POSITIVO

Meio-dia e vinte e um surgiu a notícia: o teste de coronavírus do presidente Jair Bolsonaro deu positivo. A GloboNews interrompeu sua programação para informar com urgência a novidade. A partir deste momento, foi praticamente assunto durante mais de doze horas. Passaram por ali todos os comentaristas, todos os apresentadores, todos os telejornais e programas e só se falava nisso. Durante mais de doze horas (que eu computei) a tarja variava pouco, mas o assunto era o de uma única frase: Jair Bolsonaro testou positivo. Em cima desta notícia de uma linha, a GloboNews conseguiu preencher toda a sua programação elucubrando em cima desta única notícia, sem grandes desdobramentos. Era isso e pronto. Quando liguei a televisão no dia seguinte, na quarta-feira (8), acredite! A frase ainda estava lá. Jair Bolsonaro testou positivo.

O CASTIGO

Eu me lembro bem as vezes que fiquei confinado, no máximo quinze, vinte minutos. Era dentro de um banheiro espaçoso, mas tedioso. Havia um vaso, um bidê, uma banheira, um box protegido por uma toalha de peixes coloridos nadando. Havia um cesto de vime onde minha mãe ia juntando a roupa suja, um armarinho espaçoso com um espelho carcomido por uma espécie de ferrugem nas bordas. Dentro do armarinho, ela guardava as caixinhas de dentifrício Kollynos, os sabonetes Vale Quanto Pesa, o estojo de primeiros socorros, uma caixinha de grampos, um pente Flamengo, o vidro de brilhantina do meu pai. No box, o Vale Quanto Pesa quase sempre no fim, uma pedra palmes, uma bucha vegetal e um vidro de xampu de ovo. A parede era de azulejo branco até a metade e a outra metade pintada de azul, tinta epóxi. Haviam toalhas comuns dependuradas, cada um tinha a sua. A minha era de cor laranja. Era ali que, de tempos em tempos, passava aqueles quinze, vinte minutos de castigo. Quando o clima esquentava entre os cinco filhos, minha mãe escolhia um, pegava pelo braço e colocava no banheiro. Eu ficava sentado o tempo todo na beirada da banheira, olhando para aquelas coisas, para o nada, esperando o tempo passar. Quando passava, minha mãe abria a porta, mostrava o caminho de saída e dizia apenas uma frase: Veja se aprende! Eu aprendi.

HADDAD TRANQUILÃO

A sensação de muitas pessoas que assistiram ao programa Roda Vida na TV Cultura nesta segunda-feira (6) foi a mesma. De que o ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato nas últimas eleições, Fernando Haddad, poderia estar sentado na cadeira da Presidência da República no lugar de quem está lá, completamente perdido, despreparado, tosco. Sem contar que é genocida, homofóbico, racista, ultra-direitista. Vamos parar por aqui. Aos poucos, os telespectadores foram percebendo que Haddad tem conhecimento de causa, que sabe construir frases conexas e bem feitas. Tem informações precisas, um pensamento reto, que é uma pessoa normal, ao contrário do vencedor. Os entrevistadores, todos representando a imprensa tradicional, ainda com aquele rancor venenoso contra o Partido dos Trabalhadores que não desapareceu do canto da boca, bem que tentaram colocar o ex-prefeito na parede. Mas não conseguiram. A âncora, como não poderia deixar de ser, citou a Venezuela e falou com brilho nos olhos e veneno no canto da boca que Lula foi julgado e condenado. Haddad soube desconstruir cada pergunta maldosa. E deixou todos em silêncio quando falou que o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff começou no dia em que ela foi reeleita. Todos engoliram em seco. Nenhum dos entrevistadores teve coragem de dizer que não foi golpe. Resultado: 7 a 1. 

[foto/Reprodução TV Cultura]

NO FUTURE

Aí, de repente, o mundo ficou esquisito pra caramba. Até as casas foram separadas umas das outras, distância mínima de cinco metros medida por uma trena dos vigilantes da saúde. Acabou o beijo, o falar no ouvido, o chupão no cangote e a canção Aquele Abraço virou uma coisa tão do passado quanto nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia. Os dermatologistas passaram a ser chamados de pessoas da linha de frente, convocados para curar as mãos secas de tanto álcool gel, de tanta água com sabão. Os pés também secaram e enrugaram de tanta água sanitária, de tanto lysoform, de pisar em tapetes antissépticos. Agora são apenas cabines individuais feitas de acrílico. Nos equipamentos das academias, nas mesas dos cafés, nas poltronas dos cinemas, nas cadeiras dos estádios de futebol, nas pistas de cooper nos parques, de dança nos inferninhos, nas raias das piscinas, até nas mesas de reuniões da repartição. No Recife, não se fala mais um cheiro pra você porque ninguém mais sente cheiro de ninguém. Ninguém se toca mais em ninguém, ninguém respira mais perto de ninguém, até o ridículo cumprimento com o cotovelo caiu de moda. Inventaram a máquina de lavar compras, os sapatos com solas descartáveis, capacetes leves e maleáveis e plástico resistente para abraço apertado. A última moda são as máscaras transparentes para sabermos se as pessoas estão rindo ou chorando.  

FALHA DE S.PAULO

Nada justifica uma chamada na primeira página da Folha de S.Paulo de sábado (4) – Morre, aos 96, o ator Leonardo Villar, que atuou em ‘O Pagador de Promessas’ – quando você encontra no interior do jornal, uma matéria pífia, minúscula, de pouco mais de uma dúzia de linhas com um título que nem merece comentário. 

[foto Reprodução]

VI E GOSTEI

Domingo, meio-dia, estreou no UOL o programa #BrasilCozinhaComigo, diretamente da casa do jornalista Zeca Camargo que, depois de 24 anos, deixa a TV Globo em busca de novos voos. A cada domingo, Zeca vai preparar um prato típico do Brasil, esse país cheio de sabores, temperos e cores. Nesses tempos de pandemia, a estréia foi com o  o auxílio luxuoso da paraense Eliana, diretamente de Belém, pura simpatia e simplicidade, respeitando o distanciamento social. Os dois prepararam juntos um tacacá chique, de fácil preparo. O problema vai ser encontrar todos os ingredientes para um país tão rico em culinária. No caso do Pará, mais precisamente o tacacá, não é assim tão fácil encontrar tucupi, a goma de mandioca e o jambu fresco no sul do Brasil. Mas deu tudo certo. O programa foge um pouco das dezenas de programas de culinárias que vimos na TV aberta, à cabo, na web. Zeca fez um rápido passeio por sua cozinha, conjugada com a sala de refeições, mostrou o quebra-cabeça que está montando e, ao fundo, sua coleção de bebidas que vem trazendo de sua fantástica volta ao mundo. Peças raras vindas de todos os cantos e nações. Pode ser tanto da Tailândia quanto de Cabo Verde. É um bom programa pro domingo, depois que a gente já leu os jornais, já viu a corrida de Fórmula 1 e está começando a pensar qual vai ser o prato do dia de domingo. Mas #BrasilCozinhaComigo não quer só comida, quer comida, diversão e arte. E Zeca é craque no assunto. Vale conferir.  

[foto Reprodução/UOL] 

AQUELE ABRAÇO

Ontem à noite, depois de consultar o meu calendário particular, deitei pensando nele, no seu aniversário de setenta e dois anos neste seis de julho, dois anos mais velho que eu. Não, não há mais uma estrada de ferro que liga Minas ao mar para que eu possa embarcar no Vera Cruz, saltar no meio do caminho, ficar em Juiz de Fora para dar-lhe um abraço apertado. Adormeci com fragmentos de suas canções na cabeça, coisas do tipo eu não gosto do Alice Cooper, onde é que está o meu rock and roll? Dizem que sou louco, mais louco é quem me diz. Ora, você está pensando que eu sou Loki, bicho? Eu quero ver o sol nascer, antes do outro comercial. Meu caro amigo, me perdoe se hoje não vou lhe ver. Sei que vai ter bolo, velinhas acesas, sopro. Sei que vai ter solo de guitarra Fender, sei que vai ter corta-jaca se tiver alguém, presente. Como será que vai ficar, corta jaca na cidade não é mole não. Onde será que eu vou ficar se o vento levou tudo e o meu cavalo já empacou. Quatro, cinco, seis! Onde é que está o meu rock and roll? De novo. Hoje o dia corre o risco de passar assim, amontoando palavras do tipo eu não quero virar bolor. Em quarentena desde mil novecentos e oitenta e dois, cultivando seus lápis de cor, suas cordas, seus marrecos, você passou dos setenta. No início, era a verve. Astronauta libertado, andava meio desligado, tempo de aprender inglês, saber o que eu sei. Tempo de cantar ela é minha menina, eu sou o menino dela, tempo de cantar adeus Maria Fulô. Misturar Jorge Ben com o rei do baião. Mais tarde, os genocidas vão abrir os bares de São Paulo e eu nem morto vou lá tomar uma 1606, comemorar os seus setenta e dois anos de vida. Então eu mando um abraço pra ti, Arnaldo Dias Baptista. 

A CANÇÃO QUE VOCÊ FEZ PRA MIM

Vivo em círculo, no interior de quadrados, e quando ligo a televisão, vejo milhares de vidas por um fio, em todas as regiões do país. Observo as máscaras cafonas do Esporte Clube Bahia, do Payssandu, do Tupi, do Figueirense, do Sampaio Correia. Meu coração vai ficando cada vez menor e cada vez mais na mão com a pobreza exposta do meu país. Nos barracos da cidade ninguém mais tem ilusão, o governador promete, o sistema diz não. Uma antiga canção entoada por John Lennon acompanhado da Plastic Ono Band volta a me fazer pensar, como naqueles último dias dos anos 1960. A canção chama-se God e o ex-beatle rezava o seu rosário: Eu não acredito em mágica, eu não acredito em I-ching, eu não acredito em Biblia, eu não acredito em Jesus. Nunca foi tão fácil traduzir o inglês, sem o auxílio luxuoso do Oxford Dictionary: I don’t believe in Hitler, I don’t believe in Jesus, I don’t believe in Kennedy, I don’t believe in Buda, I don’t believe in Mantra, I don’t believe in Gita, I don’t believe in Yoga. O som ia se desfazendo aos poucos e ele continuava sua ladainha: Eu não acredito em reis, eu não acredito em Elvis. De repente, com a voz um pouco mais doce, ele disse: I don’t believe in Zimmerman! Foi ai que soube que o nome completo de Bob Dylan era Robert Allen Zimmerman. E terminou: Eu não acredito em Beatles, apenas acredito em mim, Yoko e eu. Essa é a realidade. O sonho acabou e o que posso dizer? Que eu não acredito em Doria, eu não acredito em Covas, eu não acredito em Caiado, eu não acredito em Jair, eu não acredito em Fabricio, eu não acredito em Flávio, eu não acredito em Wassef, eu não acredito em quarentena, eu não acredito em números, eu não acredito em Moro, eu não acredito em Damares, eu não acredito em Salles, I dont believe in Brazil. The dream is over!