MINHA VIDA DE CACHORRO

Venho dessas famílias que a gente diz: na minha casa sempre teve cachorro. Sim, sempre teve cachorro. Foram quatro: Jolie, Tupi, Pink e Fly. Cachorros soltos dentro de casa e no terreiro, daqueles que se engasgavam comendo osso de frango no domingo depois do almoço. Ainda não havia petshop, ração, brinquedinho, caminha, xampu, nada disso. Bebiam água numa lata de goiabada da Cica. Iam uma vez aos posto da Prefeitura pra vacinar contra a raiva. E só. Depois de muito lutar para não ter um cachorro, na quarentena adotamos o Canela. Vira-lata, foi abandonado num Posto Ipiranga no meio da estrada. Tive logo a ideia de dar o nome a ele de Guedes. Ouvi um sonoro não de todos aqui. Seria muita humilhação para ele. Chegou Bob e ganhou um novo nome, Millôr, que durou umas duas horas. Ficamos lembrando de nomes de cachorros e quando ele ouviu Canela, abanou o rabo e veio todo serelepe. Virou Canela imediatamente e sempre atendeu por esse nome. Acreditamos que ele era Canela desde pequenininho. O Canela é o vira-lata mais nobre do pedaço. Senta esquio esperando eu colocar o tênis, pegar o saquinho plástico, a máscara, a coleira. Chegou aqui sem saber o que é elevador. A porta abria e ele ficava olhando, não entrava. Agora só falta apertar o botão S1 quando saímos pra passear. Aprendeu a não fazer xixi na garagem, sabe esperar a hora do passeio e – acredite – pede colo depois de nos acompanhar no café da manhã. Fica observando a mesa, sem sequer enfiar o focinho onde não foi chamado. A gente aqui em casa vive dizendo que se fosse fêmea chamaria Gilda, porque não existe cachorro como Canela. Metódico, dá nove horas vai para o cômodo onde funciona o home office da Paulinha e fica esperando a hora do tabalho dela. Divide as atenções durante o dia. No final da tarde vem pro meu escritório e deita na caminha esperando a hora do passeio. Paramos de dar ração e fizemos a comida dele. Descobrimos que o açougue do supermercado tem uma carne  que chama retalho. É um mix de carne, pedacinhos que sobram daqui e dali na hora do corte. Do acém ao filé mignon, do patinho ao colchão duro. A comida é simples e fácil de fazer. Sem gordura, sem sal e ele ama. Abandonou a ração de vez, não suporta o cheiro. Será que criamos um monstro? O Canela alegrou nossa vida nessa pandemia. Tem horas que ele parece o Brian da Family Guy. Dá impressão de que vai sentar na mesa conosco e discutir filosofia. Canela não morde, late só na rua e adora brincar com os outros cachorros. Se deu bem com a Shakira e a Cher, das nossas filhas. Acho que ele percebeu que estava escrevendo sobre ele. Só acordou agora e veio abanando o rabo, feliz da vida. 

[ilustração Rebeca Campbell]

TRÊS COISAS ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é baixo, mas intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão de que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são atentos, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer contraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar das pessoas ali. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando-se em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta e quatro mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Aqui fora, discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas.

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai dar em nada. Ali é o fim do mundo. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, tipo Fitzcarraldo.

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um unicamente de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia, Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países das maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão comprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda é, porque meu sonho é conhecer o Zaire, a Zâmbia, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa.

O SOL DE SEXTA-FEIRA

O governo Bolsonaro vai entrar para a História. Pela incompetência

Na foto de Lado de Almeida, em destaque na primeira página, o nosso país vai, literalmente, acabando a olhos vistos

Quem é o pernambucano Jones Manoel, o historiador que Caetano cita?

O problema da educação brasileira na pandemia parece que não tem solução

Caso de Bolsonaro significa seu desejo direto de intervir na Polícia Federal

Na foto de Daniel Teixeira, em destaque na primeira página, a fumaça que sobe no Norte e no Centro-Oeste e chega a São Paulo

O governo Bolsonaro é um governo cercado de escândalos por todos os lados

O governador Witzel na corda bamba, enquanto o prefeito Crivella parece ter um pacto com alguém

Quer que o Chico Caruso desenhe?

O problema é muito maior do que apenas uma minúscula chamada na primeira página de jornal

Na foto de Franklin Jacinto, da Reuters, na primeira página, era uma vez Flamengo: 5 a 0 para o Independente Del Valle, pela Libertadores, em Quito

 

Um achado: Um perfil de Dom Pedro II escrito por Machado de Assis escrito em 1859

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Na capa da Carta Capital que começa a circular hoje, o Doutor Drauzio Varella dá uma verdadeira lição sobre a pandemia. A Veja mostra que é chegada a hora de voltar às aulas. 

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A matéria no Globo Esporte de quinta-feira (17) no Globo Esporte, sobre a maldição do São Paulo foi boa. Mas o repórter (Fernando Vidotto) quebrando (literalmente) um espelho, passando debaixo de uma escada e apontando uma sexta-feira 13 no calendário, não sei não. O GE vive fazendo graças e excessos.

Na capa da Ilustrada, os 70 anos da televisão brasileira

SEM COMENTÁRIO

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O LABIRINTO

Sonho com labirintos que não existem. Acordo pensando naqueles dos palácios de Viena e vejo-me aqui neste que existe na Lapa. Quartos, sala, cozinha, banheiro, revistarias, escritório, varanda. Poucas plantas, nada a ver com aqueles labirintos transbordando de glicínias que avançam e fecham qualquer saída. Não quero me perder por ai, sentir os pés no chão, andar ligado, mas ao mesmo tempo ser um mutante esperando a vacina no braço, na língua, onde for. Russa ou chinesa, não importa. Quero sair daqui, dar passos largos, sentir o cheiro de gasolina saindo do motor. Se não fosse a música permanentemente no ar, os livros em cima da mesa, as revistas, os jornais, se não fosse minha família, se não fosse o bife à milanesa que espalha seu cheirinho bom pela casa, já teria avançado sobre as glicínias, não tenho dúvidas. 

O SOL DE QUINTA-FEIRA

 

De uma coisa temos certeza neste governo Bolsonaro: eles não sabem fazer contas

As autoridades insistem na volta às escolas, nem que seja para a formatura

O cartunista Benett sabe que não dá voltar nessa correria

Resumindo: o auxílio emergencial vai continuar até dezembro, mas não é bem assim

Jaboticabal só tem no Brasil

Porto Alegre News

As aulas vão retomar em novembro e terminar em dezembro? É isso?

Neste governo, qualquer coisa faz a educação perder verbas

Festa estranha com gente esquisita

Na foto em destaque na primeira página, projeções em prédios iluminam a cidade

Até a cegonha está em crise nessa pandemia

Trata-se de um bom emprego

E o vice-presidente Mourão prometendo sobrevoar a Amazônia com estrangeiros. Já devem estar estudando o circuito ainda com floresta

O último político carioca que sair apaga a luz do Aeroporto Tom Jobim, ok?

Na foto em destaque na primeira página, a reabertura do Centro Cultural Banco do Brasil com a exposição de Ivan Serpa

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Neymar, suspenso por dois jogos, na capa do jornal francês L’Équipe

Ótimo bate-papo do jornalista Mino Carta com o Doutor Drauzio Varella no site da revista Carta Capital

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MAPAS

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um só de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países da maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão cumprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda, porque meu sonho é conhecer o Gabão, a Zâmbia, o Zaire, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa. 

O SOL DE QUARTA-FEIRA

Resumindo: aquele Bolsonaro paz e amor dura apenas algumas horas

…mas apenas Goiás e Pernambuco conseguiram atingir suas metas

Na foto em destaque na primeira página, esse acordo nos faz lembrar uma frase do saudoso Millôr Fernandes: porque brigam tanto por um Oriente que é apenas médio?

No Brasil, a polícia mata negro e não paga nem o enterro. Verdade.

É sempre bom lembrar que o presidente da República disse recentemente que ONG é um “câncer difícil de extirpar”

E o ministro da Economia Paulo Guedes – uma espécie de Velhinho de Taubaté – continua achando que o Brasil já está decolando

Literalmente, começou uma guerra comercial

Só lembrando que Bolsonaro disse há alguns meses: “Não vou entrar nas eleições deste ano”

Chico Caruso ilustrando o jogador e o juiz, ainda sem cartão vermelho

Na foto em destaque na primeira página, todos de costas para o Irã

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Ops…

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Quem afirmava que bom mesmo seria apenas o primeiro episódio de Amor & Sorte (terças, depois de Fina Estampa, na Globo) caiu do cavalo. O segundo, com Lázaro Ramos e Taís Araújo, foi muito divertido. Um inesquecível noite do panelaço.

O programa Pingos nos Is, na Jovem Pan, que chama a Covid-19 de vírus chinês, encontrou uma médica que garante que o coronavírus foi criado num laboratório do país do Mao

PAISAGE INTERVENIDO

foto Álvaro Fernández Prieto

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SEM DESTINO

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai me levar a nada. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, ser Fitzcarraldo.

[ilustração Katharina Bitzl]

O SOL DE TERÇA-FEIRA

Vênus superstars em destaque na primeira página do Estadão

Poderíamos chamar o decreto do governo de “corte emergencial”

Nos tempos de repórter do telejornal Aqui Agora, Russomano tinha um bordão: “Tá bom pra você?”

Na foto em destaque na primeira página, o fogo que é o maior inimigo da onça

A viagem da Folha chegou aos Países Baixos, passando por Portugal. Mais um capítulo da boa série da Folha: Estado Alterado.

O adeus a Shere Hite, autora do Relatório Hite tanto discutido nos anos 1970

O governo tirando o cobertor dos idosos para dar aos mais novos

Acabaram os quatro meses de experiência

LEITURA RECOMENDADA:

O cronista, autor do delicioso Pai dos Burros, fez uma crônica que é um verdadeiro prato cheio

Brasil, pátria desalmada

É aquele velho ditado: “depois que a casa pegou fogo…”

Não tem jeito, o governo do Rio não aprende a lição

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Vênus foi destaque nas primeiras páginas de jornais de vários países do mundo, entre eles o espanhol El País

Sentar numa mesa para bater um papo com Boni, o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, sempre rende muito assunto. São boas histórias que não acabam mais, principalmente sobre a televisão brasileira, já que é um professor. Na noite de segunda-feira (14), o Boni sentou no centro do Roda Viva para conversar com amigos. O papo rendeu? Rendeu, mas poderia ter rendido muito mais se os companheiros de bancada fossem outros. Ficou a impressão de que foram convocados para entrevistar o mago da TV, um grupo de amigos. Uma “roda amiga”, como ele mesmo disse no início do programa. O que Joyce Pacowitch tem a ver com a televisão para estar ali? Não seria melhor um Mauricio Stycer? Um Jô Soares? Uma Cristina Padiglioni? Um Carlos Alberto da Nóbrega? Estavam lá Roberto Muylaert, Maria Adelaide Amaral, Zeca Camargo e o repórter (ex-Globo) Tonico Ferreira. Algumas perguntas estapafúrdias foram feitas (“porque Derci Gonçalves o idolatrava?”). Uma pena. A conversa poderia ter sido mais interessante se tivessem focado mais nos tempos atuais em que a TV passa por uma crise de identidade, do que no saudosismo global. Noventa por cento da entrevista foram causos da TV Globo, emissora que ele praticamente inventou. Para quem já conhecia as histórias, não passou de um vale a pena ver de novo. A grande revelação de Boni foi dizer que “o Roberto Marinho morreu achando que eu ainda trabalhava na Globo”. Nos últimos anos de vida, “ele não lembrava quem era Silvio Santos”. Essa história eu não sabia. [Alberto Villas]

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UM TUCANO NO SUFOCO

Publicada no site da reviser alemã Der Spiegel, a fotografia mostra um tucano num galho de uma árvore no Pantanal, que hoje é só fogo e fumaça.

[foto Mauro Pimentel/AFP]

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UTI

 

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são constantes, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer constraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas. 

O SOL DE SEGUNDA-FEIRA

A tragédia da Saúde no Brasil não vai terminar com o fim da pandemia

Mesmo assim, as Igrejas podem ficar tranquilas: Nada lhes faltará! Bolsonaro está articulando com os deputados uma saída lucrativa

A foto em destaque na primeira página, um novo mundo cada vez mais esquisito

Lembramos daquele velho slogan de um governo do passado: O Brasil para todos

Ao contrário do que propaga o presidente da Repúbllca

Na foto em destaque na primeira página: o fogo mata o Pantanal e mostra a cobra

O país perplexo diante de tanta sujeira do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, só tem uma pergunta: Por que ainda não caiu?

Se fizermos um mapa da balbúrdia da volta às aulas no Brasil, ninguém vai saber resolver essa equação

Na foto em destaque na primeira página, vista assim do alto, mais parece uma imagem do coronavírus no microscópio

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Na capa da revista Época, a volta da inflação. E na capa da IstoÉ, a praga da lavoura

Aos 85 anos de idade, o repórter José Hamilton Ribeiro nos brindou com uma matéria espetacular no Gobo Rural, no domingo de manhã. Gravada antes da pandemia, a reportagem contou a história da manga Ubá, aquela manguinha que leva o nome da cidade onde nasceu Ary Barroso. Uma aula de Jornalismo.

O programa Zorra (TV Globo) perdeu completamente a graça com essa tentativa de voltar em plena pandemia. Uma tragédia.

A estreia de Tempero de Família: Saudade (GNT) mereceu nota 10. Rodrigo Hilbert acompanhado da mãe na cozinha, foi uma receita de sucesso.

A live de Gilberto Gil, filhos e neto no canal TNT foi um colírio para os olhos. De uma elegância ímpar. Pois é, quando a gente pensa que ele já foi ministro da Cultura e a que ponto chegamos, dá vontade de chorar.

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Uma novidade. Uma velha banca de revista localizada na Avenida Higienópolis, esquina de Martim Francisco, virou um Point de boas publicações. É a Banca HG. Lá você só encontra revistas bacanas: Serrote, Cult, Quatro cinco um, Piauí, além de livros sempre recomendáveis e um cantinho especial para os livros infantis. Vale a pena conhecer e desfrutar. 

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MULHER LENDO

Eu era menino ainda quando vi uma propaganda nas páginas da revista Realidade anunciando o lançamento da coleção Gênios da Pintura. Eu não tinha NCr$2.50 por semana para comprar aquele Van Gogh, o número 1, sequer para comprar os outros noventa e seis. Picasso, Kandinsky, Goya, Rembrandt, Monet… Namorava cada um nas bancas e quando Seu Benito estava lá, ele me deixava folhear, sem amassar, por favor! Foi assim que me apaixonei por esses pintores geniais. A cada museu que entrava e via uma obra ao vivo eu me lembrava dos Gênios da Pintura da Abril Cultural. Agradecia aos céus o privilégio de poder parar diante de uma obra o tempo que quisesse e ficar admirando. Nesse domingo de manhã me emocionei ao ver a postagem do meu amigo Apolo Heringer Lisboa, aquele com quem tenho uma grande história. A obra estava lá e apenas o nome: Mulher Lendo, Henri Matisse, 1908. Quando vejo uma obra pela primeira vez, a emoção não me segura. 

AS SEIS CANÇÕES DO CÁRCERE DE UM NARCISO EM FÉRIAS

Caetano Veloso cita seis músicas no seu depoimento a Renato Terra e Ricardo Calil, sobre sua prisão em 1969, duas semanas depois do Ato Institucional número 5. No documentário Narciso em Férias, que foi aplaudido em Veneza no dia 7 de setembro, ele canta três canções e, com dor no coração e uma certa angústia, silencia sobre as outras três.

Canta Irene, a única que fez atrás das grades, quando apertou a saudade da irmã, com então 14 anos de idade. Na gravação original, que abre o disco de capa branca e que leva apenas sua assinatura, Caetano erra no início e deixa o erro no vinil: esqueci. Eu vi que você não estava com cara de quem ia cantar. Eu estava esquecido, quando me lembrei já foi em cima da hora. Ah, meu Deus… ah! Na letra, uma única vontade, a de ir embora daquele lugar: eu quero ir minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

Canta Terra, a canção que fez, alguns anos depois, e que sua memória o remeteu ao quartel do Exército. Compôs a lembrança de Dedé que levou para ele ver a revista Manchete com as fotos da Terra vista do espaço. Na verdade, um hino ao Planeta Terra: quando eu estava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias, em que apareceres inteira, porém não estava nua e sim coberta de nuvens. É em Terra que ele reconstrói os versos de Paraíba, de Luiz Gonzaga, aquela Paraíba masculino mulher macho sim senhor! Mando um abraço pra ti pequenina como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba.

Canta Hey Jude, a canção que ouvia na prisão e que lhe dava a sensação de que dias melhores viriam: Ei, Jude, não fique mal, pegue uma canção triste e torne-a melhor. Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração, então você pode começar a melhorar as coisas e sempre que você sentir dor. Ei, Jude, vá com calma, não carregue o mundo nos seus ombros

Caetano não tocou Súplica, sucesso no vozeirão de Orlando Silva, a canção que um velho comunista, companheiro de prisão pedia que ele cantasse: Aço frio de um punhal/Foi o seu adeus para mim/Não crendo na verdade, implorei, pedi/As súplicas morreram num eco em vão/Sofrendo nas paredes frias de um apartamento.

Não cantou também Onde o céu azul é mais azul, uma aquarela brasileira na voz de Francisco Alves, a canção que Caetano tem medo, medo de chorar ao ouvi-la: Eu já encontrei um dia alguém/Que me perguntou assim, iá, iá/O seu Brasil o que é que tem/O seu Brasil onde é que está?/Onde o céu azul é mais azul/E uma cruz de estrelas mostra o sul/Aí, se encontra o meu país/O meu Brasil grande, e tão feliz.

E Caetano não cantou Assum Preto, de Luiz Gonzaga, recuperada pela fatal Gal Costa, outra música que lhe causava uma tristeza profunda;

Tudo em vorta é só beleza/Sol de abril e a mata em frô/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Mas Assum Preto, cego dos óio/Num vendo a luz, aí, canta de dor/Tarvez por ignorança/Ou mardade das pió/Furaro os óio do Assum Preto/Pra ele assim, aí, cantá mió.

Sim, as histórias voltam junto com as canções.

 

 

 

BOULOS CRESCE E APARECE EM SEGUNDO LUGAR NA PESQUISA DO EL PAÍS

Pesquisa realizada pelo instituto Atlas e publicada na manhã desta sexta-fera (11) no site do jornal El País, mostra o candidato do PSOL, Guilherme Boulos (Erundina vice), em segundo lugar nas eleições para prefeito de São Paulo. De acordo com a pesquisa, o atual prefeito Bruno Covas ainda está em primeiro, com menos de 4 pontos de diferença. O segundo lugar está embolado entre o eterno candidato Celso Russomano e Marcio França. Veja os números: