PARE 2018 QUE EU QUERO DESCER

Passado o Natal, vinha aquela euforia com a chegada do ano novo, uma semana depois. Era quando o meu pai chegava em casa carregando uma enorme folhinha da KLM com aquelas imagens maravilhosas de moinhos de vento, holandesas de tranças e tamancos e campos de tulipas.

Antes mesmo de acabar o ano, ele dependurava na parede, com a ajuda de um martelo e um prego, aquela folhinha maravilhosa. Ficávamos em volta dela, passando os meses, cada um querendo saber em que dia da semana cairia o seu aniversário.

Meu pai trazia da repartição uma agenda Pombo para cada filho e imediatamente pegamos uma caneta e preenchíamos o nome, o endereço, telefone e o tipo sanguíneo.

Minha mãe fazia uma faxina na casa, abrindo gavetas, picando e jogando papéis fora, guardados durante o ano inteiro, inutilmente. Passava Silvo nas pratarias e óleo de peroba nos móveis coloniais, à espera de um ano novo e feliz.

Fazíamos uma montanha de promessas. Passar de ano sem segunda época, tomar pouca Coca-Cola, ler um livro por semana, anotar e cumprir todos os afazeres na agenda Pombo, não perder as missas de domingo, não brigar com os irmãos, ver menos televisão e guardar dez por cento da mesada todo mês.

Não havia promessa de fazer dieta naquela época em que não havia academia, se cozinhava com banha, comia-se torresmo, passava manteiga no miolo do pão, o café era com açúcar e não havia leite desnatado, nem semidesnatado. A promessa da minha mãe era uma só, saúde para todos. E o meu pai completava, rindo: E muito dinheiro no bolso!

O fim do ano ia chegando e nossa euforia era grande. Lavávamos o pombal com Creolina para que, no primeiro dia de janeiro, estivesse limpinho e cheiroso. Tirávamos o mato da horta, os pulgões das folhas de couve e fazíamos uma armação de arame para que o pé de chuchu pudesse se acomodar no muro, sem incomodar o vizinho.

A última semana do ano parecia que não existia. Ninguém mais conseguia direito, ninguém estudava mais porque as férias já tinham começado, não tínhamos paciência nem pra sentar e ver o Zé Colmeia na televisão. Era só preparação pro ano novo que estava despontado. Todos os anos, nessa semana, o meu pai vinha com uma velha piada e minha mãe sempre caia. Ele chegava da Meteorologia, abria a porta e dizia:

– Sabe quem está nas últimas?

– Quem? Quem? perguntava minha mãe, arregalando os olhos.

– O ano velho! dizia ele, enquanto todos caiam na gargalhada, dizendo:

– Mas mãe, você caiu de novo?

No fim da manhã do dia 31, sabíamos que já era ano novo na Austrália, mas naquela época não havia o Jornal Hoje pra anunciar na escalada: Já é ano novo em Sidney! Só víamos os fogos explodindo por lá, no dia seguinte, numa radiofoto toda riscada, no jornal O Globo.

Os papeis picados caindo das janelas na avenida Paulista, na Avenida Brasil e na Avenida Afonso Pena, na minha Belo Horizonte, eram uma atração à parte. Não tinha ano que o meu pai não comentasse “eu tenho dó dos garis, amanhã cedo, que vão começar o ano varrendo rua”.

Não havia ceia na passagem do ano, na minha casa. Comíamos uma comida dessas de domingo, por volta das dez horas da noite porque, onze e pouco, íamos todos pra Sociedade Mineira de Engenheiros pro Réveillon.

Meia noite em ponto, a banda dava o grito de carnaval e nós pulávamos até nos acabar, ao som de olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é. Ao som do joga a chave, meu amor, não chateia por favor, ao som de Bandeira branca, amor, eu peço paz e índio quer apito, se não der pau vai comer!

Chegávamos em casa estropiados, abríamos a geladeira pra ver se tinha sobrado um pouco da maionese, um pedacinho frio de lombo e umas uvas geladas. Ainda dava tempo de ver na televisão o videoteipe da queima de fogos em Copacabana, a cascata caindo do Hotel Meridien, as velas acesas na areia e as palmas pra Iemanjá, indo e vindo nas onda do mar.

Mas esse ano, não vai ser igual aquele que passou. Estamos aqui em casa todos assustados e com temor de que dois mil e dezenove, queria ou não queira, vai chegar. Dois mil e dezoito ainda não está nas últimas, mas já está desenganado.

Ouvi dizer que, a partir do dia primeiro de janeiro, vão começar a matar gays, lésbicas e simpatizantes. Vão agredir quem estiver com camisa vermelha e colocar na clandestinidade o MST e o MTST. Vão prender o Boulos, o Stédile e metralhar a petezada.

Estão dizendo que vão perseguir os professores, vão acabar com os livros de História e colocar na fogueira todos os do Paulo Freire. Vão fechar a TV Brasil, vender a Petrobras, cercar os índios, prender cem mil, fechar jornais e disseram até que vão declarar guerra à Venezuela.

Só me resta colocar na vitrola aquele velho disco do meu pai que ele fazia questão de ouvir, todo dia 31 de dezembro:

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que tudo se realize

No ano que vai nascer!

Muito dinheiro no bolso

Saúde pra dar e vender!

Para os solteiros, sorte no amor

Nenhuma esperança perdida

Para os casados, nenhuma briga

Paz e sossego na vida

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Captal]

cartacalpital.com.br

OUTRAS NOTÍCIAS

Agora é oficial. A Índia proibiu, definitivamente, qualquer tipo de pássaro na gaiola. Agora é crime manter uma ave no cativeiro. No Brasil – não vou perder a piada – a única ave que não vai pra gaiola é o tucano.

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Cinquenta anos do álbum branco dos Beatles, visto pelo jornal argentino Página 12:

https://www.pagina12.com.ar/155225-album-blanco-parlante-lleno

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Na capa da revista espanhola Papel, a cerimônia do adeus ao motor de combustão.

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E na capa do suplemento especial do jornal Libération, o avanço do carro sem condutor.

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Vista aérea da circulação de carros em Xangai, a cidade mais populosa da China.

[foto AFP]

CLUBE DA ESQUINA

A série O Livro do Disco, da Editora Cobogó, segue adiante com mais um belo documento: Clube da Esquina, de Paulo Thiago de Mello. A série conta a história do disco de Milton, Lô Borges e amigos, em detalhes e muitas novidades. Clube da Esquina, o álbum duplo, segundo editado no Brasil, chegou às lojas em 1972 e virou um clássico da música popular brasileira, mesmo não estando na prateleira de rock, de bossa nova, de tropicália. A reunião dos mineiros com Milton, o mais mineiro dos cariocas, rendeu um disco cheio de sonoridades que iam das montanhas a Londres dos Beatles. O curioso, me lembro muito bem, foi uma crítica publicada no semanário Opinião na época (juro que não me lembro o nome) dizendo que do disco, daria pra fazer um bom compacto duplo. Criticos também erram. Lembrando que Clube da Esquina I e II saíram esse ano numa luxuosa versão vinil, fiel à original de 1972.

[foto Reprodução]

OUTRAS NOTÍCIAS

Os planos da família Bolsonaro para jogar os partidos comunistas na clandestinidade.

Do jornal argentino Página 12:

https://www.pagina12.com.ar/155166-los-planes-de-bolsonaro-jr

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Toda semana, dois jornais que leio todos os dias – Le Monde e La Repubblica – publicam um caderno de medicina, ciência e saúde, pra ninguém botar defeito. Pela atualidade, pela eficiência, pela seriedade. Dá gosto ler.

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[K.Alhashimi, via Palestina Hoje]

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Os franceses lembraram ontem, os três anos dos ataques terroristas em Paris. No Stade de France, no restaurante Le Petit Cambodge e na boate Bataclan. Quase duzentas pessoas morreram.

[foto via Libé]

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Um cervo assustado. Foi o que sobrou dessa paisagem na Califórnia, onde um incêndio vem destruindo tudo pela frente. Até agora, as equipes de socorro já encontraram 25 pessoas mortas.

[foto AFP]

O MARKETING EM DEBATE

Virou mania postar nas redes sociais, pratos principais, sobremesas, ou mesas bonitas, bem arranjadas. Ninguém quer postar uma foto de um café da manhã corrido porque acordou atrasado, aquele que aparece, lá no fundo a pia cheia de vasilhas pra lavar, farelos de pão no chão ou aquele copo de requeijão que virou copo do dia-a-dia. Quando digo ninguém, é ninguém que quer fazer marketing de gente como a gente. O bobalhão que vai sentar na cadeira de presidente da República no dia primeiro de janeiro, não tem noção do ridículo, não por se expor do jeito que se expôs nesta fotografia. Os motivos são muitos que demostram ser um bobalhão, mesmo fora da mesa do café da manhã. Mas vamos ficar na foto. Oito copos dos mais baratos, ninguém sabe como serão utilizados. Talvez pra tomar café. Gente simples toma café naquele copo chamado de americano. Além dos oito copos de vidro, vemos uma pilha razoavelmente grande de copos de plástico. Pra que tanto copo? O queijo prato sequer foi tirado do isopor e o papel filme ainda está ali, com o preço enrolado nele. A manteiga sequer foi pra manteigueira, está desembrulhada numa demonstração clara e proposital de desleixo total. Qualquer carioca pode comprar uma manteigueira na liquidação do Supermercado Guanabara, mas o bobalhão quer deixar bem claro que ele é povo e que manteigueira é coisa de rico. O porta-bolos é também simples. Aqui na 25 de Março, em São Paulo, zona de comércio popular, tem dessas a preço bem módico. A mesa não tem toalha. Na mesma 25 de março você compra um pacote com três ao preço de um almoço num restaurante a quilo. Mas o bobalhão acredita que uma toalha daria um charme especial à sua mesa de café da manhã, o que atrapalharia a cabeça do seu eleitor, aquele que acha que votou numa pessoa, gente como a gente. A garrafa térmica popular também está ali, perto de um punhado de facas. Só tem facas. Nenhum colherzinha pra mexer o café? Será que o bobalhão só usa arma branca pro seu café matinal? Fruta ou suco, nem pensar. Deixa pro Doria. Ah, tem ainda o Leite Ninho, porque uma marca sempre está presente em suas fotos programadas para as redes sociais. Quem não se lembra da última, com um litrão de Coca-Cola bem à vista? Aguardemos a próxima fotografia. Se for na hora do almoço, não vai faltar aquele arrozinho com feijão, uma carninha moída de segunda, um chuchu refogado, os copos de requeijão como copo do dia-a-dia, o pacote plástico de sal aberto aberto em cima da mesa, sem saleiro, nada de toalha e, à vista uma garrafa de Itaipava ou, quem sabe um litrão plástico de Dolly. O litrão de Dolly Guaraná, pensando bem, pegaria muito bem, não é mesmo?

[foto divulgada nas redes sociais]

OUTRAS NOTÍCIAS

A língua é a portuguesa, a mesma nossa, mas as manchetes de alguns jornais portugueses nos faz rir.

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A jovem Michelle Obama, fotografada pelo marido, numa viagem ao Kenya. Foto publicada na primeira pagina do jornal italiano La Repubblica desta terça-feira.

[foto Obama – Robinson Family Archives]

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A onda de notícias falsas se espalhou pelo mundo de uma tal maneira que agora temos sites que informam o que foi notícia e também informa o que é mentira.

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Advinhe quem é este jovem, antes de chegar ao final da linha porque ela revelará quem é. Ozzy Osbourne, aos 26 anos, em 1974.

[foto Historyinpix]

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Linda a capa dupla da revista holandesa Volkskrant.

[foto Reprodução]

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Os argentinos são ótimos de contar histórias no cinema. Na literatura, nem se fala. Um bom exemplo é A Uruguaia, de Pedro Mairal. História de amor, de questionamento, de procura, de viagem, tudo em um dia. Mairal se revela como um bom contador de história, com uma literatura simples e cativante. Desses livros que quando a gente pega… Editado no Brasil pela Todavia, já nas poucas boas casas do ramo.

[foto Reprodução]

OUTRAS NOTÍCIAS

O jornal nicaraguense El Nuevo Diario dá, como manchete principal, o alerta da agência Standard and Poors sobre a crise no país. A pergunta que fica é, a quantas anda o Brasil na planilha da agência. Durante o final do governo Dilma, a Standard and Poors esta constantemente nas primeiras páginas dos nossos jornalões. Desde que Temer deu o golpe, ela desapareceu, pelo menos dos jornais brasileiros.

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Três capas bacanas saíram nesses dias. A capa da Time Out New York, a capa da holandesa Volkskrant e a da revista do New York Times.

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Na capa do jornalzinho que o Libération faz pra juventude, o presidente eleito da extrema-direita em nosso país. É bom os francesismos saberem que é essa figura, desde pequenininhos.

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A matéria de capa do suplemento L’Époque, do Le Monde. é uma boa pauta. As mudanças constantes das tecnologias está mexendo com a nossa cabeça, pobres mortais. É muita mudança em pouco tempo, o que está deixando muita gente confusa, perturbada mesmo.

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Vista assim do alto, mais parece o quê? Trata-se de uma comunidade popular na cidade de Ho Chi Min, a capital do Vietnã. O governo está estudando uma grande reforma no lugar com a construção de enormes bulevares, à monda francesa.

[foto AFP]