TOPA TUDO POR DINHEIRO

O merchandising existe não é de hoje. Talvez Nero, quando tacou fogo em Roma, estivesse com uma caixinha de fósforos Pinheiro nas mãos. A gente não pode confirmar porque não tinha câmera na época. Aquela maça que a Eva ofereceu ao Adão, talvez fosse uma Maçã da Mônica, quem sabe? Quando você vai ao cinema, quantas vezes você já não viu uma garrafa de Coca-Cola em cima da mesa, posicionada estrategicamente? Já vimos ator lendo a revista Elle, como já vimos a lua oval da Esso quando um galã para num posto de gasolina para abastecer o seu carro. Isso chama-se merchandising. Nas novelas da Globo sempre foi assim. Tanto é que no final, ao subir os créditos, podemos ver escrito o nome da Renault, do Boticário, do Itaú. Mas, de uns tempos para cá, o anúncio deixou de ser sutil e escancarou, mostrou sua cara dentro da novela. É como você estar assistindo a um filme no cinema e, de repente, o ator aparece tomando uma Skol e, além de elogiar a cerveja, entra um anúncio dentro do filme. No episódio de ontem de Amor de Mãe, o ator saiu da novela e como em Rosa Púrpura do Cairo, entrou dentro da propaganda da Tim que, na cara de pau, deram um jeito de encaixar no script. Um afronta ao telespectador. Televisão vive de propaganda, mas as propagandas deveriam estar apenas nos breaks comerciais e não dentro de uma obra de arte. Nesses tempos bicudos, sabemos que a televisão está topando tudo por dinheiro, até mesmo uma propaganda dentro de uma novela ou de um humorístico chamado Zorra. Não se espante se você sintonizar no Jornal Nacional dia desses e encontrar o Bonner com uma latinha laranja de Fanta em cima da bancada.

[foto de uma cena da novela Amor de Mãe/TV Globo]

QUE VAZAMENTOS?

Os brasileiros que acompanham o noticiário apenas pelo Jornal Nacional (sim, eles existem), devem estar perplexos se perguntando: “Mas que diabo de vazamentos são esses?”. O mais importante e mais sintonizado dos telejornais brasileiros, só fala em Intercept Brasil, quando o assunto é polícia. Já foram divulgados mais de oitenta vazamentos – conversas atravessadas entre procuradores e juízes da Lava Jato – e o Jornal Nacional costuma passar batido. Aqueles brasileiros sintonizados nas redes sociais, na Folha, na Veja, no El País, no Buzzfeld, no programa do jornalista Reinaldo Azevedo, no Pública, nos blogs independentes, esses sim, estão sabendo tudo sobre o conteúdo dos vazamentos. Ontem, quando o Ministério Público decidiu começar uma perseguição a Glenn Greenwald, o jornalista foi parar na escalada do telejornal. Mas quando ele divulgou a fala do então juiz Sergio Moro afirmando “In Fux we trust”, por exemplo, o JN passou em branco. Ao falar de Intercept, citando apenas que “divulgou conversas”, é o mesmo que falar, falar, falar de um jogo de futebol e não dar o resultado final. É uma espécie de Piu Piu sem Frajola, Claudinho sem Bochecha, Romeu sem Julieta. Mais confuso ainda deve ter ficado o telespectador quando, no final da reportagem, vieram enxurradas de protestos de entidades contra a decisão de denunciar Greenwald. “Como assim?” devem ter perguntado a seus botões, o telespectador-JN. “Como assim protestar contra o denunciamento desse ‘bandido’ chamado Glenn Greenwald? Vocês não acabaram de dizer que ele cometeu um ato criminoso?”  

[foto Reprodução TV Globo]

SÓ 10% É ENGRAÇADO

A TV Globo estreou na noite desta terça-feira (21), o seu novo programa humorístico chamado Fora de Hora. A fórmula não é nova. Na Europa, é muito comum esse tipo de humor que transforma a notícia em piada. Aqui no Brasil, essa fórmula já foi explorada pelo Casal Telejornal, no programa TV Pirata, nos anos 1980, um quadro razoavelmente engraçado. Mais recentemente surgiu o GregNews no HBO Brasil, um “telejornal” apresentado por Gregório Duvivier, mais de 90% engraçado e sobretudo, inteligente. Fora de Hora são notícias e mais notícias, umas atrás das outras, tudo muito rapidinho e com pouquíssima graça. Estavam bem atuais, falando até de Roberto Alvim e seu discurso nazista. Mas faltou graça. Difícil dar uma risadinha, mesmo que amarela, com aquele desfile de piadas bobas. Noventa por cento do tempo, ficamos meio constrangidos, procurando a graça, achando que ela viria. E o programa acabou, ainda bem que rapidinho. A sátira aos repórteres foi o que valeu, os atores representaram bem os jornalistas e seus cacoetes. Teve graça quando o apresentador chamou a repórter no helicóptero e perguntou: “Como está o trânsito por ai?” E ela respondeu simplesmente: “Uma bosta!” Isso mesmo, uma bosta! O Fora de Hora é tão engraçado quanto o Jornal Nacional.

[foto Reprodução TV Globo]

LEITURA RECOMENDADA

A revista Quatro Cinco Um chega neste mês de janeiro ao seu número 30, sem perder a ternura, nem um pingo de charme. Desde o seu lançamento, a “revista dos livros” vem mantendo um padrão irretocável. Boas resenhas, bons ensaios, uma lista quase completa dos lançamentos do mês. Para quem gosta de livros, para quem gosta de ler, a Quatro Cinco Um é um verdadeiro Waze. 

[foto Reprodução]

RODAS VIVAS

Na noite de segunda-feira (20), o programa Roda Viva, da TV Cultura, estreou sua nova âncora, a jornalista Vera Magalhães, entrevistando o ministro sabonete da Justiça Sergio Moro. Sabonete porque passou todo o tempo do programa escorregando daqui e dali. O Roda Viva tinha tudo para ser um programa chapa branca, composto por uma bancada da grande imprensa e um representando da ultra-direita, o jornalista que tem nome de colírio: Felipe Moura Brasil. A esperança estava em Malu Gaspar, repórter da revista Piauí. Mas, uma semana anos da estreia, surgiu um fato novo que bombou nas redes sociais. Inconformada com o fato de não ter sido convidada para a festa, a turma do site The Intercept Brasil (que vazou as conversas de Moro, deixando clara sua parcialidade na Lava Jato) resolveu colocar, via Youtube, sua participação no programa, comentando as falas do ministro e as perguntas dos jornalistas. Isso foi o sinal de alerta para toda a bancada que se preparava para entrevistar o ministro sabonete. Ficou claro ao ver o programa ontem, que nenhum deles estava ali disposto a passar por jornalista chapa branca. Moura Brasil não conta, faz um jornalismo que não merece ser comentado. Com isso, perguntaram sobre quase tudo: o perdão a Onyx que usou caixa 2, o silêncio em torno dos ministros acusados de corrupção, os ataques do presidente aos jornalistas, o discurso nazista do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvin, o convite à namoradinha do Brasil para assumir a pasta, os vazamentos da Intercept, Marielle, laranjas, essas trapalhadas todas do governo de direita de Jair Bolsonaro, no poder desde janeiro do ano passado. Moro fingiu responder tudo, argumentando que nenhum desses assuntos era escândalo. Pelo contrário, tudo resolvido ou resolvendo. Quando os entrevistadores colocavam o dedo na ferida, ele saia com frases do tipo “não estou aqui para falar em nome do presidente” ou “eu não sou comentarista político”. Do outro lado, quem estava sintonizado ao mesmo tempo no Youtube, no programa do Intercept, via uma espécie de Roda Viva em Debate, mesmo que um pouco confuso, podia quase participar os comentários, os mesmos que fizemos em casa. Eles iam pontuando o que os jornalistas deixavam de perguntar, ou replicar, e o que Moro deixou de responder. Enquanto na tela da TV Cultura, víamos passar tarjas sempre elogiosas a Moro, coisas do tipo “Moro é nosso herói”, “Moro 2022”, “Nosso futuro presidente”, do outro lado, no Youtube, uma saraivada de comentários do tipo “Fora marreco de Maringá”, “Moro ladrão”, “Moro bandido”, lutando contra os robôs que insistiam em chamar os jornalistas do Intercept de esquerdistas, comunistas e observações como “vocês se fuderam”. Enfim, o Roda Viva de ontem não foi o que imaginávamos, mas também não foi o que esperávamos. Assim que Vera Magalhães deu o seu boa noite, o pessoal do Intercept fez algumas perguntas que os jornalistas não fizeram, não quiseram fazer ou se esqueceram. Coisas do tipo: “por que o senhor não quis melindrar o ex-presidente FHC?” ou “o que o senhor quis dizer com a frase in Fui we trust?” Pena que Moro, nessa hora, já fora do ar, Moro devia estar nos bastidores da TV Cultura recebendo os cumprimentos dos jornalistas. 

Rodas Vivas: um apresentado pela TV Cultura, outro pelo Youtube.

[fotos Reprodução TV Cultura/Reprodução Youtube]

GOL DE PLACAR

Lançada poucos meses antes da inesquecível Copa do Mundo no México, em 1970, a revista Placar, editada pela Abril, fez muito sucesso rapidamente. Semanal, ágil e com uma equipe de primeira, Placar chegava às bancas na terça-feira cedo, sempre cheia de novidades. Cobria basicamente o futebol, mas não apenas o jogo e o resultado final. Fez denúncias sérias como a máfia da loteria, que acabou provocando um auê no país do futebol. Placar era simples e objetiva e veio cobrir uma lacuna nas bancas de revistas, que tinha apenas a Gazeta Esportiva em São Paulo e o Jornal dos Sports no Rio. E muito outrora, a Revista do Esporte, companheira da Revista do Rádio. O leitor-torcedor agora tinha nas mãos uma revista de primeira qualidade feita com empolgação de uma galera. Estou falando de uma área do campo de futebol, onde os ingressos custavam mais barato. A Copa passou, o tempo passou e a Placar lutando para sobreviver. Entrou em depressão, passou por várias tentativas de sobrevida, mudou formato, papel e linha editorial, mas nunca conseguiu voltar a ser o que era. Está chegando às bancas, um número especial comemorando os seus 50 anos, para colecionador. Vale a pena ver de novo o que foi a Placar no mundo do jornalismo esportivo e recordar seus bons momentos. Lendo o artigo do jornalista Carlos Maranhão mostrando como funcionava a redação você vai entender. 

[foto Reprodução]

SOMOS TODOS CAMILA

Mesmo quem não gosta de novela, vale a pena prestar atenção em Jessica Ellen, a professora Camila de Amor de Mãe. Gostaria muito de saber como os noveleiros fanáticos estão enxergando a professora de esquerda, militante a favor da minoria. Camila chegou na escola pública de Amor de Mãe para causar. Politizou seus alunos e partiu pra luta. Ela vai passando ideias e ideais políticos a seus alunos de uma forma aberta e democrática. Para impedir que a escola seja demolida e que eles sejam transferidos para outras escolas, organizou uma ocupação que, na vida real, corria sério risco de dar errado. Mas, em Amor de Mãe, a política de esquerda prevaleceu. A princípio, os pais dos alunos e a mãe de Camila (Regina Casé, como Lurdes) foram contra, temendo a violência da polícia que é colocada de forma explícita na novela. Aos poucos, Camila vai conquistando corações e mentes. Com uma ordem de desocupação nas mãos, a polícia invade a escola, ameaça com violência e acaba recuando. Ao mesmo tempo, o entorno vai ficando do lado de Jessica e de seus alunos. Mantimentos, produtos de higiene, cobertores, colchões são levados para dentro do prédio, onde as aulas continuam, mesmo que improvisadas. De que lado estarão os noveleiros, acostumados a ver nos telejornais a polícia agindo e acabando com as ocupações na vida real, muitos deles considerando os ocupantes como baderneiros e desocupados? Como os noveleiros estão vendo a vitória da professora e seus alunos? Pode ser que nos próximos capítulos a escola venha abaixo, mas por enquanto dá gosto ver uma minoria vitoriosa. Acusam a autora da novela de ter idealizado o script mostrando uma escola de apenas uma professora, uma diretora e um professor de ecologia, militante. Perguntam onde estão as outras professoras, os outros professores da escola. Eu também pergunto. Queremos ver muitas Jessicas em Amor de Mãe. 

[foto Reprodução TV Globo]

Jessica em ação. Repare o que está escrito na lousa

DE CARA NOVA

Revistas francesas mudam constantemente de lay-out, o que não acontece por aqui. Esta semana foi a semanal de informação L’Express. O assunto de capa é bom: uma nova droga, um novo vício chamado Netflix.

[foto Reprodução]

VEJA ESSA!

Redatores às vezes estão presos às normas da casa e não arredam o pé delas. No site da revista Veja na noite de quinta-feira (16), o redator cravou “Entretenimento” no alto da página para situar a morte do cantor e compositor Luiz Vieira. Não seria melhor a morte de um músico receber um chapéu (jargão jornalístico) do tipo: “Despedida” ou “1928/2020”, por exemplo? Mas não, se o assunto é cantor, a ordem é colocar “Entretenimento”. Ficou feio. Outra coisa muito comum nos sites são as informações estapafúrdias sobre datas. Veja bem: O texto foi escrito no dia 16 de janeiro e ficamos sabendo que Luiz Vieira estava hospitalizado “desde quarta-feira, dia 15 de janeiro”. Ora, 15 de janeiro para quem estava no dia 16, foi ontem, não é mesmo? O correto não seria “estava hospitalizado desde ontem”, meu caro redator? 

[Montagem da notícia/VILLASNEWS]