do cliente. Enquanto aqui, a gente acha que 1 centavo não vale um tostão furado.

MERCADINHO EM PYLOS, GRÉCIA, ONDE O TROCO É SAGRADO

[foto Alberto Villas]

A CAMISA AMARELA

Pouco antes de voltar ao Brasil, depois de um longo período na França, ouvi a canção O que será, do Chico, várias vezes. Depois de passar quase dez anos sem pisar na Terra Brasilis, voltei com aquela coisa na cabeça: O que será que será/Que andam suspirando pelas alcovas/Que andam sussurrando em versos e trovas/Que andam combinando no breu das tocas/Que anda nas cabeças, anda nas bocas/Que andam acendendo velas nos becos/Que estão falando alto pelos botecos/E gritam nos mercados que com certeza/Está na natureza. Quando cheguei, vi que estavam falando alto pelos botecos e o assunto era a zebra da Loteria Esportiva no domingo. Dessa vez, quando deixei o Brasil, ainda não havia clima de Copa do Mundo e, na minha cabeça, passava a dúvida: Quem vai vestir camisa amarela? Desde que os direitistas adotaram a camisa canarinho como uniforme  para derrubar uma presidente democraticamente eleita, eu duvidava que alguém de esquerda tivesse coragem de vestir a tal camisa da CBF, ninho de corruptos e tenebrosas transações. A Copa começou e eu fora, longe daqui. Apesar de ligado nas redes sociais, não sentia muito o clima das ruas, o papo do boteco. Eu, particularmente, tomei uma certa ojeriza dessa camisa que não posso nem ver. Apesar de ter uma guardada no armário, presente de rei. No avião que voltei ao Brasil, tinha uma moça de camisa amarela porque o Brasil jogaria com a Costa Rica enquanto estaríamos nas nuvens. Não era uma camiseta dessas comuns que a gente vê nos camelôs, nem mesmo uma oficial. Era uma camiseta de grife, talvez Gucci ou Dolce Gabbana, toda customizada, com brilhos e bossas. O Brasil ganhou e ela vibrou na escala que fizemos no aeroporto Charles De Gaulle. Confesso que fico feliz quando saio nas ruas nos dias de jogo da nossa seleção e vejo pessoas nos botecos com camisa amarela. São pessoas que ainda torcem, que ainda acreditam no Brasil. Pena que o Brasil não há mais.

[foto Alberto Villas]

 

A FALTA QUE ELE NOS FAZ

Só hoje, mais de dois meses depois, pude folhear a revista Carta Capital número 1000, de papel. Orgulhoso de ter participado dessa edição histórica, contando a minha paixão por revistas, fui saboreando cada página, deitado na rede da minha varanda. Uma boa surpresa encontrei nas páginas 72 e 73, com uma reunião de pessoas notáveis, cujo título é: Brasileiros que fazem falta. Fazem falta porque não estão mais entre nós e quando ainda estavam. eram pessoas notáveis. Lá estão reunidos numa galeria, brasileiros da importância de Celso Furtado, Dom Paulo Evaristo Arno, Sócrates, Rachel de Queiroz, Abdias do Nascimento, Leonel Brizola, entre outros. Embaixo, no cantinho da página 73, tive a grata surpresa de encontrar o jornalista Geneton Moraes Neto, amigo e companheiro de Show da Vida durante mais de dez anos. Sim, o meu amigo Geneton Moraes Neto faz mesmo muita falta, desde que morreu prematuramente em 2016. Estávamos trabalhando a ideia de criar um Memorial da Imprensa, unir seu arquivo ao meu, nossas lembranças e experiências. A vontade surgiu quando Geneton escreveu o prefácio do meu livro A Alma do Negócio, publicado pela Editora Globo. Depois de ler o livro e saber que todo aquele material reunido no livro pertencia ao meu arquivo pessoa, ele não teve dúvidas. Depois de um  jantar no restaurante Comida à Mineira, em Botafogo, saímos animadíssimos com a ideia e começamos a trocar e-mails freneticamente, todos eles com mil ideias. Foi quando, de repente, Geneton caiu doente, foi pro hospital e não saiu mais, até nos deixar. Sim, Geneton Moraes Neto faz muita falta. Eu não tenho mais com quem comentar, discutir a nossa imprensa e o jornalismo que fazem lá fora. Geneton era um craque e o time ficou desfalcado.

[foto Alberto Villas]

SÃO, São Paulo

Quando deixei o Brasil, no final de março passado, com destino a um trimestre sabático na Itália e na Grécia, Como vai minha aldeia? foi um dos primeiros títulos que dei a um texto escrito, já em Florença. Os primeiros momentos na Toscana foi de abandono total de uma vida agitada em São Paulo e o esquecimento absoluto da palavra estresse. Recorri, para fazer o título, a uma velha canção do mineiro Tavinho Moura, composta nos anos setenta e qualquer coisa. Minha vida em Florença era a de quem vive numa aldeia. Andava pelas ruas e ruelas, comprava frutas e legumes num mercadinho, o jornal toda manhã na banca da esquina, cujo dono, no terceiro dia, já me reconhecia de longe e me esperava com o La Repubblica nas mãos. No fim de tarde, andava pela beira do Arno como se estivesse à beira do Rio Pomba, na minha querida Cataguases, na Zona da Mata mineira. Dois meses passei lá, assim. Logo eu, um homem urbano e tão acostumado com a efervescência de uma metrópole. Depois de Florença, descemos a Itália, atravessamos o mar e chegamos a Patras, na Grécia. De Patras, seguimos para Vryses, nosso destino final. Em Vryses, a canção de Tavinho Moura ganhou mais força. Como vai minha cidade/Oi, minha velha aldeia/Canto de velha sereia/No meu tempo/Isso era meu tesouro/Um portão/Todo feito de ouro. Vryses, uma aldeia com 78 habitantes, levou-me de volta à infância, quando vi tantos pés de frutas nos quintais. Quando ouvi a vizinha batendo na porta para nos dar de presente uma bacia de figos maduros. De madrugada, ouvia o uivo dos lobos e o ladrar dos cães, cuja finalidade era afastar os lobos. Ao amanhecer, ouvíamos mil sons de passarinhos e o sino da igreja tocando chamando os seus fiéis. O por do sol em Vryses era tão magnífico que muitas vezes lamentávamos ter chegado tarde em casa e perdido o espetáculo. O tempo passou com tudo tende passar. No avião que nos levou de Atenas a Roma, a caminho do Brasil, a revista de bordo da Alitalia, a Ulisse, estava no bolsão da frente. Antes de pegar no sono, dei uma folheada e uma reportagem sobre São Paulo foi a senha para lembrar o que me esperava. O Masp, a Japan House, o Beco do Batman, o Ibirapuera, o Instituto Tomie Ohtake, a Avenida Paulista, a efervescência estava de volta, mesmo ainda tão longe, mais de dez mil quilômetros. Então deixei Tavinho Moura de lado e me recorri a Tom Zé, que em 1968, cantou a cidade que tinha oito milhões de habitantes, que era uma aglomerada solidão, onde as pessoas amavam com todo ódio e odiavam com todo amor. Fui lembrando dos versos e cheguei ao final da poesia de Tom Zé, lembrando que apesar de todo defeito, te carrego no meu peito. Então, cheguei.

[foto Alberto Villas]

 

ÁLBUM DE RETRATOS

Ainda bem que não vivemos mais na dinastia Fuji, nem mesmo na era Kodrakrome. Se ainda estivéssemos nesse tempo, eu estaria louco ou na miséria. Lembro-me bem que quando íamos viajar pro estrangeiro, comprávamos na Fotóptica uns seis filmes de 36 poses pra colocar na mala e fazer fotografias por esse mundo afora.

Cada foto era pensada, calculada, focada e não havia desperdício algum. Só quando todos estivessem à postos e com o sorriso nos lábios é que disparávamos o clic, exclamando: Olha o passarinho!

As fotos iam sendo tiradas e os rolos iam sendo guardados para quando, de volta ao Brasil, levarmos na mesma Fotóptica para serem revelados. Esperávamos cinco dias úteis pra ficarem prontas e quando abríamos aquele envelope, era sempre uma surpresa. Algumas fotografias ficavam fora de foco, umas cortavam o pé, outras a cabeça das pessoas e tinham aquelas que simplesmente queimavam.

Íamos admirando uma a uma e como o tempo havia passado, tinha fotos que nem lembrávamos mais que tínhamos tirado, como aquela na porta do hotel, todos reunidos, sorrindo, é claro.

Éramos econômicos. Não tirávamos fotos de qualquer coisa. De prato de comida, de por do sol, da lua cheia, da areia da praia ou de um cachorro dormindo na porta de uma loja, por exemplo. Hoje,  fotografo qualquer cachorro que vejo pela frente.

De galgo a pitbull, de poodle a vira-lata. Percebo isso, quando vou apagar as fotos para aliviar a memória do computador. Sim, hoje tiramos milhares de fotos e apagamos milhares. Eu e minhas manias.

Estou aqui há uma semana apagando fotos inúteis antes de voltar ao Brasil. Em três meses foram mais de doze mil fotos. O problema maior é que bato duas, três, quatro fotos da mesma coisa, sempre achando que uma pode não sair boa, ficar fora de foco ou cortar algum detalhe importante. Acontece que todas saem absolutamente idênticas e eu sou obrigado a eliminar todas as outras.

Só depois de ver mais essa quantidade monstruosa de fotos que passei do iPhone pro computador, é que a ficha cai e eu pergunto para os meus botões: Por que fotografei tanto cachorro? Por que fotografei tanto por do sol, todos eles muito parecidos?

Além de cachorro, não posso ver um gato que fotografo, um pombo que fotografo, não posso ver uma gaivota, um grafite bonito, uma placa que não entendo, uma onda do mar, uma árvore frondosa, um pardal, que fotografo. Tenho pardais dos quatro cantos do mundo, todos absolutamente idênticos. Chego num lugar e não sossego enquanto não fotografo um pardal local.

Na última semana, já eliminei 74 pombos, 56 grafifes, 88 gatos, 101 cachorros, 60 gaivotas, 29 placas que não entendo, 44 pratos de comida, sem contar um oceano inteiro de ondas do mar e 99 flagrantes do sol se pondo. Elimino, não porque as fotos não ficaram boas, mas por serem praticamente iguais.

É sempre assim. Quando saio de casa, faço uma pequena reflexão em grupo e anuncio que esse ano não vai ser igual aquele ano que passou. Não vou sair fotografando tudo o que vejo pela frente, e quando vejo, lá estou eu fotografando tudo o que vejo pela frente. Sofro com isso, mas, pensando bem, me divirto, tenho assunto pra crônica.

Não são apenas patos, mas toda a família: Gansos, cisnes, marrecos, mulards e cayugas. Patos, desses comuns, foram 142 só em Florença, deslizando pelo Rio Arno. Tenho fotos de todo tipo de pato, em todas as posições possíveis e imagináveis. Patos com a cabeça enfiada n’água, patos chacoalhando as penas, patos cochilando, patos batendo asas, ameaçando voar, todas as reações de um de pato, registrei. Muitas vezes, fotografo dez, quinze, vinte vezes pra tentar conseguir um lance bacana.

Esses dois aí que ilustram a crônica, por exemplo, foram clicados 17 vezes. Eu estava tentando fazer a foto perfeita dos dois juntos formando um coração. Como podem ver, quase consegui. Mas não desisti. Tenho certeza que um dia vou conseguir um casal de patos formando o tal coração com o pescoço e o bico. Repito: Não vou desistir. Nem que seja um pato laqué no prato de um restaurante, lá na China.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

O PAPEL DO JORNAL

A leitura diária do jornal de papel num café foi uma das cenas que mais me chamou a atenção nesses três meses de Europa. Em Roma, particularmente, onde fiz um clic deste senhor que chegou para tomar um spresso, seguramente o melhor do mundo. Ele colocou o cinzeiro no chão por não ser fumante. Todos os restaurantes daqui ainda têm cinzeiros nas mesas e as pessoas – acredito eu – fumam muito mais do que no Brasil. Voltando aos jornais. Eles são interessantes, com muito conteúdo. Com vários suplementos – saúde, comida, medicina, tecnologia, design, viagem, economia, literatura, além de revistas com serviço e grandes reportagens. Todo dia é uma montanha de novidades. E são muitos: La Repubblica, Il Manifesto, Il Messaggero, Corriere della Sera, Il Foglio, Il Fatto Quottidiano, Corriere dello Sport, Gazzetta Sportiva, para citar alguns. Sinto que o brasileiro perdeu o hábito da leitura de jornais por culpa talvez dos próprios jornais, óbvios, envelhecidos e partidários, principalmente. Talvez ainda exista no Brasil uma pequena confraria de leitores de jornal de papel. Eu sou um deles e quero continuar sendo.

[foto Alberto Villas]

CERIMÔNIA DO ADEUS

Aqui em Roma, me despedindo dessa temporada sabática por aqui, ilustro o texto de hoje com a primeira foto que fiz na capital italiana, assim que cheguei, há exatos noventa dias. Uma cesta de limões siciliano que achei linda, ali na porta de uma vendinha, como se fosse uma cidadezinha do interior  e não a movimentada capital da Itália. Quando cliquei, não podia imaginar que tais limões iriam me acompanhar durante toda essa temporada fora do Brasil. Por onde andei, eles estavam lá, vistosos, cheirosos, saborosos. Vi limão siciliano no pé em praticamente todas as cidades por onde passei. Me apaixonei por eles. Na aldeia de Vryses, na Grécia, colhia todos os dias quando a Paulinha, na cozinha, anunciava: Estou precisando de limão. Compramos numa venda uma cestinha para colhê-los no pé, sem que precisasse deixar que eles caíssem no chão. O vizinho, ao ver, riu muito, porque aquela era uma rede de pescar piabas e não de colher limão. Imagino que ele tenha entendido a famosa expressão “jeitinho brasileiro”.

[foto Alberto Villas]