VERDE E AMARELO

Tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança

Já tive uma verdadeira paixão pelo verde e pelo amarelo, juntos. Foi durante aqueles longos invernos que passei fora do país, numa época em que as notícias só chegavam dentro de um envelope verde e amarelo, escrito Via Aérea/Par Avion.

Descendo a escada do prédio onde morava, antes mesmo de colocar os pés no térreo, já via os envelopes verde-amarelo vazando pelo escaninho com o meu nome. Era sinal de que ali havia noticias frescas do Brasil.

Hoje, ninguém mais escreve cartas. E nenhuma papelaria vende mais envelope verde-amarelo. Mas sempre que vejo um, seja no fundo de um velho baú ou numa pasta perdida no tempo, eu me emociono.

Viajo no tempo e fico imaginando que ali dentro daquele envelope tem recortes do Jornal do Brasil, do jornal Opinião, poemas meus que saíam no Suplemento Literário do Minas Gerais, foto de um sobrinho que nasceu, outros que foram passar as férias em Camboriú.

Me lembro bem quando a música Camisa Amarela, de Ary Barroso, tocava no radinho de pilha dependurado no registro de água que ficava acima do tanque, enquanto Antônia batia a roupa.

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela
A Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia

Já torci muito pela seleção canarinho, mesmo naqueles anos em que não deveria estar torcendo. Gostava de ver em campo Amarildo, Didi caprichando na folha seca, Mané Garrincha sambando e Gilmar indo buscar a pelota na última gaveta. Torcia por Pelé dando socos no ar, Tostão correndo para abraçá-lo, Rivelino eufórico correndo em campo e Gerson pulando de alegria.

O tempo passou, o mundo mudou, a festa acabou. E agora? Agora eu tenho uma verdadeira ojeriza só de ver, mesmo que de longe, alguém com uma camisa amarela. Pra mim, é sinônimo de extrema-direita, de gente reacionária, de ‘somos todos Moro’, de ‘vai pra Cuba’, de ‘intervenção militar já’.

Não posso ver uma que me lembro do Frota, do Kim, do Roger, do Lobão, do Feliciano, da Joyce, dessa gente.

Hoje, tenho apenas uma peça amarela no meu armário, uma camisa da seleção, autografada pelo Pelé. Nunca usei, nunca lavei, vou deixar de herança para quem quiser, quando eu não estiver mais aqui.

Pra terminar essa crônica, lembrei de uma velha expressão que ninguém usa mais, mas que nos dias de hoje, cai como uma luva: a gente se f**** de verde e amarelo!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

SOCIEDADE ALTERNATIVA

Nos anos 1970, no auge da ditadura militar, quando prendiam, torturavam e sumiam com brasileiros, surgia a cada dia, em cada esquina, um novo jornalzinho. Geralmente tabloides, eles iam passando de mão em mão. Havia também revistas, tiragem pequena, papel comum, cada uma delas era o retrato-falado da resistência, da criatividade, da denúncia, da literatura. Enumero aqui: O Pasquim, Coojornal, Movimento, Opinião, De Fato, Em Tempo, Mulherio, Nós Mulheres, O Saco, O Verbo Encantado, Flor do Mal, Lampião, JA, A Pomba, Inéditos, José, Escrita, Circus, Silêncio, pra citar apenas alguns. Essa imprensa fez história, começa agora a ganhar biografias e versões digitais. Éramos nós. Meio século depois, as bancas de jornal minguaram, viraram pequenas lojas de conveniência, cujos jornais e revistas são apenas parte do cenário, pano de fundo com ares quase de museu. Mas a resistência sobrevive, online. Nocaute, 247, Viomundo, DCM, Ópera Mundi, Jornalistas Livres, O Cafezinho, Mídia Ninja e tantos outros espalhados por esse Brasil de meu Deus. Como nos jornais alternativos dos anos 1970, a publicidade pinga de vez em quando, em pequenas doses homeopáticas. Precisamos estar atentos e fortes porque resistir, navegar é preciso. Muita gente já percebeu que certas notícias, a gente só encontra por aqui. Os nanicos dos tempos modernos precisam de rum pouco de água todos os dias. Para crescer, dar frutos e flores. Pra não dizer que não falei de.

AV

PRA FRENTE, BRASIL!

Ontem à noite, ouvi apenas alguns gritinhos, duas vezes, vindos do prédio em frente, o mesmo que, outrora,  ouvia panelas batendo. Já se foi o tempo em que um jogo entre brasileiros e argentinos, era chamado de jogo do século. Olhando assim pela televisão, o gramado ainda verde do Mineirão, sinto que o Brasil perdeu a graça. Ainda tem gente que tem coragem de vestir uma camisa amarela e sair por aí. O estádio estava cheio mas, venhamos e convenhamos, o entusiasmo foi pro ralo. Já torci muito pelo Brasil, já gritei muito em cada gol de folha seca saído dos pés de Didi. Já vibrei com o jogo de corpo de Mané e do soco no ar de Pelé. Hoje, pouco importa se o Brasil ganhou, empatou ou perdeu da Argentina. Dizem que não podemos misturar futebol com política. Sim, mas eu não tenho mais coragem de vestir uma camisa do escrete canarinho. Sorry! Se o Brasil ganhou de dois a zero, se empatou, se foi para os pênaltis, o meu entusiasmo com essa Copa América é zero. Não tenho ânimo pra torcer pelo nosso país. Talvez esteja misturando as coisas, eu sei. Mas, pra que gritar Para frente, Brasil! se o meu país só anda pra trás? Desanime, talvez,  de tanto ver o Brasil perder.

AV

O FALSO SCHROEDER

Não tenho amigos virtuais, nem de carne e osso que ainda defendem esse governo de ultra-direita ou a imparcialidade de um juiz que coloca na cadeia sem provas, mas por convicção. Mas, de tempos em tempos, algumas barbaridades, fake news, pingam no meu WhatsApp, enviadas por amigos dos amigos dos amigos, por vizinhos dos vizinhos, por desconhecidos mesmo. Na noite de domingo passado, por exemplo, piscou no meu celular a imagem dessa figura ai acima, com um pequeno texto de espanto. Segundo quem enviou, este senhor calvo, bem barbeado e de suspensórios, era ninguém menos que Carlos Henrique Schroder, o diretor-geral da Rede Globo. Num breve discurso, o falso Schroeder faz uma apologia da ditadura militar que mandou e desmandou no Brasil por mais de vinte anos. E o remetente, quase tendo orgasmos, ao ver o diretor-geral da Rede Globo denunciando em público um complô contra o governo daquele que, um dia, foi chamado de Mito. Como conheço Schroeder desde 1997, quando pus os pés na Rede Globo pela primeira vez, dei gargalhadas, que foram, aos poucos, se encolhendo de nervoso e vergonha. Vinte e quatro horas depois da mensagem ter piscado no meu celular, fico aqui pensando com os meus botões, quantas milhares de pessoas não receberam a mesma mensagem e continuam acreditando, achando que o depoimento é mesmo do Schroeder. E espalham por ai, sem dó nem piedade, aumentando os comentários, acrescentando coisa e jurando de pés juntos que a mensagem é verdadeira. Onde vamos chegar com isso.

AV