BEIRUTE À VISTA!

De tempos em tempos, eu me pergunto por que diabos resolvi, um dia, no verão de mil novecentos e setenta e cinco, aos vinte e cinco anos de idade, sair de Paris e ir parar em Beirute, por terra.

Não houve planejamento algum. Não comprei passagem, não reservei hotel, apenas coloquei um mapa-mundi no chão da sala da minha casa e fiz um traçado com caneta Stabilo Boss verde limão. Era um mapa mundi surrado, comprado ainda na Livraria Itatiaia, antes de deixar o Brasil.

Parti numa manhã de verão, com a cara e a coragem, levando apenas, nas costas, uma mochila de lona cheia de ilusão. Aos vinte e cinco anos de idade, tudo era divino, tudo era maravilhoso e eu não tinha tempo de temer a morte.

Durante muitos dias, andei de trem, de ônibus, de caminhão, de carona, de navio, e até de avião, num pequeno percurso antes de chegar a Beirute. Eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus, e seguia à risca a música de Jards Macalé e Waly Salomão.

Atravessei montanhas, lagos, rios, sete mares até chegar ao meu destino. Sai da França, desci a Itália, atravessei pra Grécia, passei pela Bulgária, cheguei perto da Albânia, alcancei a Turquia, depois a Síria e finalmente, Beirute.

As anotações que restaram são poucas, mas não me esqueço do longo percurso dentro de um vagão de trem, atravessando a Itália, de norte a sul, com aquela mochila nas costas, sem espaço para colocá-la no chão. Não me esqueço das horas e horas que passei no porto de Brindisi, esperando aquele velho navio, na esperança de reaver o passaporte que foi embora nas mãos de um policial.

Da Grécia, lembro-me de uma praça central, rodeada de árvores floridas que faziam sombra nos bancos de concreto, onde fiz da minha mochila, travesseiro.

Lembro-me das doze horas que passei para entrar na Bulgária e dos dois dias que passei comendo biscoito waffes, a única coisa que tinha para comer. Da Síria, não me esqueço da poeira e das primeiras placas enferrujadas escritas em árabe, aquele alfabeto que me deixou embriagado de paixão.

Nunca me esqueci de Alepo, quando Alepo ainda era uma cidade de pé, viva, onde as pessoas se divertiam nos cafés jogando dominó e bebendo arak, o néctar dos deuses.

A chegada a Beirute foi nas asas de uma velha aeronave da Turkish, cujo guardanapo, lembro-me bem, tinha a imagem de um porco e um X cruzando o seu corpo.

Já era noite e com aquele calor sufocante, só me restou pegar um taxi, um velho Impala 1960 e pedir ao motorista que me levasse até a Universidade Americana, onde passaria os próximos quarenta e cinco dias.

O alívio foi muito grande quando percebi que todas as pessoas no aeroporto de Beirute falavam francês e o motorista do táxi também. Depois de tantos dias driblando o italiano, tentando falar inglês com os búlgaros, fazendo mímica para os gregos e turcos, e sem entender uma palavra sequer na Síria, me senti em casa.

Na primeira esquina, o motorista perguntou de onde vinha e eu fui bem claro. De um país tropical, muito longe dali, onde uma ditadura militar tomou conta do espaço e me sufocou. Ele não quis saber mais nada, contou que o que conhecia de Brasil era a música de Jorge Ben. Cantarolou Mais que nada/Sai da minha frente que eu quero passar/O samba está animado/O que eu quero é sambar, e me contou que tinha todos os seus vinis.

Desviou o caminho e me levou até a sua casa, um pequeno apartamento onde vivia com a mãe. Era um ambiente sombrio, o chão coberto de tapetes persas, as paredes entupidas de fotografias de parentes mortos e uma antiga eletrola com espaço para guardar os discos de vinil, na parte de baixo.

Ali estavam os velhos e surrados discos de Jorge Ben, que ele conhecia tão bem. Ligou a geringonça e logo ouvi aquela voz inconfundível cantando Take It easy, my brother Charles/Take It easy meu irmão de cor…, a canção que ele também sabia de cor.

Tomamos suco de romã pra matar a sede e logo depois sua mãe me serviu arak numa pequena taça vermelha e dourada. Uma, duas, três. Foi difícil conseguir sair dali e pegar o meu rumo com destino a Universidade Americana. Mas cheguei.

Fui instalado num pequeno quarto moderno e colorido. A cama era amarela, o pequeno armário era azul, o criado mudo verde e a escrivaninha preta. A janela era pequena e ficava bem no alto. Tive de subir na cama para ver lá fora.

A escuridão era total e o silencio só era quebrado de tempos em tempos por um barulhinho bom, não sabia se de grilo, cigarra, sapo ou passarinho.

Só na manhã seguinte, com o sol na cara, voltei a observar o lado de fora de Beirute. Era um descampado, chão de terra batida, onde um grupo de jovens militares fazia exercícios. Nada muito interessante. Nenhum cedro, nada que me remetesse a Beirute.

Eu tinha os cabelos compridos, na cintura, e não pesava mais que cinquenta quilos. Quando pus os pés na calçada, um grupo se aproximou de mim e todos ficaram observado a minha figura dos pés a cabeça. O que fazia aquele ET em Beirute, se a manchete do L’Orient-Le Jour era guerra à vista?

Um pequeno bistrô, ao lado, exibia charutinhos de folha de uva na vitrine e um caixote de romãs maduros estava ali encostado na parede, do lado de fora. O cheiro dos temperos que vinha lá de dentro era muito forte, com certeza já fritavam linguiças merguez polvilhadas com harissa.

Com uma Pentax a tiracolo, dei o primeiro passo e vi Beirute. Fiz a primeira fotografia de uma das cidades mais fascinantes do mundo. Isso eu vou contar na semana que vem.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

 

A CENA MUDA

Sempre fui rato de livrarias, de sebos, de loja de discos. Sempre fui frequentador assíduo da Livraria Cultura, aquela enorme do Conjunto Nacional. De ir toda semana e passar um bom tempo lá, pulando de livro em livro, de CD em CD, de revista em revista. E depois tomar um suco de laranja com mamão, comer um sanduíche de salmão com pão integral e, pra finalizar, um cafezinho. Ontem entrei na Livraria Cultura do Conjunto Nacional com a impressão de que era pela última vez. Livros novos não há mais. Livros antigos que sobraram e best-sellers ocuparam as estantes redondas, lugar onde sempre encontrava as novidades da semana. Subi até o primeiro andar e que desolação. Os Cds novos de Gilberto Gil, de Caetano com os filhos, de Elza Soares, nenhum estava lá. O que tinha, preenchendo as estantes eram coletâneas caça-níqueis e um total de seis vinis. Sim, apenas seis. Antes de ir embora, passei na revistaria e o susto foi maior. Nenhuma revista nacional, nem mesmo as tradicionais Veja, Época, IstoÉ, Carta Capital estavam lá. O que vi foram revistas estrangeiras, poucas, a preços nunca inferiores a 90 reais. As respostas dos vendedores são sempre as mesmas: “Ainda não chegou, ainda não recebemos”. E a revista Cultura? “Não existe mais”. A Livraria Cultura está agonizando, enquanto no café, havia fila de espera. Talvez os clientes queriam beber o último suco de laranja com mamão e comer o último sanduíche de salmão com pão integral. Que tristeza!

[foto Alberto Villas]

O SHOW DA VIDA

Há dezessete anos, coloquei no ar no programa Fantástico, outrora “show da vida”, um VT que está seguramente na minha lista particular do Top 5. Naquele fim de semana que seguiu ao ataque terrorista em Nova York, que colocou abaixo as duas torres gêmeas, era o meu plantão para fechar e colocar no ar o programa dominical da Rede Globo. Voei mais cedo pro Rio de Janeiro porque sabia que os dias iam ser pesados. E foram. Recebemos na redação, via escritório de Nova York, um vídeo de 26 minutos, gravado por um médico que resolveu, por conta própria, socorrer as vítimas. Com uma câmera numa mão e os aparelhos de medicina na outra, ele entrou nos escombros correndo risco, sabendo que poderia não sair dali com vida. Foi gravando o que via, o sofrimento das pessoas, aquelas imagens aterrorizantes. O diretor do programa sugeriu que eu transformasse aquilo numa reportagem de, no máximo, dez minutos, com off e tudo mais. Assisti e assisti novamente três vezes aquele vídeo e fui lutar por ele. Argumentei que deveríamos colocar no ar o que chamamos de matéria bruta, os 26 minutos, sem edição, sem off, apenas com legendas, de tempos em tempos, que eram as observações que o médico fazia. Venci e os 26 minutos brutos abriram o programa naquele domingo. Me senti realizado profissionalmente quando, na reunião de pauta da terça-feira, entrei na redação e recebi um forte abraço do repórter Eduardo Faustino e um curto: “Parabéns, cara!”

 

 

 

LEITORES

O Globinho acabou, o Estadinho acabou e a Folhinha acabou. Alguém ainda se lembra do Suplemento Juvenil, das revistas Explora, da Recreio, da Pop e de tantas outras revistas e suplementos dirigidos às crianças e adolescentes? Acabaram todas. Enquanto isso, o jornal francês anuncia hoje que chegou a 1 milhão de assinantes adolescentes. A França tem uma política de oferecer assinaturas a estudantes pela metade do preço. O hábito faz o monge. O estudante acostuma a ler jornais, a ler revistas semanais de informação, a ler. E, formado, continua assinando e lendo. Aqui, pelo visto, temos cada vez menos e menos leitores. Menos e menos jornais e revistas. Menos e menos um país.

[foto Reprodução]